Autor

Ana Brambilla

Browsing
Jornalista, Doutora em Comunicação Social. Editora Orbis Media Review. Professora e Pesquisadora do Master Negócios de Mídia.

O aumento nos índices de audiência registrados em veículos jornalísticos tem sido uma das raras boas notícias que recebemos nas últimas semanas. No Brasil e no exterior, o número de espectadores em canais de notícia e de usuários em sites jornalísticos ainda sobe generosamente. Segunda a ANJ, o tráfego em versões digitais de revistas e jornais cresceu 40% já no final de março. De fato, 45% dos participantes da pesquisa Consumo de Informações sobre o Coronavírus no Brasil, publicada pelo Orbis Media Review, admitiram estar prestando mais atenção no conteúdo jornalístico e uma inquestionável maioria de 78% da amostra se informa através de sites de notícia.

Pesquisa Consumo de Informações sobre o Coronavírus no Brasil –
Orbis Media Review, abril/2020

Na Europa, produtos de jornalismo digital também receberam mais atenção do público de janeiro ao final de março. Uma pesquisa da Comscore mostrou que sites de notícia pularam do terceiro para o segundo lugar no ranking de visitas na França e na Alemanha. Na Itália, no Reino Unido e na Espanha estas páginas mantiveram o segundo lugar na preferência dos usuários, mas registraram um aumento de tráfego entre 54% e 68%

Tudo o que sobe…

O fenômeno tem data de validade e, nos Estados Unidos, os números de audiência já estão voltando ao normal. Mas o mês de março representou um aumento médio de 57% nas taxas de visita e 46% no tempo de permanência em sites de notícia. Marcas fortes da indústria da mídia, como Los Angeles Times, Wall Street Journal, Wired e o próprio NYT praticamente duplicaram seus resultados em tempos de Coronavírus. O aumento de interesse da população por notícias foi fortemente amparado pela derrubada dos paywalls destes e de tantos outros veículos digitais, inclusive no Brasil.

A informação “quer” ser grátis?

A possibilidade de consumir gratuitamente conteúdos que, até então, eram restritos a assinantes torna o crescimento algo esperado. O problema é que ainda não se sabe se o aumento na audiência virá acompanhado por um crescimento de vendas de assinatura. 

Dos 67% dos nossos entrevistados que não assinam nenhum serviço jornalístico, 75% disseram que o Coronavírus não foi capaz de convencê-los a pagar por notícias e 20% confessaram estar menos dispostos a assinar um veículo do que antes da pandemia.

As empresas de mídia que abriram seus conteúdos a não assinantes o fizeram por entender que a informação, em períodos de crise, assume um caráter de bem público. De fato, somando os fenômenos da pandemia e das fake news, entregar notícia checada à população pode marcar a diferença entre ser infectado ou não. E justamente por esta razão é que a informação correta produzida pelo jornalismo tradicional nunca foi tão cara.

Em 1984, quando o jornalista de tecnologia Steven Levy sentenciou a frase “A informação quer ser grátis” – porque ela só pode ser multiplicada e nunca subtraída – Steward Brand rebateu com a seguinte pensata:

“Por um lado, a informação quer ser cara, por ser tão valiosa. A informação certa, no lugar certo muda a sua vida. Por outro lado, a informação quer ser grátis, porque o custo de acessá-la está sempre caindo. Então você tem essas duas forças lutando uma contra a outra.”


Steward Brand, 1984

Note que Brand fala em “custo de acesso” e parece ignorar o “custo de produção”. De qualquer forma, em meio a uma crise sanitária global, a informação certa, na hora certa pode valer a vida, assim como máscaras, luvas, álcool e respiradores também marcam uma diferença vital.

Grandes corporações lançaram-se à iniciativa de mitigar a disseminação do vírus: a Vale e a Petrobras doaram testes, a Ambev se pôs a produzir álcool gel, Dior, Gucci, Prada e Channel confeccionaram máscaras higiênicas. E as empresas de mídia, como poderiam ajudar? Com informação, é claro! Ocorre que nenhuma das empresas citadas têm no produto doado o seu core business. Só a indústria jornalística doou seu principal produto, renunciando à fonte de geração de receita.

Efeito rebote

O que foi socialmente aplaudido já mostra sinais de desgaste. Vinte dias após contar o aumento na audiência dos veículos digitais, o mesmo New York Times noticiava que, aproximadamente, 28 mil trabalhadores da indústria da mídia norte-americana haviam sido afetados pelo rombo econômico causado pelo Coronavírus. Entre demissões, reduções de jornada e de salários, as empresas jornalísticas tentavam recuperar uma perda brutal na receita publicitária.

Mas qual anunciante não gostaria de aparecer em players com audiência em alta? O aumento pelo interesse em notícias, entre a população, não deveria refletir em mais investimentos publicitários nos veículos? 

O analista de mídia dinamarquês Thomas Baekdal diz que este é um problema de foco. Em tempos de crise, os anunciantes não estão dispostos a vincular suas marcas a notícias de caráter negativo. “Este é um jeito muito ineficaz de anunciar”, pondera. Soma-se a isso o fato de que as próprias empresas anunciantes enfrentam a mesma crise, reduzindo amplamente seus budgets publicitários.

Assim como existem os news avoiders – que em nossa pesquisa responderam por 11% da amostra -, algumas marcas evitam deliberadamente aparecer próximas a notícias ruins. “Acontece a mesma coisa com notícias sobre terrorismo ou política. Temos visto bons jornais terem aumento de tráfego justamente por conta de conteúdos sobre estes assuntos, mas não são bons tópicos para aparecerem ao lado de uma peça publicitária”, justifica o analista dinamarquês.

É por esta razão, continua Baekdal, que as assinaturas são tão importantes agora.

A conta não fecha

Diante da encruzilhada entre a responsabilidade social e a sobrevivência financeira, alguns veículos já voltaram atrás na decisão de fornecer acesso grátis ao seu conteúdo. O Miami Herald lista uma série de ações ancoradas por seu time editorial na cobertura do Coronavírus. “Nós oferecemos tudo isso de graça. Agora, simplesmente não podemos mais fazer isso”, lamenta o comunicado, anunciando o retorno do paywall.

A Vox, que diz ter coberto a evolução do vírus desde janeiro, se orgulha por ter seus vídeos traduzidos a 75 idiomas e ter tido uma reportagem compartilhada por Barack Obama nas redes sociais. “Mesmo com um crescimento recorde de audiência, a indústria da mídia não está imune aos efeitos da desaceleração na economia”, reconhecem os editores num apelo a quem tem “dinheiro sobrando”. O pedido de ajuda financeira começa com 7 dólares por mês.

Aqui no Brasil, uma das notícias mais fortes até agora foi a possível descontinuação das atividades do Buzzfeed no país. Assim como na Alemanha, o Buzzfeed brasileiro depende de um parceiro de investimento a ser encontrado até o final de abril. Caso contrário, as operações locais deverão ser encerradas.

Estamos ensinando às pessoas que, sempre que algo importante acontece, as notícias serão grátis.

Thomas Baekdal

Não foi possível, ainda, conectar a derrubada dos paywalls à queda financeira dos veículos. A razão maior tem sido o enxugamento da receita publicitária. Apesar disso, é necessário reconhecer que a sustentabilidade da indústria corre riscos e esta pode não ser a melhor hora para abrir mão de qualquer fonte de receita.

Por outro lado, há casos como o da revista The Atlantic, que anunciou a chegada de 36 mil novos assinantes somente durante o mês de março. Sem ainda termos clareza sobre qual será a tendência na venda de assinaturas para o período pós-quarentena, ouvimos Baekdal chamar a atenção para o impacto cultural que a derrubada dos paywalls pode causar na população.

Da generosidade à obrigação

O analista de mídia dinamarquês Tomas Baekdal apresenta uma série de justificativas e cenários que apontam ao fato de que a derrubada dos paywalls, mesmo durante a crise do Coronavírus, não foi uma boa estratégia para os veículos.

Assim como a NHK abriu seu sinal para o mundo todo nas semanas que sucederam ao acidente nuclear de Fukushima, a Covid-19 tornou o conteúdo grátis. Para o senso comum, explica Baekdal, isso significa que durante crises não se deve pagar por notícias. O que começou como um gesto de solidariedade dos publishers pode se tornar obrigação perante a sociedade. 

“Estamos ensinando às pessoas que, sempre que algo importante acontece, as notícias serão grátis”, argumenta Baekdal. Este seria o novo “normal” algo que as pessoas já poderiam esperar e até mesmo demandar das empresas de mídia.

Fica simples entender o ponto de vista do analista dinamarquês quando se aborda a gratuidade das notícias a partir das operações corporativas, que envolvem o pagamento de salários de jornalistas. Para ele, pagar por notícias é o mesmo que pagar por compras no supermercado, por uma passagem de ônibus ou uma entrada no cinema. Só que não demandamos gratuidade de outras indústrias

“Jornais custam dinheiro para serem feitos, temos despesas para pagar, edifícios para manter e jornalistas que precisam de um salário. Se dermos nossas notícias de graça, aí sim é que não faremos qualquer receita. Portanto, independentemente de como olharmos para esta situação, como publishers, precisamos pedir que as pessoas paguem pelo nosso trabalho, e isso é ainda mais importante agora, quando a publicidade sofre uma diminuição massiva”, calcula Baekdal.

Obviamente, poucas pessoas poderão pagar por notícias agora, mas nós não pagamos nossas despesas com notícias grátis”, ironiza. É a velha cena absurda de chegarmos no caixa do supermercado e oferecermos qualquer coisa ao operador em troca de nossas compras, menos dinheiro ou cartão.

Não é possível ignorar as diferenças entre a notícia como produto e qualquer outro serviço ou mercadoria. Da redação pra fora, o jornalismo exerce uma função social de valor financeiramente inestimável e a missão de servir à população é um chamado ao acesso livre e gratuito da informação. Da redação para dentro, além dos valores editoriais, há uma operação comercial legítima: folhas de pagamento, boletos vencidos, plano de saúde, vale alimentação, pais e mães de família dedicando tempo e conhecimento em um trabalho tão digno como o do técnico da fibra ótica, do entregador de delivery, do médico, do enfermeiro, do chef de cozinha, do lixeiro, do balconista da farmácia e de todos estes prestadores de serviços essenciais que não podem abandonar a sociedade, ainda que trabalhem em situação de risco.     

Cultura do gratuito

É claro que existe um problema cultural enraizado no meio digital. A indústria do entretenimento – fonográfica e audiovisual – sofre do mesmo mal. Chris Anderson já relacionou a perda da dimensão física do jornal, da revista à expectativa de que o conteúdo destas publicações seja gratuito. Por muitos anos – e ainda hoje – veículos da mídia legada presentearam anunciantes com toneladas de impressões de banners em seus sites, desvalorizando profundamente o produto online. 

Do lado das audiências, o hábito de que tudo é grátis no meio digital não ajuda a construir uma cultura de assinaturas. Este hábito foi instituído também pela tradição de que a publicidade sempre pagou as contas e, mais recentemente, quando investidores do Vale do Silício viabilizaram a criação de impérios tecnológicos com escala planetária, onde o retorno vem naturalmente. 

Nós, do lado da indústria jornalística, também acreditamos que a publicidade continuaria abundante, tanto quanto nossas audiências. Só não contávamos que essa abundância publicitária se dirigiria a outras paragens…

Recém nos últimos dois anos é que a adoção de paywall vem tentando retomar a naturalidade de se pagar por conteúdo jornalístico entre a população. O retorno ainda está longe de sustentar a operação de veículos e o esforço é contínuo. Ou melhor, deve ser contínuo, para que não se veja ir por água abaixo todo um trabalho de conscientização comercial ao redor da notícia como um produto e de jornalistas, como profissionais.

O isolamento social no plano físico provocou uma super conexão informacional. Emissoras de TV e sites de notícia registraram aumento expressivo de audiência nas últimas semanas. De fato, a preferência por estes canais para receber informações sobre o Coronavírus corresponde a mais de 3/4 dos participantes da pesquisa Consumo de Informações sobre o Coronavírus no Brasil, realizada pelo Orbis Media Review entre os dias 25/03 e 02/04.

O dado não significa, porém, que a mídia informal de conteúdo amador esteja fora do radar da população. Mensagens de amigos, grupos e familiares, além de posts em redes sociais também têm servido de fonte de novidades sobre a pandemia para mais da metade dos usuários. A quantidade de atenção dada às redes sociais, no entanto, não significa que todo este conteúdo esteja sendo absorvido de forma automática.

Questionados sobre a forma como percebem mensagens de áudio e vídeo que vêm sendo amplamente compartilhadas por WhatsApp, 53% dos participantes admitiu que a maioria deste conteúdo não é confiável. O problema é quando essa desconfiança contamina os veículos de jornalismo profissional. Um grupo correspondente a 58,6% da amostra afirmou ter visto uma notícia falsa sendo dada como verdadeira em sites de notícia, TV, rádio ou mídia impressa.

Apesar disso, a qualidade da cobertura que a mídia vem fazendo sobre a pandemia foi bem avaliada. Nada menos que 80% da amostra classificou o trabalho dos veículos como adequado, ótimo ou excelente. Várias pautas foram apontadas como alvo de interesse dos usuários, que disseram querer saber mais a respeito. O grupo que admite estar consumindo menos notícias do que o usual é de 11% e tomam essa decisão porque o noticiário estaria causando mal-estar.

Para aqueles que passaram a dar mais atenção às notícias (45%) ou que seguem acompanhando o noticiário como sempre (38%), a abertura do sinal de algumas emissoras a cabo e a derrubada do paywall de sites jornalísticos são bem-vindas. Num universo em que 67% do público não é assinante de qualquer produto jornalístico e também não se mostra disposto a pagar por notícia, as empresas de mídia exercem o jornalismo como serviço à sociedade.

Os desafios de médio e longo prazo da indústria jornalística, pós-quarentena, apontam para o um esforço extra nas iniciativas para captar assinantes e, antes disso, para a retomada da confiança da população, que oscila entre o consumo de uma boa cobertura e a desconfiança de que veículos não estão imunes às fake news.


Quantas notícias você consome por dia? E quantas delas você lê até o fim? Tente lembrar: todo este conteúdo foi publicado no mesmo site jornalístico ou estava distribuído por várias páginas?

Embora fidelidade a um veículo não seja o forte de quem consome conteúdo online, é possível que alguns sites atendam melhor às suas demandas por informação e, por isso, você costuma voltar neles uma, duas vezes ao dia. Talvez mais. Agora responda: você consome tudo o que este site publica? Todas as matérias, reportagens, colunas, podcasts, vídeos, de política à culinária, de esporte à economia, de horóscopo ao índices da Bovespa?

A distribuição e a circulação dos conteúdos jornalísticos nas redes sofreu uma alteração brusca em função dos algoritmos. É cada vez mais raro encontrar quem entre em um site pela home e não por uma página interna, diretamente pelo link a um conteúdo específico. A consequência mais imediata para o usuário é que o consumo de notícias — e de qualquer outro conteúdo jornalístico — se fragmenta em inúmeras fontes. O que chega a ser banal na atualidade é brutalmente diferente da forma como consumíamos conteúdo na mídia analógica, de massa.

Enquanto crescem os debates sobre o futuro do jornalismo, três correntes da atividade se fortalecem no cenário internacional. São elas: Constructive JournalismListening JournalismDialogue Journalism. Todas têm em comum a centralidade do público no processo editorial e não apenas no fim da cadeia, como receptor, aos moldes do que a maioria dos veículos ainda trabalha.

O protagonismo do usuário na produção de notícias e reportagens não é algo novo, nem mesmo no ambiente digital. Em fevereiro de 2000, o noticiário sul-coreano OhmyNews estremecia setores tradicionais da mídia internacional ao afirmar que every citizen is a reporter. O slogan convidava cidadãos do mundo todo a uma versão do site em inglês — além da original, em alfabeto hangul –, onde se publicava conteúdo enviado por não-jornalistas, mas discutido, selecionado e editado por profissionais baseados numa redação em Seul. A onda se espalhou e diversos veículos — muitos deles, brasileiros como Estadão, G1, O Globo, Terra e iG — criaram suas editorias colaborativas. O fenômeno ficou conhecido como jornalismo cidadão, jornalismo colaborativo ou jornalismo open source.

Constructive Journalism (ou Jornalismo de Soluções)

Quinze anos depois de cada cidadão poder tornar-se um repórter, se usaria pela primeira vez o termo Constructive Journalism, que nada tem a ver com a Teoria Construtivista do jornalismo. Internacionalmente projetada pelos estudos de newsmaking de Gaye Tuchman, o jornalismo construtivista entende que a notícia é sempre uma construção e não um espelho da realidade. Já o Constructive Journalism ficou conhecido como o “jornalismo de soluções”, ou seja, aquele que repudia a negatividade e o sensacionalismo como valores centrais para decidir o que é notícia e prioriza um olhar positivo.

O dinamarquês Ulrik Haagerup, fundador do Constructive Institute e um dos criadores do modelo, explicou no congresso mundial da WAN-IFRA de 2018, em Portugal, que o Constructive Journalism não busca pintar o mundo de cor-de-rosa. Ao contrário, o conteúdo enfoca os graves problemas mundiais como a contaminação dos oceanos pelo plástico, o trabalho escravo, o combustível fóssil, o desflorestamento, as epidemias, a miséria. Mas o trabalho editorial não para na investigação das mazelas. O diferencial do Constructive Journalism é perguntar: E agora? Que soluções estão funcionando noutros lugares e podem ser replicadas aqui? O que podemos fazer para mudar essa triste realidade?

O último relatório do Reuters Institute sobre jornalismo digital, publicado em junho de 2019, chama a atenção para os crescentes índices de fadiga noticiosa. Já são 32% dos participantes que admitem evitar o consumo de notícias. A principal razão é o impacto negativo que elas exercem no estado de ânimo do indivíduo. Se notícia ruim sempre existiu, o que mudou foi o olhar da população diante do noticiário e da vida em sociedade.

A reconstituição das tribos por meio das redes sociais provocou o ressurgimento de uma solidariedade sem fronteiras. O imperativo do hedonismo e a “obrigação em ser feliz” tornaram insuportável o sentimento de impotência que um leitor tem ao saber de uma desgraça pelo jornal. É justamente esse gap que o Jornalismo Construtivo vem preencher, munindo o usuário de caminhos para melhorar o mundo. Como exemplos podemos citar o Upside, do Guardian, o People Fixing the World, da BBC, o Fixes, do New York Times e o Impact, do HuffPost.

Listening Journalism

A segunda corrente de jornalismo que promete evoluir está inserida em uma “cultura da escuta”. Mas não será óbvio dizer que qualquer jornalismo é feito a partir do que o profissional escute de suas fontes, de autoridades e da própria comunidade? O compromisso do Listening Journalism é ouvir ativamente as necessidades de informação que o público tem, assim como o feedback sobre trabalhos já publicados. A escuta, portanto, não acontece apenas durante a produção das reportagens, mas principalmente antes da definição da pauta e depois da publicação.

Entre as técnicas já experimentadas, a bola de neve ajuda a expandir o conhecimento do jornalista sobre e entre uma comunidade. Dennis Anderson, editor executivo do Journal Star, de Illinois, começou conversando com uma pessoa sobre o que ela gostaria de ver no jornal. Ao fim do diálogo, ele pediu que a “entrevistada” indicasse cinco pessoas com quem ele pudesse continuar a conversa. Essas cinco pessoas indicariam, cada uma, outras cinco para serem ouvidas. Assim, a rede cresce exponencialmente, aproximando o jornalista e o veículo de áreas da sociedade que não tinham o menor contato ou interesse pela imprensa até então.


A bola de neve é uma ferramenta metodológica utilizada na pesquisa científica. No diagrama acima, desenhei a aplicação da técnica na minha tese de doutorado, quando usei o snowball para compor minha amostragem, a partir de redes sociais.

Humildade e empatia estão no topo da lista de atributos que o praticante do Listening Journalism precisa ter. Deixar que os indivíduos contem suas histórias é o modo mais simples e verdadeiro de recriar essa ponte entre o jornalismo e a sociedade. O maior desafio, no entanto, está em ouvir os críticos da imprensa, os ex-assinantes e descrentes no veículo para onde o profissional trabalha. Mas é justamente aí que o Listening Journalism pode fazer a diferença.

Além de contribuir para o aumento da geração de receita às empresas de comunicação, o Listening Journalism ajuda a reconstruir a confiança do público no veículo e detecta o real impacto que as publicações têm no dia a dia da população. A análise é de Cole Goins, do American Press Institute, responsável por ancorar uma série de estudos no jornalismo de escuta.

Seja nutrindo um grupo fechado de Facebook, seja promovendo eventos presenciais para a escuta focalizada, o Listening Journalism deve estar presente na rotina das comunidades. Assim funciona em Ohio, no YourVoice, em Nova Jersey, na Carolina do Norte e em Filadélfia por meio do News Voices.

Dialogue Journalism

Além de olhar pro mundo buscando soluções (Construtive Journalism) e de exercitar a escuta como parte da atividade da redação (Listening Journalism), o jornalismo assume uma nova função social: facilitar o diálogo entre a população.

No contexto de uma forte polarização de ideias no cenário político mundial, Eve Pearlman e Jeremy Hay lançaram em 2017, na Califórnia, um serviço de conversas sustentadas por conteúdo jornalístico e mediadas por jornalistas. O Spaceship Media já reuniu grupos de posições frontalmente antagônicas sobre aborto, posse de armas, disputa por terras, imigração e, claro, sobre o governo Trump.

O roteiro de ação do Dialogue Journalism começa em grupos online, fechados, que em alguns casos se expandem para encontros presenciais. A dinâmica consiste na aplicação de 4 perguntas que todos os integrantes devem responder:

  • O que você pensa sobre o grupo oponente?
  • O que você acha que que eles pensam sobre você?
  • O que você gostaria que eles soubessem a seu respeito?
  • O que você gostaria de saber sobre eles?

As respostas dos participantes são mediadas por jornalistas que seguem o debate agregando informações apuradas previamente sobre o tema em questão. As sessões são acompanhadas por profissionais de veículos parceiros, que transformam o conteúdo dos diálogos em material jornalístico e sugestões de pauta.

Dialogue Journalism segue sete princípios:

  1. Construção: mapeamento de temáticas e comunidades em conflito.
  2. Integração: descoberta do que um grupo pensa a respeito do grupo oponente.
  3. Acolhida: organização de eventos ou momentos de conversa entre os dois grupos.
  4. Experiência: criação de oportunidades para jornalistas e patrocinadores encontrarem um público altamente engajado e participativo.
  5. Continuidade: as conversas seguem após os eventos e, nelas, os praticantes do Dialogue Journalism ajudam a manter o respeito entre os debatedores e a fazer com que a interação seja produtiva.
  6. Alimentação: os jornalistas proveem pesquisa e informações apuradas que sustentam as discussões.
  7. Compartilhamento: o Dialogue Journalism funciona em parceria com outros veículos de mídia, que usam o conteúdo das conversas para entender a relevância de certas pautas entre a população.

Como técnica central ou dispositivo auxiliar no processo tradicional de fazer jornalismo, as três modalidades reafirmam o público como a razão principal da existência de qualquer veículo de comunicação. Mais do que reaproximar jornalistas e leitores, ouvintes, usuários, telespectadores, o desafio parece estar na busca por um novo e relevante papel do jornalismo no dia a dia dos indivíduos.

Negatividade é valor-notícia desde antes do surgimento dos tabloides sensacionalistas. As “folhas volantes” que circulavam na Europa do século XVII publicavam relatos em primeira pessoa escritos por assassinos condenados à morte. Eram as chamadas “canções da forca”. Mas agora tem (bastante) gente que, deliberadamente, evita consumir notícias porque elas são ruins. Será essa a raiz da crise no Jornalismo?

Além disso, credibilidade é uma coisa séria e, sim, a indústria também sofre com a desconfiança sobre o conteúdo dos veículos. O último relatório do Reuters Institute mostrou que a confiança nas notícias caiu 2 pontos percentuais no último ano, de 44% para 42%. Não convencemos nem mesmo a metade da população que ainda nos lê/assiste/ouve. Mas fake news não é o nosso maior calcanhar de Aquiles.

Tendo a acreditar que, quando as pessoas dizem que se afastam das notícias porque estão cansadas de “coisas ruins”, na verdade há duas razões subjacentes:

  • a sensação de impotência;
  • a falta de um impacto efetivo que aquela notícia terá no seu dia a dia.

Era da Hipersensibilidade

Notícia nunca teve o objetivo de fazer alguém feliz. E mesmo assim líamos o noticiário para “estarmos informados” sobre o mundo ao nosso redor. Acontece que esse mundo deu voltas e chegou à era do hedonismo, da razão sensível. Hipersensível. Não se trata de estarmos vivendo num mundo cor-de-rosa; longe disso! O hedonismo se manifesta nas intenções do dia a dia, na busca permanente pela felicidade, na liberdade imperativa, no lazer barato e encantador que a tecnologia promove.

É fácil passar horas jogando online. Caçar Pokemón cria uma camada lúdica e colorida sobre a cidade real, suja e insegura que habitamos. Quer coisa mais envolvente que cantar com amigos? É com isso que o TikTok agarra adolescentes mundo afora. E rir com os vídeos do YouTube? Fazer maratona no Netflix não falha pra gente participar da conversa no grupinho. Senão, põe aquela playlist no Spotify que parece ter sido feitinha pra ti. A tecnologia lava de dopamina nossas almas cinzas, da cor do jornal.

Solidariedade e afeto

Se vivemos, de fato, um reencantamento do mundo, onde as tribos urbanas instituem um código de estar-junto sustentado pela sensibilidade, é natural que a solidariedade ressurja como um elemento dessa “nebulosa afetiva”, de que fala Michel Maffesoli. Quero o outro porque ele me protege, me faz forte, me permite existir. Quero o outro porque ele “me”… Hum. Não. Melhor deixar essa polêmica para depois.

Viver na coletividade não só me sensibiliza, como também me mobiliza. Amo a quem nunca vi nem ouvi, mas pensa do mesmo jeito que eu. E esse afeto me impele a agir em nome do laço que nos une. A solidariedade emerge da necessidade de pertencer a uma comunidade sensível, já que as estruturas racionais e utilitaristas da sociedade ruíram.

A insustentável impotência do ser

Assim fica difícil ver o sofrimento dos meus pares na televisão, sem fazer nada a respeito. Ou ainda, é insuportável sentir a dor e a injustiça provocada por aqueles que são notícia e reconhecer minha inaptidão para mudar a realidade.

Não são as “notícias ruins” que afastam o público do Jornalismo. As notícias não mudam, infelizmente, desde o século XVII. O que mudou foi a reação do público diante delas. A sensação de impotência foi agravada pela necessidade do afeto urgente. Só resta nutrir minha hipersensibilidade com aquilo que me faz feliz. E focar no mundo “do bem”.

***

Sugestão de leitura e disparador deste texto: Why do some people avoid news? Because they don’t trust us — or because they don’t think we add value to their lives?