Autor

João Arantes Payne

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Jornalista, Mestre em Ciência Política. Editor do Orbis Media Review e Professor do Master: Núcleo de Negócios de Mídia.

Resultado do primeiro turno das eleições

O mês de abril começou agitado na Europa. Além da guerra na Ucrânia, que continua no centro das atenções, houve duas eleições cujas consequências serão continentais. Na Hungria, Viktor Orbán foi reeleito com maioria considerável dos votos sobre a oposição, o que garantirá um próximo mandato tranquilo para o atual Primeiro-Ministro. Se por lá o status quo permaneceu (ainda que seja um status quo que incomoda profundamente a elite política europeia), a França, por outro lado, terá de aguardar mais duas semanas para definir seu próximo presidente em uma eleição cujo resultado trará incertezas no âmbito doméstico e internacional.

Os primeiros indícios do que poderá ser o futuro do país foram apresentados no dia 10 deste mês, quando os franceses foram às urnas para votar no primeiro turno das eleições presidenciais. Com a apuração dos votos terminada, sabemos que o segundo turno será disputado entre os mesmos candidatos que protagonizaram o pleito de 2017: Emmanuel Macron e Marine Le Pen. O atual presidente obteve 27.8% dos votos enquanto Le Pen conseguiu o apoio de 23.2% do eleitorado. O resultado parece um déjà vu, mas apenas na superfície. Por dentro, a situação é completamente diferente. Assim, independentemente do candidato que seja eleito, o futuro político da França dificilmente será similar aos últimos 5 anos.

 

A ambição continental de Macron

No livro “Notes on Nationalism”, George Orwell faz uma importante distinção entre dois conceitos cuja diferença é sutil, mas de grande relevância: patriotismo e nacionalismo. O primeiro conceito, segundo ele, significa devoção a um lugar e um modo de vida específico que certas pessoas acreditam ser os melhores do mundo. Patriotas, no entanto, não desejam impor sua cultura aos outros. Já o propósito do nacionalista é assegurar mais poder e mais prestígio para a nação ou para “a unidade em que ele deseja depositar sua própria individualidade”. Estas unidades não são necessariamente territoriais – e menos ainda envolvem o território de onde tais pessoas proveem. Ao contrário, elas podem ser uma ideologia ou um movimento político mais amplo que, por mais contraditório que possa parecer, não tem vínculos necessários com a nação. A exemplo, comunistas tiveram, ao longo da história, uma lealdade maior com o movimento proletário internacional do que com o desenvolvimento específico de sua nação. Seus adeptos, por sua vez, sentiram-se mais fortemente vinculados à União Soviética no século passado do que aos seus países de origem.

Macron não é um comunista e nem mesmo um nacionalista segundo costumamos entender o termo de forma intuitiva. Sua lealdade, afinal, não parece ser inteiramente destinada à França como unidade territorial. Mas se aceitamos o conceito dado ao termo por Orwell, então podemos enxergar Macron como um outro tipo de nacionalista: aquele cuja lealdade é destinada a uma ideologia e a uma outra unidade política. Assim, o atual presidente pode ser enquadrado como um liberal pouco conectado a valores tradicionais de família, pátria e religião que qualificam a direita conservadora. Igualmente, sua ambição maior, conforme argumentam os jornalistas Gavin Mortimer e Jonathan Miller, parece ser a liderança da Europa como um todo.

Desde que abandonou o cargo em 2021, Angela Merkel abriu um vácuo de poder no continente. Embora Olaf Scholz com seu governo de coalização indeciso, uma vez que une demasiados partidos, tenha reagido à investida russa contra a Ucrânia com uma firmeza maior do que a esperada, Macron é a liderança de maior expressão do continente no atual momento. Mais, esta é uma liderança que ele não parece hesitante em tentar exercer.

Seu projeto para o continente varia. O ex-presidente americano Donald Trump foi muito criticado por suas posições contundentes contrárias à OTAN. Macron, por sua vez, também fez suas críticas à organização, dizendo em 2019 que ela estava sofrendo de “morte cerebral”. Sendo a França a maior potência militar do continente – se excluirmos o Reino Unido da equação –, seu propósito com tal afirmação não era, no entanto, concentrar mais poder militar em seu próprio país. Ao contrário, o objetivo de Macron é a criação de um exército coordenado pela União Europeia. Este projeto garantiria maior relevância internacional e autonomia estratégica à organização, uma vez que tornaria o bloco menos dependente da OTAN. Esta autonomia decorre do fato de que os EUA, cujos objetivos nem sempre estão alinhados com os propósitos europeus, são a maior potência da OTAN e, portanto, influenciam fortemente em suas decisões.

Com o acesso da França à presidência do Conselho Europeu no início do ano, o governo de Macron publicou um plano de 76 páginas com objetivos ambiciosos para o futuro da União Europeia. Já em 2019, o atual presidente havia delineado algumas metas para atingir aquilo que chamou de “renascença europeia”. Sua visão para o continente envolve verdadeiras reformas na estrutura da organização. Em relação ao espaço Schengen, por exemplo, que atualmente determina a livre circulação entre cidadãos dos estados-membros da UE, a França pretende, entre outras coisas, reforçar a cooperação e suporte aos países confrontados com desafios específicos em suas fronteiras. Isso inclui o emprego de guardas de fronteiras e fiscalização aérea. No âmbito social, seu governo busca negociar a criação de um salário-mínimo para a União Europeia apropriado às condições de cada país. Além disso, há propostas para ações coletivas no combate às mudanças climáticas, soluções para a crise gerada pela Covid-19 e mais.

Todas estas propostas, aplicáveis ou não, indicam um candidato à reeleição que busca reforçar ainda mais o papel da União Europeia na política do continente. Diferentemente do que ocorre em países como Espanha, Suécia e Holanda, a população francesa se mantém pouco entusiasmada em relação às políticas multilaterais da organização. É assim que surge Marine Le Pen novamente como alternativa política. Considerando o recente resultado eleitoral, ela tem chances reais de ameaçar o segundo mandato de Macron e suas ambições continentais.

 

Le Pen e uma União Europeia enxuta    

A utilização de termos como xenofobia, racismo e populismo tem frequentemente explicado de forma simplista situações de grande complexidade. Assim tem sido com a candidata Marine Le Pen, cujo pai Jean-Marie era um provocador que defendia ideias esdrúxulas sobre o nazismo, imigração e até mesmo o crescimento populacional da África. Suas posições políticas acabaram se tornando um fardo para a própria família, além de deixar uma mancha extremamente negativa sobre o nome Le Pen. Ao longo dos anos, sua filha Marine tentou desintoxicar seu partido e seu próprio sobrenome da herança deixada pelo pai, o que envolveu, inclusive, a expulsão de Jean-Marie do Front National, partido que criara na década de 1970.

Entre boa parte da população francesa, a desintoxicação levada a cabo por Marine funcionou. De 2012 até a eleição atual, sua candidatura tem se tornado cada vez mais consistente e competitiva. Já a mídia francesa e internacional, por sua vez, continuam tratando Le Pen como candidata da extrema-direita. Ao menos em termos econômicos, essa caracterização é estranha. Uma recente análise estatística avaliou o manifesto de campanha da candidata à presidência como sendo majoritariamente de esquerda. A ênfase em questões sociais como assistência médica, redistribuição de renda e proteção ao funcionalismo público responde por 66% de sua plataforma política. Essa é uma mudança que vem se consolidando desde que Le Pen assumiu o controle do partido em 2011 (quando mais de 60% das políticas econômicas eram liberais) e explica, em parte, o sucesso de sua campanha em 2022. A guerra na Ucrânia, afinal, elevou as preocupações dos franceses em relação à economia do país.

Le Pen também amenizou seu discurso para se tornar mais “presidenciável”. Isso envolveu inclusive as pautas migratórias que sempre lhe geraram a alcunha de xenófoba. Por isso, Marine tem sido contundente em dizer que não tem problema com o Islã especificamente, mas apenas com os radicais que não se integram ao país e que tem perturbado seriamente a ordem social francesa com ataques terroristas. Essa agenda continua torcendo o nariz dos bien-pensantes, mas nem por isso deixa de ser uma pauta legítima – sobretudo em um país onde o conflito cultural tem gerado barbaridades como o assassinato do professor Samuel Paty, decapitado por um refugiado da Chechênia em 2020 após ter apresentado uma caricatura do profeta Maomé em uma aula sobre liberdade de expressão.

Além disso, a União Europeia sempre foi outro assunto de importância para Le Pen. Ainda em 2017, quando perdeu as eleições para Macron, ela defendia que a França saísse da organização. Já em 2022, seu discurso mais ameno passou a defender apenas que o bloco volte às suas origens como uma entidade limitada ao comércio e cooperação econômica. Mesmo adotando uma agenda mais suave sobre o tema, ela ainda se distingue consideravelmente da política de Macron focada no aprofundamento da intervenção europeia na política dos países-membros.

Le Pen é uma nacionalista no sentido mais comum do termo – ou ainda uma patriota seguindo a concepção de Orwell, dado que não há indicações de que ela pretenda ou deseje impor a cultura francesa aos outros. Ainda assim, ela tem enfrentado acusações de ser fascista todas as vezes que se lançou candidata à presidência. Além da acusação ser absurda e insensata, há ainda o perigoso erro de banalizar o fascismo. Caso a ideologia fundada por Mussolini e levada às últimas consequências por Hitler pudesse ser resumida ao nacionalismo, o fascismo seria permanente na história da humanidade e não um movimento político excepcional que deixou sua mancha no século passado. Le Pen não tem ambições territoriais, não busca a tomada ou consolidação do poder pela força, e nem a formação de um braço paramilitar que garanta seu monopólio de poder.

Não há dúvidas, no entanto, que ela seja uma defensora do conceito de nação com uma cultura a ser preservada e defendida. Le Pen também foi acusada de ser simpatizante de Vladimir Putin – acusação ainda mais pertinente no atual momento político da Europa. De fato, sua campanha em 2017 foi irrigada com investimentos de bancos russos. Neste ano, por sua vez, o dinheiro tem originado da Hungria – país cujo governo de Viktor Orbán também se mostra simpático à Rússia. Isso resulta, em grande parte, do fato de que Le Pen não tem conseguido investimentos de bancos franceses que preferem não associar sua imagem à candidata.

Sua identificação com Putin, no entanto, deriva do fato de que ele defende os interesses de seu país, e não necessariamente por ser um autocrata disposto a sacrificar inúmeras vidas em função de suas ambições territoriais. Quando a Ucrânia teve sua autonomia comprometida pela invasão russa, portanto, Le Pen foi coerente ao condenar o ataque, argumentando que “a soberania das nações não é negociável, a liberdade das nações não é discutível”. Além disso, se mostrou aberta a receber refugiados ucranianos – aqueles que, segundo ela, são refugiados de verdade ao contrário de jovens africanos em busca de melhores condições econômicas.

Para Le Pen, a atual disputa eleitoral não é entre direita e esquerda, e sim entre nacionalistas e pós-nacionalistas. Nisto reside a maior diferença entre os dois candidatos que disputarão o segundo turno das eleições no dia 24 de abril. De acordo com Le Pen, Macron considera a nação um velho conceito que precisa ser eliminado. Seja isso um exagero ou não, o fato é que o atual presidente demonstra ter mais interesse em liderar um projeto europeu ambicioso do que comandar o seu próprio país. Já Le Pen adota um discurso mais ponderado sobre diversas das pautas que defendia anteriormente, mantendo, ainda assim, seu projeto político local em que o interesse da França é colocado em primeiro lugar.

 

Consequências da eleição

Dizer que Macron é pouco amado em seu país provavelmente seria um eufemismo. A situação real é que grande parte dos franceses tem uma verdadeira ojeriza ao atual presidente, especialmente no interior do país. Macron, afinal, é visto por muitos como representante da elite bancária, da grande mídia e de um projeto europeu posto acima das necessidades da França. No momento, ele ainda é tido como favorito para conseguir a reeleição, mas não de forma acachapante como em 2017 quando bateu Le Pen no segundo turno por uma diferença de mais de 30% dos votos. Desta forma, caso se consolide, seu segundo mandato tende a ser ainda mais turbulento que o primeiro.

É verdade que no primeiro turno das atuais eleições, Macron foi o candidato mais votado. Ao mesmo tempo, é fácil esquecer que aproximadamente 72% do eleitorado o rejeitou – um dado tornado pior quando se considera que o atual presidente conta com pouca militância ao seu redor. Muitos dos que votaram em Macron em 2017 o fizeram por rejeitar uma candidata que era vista como demasiadamente radical. Com uma guerra em andamento e a mesma candidata como alternativa para o segundo turno, Macron pode novamente ter o voto daqueles que preferem uma opção segura em cenário de incerteza. No entanto, ainda que isso lhe garanta um novo mandato, este voto não lhe dá cinco anos de governo tranquilo.

Como bem aponta o historiador e pesquisador John Keiger, o ciclo eleitoral na França realmente tem três etapas, sendo duas delas formais: as eleições para presidente e para o parlamento que ocorre nos dias 12 e 19 e junho. Já o terceiro ciclo é de cunho puramente social e ocorre quando os cidadãos saem às ruas para dar vazão às suas frustrações em protestos contra o governo.

De partida, as eleições parlamentares tendem a ser negativas para Macron. O surgimento de Jean-Luc Mélenchon ainda mais à esquerda do tradicional Partido Socialista – cuja candidata Anne Hidalgo obteve o resultado pífio de menos de 2% dos votos – deverá ser uma dor de cabeça no parlamento. No primeiro turno das eleições, Mélenchon ficou em terceiro lugar com 22% dos votos. Caso o resultado se repita nas eleições de junho, o país terá um parlamento mais radicalizado e pouco aberto a negociações. Do lado da direita algo similar deve acontecer. O partido de centro-direita Les Républicains se desmantelou com os 4.8% de votos obtidos por Valérie Pécresse. Seus políticos mais aguerridos devem se juntar ao grupo de Marine Le Pen ou Éric Zemmour, que ficou em quarto lugar nas eleições presidenciáveis com 7.1% dos votos. Com um parlamento dividido entre estes dois grupos, Macron terá de buscar alianças com o pouco que deverá restar dos partidos Socialista e Republicano a fim de assegurar sua governança, o que dificilmente acontecerá.

É no “terceiro ciclo” eleitoral, no entanto, que a situação política da França se torna ainda mais incerta. Já durante seu mandato, Macron encontrou forte oposição das ruas ao seu governo. O ponto mais crítico foram os protestos dos gilets jaunes (coletes amarelos) que tiveram início em 2018 e duram até hoje, embora a pandemia causada pela Covid-19 tenha arrefecido as manifestações. É verdade que a França tem uma constante tendência de inquietação social. No atual momento, no entanto, este cenário parece ainda mais delicado. Uma eventual vitória de Macron se dará pela relutância de boa parte do eleitorado à presidência de Le Pen, e não por uma convicção na qualidade de seu governo. Portanto, é de se esperar que o ressentimento da população com a situação política do país continue vivo. A vitória de Le Pen, por sua vez, pode suscitar perigosa e violenta desordem nos banlieus – subúrbios que abrigam grande parte dos imigrantes do país. Este terceiro ciclo das eleições é o mais perigoso pelo seu alto grau de incerteza. Ninguém é capaz de prever que tipo de protestos podem surgir, o grau de revolta e suas consequências no curto, médio e longo prazo.

Ao olhar de forma mais ampla para este cenário de incerteza local é possível perceber como ele também repercute em todo o continente. Bruxelas, onde fica a sede da União Europeia, certamente está atenta ao que acontece na França. Sua torcida é para que Macron vença e mantenha a política de fortalecimento da instituição. No entanto, é justamente este fortalecimento do bloco que tem causados cada vez mais disputas com determinados países-membros. O Reino Unido foi o caso mais emblemático, mas o leste europeu também tem se tornado uma pedra no sapato dos burocratas europeus. Conforme a organização angaria mais poderes, sua autoridade entra em conflito com a autonomia e soberania dos estados-membros. Os burocratas de Bruxelas certamente não são fãs de Le Pen, mas talvez a aspiração da francesa de que o bloco volte a ser destinado à cooperação econômica poderia ser precisamente a salvação para as disputas internas que corroem a União Europeia de dentro para fora.

“Todos cisnes são brancos”. 

Quantos cisnes brancos uma pessoa precisa ver para ter certeza absoluta da afirmação acima? 

Por outro lado, quantos cisnes de diferente cor precisamos ver para termos certeza de que a afirmação é falsa? 

Esta questão foi apresentada pelo filósofo austríaco Karl Popper para delinear a teoria da falseabilidade, ou seja, a capacidade de refutar uma teoria utilizando-se de evidências. Colocando de outra forma, nunca podemos ter absoluta certeza sobre a verdade de uma afirmação universal ao passo que basta apenas uma evidência em contrário para que possamos dispensá-la por inteiro.

O que isso tem a ver com a nossa área? Nos últimos tempos, tem-se visto diversos jornalistas utilizando de afirmações oficiais para desacreditar e deslegitimar determinados posicionamentos políticos dos quais não gostam. Exemplos? A pandemia do coronavírus nos oferece vários, sendo o mais clássico deles o de que milhões de pessoas morrerão caso não seja feito um lockdown total.

Meses depois do início das quarentenas, vemos que os poucos países que adotaram medidas menos ou nada rigorosas não apresentaram o caos previsto. Ao mesmo tempo, países que se fecharam por completo continuam vendo o número de casos aumentar. Ocorre que, ao cálculo científico sobre o número de mortes, não foi dada a oportunidade de ser falseado para sabermos se era ou não verdade. E nisso os jornalistas deram uma grande ajuda, sem nunca ter o interesse em questionar a autoridade da “ciência” que não ganha o status de verdade absoluta apenas por ser rotulada como tal.

Se pudermos tirar uma conclusão resumida da reflexão de Popper é que devemos ter cuidado em achar que descobrimos uma verdade absoluta quanto podemos de fato ter descoberto apenas uma verdade parcial ainda não refutada.

Na ânsia de criticar governos e políticos que não são de seu agrado, quantas vezes o jornalismo não se escondeu da dúvida para alçar ao nível de verdade universal aquilo que, no máximo, é uma teoria não testada ou não debatida?

Já foi escrito anteriormente, neste Orbis, sobre o livro The Uncensored War, onde o autor Daniel C. Hallin trata da cobertura da Guerra do Vietnã pela mídia norte-americana. Aqui, novamente, tomo de empréstimo algumas de suas palavras sobre a história do jornalismo no país. Segundo ele, a profissionalização da atividade no séc. XX tem um aspecto ambíguo: se em parte serviu para dar aos jornalistas uma maior autonomia, eles, em troca, “se submeteram à autoridade de um conjunto de regras que exigiam que abandonassem o direito de usar sua recém conquistada autonomia e prestígio em busca de valores políticos próprios”. Entre estes conjuntos de regra, talvez as mais importantes sejam a objetividade e isenção.

Antes do século XX, no entanto, os jornalistas atuavam de forma diferente e, especialmente as empresas de mídia, possuíam muito mais liberdade para defender suas próprias agendas. Diz Hallin que “No séc. XIX, quando os jornais eram pequenos e numerosos, eles conseguiam defender seu papel político ao apelar para a Primeira Emenda da Constituição (que defende a liberdade de expressão) e o conceito de um livre mercado de ideias”. 

Pelos argumentos do autor, podemos entender que a atuação da mídia, ao longo da história, esteve muito ligada ao contexto do mercado: o fato de existirem muitos jornais de pequena expressão significa que o partidarismo tem efeitos mitigados. Por outro lado, abandonar a objetividade e a isenção quando o mercado é dominado por poucas empresas pode representar uma ameaça à imaginação popular.

A questão é: em qual contexto mercadológico estamos inseridos atualmente? Um que é detido por poucas empresas de mídia ou um cenário fragmentado por muitas e pequenas vozes?

Pessoas são seres curiosos. Surpreende o quanto podem deduzir sobre os outros e, ao mesmo tempo, conhecer tão pouco sobre si mesmos. Tal fato é muito claro quando se analisa as ideologias. Não raro, os mais imersos em um pensamento ideológico único acreditam estar acima deste mal, como se nenhum conjunto fixo de ideias guiasse a forma como eles percebem o mundo. Tirando este raciocínio da escala individual e o trazendo ao patamar do coletivo, também percebe-se que sociedades inteiras podem considerar-se “não ideológicas” quando tomadas por uma ideologia dominante.

No livro The Uncensored War, o autor Daniel C. Hallin analisa a cobertura da Guerra do Vietnã feita pela mídia norte-americana. Entre os aspectos discutidos por ele, a ideologia predominante na sociedade da época está no centro da obra. É esta ideologia, afinal, que moldou não apenas o formato da cobertura midiática, mas também o enfoque frequentemente dado pela imprensa dos conflitos que antecederam a entrada oficial do país na guerra.

Hallin explica que o jornalismo da década de 1960 possuía um aspecto ambíguo: ainda que a profissionalização da atividade tenha dado aos jornalistas liberdade para atuarem sem interferências políticas, a necessidade de fazerem uma cobertura isenta e imparcial exigia que acessassem regularmente órgãos internos do governo. Em outras palavras, os profissionais podiam atuar com independência, mas dependiam de informações cedidas pelo governo, por membros da burocracia e por parlamentares em geral.

“De várias formas, a profissionalização do jornalismo nos Estados Unidos fortaleceu, ao invés de enfraquecer, os laços entre a imprensa e o Estado”, escreve Hallin.

Deixar de publicar aquilo que o governo lhes concedia, portanto, significaria resignar da própria objetividade, um dos valores reinantes na época.

Desta forma, o presidente do país tinha a capacidade de controlar o noticiário, pois declarações do Chefe de Governo estavam sempre no topo dos critérios de noticiabilidade. Ao mesmo tempo, criticar abertamente informações oficiais significaria tomar lado no debate e abandonar a isenção.

Mas este aspecto diz respeito apenas à cultura jornalística da época. Havia, ainda, a ideologia de meados do século XX nos EUA, que também influenciava o noticiário. Segundo Hallin, “o consenso bipartidário forjado durante as administrações de Truman e Eisenhower que associaram a política exterior a (uma questão de) ‘segurança nacional’ (…) retiraram a maior parte das decisões relativas à política externa da agenda do debate político”.

Esta ideologia da Guerra Fria, por sua vez, não era detida apenas pelos políticos da época, mas por toda a sociedade na qual se incluem os jornalistas. Um dos motivos para o noticiário conter tanto desta ideologia – cujas crenças eram de que os EUA deveriam atuar no âmbito internacional para conter o avanço comunista impulsionado pela URSS e China – era de que as colunas dos jornais estavam repletas de declarações de oficiais do governo americano. Mas além disso, “os próprios jornalistas estavam tão profundamente imersos na ideologia da Guerra Fria quanto aqueles sobre quem escreviam”.

O mundo vivia em conflito entre o modelo comunista soviético e a democracia liberal americana. E neste contexto, o que estava em jogo era a influência sobre os demais países do globo. O fato de ser uma ideologia, portanto, não implica que seja ruim ou que seja falsa. O problema é que ela “estreite o âmbito do pensamento”, como colocou Orwell no clássico 1984.

E neste sentido, Hallin argumenta que na época anterior à entrada de fato dos EUA na guerra, nenhum grande debate estava acontecendo sobre o direcionamento da política pública do país. Este silêncio “não representava o fim das ideologias, mas o triunfo de uma única sob todas as demais. Era uma época de consenso ideológico e isso era verdade, acima de tudo, na política externa”. O espaço para este debate viria apenas depois e com uma força poderosa, como descobriu Lyndon Johnson, presidente responsável pela escalada dos EUA na guerra.

Esferas de Hallin

O livro The Uncensored War talvez seja mais famoso pela teoria desenvolvida pelo seu autor e atualmente conhecida como Esferas de Hallin. O diagrama elaborado por ele serve para entender como alguns assuntos são tratados na mídia. Afinal, ainda que muitos profissionais da área acreditem que sua cobertura é isenta de paixões, inconscientemente certas temáticas são vistas de formas totalmente diferentes pelos jornalistas.


A primeira das três esferas, Hallin chamou de Esfera do Consenso. Nela estão temas e ideias tidas como senso comum. Nas palavras do autor, “Dentro desta região, jornalistas não se sentem impelidos a apresentar visões opostas (…) Pelo contrário, o papel do jornalista é de servir como um defensor dos valores consentidos”. Na cultura que temos atualmente, é de se esperar que uma ideia como liberdade de expressão seja automaticamente tratada como algo bom no espaço jornalístico. E se for preciso argumentar sobre o tema, será para fazer uma defesa deste princípio. Aqui o jornalista não atua de forma imparcial. Ele sequer questiona sobre o quão bom certo princípio, de fato, é, pois este já está enraizado na cultura à qual ele pertence.

Margeando a Esfera do Consenso está a Esfera da Controvérsia Legítima. Aqui, sim, o jornalista atuará de forma isenta. Afinal, as questões nela contidas estão plenamente abertas a questionamentos e o jornalista não tomará lados. Ao contrário, ele servirá apenas como um transmissor de opiniões. O conceito de ouvir os dois lados caberá para as ideias atualmente em debate pela sociedade.

Por fim, resta a Esfera do Desvio – ou como chamarei, a Esfera da Aberração. Este é o domínio “daqueles atores políticos e opiniões que os jornalistas e o mainstream político da sociedade rejeitam como indigno de ser ouvido”. Aqui os jornalistas “cumprem o papel de expor, condenar ou excluir da agenda pública aqueles que violam ou desafiam o consenso político”. Novamente, neste espaço, o jornalista não atuará de forma isenta. Ele irá assumir que certos valores são ruins e não dará a eles o benefício de serem debatidos. Alguém que defenda, por exemplo, que discriminar e excluir da sociedade determinadas pessoas em função de sua raça, será automaticamente descartada ou invalidada, juntamente com sua opinião, pela mídia. Esta ideia, afinal, é tida como uma aberração pela cultura atual.

Como ideias são fluídas e princípios são moldados pelas circunstâncias, muitos temas e valores podem transitar entre as esferas. E o jornalista, embora goste de pensar que está livre de ideologias, será tão influenciado como qualquer outro pela cultura do momento.

De 1960 para 2020

De uns anos para cá, tanto o Brasil quanto os EUA e boa parte dos países ocidentais entraram em um processo de polarização política. A maior parte do mainstream midiático, acadêmico e intelectual, de forma geral, viu suas ideias e valores confrontados por parcelas significativas da sociedade. É possível encontrar diversos motivos para que estes confrontos tenham emergido de forma tão súbita e potente. Aqui me concentro em apenas dois: falta de consenso ideológico na sociedade e o crescimento das redes sociais.

Boa parte da obra de Hallin se concentra entre os anos 1960 e 1965 e o consenso ideológico do qual ele trata na primeira metade do livro não demorou para se desfazer. Ainda nesta década, avançava no mundo uma ideologia progressista. A contracultura veio para mudar costumes por muito tempo tidos pela sociedade. A libertinagem sexual começava a ser estimulada. O uso de drogas passou a se intensificar. No âmbito político, o papel dominante dos EUA, não apenas como potência mundial mas principalmente como referência cultural, era desfeito. Na França, estudantes protestavam, entre outras coisas, contra o capitalismo e instituições tradicionais como a Igreja.

A polarização dos últimos anos é consequência, em parte, das súbitas mudanças culturais de meados do século passado. A mídia pode ter assumido como consenso as ideologias que se desenvolveram da década de 1960 em diante. Mas as eleições de Bolsonaro e Trump, a aprovação do Brexit e a forte retomada de pautas conservadoras mostram, claramente, que boa parte da população não a acompanhou nesta nova cultura progressista. Ainda assim, faltava a muitos os meios para criticar o senso comum jornalístico e divulgar suas próprias opiniões. Este papel, por sua vez, tem sido cumprido pelas redes sociais.

Não é difícil compreender porque o jornalismo se isolou em uma bolha ideológica própria que reluta em admitir que existe. Acostumados a falar sozinhos, os profissionais de imprensa não perceberam que poderia haver tanta discordância em potencial. Para retomar Hallin, as visões de mundo que jornalistas tinham como consenso estão, para muitos, na Esfera do Debate Legítimo, quando não na Aberração. O fato de acusarem tantos de fake news talvez seja explicado por isso. Afinal, quando se transforma opiniões em senso comum, elas se tornam indistinguíveis de fatos.

Na Esfera do Consenso não estão apenas aqueles valores que a sociedade irá defender; estão ali, também, aqueles cujo mérito ninguém precisa questionar, uma vez que já são amplamente aceitos por todos. O erro de muitos jornalistas foi creditar ao consenso aquilo que é consensual apenas para si e seus pares. A cultura e as ideologias presentes no meio jornalístico simplesmente não são compartilhadas por milhões de cidadãos do Brasil e do mundo.

Este erro, no entanto, não deve ser creditado apenas na conta dos profissionais da mídia. Ele se estende, também, às classes pensantes. São raros os acadêmicos, filósofos, sociólogos e intelectuais em geral que não compartilham da chamada ideologia progressista cujo credo, em sua forma mais extrema, reside em ver nas coisas novas um caminho certo rumo ao progresso e na conservação de práticas e hábitos antigos – como defesa da estrutura familiar tradicional, de valores cristãos, de uma ética de virtudes e não de uma meramente utilitarista – um resquício obscurantista de um passado ainda não contemplado pelo racionalismo.

Neste sentido, é curioso perceber como a atual polarização política e ideológica é apontada como um problema causado por esta parcela da população que não adotou a cultura progressista. O reflexo desta incompreensão por parte das classes pensantes fez surgir uma das culturas mais perigosas dos últimos tempos: a cultura do cancelamento. Seus proponentes, tão certos de que seus valores são consensuais e corretos, não admitem que tantas pessoas possam ter uma opinião diferente das suas.

Este conflito poderia ser amenizado pela simples aceitação de que as questões mais recorrentes dos tempos atuais fazem parte da Esfera do Debate Legítimo. Ao contrário, esta esfera parece estar a cada dia menor e aqueles que discordam dos consensos progressistas são jogados diretamente no rol das aberrações. Na falta do debate, portanto, resta transformar os atuais insurgentes em meras caricaturas a quem não se deveria dar voz, pois são vistos como anomalias de uma cultura racista, fascista, intolerante e intolerável.

Este caminho não pode levar a outro resultado que não a adoção de uma ideologia dominante, embora alcançada não de forma natural, mas pela imposição, que deixará no caminho incontáveis pessoas canceladas.

O jornalismo, espaço essencial da liberdade de expressão, precisa repensar o seu papel neste contexto. Imerso na cultura progressista, ele não precisa necessariamente abandonar os seus valores, mas entender que eles não são consensuais exceto dentro do próprio meio.

E se hoje tantos jornalistas assumem a polarização dos últimos anos como algo ruim, só existe uma solução: retomar a tão atrofiada Esfera do Debate Legítimo para que, com o estímulo de novas discussões e argumentações, a sociedade possa encontrar, de forma natural, novos consensos ou retomar aqueles que ficaram no passado.

AA censura não é a única forma de silenciar o outro. Aliás, somos bons em adotar estratégias sutis para conquistar aquilo que queremos de maneira mais direta.  Em artigo para a Gazeta do Povo, o jornalista Leonardo Coutinho cita o seguinte fato: “Na campanha eleitoral de 2016, o então candidato Donald Trump apontou um tal globalismo como uma das causas dos problemas dos Estados Unidos”. Reagindo à afirmação do então candidato à presidência, o jornal The New York Times reforçou a tese de que globalismo era uma ideia de extrema-direita que servia para negar a globalização. Em suma, segundo Coutinho, o importante era massacrar a ideia para fazer prevalecer a própria.

De maneira similar, vimos órgãos representativos do jornalismo utilizando a linguagem e a retórica para reduzir a relevância do jornalista Oswaldo Eustáquio, quando este foi preso em junho pelo Supremo Tribunal Federal. Como levantado, também pela Gazeta do Povo, muitas destas entidades preferiram não se manifestar sobre o caso ou simplesmente reduzir a atuação de Eustáquio, afirmando, por exemplo, que quando foi preso ele não atuava como jornalista ou que usa “ferramentas de comunicação para caluniar, difamar e ameaçar autoridades, jornalistas e instituições democráticas”.


Eustáquio tem simpatia pelo presidente Jair Bolsonaro e defende ideias conservadoras. O mesmo já assumiu isso publicamente. A questão é: a visão de mundo que possui torna ilegítima sua participação no debate público? É fato que o Brasil vive um momento de disrupção política. Neste momento em que tentamos nos encontrar, não seria mais útil que a imprensa desse voz a grupos ideológicos diferentes ao invés de isolar certas figuras e opiniões como se estas não fossem dignas de ecoar entre a sociedade?

No livro The Uncensored War, Daniel C. Hallin trata do papel midiático durante a Guerra do Vietnã – papel este que foi altamente relevante, inclusive, para mudanças futuras na forma de atuação dos governos norte-americanos. Afinal, como explica Hallin, a cobertura irrestrita das batalhas ocasionou um novo fenômeno no país: se durante a Segunda Guerra Mundial os EUA estavam unidos em torno de um único objetivo, a situação americana dos anos 1960 e 1970 nada tinha a ver com isso:

Em cada noticiário da TV e em cada jornal matinal a guerra era reportada batalha por batalha, mas pouco ou nenhum sentido do propósito da batalha era expresso. Eventualmente isto contribuiu para a impressão de que estávamos lutando em um terreno militar e moral movediço, e não em direção de um objetivo importante e valoroso.

Se o papel da imprensa na ocasião for entendido como o de apenas replicar aquilo que ocorria nos campos de batalha, então talvez não haja muito o que ser criticado. Neste sentido, no entanto, Hallin faz mais uma observação sobre a mídia. O jornalismo nem sempre foi um setor no qual valores de isenção e imparcialidade eram estimulados. Da mesma forma, estes valores não passaram a ser praticados sem que antes houvesse uma troca com os próprios órgãos políticos e governamentais:

… jornalistas desistiram do direito de falar com uma voz política própria e, em troca, receberam um direito de acessar regularmente órgãos internos do governo; um direito do qual nunca desfrutaram na era do jornalismo partidário.

Os tempos do jornalismo apoiado diretamente por partidos políticos e, mais tarde, dos jornais que atuavam em nome de seus “barões” provam historicamente que não existe um único modelo a ser adotado pela mídia. O jornalismo objetivo e isento certamente cumpre um importante papel. Mas, como mostra a Guerra do Vietnã e eventos de meados do século passado, as circunstâncias estão ligadas às formas de atuação midiática. Com o surgimento e popularização da Internet, o modelo de publicidade que tanto estimulava a produção de um jornalismo imparcial dá claros sinais de exaustão. Inovar é se colocar à frente das novas demandas. E quais seriam elas nestes novos tempos?

Não é de hoje que as redes sociais adentraram o meio jornalístico: seja como plataforma onde matérias são postadas, seja nas rodas de conversa onde se constata o quanto elas afetaram a profissão. Todavia, há um mau hábito de olhar para as redes como um lugar intelectualmente raso no qual apenas o conteúdo de rápido e fácil consumo tem chance de prosperar. Se essa é a verdade, então por lógica estamos fadados a compartilhar da tendência e reduzirmos o nível do conteúdo produzido.

Uma rápida pesquisa nas plataformas, no entanto, mostra como artigos bem contextualizados conseguem atiçar a curiosidade do público. Igualmente, longos vídeos sobre ideias complexas são capazes de alcançar inúmeras visualizações. O fato é que as redes sociais não têm vida própria; ao contrário, são meros ambientes alimentados por pessoas. Há, ali, espaço para tudo aquilo que existe fora dali: trivialidades, entretenimento, curiosidades e, sim, conteúdo de alta qualidade.

Neste ambiente, onde atualmente o público se encontra, é relevante que os veículos pensem sobre a forma de atuar. As redes mostram que há parcelas do público dispostas a investir tempo no conteúdo que lhes agregará valor. Embora seja comum entre jornalistas o hábito de se queixar do meio digital, ao apresentar temas urgentes e imediatos cuja relevância tende a se perder rapidamente, estaríamos imitando o melhor ou o pior daquilo que as redes têm a nos oferecer?

Muito se discutiu na semana passada sobre Bari Weiss, a ex-editora de opinião do The New York Times que se demitiu criticando abertamente o posicionamento do jornal e o comportamento de seus colegas. Em um dos trechos mais marcantes de sua carta aberta ao publisher A.G. Sulzberger, ela afirma que “um novo consenso surgiu na imprensa, mas talvez especialmente neste jornal: de que a verdade não é um processo de descoberta coletiva, mas uma ortodoxia já conhecida por alguns poucos iluminados cujo trabalho é informar todos os demais”.

Muito se sabe sobre como a mídia vem perdendo credibilidade e apelo perante o público. Weiss aponta para o pedestal no qual boa parte do jornalismo subiu, e também deixa claro que a desconexão entre visões de mundo presentes nas classes falantes e no restante da população complementa a trama. Foi para dar voz a esta parcela do público de valores tradicionais que ela foi contratada.

A iniciativa, agora com futuro incerto, tinha os seus méritos, mas também aponta para um problema mais profundo: seria a opinião o único campo restante para as vozes não ortodoxas? Nestes tempos em que a palavra “pluralidade” se tornou um norte a ser seguido, qual é a real pluralidade existente nas redações onde os fatos seriam apurados e o cotidiano deveria ser refletido?

É certo que as editorias de opinião têm grande relevância nos jornais. Mas elas também são um campo em que a subjetividade ganha mais espaço para aparecer. Como fica, portanto, a cobertura factual das redações? Esta não seria uma área a ser apurada, coberta e apresentada ao público por meio de óticas mais diversas?

Quando clichês passam a dominar imaginários, fica fácil esquecer porque fazemos o que fazemos e deixar de refletir sobre a forma como atuamos. Afinal, ainda que clichês possam ser verdadeiros, eles também implicam uma ausência de pensamento. Jornalistas não estão imunes a este processo de torpor coletivo causado pela “clichelização” da atividade. Ao afirmar o porquê de a imprensa existir, com frequência pensamos em grandes ideais como a defesa da democracia ou a luta pela liberdade de expressão. Mas e quanto ao público, qual o nosso dever perante ele?

No artigo da semana passada foi falado da importância da literatura no trabalho jornalístico. Aqui dou minha contribuição compartilhando a visão do Camarada Underground – personagem fictício do filósofo Roger Scruton que não se encaixava nem no autoritarismo político da Tchecoslováquia comunista e nem na sociedade materialista norte-americana onde foi morar após a queda do Muro de Berlim. Para ele, o ambiente em que hoje vivemos é instantaneamente preenchido por cada novo acontecimento, de forma que “o agora é uma presença universal”. A consequência disso é uma “inegável falta de entendimento, já que o presente só faz sentido em relação ao passado, que é instantaneamente afogado pela torrente de novas informações”.

Voltando ao tema central, por que trabalhar em busca de fins grandiosos se aquilo que de fato produzimos com frequência serve mais para atordoar o público do que para dar sentido à realidade em que está inserido? Se almejamos grandes ideais, não seria mais próprio, então, que tivéssemos como missão ajudar as pessoas a discernir o presente com conteúdo rico em contexto e dar a elas um norte com publicações abertas a reflexões?

Tomo emprestado do colunista Flávio Gordon (Gazeta do Povo) uma crítica sobre a nossa atividade profissional: com a evolução da Internet e redes sociais, jornalistas que antes tinham apenas boca ganharam também ouvidos, e o que passamos a escutar do público não nos foi de muito agrado. A colocação me parece verdadeira, mas apenas parcialmente. Fato é que sempre tivemos ouvidos, ainda que eles estivessem frequentemente voltados para aqueles que diziam exatamente o que queríamos escutar. Uma audição seletiva, por assim dizer.

Me refiro aos especialistas que sempre buscamos para dizer aquilo que não sabemos em profundidade. Esta prática jornalística não é apenas lógica, mas necessária. Afinal, ninguém espera do repórter um profundo saber sobre tudo aquilo que ele deve cobrir. Mas a verdade é que especialistas também divergem dentro de suas áreas de especialidade.

Qual o critério, então, para escolher um ao invés do outro? Há especialistas mais legítimos que os demais? Que se pese que o jornalista não deve ser refém da audiência, tampouco pode estar de costas para ela, e estarmos afastados dos valores e crenças da sociedade tem sido importante fator para a queda de nossa credibilidade. No momento em que maior interação entre público e jornalista se faz necessária, portanto, não seria o momento de repensar os critérios de seleção de especialistas?