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Orbis Media Review

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O que é uma comunidade? Um grupo de indivíduos que compartilham uma preocupação mútua pelo bem estar uns dos outros.


Charles H. Vogl, The Art of Community

Estes são tempos difíceis para todos. Mesmo aqueles que estão saudáveis podem se sentir entediados, ansiosos e com medo.

Como resultado, gerentes de comunidades virtuais estão percebendo um aumento na intensidade emocional. Em três sessões, este artigo irá oferecer conselhos sobre como gerir, dar suporte e atender a sua comunidade em um momento como este:

  • O que as pessoas precisam
  • Como reagir
  • Medidas essenciais

O que as pessoas precisam

Durante crises, há dois tipos de pessoas: aquelas que precisam de ajuda e pessoas que desejam ajudar.

Se trata das mesmas pessoas em diferentes momentos, cujas atitudes se baseiam em suas situações atuais.

Neste momento, membros de sua comunidade possuem algumas necessidades centrais, que incluem:

  1. Pessoas querem informações
  2. Pessoas querem se sentir menos solitárias
  3. Pessoas querem se sentir úteis
  4. Pessoas querem processar seus sentimentos e ver que outros se importam com elas
  5. Pessoas querem ajuda em termos materiais

1. Pessoas querem informações

Este é um momento de incertezas e de rápidas mudanças. O público está buscando informações confiáveis bem como conselhos da mídia e entre si. Encontre especialistas e dê a eles uma plataforma para falar. Tenha certeza de que qualquer coisa que você compartilhar esteja atualizada e verificada – onde for possível, compartilhe links de suas fontes.

Se assegure de que sua comunidade possa facilmente ver o dia e a hora em que as informações foram compartilhadas. Se você estiver preocupado com a possibilidade de o Google indexar uma publicação sua que seja temporal, considere adicionar uma nota de esclarecimento para os leitores sobre a o quão atual uma informação é, linkando este dado a fontes que sejam frequentemente atualizadas.

2. Pessoas querem se sentir menos solitárias

Comunidades dizem respeito à conexão e esta pandemia está isolando todos nós. Veja como você pode providenciar formas de conectar os membros mais isolados de sua comunidade e criar maneiras de fazê-los se sentirem mais acolhidos e engajados.

Rotinas podem ajudar no estabelecimento da normalidade. Veja se há maneiras pelas quais sua comunidade possa se reunir regularmente para uma atividade, como discussões semanais sobre um dado assunto.

3. Pessoas querem se sentir úteis

Descubra maneiras de as pessoas se apoiarem e se ajudarem entre si. Pode ser criando e gerenciando sistemas para que elas ajudem os outros, com o Google forms, ou convidando membros da comunidade a assumirem papéis de apoio como “acolhedores de novos membros” ou “pessoa que organiza atividades para outros”.

Se você estiver facilitando um sistema de apoio, saiba que isso exigirá um gerenciamento de recursos. Você não quer criar uma situação em que alguém esteja contando com um voluntário de sua comunidade para um serviço essencial e que, com toda a boa intenção, essa pessoa não consiga executar a tarefa de forma segura.

Sempre que possível, conecte pessoas com recursos existentes em suas áreas ao invés de tentar replicar estes serviços com versões com finalidade própria.Se você de fato decidir preencher uma necessidade em sua comunidade, tente fazer uma parceria com uma organização sem fins lucrativos que pode ajudar a garantir que você esteja bem colocado para dar suporte efetivo às pessoas.

4pessoas querem processar seus sentimentos e ver que outros se importam com elas

Neste momento, todos estão processando um novo tipo de intensidade emocional. Uma das formas que usamos para processar emoções é enquadrando esses sentimentos em uma linguagem. Neste artigo da Harvard Business Review, David Kessler explica que a experiência que estamos atravessando agora é uma forma de luto:

“A perda da normalidade; o medo do custo econômico; a perda das conexões. Isso está nos atingindo e estamos de luto. Coletivamente. Não estamos acostumados a este tipo de luto coletivo no ar… Estamos também sentindo um luto antecipado. Luto antecipado é aquele sentimento que passamos a ter quando estamos incertos sobre o que o futuro nos reserva. Com um vírus, esse tipo de luto é muito confuso para as pessoas. Nossa mente primitiva sabe que algo ruim está acontecendo, mas você não consegue enxergar o que é. Isso quebra o nosso sentido de segurança.”

David Kessler

Este momento é aterrorizante para muitos e parece injusto. Membros de sua comunidade podem estar lidando com dificuldades econômicas, perda de liberdade, aumento do estresse por estarem presos em casa com seus parentes e filhos. Além disso, podem estar enfrentando a doença ou a morte de um amigo próximo ou membro da família. Muitos desejarão compartilhar essas dores com outras pessoas, incluindo sua comunidade. Seu papel aqui é testemunhar, reconhecer, oferecer compaixão e fazer com que cada pessoa sinta que foi ouvida.

5. Pessoas querem ajuda em termos materiais

Veja a discussão acima sobre a criação de uma infraestrutura para ajudar as pessoas a se apoiarem.

Você deve ter uma diretriz estabelecida para quando as pessoas começarem a compartilhar pedidos de financiamento para apoiarem a si e seus negócios.

Não há uma resposta correta aqui – proibir estes financiamentos irá ajudar as pessoas a evitar possíveis golpes, mas também pode levar membros centrais de sua comunidade a se tornarem incapazes de alcançar outros que desejam ajudar em um momento de necessidade. Se você decidir permitir pedidos de financiamento, você deveria identificar de onde eles vêm e postar avisos claros para que todos fiquem atentos a URLs falsas (como aquelas que parecem links do PayPal mas na verdade são esquemas fraudulentos ou desonestos).

Como reagir

Desinformação

Estamos vendo muitas pessoas compartilhando desinformações sobre a doença e sua disseminação. Isso não é normalmente feito com a intenção de causar danos e sim de ajudar – a maioria das pessoas não é especialista em diferenciar a boa da má informação, podendo confiar em fontes que você não considera confiáveis.

Nós recomendamos remover comentários que contenham desinformação e, se você observar padrões de desinformações que são compartilhadas, escreva um artigo de sua autoria para corrigir equívocos. O site First Draft News tem uma série fantástica de dicas e recursos para ajudá-lo com isso. A lista no fim deste artigo, começando a partir do trecho que diz “Aqui estão algumas coisas para ter em mente quando abordamos conteúdo manipulado” é particularmente útil, assim como o é o guia “Fazendo reportagens responsáveis em uma era de desordem informativa”.

Um impressionante volume de questões

Para organizações jornalísticas, a rádio educacional KPCC criou um excelente documento de engajamento baseado em seu uso da ferramenta Hearken para responder questões da comunidade. Eles identificaram diferentes categorias de consulta com um claro fluxo interno de como responder cada uma das questões. Você pode achar útil pegar essas categorias e descobrir como e onde sua comunidade pode reagir a elas.

Questões e pedidos repetidos

Só porque você respondeu uma questão uma vez, não pode esperar que todos tenham visto sua resposta ou lembrem dela. Neste momento de confusão e incerteza, você também pode ver um número esmagador de questões e preocupações. Garanta que seja claro e fácil encontrar respostas relevantes e que as informações fornecidas permaneçam atualizadas.

Membros da comunidade estressados e com raiva

Este é um momento em que sua paciência e generosidade são mais necessárias do que nunca. Você pode ter que alterar as regras e permitir que as pessoas fiquem mais chateadas do que o normal – mas não jogue fora todas as suas diretrizes. Todos em sua comunidade precisam se sentir seguros e protegidos por você em seu espaço.

Você precisa se manter calmo, ser acolhedor e compassivo. Se você costuma ser otimista e feliz, pode ser que precise se reajustar um pouco, assumindo que todos estão ansiosos e estressados. Não diga às pessoas que tudo ficará bem pois pode ser que isso não aconteça. Ter compaixão e responder perguntas, ao invés de assumir a situação vivida por alguém, será um longo caminho a ser percorrido.

Como a ex-diretora de operações da MetaFilter, Jessamyn West, escreveu em um de nossos guias comunitários, “Uma das ferramentas que mais usamos é enviar e-mails a usuários dizendo ‘Ei, está tudo bem?’” Você pode precisar checar como estão as pessoas com mais frequência do que fazia no passado. Se puder fazer isso, elas irão apreciar.

Além disso, lembre-se de que você não é um terapeuta e que não é o seu trabalho tomar o lugar de um. É OK dizer “isso parece ser muito difícil, sinto muito”, ao invés de tentar consertar as coisas. Isso pode ser suficiente para que as pessoas sintam, se não melhores, ao menos que foram vistas e ouvidas.

Seja humano, mas não muito humano. Embora a sua comunidade irá frequentemente apreciar te identificar como uma pessoa real ao contrário do “Moderador 7”, se você estiver se sentindo estressado e chateado não traga isso para dentro da comunidade que você gerencia. Isso irá aumentar o estresse e a ansiedade dos outros, que podem se sentir desconfortáveis em lhe pedir apoio e recursos. Tal atitude pode danificar a estabilidade de sua comunidade. Encontre outros lugares de apoio que não sejam em comunidades que você gerencia.

Medidas essenciais

Permaneça focado em sua missão principal de antes da pandemia e mantenha o foco em como essa missão se conecta, neste momento, com as necessidades de sua comunidade. Esteja pronto para redirecionar essa demanda para outros lugares, caso não possa ou não deva fornecer um serviço ou estrutura de suporte.

Não fique dependente de uma pessoa para nada. Qualquer um de nós poderia ficar doente ou precisar tomar conta, sem aviso prévio, de um familiar enfermo. Garanta que alguém que você confia tenha acesso às senhas, caixas de e-mail e outros sistemas que você usa. Se um endereço de e-mail pessoal está atualmente sendo usado em sua comunidade para o relato de queixas ou problemas, considere fazer uma mudança para um e-mail genérico e compartilhado.

Esteja ciente de traumas secundários. Administrar uma comunidade neste momento pode ser um trabalho emocionalmente desgastante, especialmente se você estiver lidando com discussões sobre morte e dificuldades econômicas. Esteja atento para estes sinais de traumas secundários e peça às pessoas ao seu redor para que façam o mesmo.

Jamais lide com sua comunidade caso esteja cansado, faminto ou de qualquer outra forma emocionalmente vulnerável. Você não será capaz de dar suporte a outros e poderá causar danos duradouros com suas ações.

Seja gentil. Fique calmo. Beba água. Faça pausas regulares.

Finalmente…

Este é um trabalho difícil e importante. Obrigado por estar presente para sua comunidade quando ela mais precisa de você.


Conteúdo originalmente publicado pelo Coral Project, da Vox Media, e licenciado por Creative Commons (CC BY 4.0).

Por Bruna Bariani*

Não é de hoje que sabemos que nosso público não parece muito disposto a colocar a mão no bolso para ler o que escrevemos. Mas calma, caro colega jornalista: a coisa fica pior. O percentual de pessoas que correm na direção oposta de qualquer notícia aumenta. Neste contexto, o termo “news avoiders” soa como um soco no estômago e no ego para nós, profissionais da imprensa. Não nos querem nem de graça! Mas como canja de galinha e humildade não costumam fazer mal a ninguém, é preciso esmiuçar de cabeça baixa o que estamos fazendo de errado.

O Reuters Institute constatou que, em dois anos, o percentual de pessoas que evitam ativamente as notícias aumentou em 3% e o número de pessoas dispostas a pagar por conteúdo permaneceu estável desde 2013, em 11%, em nove países. Nos EUA, o cenário é um pouco melhor, mas a quantidade de pessoas dispostas a pagar por notícias é a mesma desde 2017: apenas 16%.

Imediatismo e hedonismo são intrínsecos a uma geração que tem diversos nomes complicados para problemas bastante simples, como baixa tolerância à frustração.

Quando indagados, estes “evitadores de notícia” nos deram dois motivos principais para torcerem o nariz ao nosso produto: 58% afirmaram que consumir notícias tem impacto negativo no humor, seguidos por 40% que admitiram um sentimento de impotência diante daquilo que leem. Tais justificativas suscitam diversos questionamentos e creio ser válido recorrer à psicologia e à sociologia para tentar entendê-las.

Nas primeiras décadas do século passado Freud, pai da Psicanálise, reconhecia no homem a força do “princípio do prazer” que, em síntese, tratava da busca instintiva por aquilo que nos dá prazer e a evitação do que nos causa desprazer. Em tempos de geração Y, millennials, homo smartphonicos e cia, talvez Freud nunca tenha sido tão atual: imediatismo e hedonismo são intrínsecos a uma geração que tem diversos nomes complicados para problemas bastante simples, como baixa tolerância à frustração.

Estaríamos, mais do que nunca, sendo regidos pelo princípio freudiano do prazer? Pode ser. Isso tem lá sua lógica psicanalítica, mas me arrisco a dizer que o buraco é mais embaixo. Se lançarmos luz à sociologia, talvez possamos , humildemente, dialogar com Zygmunt Bauman que denominou nossa condição de “modernidade líquida”.

Para Bauman, a sociedade pós-moderna, líquida, caracteriza-se por um tempo sem ilusões. A época anterior à atual também desmontrava a realidade herdada, mas com o objetivo de torná-la melhor e então novamente sólida; por isso o autor a denominou “modernidade sólida”. Na contemporaneidade, nada é capaz de permanecer; tudo é líquido: nós destruímos e não reconstruímos nada no lugar.

Se trouxermos este paradigma para nosso trabalho como imprensa e ousarmos ser suficientemente fortes e humildes, talvez possamos reconhecer que ajudamos a que não sobrasse pedra sobre pedra: instituições, referências, crenças, poderes públicos, empresas privadas etc. Algumas destas realidades precisavam, de fato, escorrer pelo ralo de nossas redações para que fossem renovadas. Mas o que construímos no lugar delas?

Na nossa edição, reservamos alguns caracteres para contar o que está sendo feito, ou melhor, construído no lugar? No nosso editorial reservamos um espaço para empoderar o nosso leitor que, antes de tudo e de mais nada é um cidadão?

Lembro-me quando ouvi, ainda na faculdade, o famoso jargão jornalístico “bad news are good news”. Talvez esta lei tenha expirado. Talvez ela fosse válida na época em que as notícias tinham data e hora para entrar e sair da casa das pessoas: o jornal das 20h, o carteiro que entregava a revista semanal no domingo, o rapaz que jogava o jornal impresso na porta de casa e que abríamos na hora do café e fechávamos após o último gole.

Hoje a notícia não pede mais licença: a TV não desliga, a informação vem no meio da programação musical, os aplicativos de notícia enviam constantes alertas, o grupo de WhatsApp vem recheado de (fake) news que se acumulam durante todo o dia.

Quando as estatísticas apontam que a maior razão das pessoas evitarem notícia é a sensação de desânimo e impotência precisamos, como jornalistas, nos implicar nisso. O mundo não é cor de rosa e, como Ruy Barbosa dizia, devemos ser “os olhos da nação” e retratar com ética o factual. Mas será que, na nossa edição, reservamos alguns caracteres para contar o que está sendo feito, ou melhor, construído no lugar? No nosso editorial reservamos um espaço para empoderar o nosso leitor que, antes de tudo e de mais nada é um cidadão?

Bauman dizia que vivemos buscando soluções individuais para problemas produzidos socialmente e sofridos coletivamente. E o fato é que, como imprensa, só damos informações para o leitor se sentir impotente e deprimido. Estamos falhando. De novo, quem aguenta um mundo tão líquido?

O escritor francês Maurice Blanchot dizia que as respostas são a má sorte das perguntas. Precisamos reconhecer que não temos a resposta para barrar este número crescente de news avoiders que não digerem bem este prato que servimos. Mas se não soubermos as respostas e se tivermos humildade, veremos que ter a boa sorte das perguntas já é um bom começo.

*Jornalista, estudante de Psicologia

por Michael R. Francher*

“Vida longa ao jornalismo de verdade!”

É assim que minha filha, Beth, encerrou um bilhete onde me felicitava pela aposentadoria do meu cargo de editor executivo no Seattle Times. Isso foi em 2008. Naqueles anos eu gastava uma boa parte do meu tempo explorando “O que é o jornalismo de verdade?”. Ou, mais precisamente, “Qual é a verdadeira natureza, a melhor e mais elevada expressão do jornalismo no século 21?”

Trabalhando com o Journalism That Matters e com o Agora Journalism Center, na escola de comunicação da Universidade do Oregon comecei a acreditar que o jornalismo precisa de uma nova filosofia e de um novo enquadramento ético, baseado na ideia de que a confiança do público vem através do engajamento desse público. Vamos chamar isto de “jornalismo engajado”.

Primeiro, sejamos claros quanto ao que queremos dizer com “jornalismo engajado”. Se trata de como o jornalismo e o público podem estar conectados entre si, e como esta conexão afeta o jornalismo e a confiança do público.

O jornalismo passa a ter poucos propósitos se não for acreditado pela população e isso se consegue servindo ao público. Assim, o engajamento entre as pessoas e a confiança delas são inseparáveis na rede mundial de jornalismo digital. Jornalistas engajados começam a se perguntar:

“Como nós podemos ajudar as pessoas a acreditarem umas nas outras?”

Além de representar os interesses públicos, o jornalismo engajado envolve as pessoas como verdadeiras parceiras, permitindo que o jornalismo se torne completo, mais preciso, mais crível e mais significativo.

O falecido Steve Buttry, um dos primeiros editores de jornal a advogarem em prol do que ele chamava “engajamento comunitário”, descreveu isso como a forma de os veículos de imprensa priorizarem a escuta, a participação, a condução e a permissão de conversas que elevem o jornalismo. Ele dizia, “Engajamento é uma aproximação que pode e deve servir para melhorar nosso jornalismo. Isso pode ter alguns benefícios ao marketing, mas o propósito é um jornalismo melhor.”

Jennifer Brandel, CEO da Hearken, diz que “O engajamento acontece quando membros da população reagem às redações, e as redações, por sua vez, reagem à população.” A Hearken trabalha com redações para desenvolver o engajamento como um processo, ao invés de uma prática. “Isto é como uma sequência infinita de feedbacks”, diz Brandel.

Andrew DeVigal, notável presidente do Inovação em Jornalismo e Engajamento Cívico do Agora Journalism Center, marca a diferença entre o engajamento transacional e o engajamento relacional. O engajamento transacional acontece tipicamente em benefício mais significativo de uma das partes, enquanto o engajamento relacional é recíproco.

“O engajamento é um continuum e o público deveria sempre estar no centro desta rede”, diz DeVigal. “A questão que frequentemente esquecemos de perguntar é: Como podemos motivar mais jornalistas (e estudantes de jornalismo) a colocar a comunidade no centro dos seus trabalhos, como podemos ser ouvintes melhores e como podemos entender as necessidades da população de forma mais precisa? Enquanto entendermos o público limitadamente como “audiências” ou como “consumidores”, ao invés de serem também especialistas e parceiros nas comunidades a quem desejamos servir, não deveríamos esperar qualquer confiança das pessoas.

A confiança do público está no coração do engajamento. A confiança que os norte-americanos têm em jornalistas justos, precisos e não enviesados tem experimentado uma queda consistente nas últimas décadas, assim como a confiança do público na maioria das instituições de nosso país também cai. Eu acredito que a forma como fazemos jornalismo, especialmente com a implacável negatividade e a escassez de uma conexão autêntica com a comunidade, contribui para a erosão da confiança.

As confianças que o público tem no jornalismo e na democracia estão conectadas, e eu acredito que nós chegamos a um ponto em que tanto jornalismo quanto democracia estão em risco. A sobrevivência deles requer ação, imaginação e coragem de parte dos jornalistas e do público para promover a busca compartilhada pela verdade e pelo bem comum.

Um bom trabalho – framework para pensar o jornalismo engajado

Uma boa parte dos meus pensamentos sobre o futuro do jornalismo emana do livro “Good Work: When Excellence and Ethics Meet”, escrito por Howard Gardner, Mihaly Csiszentmihalyi e William Damon. Este livro examina o que os profissionais deveriam fazer quando suas indústrias entram em crise, quaisquer que sejam suas profissões. Os autores escolhem o jornalismo como uma profissão a explorar, ainda que o livro tenha sido publicado em 2001, bem antes da crise financeira que o jornalismo vem enfrentando e que se tornou catastrófica em 2008. A definição que eles fazem sobre “crise” é mais ampla do que os imperativos econômicos e incluem preocupações como uma rigidez ortodoxa, necessidades de mudança e expectativas da sociedade, mudanças rápidas e desestabilizantes na tecnologia e perda da fé na viabilidade da profissão.

Os autores dizem, então, que em tempos de incertezas, profissionais conscientes deveriam considerar três questões básicas:

  • Missão – definição das características da profissão na qual eles estão engajados;
  • Padrões – estabelecimento de “melhores práticas” em suas profissões;
  • Identidade – sua integridade e seus valores pessoais

Este ensaio irá explorar como o jornalismo engajado pode encaminhar cada uma destas questões. Ele também traz os “Votos de Engajamento para Jornalistas”, minha própria afirmação pessoal.

Missão do jornalismo engajado – aberto e inclusivo

Historicamente, o serviço público tem sido o imperativo que guia o jornalismo profissional. De acordo com o American Press Institute, a missão do jornalismo tem sido, essencialmente, dividida em:

  1. Fornecer às pessoas informações de que elas necessitam para serem livres e autônomas;
  2. Fornecer às pessoas informações verificadas das quais elas necessitam para tomar melhores decisões a respeito de suas vidas, suas comunidades, suas sociedades e seus governos.

Este propósito se mantém vital e necessário hoje em dia, mas ele não é mais suficiente na era digital; ele não é mais adequado para jornalistas nem para o público. A insuficiência reside na palavra “fornecer”, que deriva de uma limitação tecnológica do passado. Se o jornalismo não existisse atualmente, nós não o criaríamos sob a dificuldades destas limitações.

O jornalismo moderno começa a se profissionalizar durante o Progressismo, no começo dos anos 1900, quando a informação era escassa e o acesso a ela era limitado. As faculdades de jornalismo foram fundadas sob a crença de que a profissão não seria respeitada ou acreditada a menos que fosse ensinada e praticada para convergir com certos padrões de prática e conduta. As associações profissionais nasceram e, com elas, códigos de ética foram desenvolvidos para guiar os trabalhos. Jornalistas eram treinados para ser curadores que decidiam o que era melhor para ser servido ao bem público. Eles se tornaram os gatekeepers na maioria das relações de comunicação one-way.

A Internet abriu os portões com força, alterando fundamentalmente as relações entre jornalistas e público. Existe uma mudança crescente no controle de quem apura, edita e apresenta as notícias para aqueles que as leem, as assistem ou as escutam. A informação está amplamente disponível, permitindo que as pessoas exercitem o seu próprio news judgement. Elas agem cada vez mais como repórteres e editores para si mesmas e para outros, contando suas próprias histórias em suas próprias vozes.

A perda da confiança do público no jornalismo está conectada ao que o jornalista faz e como ele faz. Jornalismo e democracia estão entrelaçados e a profunda perda de confiança nas instituições das nossas sociedades democráticas deveria ser uma preocupação vital para qualquer pessoa que se importe com o jornalismo. É possível dizer que o jornalismo está cumprindo sua tradicional missão se as pessoas estão cada vez mais polarizadas e perdendo a confiança em praticamente todas as instituições democráticas?

A questão fundamental para o jornalismo e a democracia é se a pura busca pela verdade e a deliberação coletiva serão elementos importantes para nossa democracia, ou se a fragmentação e a polarização farão erodir o terreno comum.

Estas dinâmicas políticas e o imperativo para o jornalismo mudar não são exclusivas aos Estados Unidos. No livro “Disrupting Journalism Ethics”, o autor Stephen J. A. Ward diz que “a democracia igualitária, a democracia que busca tanto igualdade quanto liberdade, defende a regra da lei, protege os direitos das minorias diante da intolerância das maiorias e promove o debate respeitoso está em perigo. O ideal é desafiado ao redor de todo o mundo.”

Ward diz que nós precisamos “engajar democraticamente o jornalismo”. E explica: “Nós precisamos de um jeito especial de jornalismo engajado que, claramente, entenda as condições para a democracia igualitária, para florescer e estar preparada para usar os melhores métodos de jornalismo para promover este objetivo político.”

A missão do jornalista precisa ser rearticulada para refletir a interatividade da era digital. Esta nova missão deveria seguir os princípios consistentes da histórica missão de serviço público do jornalismo. Ela também deveria ser prática, reconhecendo a mudança nas relações entre jornalistas e público.

Aqueles que escreveriam uma missão assim poderiam perguntar:

  • Por que a sociedade deveria valorizar e apoiar esta missão?
  • Como o jornalismo pode ser uma rede inclusiva que representa e engaja o público, habilitando jornalistas a agirem como verdadeiros parceiros da população?
  • O que seria diferente se o jornalista visse a construção da confiança do público como algo central em sua missão?  E se a confiança do público fosse vista não apenas em termos de credibilidade jornalística, mas como confiança nos princípios e práticas democráticos, assim como as pessoas acreditam umas nas outras quando elas têm diferentes crenças?
  • Como o jornalismo poderia ajudar as pessoas a acreditarem umas nas outras, inclusive quando elas têm diferentes crenças?

Eu proporia o seguinte como uma possível missão ao jornalismo engajado:

A missão do jornalismo engajado é fazer um jornalismo mais aberto, acessível, colaborativo e participativo ao mesmo tempo em que se mantêm os altos padrões de precisão, justiça, clareza e imparcialidade. O jornalismo engajado é compatível com e promove a missão histórica do jornalismo profissional – o bem público, a autonomia e uma vida melhor para todos.

Padrões de jornalismo engajado – tradição e transformação

A cultura do jornalismo profissional é forte. Muitos jornalistas profissionais consideram a noção de jornalismo engajado como inimaginável, mal-intencionada ou ambas. Eles veem o engajamento como uma militância e não conseguem imaginar o quanto o jornalismo pode engajar o público sem baixar os padrões nem abandonar os princípios centrais de independência e objetividade. Hearken, uma empresa que “ajuda organizações a ouvirem melhor aqueles a quem elas servem e criar relações recíprocas”, estudou 100 adeptos ao jornalismo engajado. Este estudo descobriu que a grande barreira à mudança era “justamente políticas internas e a cultura das redações”.

Ao mesmo tempo, muitas pessoas, especialmente aquelas que sentem que nunca foram bem servidas pelo jornalismo, duvidam que o ele possa ser mais aberto, responsivo e responsável. Elas percebem o jornalismo independente como elitista ou até mesmo como hostil. Muitas pessoas veem o jornalista como alguém que honra a articulação de seus valores éticos circunstancialmente, especialmente o valor central da minimização de danos em seus trabalhos de reportagem. Aqueles que argumentam que o jornalismo precisa de uma mudança fundamental veem os jornalistas mais como um problema do que como uma solução.

Dadas estas atitudes com respeito à profissão, o momento é este e a necessidade é real para uma total rearticulação de valores e ética para guiar e promover o jornalismo engajado. O momento é este, porque os jornalistas têm uma habilidade única de conectar-se com pessoas, e as pessoas têm uma capacidade singular de se conectar com a informação, além de conectarem-se umas com as outras. A necessidade é real porque a situação atual do jornalismo é insustentável. Jornalistas e pessoas irão caminhar juntos, ou o jornalismo e a democracia irão desmoronar.

Quais valores tradicionais ou padrões de jornalismo precisam ser protegidos ou melhorados para que o jornalismo se diferencie em si mesmo das outras formas de comunicação? Como cada um destes padrões ou valores podem ser melhorados pela mudança de paradigma de um modelo distribuidor, de comunicação de mão única para uma perspectiva de engajamento?

Ter clareza sobre estas questões irá ajudar os jornalistas a enxergarem os benefícios e as possibilidades do jornalismo engajado, enquanto navegam pelos riscos. Esta clareza também irá ajudar o público a avaliar a qualidade do jornalismo que eles recebem e a criar formas significativas de contribuir com ele. Jornalistas e público terão, ambos, uma noção melhorada de responsabilidade jornalística e o jornalismo engajado se manterá em sua nova missão de fazer um jornalismo mais aberto, acessível e participativo.

Princípios para o século XXI

Kelly McBride e Tom Rosentiel identificaram esta necessidade no livro que publicaram em 2014, intitulado “The New Ethics of Journalism”. Eles apontam que “No momento em que qualquer pessoa possa fazer jornalismo, será cada vez mais importante que a sua produção seja ética e que a comunidade esteja habilitada a reconhecer e identificar quando o jornalismo é ético e quando não o é.”

No século passado, os códigos de ética para jornalistas profissionais incluíam quatro ideias-chave:

  • Buscar a verdade e noticiá-la
  • Minimizar os danos
  • Ser independente
  • Ser individual e socialmente responsável

McBride e Rosentiel propuseram um novo conjunto de princípios para nortear a atuação dos jornalistas:

  • Procurar a verdade e noticiá-la da forma mais completa possível
  • Ser transparente
  • Ter no engajamento com a comunidade um fim, ao invés de um meio

“A verdade ainda é o maior valor, o primeiro entre tantos”, escreveram McBride e Rosentiel. “Onde antes defendíamos a independência, agora defendemos a transparência. Independência é uma parte do princípio e nós ainda acreditamos que ela é um valor essencial.”

A transparência, escrevem eles, “demanda que o público veja como o jornalismo do futuro é produzido e pede uma abertura que o estimule a uma conversa constante entre jornalistas e cidadãos, redações e comunidades.”

McBride e Rosentiel sugeriram que a ética tradicional de minimização de danos possa ser estendida ao princípio de engajamento com a comunidade. Ao identificar os desafios que vêm pela frente, os autores escrevem: “O jornalismo profissional precisa entender isso mais profundamente: se trata de uma ideia mais complexa de comunidade e da expansão constante do leque de ferramentas que tornam este engajamento possível. Isso requer um novo mindset, novos processos de trabalho e um novo esquema de reportagem”.

Ao argumentar que o jornalismo deve sobreviver para que a democracia sobreviva, eles afirmam: “Se o jornalismo pode realizar esta transformação de ser um serviço que cria e apoia as comunidades ao invés daquele que cria novos produtos, este pode ser nosso melhor investimento para sobreviver.”

O movimento do jornalismo engajado está em bom andamento. Desde a publicação do “The New Ethics of Journalism”, muitos veículos começaram a incorporar o “editor de engajamento” em suas redações e uma nova função tem sido formada ao redor do conceito de engajamento comunitário. Mas o progresso não vem facilmente, em especial quando as organizações ainda questionam o retorno econômico no investimento feito aos esforços para gerar engajamento, e muitos jornalistas questionam se o engajamento enfraquece os valores tradicionais de sua profissão. Isso pode mudar.

O paradoxo da tradição e da transformação

Eu acredito que o progresso demanda a reconciliação de um paradoxo entre a tradição e a transformação. O jornalismo vem sendo testado e desafiado como nunca. Os jornalistas precisam preservar e até mesmo fortalecer suas tradições profissionais de servir o público através de notícias independentes, verdadeiras e informativas, enquanto se transformam radicalmente para serem mais inclusivos, democráticos, interdependentes e autenticamente responsáveis.

Claramente existe uma tensão entre a tradição e a transformação, mas essa tensão sempre existiu nos valores centrais do jornalismo profissional. Por exemplo, jornalistas sempre lutaram contra as tensões entre noticiar histórias em suas totalidades ou ocultar detalhes que poderiam prejudicar alguém sem necessidade, como não publicar a identidade de uma vítima de estupro; ou ainda, ser independente em relação às fontes, ou cooperar com a execução da lei, se o momento da história dificultar uma investigação.

Ao mesmo tempo em que se esforça para ser neutro e objetivo no seu trabalho de reportagem, o jornalista não pode agir como um robô. Sem dúvidas, um dos princípios centrais do jornalismo é um ato de consciência e de caráter. Uma abordagem mais engajada ao jornalismo ajudaria jornalistas a entender melhor e a respeitar o público a enxergar e avaliar estas tensões, enquanto também ajudaria esta audiência a entender porque a avaliação do jornalista valoriza o jeito com que eles fazem a reportagem.

Tradição e transformação podem ser contraditórias entre si, mas o jornalismo engajado pode defender ambas de uma só vez. O conceito vem do livro “Built to Last”, escrito por Jim Collins, que afirma rejeitar a tirania do “ou” e aceitar a genialidade do “e”. Collins diz que uma empresa verdadeiramente visionária considera ambos ao mesmo tempo. Ela preserva uma ideologia ou um objetivo central apaixonado e estimula o progresso ou a transformação de todo o resto:

  • “Continuidade e mudança
  • Conservadorismo e progresso,
  • Estabilidade e revolução,
  • Prevenção e caos,
  • Legado e renovação,
  • Fundamentos e loucura,
  • E, e, e.”

A escolha do jornalismo não pode ser entre a defesa de princípios tradicionais OU a construção de credibilidade pública; também não podemos escolher entre um jornalismo e uma democracia através do engajamento com o público. Para “salvar” o jornalismo, seus praticantes precisam criar radicalmente novas formas de se conectar a ele, aprender e noticiar sobre todas as pessoas. Eles precisam abrir seus corações e mentes às ideias de transformação. Criar o “e”.

Uma forma de defender a tradição e a transformação simultaneamente é explorar os princípios estabelecidos de uma perspectiva mais engajada ou interativa. Os exemplos emergem de várias convenções do Journalism That Matters e do Agora Journalism Center:

Ser Independente E Ser Interdependente

O jornalismo precisa ser independente de qualquer outro interesse que não seja o interesse público de proteger sua integridade de pressões ou influências coercitivas. A interdependência é um valor ético do jornalismo engajado que habilita a abertura, a conexão honesta entre os jornalistas e o público ao qual eles servem. Isso significa reconhecer que a habilidade jornalística de florescer [publicar] está diretamente vinculada ao florescimento de comunidades e da sociedade civil. Isto também significa reconhecer que o jornalismo de qualidade não pode mais ser pensado como aquilo que os jornalistas podem/devem produzir a despeito do público. Reconciliar estes valores de independência e de interdependência demanda um salto de fé, com esperança, coragem e convicção. O benefício potencial é o aprendizado coletivo com o aumento do diálogo e das ponderações.

Criar jornalismo para as pessoas E criar jornalismo com as pessoas

O jornalismo engajado é feito por pessoas; isso também significa que é feito com pessoas. Ele considera o público como parceiro ativo na investigação mútua que apoia os propósitos democráticos da atividade. Esse tipo de jornalismo participativo vai além da mera transparência e dá ao público oportunidades significativas para se envolver em todos os aspectos do processo editorial. As pessoas que são motivadas e têm a oportunidade de ser parte da produção jornalística são mais propensas a acreditar nele.

Dizer a verdade ao poder E dizer a verdade para empoderar

O jornalismo engajado carrega a responsabilidade do poder. Ele também traz o potencial de ajudar a empoderar as pessoas, individual e coletivamente, para entender e realizar os seus maiores desejos e aspirações. Ele “dá voz a quem não tem voz”, enquanto ajuda pessoas a encontrarem e usarem suas próprias vozes. O jornalismo engajado  valoriza a neutralidade jornalística, a transparência e a responsabilidade como partes constituintes de sua verdadeira disciplina, mas também defende os princípios e as práticas democráticos.

Revelar o que está errado E iluminar o que é possível

O jornalismo engajado é mais crível quando noticia possibilidades, ao invés de apenas falar sobre problemas. A negatividade implacável das notícias e a forma como elas se enfocam pontualmente nos conflitos e no confronto distorcem a realidade e acabam não inspirando honestidade, compreensão e nem uma perspectiva útil. Jornalistas engajados deveriam sempre perguntar ao seu trabalho: “Que bem isto pode fazer?”.

Encontrando o “E”

Finalmente, uma observação sobre o cuidado a respeito dos valores estabelecidos, dos padrões e da ética do jornalismo engajado. A forma como você os aplica pode fazer a diferença.

Stephen Ward alerta que o público deveria participar no desenvolvimento do que ele chama “ética aberta” ou “ética pública-participativa”. Ward diz cautelosamente, “Uma abordagem próxima (por e para jornalistas) apenas confirma o ceticismo do público de que o jornalista não está disposto a ser transparente sobre sua ética e, consequentemente, não será confiável.” Uma aproximação de abertura “constrói uma alfabetização ética ao mesmo tempo em que aumenta a confiança do público em um jornalismo de qualidade. Isso incentiva a transparência e a responsabilidade da mídia.”

Wards também sugere que a ética do jornalismo democraticamente engajado deveria guiar todos aqueles que se comunicam em uma esfera pública. “Se você está se comunicando com o público, você – não importa quem você seja – deve atuar com base a métodos de responsabilidade concreta e efetiva com a sua audiência”, diz. 

Algumas das questões que Ward propõe são: Como uma aproximação “aberta” poderia desenvolver novos padrões a serem adotados pelo jornalismo? Quais novas práticas e normas apoiariam o público? Se o público publica, contribui ou compartilha conteúdos, é uma responsabilidade dele ser honesto e confiável?

O alerta de Ward me faz lembrar de um encontro que o Agora Journalism Center e o Journalism That Matters promoveram em Portland, Oregon. Este encontro foi chamado “Experience Engagement: How communities and journalism can thrive together.” Os não-jornalistas presentes no encontro trouxeram suas advertências aos jornalistas: “Nada sobre nós sem nós.” Essa é uma frase que tem uma longa história na comunidade internacional de pessoas com deficiência como expressão de luta contra a impotência.

No contexto jornalístico, esta frase fala sobre a realidade daquelas pessoas que nunca tiveram controle sobre o uso que elas mesmas fazem da mídia. O engajamento é essencial ao jornalismo para que ele tenha valor na vida delas e isso será melhor se a atividade for inclusiva e tocar o conhecimento coletivo de uma comunidade. As pessoas, agora, têm uma oportunidade genuína de ajudar a formatar o futuro do jornalismo, além de terem a responsabilidade por fazê-lo.

A identidade do jornalismo engajado: os criadores de pontes

Os autores de “Good Work” descrevem identidade como “um senso holístico do background de uma pessoa, seus traços e valores (…) um sentimento profundamente convicto sobre quem essa pessoa é e o que importa na maior parte de sua existência como trabalhadora, cidadã e como ser humano.”

“Um elemento central da identidade é a moral – as pessoas devem determinar para si mesmas quais limites elas não irão cruzar e quais irão. Porém, um senso de identidade também inclui traços de personalidade, motivação, forças e fraquezas intelectuais, gostos e desgostos pessoais… A identidade de cada pessoa é formada por um amálgama de forças, incluindo a história familiar, religiões e crenças ideológicas, associações comunitárias e experiências individualmente idiossincráticas.”

Walter Williams viu a importância da identidade quando fundou a primeira escola de jornalismo, em 1908. Ele instigou seus estudantes a pensar fortemente sobre os padrões e os comportamentos do jornalismo e exigiu que eles escrevessem uma declaração pessoal da qual eles se tornariam responsáveis. Em 1914, ele escreveu seus próprios votos, intitulados “The Journalist’s Creed” (Os votos do jornalista). Eles começam assim:

“Eu acredito no profissional de jornalismo. Eu acredito que o jornal público é uma verdade pública; que todos que estão conectados através dela possam medir o total de suas responsabilidades como curadores para o público; que a aceitação de um serviço inferior àquele serviço que o público espera é uma traição à sua confiança (…) O teste supremo do bom jornalismo é a medida do seu serviço público.

Já passou mais de um século que Williams escreveu os seus votos, em 1914. Algumas partes de seu linguajar ficaram antiquadas, mas a primazia do serviço público tem se mantido no coração do jornalismo. Os princípios centrais que os votos têm amparado são: clareza, precisão, justiça, verdade e independência. Por muitas décadas, isto guiou gerações de jornalistas, publishers e outros profissionais associados ao jornalismo. Isto também serviu como uma declaração de como o público poderia entender o papel da imprensa para avaliar sua performance.

As suas palavras me guiaram por mais de 40 anos, desde a primeira vez que as li, em um jornal da minha turma do ensino médio, até minha aposentadoria no The Seattle Times, onde atuei por 20 anos como editor executivo. Muitas vezes citei estes votos nas minhas colunas e nos meus discursos, mas fui entendendo o documento de uma forma diferente, sobretudo depois que me aposentei e o li novamente, agora como pesquisador do Reynolds Journalism Institute na University of Missouri School of Journalism.

Minha parceira fez a seguinte pergunta: “O que são os votos do jornalismo para o Século XXI?” Ao explorar esta questão, eu passei a entender que os votos  eram muito mais sobre a identidade do que sobre os padrões de produção do jornalista. Muitos dos aspectos ali identificados falam sobre os modelos de conduta através do uso de palavras como útil, tolerante, construtivo, autocontrolado, paciente, respeitoso, destemido e humano.

Os votos do jornalista falavam muito menos sobre o “como” do jornalismo e bem mais sobre o “quem”. Ou seja, era sobre identidade.

Os autores de Good Word dizem que o bom trabalho acontece quando a excelência e a ética se encontram, mesmo em tempos difíceis. Eles explicam que isso “não é necessariamente difícil, em termos de criar uma rotina agradável, mas difícil em termos das habilidades das pessoas em conhecerem a coisa certa a ser feita e que se mantenham nesta profissão.”

Claramente, estes são tempos difíceis para jornalistas veteranos assim como para jornalistas em potencial. A profissão está em risco e sob ataque como nunca esteve antes. Apesar disso, quando eu falo com estudantes de jornalismo e com aqueles que já atuam na área, encontro um novo sentido de determinação. A crise é cada vez mais percebida como uma nova realidade para que novas possibilidades floresçam. Existe uma nova urgência a respeito da necessidade de diversificar as vozes dentro do jornalismo e, somente assim, a profissão refletirá todas as pessoas.

Assim como os primeiros jornalistas profissionais de mais de um século atrás, os profissionais de hoje e de amanhã têm a oportunidade de criar um novo tipo de jornalismo. Para serem bem-sucedidos, esses jornalistas precisam de um senso de identidade muito claro, além de uma compreensão daquilo que os leva a fazer este trabalho. Mais especificamente: o que leva alguém a fazer jornalismo engajado?

Acho que ouvi a resposta a esta pergunta recentemente, numa convenção no Agora Center, sobre a ética do engajamento. Os participantes formulavam as características de um engajamento de sucesso, muitas das quais se encaixavam perfeitamente na categoria de “identidade”. Sob a característica do “Ser Humano”, “eles incluíam coisas como autenticidade, partilha, consciência, respeito, reconhecimento mútuo de humanidade, interconexão, reciprocidade e vulnerabilidade.

Talvez o sentido que melhor retratasse a identidade do jornalismo engajado era “Nós somos criadores de pontes”.

Jornalismo engajado: um compromisso pessoal

No melhor espírito Walter Williams, e com profunda humildade, eu ofereço uma declaração sobre o meu compromisso pessoal com o jornalismo engajado. Um “work-in-progress”: isso resume o que eu tenho aprendido com aqueles que trabalharam no The Seattle Times e no Reynolds Journalism Institute, Journalism that Matters, na University of Oregon School of Journalism and Communication e no Agora Journalism Center.

Agradeço nominalmente a Frank Blethen, publisher do Seattle Times; à Peggy Holman, co-fundadora do Journalism That Matters; ao Andrew DeVigal, do Agora Center. Agradeço a todos eles pelo suporte, pela sabedoria e pela inspiração que me deram.

Vida longa ao jornalismo de verdade!

*Michael R. Fancher se aposentou do Seattle Times em 2008, depois de trabalhar por 20 anos como editor executivo e por quase 40 anos como jornalista profissional.
Desde a sua aposentadoria, ele tem mantido suas atividades como professor e em funções administrativas ligadas ao ensino do jornalismo, prioritariamente dedicado à ética no jornalismo e à democracia.
Ele foi colaborador da Missouri School of Journalism entre 2008 e 2009 e ministrou a disciplina de Ética na University of Nevada entre 2011 e 2012. Ele ainda foi diretor interino da University of Oregon’s Turnbull Portland Center e do Agora Center for Journalism Innovation and Civic Engagement, durante 2015 e 2016. Atualmente ele é presidente do board da Washington Coalition for Open Government.
Fancher é graduado em jornalismo pela University of Oregon, possui mestrado em comunicação pela Kansas State University e MBA pela University of Washington.

Copyright
“A ética do jornalismo engajado”, de Michael R. Francher, publicada pela Fourth Estate está licenciado sob a Licença Internacional Creative Commons com Atribuição Não-Comercial e Share Alike 4.0.

Publicado originalmente em: https://www.ethicsofengagedjournalism.org/


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Se você tiver qualquer dica ou quiser compartilhar uma prática que funciona para você e não está neste material, por favor, deixe um comentário!

No ensaio intitulado A Ética do Jornalismo Engajado, o jornalista Michel R. Francher relembra os princípios da atividade jornalística e cita o criador da primeira escola de jornalismo, em 1908, Walter Williams, para pensar no papel do profissional das redações na atualidade.

Após uma densa reflexão, que se estende da relevância do jornalismo à democracia até a transformação dos paradoxos da atividade em motores da inovação, Francher propõe uma declaração de compromisso para jornalistas. O documento é composto por 12 votos que afirmam a identidade e a missão do jornalista em servir à população por meio da escuta, da colaboração, da honestidade, da parceria, da confiança e de tantos outros valores que constituem pontos nevrálgicos da profissão.

Você já se perguntou se as suas demandas informativas são iguais às do seu público? O que é prioridade para ele: agilidade ou profundidade? Uma linha editorial posicionada ou neutra? O que ele espera do seu veículo para o futuro?

Neste exercício, peça a ajuda de seus usuários para identificar formas de atendê-lo melhor e, por consequência, de aproximá-lo do seu veículo. O material foi pensado para ser aplicado presencialmente e com uma pessoa por vez. Recomendamos que registre o exercício em áudio, vídeo ou que você disponha os cartões na ordem definida pelo participantes sobre uma mesa para, então, tirar uma foto e anexar às suas anotações.

Este framework é uma adaptação do material de pesquisa do projeto The Membership Puzzle, da Universidade de Nova York, liderado pelo Prof. Jay Rosen.