Dos mesmos produtores de “minha falha é ser perfeccionista” e da expressão “com todo o respeito” que antecede falas conscientemente desrespeitosas, cresce a recorrência dos adeptos ao “posso estar enganado, mas…“.

Esta semi(pseudo?)-humildade geralmente funciona no nosso discurso cotidiano como um salvo conduto, uma permissão para dizermos qualquer coisa como certa e verdadeira, ainda que não seja.

Lembrei disso ontem de manhã, ao conversar com o Pedro Franco, pesquisador brasileiro na New York University (NYU), sobre Humildade Intelectual (HI). Numa breve busca sobre o tema, encontrei este artigo publicado em 2020 no Journal of Personality, dizendo, em síntese, que:

A Humildade Intelectual (HI) se refere a reconhecermos o quanto nossas crenças pessoais ou percepções podem estar erradas. Quanto mais baixa a HI, maior a tendência em presumir que pessoas que pensam diferente de nós são intelectual e moralmente inferiores. – thanks ao site O Futuro das Coisas

Originalmente, a pesquisa relata a percepção que temos de nossos oponentes políticos e do quanto a falta dessa Humildade Intelectual está na raiz do que hoje chamamos “polarização do debate”. O autor, Mattheu L. Stanley, PhD em Psicologia e Neurociência na Duke University, notou que as pessoas que concordam com a frase “Eu aceito que minhas crenças e atitudes possam estar erradas” são menos propensas a rotular negativamente seus oponentes.

A arrogância do cancelamento

Isso tem a ver com uma notícia que li também ontem pela manhã, referente às demissões na redação da Revista Crusoé, ocorridas ontem. Abertamente identificada com a “causa” Lava Jato e tradicionalmente apoiadora de Sérgio Moro no cenário político, o site O Antagonista, pai da Crusoé, nunca ocultou o posicionamento nem a identidade editorial do grupo. Na notícia que li, o ex-deputado Jean Wyllys, do PSOL, se referiu aos (ex)integrantes da revista e a seus simpatizantes como “uma classe dominante burra.

Para além da singeleza do adjetivo usado por Jean Wyllys para se referir a um grupo político oponente – o que pode ser pior que “burro”? bobo? feio? – o ex-parlamentar serviu como perfeito exemplar da espécie dos desprovidos de Humildade Intelectual ao anular sumariamente qualquer possibilidade de diálogo com aqueles que discordam de suas crenças. Sim, isso é o chamado “cancelamento”. E pode acontecer em qualquer direção, sob qualquer ideologia.

Existe humildade intelectual no jornalismo?

Deixando o debate político para entrar no universo jornalístico, me perguntei como o jornalista se relaciona com a Humildade Intelectual, uma vez que a informação publicada em veículos se propõe verdadeira e correta? Será que o jornalismo ocupa um patamar que está acima da Humildade Intelectual e é assim que deve ser?

Não faria sentido o editor ponderar possíveis falhas ou pedir “desculpa por qualquer coisa!” no fim de cada matéria. Até porque esta seria aquela semi-pseudo-humildade de que falamos antes. O processo jornalístico, assim como o método dialético, deveria ser a garantia de que toda informação publicada seja verdadeira. Mas também como a dialética, onde toda tese está sujeita a uma antítese que levará à síntese, o trabalho do jornalista é uma construção intelectual, um recorte da realidade (framing) segundo esse próprio jornalista.

IMPORTANTE: É importante destacar que esta reflexão não se propõe filosófica, ou seja, questionar a existência de uma só verdade tampouco sobre o que é esta verdade. Tomemos aqui verdade como compromisso jornalístico, com o fato real e não com a ficção.

O ideal de espelhar a realidade em nossos relatos fez com que nossa profissão acreditasse, por muitas gerações, que estaria dispensada da humildade intelectual. Inclusive se consolidou o contrário: jornalista precisa ter certeza daquilo que diz, sem margens a subjetividades e enviesamentos, sob pena de enfraquecer a matéria.

Notícia nunca foi lugar de discussão, mas de afirmação. Não existe notícia beta e toda correção a ser feita dói na alma do profissional, marca a fogo como o gado, brutalmente, destruindo a credibilidade longamente conquistada.

O ideal se transforma em premissa

Toda essa necessidade premente que o jornalista carrega de trazer certezas no que diz se transformou, aos poucos, de ideal em premissa. No ideal, olho para a frente, para aquilo que almejo, aonde quero chegar. Na premissa, ao contrário, eu parto de uma certeza: a de que tudo o que eu diga será a verdade, sem lugar para questionamentos ou para enquadramentos diferentes – sem espaço para a humildade intelectual.

E isso ficou explícito no comentário que um colega deixou – espontânea e anonimamente – em uma pesquisa sobre diálogo com as audiências, que temos feito aqui no Orbis Media Review (em breve será publicada):

Pouco converso com o público. Usualmente, só para corrigir alguma informação inverídica publicada por algum leitor em resposta ao que publico em meu perfil pessoal, ou para dar algum tipo de esclarecimento em caso de má compreensão na leitura das reportagens. Sempre com o fim de evitar que distorções se espalhem. No mais, evito ao máximo discussões em redes sociais e nunca opino a respeito de nada. Minha apuração está no texto da reportagem. Ela é mais importante do que qualquer opinião pessoal.

Confesso que fiquei impressionada com a assertividade do comentário do (ou da) colega!

Perceba, no texto, que tudo o que vem do público já vem manchado pelo “erro”:

… corrigir alguma informação inverídica publicada por algum leitor…

… esclarecer em caso de má compreensão na leitura das reportagens…

Ele (ou ela) só vai dialogar com o leitor para corrigi-lo. Este é seu dever porque o que ele (ou ela) diz é o correto. Perceba que ele (ou ela) sequer cogita a possibilidade de ser corrigido pelo leitor. Ou ainda, se isso acontece, não é uma interação que mereça a sua resposta.

Sua apuração que está na reportagem é soberana, única e inquestionável. – Uma vez que isso é dito de forma ampla e não se referindo a uma reportagem específica, fica nítida a baixa humildade intelectual, a indisponibilidade para dialogar com o diferente, a certeza de que a verdade está em si e que esta é uma premissa, não um ideal.

Por que isso é tão grave?

A gravidade de uma baixa humildade intelectual não leva apenas ao cancelamento do oponente, mas fere valores que a própria comunidade jornalística defende com veemência: a começar pela democracia e pela pluralidade de ideias, pela riqueza do debate.

Mais grave ainda é a falta do reconhecimento de que, sim, podemos estar redondamente enganados, de que somos falíveis e de que algo não se consolida como verdade porque saiu no jornal ou na TV. Até porque nossa própria apuração pode estar enviesada, mesmo sem querer, pelo simples fato de ser… nossa!

Queremos, sempre, acertar. Este é o ideal. Mas sentir que somos infalíveis é tão grave quanto errar. Pior, talvez. A humildade intelectual pode ajudar a crescermos na intenção, no compromisso, no esforço – mas nunca na premissa – de acertar.

O que eu ganho com a Humildade Intelectual?

Ganha novas ideias. Não é o caso de absorver o ponto de vista de quem confronta o seu relato. Você pode continuar discordando de seus oponentes. Mas o fato de se expor a perspectivas opostas leva a sua mente a aprimorar o seu ponto de vista, desenvolvendo um raciocínio mais refinado, que buscará sempre superar o seu opositor.

Esta tentativa de superação não pode ser confundida com a Humildade Intelectual em si, ao contrário. Ela é o movimento natural da mente em busca de uma readequação do pensamento e, se for feito a partir da anulação do ponto de vista contrário, só reforçará a arrogância do indivíduo. O aperfeiçoamento do raciocínio acontece a partir do reconhecimento – temporário ou permanente – de que o seu oponente pode estar certo. Só assim você identificará os pontos onde precisa melhorar a sua construção.

Outra pesquisa na área da Psicologia, da Universidade da Califórnia, concluiu que adultos intelectualmente humildes desenvolvem maior capacidade cognitiva, são mais criativos e aceleram processos de aprendizagem. Para chegar a este resultado, porém, tiveram que ouvir e pensar a respeito de pontos de vista radicalmente opostos aos seus.

Teste sua Humildade Intelectual

Este teste, recomendado por vários pesquisadores, foi desenvolvido por um… jornalista! Shane Snow já publicou na GQ, New Yorker, Wired e Fast Company sobre inovação e desenvolvimento humano. Já desenvolveu reportagens investigativas sobre tráfico de armas e corrupção governamental. O teste armado por ele é amplo e avalia a Humildade Intelectual do participante em âmbito geral da vida.

Nós preparamos uma adaptação para jornalistas, a partir do teste The development and validation of the Comprehensive Intellectual Humility Scale, publicado pelo Journal of Personality Assessment. Descubra o seu score de Humildade Intelectual.

BAIXAR O TESTE DE HI PARA JORNALISTAS (pdf)

 

Autor

Jornalista, Doutora em Comunicação Social. Editora Orbis Media Review. Professora e Pesquisadora do Master Negócios de Mídia.