A dependência de uma plataforma externa para geração de tráfego sempre foi uma pedra no sapato de sites jornalísticos. Primeiro, as metas de cliques só eram batidas se houvesse chamada de conteúdo em algum grande portal. Depois foram as redes sociais. Agora, numa espécie de “revival” pré-Twitter, a busca orgânica brilha como a maior fonte de audiência e contratamos especialistas em SEO a peso de ouro. Eles são os profissionais que trarão pão à nossa mesa, afinal. Bom, pode não ser assim.

Mais do que aprender a driblar as artimanhas dos algoritmos, os veículos que contam com buscadores para distribuir seus conteúdos devem estar atentos a uma mudança de ordem do discurso: do institucional ao individual. No último Google I/O – conferência anual que a Alphabet promove com desenvolvedores do mundo todo – foram apresentados novos filtros de pesquisa protagonizados por Inteligência Artificial. Um deles é o Perspectives, que se propõe a encontrar “informações úteis de pessoas em fóruns e sites de mídia social”. Estarão no radar Reddit, Stack, Overflow, YouTube, blogs pessoais e outros sites que “oferecem aos usuários respostas de humanos reais”.

Nas próximas semanas, quando você pesquisar por algo que possa se beneficiar das experiências de outras pessoas, poderá ver um filtro de Perspectivas na parte superior dos resultados da pesquisa. Toque no filtro e você verá exclusivamente vídeos longos e curtos, imagens e postagens escritas que as pessoas compartilharam em fóruns de discussão, sites de perguntas e respostas e plataformas de mídia social. Também mostraremos mais detalhes sobre os criadores desse conteúdo, como nome, foto de perfil ou informações sobre a popularidade de seu conteúdo. – blog do Google

Microjornalismo

Em síntese, é mais visibilidade ao conteúdo do usuário. O Google chama isso de “Joias Escondidas da Internet”. Em 2013 eu chamava isso de microjornalismo na minha tese – informações mais relevantes ao dia a dia de um indivíduo do que aquelas publicadas em veículos. Você teve o seu canal do YouTube hackeado? Um fórum com outras pessoas que passaram pelo mesmo problema irá ajudá-lo mais do que o próprio Google! A transformação é esta: menos discurso institucional, mais discurso pessoal.

Há valores e riscos nesta virada de chave. O maior valor é a micro segmentação dos assuntos, o que tornará a experiência do usuário muito mais precisa e aplicável. Afinal, não há nada melhor do que aprender com a experiência de “outra pessoa como você”. Entre os riscos, o anonimato da procedência da informação é um dos mais evidentes. Só perde em grau de periculosidade para o fato de que os resultados de busca no Perspective ficarão a cargo do Bard, sistema de IA do Google.

Tá tudo ali! Não precisa nem clicar.

O Perspective, portanto, é  um dos desdobramentos da SGE – Search Generative Experience, que representa uma mudança ainda maior no mecanismo de busca. O uso de Inteligência Artificial generativa nas páginas de resultado do Google são uma resposta ao ChatGPT, que é capaz de responder diretamente ao usuário ao invés de indicar-lhe links onde ele poderá encontrar a resposta. Estamos diante de uma busca orgânica que pretende satisfazer o público sem a necessidade de ele clicar em mais nada.

Então quer dizer que todo o tráfego que o Google traz aos sites jornalísticos hoje em dia pode desaparecer? Exatamente. Assim como desapareceu o tráfego gerado por portais e, depois, por redes sociais, a audiência orgânica tende a diminuir à medida que a Inteligência Artificial não mais mostrar – ou mostrar de forma extremamente coadjuvante – links para veículos. Ao invés disso, a SGE trará a informação de vários sites para a página de resultados de busca, compondo um texto que responda precisamente aquilo que o usuário perguntou.

Os responsáveis por esta tendência de não clicar mais em links de busca não são apenas o Google e a IA, mas os próprios usuários. Em um estudo realizado na Suíça, mais da metade do público que participava de um experimento jornalístico se manteve no próprio ambiente do Google ao procurar sobre uma notícia, porque se satisfez com as informações do Discover.

Estes dois anúncios feitos durante o último Google I/O deixaram bem claro que a big tech está olhando para o lado oposto ao dos objetivos dos veículos jornalísticos. Enquanto empresas de mídia querem usar o Google para gerar cliques a seus conteúdos em terceira pessoa, a web cresce na direção do discurso pessoal, personificado e acessível sem a necessidade de um clique.

Jornalismo em Primeira Pessoa e Confiança

Faz pouco tempo que publiquei aqui no Orbis um artigo sobre Jornalismo em Primeira Pessoa. Vai ser ele a salvação da lavoura? Provavelmente, só ele, não. Mas este modelo caminha na direção para onde o futuro se projeta.

Ao contrário da SGE e de suas páginas de resultado com respostas completas e praticamente sem links, a personificação da linguagem editorial é uma evolução que está ao alcance das redações. Não foi o Google que inventou essa história de proximidade ser condição para haver confiança. É do humano confiar em outro humano; uma questão de sintonia, conexão e, quem sabe, até de empatia.

A crise das instituições sociais e a retribalização das relações humanas é real e aparece em uma pesquisa realizada pelo Gallup e pela Knight Foundation, no começo deste ano. O estudo mostra que quase 90% dos americanos seguem ao menos um indivíduo público em quem confiam para obter informações. 

Enquanto a confiança no governo, em veículos de mídia, em empresas e no sistema judiciário despenca, usuários adultos acreditam cada vez mais em outro usuário, seja ele um jornalista, uma celebridade, um especialista acadêmico, um influencer ou um líder empresarial.

O Google está sabendo capitalizar em cima desse traço tão atual do comportamento humano. “Estamos descobrindo que muitas vezes nossos usuários, especialmente alguns de nossos usuários mais jovens, querem ouvir outras pessoas. Eles não querem apenas ouvir instituições ou grandes marcas.”, disse a vice de pesquisas do Google à The Verge, Liz Reid.

O que esperar no médio prazo?

Não serão apenas os sites jornalísticos que sentirão o impacto de uma busca generativa sem a necessidade de cliques. Se boa parte dos anunciantes do Google procuram leads e conversões, é plausível perguntar-nos onde ficará a “jornada do cliente”. A resposta, no entanto, não é tão difícil de especular: o Google se torna o maior marketplace do mundo, nocauteia a Amazon e se consolida como sinônimo de Internet.

Os veículos online podem continuar fornecendo seu conteúdo gratuitamente ao Discover, para alimentar a IA com páginas de resultados completos ao usuário. Ou podem redirecionar toda essa energia de trabalho para fortalecer seus próprios produtos, criando um jornalismo capaz de conviver nessa nova realidade.

Autor

Jornalista, Doutora em Comunicação Social. Editora Orbis Media Review. Professora e Pesquisadora do Master Negócios de Mídia.