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O programa de demissões voluntárias do Washington Post, anunciado há alguns dias, pegou o mercado com razoável surpresa. A CEO interina, Patty Stonesifer, enviou um memorando aos funcionários oferecendo 240 desligamentos “com incentivos generosos” em diferentes áreas da empresa, cerca de 10% da força de trabalho do veículo. 

Sim, o Post conta hoje com um quadro de funcionários próximo de 2.500 profissionais. Essa equipe tão numerosa quanto qualificada é uma das marcas da era Bezos. Quando o dono da Amazon comprou o WP, a redação contava com 580 funcionários. Oito anos mais tarde, o headcount ultrapassava a marca dos 1.000 profissionais em 26 países, a maior da história da empresa. E esses são números apenas da área editorial, que passou a contar com engenheiros, cientistas de dados, designers de produto e programação responsáveis pela transformação do gigante da mídia em uma empresa de tecnologia.

A virada de chave do Post foi aplaudida pelo mercado editorial e consolidou o veículo como referência internacional na indústria. Em 2018, o WP foi reconhecido pela Fast Company como uma das “empresas mais inovadoras do mundo”, por implementar o padrão Amazon ao ecossistema de notícias. Por “padrão Amazon” se entendeu uma revolução tecnológica de produto que, realmente, se concretizou. Mas enquanto o produto Washington Post se aperfeiçoava brilhantemente, as notícias continuaram trazendo as mesmas pautas, com a mesma linguagem, as mesmas fontes oficiais, ou seja, uma redação pirotécnica fazia o mesmo jornalismo de sempre.

A sintonia entre Jeff Bezos e o publisher, Fred Ryan, funcionou à perfeição e, juntos, se comprometeram com o desenvolvimento de um “mindset digital” na companhia. Eles concordavam em aumentar o alcance do jornalismo feito pelo Post, mas não questionaram se havia demanda de mercado para tal ampliação. Eles estavam dispostos a adotar – e, de fato, adotaram – formatos inovadores de forma pioneira: realidade aumentada, conteúdo em áudio, conteúdo original em vídeo… Foram construídos três estúdios que permitiram ao Post lançar um canal FAST (streaming digital gratuito com anúncios), com programação 24 horas em maio deste ano.

Impossível esquecer do empreendimento com o publicador ArcXP, uma criação que lançou o Post ao circuito de provedor de SaaS (software as a service) e se espalhou por mais de 1.500 sites de inúmeras redações, em 24 países, como o Chicago Tribune, Boston Globe, LA Times, El País, Infobae, Le Parisien e também no Brasil, com o Estadão

A visão de produto finalmente chegava à indústria jornalística. A equipe do Washington Post passou a operar com metodologias ágeis; scrums, sprints e squads entraram para o vocabulário do dia a dia da redação, que fazia jornalismo com um olho no conteúdo e outro nos KPI’s. 

Até aí, nada mais adequado à digitalização do consumo e da produção de informação. Ryan chegou a declarar que a mescla necessária entre jornalismo e tecnologia é uma relação ganha-ganha: se o jornalismo não é excelente, não importam os avanços da tecnologia; e se o jornalismo é fantástico, mas a tecnologia não ajuda, então não há vencedores. “Por isso contratamos e expandimos nossa equipe de engenharia”, concluiu. E esse é o ponto onde todo o esforço pode ir por água abaixo.

O Post acreditava que seu jornalismo era fantástico ou excelente. O Post entendeu que o que lhe faltava era tecnologia, então empregou todos os esforços nessa direção. Não questionou o jornalismo que fazia ou – pior – não considerou a hipótese de que a relação das pessoas com o jornalismo estava sob forte transformação

Não se trata de o Post estar fazendo mau jornalismo, mas de fazer o jornalismo de sempre. De entender que a população precisa daquelas informações, de que tem tempo para consumi-las, de que não há outra fonte para obtê-las. E esse é um questionamento que qualquer veículo jornalismo deve fazer a si mesmo.

Sempre que o WP surge em discussão de sala de aula, ouço gestores de empresas de mídia comentando que é fácil para o veículo ser uma referência mundial, afinal, o dono é um bilionário! Certo. Mas Bezos não é apenas um bilionário. Bezos é um empresário e, como tal, se preocupa com o que é feito com seus bilhões, espera que eles rendam outros tantos, até para fazer a roda continuar girando.

Ismael Nafría publicou em sua newsletter, de 15 de outubro: “Jeff Bezos, dono do Post, afirma que ele deveria ser administrado como uma empresa, não como uma instituição de caridade”. Dessa declaração haveria surgido a medida das demissões voluntárias. As projeções, segundo Patty Stonesifer – CEO que assumiu interinamente desde a saída de Ryan, em junho deste ano -, as projeções de venda de assinaturas e de faturamento com publicidade digital haviam se revelado “demasiadamente otimistas”.

Paul Farhi, crítico de mídia que publica no próprio Washington Post, revelou no seu perfil do X-Twitter que, desde 2021, a audiência do jornal de Bezos registrava queda de 28% e as assinaturas diminuíram 15%. O impacto dessa retração no faturamento foi de queda de 10% no impresso e de 30% na publicidade digital. 

O cenário não é exatamente novo; o Post já havia encerrado o último ano no vermelho. Para o final de 2023, a previsão é de um fechamento com perda de US$ 100 milhões. As demissões já haviam começado em janeiro, quando a redação cortou 50 postos de trabalho. Se sabe, infelizmente, que o Post não estava nessa sozinho e que todo o setor de mídia norte-americano sofre com índices de demissão maiores do que o registrado no período da pandemia. Na verdade, a baixa no mercado é recorde desde 2016. CNN não ficou de fora (idem para Brasil), nem a Vox Media ou mesmo a Gannett (que recorre à cobertura especializada em Beyoncé e Taylor Swift para “salvar o jornalismo local”).

Mas o Post estava seguro de que o seu jornalismo era fantástico ou excelente. Nem Bezos questionou. Nas reuniões periódicas que mantinha com a liderança do veículo, ele queria saber dos fluxos de assinatura e do tempo de carregamento do site – aspectos tecnológicos e de business que impactariam no faturamento. Just. Não se envolvia em questões editoriais. 

Era importante que um conteúdo do post fosse carregado rapidamente, afinal, as novas gerações não têm a mesma percepção de tempo do que os leitores tradicionais do Post. E de olho nelas, em 2021 surgiu o NextGeneration, uma iniciativa do WP para renovar seu público. Na ocasião do lançamento, Fred Ryan anunciou: “Nós entregamos o jornalismo do Washington Post ao mais amplo público nacional e global em nossa história, com muitos leitores mais jovens aproveitando o conteúdo do Post em sites e em formatos que não existiam há alguns anos” – perceba a prioridade do formato sobre o conteúdo, da visão quantitativa sobre a qualitativa. Como se bastasse estar no TikTok para que um jovem fosse se interessar por um vídeo de 15 segundos sobre política internacional, por outro jovem falando sobre a guerra na Ucrânia, por uma dancinha explicando a reforma tributária!

Quando Fred Ryan deixou o Washington Post, há três meses, seu discurso de despedida celebrou o fato de o jornal ter investido em suas “áreas de política e reportagem investigativa”, porque talvez ele ainda acredite que novas audiências sejam atraídas pelo mesmo conteúdo que os jornais publicam há mais de um século.

Fred Ryan relembrou como um grande feito a expansão da cobertura de tecnologia e games, porque talvez ele ainda entenda que novas audiências preferem consumir conteúdo sobre algo que gostam, ao invés de usar algo que gostam. (Já publiquei, aqui no Orbis, um artigo em que analiso a diferença brutal entre a estratégia do NYT de adquirir um jogo e do WP, de criar um suplemento sobre jogos).

Fred Ryan pontuou a “conquista” de ter criado um departamento dedicado à cobertura de bem-estar e de ter expandido a cobertura climática do Post, porque talvez ele ainda tenha o próprio veículo onde trabalhava como referência de navegação, ao invés do Google.

Fred Ryan projetou, ainda, que o futuro que espera para o Post é de “ser um pacote único com tudo incluído e sempre tentar torná-lo melhor, em vez de criar vários produtos e vender várias assinaturas”, porque talvez ele não tenha lido A Cauda Longa, de Chris Anderson, explicando a hipersegmentação do mercado digital.

Fred Ryan não parece ser um mau sujeito, ao contrário. Conduziu anos dourados no WP. Só não ponderou as mudanças profundas na relação que as pessoas têm com o jornalismo: mudanças de interesse, de relevância, de tempo, de prioridade, de oferta-e-demanda de informação, de queda de credibilidade, de news avoidance, do desgaste das narrativas, do sobrecarga informativa.

Ryan, como Bezos, investiu tanto em tecnologia que terminou esquecendo do jornalismo e de que jornalismo é ser humano, em tudo o que há de mais contraditório, surpreendente e previsível.

A história recente do Washington Post nos deixa uma lição: não basta que o dono seja bilionário. É preciso pensar em gente.

O Orbis Media Review acaba de lançar mais uma pesquisa sobre consumo de mídia no Brasil. O estudo Consumo de Notícias por Universitários Brasileiros mostra a relação que estudantes do ensino superior, de instituições públicas e privadas, localizadas nas cinco regiões do país, tiveram com o noticiário.

A coleta dos dados foi feita entre 6 de setembro e 21 de novembro de 2022, período em que aconteceram os dois turnos das eleições presidenciais, além de outros fatos de grande projeção, como a morte da Rainha Elizabeth II, o Rock’n Rio, a morte do ator Guilherme de Pádua, os debates eleitorais e as manifestações com o bloqueio de estradas pós-segundo turno, além dos preparativos para a Copa do Mundo no Qatar.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Notícias sobre estes e outros temas, publicadas em sete grandes veículos generalistas, foram alvo da análise dos 1.030 participantes. Mais do que classificar o impacto de tais relatos em suas vidas, os estudantes disseram o que os leva a procurar por notícias e quais suas expectativas em relação às publicações.

Conteúdo útil, curioso e que “contribua com o meu desenvolvimento”

A curiosidade aparece como principal motivação e, também, como o maior efeito que o noticiário exerce sobre cada indivíduo. Em segundo lugar, os estudantes querem notícias que os ajudem no cotidiano, mas apenas 2% das chamadas que eles analisaram foram classificadas como sendo capazes de “ajudar no meu dia a dia“.

Um grupo de 62% de universitários mencionou que se sente atraído pelo noticiário que contribui com o seu desenvolvimento. Por outro lado, um quarto das análises que eles fizeram sobre as notícias reportou que tal conteúdo “é indiferente para mim“.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Ainda assim, cerca de um terço da amostra informou acessar, assistir ou procurar ativamente algum veículo jornalístico, pelo menos, uma vez por dia. Já um quarto dos universitários admitiu não ter o hábito de consumir notícias.

Estes jovens adultos, em sua maioria matriculados em universidades públicas, lembram que a última notícia que viram foi em alguma rede social (36,6%) ou em um veículo jornalístico (34,5%). Whatsapp ou Telegram somaram apenas 2,5% das respostas quanto à fonte da informação.

Baixo impacto do noticiário

Poucos souberam contar com algum detalhe sobre a última notícia que haviam visto. Em um campo aberto para resposta, muitos pareceram lembrar vagamente sobre o relato mais recente com que tiveram contato, em sua maioria, no mesmo dia em que participaram da pesquisa. Quase 4% dos participantes admitiram não saber ou não lembrar da última notícia a que foram expostos.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Embora rejeitem a negatividade do noticiário, foi notável a quantidade de graduandos que mencionaram alguma notícia sobre violência como a última que viram. Mas um destaque maior fica por conta de acontecimentos locais ou referentes ao universo da profissão à qual se preparam. Alguns exemplos são:

[Pergunta] Qual foi a última notícia que você viu?

  • Cachorro na França é o primeiro animal suspeito de varíola de macaco” (estudante de Zootecnia)
  • Repórter que foi atingido por uma pedra por um bolsonarista” (estudante de Jornalismo)
  • Sobre a interpretação jurídica” (estudante de Direito)
  • Raio atinge e mata metade das cabeças de gado do local” (estudante de Engenharia Agrônoma)
  • Informações esportivas” (estudante de Educação Física)
  • Crítica ao imposto de renda” (estudante de Ciências Econômicas)
  • Da chuva de granizo em Minas Gerais” (estudante de Geografia)

É natural que o noticiário generalista não contemple, rotineiramente, pautas específicas de uma ou outra área e para isso está a mídia segmentada. Mas quando se fala em “notícias” ou mesmo em “mídia”, de modo geral, a política domina a agenda e aí se cria uma repulsa que os números confirmam.

O grupo mais representativo de jovens que se identificam com a esquerda (39%) dizem que a mídia é de direita. Por sua vez, 42% dos estudantes de direita percebem a cobertura da maior parte dos veículos generalistas enviesada à esquerda. A imparcialidade – tão necessária, segundo as respostas dos próprios participantes – é um atributo que apenas um quinto da amostra percebe.

Um quarto da amostra se diz neutro, ideologicamente. Isso pode ser um indicativo de que há um grupo importante de jovens adultos que se abstêm do debate polarizado. Entre eles, 44% declararam não saber avaliar se a cobertura de 11 veículos brasileiros de abrangência nacional estaria enviesada ou não. Vale sublinhar que isso não significa que eles notem isonomia no noticiário, mas provavelmente preferem ficar à margem da pauta predominante e se concentrar em assuntos de interesse e impacto imediatos.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

 

Sites indianos começaram a sexta-feira (14) anunciando o fim do Instant Articles, tecnologia lançada pelo Facebook em maio de 2015 para carregamento rápido de sites em mobile. Um alto executivo da Meta teria confirmado a informação à imprensa indiana, enquanto alguns jornalistas brasileiros começavam a receber o comunicado oficial da decisão.

O Instant Articles do Facebook será fechado em abril de 2023” e “Grande decisão do Facebook em relação ao Instant Articles: o serviço será fechado, anunciam os veículos indianos.

Apesar de saberque nossa comunidade valoriza compartilhar e discutir ideias e notícias” e ainda que se diga muito preocupadaem garantir que um ecossistema de notícias e jornalismo saudáveis possam prosperar“, a Meta enviou hoje o seguinte texto a redações: “Avaliamos constantemente nossos produtos para garantir que estejamos focados nas experiências mais significativas e impactantes para as pessoas no Facebook e o futuro do nosso negócio. Temos visto cada vez mais que links para artigos de notícias e outros conteúdos não são a razão pela qual a grande maioria das pessoas visita o Facebook.

instant articles

Acima, trecho do texto de lançamento do Facebook Journalism Project, publicado em 11 de janeiro de 2017.

A inconstância com que a Meta vem tratando suas ações no mercado demonstra uma completa falta de coerência estratégica. Em bom português: Zuckerberg e time nunca pareceram tão perdidos e está cada dia mais difícil acreditar em qualquer coisa anunciada pela empresa.

Em menos de 11 meses, a Meta copiou o Clubhouse, lançou sua plataforma de podcasts, fez um tremendo barulho e jogou tudo fora.

Há 10 dias, a empresa anunciou o fim de outro produto de cunho editorial – o Bulletin, plataforma de newsletters que se propôs a concorrer com o Substack. A iniciativa, que entrou em operação em junho de 2021, durou quase 16 meses, tempo suficiente para atrair escritores estabelecidos, como o colunista da revista New Yorker, Malcolm Gladwell e o professor universitário da área de saúde pública, James Hambin, que costumava escrever para a The Atlantic.

Bulletin foi apresentado como uma solução para veículos locais, que ouviram da Meta o compromisso de que a plataforma pagaria US$ 5 milhões para quem usasse o serviço de newsletter. O encerramento do Bulletin veio após a empresa sinalizar aos publishers do mundo todo que não trataria mais o conteúdo jornalístico como prioridade. Isso significou o encerramento de parcerias com veículos que haviam assinado acordos que chegavam a US$ 10 milhões por ano, em troca da produção de conteúdo para alimentar a aba de notícias da rede social.

Não é novidade que, para ser fiel ao seu conhecido modus operandi bipolar e predatório de fazer negócios, a Meta está focada em combater o TikTok e em concretizar o projeto do Metaverso – coisa que nem os próprios funcionários da empresa querem usar. Assim como agiu com a Zynga lá em 2010, a Meta simplesmente vira as costas para organizações que se tornaram dependentes de seu ecossistema. É o caso de veículos jornalísticos, cuja audiência esteve atrelada, durante vários anos, à circulação de links no Facebook.

O alcance dos posts com link continua diminuindo pelo menos desde 2018, quando a rede anunciou mudanças no algoritmo que privilegiariam publicações de indivíduos sobre conteúdos de empresas. Ainda assim, muitos veículos pareciam ter esperança no que havia sido feito especialmente para eles: o Instant Articles, lançado no recente 2015.

Vida e morte do Instant Articles

Para alavancar o produto, o Facebook convenceu 72 veículos de mídia – como os gigantes New York Times, BBC, BuzzFeed, Guardian e National Geographic – a depositarem seus conteúdos no ambiente da plataforma. O Washington Post chegou a dizer que transferiria 100% do seu conteúdo às páginas do Instant Articles. Naquele tempo, a rede ainda gerava um volume de tráfego para sites de notícias na casa dos 40%, à frente da audiência proveniente do Google. Era esperado que os mesmos resultados positivos fossem gerados caso o veículo passasse a usar o Instant Articles. Mas não foi bem assim.

O pioneiro a abandonar o sistema foi o inglês The Guardian, alegando que depositar seu conteúdo no ambiente de páginas leves do Facebook colidia com a estratégia do veículo. Na ocasião, um porta-voz do jornal britânico justificou assim a decisão de sair do Instant Articles:

Nosso objetivo principal é trazer o público para o ambiente confiável do Guardian para apoiar a construção de relacionamentos mais profundos com nossos leitores e aumentar o número de membros e contribuições para financiar nosso jornalismo de classe mundial.

Em 2018 e à medida em que os publishers percebiam que o Instant Articles não fazia sentido, o êxodo levou mais da metade dos parceiros iniciais a abandonarem o formato. Entre as principais razões apresentadas pelos veículos estavam:

  • Baixa monetização. Ainda que tenham experimentado o paywall no Instant Articles, muitos editores constataram que o faturamento em seus próprios sites era maior.
  • Pouco controle sobre os anúncios. Após a polêmica sobre “para quem é contabilizada a audiência das páginas do Instant Articles”, a possibilidade de veicular anúncios serviu de alento temporário às empresas de mídia. Mas logo veio a decepção de não poder controlar estes anúncios.
  • Falta de dados. O ouro contemporâneo ficou retido nas mãos do intermediário. Ao negar acesso a informações referentes à navegação no Instant Articles, o Facebook frustrou publishers que podiam estudar o comportamento do público em seus próprios sites, a fim de convertê-los em assinantes ou de realizar qualquer ação de marketing.

E assim, Forbes, Quarz, Hearst Bloomberg, ESPN, WSJ, Financial Times, CBS News, NBC, NYT e tantos outros players abandonaram a plataforma.

Apesar disso, é preciso dizer que o Instant Articles ostentou uma longevidade cada vez mais rara entre os produtos da Meta. Embora o encerramento efetivo do serviço esteja marcado para abril de 2023, nenhuma nova página poderá aderir ao formato a partir de hoje. De acordo com o comunicado, os links passarão a levar o público às versões mobile dos respectivos sites.

O mais grave, no entanto, não é o encerramento do Instant Articles – algo, digamos, bastante previsível dado o o afastamento que a Meta tomou das empresas de mídia. Como de costume, o pior ficou com os veículos que ainda dependem, em alguma medida, da audiência gerada pelo Facebook.

Ninguém pode ver o que não é mostrado

Mesmo que esteja em queda livre, este tráfego faz diferença no faturamento publicitário – também decrescente – das operações digitais das empresas jornalísticas. Agora note o abismo que há entre a Meta e os publishers: o comunicado emitido pela plataforma afirma que “Atualmente, menos de 3% do que as pessoas ao redor do mundo veem no Feed do Facebook são postagens com links para artigos de notícias.” E como mais pessoas poderão ver, se o alcance destes posts é derrubado pelo algoritmo?

O porta-voz da empresa piora tudo ao dizer que “não faz sentido investir demais em áreas que não alinhar com as preferências do usuário”.

A Meta quer fazer parecer orgânico um movimento que ela mesma orquestrou, com total irresponsabilidade econômica, social e um duplo discurso vergonhosamente antiético, com o qual a empresa ainda tenta seduzir editores.

Como disse um grande jornalista amigo, a era do click acabou. Ela acaba junto com a rede social, que agora se consolida como espaço de compras e de entretenimento – para o desespero de muitos veículos.

As lições parecem evidentes, mas vale recordar:

  • Enquanto condicionarmos o desempenho do nosso trabalho a produtos terceiros, nosso futuro será mais incerto do que o necessário.
  • Por mais que a bola da vez seja produzir vídeos na vertical, CALMA! Não saia fazendo tudo o que o outro diz. Pergunte-se o que seu veículo ganhará, concretamente, com isso. Lembre-se que nada disso pode valer daqui a alguns meses, a exemplo dos podcasts, clubhouses e newsletters da Meta.
  • A Meta prova, com tais episódios, não ser uma empresa digna de confiança. Não construa uma estratégia com base em uma organização incapaz de sustentar produtos por um ano no mercado – ainda que o faça a partir da destruição de concorrentes originais.
  • Por mais cool que sejam seus formatinhos, nem sempre são “seus” (na verdade, a maioria é cópia, vide Snapchat e Stories).
  • Tenha cautela com quem destrói o seu ecossistema de negócios, se apropria do seu modelo de faturamento e brilha posando como sua “parceira”.
  • Não procure um meio substituto para devolver-lhe os cliques perdidos com o fim do Instant Articles. SEO sempre ajudou, mas o Google é apenas outro produto terceiro do qual o jornalismo se tornará dependente. (Em muitos casos, já está!)
  • É urgente repensar sua estratégia de produto (editorial, inclusive) para fugir da dependência, recuperar o contato direto com suas audiências e transformar isso em receita (não apenas por assinaturas).

Aproveite! O fim do Instant Articles pode ser uma excelente oportunidade para inaugurar um novo momento do seu veículo.

 

O último vendaval que varreu São Paulo deixou o bairro onde moro sem energia elétrica. No meio do apagão, cheguei do trabalho, ainda sem saber quanto tempo levaríamos sem luz. Esperei uns minutos na portaria, dei uma volta nas redondezas, mas duas horas se passaram e a vizinhança continuava às escuras. Não teve jeito. Encarei 18 andares de escada. Neste tempo, procurei o noticiário; precisava saber o que houve, em quanto tempo voltaria a luz, já que a concessionária não sabia dizer. No entanto, tudo o que encontrei foram notícias de três dias, uma semana atrás sobre corte de energia em São Paulo.

Na manhã seguinte li uma chamada dizendo “Ventania deixa vários bairros de São Paulo sem luz“. De fato, a matéria contava quantos bairros, moradores sofreram corte de energia, quantas árvores tinham caído, quantos acidentes de trânsito foram registrados naquela noite, um horror. Então me perguntei: de que me serve toda esta informação? E de que serve chegar agora?

Veículos norte-americanos dedicams-se ao conteúdo prático

Lembrei do Thomas Baekdel, analista de mídia dinamarquês, que ironiza a relação entre veículos locais e suas audiências como uma situação bizarra em que você pergunta a um amigo:
– Como se faz arroz?
E seu amigo responde:
– Sim, tem muita gente fazendo arroz!

É exatamente isso que acontece em tantas reportagens que contam o sofrimento de passageiros que tiveram seus voos cancelados e passaram dias sem tomar banho, dormindo no chão de algum aeroporto. Ou nas denúncias de falta de saneamento básico, com a imagem tão cliché quanto triste de crianças brincando ao lado de um esgoto a céu aberto. O que os personagens destas pautas poderão fazer com a informação destas matérias? Quais caminhos lhe sugerimos?

É verdade que as denúncias estão na essência da reportagem e ali devem estar. Mas somente denúncias já não sustentam a relevância que o jornalismo precisa voltar a ter na rotina da população. Mais do que contar histórias, precisamos ajudar quem recorre aos nossos veículos. Por isso celebro um movimento de jornais, sites e emissoras de rádio de jornalismo local dos Estados Unidos que estão reorientando suas propostas editoriais à produção de conteúdo prático para auxiliar os cidadãos em situações concretas, até mesmo urgentes.

As pautas e ações vão desde “como se preparar para um furacão“, trabalhada via WhatsApp e SMS pela rádio NuestroEstado.org, na Carolina do Sul, até um ebook preparado pelo Wall Street Journal sobre “como lidar com a dívida estudantil”. Mas chegar a estes temas requer uma comunicação direta e constante com os moradores da região onde o veículo circula. E por comunicação digo, sobretudo, escuta.

Para poder ajudar, é preciso ouvir

O fundador da rádio NuestroEstado, Fernando Soto comentou em um painel promovido pelo American Press Institute, em junho deste ano, que fazer um jornalismo prático, de informações úteis e aplicáveis exige que o jornalista vá além das suposições de assuntos que ele acha importante tal comunidade saber, apenas com base na experiência e na intuição profissional.

Imaginar quem são as pessoas a quem dirigimos nossos trabalhos é uma prática antiga e, lamentavelmente, ainda comum em muitas redações. O jornalista Jacob Nelson comenta, no livro Imagined Audiences (2021):

“Os jornalistas normalmente conceituam o público como pessoas sem nome, uma massa sem rosto, limitada apenas por sua decisão compartilhada de ler, assistir ou ouvir notícias. (…) Ao imaginar o público como ‘um público indiferenciado e bolha amorfa’, os jornalistas ficaram livres para recorrer ao que consideravam sua própria experiência profissional, ao decidir o que escrever e como escrever.”

(Jacob Nelson)

Como ser relevante para estas pessoas sem conhecê-las? E como conhecê-las sem ouvi-las? Dados do Google Analytics não contam as dores das audiências, não dão pistas sobre como podemos ser úteis a elas. Nelson também alerta: “se as organizações de notícias ouvirem o público mais explicitamente, os veículos ganharão mais confiança das pessoas e, então, se tornarão mais interessantes a elas, já que estas pessoas irão compreender melhor os conteúdos publicados.”

Esta escuta pode não ser simples, tampouco agradável no começo, sobretudo porque passamos as últimas décadas distantes da população. Mas em algum momento essa conversa precisa começar para tornar-se sistemática. “A abordagem de um jornalismo público à produção de notícias inclui ouvir histórias e ideias dos cidadãos, dando visibilidade a seus problemas no sentido de ajudá-los a resolvê-los“, explica Nelson.

Talvez nos anos 90 a justificativa de “dar visibilidade” a algo que está errado ainda fosse suficiente para garantir a relevância do jornalismo. No entanto, no mundo coberto por telas, há visibilidade demais e atenção de menos. É preciso ir além e ajudar os indivíduos de uma forma que eles sintam o impacto de nossa ajuda em sua realidade.

O professor Jeff Jarvis, da Universidade de Nova York (CUNY), fez a seguinte proposta, lá em 2016, para toda a indústria jornalística:

“Ao invés de continuar mantendo nossa fábrica de conteúdo, cujo business é vender audiências por toneladas, imagine se as notícias fossem um serviço que almeja ajudar as pessoas a melhorarem suas vidas e suas comunidades através da conexão não apenas entre elas e a informação, mas também entre elas próprias, com um modelo comercial construído sobre o valor, no lugar de volume.”

(Jeff Jarvis)

Um caso que se tornou exemplar aconteceu entre 2018 e 2019,  no Condado de Amador, na região de Sacramento, Califórnia. Uma emissora de rádio regional, a CapRadio, descobriu que a localidade tinha um dos maiores índices de suicídio do país. Boa parte dos 37 mil habitantes era de idosos e isso levou a equipe da rádio a ouvir aquela comunidade mais de perto. A carência de profissionais de saúde mental na região contribuía com o problema e resolver isso estava fora do alcance dos jornalistas. Mas falar sobre o tema e – mais do que isso – fazer os habitantes conversarem sobre suicídio foi uma tarefa abraçada com gosto por aqueles jornalistas. Reuniões, corrida de prevenção, podcasts com entrevistas e um “Kit Conversação” (guia com perguntas e roteiro para falar sobre suicídio) compunham um pacote de ações em uma situação, literalmente, de vida ou morte.

Outro exemplo a ser seguido foi protagonizado pelo Texas Tribune. Em fevereiro de 2021, o Estado foi atingido por uma nevasca que provocou corte de energia elétrica, de fornecimento de água e a conexão de internet ficou instável durante vários dias. O veículo, então, abriu um canal de comunicação via SMS com a população, primeiramente, para receber mensagens com dúvidas e relatos de problemas pontuais. Os usuários se registravam no serviço de SMS e recebiam as respostas pelo mesmo canal. O mais genial, porém, fica por conta do tom da resposta (ao lado), que mostra a informação oficial junto a uma sugestão vinda de outras pessoas. Não tem água? Tem gente fervendo neve.

Nada disso é novidade ao jornalismo. Mas provavelmente, nunca foi tão necessário. Rotulemos como “jornalismo utilitário” ou “jornalismo de serviços”, a missão é ajudar o público a lidar com problemas ou incertezas que acontecem no cotidiano ou que estão no centro das nossas vidas.

Jornalismo formativo + Jornalismo de serviços

A pesquisadora espanhola María Pilar Diezhandino identificou em 1994 dois tipos de jornalismo: o formativo e o de serviços. Enquanto o jornalismo formativo tem como missão a formação de uma consciência crítica da sociedade civil, o jornalismo de serviços ajuda as pessoas a viverem. Não há jornalismo melhor ou pior; eles apenas cumprem objetivos diferentes. Cabe a nós entender do que as pessoas mais precisam e como podemos ser mais relevante a elas. Ouso estimar que 90% do noticiário é formativo, com denúncias envolvendo políticos, relatos de injustiça e alertas sobre um futuro, quase sempre, sombrio. Quem sabe, se equilibrarmos este jornalismo formativo com informações e ações práticas, aplicáveis e efetivamente conectadas à realidade de nossas audiências, recuperamos a relevância no olhar da população?

*

P.S.: Há 15 dias, o Washington Post contratou uma editora de jornalismo de serviço. Megan Griffith-Greene atuará com toda a redação na identificação e na execução de pautas focadas em utilidades, “que aprofundem o relacionamento dos leitores com o The Post”. Fica a dica! 😉

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade e no equilíbrio da sua opinião. A credibilidade não é fruto de um momento. É o somatório de uma longa e transparente coerência. É daí que nasce a credibilidade.

A sociedade está cansada do clima de radicalização que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo militante. Um denominador comum marca a superficialidade que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: a politização.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir, mesmo com a melhor das intenções, certa politização das coberturas.

Em tempos de ansiedade digital, a reinvenção do jornalismo reclama revisitar alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente. Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir, mesmo com a melhor das intenções, certa politização das coberturas. Os desvios não se combatem com o enviesamento informativo, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida.

O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.

Sem jornais a democracia não funciona. O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos. Sua agenda é, ou deveria ser, determinada por valores perenes: liberdade, dignidade humana, respeito às minorias, promoção da livre iniciativa, abertura ao contraditório. O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blablablá inconsistente do teatro político, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

Artigo publicado em 16/05/22, na Gazeta do Povo.

Empurrado pela tecnologia, o mundo transforma-se em um ritmo frenético. As mudanças no jornalismo, ao contrário, vêm a conta-gotas. Nas redações somos diariamente submergidos pela enganosa ideia de que para acompanhar o compasso das novidades que surgem do lado de fora é preciso, antes de mais nada, um poderoso suporte financeiro. Não discordo que o dinheiro seja necessário. No entanto, algumas medidas capazes de reacender esse potente, mas sonolento motor da mídia tradicional, independem de grandes fortunas.

Comecemos por derrubar os padrões culturais que há décadas ditam o trabalho nas redações. Na prática, dentre outras coisas, trata-se de entender que a produção da notícia começa pelo leitor. Nessa lógica, a audiência deixa de ser simples destinatária da informação para ser também sua proponente. Um processo fácil de ser descrito, mas, como em toda mudança de paradigma, altamente complexo em sua execução.

Uma frase que circula na classe é que “jornalistas escrevem para jornalistas”. Ainda que dita quase sempre em tom de brincadeira, revela a sombria face da vaidade da nossa profissão.

Nós, profissionais da imprensa, por mais absurdo e contraditório que isso possa parecer, nos acostumamos a trabalhar de costas para a audiência. Uma frase que circula na classe é que “jornalistas escrevem para jornalistas”. Ainda que dita quase sempre em tom de brincadeira, revela a sombria face da vaidade da nossa profissão. Será que, de fato, por vezes não temos esquecido nossa função social para buscar a admiração de colegas que, seguramente, terão acesso ao material que publicamos?

O resultado financeiro dos veículos depende, agora, em grande parte, daqueles que não sabemos chamar pelo nome e com os quais não nos comunicamos.

No jornalismo abalado pela avalanche digital e que aos poucos se reergue, não há lugar para a presunção. A única obsessão permitida são os leitores. Eles são a peça-chave do trabalho editorial. Precisamos descobrir quem são, suas demandas reais, suas circunstâncias, seus interesses. Precisamos confessar a nós mesmos, ruborizados, que desconhecemos seus rostos.

Por muito tempo, enquanto a publicidade ainda pagava as contas dos veículos, ter acesso ao perfil médio do leitor servia unicamente como suporte para a venda de anúncios. O levantamento ficava normalmente sob a responsabilidade das áreas comerciais e raras vezes chegava às redações a ponto de impactar o conteúdo. Com a queda da receita publicitária, o caminho da monetização mudou: os leitores deixaram de ser vistos como meros consumidores de produtos anunciados e passaram a ser considerados potenciais assinantes, futuros adeptos dos modelos de associação que se começam a vislumbrar pelas redações do mundo. O resultado financeiro dos veículos depende, agora, em grande parte, daqueles que não sabemos chamar pelo nome e com os quais não nos comunicamos.

Na prática, trata-se de entender que a produção da notícia começa pelo leitor. No jornalismo não há lugar para a presunção. A única obsessão permitida são os leitores. Eles são a peça-chave do trabalho editorial.

Abrir canais de diálogo é outra forma simples e barata de fortalecer os vínculos com a audiência. A barreira para que isso seja feito é, uma vez mais, puramente cultural. A pesquisa Potencial de membership e de relacionamento com o público nas redações brasileiras, encabeçada pelo Orbis Media Review, revela que nem todos os profissionais da mídia estão completamente abertos ao contato com o público. Dentre os entrevistados, 11% afirmaram não ter o hábito de ler os comentários feitos pelos leitores às suas matérias. Outros 14% afirmaram que nunca responderam tais comentários e 17% não se lembravam de quando havia sido a última vez que o fizeram. A boa notícia é que porcentagem relativamente alta já demonstra ter incorporado o hábito: 14% haviam se comunicado com a audiência no mesmo dia em que estava respondendo à entrevista e outros 21% afirmaram que naquela semana haviam entrado em contato com os leitores. O dado mais preocupante talvez seja o tempo que afirmam estar dispostos a dedicar a essa tarefa: 51% disseram que reservariam uma hora por semana.

Fortalecer os laços entre redação e audiência não deve ser entendida como uma estratégia utilitarista. Ações de motivação meramente financeira nesse campo nascem com os dias contados. Os veículos não necessitam apenas de assinantes que nos paguem as contas. Desejamos o relacionamento porque nele encontramos a razão de ser de nossa profissão. Não existem jornalistas sem leitores. Simples assim.

Estávamos certos de que éramos essenciais na vida da sociedade. E, de fato, me parece que somos. Mas precisamos nos abrir para o público, para que também ele reconheça o valor do jornalismo que faz diferença em sua vida.

Demoramos muito para entender que o digital não era um concorrente em nosso setor. Ficamos mais preocupados em defender a sobrevivência dos meios tradicionais e, trancados em nossas convicções, não percebemos que todo o entorno passava por uma profunda transformação. Estávamos certos de que éramos essenciais na vida da sociedade. E, de fato, me parece que somos. Mas precisamos nos abrir para o público, para que também ele reconheça o valor do jornalismo que faz diferença em sua vida.

Impõe-se colocar a audiência no centro do processo. Já não basta que definamos nós o que precisamos os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. Interagir com eles. Captar suas sugestões. Aceitar suas críticas. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real.

Conversar com o leitor não é uma carga. É uma necessidade. E deve ser um prazer. Precisamos correr. Do contrário, corremos o risco de perder o bonde da história.


Publicado originalmente em https://carlosalbertodifranco.com.br/jornalismo/leitor-conversa-necessaria.html

Conceber uma proposta de valor para produtos jornalísticos não é tarefa simples. Não faltam métodos que nos ajudem a chegar naquilo que dará sentido ao meu produto. Do business model canvas ao Osborn’s Checklist, os frameworks usados pelo marketing parecem perfeitos para encontrar a inovação e desenhar a estratégia de qualquer produto ou serviço: das máquinas de Nespresso ao aplicativo de contratação de pedreiros. Mas produto jornalístico é difícil…

A dificuldade, no entanto, não está no framework e nem no jornalismo, mas na forma como nos apropriamos dessas ferramentas. Ou melhor: nossa dificuldade reside na perspectiva com que costumamos olhar para produtos editoriais. 

Dois passos para ampliar a perspectiva

E qual perspectiva é essa? “É a do conteúdo, é claro!” Afinal, nosso core business ainda é a produção de conteúdo, certo? Sim e não. Ao passo em que, de fato, o conteúdo esteja no cerne de nossas operações, ele já não sustenta o luxo de corresponder à totalidade da geração de receitas necessárias para manter a operação.

Portanto, o passo número um é abrir a possibilidade de que a proposta de valor de nossos veículos – aqui caberia mencioná-los como nossas “marcas” – está em algo além do conteúdo de qualidade: serviços, selos, tecnologias, licenciamentos de marca entre outras “atividades paralelas” irrompem nosso campo de visão de negócios.

O segundo passo é mudar a nossa perspectiva na hora de montar a proposta de valor deste produto editorial com algo mais. Ainda que estejamos falando de um veículo puro e simples, cuja operação se concentre 100% na produção e venda de conteúdo, o lugar de onde olhamos para ele faz toda a diferença.

Outro dia, durante uma sessão de mentoria, um colega apresentava a ideia de um veículo de notícias sobre educação para jovens brasileiros. Quando eu perguntei sobre qual seria o diferencial do produto, ele mencionou uma atualização mais frequente que a concorrência e o uso de dados atualizados. Nossa conversa continuou comigo dizendo:

Colega, eu peço que tu feches os olhos agora e te imagines dentro do quarto de um adolescente de 17 anos, que passa dez horas por dia jogando videogame, que tem uma namorada e briga com a mãe porque não quer arrumar o seu quarto. Agora me diz qual o diferencial do teu produto para atrair este jovem – e não apenas para te diferenciares da concorrência.” – Educadamente, ele riu, embora eu imagine que a vontade dele fosse de arrancar meus cabelos. Mas mesmo insuficiente, até imaginar-se nos sapatos do outro é um exercício difícil de fazer.

Rompendo a bolha do nosso olhar

A endogenia no jornalismo é tão grave que limitamos nosso olhar ao que está no espelho e ao lado, para dentro do próprio produto e para a concorrência imediata. Entender que youtubers também concorrem com nossos veículos tem sido um avanço na compreensão de mercado. Mas a coisa não para por aí. Enquanto nosso produto não tiver uma proposta de valor clara para o público, a conta nunca vai fechar.

Um método cruel – mas extremamente eficaz – que nos ajuda a definir a proposta de valor de um produto jornalístico é perguntar-nos: “E se nosso veículo deixa de existir, que impacto isso causará na vida das pessoas?” Enquanto a resposta for “pouco” ou “nenhum”, é sinal de que temos um longo caminho a percorrer.

Mapear as necessidades (ou as dores) do público não é algo que se faça de modo solitário, nem através de conversas com amigos ou mesmo olhando para analytics. Não se trata de “achar que o público precisa disso ou daquilo”. O investimento – seja como tempo, esforço, seja como dinheiro, nosso ou de outros – é sempre alto para se lançar ao achismo. Nesta hora, nada substitui a pesquisa. Façamos enquetes, focus groups, convidemos usuários para tomar um café conosco. Mergulhemos, sem medo nem ideias pré-concebidas, no incrível e desconhecido mundo real!

Lembro da inquietação de uma colega com os baixos resultados da operação, perguntando retoricamente “onde estava o leitor” da publicação dela? Seu veículo era uma joint venture brasileira de uma revista internacional. Me perguntei, em silêncio: “Quem disse que o seu leitor existe no Brasil?”

Até que ponto imaginamos audiências, presumimos demandas, idealizamos propostas editoriais para só então tentar encaixá-las no mercado?

Não percamos de vista a super oferta informativa e a diversidade de conteúdos de toda espécie, inclusive de qualidade, inclusive gratuito, a que as pessoas estão expostas 24 horas por dia. Por que elas deixarão de consumir esses conteúdos e virão a nós?

São perguntas incômodas que devem estar na raiz de qualquer proposta de valor de um produto editorial. Nos toca enfrentá-las ou pagar o preço de ser apenas “mais um”.