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Dois fatos ocorreram no primeiro trimestre de 2023 que envolveram o New York Times, o Washington Post e até mesmo a indústria de games – e ambos os casos trazem ensinamentos interessantes.

A situação pode ser resumida da seguinte maneira:

Na ocasião em que o WaPo anunciava o encerramento do seu suplemento de jogos – o Launcher – o NYT comemorava um ano do recorde de uso do Wordle, game adquirido no início de 2022, no auge de sua popularidade. Ao conquistar a atenção de quase a metade da população norte-americana, o Wordle foi jogado 2 bilhões de vezes no ano passado.

Na esteira de antecessores de sucesso, como Sudoku, Spelling Bee e palavras cruzadas, o Wordle trouxe e atraiu novos assinantes ao ambiente do Times, que também engordava sua carteira por meio de outra aquisição que vem se revelando minimamente duvidosa, o The Athletic. Mas essa é outra história. Fato é que o jornalão americano chegou a anunciar que havia atingido sua meta de 10 milhões de assinantes antes do prazo e parecia acenar com uma tendência a todo o mercado editorial. 

Hoje, isoladamente, a área de games do NYT tem cerca de 1 milhão de assinantes – sem contar aqueles que assinam pacotes de games com outros produtos. Mais do que uma solução poderosa para o funil de vendas para todos os produtos da casa – incluindo as notícias -, os jogos ativam respostas psíquicas diferentes daquelas que o ser humano usualmente tem ao consumir jornalismo, e esta variável não pode ser ignorada.


Lição #1

“Jogar” não pode estar no mesmo balaio do que “ler sobre jogos”. Daí a necessidade de entendermos que nem toda aposta no assunto “games” é garantia de êxito. E foi essa a lição que o Washington Post aprendeu ao descontinuar um produto de conteúdo sobre jogos e ao criar, semanas depois, o seu próprio jogo, On The Record.

Mark Hume, editor de produtos emergentes do WaPo – e um dos criadores do novo jogo, descreveu a motivação do veículo ao criar, 5 anos atrás, o vertical sobre jogos:

Quando começamos a construir o Launcher em 2017, o objetivo era focar a atenção em um setor que se tornou o principal fornecedor de entretenimento do planeta. Para um número cada vez maior de jovens, os jogos têm mais influência do que a TV ou o cinema, e as estrelas online do YouTube, Twitch e TikTok comandam audiências que rivalizam com as de Hollywood ou do mundo dos esportes. E, no entanto, os jogos costumam ser considerados triviais, um nicho, um hobby infantil … mesmo que 3,2 bilhões de pessoas em todo o mundo se envolvam regularmente com jogos em PCs, consoles e telefones celulares.

Está fora de questionamento que a indústria de jogos seja um fenômeno global sem precedentes – e isso não é de hoje. O que move estas pessoas, porém, não é saber mais sobre o assunto, mas vivenciá-lo, experimentá-lo, ser parte daquele universo. É importante e atrativo estar informado sobre algo que nos interessa, mas ler sobre emergência climática não é o suficiente para quem quer salvar o planeta. Consumir conteúdo sobre IA nunca será tão instigante quanto usá-la. O mesmo vale para música, turismo, gastronomia, carros, moda, esporte e – pasme – também para pautas hard news, como segurança, política e economia. 

Assistir a uma reportagem sobre as enchentes do litoral paulista é uma experiência que ganha outra dimensão quando, junto, aparecem formas de fazer doações. Matérias sobre demissões em massa somariam muito se mostrassem caminhos para contratar aqueles profissionais. Com estes detalhes de enquadramento, o jornalismo não se encerra em negatividade e faz alguma diferença na sociedade – para melhor.

Portanto, não se contente em produzir conteúdo sobre um assunto em tendência. Seja a tendência. Faça a tendência. E deixe que o público seja parte dela.


Lição #2

De volta ao mágico mundo dos jogos, é inegável que a movimentação do Washington Post em criar seu jogo está inspirada no lance de mestre do NYT com o Wordle. Por mais que os criadores do On The Record digam que o jogo não foi desenvolvido para concorrer com o Wordle, há, digamos, coincidências demais: 

  • o NYT adquiriu o Wordle em janeiro/22 e o On The Record foi concebido poucos meses depois;
  • ambos trazem um desafio diário;
  • ambos são jogos de lógica;
  • ambos são facilmente compartilháveis com amigos;
  • ambos vinculam-se, em maior ou menor medida, ao noticiário do dia

Mas há uma diferença abismal que é suficiente para situar os dois jogos em patamares bem diferentes: o Times comprou o Wordle quando este já era um sucesso. Enquanto isso, o On The Record nasce debaixo da asa do WaPo, carregando o peso de conquistar adeptos, fidelizá-los para só então representar alguma coisa à carteira de assinantes do veículo. Sem dúvida, é um investimento de longo prazo. E bastante incerto.

(Lembrei agora de grandes empresas jornalĺisticas que, lá por 2007, 2008 se aventuravam a desenvolver suas próprias plataformas de blogs, de fotos do usuário e até redes sociais, gastavam boladas de dinheiro, enquanto os líderes de mercado seguiam tranquilos na preferência popular.)

Pode ser que o quiz jornalístico On The Record seja um sucesso, mas até chegar neste ponto, o esforço que o time do Bezos terá de fazer será muito maior – e custará muito mais caro – do que a compra do Wordle pelo NYT. Como a urgência do mercado de mídia não tem deixado muito espaço para resultados de longo prazo, parece altamente arriscado criar um jogo do zero, caso você esteja pensando em fazer isso no seu veículo.

O fôlego que o Wordle trouxe ao NYT não tem a ver apenas com a associação do lúdico ao universo cinza das notícias. Tem a ver com um produto estabelecido, aclamado e original. Veículos apostando em jogos, daqui para frente, pode até se tornar lugar comum e o resultado pode não ser o mesmo que no Times.

No fim, é muito mais do que jogo. Essa jogada é sobre inovação.

O noticiário local que foi ao ar na noite da última terça-feira, 19, em São Paulo, revelou o quanto nos falta  aprender para fazer jornalismo. Em uma emissora, o apresentador anunciou: “Homem atira em assaltantes no Bom Retiro e não é indiciado por porte ilegal de arma nem por matar um dos ladrões“. Minutos depois, no outro canal, a manchete era: “Clientes e funcionários de restaurante no Bom Retiro são feitos reféns. Sequestadores foram baleados por vizinho.” Fiquei apenas nestes dois telejornais e a diferença no enquadramento de cada emissora me chocou mais do que a barbárie da acontecimento em si.

Há vários fatos no ocorrido. Há uma tentativa de roubo. Há bandidos armados. Há reféns na mira de pistolas. Há um vizinho do restaurante, também armado. Há dois homens baleados. E há uma obsessão ideológica acintosa norteando o trabalho em certas redações.

Pela ótica dos colegas, o sequestro parece ter sido apenas evento cotidiano que serviu de pretexto à atrocidade de um cidadão, rendido por um criminoso, disparar contra aquele que estava prestes a tirar sua vida.

O programa onde ouvi a primeira chamada dedicou nada menos que seis minutos para declarar sua revolta com o cidadão que portava uma arma em local não autorizado e que atirou contra os criminosos. Ao exibir um vídeo cedido pela Polícia Militar, o repórter narra que o morador “caminha em direção aos sequestradores, é rendido por um deles e reage descarregando a arma em dois assaltantes“. Mas isso foi apenas um detalhe, na visão dos colegas. A tônica da reportagem, do começo ao fim, foi denunciar a impunidade sobre o porte de arma por uma pessoa que não suportou assistir passivamente seus vizinhos sendo torturados. Está claro que a reação colocou em risco a vida dos reféns e isso precisa ser mencionado no relato editorial. Porém, o sequestro virou paisagem. Pela ótica destes colegas, o crime parece ter sido apenas um evento cotidiano que serviu de pretexto à atrocidade de um homem, rendido por um criminoso, disparar contra aquele que estava prestes a tirar sua vida.

A indignação do repórter com as autoridades que liberaram o autor dos disparos transbordava em trechos do boletim de ocorrência lidos no texto do off, em uma tentativa furiosa de legitimar sua ira contra aquele “assassino de sequestradores”. Uma das frases lidas no documento dizia que o atirador – exposto e nomeado pela reportagem – teria “recorrido ao chamado excludente de licitude“. Na certeza de que todos os espectadores de seu telejornal, transmitido pela TV aberta, entenderiam indubitavelmente a expressão “recorrido ao chamado excludente de licitude“, o repórter provou que estava engajado demais para lembrar que uma de suas funções vitais é traduzir à população, em linguagem simples e acessível, a informação que lhes foi dada por especialistas.

Quando foi que nos insensibilizamos, como seres humanos, diante da angústia de reféns na mira de três homens armados?

Após assistir à reportagem, me peguei em um diálogo interno de ordem jornalística mas, mais do que isso, foi uma reflexão a respeito de civilidade e de humanidade. Desde quando um sequestro de trabalhadores inocentes tem menos valor notícia do que o fato de dois de seus autores terem sido baleados ao renderem um indivíduo com arma de fogo? Desde quanto telejornais criticam e questionam a decisão da Polícia em não deter alguém que sequer foi investigado? Quando foi que normalizamos a invasão e o roubo à propriedade privada? Quando foi que nos insensibilizamos, como seres humanos, diante da angústia de reféns na mira de três homens armados? Desde quando o jornalismo milita pelo desarmamento da população? Desde quando jornalismo milita?

O que rotulamos como “absurdo”?

O caso acima ilustra o resultado de uma pesquisa publicada neste mês pelo Pew Research Center, com jornalistas norte-americanos de várias idades e cargos, atuantes em veículos. Mais da metade dos participantes (55%) admitiram que nem sempre os dois lados de uma pauta merecem receber a mesma cobertura. Isso é o mesmo que se posicionar, declarar apoio ou repúdio a algum aspecto da realidade e oferecer um conteúdo à sociedade como se fosse uma visão equilibrada dos fatos, como se fosse verdade em si.

Como jornalistas, sabemos que, por sermos humanos, somos passíveis de entender e relatar a realidade a partir dos valores que aprendemos e nos quais acreditamos. Porém, isso não nos dá o direito de usarmos o jornalismo como instrumento de articulação intencional.

Nos últimos anos houve uma multiplicação de veículos posicionados em vários pontos do espectro ideológico e político. No entanto, estes costumam firmar um pacto explícito com o leitor, que é ciente dos valores defendidos por aquele produto. Expôr a população à militância disfarçada de jornalismo é uma ofensa à sociedade. Justamente no momento em que o Brasil ocupa a primeira posição  no ranking de países onde mais se evita deliberadamente o consumo de notícias, há empresas de mídia que reagem dando ainda mais razões para as pessoas fugirem do noticiário.

Como jornalistas, nós mesmos sabemos que a linha divisória entre os gêneros informativo e opinativo é tênue e nem sempre fica clara às audiências. Nós também sabemos o quanto é difícil ser imparcial e que, por sermos humanos, somos passíveis de entender e relatar a realidade a partir dos valores que aprendemos e nos quais acreditamos. Porém, isso não nos dá o direito de usarmos o jornalismo como instrumento de articulação intencional.

Se a objetividade jornalística pertence à esfera do ideal, o esforço de contarmos uma história de maneira equilibrada é o que separa jornalistas de meros militantes.

Ao situarmos certos “lados” de uma discussão no universo do imponderável estamos, conscientemente, utilizando a atividade jornalística para difundir uma ideia ao invés de uma informação, para conduzir um pensamento ao invés de melhorar o estar-no-mundo da população, para alcançar interesses particulares que convergem, em última análise, na busca por poder. Nada mais antiprofissional, nada mais egoísta, nada mais desrespeitoso com quem ainda consome notícias na intenção pura de se manter informado.

O esforço para manter o profissionalismo nunca se fez tão urgente. Se a objetividade jornalística pertence à esfera do ideal, a tentativa de contarmos uma história de maneira equilibrada é o que separa jornalistas de meros militantes. Em qualquer profissão há procedimentos a serem seguidos, há convenções que precisam ser respeitadas. Por que haveria de ser diferente conosco? Por que seria aceitável transformar nosso trabalho num ato de interesse próprio? Há lugares socialmente legítimos para defendermos nossos ideiais: há grupos de estudo, há partidos políticos, há protestos pacíficos, há ONGs, centros comunitários, assembleias legislativas e mesmo o Congresso Nacional. Estes, sim, são espaços de ativismo; não o jornal, não o noticiário da TV aberta, não de forma sorrateira, fazendo de conta que é jornalismo.

Como podemos ajudar?

Procurar um novo modelo de negócio que sustente veículos no longo prazo é fundamental. Publicar conteúdos em formatos alternativos é necessário. Dialogar com o público, então, é urgente. Mas enquanto reproduzirmos a polarização do debate no fruto de nossos trabalhos, dificilmente voltaremos a ser percebidos como profissionais relevantes na vida de alguém.

Pense comigo: a lei da escassez rege relações de interesse de toda ordem, não apenas em transações comerciais. Existe uma oferta exagerada de informação, sobretudo instigando a polarização social. Entre discussões em redes sociais, estudos acadêmicos, fake news e mesmo em relatos opinativos válidos, qualquer ponto de debate está bem suprido de defesa. Não precisamos – nem devemos – ser mais um agente desta ou daquela bandeira. Isso equivale a dissolver o jornalismo num mar de subjetividades que não apenas nos descaracteriza, mas nos vulgariza. Seremos apenas mais um na multidão.

O que há em escassez na sociedade, hoje? Isto é, onde e como podemos fazer a diferença na vida das pessoas?

O American Press Institute (API) se lançou ao desafio de entender o que está escapando do olhar das redações e, não por acaso, a descoberta diz respeito à melhoria do convívio social. O fornecimento de informações sólidas e a abertura de espaços propícios ao diálogo foram apontados como formas de o jornalismo contribuir, com relevância, com a sociedade. Às vezes isso passa pela conscientização de que, mesmo sem querer, estamos agindo como apoiadores de causas, como críticos deste ou daquele político, ou que vemos como “realidade” aquilo que não passa de um recorte da nossa compreensão. Repito: isso pode ser inconsciente. E espero que o seja! Assim, temos alguma chance de recuperar a relevância do que fazemos na rotina das comunidades.

Podemos ajudar a traçar, através do jornalismo honesto, o ponto de virada para a retomada da convivência pacífica, do respeito mútuo e da integridade do ser humano.

Kevin Loker, diretor de pesquisa do API, considera essencial repensar o papel do jornalismo na vida das pessoas. “Se não mostrarmos uma abertura para a autorreflexão e mudança quando as críticas forem justas, nosso trabalho pode ser descartado como um empreendimento partidário ou monocultural. E quando isso acontece, perdemos o público.”

O vácuo deixado pelo público nos relatórios de audiência não prejudica apenas o desempenho financeiro das empresas de mídia. Não coloca em risco apenas nossos empregos. Ele gera um outro vácuo, dessa vez, na engrenagem social. Sem fontes confiáveis de informação, dignas do respeito da população e de legitimidade editorial, abre-se uma lacuna de civilidade, pronta para ser preenchida pelo caos, pela intolerância e pela selvageria humana.

Em 2016, ao perceber que a política fraturava relações humanas, um grupo de jornalistas norte-americanas criou o projeto Spaceship Media, com o objetivo de auxiliar cidadãos com opiniões opostas a dialogarem outra vez. As jornalistas atuam em parceria com veículos locais na identificação de temas antagônicos em uma determinada comunidade: da instalação de uma indústria a políticas migratórias, do armamento da população ao preconceito racial. Uma vez que são mapeados simpatizantes de diferentes “lados” da polêmica, o Spaceship Media pesquisa e fornece estudos, notícias, relatórios sobre o caso para preparar os participantes para um encontro presencial.

Com a moderação de jornalistas, os grupos antagônicos se reúnem em espaços comunitários – escolas, igrejas, bibliotecas públicas – e seguem um roteiro de quatro perguntas feitas mutuamente:

  1. O que você acha que o outro grupo pensa sobre você?
  2. O que você pensa sobre o outro grupo?
  3. O que você deseja que o grupo oposto saiba sobre você?
  4. O que você deseja saber sobre o outro grupo?

Com criatividade e fazendo um jornalismo honesto, podemos ajudar a traçar o ponto de virada para a retomada da convivência pacífica, da capacidade de escuta, do respeito mútuo e da integridade do ser humano. E podemos começar já, servindo como exemplo.

“O modelo de paywall não pensa no consumidor. O consumidor quer ler apenas os artigos que lhe interessam, de seis ou sete veículos, sem ter que pagar seis ou sete assinaturas. E a tecnologia permite isso. Vamos fazer!


John L. Hennessy, presidente da Alphabet Inc. (aka Google)

Em entrevista publicada pelo espanhol/catalão La Vanguardia, Hennessy defende o micropagamento no consumo de conteúdo jornalístico. Entre as justificativas está o fato de que a venda de assinaturas, no meio digital, faz mais sentido aos veículos do que aos consumidores. Ou seja, não há user-centricity ou a priorização do usuário não norteia as atividades da empresa.

Isso se deve à cultura digital estar tão arraigada ao “snackable content”, ou seja, ao ato de “petiscar conteúdo” pulverizado por vários sites com os quais não se quer – nem se pode – estabelecer compromissos de longo prazo como são as assinaturas.

Assinaturas e o “bundling” no jornalismo

Para a empresa jornalística, o “bundling” ou o “a circulação de pacotes de conteúdo” é a estratégia ideal para criar previsibilidade de receita e equilibrar o caixa.

Em veículos impressos (jornal ou revista), há quem compre a edição pela matéria de capa ou para ler apenas a seção de esportes. No entanto, precisa pagar pelo exemplar inteiro. Isso ajuda, no fim do dia, a compensar o custo de produções pouco rentáveis, mas que o veículo julga necessário ter.

Um exemplar, por si só, já é um bundling. Assinaturas, então, são o bundling do bundling. A mesma lógica se aplica aos pacotes de TV a cabo: quantos de nós pagamos por canais que nunca assistimos, só porque ele “está no pacote”?

Pense no tamanho da admiração e da fidelidade que o usuário precisa ter com o veículo para tornar-se um assinante… É quase um casamento! Tem contrato, compromisso. Impossível? De forma alguma. Só difícil, muito mais difícil do que seguir a natureza do comportamento de consumo atual.

Microinteresses voláteis

No consumo de conteúdo digital – e respeitando a lógica da cauda longa – lemos esporte no veículo especializado; dificilmente no generalista. Mais: se neste mês estou interessada em aplicação de papéis de parede, encontrarei facilmente conteúdo jornalístico que atenda pontualmente minha demanda. E isso não quer dizer que eu tenha razões para me tornar assinante de uma revista de decoração.

Mês que vem é provável que eu já tenha instalado o papel de parede e esteja em busca de informações sobre intercâmbio ou a respeito de tratamentos revolucionários de uma doença X. Há poucos anos o Google chamou isso de “micromomentos“, sob a ótica do marketing. Podemos chamá-los de “microinteresses” ou microdemandas de informação ultra personalizados e voláteis. Eis o snackable.

Micropagamento e câmaras de distribuição

Já falamos, neste Orbis, sobre micropagamento. Não é algo simples e, não raro, soa utópico. Nas palavras de Hennessy:

“Pagaremos um micro valor por cada notícia que leremos e uma câmara de compensação redistribuirá esse pagamento entre os editores.” 

John L. Hennessy, presidente da Alphabet Inc.

Em tempo: as declarações de Hennessy são deste mês, o mesmo mês em que o Facebook proibiu a publicação e a visualização de conteúdo jornalístico australiano no mundo inteiro, estimulado pela lei de barganha de mídia daquele país que, entre outras regulações, cria um fundo alimentado pelas big techs, em favor de pequenas empresas jornalísticas.

Vale a provocação e a reflexão.

Qual a sua primeira reação ao ver uma notícia? Isso depende, é claro, do conteúdo. Mas depende, sobretudo, dos seus valores pessoais.

A terceira e nova pesquisa feita pelo Orbis Media Review mapeou como se dá o consumo de notícias nas redes sociais, especialmente sobre política. O levantamento intitulado Consumo de Notícias: uma Escuta das Bolhas se dedicou à reação mais espontânea e imediata que usuários relatam ter ao ler títulos de conteúdos jornalísticos de diferentes veículos, pretensamente neutros e expressamente posicionados.

As reações foram analisadas com base à linha ideológica declarada pelos participantes. Deste modo, foi possível notar que os usuários tendem a compartilhar conteúdos compatíveis às suas ideologias, justamente para grupos ou familiares que pensam da mesma forma (71%). Eles também preferem comentar notícias quando concordam com elas (55%), embora a quantidade de pessoas que dizem comentar notícias da oposição, mesmo antes de lê-las seja considerável (45%).

Bolhas como proteção ao cancelamento

O choque de ideias, porém, aparentemente necessário para a manutenção da democracia, tem extrapolado os limites do bom senso, no que ficou conhecido ultimamente como “cultura do cancelamento”. No ambiente hostil das discussões sobre política nas redes sociais, a bolha se consolida como um refúgio, uma proteção contra a agressividade; causa e consequência da dificuldade humana de ouvir o outro.

Não querer entrar no embate se expande ao ato de ignorar notícias da oposição. Sessenta por cento dos participantes confessaram simplesmente rolar a tela quando aparecem notícias de ideologia contrária à sua, ou enviam a seus pares, quem também se opõe a elas (53%).

Opostos, mas muito semelhantes

O aspecto mais curioso trazido por esta pesquisa foi o fato de que os dois pólos do debate político – direita e esquerda, aqui usados para fins de simplificação – reagem de maneira extremamente semelhante em relação ao conteúdo compatível e às notícias contrárias às suas respectivas posições. Não é possível afirmar, portanto, que determinado grupo político seja mais agressivo ou mais recluso em sua própria bolha, uma vez que as curvas dos gráficos de reações imediatas apresentam praticamente o mesmo desenho e que a amostragem foi composta de modo balanceado entre quem se declarou adepto à esquerda, centro-esquerda, direita ou centro-direita.

A pesquisa foi feita por meio de convite a perfis de redes sociais que atendiam a uma série de requisitos expostos no relatório. Entre julho e setembro, 310 respostas válidas foram coletadas de maneira anônima, via formulário online.

Cloroquina mata ou salva? Usar máscara é vital ou mais uma burocracia? A melhor estratégia para o Brasil é o lockdown ou o isolamento vertical? Os números de pessoas mortas pela covid-19 estão corretos ou foram subnotificados?

Tenho certeza de que você já fez algum destes questionamentos ao longo destes últimos meses. Estamos sendo desafiados a tomar decisões importantes sobre a nossa vida diante de um fato novo e desconhecido, enquanto gerenciamos um volume excessivo de informações. 

No dia 31 de março de 2020, o Departamento de Comunicação das Nações Unidas declarou que junto com a covid-19, o mundo deveria enfrentar outro inimigo: a infodemic. O órgão explicou que o excesso de informações falsas, incompletas e/ou rumores, durante uma emergência sanitária, poderia prejudicar as medidas de saúde pública e gerar confusão e desconfiança entre as pessoas. Todos nós vimos casos deste tipo entre as milhares de informações compartilhadas neste período. Tivemos, por exemplo, vários tratamentos sendo sugeridos: do alho ao cultivo de sementes “santas”. Para combater este mal, a ONU criou uma página para desmitificar alguns rumores sobre a doença e sugeriu que as pessoas privilegiassem fatos, ciência, esperança e solidariedade ao invés de desespero e desunião.

Mas são tantas informações científicas, que fica difícil discernir o que é verdade. As professoras Gaeta Menon e Ellie J. Kyung publicaram um artigo em que afirmam que este excesso de informação causa incerteza[; um sentimento antinatural que gera desconforto nas pessoas. Diante de circunstâncias assim, o sistema cognitivo anseia pelo certo e o seguro. As autoras exemplificam seu argumento afirmando que algumas pessoas sentem-se mais calmas e menos agitadas quando sabem que tomarão um choque elétrico do que aquelas que acham que podem receber um choque elétrico.

Quando temos de lidar com a incerteza, ambiguidade e complexidade, nosso processamento da informação entra em colapso. E se não tivermos um mapa bem definido do caminho a ser percorrido? A quem vamos recorrer?

Gostaria de apresentar algumas reflexões sobre este dilema. Precisamos de um tratamento adequado, caso contrário entraremos na “treva branca” de José Saramago.

OS MEDIADORES DA INFORMAÇÃO

A nossa realidade é composta por elementos objetivos e subjetivos. Quando estamos diante do desconhecido, nos sentimos desamparados e perdidos. Para diminuir a tensão, buscamos a segurança dos especialistas e profissionais.

A pesquisa do Orbis Media Review em março apontou que os sites de notícia e a TV foram os principais canais de novidade sobre a Covid-19. Os resultados positivos indicaram que os brasileiros estavam buscando o jornalismo profissional para se municiar de informações sobre a doença. No mesmo período, a Agência Edelman de Comunicação publicou um estudo feito em dez países – África do Sul, Alemanha, Brasil, Canadá, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido -, apontando a comunicação do empregador como a fonte mais confiável neste período; 18 pontos à frente das empresas em geral e ONGs e 27 pontos à frente do governo e da mídia[.

Já a Professora e Pesquisadora do IFF/Fiocruz, Suely  Deslandes, afirmou que a Internet e as redes sociais foram as fontes que trouxeram mais benefícios para a população por favorecer a conscientização e a conexão entre as pessoas. Mas a Professora também alertou que o uso irrestrito destes meios pode gerar um comportamento compulsivo, que aumenta a percepção de um “medo global”. A 11ª onda da pesquisa da Opinion Box no início de junho confirmou esta tendência ao demonstrar que os entrevistados estão investindo mais tempo na Internet e nas mídias sociais, enquanto sentem mais tédio e medo de sair de casa.

O aumento contínuo da utilização destas fontes de informação “não convencionais” reascendeu a discussão sobre a necessidade de uma regulamentação específica. Os políticos brasileiros acharam oportuno aproveitar este tempo para desenvolver formas de controlar as mídias sociais. No dia 30/06/2020 o Senado Nacional aprovou o projeto da Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Acredito que esta decisão abre um precedente perigoso. Para justificar sua ação, o Senado divulgou uma pesquisa do Instituto DataSenado em que a maioria dos entrevistados declarou apoiar a criação de uma lei contra fake news. Um levantamento do Datafolha demonstrou um resultado diferente: 75% dos entrevistados acreditam ter o direito de ter uma conversa privada sem serem rastreados. A China, que é o case de controle social em larga escala, verifica as fotos, vídeos e áudios dos smartphones de todos os seus cidadãos em uma central de análise de dados do governo. O deslocamento de casa para o trabalho é acompanhado por câmeras capazes de reconhecer o rosto da pessoa em milésimos de segundos. As fontes oficiais afirmam que: “apesar de soar intrusivo, o uso de reconhecimento facial é aprovado pela maior parte da população chinesa, que associa o uso destas tecnologias à sensação de segurança”[.

Estas aspirações tecnocratas me lembraram os avisos assustadores da distopia de Orwell: “O Grande Irmão está de olho em você”. A decisão do Senado Federal foi seguida por uma série de manifestações. Representantes das empresas de mídia fizeram declarações incisivas: “estamos decepcionados com a decisão do Senado. As notícias falsas são um grande problema social que existe há séculos em toda forma de comunicação. Estamos combatendo a desinformação por meio de mudanças significativas para reduzir mensagens em massa e virais, que geraram uma redução de 70% nas mensagens altamente encaminhadas no WhatsApp. Forçar as empresas a adicionar um carimbo permanente a todas as mensagens privadas enviadas pelas pessoas marcaria o fim das conversas particulares – tudo o que você disser ou encaminhar seria rastreado e poderia ser usado contra você[. A própria ONU apelou aos políticos no período que precedeu a votação. O relator para Liberdade de Expressão do órgão alertou que: “um dos aspectos que é essencial nos direitos humanos é a liberdade de expressão e há um consenso que qualquer restrição a isso é uma potencial barreira aos direitos democráticos básicos”. O jornalista experiente Alexandre Garcia alertou que existem mentiras nas mídias sociais, mas elas não estão somente ali. As redes aprenderam isso com os meios tradicionais de comunicação.                               

Se é fato que as informações tendenciosas e/ou falsas estão presentes em todos os canais, o primeiro dilema que se impõe é: quem define o que é falso, verdadeiro ou útil para mim?  

De fato, há mais de dois mil anos, Aristóteles já alertava para os riscos da falácia: uma linha de raciocínio falsa, com um objetivo torpe ou desonesto, mas convincente, que parecia verdadeira. Acredito que as redes sociais apenas refletem aquilo que é mais humano. Por isso, a liberdade de expressão deve ser prezada ao máximo em um ambiente livre.

Se é fato que as informações tendenciosas e/ou falsas estão presentes em todos os canais, o primeiro dilema que se impõe é: quem define o que é falso, verdadeiro ou útil para mim?  

O jornalista colaborador do Orbis Media Review João Payne fez um questionamento intrigante em seu artigo: “Trabalhar com verdades é uma tarefa complicada, pois elas nem sempre são fáceis de encontrar, podem ser conflituosas e estão sujeitas às circunstâncias (…) Se verificar fatos, portanto, já é uma tarefa delicada, o que dizer de julgar a intenção daqueles que criam e divulgam conteúdo? Um veículo de fake news, afinal, não é aquele que publica uma mentira ou gafe pontual, mas aquele que age com o intuito de enganar a população, desinformar e manipular. Mas como podemos conhecer a intenção de outros jornalistas ou meros influenciadores?”. 

Um dos senadores propositores da PL2630, quando questionado por um jornalista sobre este risco de concentrar a definição do conteúdo das notícias (se elas são falsas ou não) respondeu categoricamente: “Em uma democracia, em última instância quem decide o que é verdade ou não é o judiciário…”.

Eu acredito que a definição do verdadeiro e útil depende de um empenho pessoal e de um rico debate em um ambiente propício.

A VERDADE E SUAS VÁRIAS FACETAS

Um importante inquisidor já fez esta pergunta há algum tempo: Quid est veritas? (O que é a verdade?). Encontrar a verdade não é um exercício simples. São muitos fatos e factóides disputando nossa atenção diariamente. Não basta realizar uma simples “checagem das fontes” como nos indicou o Senado Federal (se a fonte é confiável o problema está resolvido), é preciso responder estes questionamentos em primeira pessoa.

Para ajudá-los em sua jornada, acho válido demonstrar que a “batalhas de narrativas” é um processo natural da comunicação social. Cada pessoa emite e processa mensagens a partir do seu sistema de referências. Esta “lente” do mundo é única e irrepetível; formada por uma história de vida, experiências, valores, emoções e aspirações transcendentes. Este conjunto de elementos pessoais influencia a forma como uma pessoa interpreta a realidade. Por isso, nenhuma narração de fatos é plenamente isenta, ela sempre portará um pouco do seu transmissor. O jornalista que narra ininterruptamente o número crescente de mortes por covid-19 ou o profissional que alega que seus argumentos estão baseados estritamente na ciência partem de um pressuposto.

Além das posições individuais, estamos inseridos num contexto social mais amplo, que recebe influência de correntes de pensamento poderosas. Carlos Llano, um dos principais professores da Escola de Negócios do México (IPADE) e um dos grandes teóricos da rede de escolas associados ao IESE, descreveu o tecido social pós-moderno com três forças dominantes[.

Para o autor, o funcionamento da sociedade contemporânea tinha dois pilares centrais: o mercado e o estado. Estas seriam as representações de duas instâncias valiosas da vida: o economicismo transacional mercantil e o racionalismo do plano estatal. Partindo desta perspectiva, a relação destes dois pilares se expressaria numa oscilação de correntes: mais Estado e menos mercado ou menos mercado e mais Estado. Com o passar dos anos o âmbito da comunicação coletiva se converteu num fator persuasivo e determinante na sociedade, tornando-se um poderoso ente. Com este esquema, Llano descrevia muitos comportamentos humanos: executivos obtendo dinheiro para adquirir poder, funcionários públicos adquirindo dinheiro por meio do poder e a imprensa conseguindo dinheiro e poder através de sua influência.

Estas forças presentes em nossa história poderiam causar uma homogeneização de pensamento, dificultando a avaliação pessoal.  Segundo o autor, a sociedade pós-moderna permitiu que o Estado, o Mercado e os Meios de Comunicação invadissem a esfera pessoal de análise e decisão: Jornais e a Televisão ditam formas e modelos, o Estado determina as linhas básicas de educação desde a infância e molda as investigações científicas, e o Mercado comercializa a moda, expondo artefatos de status, realização e felicidade.

O livro “A rebelião das Massas” de Ortega y Gasset faz um retrato magistral deste fenômeno: “Há um fato que, para o bem ou para o mal, é o mais importante na vida atual: a ascensão das massas ao completo poder social (…) A massa atropela tudo que é diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto. Quem não é como todo o mundo, quem não pensa como todo o mundo corre o risco de ser eliminado”. Observem que este livro começou a ser escrito em 1926! Seu retrato segue atual ainda hoje…  

 O TRATAMENTO ÉTICO

Para Carlos Llano, nenhum destes paradigmas supracitados é suficiente para responder às necessidades da sociedade. A vida humana é mais rica, heterogênea e profunda que qualquer outra realidade. O mundo das relações pessoais não pode traduzir-se exclusivamente em termos de dinheiro, influência ou poder. Para fugir da “bolha” superficial de opiniões, é preciso recorrer ao ethos vital das nossas relações mais íntimas.

Acredito que a vida corrente e ordinária é a saída mais prática para deixarmos o labirinto em que estamos. Muitas vezes nos perdemos em discussões abstratas, teóricas e/ou influenciadas por correntes de pensamento que não correspondem àquilo que vivemos. Neste mundo pessoal, que Edmund Husserl denominou como Lebenswelt (família e amizade), não estamos submetidos ao cálculo transacional ou à ação despersonalizante. Somos acolhidos com a nossa forma de ser, e o debate se torna mais honesto e enriquecedor, porque ali impera a confiança, a alegria e o perdão.

Acredito que neste momento turbulento que estamos vivendo, não podemos renunciar às nossas relações pessoais. Se estamos navegando sem um mapa bem definido do caminho que devemos percorrer, só nos resta “olhar para dentro”. Devemos reavaliar a forma como estamos incidindo sobre esta comunidade silenciosa da família, dos amigos e do trabalho.

Comungo da visão de Carlos Llano de que o que necessitamos não é uma grande mudança estratégica. O “novo normal” logo mais se tornará a antiga vida imprevisível de sempre. O que precisamos é de uma influência maior da vida ordinária em nossas decisões. As escolhas substanciais não dependem dos modelos, mas de uma transformação interna e pessoal.

A verdade não é uma resposta definitiva sobre os desafios da covid-19, ela é uma jornada pessoal! Tenham audácia de avaliar estes dilemas a partir daquilo que mais nos aproxima do real. Não precisamos apenas vencer este vírus, devemos melhorar nossa capacidade de avaliar a realidade e tomar decisões mais prudentes nos espaços em que incidimos hoje.

Coragem!


Este conteúdo faz parte da entrevista com o jornalista espanhol Lluís Cucarella, diretor do Observatorio para la Transformación del Periodismo Local e diretor editorial do site Laboratorio de Periodismo, da Fundación Luca de Tena. Acompanhe outros tópicos desta entrevista.


Orbis Media Review – Quando fala em “conquistar a atenção do leitor”, no dossiê Desafios Editoriais da Imprensa Local no Mundo Pós-Coronavírus (pdf, em espanhol) , você menciona a “criação do hábito” [do consumo de notícia]. De que forma o jornalista – enquanto indivíduo e profissional – pode contribuir com a criação deste hábito entre uma população que já não tem o mesmo nível de atenção aos veículos (ou nunca o teve)? Você acredita que a produção de conteúdo seja suficiente para alcançar este objetivo?

Lluís Cucarella – Já há algum tempo avançamos em direção a um modelo de negócio em que o principal aspecto seja a receita procedente do leitor, predominantemente num modelo de assinaturas, mas não limitado a ele.

A maioria dos estudos realizados aponta para uma mesma direção: para que estes modelos de pagamento funcionem, é necessário que alguns KPIs de lealdade sejam altos. Por exemplo, o número de vezes que um leitor entra no site de um jornal por semana, o tempo de permanência, a conexão com a marca através de diferentes plataformas em diversos momentos do dia, etc.

Se temos sete milhões de leitores mensais, mas 99% deles são usuários novos a cada mês, que não voltam no mês seguinte, dificilmente teremos sucesso num modelo de assinaturas.

Mais do que uma estratégia, se trata de uma necessidade. Se não conseguimos gerar uma rotina diária nos leitores, algo que se torne um hábito, os veículos ficam expostos à própria sorte, a que alguém encontre uma notícia deles nas redes sociais e que este alguém visite o site.

No caso dos veículos locais, essa necessidade [de criação de hábito de consumo de notícias] se multiplica porque, num contexto de disputa pela atenção do leitor, se o veículo for incapaz de gerar uma certa visão de mundo que satisfaça as necessidades informativas do leitor (e isso inclui primordialmente a informação local, mas também certo contexto geral), o veículo vai ficando em segundo plano. É como aquele jornal que, se eu já li seu concorrente, só darei uma olhada por cima.

Um jornal local deve mostrar casos próximos e recentes de contágio por covid-19, além de retratar o que diz a comunidade científica ou se limitar a publicar apenas o número de infectados da região?
E se acontece um atentado em outra zona do país, ele não deve noticiar? Se for assim – e desse jeito têm funcionado muitos veículos locais – ele nunca será líder de mercado, aquele que o leitor acessa todos os dias e, somente se sobra tempo, visita outros. Desse jeito nunca seremos o ponto de partida para o usuário informar-se.

Outro dia o diretor do Olé, da Argentina, exemplificava perfeitamente esta situação. Ele se perguntava se, quando um escritor argentino morre, eles precisam esperar que algum atleta faça referência ao fato para então justificar a publicação do acontecimento na publicação esportiva que são. A  mesma coisa acontece com o jornalismo local.

Para conhecer o leitor

Como um jornalista pode criar o hábito de consumo de notícia entre seus leitores? Em primeiro lugar, conhecendo bem este leitor. Parece algo simplista, mas não é. E essa tarefa fica, em grande parte, com os editores. Se eles têm recursos para conhecer este leitor, devem preparar suas equipes; se eles não têm os recursos, ao menos devem criar uma cultura na redação que avance nesta direção, com as ferramentas que permitam conhecer este usuário, ainda que seja a partir de métricas muito básicas. De alguma forma é preciso começar.

O primeiro passo para tomar conhecimento do leitor é saber quais hábitos ele e a comunidade a quem nos dirigimos já têm. Podemos fazer isso de forma direta ou indireta. Muitos jornais conseguiram resultados extraordinários sem a necessidade de investimentos altos, mas com enquetes simples, físicas ou virtuais. Alguns destes veículos, inclusive, convocaram seus leitores para um evento e debateram com eles sobre como são suas rotinas e para que necessitam das informações daquele jornal. Investigamos, sobretudo, hobbies, hábitos e rotinas que já existam, preocupações, desejos etc. Podemos optar por enquetes, análises de dados de navegação, testes A/B, formulários de cadastro onde os leitores informam seus códigos postais e então podemos fazer um acompanhamento de pautas e consumo informativo desde o nosso veículo, por bairros ou regiões.

Uma vez que temos os dados compilados, com todos os detalhes possíveis, saberemos quais produtos e serviços devemos criar para aproveitarmos os hábitos que já estão preestabelecidos e em quais podemos ser não apenas uma fonte de referência, mas o veículo que conecte estas pessoas umas com as outras e que o jornal seja o centro da atenção.

Outra coisa são os hábitos gerados após uma mudança social ou pessoal. Para além dos hábitos já criados, como jornalistas devemos ser capazes de saber – antes que outros profissionais – quando estamos diante de um disparador, de uma mudança social que vá modificar alguns hábitos da população e criar produtos e serviços em torno dele.

Se somos capazes de criar produtos ou serviços que atendam este novo hábito que está sendo disparado, então estamos na estratégia certa. A covid-19, apesar de ter tido uma magnitude inédita para todos, provocou uma mudança de hábitos que irão perdurar. Muitos veículos já estão criando verticais que apontam diretamente ao centro destes novos hábitos. Isso, numa pequena escala, acontece de modo frequente diante de episódios não tão relevantes como a covid-19.

É preciso criar um sistema que nos permita estar alertas, baseado em dados, ainda que isso não substitua a experiência e o trabalho do jornalista que tem responsabilidade não apenas na materialização dos novos produtos e serviços, como também em sua composição e concepção.

Hábitos, conteúdo e fidelidade

Às vezes, a forma de conectar um veículo a um leitor mediante um hábito já estabelecido também pode estar no conteúdo. Há muita gente que, enquanto toma café antes de ir ao trabalho, olha o celular para ver o que aconteceu pelo mundo; após o trabalho, corre para casa e à noite, antes de se deitar, volta a ter interesse pelas últimas notícias do dia, mas em um contexto de escassez de tempo.

Se somos capazes de ter produtos como uma newsletter matinal, com o que há de mais relevante de forma hierarquizada, concisa e útil sobre o trânsito da cidade, previsão do tempo etc, se podemos oferecer uma porção de podcasts sobre temas de lazer que interessam à maior parte dos nossos leitores e fazemos isso com qualidade, temos todas as condições para fidelizar este leitor graças ao fato de conhecermos sua rotina.

Além disso, existem os hábitos que, como veículo de comunicação, podemos criar. Talvez sejam os casos mais complexos, mas também são aqueles que dão os melhores resultados. Podemos criar um novo vertical ou uma série de reportagens que analise um caso concreto e sugerir o material àqueles leitores que acompanham tais temas, que assinem os alertas ou a newsletter que acompanhará este novo produto. Se for algo bem feito, com o tempo também criamos o hábito no leitor.

É preciso levar em conta dois pontos finais: um jornal não pode ser formado apenas por um aglomerado de notícias e serviços que respondam aos hábitos dos leitores. Pode parecer uma contradição a respeito do que vinha falando até agora, mas não é. Um jornal, como eu dizia, deve ser um guia, deve oferecer uma visão de mundo, ser uma referência. Em muitas ocasiões, a informação que não atende diretamente o leitor é pura commodity, algo com nível muito baixo de diferenciação. Mas se conseguirmos fazer com que esta informação esteja vinculada a três produtos ou serviços nossos, duas vezes por dia ou cinco vezes na semana, vai criando-se o hábito. Finalmente, este leitor vai escolher o nosso veículo também para consumir as outras notícias e descobrirá o espírito do nosso editorial, nossa personalidade, os valores da publicação e criará um hábito global ao redor do nosso jornal.

O outro ponto que se deve considerar é que os hábitos não são construídos do dia para a noite. Frequentemente os jornais caem na impaciência. Se temos feito bem o trabalho de análise prévia e um bom desenho do novo produto ou serviço, uma boa execução e uma boa campanha de promoção, esperemos um pouco. Apostemos no produto. Vai ser necessário repetir, ajustar, modificar o produto, mas sem nos desesperarmos porque os números iniciais são baixos e, por esta razão, desistimos. Nunca saberemos se o produto não funcionou porque estávamos equivocados ou porque nossa aposta foi tímida e, além disso, de curto prazo.


Acompanhe outros tópicos desta entrevista com Lluís Cucarella.

O isolamento social no plano físico provocou uma super conexão informacional. Emissoras de TV e sites de notícia registraram aumento expressivo de audiência nas últimas semanas. De fato, a preferência por estes canais para receber informações sobre o Coronavírus corresponde a mais de 3/4 dos participantes da pesquisa Consumo de Informações sobre o Coronavírus no Brasil, realizada pelo Orbis Media Review entre os dias 25/03 e 02/04.

O dado não significa, porém, que a mídia informal de conteúdo amador esteja fora do radar da população. Mensagens de amigos, grupos e familiares, além de posts em redes sociais também têm servido de fonte de novidades sobre a pandemia para mais da metade dos usuários. A quantidade de atenção dada às redes sociais, no entanto, não significa que todo este conteúdo esteja sendo absorvido de forma automática.

Questionados sobre a forma como percebem mensagens de áudio e vídeo que vêm sendo amplamente compartilhadas por WhatsApp, 53% dos participantes admitiu que a maioria deste conteúdo não é confiável. O problema é quando essa desconfiança contamina os veículos de jornalismo profissional. Um grupo correspondente a 58,6% da amostra afirmou ter visto uma notícia falsa sendo dada como verdadeira em sites de notícia, TV, rádio ou mídia impressa.

Apesar disso, a qualidade da cobertura que a mídia vem fazendo sobre a pandemia foi bem avaliada. Nada menos que 80% da amostra classificou o trabalho dos veículos como adequado, ótimo ou excelente. Várias pautas foram apontadas como alvo de interesse dos usuários, que disseram querer saber mais a respeito. O grupo que admite estar consumindo menos notícias do que o usual é de 11% e tomam essa decisão porque o noticiário estaria causando mal-estar.

Para aqueles que passaram a dar mais atenção às notícias (45%) ou que seguem acompanhando o noticiário como sempre (38%), a abertura do sinal de algumas emissoras a cabo e a derrubada do paywall de sites jornalísticos são bem-vindas. Num universo em que 67% do público não é assinante de qualquer produto jornalístico e também não se mostra disposto a pagar por notícia, as empresas de mídia exercem o jornalismo como serviço à sociedade.

Os desafios de médio e longo prazo da indústria jornalística, pós-quarentena, apontam para o um esforço extra nas iniciativas para captar assinantes e, antes disso, para a retomada da confiança da população, que oscila entre o consumo de uma boa cobertura e a desconfiança de que veículos não estão imunes às fake news.

Por Bruna Bariani*

Não é de hoje que sabemos que nosso público não parece muito disposto a colocar a mão no bolso para ler o que escrevemos. Mas calma, caro colega jornalista: a coisa fica pior. O percentual de pessoas que correm na direção oposta de qualquer notícia aumenta. Neste contexto, o termo “news avoiders” soa como um soco no estômago e no ego para nós, profissionais da imprensa. Não nos querem nem de graça! Mas como canja de galinha e humildade não costumam fazer mal a ninguém, é preciso esmiuçar de cabeça baixa o que estamos fazendo de errado.

O Reuters Institute constatou que, em dois anos, o percentual de pessoas que evitam ativamente as notícias aumentou em 3% e o número de pessoas dispostas a pagar por conteúdo permaneceu estável desde 2013, em 11%, em nove países. Nos EUA, o cenário é um pouco melhor, mas a quantidade de pessoas dispostas a pagar por notícias é a mesma desde 2017: apenas 16%.

Imediatismo e hedonismo são intrínsecos a uma geração que tem diversos nomes complicados para problemas bastante simples, como baixa tolerância à frustração.

Quando indagados, estes “evitadores de notícia” nos deram dois motivos principais para torcerem o nariz ao nosso produto: 58% afirmaram que consumir notícias tem impacto negativo no humor, seguidos por 40% que admitiram um sentimento de impotência diante daquilo que leem. Tais justificativas suscitam diversos questionamentos e creio ser válido recorrer à psicologia e à sociologia para tentar entendê-las.

Nas primeiras décadas do século passado Freud, pai da Psicanálise, reconhecia no homem a força do “princípio do prazer” que, em síntese, tratava da busca instintiva por aquilo que nos dá prazer e a evitação do que nos causa desprazer. Em tempos de geração Y, millennials, homo smartphonicos e cia, talvez Freud nunca tenha sido tão atual: imediatismo e hedonismo são intrínsecos a uma geração que tem diversos nomes complicados para problemas bastante simples, como baixa tolerância à frustração.

Estaríamos, mais do que nunca, sendo regidos pelo princípio freudiano do prazer? Pode ser. Isso tem lá sua lógica psicanalítica, mas me arrisco a dizer que o buraco é mais embaixo. Se lançarmos luz à sociologia, talvez possamos , humildemente, dialogar com Zygmunt Bauman que denominou nossa condição de “modernidade líquida”.

Para Bauman, a sociedade pós-moderna, líquida, caracteriza-se por um tempo sem ilusões. A época anterior à atual também desmontrava a realidade herdada, mas com o objetivo de torná-la melhor e então novamente sólida; por isso o autor a denominou “modernidade sólida”. Na contemporaneidade, nada é capaz de permanecer; tudo é líquido: nós destruímos e não reconstruímos nada no lugar.

Se trouxermos este paradigma para nosso trabalho como imprensa e ousarmos ser suficientemente fortes e humildes, talvez possamos reconhecer que ajudamos a que não sobrasse pedra sobre pedra: instituições, referências, crenças, poderes públicos, empresas privadas etc. Algumas destas realidades precisavam, de fato, escorrer pelo ralo de nossas redações para que fossem renovadas. Mas o que construímos no lugar delas?

Na nossa edição, reservamos alguns caracteres para contar o que está sendo feito, ou melhor, construído no lugar? No nosso editorial reservamos um espaço para empoderar o nosso leitor que, antes de tudo e de mais nada é um cidadão?

Lembro-me quando ouvi, ainda na faculdade, o famoso jargão jornalístico “bad news are good news”. Talvez esta lei tenha expirado. Talvez ela fosse válida na época em que as notícias tinham data e hora para entrar e sair da casa das pessoas: o jornal das 20h, o carteiro que entregava a revista semanal no domingo, o rapaz que jogava o jornal impresso na porta de casa e que abríamos na hora do café e fechávamos após o último gole.

Hoje a notícia não pede mais licença: a TV não desliga, a informação vem no meio da programação musical, os aplicativos de notícia enviam constantes alertas, o grupo de WhatsApp vem recheado de (fake) news que se acumulam durante todo o dia.

Quando as estatísticas apontam que a maior razão das pessoas evitarem notícia é a sensação de desânimo e impotência precisamos, como jornalistas, nos implicar nisso. O mundo não é cor de rosa e, como Ruy Barbosa dizia, devemos ser “os olhos da nação” e retratar com ética o factual. Mas será que, na nossa edição, reservamos alguns caracteres para contar o que está sendo feito, ou melhor, construído no lugar? No nosso editorial reservamos um espaço para empoderar o nosso leitor que, antes de tudo e de mais nada é um cidadão?

Bauman dizia que vivemos buscando soluções individuais para problemas produzidos socialmente e sofridos coletivamente. E o fato é que, como imprensa, só damos informações para o leitor se sentir impotente e deprimido. Estamos falhando. De novo, quem aguenta um mundo tão líquido?

O escritor francês Maurice Blanchot dizia que as respostas são a má sorte das perguntas. Precisamos reconhecer que não temos a resposta para barrar este número crescente de news avoiders que não digerem bem este prato que servimos. Mas se não soubermos as respostas e se tivermos humildade, veremos que ter a boa sorte das perguntas já é um bom começo.

*Jornalista, estudante de Psicologia

Negatividade é valor-notícia desde antes do surgimento dos tabloides sensacionalistas. As “folhas volantes” que circulavam na Europa do século XVII publicavam relatos em primeira pessoa escritos por assassinos condenados à morte. Eram as chamadas “canções da forca”. Mas agora tem (bastante) gente que, deliberadamente, evita consumir notícias porque elas são ruins. Será essa a raiz da crise no Jornalismo?

Além disso, credibilidade é uma coisa séria e, sim, a indústria também sofre com a desconfiança sobre o conteúdo dos veículos. O último relatório do Reuters Institute mostrou que a confiança nas notícias caiu 2 pontos percentuais no último ano, de 44% para 42%. Não convencemos nem mesmo a metade da população que ainda nos lê/assiste/ouve. Mas fake news não é o nosso maior calcanhar de Aquiles.

Tendo a acreditar que, quando as pessoas dizem que se afastam das notícias porque estão cansadas de “coisas ruins”, na verdade há duas razões subjacentes:

  • a sensação de impotência;
  • a falta de um impacto efetivo que aquela notícia terá no seu dia a dia.

Era da Hipersensibilidade

Notícia nunca teve o objetivo de fazer alguém feliz. E mesmo assim líamos o noticiário para “estarmos informados” sobre o mundo ao nosso redor. Acontece que esse mundo deu voltas e chegou à era do hedonismo, da razão sensível. Hipersensível. Não se trata de estarmos vivendo num mundo cor-de-rosa; longe disso! O hedonismo se manifesta nas intenções do dia a dia, na busca permanente pela felicidade, na liberdade imperativa, no lazer barato e encantador que a tecnologia promove.

É fácil passar horas jogando online. Caçar Pokemón cria uma camada lúdica e colorida sobre a cidade real, suja e insegura que habitamos. Quer coisa mais envolvente que cantar com amigos? É com isso que o TikTok agarra adolescentes mundo afora. E rir com os vídeos do YouTube? Fazer maratona no Netflix não falha pra gente participar da conversa no grupinho. Senão, põe aquela playlist no Spotify que parece ter sido feitinha pra ti. A tecnologia lava de dopamina nossas almas cinzas, da cor do jornal.

Solidariedade e afeto

Se vivemos, de fato, um reencantamento do mundo, onde as tribos urbanas instituem um código de estar-junto sustentado pela sensibilidade, é natural que a solidariedade ressurja como um elemento dessa “nebulosa afetiva”, de que fala Michel Maffesoli. Quero o outro porque ele me protege, me faz forte, me permite existir. Quero o outro porque ele “me”… Hum. Não. Melhor deixar essa polêmica para depois.

Viver na coletividade não só me sensibiliza, como também me mobiliza. Amo a quem nunca vi nem ouvi, mas pensa do mesmo jeito que eu. E esse afeto me impele a agir em nome do laço que nos une. A solidariedade emerge da necessidade de pertencer a uma comunidade sensível, já que as estruturas racionais e utilitaristas da sociedade ruíram.

A insustentável impotência do ser

Assim fica difícil ver o sofrimento dos meus pares na televisão, sem fazer nada a respeito. Ou ainda, é insuportável sentir a dor e a injustiça provocada por aqueles que são notícia e reconhecer minha inaptidão para mudar a realidade.

Não são as “notícias ruins” que afastam o público do Jornalismo. As notícias não mudam, infelizmente, desde o século XVII. O que mudou foi a reação do público diante delas. A sensação de impotência foi agravada pela necessidade do afeto urgente. Só resta nutrir minha hipersensibilidade com aquilo que me faz feliz. E focar no mundo “do bem”.

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Sugestão de leitura e disparador deste texto: Why do some people avoid news? Because they don’t trust us — or because they don’t think we add value to their lives?