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O programa de demissões voluntárias do Washington Post, anunciado há alguns dias, pegou o mercado com razoável surpresa. A CEO interina, Patty Stonesifer, enviou um memorando aos funcionários oferecendo 240 desligamentos “com incentivos generosos” em diferentes áreas da empresa, cerca de 10% da força de trabalho do veículo. 

Sim, o Post conta hoje com um quadro de funcionários próximo de 2.500 profissionais. Essa equipe tão numerosa quanto qualificada é uma das marcas da era Bezos. Quando o dono da Amazon comprou o WP, a redação contava com 580 funcionários. Oito anos mais tarde, o headcount ultrapassava a marca dos 1.000 profissionais em 26 países, a maior da história da empresa. E esses são números apenas da área editorial, que passou a contar com engenheiros, cientistas de dados, designers de produto e programação responsáveis pela transformação do gigante da mídia em uma empresa de tecnologia.

A virada de chave do Post foi aplaudida pelo mercado editorial e consolidou o veículo como referência internacional na indústria. Em 2018, o WP foi reconhecido pela Fast Company como uma das “empresas mais inovadoras do mundo”, por implementar o padrão Amazon ao ecossistema de notícias. Por “padrão Amazon” se entendeu uma revolução tecnológica de produto que, realmente, se concretizou. Mas enquanto o produto Washington Post se aperfeiçoava brilhantemente, as notícias continuaram trazendo as mesmas pautas, com a mesma linguagem, as mesmas fontes oficiais, ou seja, uma redação pirotécnica fazia o mesmo jornalismo de sempre.

A sintonia entre Jeff Bezos e o publisher, Fred Ryan, funcionou à perfeição e, juntos, se comprometeram com o desenvolvimento de um “mindset digital” na companhia. Eles concordavam em aumentar o alcance do jornalismo feito pelo Post, mas não questionaram se havia demanda de mercado para tal ampliação. Eles estavam dispostos a adotar – e, de fato, adotaram – formatos inovadores de forma pioneira: realidade aumentada, conteúdo em áudio, conteúdo original em vídeo… Foram construídos três estúdios que permitiram ao Post lançar um canal FAST (streaming digital gratuito com anúncios), com programação 24 horas em maio deste ano.

Impossível esquecer do empreendimento com o publicador ArcXP, uma criação que lançou o Post ao circuito de provedor de SaaS (software as a service) e se espalhou por mais de 1.500 sites de inúmeras redações, em 24 países, como o Chicago Tribune, Boston Globe, LA Times, El País, Infobae, Le Parisien e também no Brasil, com o Estadão

A visão de produto finalmente chegava à indústria jornalística. A equipe do Washington Post passou a operar com metodologias ágeis; scrums, sprints e squads entraram para o vocabulário do dia a dia da redação, que fazia jornalismo com um olho no conteúdo e outro nos KPI’s. 

Até aí, nada mais adequado à digitalização do consumo e da produção de informação. Ryan chegou a declarar que a mescla necessária entre jornalismo e tecnologia é uma relação ganha-ganha: se o jornalismo não é excelente, não importam os avanços da tecnologia; e se o jornalismo é fantástico, mas a tecnologia não ajuda, então não há vencedores. “Por isso contratamos e expandimos nossa equipe de engenharia”, concluiu. E esse é o ponto onde todo o esforço pode ir por água abaixo.

O Post acreditava que seu jornalismo era fantástico ou excelente. O Post entendeu que o que lhe faltava era tecnologia, então empregou todos os esforços nessa direção. Não questionou o jornalismo que fazia ou – pior – não considerou a hipótese de que a relação das pessoas com o jornalismo estava sob forte transformação

Não se trata de o Post estar fazendo mau jornalismo, mas de fazer o jornalismo de sempre. De entender que a população precisa daquelas informações, de que tem tempo para consumi-las, de que não há outra fonte para obtê-las. E esse é um questionamento que qualquer veículo jornalismo deve fazer a si mesmo.

Sempre que o WP surge em discussão de sala de aula, ouço gestores de empresas de mídia comentando que é fácil para o veículo ser uma referência mundial, afinal, o dono é um bilionário! Certo. Mas Bezos não é apenas um bilionário. Bezos é um empresário e, como tal, se preocupa com o que é feito com seus bilhões, espera que eles rendam outros tantos, até para fazer a roda continuar girando.

Ismael Nafría publicou em sua newsletter, de 15 de outubro: “Jeff Bezos, dono do Post, afirma que ele deveria ser administrado como uma empresa, não como uma instituição de caridade”. Dessa declaração haveria surgido a medida das demissões voluntárias. As projeções, segundo Patty Stonesifer – CEO que assumiu interinamente desde a saída de Ryan, em junho deste ano -, as projeções de venda de assinaturas e de faturamento com publicidade digital haviam se revelado “demasiadamente otimistas”.

Paul Farhi, crítico de mídia que publica no próprio Washington Post, revelou no seu perfil do X-Twitter que, desde 2021, a audiência do jornal de Bezos registrava queda de 28% e as assinaturas diminuíram 15%. O impacto dessa retração no faturamento foi de queda de 10% no impresso e de 30% na publicidade digital. 

O cenário não é exatamente novo; o Post já havia encerrado o último ano no vermelho. Para o final de 2023, a previsão é de um fechamento com perda de US$ 100 milhões. As demissões já haviam começado em janeiro, quando a redação cortou 50 postos de trabalho. Se sabe, infelizmente, que o Post não estava nessa sozinho e que todo o setor de mídia norte-americano sofre com índices de demissão maiores do que o registrado no período da pandemia. Na verdade, a baixa no mercado é recorde desde 2016. CNN não ficou de fora (idem para Brasil), nem a Vox Media ou mesmo a Gannett (que recorre à cobertura especializada em Beyoncé e Taylor Swift para “salvar o jornalismo local”).

Mas o Post estava seguro de que o seu jornalismo era fantástico ou excelente. Nem Bezos questionou. Nas reuniões periódicas que mantinha com a liderança do veículo, ele queria saber dos fluxos de assinatura e do tempo de carregamento do site – aspectos tecnológicos e de business que impactariam no faturamento. Just. Não se envolvia em questões editoriais. 

Era importante que um conteúdo do post fosse carregado rapidamente, afinal, as novas gerações não têm a mesma percepção de tempo do que os leitores tradicionais do Post. E de olho nelas, em 2021 surgiu o NextGeneration, uma iniciativa do WP para renovar seu público. Na ocasião do lançamento, Fred Ryan anunciou: “Nós entregamos o jornalismo do Washington Post ao mais amplo público nacional e global em nossa história, com muitos leitores mais jovens aproveitando o conteúdo do Post em sites e em formatos que não existiam há alguns anos” – perceba a prioridade do formato sobre o conteúdo, da visão quantitativa sobre a qualitativa. Como se bastasse estar no TikTok para que um jovem fosse se interessar por um vídeo de 15 segundos sobre política internacional, por outro jovem falando sobre a guerra na Ucrânia, por uma dancinha explicando a reforma tributária!

Quando Fred Ryan deixou o Washington Post, há três meses, seu discurso de despedida celebrou o fato de o jornal ter investido em suas “áreas de política e reportagem investigativa”, porque talvez ele ainda acredite que novas audiências sejam atraídas pelo mesmo conteúdo que os jornais publicam há mais de um século.

Fred Ryan relembrou como um grande feito a expansão da cobertura de tecnologia e games, porque talvez ele ainda entenda que novas audiências preferem consumir conteúdo sobre algo que gostam, ao invés de usar algo que gostam. (Já publiquei, aqui no Orbis, um artigo em que analiso a diferença brutal entre a estratégia do NYT de adquirir um jogo e do WP, de criar um suplemento sobre jogos).

Fred Ryan pontuou a “conquista” de ter criado um departamento dedicado à cobertura de bem-estar e de ter expandido a cobertura climática do Post, porque talvez ele ainda tenha o próprio veículo onde trabalhava como referência de navegação, ao invés do Google.

Fred Ryan projetou, ainda, que o futuro que espera para o Post é de “ser um pacote único com tudo incluído e sempre tentar torná-lo melhor, em vez de criar vários produtos e vender várias assinaturas”, porque talvez ele não tenha lido A Cauda Longa, de Chris Anderson, explicando a hipersegmentação do mercado digital.

Fred Ryan não parece ser um mau sujeito, ao contrário. Conduziu anos dourados no WP. Só não ponderou as mudanças profundas na relação que as pessoas têm com o jornalismo: mudanças de interesse, de relevância, de tempo, de prioridade, de oferta-e-demanda de informação, de queda de credibilidade, de news avoidance, do desgaste das narrativas, do sobrecarga informativa.

Ryan, como Bezos, investiu tanto em tecnologia que terminou esquecendo do jornalismo e de que jornalismo é ser humano, em tudo o que há de mais contraditório, surpreendente e previsível.

A história recente do Washington Post nos deixa uma lição: não basta que o dono seja bilionário. É preciso pensar em gente.

Dois fatos ocorreram no primeiro trimestre de 2023 que envolveram o New York Times, o Washington Post e até mesmo a indústria de games – e ambos os casos trazem ensinamentos interessantes.

A situação pode ser resumida da seguinte maneira:

Na ocasião em que o WaPo anunciava o encerramento do seu suplemento de jogos – o Launcher – o NYT comemorava um ano do recorde de uso do Wordle, game adquirido no início de 2022, no auge de sua popularidade. Ao conquistar a atenção de quase a metade da população norte-americana, o Wordle foi jogado 2 bilhões de vezes no ano passado.

Na esteira de antecessores de sucesso, como Sudoku, Spelling Bee e palavras cruzadas, o Wordle trouxe e atraiu novos assinantes ao ambiente do Times, que também engordava sua carteira por meio de outra aquisição que vem se revelando minimamente duvidosa, o The Athletic. Mas essa é outra história. Fato é que o jornalão americano chegou a anunciar que havia atingido sua meta de 10 milhões de assinantes antes do prazo e parecia acenar com uma tendência a todo o mercado editorial. 

Hoje, isoladamente, a área de games do NYT tem cerca de 1 milhão de assinantes – sem contar aqueles que assinam pacotes de games com outros produtos. Mais do que uma solução poderosa para o funil de vendas para todos os produtos da casa – incluindo as notícias -, os jogos ativam respostas psíquicas diferentes daquelas que o ser humano usualmente tem ao consumir jornalismo, e esta variável não pode ser ignorada.


Lição #1

“Jogar” não pode estar no mesmo balaio do que “ler sobre jogos”. Daí a necessidade de entendermos que nem toda aposta no assunto “games” é garantia de êxito. E foi essa a lição que o Washington Post aprendeu ao descontinuar um produto de conteúdo sobre jogos e ao criar, semanas depois, o seu próprio jogo, On The Record.

Mark Hume, editor de produtos emergentes do WaPo – e um dos criadores do novo jogo, descreveu a motivação do veículo ao criar, 5 anos atrás, o vertical sobre jogos:

Quando começamos a construir o Launcher em 2017, o objetivo era focar a atenção em um setor que se tornou o principal fornecedor de entretenimento do planeta. Para um número cada vez maior de jovens, os jogos têm mais influência do que a TV ou o cinema, e as estrelas online do YouTube, Twitch e TikTok comandam audiências que rivalizam com as de Hollywood ou do mundo dos esportes. E, no entanto, os jogos costumam ser considerados triviais, um nicho, um hobby infantil … mesmo que 3,2 bilhões de pessoas em todo o mundo se envolvam regularmente com jogos em PCs, consoles e telefones celulares.

Está fora de questionamento que a indústria de jogos seja um fenômeno global sem precedentes – e isso não é de hoje. O que move estas pessoas, porém, não é saber mais sobre o assunto, mas vivenciá-lo, experimentá-lo, ser parte daquele universo. É importante e atrativo estar informado sobre algo que nos interessa, mas ler sobre emergência climática não é o suficiente para quem quer salvar o planeta. Consumir conteúdo sobre IA nunca será tão instigante quanto usá-la. O mesmo vale para música, turismo, gastronomia, carros, moda, esporte e – pasme – também para pautas hard news, como segurança, política e economia. 

Assistir a uma reportagem sobre as enchentes do litoral paulista é uma experiência que ganha outra dimensão quando, junto, aparecem formas de fazer doações. Matérias sobre demissões em massa somariam muito se mostrassem caminhos para contratar aqueles profissionais. Com estes detalhes de enquadramento, o jornalismo não se encerra em negatividade e faz alguma diferença na sociedade – para melhor.

Portanto, não se contente em produzir conteúdo sobre um assunto em tendência. Seja a tendência. Faça a tendência. E deixe que o público seja parte dela.


Lição #2

De volta ao mágico mundo dos jogos, é inegável que a movimentação do Washington Post em criar seu jogo está inspirada no lance de mestre do NYT com o Wordle. Por mais que os criadores do On The Record digam que o jogo não foi desenvolvido para concorrer com o Wordle, há, digamos, coincidências demais: 

  • o NYT adquiriu o Wordle em janeiro/22 e o On The Record foi concebido poucos meses depois;
  • ambos trazem um desafio diário;
  • ambos são jogos de lógica;
  • ambos são facilmente compartilháveis com amigos;
  • ambos vinculam-se, em maior ou menor medida, ao noticiário do dia

Mas há uma diferença abismal que é suficiente para situar os dois jogos em patamares bem diferentes: o Times comprou o Wordle quando este já era um sucesso. Enquanto isso, o On The Record nasce debaixo da asa do WaPo, carregando o peso de conquistar adeptos, fidelizá-los para só então representar alguma coisa à carteira de assinantes do veículo. Sem dúvida, é um investimento de longo prazo. E bastante incerto.

(Lembrei agora de grandes empresas jornalĺisticas que, lá por 2007, 2008 se aventuravam a desenvolver suas próprias plataformas de blogs, de fotos do usuário e até redes sociais, gastavam boladas de dinheiro, enquanto os líderes de mercado seguiam tranquilos na preferência popular.)

Pode ser que o quiz jornalístico On The Record seja um sucesso, mas até chegar neste ponto, o esforço que o time do Bezos terá de fazer será muito maior – e custará muito mais caro – do que a compra do Wordle pelo NYT. Como a urgência do mercado de mídia não tem deixado muito espaço para resultados de longo prazo, parece altamente arriscado criar um jogo do zero, caso você esteja pensando em fazer isso no seu veículo.

O fôlego que o Wordle trouxe ao NYT não tem a ver apenas com a associação do lúdico ao universo cinza das notícias. Tem a ver com um produto estabelecido, aclamado e original. Veículos apostando em jogos, daqui para frente, pode até se tornar lugar comum e o resultado pode não ser o mesmo que no Times.

No fim, é muito mais do que jogo. Essa jogada é sobre inovação.

O Orbis Media Review acaba de lançar mais uma pesquisa sobre consumo de mídia no Brasil. O estudo Consumo de Notícias por Universitários Brasileiros mostra a relação que estudantes do ensino superior, de instituições públicas e privadas, localizadas nas cinco regiões do país, tiveram com o noticiário.

A coleta dos dados foi feita entre 6 de setembro e 21 de novembro de 2022, período em que aconteceram os dois turnos das eleições presidenciais, além de outros fatos de grande projeção, como a morte da Rainha Elizabeth II, o Rock’n Rio, a morte do ator Guilherme de Pádua, os debates eleitorais e as manifestações com o bloqueio de estradas pós-segundo turno, além dos preparativos para a Copa do Mundo no Qatar.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Notícias sobre estes e outros temas, publicadas em sete grandes veículos generalistas, foram alvo da análise dos 1.030 participantes. Mais do que classificar o impacto de tais relatos em suas vidas, os estudantes disseram o que os leva a procurar por notícias e quais suas expectativas em relação às publicações.

Conteúdo útil, curioso e que “contribua com o meu desenvolvimento”

A curiosidade aparece como principal motivação e, também, como o maior efeito que o noticiário exerce sobre cada indivíduo. Em segundo lugar, os estudantes querem notícias que os ajudem no cotidiano, mas apenas 2% das chamadas que eles analisaram foram classificadas como sendo capazes de “ajudar no meu dia a dia“.

Um grupo de 62% de universitários mencionou que se sente atraído pelo noticiário que contribui com o seu desenvolvimento. Por outro lado, um quarto das análises que eles fizeram sobre as notícias reportou que tal conteúdo “é indiferente para mim“.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Ainda assim, cerca de um terço da amostra informou acessar, assistir ou procurar ativamente algum veículo jornalístico, pelo menos, uma vez por dia. Já um quarto dos universitários admitiu não ter o hábito de consumir notícias.

Estes jovens adultos, em sua maioria matriculados em universidades públicas, lembram que a última notícia que viram foi em alguma rede social (36,6%) ou em um veículo jornalístico (34,5%). Whatsapp ou Telegram somaram apenas 2,5% das respostas quanto à fonte da informação.

Baixo impacto do noticiário

Poucos souberam contar com algum detalhe sobre a última notícia que haviam visto. Em um campo aberto para resposta, muitos pareceram lembrar vagamente sobre o relato mais recente com que tiveram contato, em sua maioria, no mesmo dia em que participaram da pesquisa. Quase 4% dos participantes admitiram não saber ou não lembrar da última notícia a que foram expostos.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Embora rejeitem a negatividade do noticiário, foi notável a quantidade de graduandos que mencionaram alguma notícia sobre violência como a última que viram. Mas um destaque maior fica por conta de acontecimentos locais ou referentes ao universo da profissão à qual se preparam. Alguns exemplos são:

[Pergunta] Qual foi a última notícia que você viu?

  • Cachorro na França é o primeiro animal suspeito de varíola de macaco” (estudante de Zootecnia)
  • Repórter que foi atingido por uma pedra por um bolsonarista” (estudante de Jornalismo)
  • Sobre a interpretação jurídica” (estudante de Direito)
  • Raio atinge e mata metade das cabeças de gado do local” (estudante de Engenharia Agrônoma)
  • Informações esportivas” (estudante de Educação Física)
  • Crítica ao imposto de renda” (estudante de Ciências Econômicas)
  • Da chuva de granizo em Minas Gerais” (estudante de Geografia)

É natural que o noticiário generalista não contemple, rotineiramente, pautas específicas de uma ou outra área e para isso está a mídia segmentada. Mas quando se fala em “notícias” ou mesmo em “mídia”, de modo geral, a política domina a agenda e aí se cria uma repulsa que os números confirmam.

O grupo mais representativo de jovens que se identificam com a esquerda (39%) dizem que a mídia é de direita. Por sua vez, 42% dos estudantes de direita percebem a cobertura da maior parte dos veículos generalistas enviesada à esquerda. A imparcialidade – tão necessária, segundo as respostas dos próprios participantes – é um atributo que apenas um quinto da amostra percebe.

Um quarto da amostra se diz neutro, ideologicamente. Isso pode ser um indicativo de que há um grupo importante de jovens adultos que se abstêm do debate polarizado. Entre eles, 44% declararam não saber avaliar se a cobertura de 11 veículos brasileiros de abrangência nacional estaria enviesada ou não. Vale sublinhar que isso não significa que eles notem isonomia no noticiário, mas provavelmente preferem ficar à margem da pauta predominante e se concentrar em assuntos de interesse e impacto imediatos.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

 

“O modelo de paywall não pensa no consumidor. O consumidor quer ler apenas os artigos que lhe interessam, de seis ou sete veículos, sem ter que pagar seis ou sete assinaturas. E a tecnologia permite isso. Vamos fazer!


John L. Hennessy, presidente da Alphabet Inc. (aka Google)

Em entrevista publicada pelo espanhol/catalão La Vanguardia, Hennessy defende o micropagamento no consumo de conteúdo jornalístico. Entre as justificativas está o fato de que a venda de assinaturas, no meio digital, faz mais sentido aos veículos do que aos consumidores. Ou seja, não há user-centricity ou a priorização do usuário não norteia as atividades da empresa.

Isso se deve à cultura digital estar tão arraigada ao “snackable content”, ou seja, ao ato de “petiscar conteúdo” pulverizado por vários sites com os quais não se quer – nem se pode – estabelecer compromissos de longo prazo como são as assinaturas.

Assinaturas e o “bundling” no jornalismo

Para a empresa jornalística, o “bundling” ou o “a circulação de pacotes de conteúdo” é a estratégia ideal para criar previsibilidade de receita e equilibrar o caixa.

Em veículos impressos (jornal ou revista), há quem compre a edição pela matéria de capa ou para ler apenas a seção de esportes. No entanto, precisa pagar pelo exemplar inteiro. Isso ajuda, no fim do dia, a compensar o custo de produções pouco rentáveis, mas que o veículo julga necessário ter.

Um exemplar, por si só, já é um bundling. Assinaturas, então, são o bundling do bundling. A mesma lógica se aplica aos pacotes de TV a cabo: quantos de nós pagamos por canais que nunca assistimos, só porque ele “está no pacote”?

Pense no tamanho da admiração e da fidelidade que o usuário precisa ter com o veículo para tornar-se um assinante… É quase um casamento! Tem contrato, compromisso. Impossível? De forma alguma. Só difícil, muito mais difícil do que seguir a natureza do comportamento de consumo atual.

Microinteresses voláteis

No consumo de conteúdo digital – e respeitando a lógica da cauda longa – lemos esporte no veículo especializado; dificilmente no generalista. Mais: se neste mês estou interessada em aplicação de papéis de parede, encontrarei facilmente conteúdo jornalístico que atenda pontualmente minha demanda. E isso não quer dizer que eu tenha razões para me tornar assinante de uma revista de decoração.

Mês que vem é provável que eu já tenha instalado o papel de parede e esteja em busca de informações sobre intercâmbio ou a respeito de tratamentos revolucionários de uma doença X. Há poucos anos o Google chamou isso de “micromomentos“, sob a ótica do marketing. Podemos chamá-los de “microinteresses” ou microdemandas de informação ultra personalizados e voláteis. Eis o snackable.

Micropagamento e câmaras de distribuição

Já falamos, neste Orbis, sobre micropagamento. Não é algo simples e, não raro, soa utópico. Nas palavras de Hennessy:

“Pagaremos um micro valor por cada notícia que leremos e uma câmara de compensação redistribuirá esse pagamento entre os editores.” 

John L. Hennessy, presidente da Alphabet Inc.

Em tempo: as declarações de Hennessy são deste mês, o mesmo mês em que o Facebook proibiu a publicação e a visualização de conteúdo jornalístico australiano no mundo inteiro, estimulado pela lei de barganha de mídia daquele país que, entre outras regulações, cria um fundo alimentado pelas big techs, em favor de pequenas empresas jornalísticas.

Vale a provocação e a reflexão.

Qual a sua primeira reação ao ver uma notícia? Isso depende, é claro, do conteúdo. Mas depende, sobretudo, dos seus valores pessoais.

A terceira e nova pesquisa feita pelo Orbis Media Review mapeou como se dá o consumo de notícias nas redes sociais, especialmente sobre política. O levantamento intitulado Consumo de Notícias: uma Escuta das Bolhas se dedicou à reação mais espontânea e imediata que usuários relatam ter ao ler títulos de conteúdos jornalísticos de diferentes veículos, pretensamente neutros e expressamente posicionados.

As reações foram analisadas com base à linha ideológica declarada pelos participantes. Deste modo, foi possível notar que os usuários tendem a compartilhar conteúdos compatíveis às suas ideologias, justamente para grupos ou familiares que pensam da mesma forma (71%). Eles também preferem comentar notícias quando concordam com elas (55%), embora a quantidade de pessoas que dizem comentar notícias da oposição, mesmo antes de lê-las seja considerável (45%).

Bolhas como proteção ao cancelamento

O choque de ideias, porém, aparentemente necessário para a manutenção da democracia, tem extrapolado os limites do bom senso, no que ficou conhecido ultimamente como “cultura do cancelamento”. No ambiente hostil das discussões sobre política nas redes sociais, a bolha se consolida como um refúgio, uma proteção contra a agressividade; causa e consequência da dificuldade humana de ouvir o outro.

Não querer entrar no embate se expande ao ato de ignorar notícias da oposição. Sessenta por cento dos participantes confessaram simplesmente rolar a tela quando aparecem notícias de ideologia contrária à sua, ou enviam a seus pares, quem também se opõe a elas (53%).

Opostos, mas muito semelhantes

O aspecto mais curioso trazido por esta pesquisa foi o fato de que os dois pólos do debate político – direita e esquerda, aqui usados para fins de simplificação – reagem de maneira extremamente semelhante em relação ao conteúdo compatível e às notícias contrárias às suas respectivas posições. Não é possível afirmar, portanto, que determinado grupo político seja mais agressivo ou mais recluso em sua própria bolha, uma vez que as curvas dos gráficos de reações imediatas apresentam praticamente o mesmo desenho e que a amostragem foi composta de modo balanceado entre quem se declarou adepto à esquerda, centro-esquerda, direita ou centro-direita.

A pesquisa foi feita por meio de convite a perfis de redes sociais que atendiam a uma série de requisitos expostos no relatório. Entre julho e setembro, 310 respostas válidas foram coletadas de maneira anônima, via formulário online.

Este conteúdo faz parte da entrevista com o jornalista espanhol Lluís Cucarella, diretor do Observatorio para la Transformación del Periodismo Local e diretor editorial do site Laboratorio de Periodismo, da Fundación Luca de Tena. Acompanhe outros tópicos desta entrevista.


Orbis Media Review – Quando fala em “conquistar a atenção do leitor”, no dossiê Desafios Editoriais da Imprensa Local no Mundo Pós-Coronavírus (pdf, em espanhol) , você menciona a “criação do hábito” [do consumo de notícia]. De que forma o jornalista – enquanto indivíduo e profissional – pode contribuir com a criação deste hábito entre uma população que já não tem o mesmo nível de atenção aos veículos (ou nunca o teve)? Você acredita que a produção de conteúdo seja suficiente para alcançar este objetivo?

Lluís Cucarella – Já há algum tempo avançamos em direção a um modelo de negócio em que o principal aspecto seja a receita procedente do leitor, predominantemente num modelo de assinaturas, mas não limitado a ele.

A maioria dos estudos realizados aponta para uma mesma direção: para que estes modelos de pagamento funcionem, é necessário que alguns KPIs de lealdade sejam altos. Por exemplo, o número de vezes que um leitor entra no site de um jornal por semana, o tempo de permanência, a conexão com a marca através de diferentes plataformas em diversos momentos do dia, etc.

Se temos sete milhões de leitores mensais, mas 99% deles são usuários novos a cada mês, que não voltam no mês seguinte, dificilmente teremos sucesso num modelo de assinaturas.

Mais do que uma estratégia, se trata de uma necessidade. Se não conseguimos gerar uma rotina diária nos leitores, algo que se torne um hábito, os veículos ficam expostos à própria sorte, a que alguém encontre uma notícia deles nas redes sociais e que este alguém visite o site.

No caso dos veículos locais, essa necessidade [de criação de hábito de consumo de notícias] se multiplica porque, num contexto de disputa pela atenção do leitor, se o veículo for incapaz de gerar uma certa visão de mundo que satisfaça as necessidades informativas do leitor (e isso inclui primordialmente a informação local, mas também certo contexto geral), o veículo vai ficando em segundo plano. É como aquele jornal que, se eu já li seu concorrente, só darei uma olhada por cima.

Um jornal local deve mostrar casos próximos e recentes de contágio por covid-19, além de retratar o que diz a comunidade científica ou se limitar a publicar apenas o número de infectados da região?
E se acontece um atentado em outra zona do país, ele não deve noticiar? Se for assim – e desse jeito têm funcionado muitos veículos locais – ele nunca será líder de mercado, aquele que o leitor acessa todos os dias e, somente se sobra tempo, visita outros. Desse jeito nunca seremos o ponto de partida para o usuário informar-se.

Outro dia o diretor do Olé, da Argentina, exemplificava perfeitamente esta situação. Ele se perguntava se, quando um escritor argentino morre, eles precisam esperar que algum atleta faça referência ao fato para então justificar a publicação do acontecimento na publicação esportiva que são. A  mesma coisa acontece com o jornalismo local.

Para conhecer o leitor

Como um jornalista pode criar o hábito de consumo de notícia entre seus leitores? Em primeiro lugar, conhecendo bem este leitor. Parece algo simplista, mas não é. E essa tarefa fica, em grande parte, com os editores. Se eles têm recursos para conhecer este leitor, devem preparar suas equipes; se eles não têm os recursos, ao menos devem criar uma cultura na redação que avance nesta direção, com as ferramentas que permitam conhecer este usuário, ainda que seja a partir de métricas muito básicas. De alguma forma é preciso começar.

O primeiro passo para tomar conhecimento do leitor é saber quais hábitos ele e a comunidade a quem nos dirigimos já têm. Podemos fazer isso de forma direta ou indireta. Muitos jornais conseguiram resultados extraordinários sem a necessidade de investimentos altos, mas com enquetes simples, físicas ou virtuais. Alguns destes veículos, inclusive, convocaram seus leitores para um evento e debateram com eles sobre como são suas rotinas e para que necessitam das informações daquele jornal. Investigamos, sobretudo, hobbies, hábitos e rotinas que já existam, preocupações, desejos etc. Podemos optar por enquetes, análises de dados de navegação, testes A/B, formulários de cadastro onde os leitores informam seus códigos postais e então podemos fazer um acompanhamento de pautas e consumo informativo desde o nosso veículo, por bairros ou regiões.

Uma vez que temos os dados compilados, com todos os detalhes possíveis, saberemos quais produtos e serviços devemos criar para aproveitarmos os hábitos que já estão preestabelecidos e em quais podemos ser não apenas uma fonte de referência, mas o veículo que conecte estas pessoas umas com as outras e que o jornal seja o centro da atenção.

Outra coisa são os hábitos gerados após uma mudança social ou pessoal. Para além dos hábitos já criados, como jornalistas devemos ser capazes de saber – antes que outros profissionais – quando estamos diante de um disparador, de uma mudança social que vá modificar alguns hábitos da população e criar produtos e serviços em torno dele.

Se somos capazes de criar produtos ou serviços que atendam este novo hábito que está sendo disparado, então estamos na estratégia certa. A covid-19, apesar de ter tido uma magnitude inédita para todos, provocou uma mudança de hábitos que irão perdurar. Muitos veículos já estão criando verticais que apontam diretamente ao centro destes novos hábitos. Isso, numa pequena escala, acontece de modo frequente diante de episódios não tão relevantes como a covid-19.

É preciso criar um sistema que nos permita estar alertas, baseado em dados, ainda que isso não substitua a experiência e o trabalho do jornalista que tem responsabilidade não apenas na materialização dos novos produtos e serviços, como também em sua composição e concepção.

Hábitos, conteúdo e fidelidade

Às vezes, a forma de conectar um veículo a um leitor mediante um hábito já estabelecido também pode estar no conteúdo. Há muita gente que, enquanto toma café antes de ir ao trabalho, olha o celular para ver o que aconteceu pelo mundo; após o trabalho, corre para casa e à noite, antes de se deitar, volta a ter interesse pelas últimas notícias do dia, mas em um contexto de escassez de tempo.

Se somos capazes de ter produtos como uma newsletter matinal, com o que há de mais relevante de forma hierarquizada, concisa e útil sobre o trânsito da cidade, previsão do tempo etc, se podemos oferecer uma porção de podcasts sobre temas de lazer que interessam à maior parte dos nossos leitores e fazemos isso com qualidade, temos todas as condições para fidelizar este leitor graças ao fato de conhecermos sua rotina.

Além disso, existem os hábitos que, como veículo de comunicação, podemos criar. Talvez sejam os casos mais complexos, mas também são aqueles que dão os melhores resultados. Podemos criar um novo vertical ou uma série de reportagens que analise um caso concreto e sugerir o material àqueles leitores que acompanham tais temas, que assinem os alertas ou a newsletter que acompanhará este novo produto. Se for algo bem feito, com o tempo também criamos o hábito no leitor.

É preciso levar em conta dois pontos finais: um jornal não pode ser formado apenas por um aglomerado de notícias e serviços que respondam aos hábitos dos leitores. Pode parecer uma contradição a respeito do que vinha falando até agora, mas não é. Um jornal, como eu dizia, deve ser um guia, deve oferecer uma visão de mundo, ser uma referência. Em muitas ocasiões, a informação que não atende diretamente o leitor é pura commodity, algo com nível muito baixo de diferenciação. Mas se conseguirmos fazer com que esta informação esteja vinculada a três produtos ou serviços nossos, duas vezes por dia ou cinco vezes na semana, vai criando-se o hábito. Finalmente, este leitor vai escolher o nosso veículo também para consumir as outras notícias e descobrirá o espírito do nosso editorial, nossa personalidade, os valores da publicação e criará um hábito global ao redor do nosso jornal.

O outro ponto que se deve considerar é que os hábitos não são construídos do dia para a noite. Frequentemente os jornais caem na impaciência. Se temos feito bem o trabalho de análise prévia e um bom desenho do novo produto ou serviço, uma boa execução e uma boa campanha de promoção, esperemos um pouco. Apostemos no produto. Vai ser necessário repetir, ajustar, modificar o produto, mas sem nos desesperarmos porque os números iniciais são baixos e, por esta razão, desistimos. Nunca saberemos se o produto não funcionou porque estávamos equivocados ou porque nossa aposta foi tímida e, além disso, de curto prazo.


Acompanhe outros tópicos desta entrevista com Lluís Cucarella.

Atualmente, é fácil perceber a transformação do meio jornalístico e a maneira como os leitores consomem notícias.

Em tempos de mídia analógica, comprávamos o jornal inteiro, com todo o seu conteúdo e, mesmo que quiséssemos saber somente notícias sobre esporte, pagávamos também pelo conteúdo sobre política, economia, entretenimento etc.

Com a popularização da Internet, não somente esta demanda, mas também a oferta pela informação, mudou. Na web, qualquer pessoa é capaz de encontrar conteúdos que atendam de maneira precisa e pessoal aos seus interesses. Por isso, a customização no ambiente digital é fator essencial, que deve ser levado sempre em consideração.

Já nos últimos tempos, ferramentas e novos investimentos em modelos de negócios e estratégias – como os paywalls, subscriptions, SEO e analytics – têm sido fundamentais na constante luta do jornalismo contra a volatilidade no consumo de notícias. Mas será que somente estas técnicas e estratégias são suficientes para que haja uma mudança no cenário de consumo de informação?

O que de fato sofreu uma profunda transformação foram as pessoas e a maneira como elas passaram a consumir a notícia. Infelizmente, o jornalismo ainda está atrasado no tempo, tentando se adaptar a estas mudanças que não cessarão tão cedo.

Talvez a pergunta indispensável a ser feita para que o jornalismo possa correr atrás do tempo perdido seja: se as pessoas não consomem mais conteúdo do mesmo jeito que antigamente, por que insistir na produção deste conteúdo do mesmo modo como sempre foi produzido?

Caso o jornalista comece a se aproximar de seu leitor, oferecendo notícias que façam sentido para o seu cotidiano, mudanças importantes no jornalismo, efetivamente, poderão começar a acontecer.

O isolamento social no plano físico provocou uma super conexão informacional. Emissoras de TV e sites de notícia registraram aumento expressivo de audiência nas últimas semanas. De fato, a preferência por estes canais para receber informações sobre o Coronavírus corresponde a mais de 3/4 dos participantes da pesquisa Consumo de Informações sobre o Coronavírus no Brasil, realizada pelo Orbis Media Review entre os dias 25/03 e 02/04.

O dado não significa, porém, que a mídia informal de conteúdo amador esteja fora do radar da população. Mensagens de amigos, grupos e familiares, além de posts em redes sociais também têm servido de fonte de novidades sobre a pandemia para mais da metade dos usuários. A quantidade de atenção dada às redes sociais, no entanto, não significa que todo este conteúdo esteja sendo absorvido de forma automática.

Questionados sobre a forma como percebem mensagens de áudio e vídeo que vêm sendo amplamente compartilhadas por WhatsApp, 53% dos participantes admitiu que a maioria deste conteúdo não é confiável. O problema é quando essa desconfiança contamina os veículos de jornalismo profissional. Um grupo correspondente a 58,6% da amostra afirmou ter visto uma notícia falsa sendo dada como verdadeira em sites de notícia, TV, rádio ou mídia impressa.

Apesar disso, a qualidade da cobertura que a mídia vem fazendo sobre a pandemia foi bem avaliada. Nada menos que 80% da amostra classificou o trabalho dos veículos como adequado, ótimo ou excelente. Várias pautas foram apontadas como alvo de interesse dos usuários, que disseram querer saber mais a respeito. O grupo que admite estar consumindo menos notícias do que o usual é de 11% e tomam essa decisão porque o noticiário estaria causando mal-estar.

Para aqueles que passaram a dar mais atenção às notícias (45%) ou que seguem acompanhando o noticiário como sempre (38%), a abertura do sinal de algumas emissoras a cabo e a derrubada do paywall de sites jornalísticos são bem-vindas. Num universo em que 67% do público não é assinante de qualquer produto jornalístico e também não se mostra disposto a pagar por notícia, as empresas de mídia exercem o jornalismo como serviço à sociedade.

Os desafios de médio e longo prazo da indústria jornalística, pós-quarentena, apontam para o um esforço extra nas iniciativas para captar assinantes e, antes disso, para a retomada da confiança da população, que oscila entre o consumo de uma boa cobertura e a desconfiança de que veículos não estão imunes às fake news.

Por Bruna Bariani*

Não é de hoje que sabemos que nosso público não parece muito disposto a colocar a mão no bolso para ler o que escrevemos. Mas calma, caro colega jornalista: a coisa fica pior. O percentual de pessoas que correm na direção oposta de qualquer notícia aumenta. Neste contexto, o termo “news avoiders” soa como um soco no estômago e no ego para nós, profissionais da imprensa. Não nos querem nem de graça! Mas como canja de galinha e humildade não costumam fazer mal a ninguém, é preciso esmiuçar de cabeça baixa o que estamos fazendo de errado.

O Reuters Institute constatou que, em dois anos, o percentual de pessoas que evitam ativamente as notícias aumentou em 3% e o número de pessoas dispostas a pagar por conteúdo permaneceu estável desde 2013, em 11%, em nove países. Nos EUA, o cenário é um pouco melhor, mas a quantidade de pessoas dispostas a pagar por notícias é a mesma desde 2017: apenas 16%.

Imediatismo e hedonismo são intrínsecos a uma geração que tem diversos nomes complicados para problemas bastante simples, como baixa tolerância à frustração.

Quando indagados, estes “evitadores de notícia” nos deram dois motivos principais para torcerem o nariz ao nosso produto: 58% afirmaram que consumir notícias tem impacto negativo no humor, seguidos por 40% que admitiram um sentimento de impotência diante daquilo que leem. Tais justificativas suscitam diversos questionamentos e creio ser válido recorrer à psicologia e à sociologia para tentar entendê-las.

Nas primeiras décadas do século passado Freud, pai da Psicanálise, reconhecia no homem a força do “princípio do prazer” que, em síntese, tratava da busca instintiva por aquilo que nos dá prazer e a evitação do que nos causa desprazer. Em tempos de geração Y, millennials, homo smartphonicos e cia, talvez Freud nunca tenha sido tão atual: imediatismo e hedonismo são intrínsecos a uma geração que tem diversos nomes complicados para problemas bastante simples, como baixa tolerância à frustração.

Estaríamos, mais do que nunca, sendo regidos pelo princípio freudiano do prazer? Pode ser. Isso tem lá sua lógica psicanalítica, mas me arrisco a dizer que o buraco é mais embaixo. Se lançarmos luz à sociologia, talvez possamos , humildemente, dialogar com Zygmunt Bauman que denominou nossa condição de “modernidade líquida”.

Para Bauman, a sociedade pós-moderna, líquida, caracteriza-se por um tempo sem ilusões. A época anterior à atual também desmontrava a realidade herdada, mas com o objetivo de torná-la melhor e então novamente sólida; por isso o autor a denominou “modernidade sólida”. Na contemporaneidade, nada é capaz de permanecer; tudo é líquido: nós destruímos e não reconstruímos nada no lugar.

Se trouxermos este paradigma para nosso trabalho como imprensa e ousarmos ser suficientemente fortes e humildes, talvez possamos reconhecer que ajudamos a que não sobrasse pedra sobre pedra: instituições, referências, crenças, poderes públicos, empresas privadas etc. Algumas destas realidades precisavam, de fato, escorrer pelo ralo de nossas redações para que fossem renovadas. Mas o que construímos no lugar delas?

Na nossa edição, reservamos alguns caracteres para contar o que está sendo feito, ou melhor, construído no lugar? No nosso editorial reservamos um espaço para empoderar o nosso leitor que, antes de tudo e de mais nada é um cidadão?

Lembro-me quando ouvi, ainda na faculdade, o famoso jargão jornalístico “bad news are good news”. Talvez esta lei tenha expirado. Talvez ela fosse válida na época em que as notícias tinham data e hora para entrar e sair da casa das pessoas: o jornal das 20h, o carteiro que entregava a revista semanal no domingo, o rapaz que jogava o jornal impresso na porta de casa e que abríamos na hora do café e fechávamos após o último gole.

Hoje a notícia não pede mais licença: a TV não desliga, a informação vem no meio da programação musical, os aplicativos de notícia enviam constantes alertas, o grupo de WhatsApp vem recheado de (fake) news que se acumulam durante todo o dia.

Quando as estatísticas apontam que a maior razão das pessoas evitarem notícia é a sensação de desânimo e impotência precisamos, como jornalistas, nos implicar nisso. O mundo não é cor de rosa e, como Ruy Barbosa dizia, devemos ser “os olhos da nação” e retratar com ética o factual. Mas será que, na nossa edição, reservamos alguns caracteres para contar o que está sendo feito, ou melhor, construído no lugar? No nosso editorial reservamos um espaço para empoderar o nosso leitor que, antes de tudo e de mais nada é um cidadão?

Bauman dizia que vivemos buscando soluções individuais para problemas produzidos socialmente e sofridos coletivamente. E o fato é que, como imprensa, só damos informações para o leitor se sentir impotente e deprimido. Estamos falhando. De novo, quem aguenta um mundo tão líquido?

O escritor francês Maurice Blanchot dizia que as respostas são a má sorte das perguntas. Precisamos reconhecer que não temos a resposta para barrar este número crescente de news avoiders que não digerem bem este prato que servimos. Mas se não soubermos as respostas e se tivermos humildade, veremos que ter a boa sorte das perguntas já é um bom começo.

*Jornalista, estudante de Psicologia

Negatividade é valor-notícia desde antes do surgimento dos tabloides sensacionalistas. As “folhas volantes” que circulavam na Europa do século XVII publicavam relatos em primeira pessoa escritos por assassinos condenados à morte. Eram as chamadas “canções da forca”. Mas agora tem (bastante) gente que, deliberadamente, evita consumir notícias porque elas são ruins. Será essa a raiz da crise no Jornalismo?

Além disso, credibilidade é uma coisa séria e, sim, a indústria também sofre com a desconfiança sobre o conteúdo dos veículos. O último relatório do Reuters Institute mostrou que a confiança nas notícias caiu 2 pontos percentuais no último ano, de 44% para 42%. Não convencemos nem mesmo a metade da população que ainda nos lê/assiste/ouve. Mas fake news não é o nosso maior calcanhar de Aquiles.

Tendo a acreditar que, quando as pessoas dizem que se afastam das notícias porque estão cansadas de “coisas ruins”, na verdade há duas razões subjacentes:

  • a sensação de impotência;
  • a falta de um impacto efetivo que aquela notícia terá no seu dia a dia.

Era da Hipersensibilidade

Notícia nunca teve o objetivo de fazer alguém feliz. E mesmo assim líamos o noticiário para “estarmos informados” sobre o mundo ao nosso redor. Acontece que esse mundo deu voltas e chegou à era do hedonismo, da razão sensível. Hipersensível. Não se trata de estarmos vivendo num mundo cor-de-rosa; longe disso! O hedonismo se manifesta nas intenções do dia a dia, na busca permanente pela felicidade, na liberdade imperativa, no lazer barato e encantador que a tecnologia promove.

É fácil passar horas jogando online. Caçar Pokemón cria uma camada lúdica e colorida sobre a cidade real, suja e insegura que habitamos. Quer coisa mais envolvente que cantar com amigos? É com isso que o TikTok agarra adolescentes mundo afora. E rir com os vídeos do YouTube? Fazer maratona no Netflix não falha pra gente participar da conversa no grupinho. Senão, põe aquela playlist no Spotify que parece ter sido feitinha pra ti. A tecnologia lava de dopamina nossas almas cinzas, da cor do jornal.

Solidariedade e afeto

Se vivemos, de fato, um reencantamento do mundo, onde as tribos urbanas instituem um código de estar-junto sustentado pela sensibilidade, é natural que a solidariedade ressurja como um elemento dessa “nebulosa afetiva”, de que fala Michel Maffesoli. Quero o outro porque ele me protege, me faz forte, me permite existir. Quero o outro porque ele “me”… Hum. Não. Melhor deixar essa polêmica para depois.

Viver na coletividade não só me sensibiliza, como também me mobiliza. Amo a quem nunca vi nem ouvi, mas pensa do mesmo jeito que eu. E esse afeto me impele a agir em nome do laço que nos une. A solidariedade emerge da necessidade de pertencer a uma comunidade sensível, já que as estruturas racionais e utilitaristas da sociedade ruíram.

A insustentável impotência do ser

Assim fica difícil ver o sofrimento dos meus pares na televisão, sem fazer nada a respeito. Ou ainda, é insuportável sentir a dor e a injustiça provocada por aqueles que são notícia e reconhecer minha inaptidão para mudar a realidade.

Não são as “notícias ruins” que afastam o público do Jornalismo. As notícias não mudam, infelizmente, desde o século XVII. O que mudou foi a reação do público diante delas. A sensação de impotência foi agravada pela necessidade do afeto urgente. Só resta nutrir minha hipersensibilidade com aquilo que me faz feliz. E focar no mundo “do bem”.

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Sugestão de leitura e disparador deste texto: Why do some people avoid news? Because they don’t trust us — or because they don’t think we add value to their lives?