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Obter resultados financeiros consistentes produzindo conteúdo noticioso continua sendo um desafio notável para inúmeras empresas de mídia. Os problemas apontados são inúmeros e bem conhecidos: as preferências dos consumidores mudaram, o formato do conteúdo jornalístico não tem mais um grande apelo, estamos perdendo a luta pela atenção para a indústria do entretenimento…

Todos são pontos válidos que, por vezes, geram uma dúvida ainda mais dramática: será que o jornalismo se tornou obsoleto?

Antes de responder essa pergunta, é interessante pensar de onde vem o valor de um determinado produto, já que boa parte do nosso drama deriva disto. Para entender este ponto, proponho olhar para outros mercados que têm muito a ensinar, permitindo uma análise sobre nossa própria situação e para onde podemos ir.

 

Um problema de precificação

Qualquer empresa ou negócio lutará para aumentar a margem de lucro do seu produto. Se esta margem for muito baixa, afinal, talvez nem seja interessante produzi-lo. Neste sentido, os negócios de varejo não se encontram em uma situação muito legal, e o motivo é bem claro: não é possível vender um microondas, uma televisão ou um jogo de panelas por um preço muito mais alto que aquele adquirido pela própria loja, pois o que não falta aos consumidores são opções. Assim, se a empresa X tem o impulso de vender um microondas por duas vezes o seu valor de mercado, a consequência é que ela simplesmente ficará sem clientes, que passarão a comprar na loja Y ou Z por um preço muito mais adequado.

Sem ter, portanto, margem para aumentar o preço dos produtos vendidos, resta às empresas de varejo reduzir seus custos e aumentar sua eficiência para poder vender a preços mais baixos.

Nem todos os outros setores do mercado vivem a mesma situação. A Apple certamente não pode aumentar o preço de seus produtos indefinidamente sem arriscar perder clientes, mas ela – bem como qualquer outra empresa de tecnologia – consegue ter considerável autonomia para definir o quanto eles valem. Uma nova linha de smartphones mais finos, elegantes, com melhor bateria ou uma tela dobrável. Tudo isso são diferenciais sobre a concorrência – e diferenciais que influenciam no quanto uma empresa consegue cobrar por eles.

Quando olhamos para cada mercado separadamente, portanto, vemos duas situações diferentes: uma empresa que revende produtos costuma ter pouca flexibilidade para definir seus preços porque o mercado está saturado de itens iguais ou muito semelhantes. Já uma empresa de tecnologia – e de muitos outros setores – não encontra o mesmo problema porque ela é a única produzindo aquele produto. Sim, há uma boa oferta de smartphones por aí, mas apenas a Apple produz o iPhone e apenas a Samsung produz o Galaxy. Assim, cada empresa define o quanto cobrar pelo seu dispositivo.

O fator da subjetividade é outro a entrar em campo. Embora seja fácil calcular o custo de produção de uma tela dobrável, é muito mais difícil definir o valor que isso gera para os possíveis compradores. As empresas podem trabalhar em cima deste fator para aumentar o quanto cobram pelos produtos, ainda mais se a tela dobrável for algo que somente você tem a oferecer. Já as empresas que revendem não tem quase nada de subjetivo e único a oferecer; ao contrário, os clientes levarão em conta apenas fatores objetivos na hora da compra como preço e a melhor oportunidade de parcelamento.

Em suma, quanto mais uma empresa consegue trabalhar com a percepção de valor do seu produto – que aumenta quanto mais exclusivo ele for –, mais ela conseguirá aumentar seu preço e, portanto, sua margem de lucro.

 

Como esta lógica se aplica ao jornalismo?

Não é fácil definir o valor de um produto jornalístico. Em geral, os preços cobrados em assinatura, por exemplo, acabam sendo definidos pela disposição do público em pagar pelo que temos a oferecer. Como profissionais do setor, nossa tendência, naturalmente, será pensar que o que fazemos vale mais do que R$ 20,00 ou R$ 30,00 de mensalidade. A história e legado do jornalismo corroboram essa crença.

Ainda assim, aumentar o preço cobrado é sempre um risco, e sabemos que há um limite do quanto podemos exigir dos leitores – mesmo daqueles que mais se interessam pelo que temos a oferecer. Para entender como podemos trabalhar melhor o nosso produto e precificá-lo de acordo, é útil entender de onde vem o nosso valor. Aqui, selecionei dois critérios:

1 – Tradição e credibilidade: O peso deste critério é inquestionável. Jornalistas sabem muito bem que credibilidade não se cria de um dia para o outro – embora possa se deteriorar rapidamente caso a publicação derrape na apuração dos fatos com regularidade. O público também reconhece este valor, de forma que veículos com nome e uma longa tradição tenderão a encontrar mais facilidade em gerar volume de leitores do que veículos que carecem destes elementos. Em geral, as reportagens de veículos tradicionais costumam ser generalistas e informativas, evitando ao máximo a subjetividade de quem assina a matéria. Não a toa, isenção e imparcialidade são palavras-chave nestas empresas.

2 – Especialização/posicionamento: aqui estamos falando de veículos cujo principal objetivo é a diferenciação. O meio para isso será o conteúdo, que pode pender tanto para a objetividade das análises quanto para a subjetividade de quem escreve – e muitas vezes, enfatizando estes dois elementos ao mesmo tempo. Assim, podemos ver matérias que não apenas apresentam informações, mas que contam com explicações profundas sobre um determinado acontecimento e suas possíveis implicações. Igualmente, é possível encontrar diversas reflexões feitas pelo autor sobre os temas abordados, de forma que a sua subjetividade passa a ser o elemento principal do conteúdo. Em ambos os casos, o conteúdo transcende a simples exposição de fatos apurados. Nenhum veículo que aposta nesta estratégia será puramente informativo.

Vale observar que os dois critérios acima não são excludentes. Veículos que apostam na diferenciação do conteúdo também podem gozar de forte credibilidade, gerando ainda mais valor ao conteúdo vendido. Veículos tradicionais também podem adotar uma estratégia editorial posicionada ou especializada, embora muitos prefiram não fazê-lo para não desagradar certa parcela dos leitores.

A pergunta crucial é: qual veículo tem maior possibilidade de fidelizar a audiência e qual tem mais flexibilidade para definir o valor do seu produto? Assim como em outros setores do mercado, a resposta será aquele que tiver maior exclusividade.

Ao se ater apenas à informação e à objetividade dos fatos, muitas empresas acabam limitando o potencial do seu produto. Mesmo os furos de notícia, valorizados como são por quem trabalha no meio, tem pouco valor nos tempos da internet e do ponto de vista do público, já que serão imediatamente replicados por outros veículos e portais. Assim, fica difícil precificar adequadamente o seu conteúdo quando a oferta de outros parecidos com o seu são ofertados a baixo custo ou mesmo gratuitamente.

A tabela abaixo ajuda a entender esta ideia. Os créditos vão para Jay Acunzo que dividiu o conteúdo jornalístico em dois grupos: informativo e reflexivo, de um lado; generalista e personalizado, de outro. De acordo com ele, o produto “informativo” e “generalista” possui pouco valor e pouca orginalidade, caindo, assim, na “gaiola da commodity”. Uma vez ali, os veículos acabarão com dificuldade de atribuir grande valor a ele.

Essa é uma realidade dura de engolir, ainda mais considerando que a maior parte do produto jornalístico de fato é, e continua sendo, informativo e generalista. Embora este tipo de conteúdo tenha rendido muitos frutos na época da abundância de receita publicitária, o cenário atual é muito diferente. Grandes e tradicionais empresas de mídia frequentemente atrelam o seu nome e tradição ao conteúdo publicado, o que de fato traz resultados comerciais. Mas isso nem sempre será suficiente se a maior parte do seu conteúdo estiver no âmbito da commodity, dentro do qual você é forçado a competir por volume. Fora dela, sua luta é por impacto.

Diante das circunstâncias existentes, portanto, se torna cada vez mais necessário encontrar uma estratégia de produto que seja mais robusta do que se apoiar no nome e credibilidade construídos ao longo do tempo para vender conteúdo. Essa realidade se aplica mais a certos produtores de conteúdo e veículos de mídia do que outros, mas ainda assim é uma estratégia que todos deveriam considerar.

O impacto de uma mudança na estratégia editorial sobre a audiência também é algo esperado. Muitos veículos, sobretudo os tradicionais, costumam temer uma queda no volume de acessos e assinantes. O risco é real, ainda mais porque o conteúdo informativo e generalista tende a apelar a um público volumoso, enquanto o conteúdo especializado, posicionado ou reflexivo tem o efeito oposto, apelando a um público de nicho. É quase como se o centro gravitacional mudasse de lugar.

A questão é que volume não é sinônimo de valor, de forma que os veículos que se apegam a este elemento arriscam ser facilmente substituíveis.

Talvez, portanto, não seja o setor que está obsoleto, mas apenas a estratégia editorial adotada por muitos.

Notícias puramente informativas tem pouca exclusividade pois são facilmente replicáveis. Já notícias especializadas, analíticas ou opinativas são únicas. O resultado é que elas tem muito mais valor agregado do que apenas a informação, e sem que haja percepção de valor, não há como sustentar um produto e um negócio por muito tempo.

Assim como em muitos outros mercados, também no mercado de mídia.

O fim da editoria de esportes do New York Times não é um assunto lá muito novo – inclusive já comentamos sobre ele por aqui. Mas mesmo temas passados podem render novas reflexões, e por isso vale a pena voltar ao assunto, sobretudo para analisar como as empresas de mídia podem aprimorar seus produtos.

É claro, do ponto de vista estratégico e de negócios, a editoria de esportes realmente não fazia muito sentido, especialmente depois que o Times comprou o muito mais especializado The Athletic no início de 2022. Além disso, eliminar a editoria não significava apenas deixar parte do conteúdo para a sua vertical mais especializada, mas permitia que o próprio Times reservasse suas páginas para o conteúdo sobre política e sociedade que sempre foi parte central de sua cobertura. Na época, escrevemos o seguinte sobre essa questão:

Deixar de cobrir esportes ou qualquer outro assunto tão tradicional em veículos generalistas ainda é uma decisão difícil e, por isso, evitada (…) Parece mais fácil e melhor aceito pelas lideranças expandir o que já é feito: cria-se suplementos e projetos especiais em assuntos do momento, abre-se perfis em todas as redes sociais – inclusive naquelas que não têm a mínima relação com a essência do veículo (…) Atira-se para todos os lados e não se acerta o alvo.

Estrategicamente falando, portanto, o Times parecia ir por um caminho interessante e muito mais condizente com as atuais demandas do público e com o atual contexto do mercado. Na era em que a publicidade deixa de ser uma fonte segura de receita para as empresas de mídia, ter um modelo editorial nichado, e não generalista, tende a ser uma forma mais segura de obter recursos diretamente dos leitores. Mas isso por si só não explica o fim da editoria de esportes.

 

O problema está no conteúdo

Ethan Strauss é um jornalista esportivo que por muito tempo cobriu a NBA, a liga de basquete americana, pela ESPN. Como muitos de seus colegas de profissão, ele abandonou as grandes empresas de mídia e hoje tem seu próprio blog, chamado “House of Strauss”, onde escreve regularmente. Para efeitos deste artigo, o que realmente nos interessa é uma de suas recentes publicações sobre a descontinuidade da editoria de esportes do NYT, que para ele se deve, em grande medida, ao fato de que os “leitores, dentro ou fora de Nova York, não eram atendidos (pelo conteúdo esportivo do Times)”. Simple as that!

A carta assinada por A.G Sulzberger, Publisher do Times, em que se explica os caminhos tomados pelo jornal, corrobora essa percepção quando diz que por muito tempo a editoria de esportes foi responsável por grandes reportagens envolvendo “investigações sobre temas urgentes como concussões e doping, leituras obrigatórias sobre um time de futebol feminino do Afeganistão, uma trágica avalanche em Washington e muito mais”.

Imagino que todos estes temas tenham rendido ótimas matérias, mas concordo com Strauss quando ele questiona qual interesse o leitor americano médio tem pelas reportagens mencionadas. Será mesmo que um torcedor fanático de baseball ou basquete quer mesmo saber sobre um time de futebol feminino do Afeganistão? O futebol tradicional, aquele jogado com uma bola redonda, sequer é um esporte popular nos EUA.

Não é à toa que parte considerável da população começa a sentir que o trabalho feito por nós, jornalistas, simplesmente não é de seu interesse. Aqui vale uma longa citação de Strauss:

Na ausência de um público-alvo, o jornalista ainda pode se sentir realizado criativamente e validado por seus colegas do setor. Seu trabalho só não durará muito tempo. Isso não é uma tragédia, e sim o resultado esperado para todos os outros negócios do mundo. Nós não somos diferentes, embora queiramos ser. Nós não somos transcendentes, embora talvez tentemos. Somos apenas trabalhadores servindo o interesse de pessoas que não são menores do que nós. Quando nos esquecemos disto, esquecemos como fazer o trabalho.

Verdade seja dita, não concordo 100% com o que diz Strauss. Há algo de transcendente no jornalismo, ou ao menos algo que o torna diferente de muitos outros trabalhos. Parte disso se deve à nossa relação com o público – o que me leva a mais uma discordância com a citação acima: nossa função não é apenas servir o interesse das pessoas. Devemos também servir à verdade dos fatos e ter sempre um alto grau de independência que nos permita tocar em sensibilidades, mesmo que elas desagradem empresas privadas, agentes públicos ou o público em si.

Dito isso, há também algo de certeiro no que Strauss escreve. Mesmo que atender o interesse da audiência não seja sempre uma obrigatoriedade, tampouco podemos trabalhar de costas para ela.

Podemos achar que somos sempre objetivos, mas isso não é inteiramente verdade. O jornalista, assim como qualquer outra pessoa, possui valores morais que se refletem nos temas que priorizamos, nas pautas que escolhemos e no tom do conteúdo que publicamos. O ponto é que os valores morais que predominam em nosso meio frequentemente são diferentes daqueles de boa parte da audiência.

É claro, portanto, que as críticas feitas por Strauss não se aplicam somente à cobertura esportiva, mas ainda mais claramente à cobertura política, social, cultural. São tantos temas contraditórios e complexos, e mesmo assim frequentemente apresentamos uma visão de uma via só, que mostra apenas o que o certo e condena o que é errado, como se não houvesse nenhuma zona cinzenta no meio. A pergunta que nos devemos fazer é se o tom, o enfoque e as pautas que priorizamos dialogam com o que o público pensa e o que ele quer ler, ouvir, assistir?

Sem dúvida alguma, isso tudo dependerá do tipo de veículo sobre o qual estamos falando, e este é o ponto crucial. Nossa visão de mundo tem sua legitimidade. A questão é que ela não é universal. A equação sobre o que publicar fica mais fácil para um veículo de nicho. Já para um veículo generalista, é preciso levar em conta ideias e valores que nós mesmos podemos não gostar. O fato, porém, é que se as pautas que escolhemos e os valores que embutimos, consciente ou inconscientemente, nas matérias que publicamos, dialogarem apenas com uma restrita audiência, sem dúvida iremos acabar por alienar o restante da população.

As vezes o público quer algo simples como saber o resultado da última partida de futebol ou quem levou a medalha em sei lá qual esporte. Por vezes também deseja apenas ler algo agradável e construtivo sobre aquilo que está à sua volta ao invés de ouvir problemas que muitas vezes parecem abstratos e distantes.

Há problema em falar do futebol feminino do Afeganistão? De forma alguma! É errado dar mais uma notícia sobre a questão climática ou abordar problemas que nós consideramos estruturais da sociedade? Também não. Acontece que as vezes as pessoas querem algo mais simples, algo que diz respeito à realidade na qual elas vivem. Por que não dar isso a elas?

Não tem como escapar, se queremos ser relevantes, precisamos oferecer ao público aquilo que seja de seu interesse ou que dialogue com seus valores, não com os nossos. Podemos nos convencer que somos fundamentais para a manutenção da democracia, e em algum grau podemos estar certos. Mas este argumento não nos trará audiência, e sem ela não podemos nos manter. É quando nos esquecemos disso que deixamos de ser necessários.

Faz quatro anos que acompanho a estratégia do “menos é mais” na produção de conteúdo por empresas jornalísticas. São vários cases, estudos e aulas que surgiram em função de uma máxima usada noutras áreas, como na corrente da arquitetura que caminha de mãos dadas com o design minimalista. O pai da expressão foi um arquiteto alemão que experimentou o ápice da sua carreira no período entre-guerras, Ludwig Mies van der Rohe. Não por acaso, ele foi diretor da escola germânica Bauhaus, onde nasceu o estilo homônimo, cujo princípio mais conhecido é “forma segue função”.

Não foi para menos. Reconstruir um país destruído pela guerra era uma tarefa complexa, sobretudo pela falta de matéria-prima e pela necessidade de erguer edifícios e redesenhar objetos para uso cotidiano. As ornamentações de prédios deram lugar a linhas retas. O que era belo precisava, agora, ser prioritariamente funcional. Cada material tinha de ser aproveitado inteligentemente; daí a prevalência de elementos versáteis, como a madeira, o aço e o vidro. Além de resistentes e de fácil manipulação, eram materiais baratos em comparação ao mármore, ao bronze e à seda.

Mas o que isso tudo tem a ver com jornalismo? Digamos, talvez, que nossa indústria esteja atravessando um pós-guerra, clamando por reconstrução.

Sou uma das tantas viúvas da Abril e todas as vezes que vejo o NEA, de longe ou pegando a Marginal Pinheiros pela Sumidouro, o nó na garganta denuncia o sentimento de devastação. A imponência do prédio – que não é Bauhaus, mas estilo contemporâneo – é só um dos superlativos que projetou a indústria jornalística na direção do show business, da cultura do entretenimento, de Hollywood. Mas jornalistas não são artistas e nem os veículos podem ser comparados a produtoras cinematográficas. Mesmo assim, o espírito do excesso pode ser uma das causas da crise na indústria – e reconhecê-lo pode ser a solução.

O excesso, infelizmente, não está apenas em infraestruturas e operações caras, como um grande edifício-sede. O exagero aparece na quantidade de conteúdo produzido, atrelado a um modelo de negócios onde “mais é sempre melhor”: a publicidade. 

Desafiando a publicidade

Há alguns dias, o título da newsletter do analista de mídia dinamarquês, Thomas Baekdal, perguntava: “Você quer cliques ou leitores?”. A questão é tão simples quanto cruel. É claro que qualquer um de nós deseja que seu trabalho seja efetivamente consumido (lido, assistido, ouvido) com atenção, do começo ao fim. Mas o que, de fato, perseguimos?

Enquanto tentamos equilibrar os dois pratinhos ao mesmo tempo, perseguindo cliques E leitores, produzimos toneladas de conteúdo para aumentar a extensão da rede que jogamos ao mar. Ora, quanto maior a rede, mais peixes virão! 

Você não clicou na matéria do carro-bomba na Colômbia? Então talvez se interesse pelas eleições na Argentina! Ou preferiria descobrir o que sua posição de dormir diz sobre sua personalidade? Já sei: você quer mesmo é saber que a atriz Aracy Balamanian morreu ouvindo música clássica! Porque você não perderia uma só notícia sobre a sucessão do Lira na Câmara, né?

O problema é que há cada vez mais pescadores jogando redes cada vez maiores e a chance de sobrar algum peixe para cair na sua é cada vez menor. As redes já se cruzam e se embolam e a desinformação traduz o desinteresse crescente pelo jornalismo.

Um dito popular lembra que nem Jesus Cristo conseguiu agradar a todos; mas jornalista segue firme neste propósito, nem que seja a fórceps! Se não agrada de um jeito, tenta agradar de outro. Se uma notícia ou um programa teve pouca audiência, produz outro, publica outra, faz mais! Uma hora, acerta. Afinal, o que conta é o número de audiência.

A publicidade não é um modelo de negócios problemático. Ela tem sua lógica e funciona bem há décadas. Só que ela se orienta pelo volume. E volume de audiência era algo que tínhamos quando a informação era um bem escasso. Por isso a indústria da informação se ergueu e se consolidou: produzíamos um bem escasso. Por isso a Abril tinha até academia com piscina dentro daquele prédio maravilhoso. E por acreditar que não tinha concorrentes, a outrora maior editora da América Latina não está mais lá. 

As revistas da Abril tiveram sucesso monumental, inclusive com publicidade, porque eram únicas, bem acabadas, compostas com planejamento, zelo, tempo e num padrão altíssimo de qualidade. Mas o consumo para esse tipo de produto mudou. A Abril não fez mau jornalismo, não pecou por falta de qualidade. Nem assim a qualidade foi suficiente. Portanto, na indústria jornalística contemporânea que deseja viver de publicidade – ou mesmo de assinaturas -, não basta ser bom, é preciso ser único.

[À parte: li na revista da Gol uma chamada para marcas anunciarem na empresa aérea. O anunciante pode escolher entre mensagens sonoras lidas por comissários de bordo, distribuição de amostras de produtos durante os voos e adesivagem de aeronave. A mídia está em todo lugar e até companhia aérea concorre com veículos de imprensa.]

O volume de audiência é consequência

No fim das contas, o problema não está na publicidade. É sobre ser relevante e fazer sentido a ponto de atrair a atenção de muitas pessoas. A publicidade é consequência disso e ela pode ser viável à medida em que o veículo alcance volume. De qual forma estamos buscando volume? Com mais conteúdo, mesmo que seja commodity, mesmo que haja 489 conteúdos iguais àquele em outros veículos, com quem nadamos em um oceano vermelho.

Para a publicidade funcionar, para atrair um bom número de audiência, o princípio da escassez nunca fez tanto sentido. Quanto menos há, mais valioso é um produto. Se a oferta de todo tipo de informação é infinita, que demanda atendemos? Ou ainda: o que leva alguém a procurar, especificamente, por nós e não por outros? O que fazemos de diferente, de único, de escasso a ponto de atrair a atenção de muita gente?

É realmente difícil ser exclusivo em um ecossistema propício à pirataria, à multiplicação infinita da informação sem perda de qualidade técnica. Então, a equação lógica que vai se desenhando para a indústria jornalística é: 

Se:
ATENÇÃO = EXCLUSIVIDADE
QUANTIDADE < QUALIDADE < EXCLUSIVIDADE
logo:
ATENÇÃO ≠ QUANTIDADE

Procurar por um diferencial real é só um dos pontos que precisam ser pensados em uma estratégia editorial. O medo de fazer algo novo ainda é gigante no setor; daí a eterna e falsa sensação de “garantia” trazida pela fórmula que se repete, pelas pautas que se repetem à exaustão. Mas é na exclusividade, na singularidade de um produto que mora a verdadeira inovação. 

Em tempos de informação excessiva, a inovação pode estar em publicar menos. Se os recursos são escassos, não tenhamos medo de ser simples, funcionais, úteis. Isso não tira nosso brilho; ao contrário, nos faz diferentes, menos iguais que a multidão, mais agradáveis (porque menos prolixos). 

Publicar menos é valorizar cada minuto de atenção da nossa audiência. Experimente!

Há uma certa tendência no jornalismo de evitar escrever em primeira pessoa, o que se dá, em parte, pela necessidade de separar a história da opinião de quem a conta. Aqui no Orbis, entretanto, já argumentamos algumas vezes que há motivos interessantes para revisitar esta ideia. Portanto, começo este artigo fazendo uma confissão pessoal: fiquei extremamente impactado com uma recente leitura que fiz sobre o número de crianças que abandonaram as escolas nos últimos dois anos.

A matéria em questão figurava na edição semanal da revista inglesa Spectator, a qual assino e leio com regularidade – e a qual já analisamos por aqui. Entretanto, o fato de que a evasão escolar narrada esteja acontecendo no Reino Unido pode gerar uma dúvida sobre a relevância da situação, uma vez que não diz respeito ao Brasil. Reconheço a legitimidade do questionamento, mas a verdade é que todo este relato é muito mais importante como contextualização do que pelo fato em si. Explico melhor:

Embora a matéria em questão tenha me provocado um belo de um impacto, o que realmente importa é que, de início, tive pouquíssimo interesse em gastar com ela o meu tempo diário de leitura – na verdade, o fiz quase por falta de alternativa melhor. É claro, o tema é interessante, mas minha preferência, em geral, é por artigos sobre política, questões internacionais importantes e por aí vai. Mas o fato é que, após ignorar a publicação por vários dias, ela eventualmente me venceu e obteve o meu clique.

E aqui está uma questão realmente interessante no que diz respeito ao jornalismo: teria eu lido a matéria caso ela não tivesse passado a semana toda estampada no site? Certamente não. Caso este fosse mais um artigo que nasce hoje para ser ocultado amanhã após uma nova leva de publicações, ao invés de passar uma semana inteira insistindo para ser lido, ele certamente teria fugido do radar de muitos leitores como eu. Coisas assim são sempre uma pena, especialmente quando se trata de matérias bem apuradas que trazem novos insights e perspectivas sobre a realidade – e não aquelas que simplesmente apresentam polêmicas que nada são além de espuma.

Imagem da edição semanal da revista Spectator, destacando a matéria “As crianças fantasmas – os estudantes que nunca voltaram após o lockdown”

Em comparação com o que acontecia nas revistas, as matérias de jornais sempre tiveram um pequeno ciclo de vida. Ao passo que os textos das revistas deveriam se manter vivos por cerca de uma semana, o dos jornais passavam por uma reciclagem diária. Entretanto, o que era natural do jornal impresso, talvez esteja se tornando um problema no ambiente digital. As matérias não apenas continuam com sua alta rotatividade, mas agora isso acontece em um meio em que tudo parece superficial e efêmero. Como gerar a percepção de que o conteúdo que publicamos, o trabalho que fazemos, tem realmente um valor que justifique o tempo investido em leitura?

Ainda temos o hábito de argumentar que o noticiário é importante para que as pessoas se mantenham informadas ou, de forma mais grandiosa, para que a democracia se mantenha viva. Estar antenado, realmente, costuma ser uma motivação forte, uma vez que isso pode sempre render frutos profissionais. Atualmente, no entanto, é possível se manter informado acessando diversas publicações online ou mesmo via rede social. Nada disso garante que o leitor irá acessar o NOSSO veículo.

E neste sentido, a alta rotatividade de matérias pouco acrescenta para o apelo de um jornal em específico, uma vez que esta prática não acrescenta valor ao conteúdo publicado, mas ao contrário, faz com que ele se pareça efêmero. Olhando pela ótica do leitor, o grande volume de publicações e o pouco tempo que elas permanecem em destaque nos sites não gera a percepção de que é preciso estar acompanhando o noticiário com regularidade, pois há uma probabilidade real de que o público acabe por enxergar o conteúdo como tendo pouca substância.


Fitas cassetes no mundo do streaming

Recentemente foi noticiado que o Spotify iria lançar uma fita cassete comemorativa da banda Metallica. Iniciativa estranha para uma empresa de streaming? Talvez não. Tudo aquilo que não é tátil possui uma longevidade inferior ao que é material – pois se não tocamos, logo não parece real; se não parece real, logo se torna descartável.

Obviamente, o Spotify não deixará de ser uma plataforma de streaming, mas com essa iniciativa, lança ao mercado algo que, por ser palpável, possui um maior valor perceptível. As consequências são várias: a fita pode apelar a colecionadores, fãs da música e aos nostálgicos, dando ao Spotify um status superior de marca que realmente valoriza a música.

A solução para todas as empresas de mídia que migraram para o digital é retornar ao físico? Certamente não. Mas é importante entender que se nos propomos a aumentar a percepção de valor das publicações, então estamos fazendo isso em um ambiente que não joga a nosso favor.


O que fazer para que nossos produtos conquistem maior perenidade?

Algumas propostas que podem ser do interesse das empresas de mídia que buscam encontrar um diferencial e fortalecer o financiamento direto pelo leitor já são bastante discutidas e repercutidas aqui no Orbis. Argumentar sobre a importância da busca pela qualidade do conteúdo pode até parecer uma obviedade. Qual jornal não tem como meta publicar matérias bem apuradas e com credibilidade, afinal de contas? Entretanto, quando falamos na busca pela qualidade e diferencial do conteúdo, não nos referimos apenas a isso. Tratamos, especificamente, de quebrar com alguns padrões, exigir dos repórteres uma apuração profunda (mesmo que isso tome tempo), que escrevam de forma clara, mas também criativa, que não publiquem aquilo que todos os demais veículos estão publicando (ou ao menos, não da mesma forma). Fazer isso não é tão óbvio e menos ainda fácil. Exige uma formação excepcional da equipe de reportagem – e com isso, investimento de recurso e tempo. Exige, também, uma mudança de postura. Não é possível colocar tal plano em prática exigindo que cada repórter publique algo novo todo dia (ou várias vezes ao dia). Para este modelo funcionar, é preciso seguir a lógica do “menos é mais”.

Mas não é bem disso que estamos tratando neste artigo. O ponto aqui é buscar uma maior perenidade para o nosso conteúdo. Para isso, a qualidade e o diferencial são o ponto de partida, são o elemento sem o qual a perenidade jamais será possível, mas não o objetivo em si. A verdade é que de pouco adianta publicar uma matéria bem apurada e bem escrita para que ela seja ocultada por novas publicações feitas no dia seguinte – ainda mais se forem publicações que pouco agregam na vida do leitor.

Neste sentido, algo que as empresas de mídia poderiam tentar é de fato insistir nas matérias publicadas. Sim, renovar constantemente o conteúdo é uma prática seguida essencialmente por todos os jornais e revistas que migraram para o digital – mas esta prática não precisa ser uma cláusula pétrea do jornalismo. Por que não manter a rotatividade de parte do conteúdo, investindo complementarmente em matérias especiais, bem apuradas, propositivas, redigidas de forma criativa e visualmente interessantes? E como são trabalhosas, por que não deixar este conteúdo em destaque por alguns dias ou uma semana inteira, como faziam as antigas revistas?

Certamente, isso também exige que as empresas passem a alocar parte de seus esforços a procurar pautas frias (ou mornas) que consigam se manter relevantes por um período maior de tempo. E qual é o problema disso? Talvez haja mais vantagens do que desvantagens em tentar algo assim. Se, por um lado, as publicações acabem deixando de apelar ao instinto mais primitivo do homem de reagir àquilo que é polêmico e escandaloso, por outro podemos não apenas contribuir para a construção de uma sociedade mais saudável, como também podemos garantir um diferencial maior em relação aos concorrentes.

Polêmicas são como tempestades: elas até despertam uma curiosidade inicial, até que se tornam banais quando percebemos que nada mais são do que simples barulho. Assim, pouco conseguimos do público além de uma atenção momentânea. Ademais, este tipo de conteúdo é facilmente replicado por outros veículos. A verdade dura é que pouco ganhamos com a reverberação de escândalos além de cliques acidentais. Já artigos substantivos podem engajar fortemente o leitor e, quem sabe, com a publicação constante de matérias assim, garantir a sua fidelidade com o veículo.

Agradecem aqueles que, como eu, nunca leriam certas matérias – e certamente se arrependeriam caso não o tivessem feito.

Numa cidadezinha sem nome, um dia aparece uma menina chamada Momo. A garota, órfã e carente de um lugar para se abrigar, acaba sendo acolhida pelas pessoas locais, que levam roupas para aquecê-la e comida com a qual possa se alimentar. Um anfiteatro abandonado acaba tornando sua moradia e, também, o local onde as pessoas vão visitá-la.

Nesta fantasia do alemão Michael Ende, a menina Momo acaba se tornando um ponto de encontro para a pequena comunidade local que recorre a ela para ouvir seus problemas, mas também uma adversária para os homens cinzentos – criaturas estranhas de pele acinzentada que representam o banco do tempo. São estes homens que prometem economizar o tempo das pessoas para que elas possam usá-lo futuramente com os devidos juros. É claro que, na obra, este tempo nunca é devolvido, e quanto mais tempo os cidadãos locais economizam, menos tempo têm para atividades consideradas não essenciais.

Obras infantojuvenis, sejam livros ou filmes, tendem a falar de temas complexos no linguajar próprio das crianças. Com Momo não é diferente, e o paralelo com uma sociedade que vive em senso de urgência é clara – e para nós, jornalistas, bastante útil. Afinal, se tudo é correria, podemos realmente esperar que o nosso trabalho seja devidamente acompanhado pelas pessoas? A verdade é que, independentemente da importância do serviço que prestamos, a boa leitura costuma ficar espremida entre o tempo do trabalho e o tempo do lazer. Como fazer para escapar dessa dura circunstância com um conteúdo que seja ativamente procurado pelo público, e não lido acidentalmente como acontece com tanta frequência?

O modelo pelo qual O Antagonista ficou tão conhecido é sempre uma opção. Aos moldes do Twitter, a ideia é publicar muitas matérias de forma extremamente enxuta, permitindo que nos encaixemos mais facilmente na rotina apertada das pessoas. Jornalisticamente falando, entretanto, há um problema. Toda matéria, por mais aprofundada que seja, oferece sempre um recorte da realidade. Quanto mais estreito for este recorte, menor será a capacidade da matéria de oferecer um retrato fiel e contextualizado do assunto em questão. Ademais, fica a dúvida sobre a capacidade deste modelo de engajar os leitores por muito tempo sem ficar constantemente publicando notícias quentes e polêmicas.

Para conseguir atingir os leitores com tempo cada vez mais escasso para a leitura, entretanto, a redução do tamanho das publicações não é a única solução. Ao contrário, há uma outra possibilidade ainda timidamente testada no Brasil em que o veículo aposta em artigos longos, detalhados e muito bem apurados. É certo que se o leitor já não dedica tanto tempo à leitura das publicações tradicionais, menor ainda será sua disposição para um conteúdo consideravelmente mais extenso. Para que este modelo editorial funcione, portanto, é preciso haver uma outra mudança cultural no jornalismo que envolve a quantidade de matérias publicadas diariamente.

Quem faz isso de maneira radical é o The Ken – publicação indiana que cobre notícias sobre negócios da Índia e do sudeste asiático. O diferencial mais chocante para nós é que, além do compromisso de ofertar matérias extensas e visualmente ricas, o veículo publica apenas um artigo por dia. Embora a quantidade de conteúdo seja pequena, a qualidade justifica a assinatura básica de 120 dólares por ano (algo próximo de R$ 50,00 por mês segundo a cotação atual da moeda). O preço é salgado perto do que nos dispomos a cobrar, e a publicação já contava com 30 mil assinantes em 2021.

Com isso, é verdade, o veículo abre mão de abordar inúmeras outras pautas relevantes do cotidiano que costumam ser publicadas por jornais tradicionais. Mas a questão é: o leitor consegue dar conta do tsunami informativo atual? Acredito que nem mesmo nós, jornalistas, conseguimos dedicar tempo de nossa rotina corrida para ler mais do que três ou quatro matérias. Não temos tempo para isso – o que dirá o leitor, que não vive da informação. Neste sentido, o The Ken oferece algo interessante: uma gama sucinta de conteúdo bem produzido para um leitor com pouco tempo à disposição para se dedicar a tudo aquilo que os jornais tradicionais publicam diariamente.

Este modelo possui uma dupla vantagem: da nossa parte, permite que os jornalistas, menos sobrecarregados com a obrigação de publicar muito, possam se dedicar a publicar melhor. Menos tempo empregado na publicação de vários artigos significa que mais tempo pode ser gasto na apuração de uma só matéria. Do lado do leitor, existe a vantagem de não precisar selecionar aquilo que há de mais importante para ler em um oceano de conteúdo oficial e não oficial. Tal tarefa é cansativa e, frequentemente, frustrante, pois gera a sensação de que não estamos conseguindo acompanhar o ritmo dos acontecimentos. Uma consequência habitual é a simples desistência de acompanhar o noticiário para ter em troca um certo nível de conforto e alívio emocional.

Além do escasso tempo que já temos para dedicar à leitura de artigos, o fato é que nosso dia a dia é marcado por incontáveis escolhas de maior e menor importância que temos de fazer. Tudo isso conta para um cotidiano desgastante onde a leitura jornalística acaba se tornando uma tarefa cansativa. Não é de surpreender que muitos se afastem do noticiário: ter que escolher o que ler dentre as incontáveis matérias que publicamos e entre os inúmeros veículos brasileiros existentes em uma rotina exaustiva, se torna simplesmente um esforço que para muitos não é recompensador. Por que não facilitar a vida do leitor? Por que não lhe oferecer uma gama menor, embora melhor, de conteúdo diário?

Realisticamente falando, devemos admitir que uma mudança radical para o modelo editorial e de negócios da publicação indiana seria extremamente complicado para os veículos brasileiros já estabelecidos. Uma matéria por dia, afinal, significaria abrir mão da receita publicitária tradicional – e dificilmente uma empresa de mídia teria fôlego financeiro o suficiente para bancar tão drástica mudança. Igualmente, a aposta em tal modelo editorial exigiria também uma atuação de nicho, o que também foge do padrão jornalístico com o qual estamos familiarizados. Infelizmente, a margem de manobra para novas iniciativas editoriais e financeiras é baixa. Mas, também, ninguém precisa girar 180º para começar um processo de mudança. Por essas e outras, mais do que um modelo definitivo, o The Ken oferece uma inspiração.

A máxima de que o cliente tem sempre razão é certamente questionável, mas que suas necessidades devem ser sempre altamente consideradas é um pressuposto que não devemos perder de vista. O caos informativo, por si só, já afasta incontáveis pessoas do jornalismo. Este fator, aliado à rotina conturbada que todos temos, produz um cenário ainda mais complicado para as empresas de mídia. Não podendo vencer os homens cinzentos com a ajuda de criaturas místicas, resta a nós adequar o conteúdo que vendemos a este cenário em que o tempo é um recurso cada vez mais escasso na rotina das pessoas.

Poucos personagens tiveram maior repercussão na história dos Estados Unidos – e porque não dizer na história mundial -, do que Abraham Lincoln (1809-1865). Décimo sexto presidente norte-americano, Lincoln é tido como um dos principais idealizadores da democracia moderna e é definido como um dos maiores estadistas de todos os tempos por sua visão, pela capacidade de propor soluções, por sua inteligência emocional e pelo poder conciliador.

Acontece que o jovem advogado Abraham não indicava que daria espaço no futuro ao moderado Lincoln. Ainda antes de cursar a faculdade de Direito, o rapaz desenvolveu o hábito de escrever poemas e cartas ridicularizando e difamando seus desafetos. Em 1842, utilizando-se do codinome “Rebecca”, ele publicou um editorial com mentiras, ou meias-verdades, em um pequeno jornal de uma cidade do Estado de Illinois, zombando de um belicoso político irlandês.

Fake News. Nunca gostei do termo pela confusão, proposital ou não, que ele pode gerar na análise de um conteúdo.

Sensível e orgulhoso, o ofendido político descobriu o autor do texto e o desafiou para um duelo do qual somente o vencedor sairia vivo. Lincoln ficou apavorado. Era contra duelos, mas não tinha alternativas, uma vez que a recusa mancharia a sua honra para o resto da vida.

Na data marcada, os dois oponentes já estavam no local e …ufa! – no minuto final, a turma do deixa-disso entrou em cena suspendendo a peleja. A partir deste dia, Abraham Lincoln nunca mais escreveu uma linha sequer para insultar, difamar, ridicularizar ou contar mentiras sobre qualquer pessoa.

Elevar uma mentira, uma falsificação ou, para ficar no termo da moda, uma “fake” à condição de notícia – ou “news” – é contraditório e só estimula a confusão de quem seriam os agentes responsáveis pela produção de conteúdos inverídicos.

De certa maneira, o editorial de Lincoln, nos dias de hoje, poderia ser enquadrado no que convencionamos chamar de Fake News. Nunca gostei do termo pela confusão, proposital ou não, que ele pode gerar na análise de um conteúdo.

O princípio de uma notícia é exatamente basear-se em fatos. Portanto, para ser “news” é preciso ancorar-se em “facts”. Elevar uma mentira, uma falsificação ou, para ficar no termo da moda, uma “fake” à condição de notícia – ou “news” – é contraditório e só estimula a confusão de quem seriam os agentes responsáveis pela produção de conteúdos inverídicos.

Por exemplo, neste exato momento se você leitor acessar o site do portal Brasil Escola, uma referência importante de pesquisa para estudantes e professores de todo o país, e procurar “o que são Fake News?”, você verá a seguinte declaração no primeiro parágrafo:

“Fake News são notícias falsas publicadas por veículos de comunicação como se fossem informações reais. Esse tipo de texto, em sua maior parte, é feito e divulgado com o objetivo de legitimar um ponto de vista ou prejudicar uma pessoa ou grupo (geralmente figuras públicas)”.

Veículos de comunicação não produzem textos com o objetivo de difamar, desqualificar ou subverter a verdade. Quem faz isso não faz “Fake News”. Faz mentira, difamação e crime pelo qual deve ser investigado, julgado e responsabilizado.

Tal definição coloca em um mesmo balaio empresas jornalísticas – a quem devidamente cabe a classificação de veículos de comunicação -, sites noticiosos que vivem a soldo de determinados grupos militantes ou criminosos digitais. Estes entes devem ser separados e tratados de maneira diametralmente oposta às empresas de mídia.

Veículos de comunicação não produzem textos com o objetivo de difamar, desqualificar ou subverter a verdade. Quem faz isso não faz “Fake News”. Faz mentira, difamação e crime pelo qual deve ser investigado, julgado e responsabilizado.

Acontece que o jornalismo profissional, por mais correto e cuidadoso que possa ser, não está livre de falhas. (Vale um parêntese aqui para tratar deste outro termo maluco criado nestes tempos de desinformação, uma vez que, se é jornalismo, então é sempre profissional, qualquer outra coisa não é jornalismo).

Portanto, desculpem a audácia, mas deixo aqui a provocação para adotarmos novas nomenclaturas. De agora em diante sugiro chamarmos “Fake News” de “Mentira”, “Jornalismo Profissional” de “Jornalismo” e “Erro Jornalístico”, caso queiram, de “Mistake News”.

Adotando estas definições conceituais, deixamos de propagar rótulos que aviltam a produção jornalística, indispensável ao estado democrático e à garantia das liberdades individuais, nos afastando do drama existencial de Hamlet, uma vez que já está mais do que na hora de nos libertarmos do dilema “Fake or News”.

O que uma jovem nascida em 2001 tem para ensinar a jornalistas, acadêmicos e gestores de veículos da atualidade? Em poucas palavras: muita coisa.

O comentário de Melina Barragan, estudante do segundo ano de Comunicação Social da Universidad Austral, de Buenos Aires, flutuava despretensiosamente no chat da sessão online de lançamento do livro “Cultura Snack”, de Carlos Scolari, na última semana. Ela dizia:

“Nossas mentes – como produto do esquecimento – funcionam de maneira ‘micro’, ou seja, condensamos e encurtamos grandes ideias para lembrar do ‘essencial’ de cada texto, sem que isso signifique, necessariamente, uma ‘simplificação’, mas que possamos dar conta de toda a complexidade de algo em poucas palavras. Talvez os ‘microtextos’ sejam reflexo dessa natural necessidade humana.”

As linhas de Melina subiram na lateral direita da tela com a velocidade da interação de mais de 200 pessoas presentes na sessão ao vivo. Se Melina tivesse se prolongado, possivelmente eu não teria alcançado sua mensagem como, de fato, não consegui ler os comentários de vários colegas.

Meus limites não eram apenas visuais, mas cognitivos. Queria prestar atenção na fala do autor e dos painelistas. Queria visitar os links de referência que eles compartilhavam. Queria ler os comentários no chat. Queria eu mesma compartilhar meus pensamentos na ocasião. Mas era isso: uma ocasião, um momento carregado de informação. E minha atenção se pulverizava naquele turbilhão de ideias incríveis, atuais, atraentes demais para mim.

Então pergunto: em que momentos do cotidiano NÃO nos sentimos assim, atraídos por vários lados, por informações que queremos consumir? 

Dou ênfase ao querer consumir, porque na vontade já há um componente importante da atenção que colocamos naquilo que nos cerca. Nem assim, porém, é possível captar tudo o que chega a nós.

O breve não é, necessariamente, efêmero ou superficial.

Francisco Albarello

Melina entendeu essa limitação tão humana, tão contemporânea. Ela não julgou essa característica da mente como preguiça ou desinteresse. Ao contrário! Queremos captar a complexidade das coisas e recordá-las! Mas como carregar, numa memória exausta, toda a bagagem densa e extensa do conteúdo que boa parte dos jornalistas ainda considera “de qualidade”?

Microformatos e a miniaturização do mundo

Carlos Scolari traz da micrologia – estudo de estruturas muito pequenas – um olhar compreensivo aos textos curtos e a quem os prefere.

  • Os bonsais permitem que árvores sejam móveis
  • As séries aproximam o cinema do cotidiano
  • As urnas funerárias devolvem a presença do ser à casa
  • O Código de Hamurábi compactou as leis para que fossem memorizadas
  • Os refrões fazem uma música “grudar” e marcar época
  • Os slogans publicitários impulsionam o consumo
  • As “porções”, de bares e restaurantes, encolhem a refeição e aproximam pessoas

Quando foi que associamos o alto valor à extensão de algo? Objetos de grandes dimensões, geralmente, são imóveis, perenes, estáveis, como os volumes de uma enciclopédia. Eles nunca saíam das bibliotecas; era apenas para consulta local. Enquanto isso, o livro já foi uma forma de “portabilidade do conhecimento”.

Henry Jenkins, em “Cultura do Compartilhamento” (2013), comparou grandes empresas tradicionais como hieroglifos na pedra. Já startups e companhias inovadoras voam leves, como a palavra escrita no fino papiro.

Se a miniatura compactar o mundo de modo que podermos levá-lo de um lado a outro, a brevidade dos microtextos facilita a sua circulação pelas redes. O texto curto é mais lido e compartilhado. O vídeo rápido chega a mais pessoas. Eis a raiz de todo o processo de viralização, de uma nova circulação [hiper]midiática. Eis uma cultura mais gasosa do que líquida, compara o autor.

Jornalismo snack?

Julgar se algo é melhor ou pior com base apenas na portabilidade nos leva aos comerciais de “micro system” dos anos 80 e para a icônica imagem do jovem dançando na rua com um 3 em 1 apoiado no ombro. Sabemos que isso não basta ao jornalismo. Então, será mesmo o caso de abraçarmos sem medo a cultura snack?

“O breve não é, necessariamente, efêmero ou superficial”, define Francisco Albarello, mediador da discussão. Este, aliás, seria justamente o maior desafio do jornalista e de todos que produzem conteúdo para o ambiente digital: como ser breve sem ser simplista? 

De tudo o que fazemos, publicamos e falamos, o que, de fato, fica?

Carlos Scolari percebe que é possível haver um micro que aponte ao macro. Escrever um texto curto que conte uma história, de fato, não é tarefa simples. O exercício da síntese requer conhecimento profundo sobre uma pauta e muita habilidade narrativa. O autor acredita que, por trás de muitos conteúdos “micro” publicados pela web, há uma trama gigantesca de significados, referências, cruzamento de ideias que ficam apenas sinalizados a um leitor sobrecarregado.

Como consumimos informação? A colagem informativa individual

No comando de um processo único e individual de consumo de informação, cada usuário é responsável pelas suas escolhas, quase um editor particular. É neste trajeto que ele fará conexões entre as inúmeras micro informações com que se depara ao longo do dia.

Talvez o usuário nem faça esta colagem informativa conscientemente. Como disse a estudante Melina, condensar para guardar na memória pode ser o reflexo de uma natural necessidade humana. Aos veículos e jornalistas, então, nos resta buscar um lugar neste patchwork de ideias. Tanto melhor se entregarmos um conteúdo enxuto, objetivo, que faça ao menos uma parte deste trabalho mental de seleção e recorte da realidade.

Qual a probabilidade de um conteúdo longo, cheio de expressões formais ou rebuscadas, distante de um cotidiano formado por instantes eternos ser parte do mosaico de informações do indivíduo contemporâneo? De tudo o que fazemos, publicamos e falamos, o que, de fato, fica?

Infodemia: Estamos cansados de tanta informação

Scolari não faz uma ode aos textos curtos. Como pesquisador, ele constata que as pessoas leem cada vez menos de forma linear. “Estamos esgotados. Desde que começou a pandemia, a sensação de incerteza, a dificuldade de ter foco nas coisas nos faz experimentar um colapso na produção de sentido”, analisa.

A sensação de estarmos soterrados em informação e à mercê de nossas próprias [boas ou más] escolhas não é nova. Ele lembra que a percepção de quem viveu no começo do século XIX era de que o mundo movia-se rápido demais. Até o telégrafo pode ser entendido como uma pré-snackização do conteúdo. A popularização dos jornais, o surgimento das emissoras comerciais de rádio e TV no século XX também causaram esse esgotamento mental que hoje damos o nome de infodemia.

Compatível à reflexão, o livro “Cultura Snack: lo bueno, si breve…”, apresenta o conteúdo de 200 páginas em aforismos. A experiência pretendida pelo autor é que o público faça uma leitura não-linear, começando por onde quiser, pulando páginas, voltando outras… aos moldes da obra-prima de Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha (Rayuela), publicada originalmente em 1963.

Ainda disponível apenas em espanhol, o novo livro de Scolari provoca:Se falar muito aborrece, falar pouco leva à decisão sobre o que dizer e o que ignorar. Quando o atirador tem poucas balas, deve escolher muito bem como usá-las, para onde e quando apertar o gatilho”.

[Breve] Nota:

Se você chegou até aqui e a julgar pelo tamanho deste texto, já percebeu que ainda tenho muito o que aprender sobre Cultura Snack e microformatos… 😉

Ah, e se interessar, um assunto correlato é o “microjornalismo”, tema da tese que defendi em 2018. Download livre aqui.

O presidente Jair Bolsonaro e os jornalistas vivem em clima de guerra. Os embates, tóxicos e intransigentes, não têm a cara do Brasil. A perspectiva de quase dois anos de governo permite ensaiar um balanço das perdas e ganhos de um conflito desagradável e nada produtivo.

As últimas pesquisas mostram que o presidente da República, armado de seu estilo agressivo e tom de conversa em mesa de bar, está levando vantagem nas bolas divididas e fazendo mais gols.  Bolsonaro ataca muito. Mas também apanha para valer. A percepção da sociedade refletida nas pesquisas é a de que Jair Bolsonaro, mesmo com o desgaste da “rachadinha”, está mais para vítima do que para vilão.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir certa postura de militância. Os eventuais desvios do governo não se combatem com o enviesamento das coberturas, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida.

Vamos a alguns exemplos. Eles ajudam a iluminar a argumentação deste artigo.

Não faz muito tempo, uma apresentadora de televisão afirmou, no ar, ao noticiar um evento do governo chamado “Vencendo a covid-19”, que “nem Bolsonaro nem as autoridades presentes prestaram solidariedade às vítimas”. Mas o distinto público pôde ver e ouvir que a médica Raissa Oliveira Azevedo de Melo Soares, uma das participantes da cerimônia, pediu um minuto de silêncio em homenagem aos 115 mil mortos na epidemia – e que todos os presentes atenderam ao seu apelo. Negar um fato comprovado com o som e a imagem é um tiro no pé, um absurdo.

É óbvio que nós, jornalistas, temos o dever ético de iluminar o lado escuro do governo. Mas denúncias, necessárias e pertinentes, precisam estar apoiadas na objetividade dos fatos e no verdadeiro interesse público.

Reproduzo recente manchete de jornal: “Bolsonaro monta roteiro para entregar obras de Lula e Dilma”. Pois bem, amigo leitor, a descontinuidade das obras de infraestrutura dos antecessores, com imensas consequências econômicas e perda de eficiência, tem sido objeto de recorrente crítica da imprensa e da sociedade. As inaugurações de Bolsonaro, independentemente do eventual ganho eleitoral, deveriam ser evitadas? É óbvio que não. Na verdade, o presidente está fazendo o que nós sempre cobramos: dar continuidade às obras de administrações anteriores.

O erro da imprensa, que a afasta das suas audiências, está em atribuir ao presidente coisas que ele não fez. É óbvio que nós, jornalistas, temos o dever ético de iluminar o lado escuro do governo. Mas denúncias, necessárias e pertinentes, precisam estar apoiadas na objetividade dos fatos e no verdadeiro interesse público.

Governo e imprensa não podem ter uma relação promíscua. É salutar certa tensão entre as instituições. Mas precisam conversar. São peças essenciais da estrutura democrática. Aguardo – já o disse outras vezes – que Bolsonaro desça do palanque e assuma o papel de presidente de todos os brasileiros. Espero também que nós, jornalistas, deponhamos as armas do engajamento e façamos jornalismo.

O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na ideologia, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião.

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na ideologia, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião.

Ao longo deste ano, alguns jornalistas da grande mídia, na cobertura de política e do governo, e em nome de suposta independência, têm enveredado pelo que eu chamaria de jornalismo militante. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda crescentemente seus próprios leitores. Consumidores de jornais mostram cansaço com o excesso de negativismo de nossas pautas. Trata-se de um fato percebido nas redes sociais.

Na verdade, à semelhança do que aconteceu no segundo semestre de 2018, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e aquilo que se consolida paulatinamente como fatos e/ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas próprias reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela internet.

Sobra fofoca e falta notícia. No entanto, muitas pautas estão quicando na nossa frente. Precisamos fugir da espuma política e fazer a opção pela informação que realmente conta.

Ao agirem dessa forma, correm o risco de comprometer a viabilidade de seus próprios veículos, pois somarão às já conhecidas perdas de verbas publicitárias dos últimos muitos anos uma diminuição das audiências. Não se trata, por óbvio, de ficarmos reféns do leitorado. Os jornais, frequentemente, têm o dever ético de dizer coisas que podem não agradar aos seus leitores. Mas é preciso não perder conexão com as percepções do público e com a própria realidade.

É necessário reconhecer, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se, por óbvio, um jornalismo menos anti e mais propositivo. O que não significa, nem de longe, perder a necessária independência e senso crítico. A fiscalização dos governos e das instituições é parte essencial da atividade jornalística. A democracia se fortalece com uma imprensa isenta, mas crítica.

O jornalismo de registro, pobre e simplificador, repercute o Brasil oficial, mas oculta a verdadeira dimensão do País real. Sobra fofoca e falta notícia. No entanto, muitas pautas estão quicando na nossa frente. Precisamos fugir da espuma política e fazer a opção pela informação que realmente conta. É preciso investir em matérias profundas e capazes de despertar um debate consistente.

Chegou a hora do jornalismo propositivo.


Artigo originalmente publicado no site do autor.

Não é de hoje que as redes sociais adentraram o meio jornalístico: seja como plataforma onde matérias são postadas, seja nas rodas de conversa onde se constata o quanto elas afetaram a profissão. Todavia, há um mau hábito de olhar para as redes como um lugar intelectualmente raso no qual apenas o conteúdo de rápido e fácil consumo tem chance de prosperar. Se essa é a verdade, então por lógica estamos fadados a compartilhar da tendência e reduzirmos o nível do conteúdo produzido.

Uma rápida pesquisa nas plataformas, no entanto, mostra como artigos bem contextualizados conseguem atiçar a curiosidade do público. Igualmente, longos vídeos sobre ideias complexas são capazes de alcançar inúmeras visualizações. O fato é que as redes sociais não têm vida própria; ao contrário, são meros ambientes alimentados por pessoas. Há, ali, espaço para tudo aquilo que existe fora dali: trivialidades, entretenimento, curiosidades e, sim, conteúdo de alta qualidade.

Neste ambiente, onde atualmente o público se encontra, é relevante que os veículos pensem sobre a forma de atuar. As redes mostram que há parcelas do público dispostas a investir tempo no conteúdo que lhes agregará valor. Embora seja comum entre jornalistas o hábito de se queixar do meio digital, ao apresentar temas urgentes e imediatos cuja relevância tende a se perder rapidamente, estaríamos imitando o melhor ou o pior daquilo que as redes têm a nos oferecer?

Cloroquina mata ou salva? Usar máscara é vital ou mais uma burocracia? A melhor estratégia para o Brasil é o lockdown ou o isolamento vertical? Os números de pessoas mortas pela covid-19 estão corretos ou foram subnotificados?

Tenho certeza de que você já fez algum destes questionamentos ao longo destes últimos meses. Estamos sendo desafiados a tomar decisões importantes sobre a nossa vida diante de um fato novo e desconhecido, enquanto gerenciamos um volume excessivo de informações. 

No dia 31 de março de 2020, o Departamento de Comunicação das Nações Unidas declarou que junto com a covid-19, o mundo deveria enfrentar outro inimigo: a infodemic. O órgão explicou que o excesso de informações falsas, incompletas e/ou rumores, durante uma emergência sanitária, poderia prejudicar as medidas de saúde pública e gerar confusão e desconfiança entre as pessoas. Todos nós vimos casos deste tipo entre as milhares de informações compartilhadas neste período. Tivemos, por exemplo, vários tratamentos sendo sugeridos: do alho ao cultivo de sementes “santas”. Para combater este mal, a ONU criou uma página para desmitificar alguns rumores sobre a doença e sugeriu que as pessoas privilegiassem fatos, ciência, esperança e solidariedade ao invés de desespero e desunião.

Mas são tantas informações científicas, que fica difícil discernir o que é verdade. As professoras Gaeta Menon e Ellie J. Kyung publicaram um artigo em que afirmam que este excesso de informação causa incerteza[; um sentimento antinatural que gera desconforto nas pessoas. Diante de circunstâncias assim, o sistema cognitivo anseia pelo certo e o seguro. As autoras exemplificam seu argumento afirmando que algumas pessoas sentem-se mais calmas e menos agitadas quando sabem que tomarão um choque elétrico do que aquelas que acham que podem receber um choque elétrico.

Quando temos de lidar com a incerteza, ambiguidade e complexidade, nosso processamento da informação entra em colapso. E se não tivermos um mapa bem definido do caminho a ser percorrido? A quem vamos recorrer?

Gostaria de apresentar algumas reflexões sobre este dilema. Precisamos de um tratamento adequado, caso contrário entraremos na “treva branca” de José Saramago.

OS MEDIADORES DA INFORMAÇÃO

A nossa realidade é composta por elementos objetivos e subjetivos. Quando estamos diante do desconhecido, nos sentimos desamparados e perdidos. Para diminuir a tensão, buscamos a segurança dos especialistas e profissionais.

A pesquisa do Orbis Media Review em março apontou que os sites de notícia e a TV foram os principais canais de novidade sobre a Covid-19. Os resultados positivos indicaram que os brasileiros estavam buscando o jornalismo profissional para se municiar de informações sobre a doença. No mesmo período, a Agência Edelman de Comunicação publicou um estudo feito em dez países – África do Sul, Alemanha, Brasil, Canadá, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido -, apontando a comunicação do empregador como a fonte mais confiável neste período; 18 pontos à frente das empresas em geral e ONGs e 27 pontos à frente do governo e da mídia[.

Já a Professora e Pesquisadora do IFF/Fiocruz, Suely  Deslandes, afirmou que a Internet e as redes sociais foram as fontes que trouxeram mais benefícios para a população por favorecer a conscientização e a conexão entre as pessoas. Mas a Professora também alertou que o uso irrestrito destes meios pode gerar um comportamento compulsivo, que aumenta a percepção de um “medo global”. A 11ª onda da pesquisa da Opinion Box no início de junho confirmou esta tendência ao demonstrar que os entrevistados estão investindo mais tempo na Internet e nas mídias sociais, enquanto sentem mais tédio e medo de sair de casa.

O aumento contínuo da utilização destas fontes de informação “não convencionais” reascendeu a discussão sobre a necessidade de uma regulamentação específica. Os políticos brasileiros acharam oportuno aproveitar este tempo para desenvolver formas de controlar as mídias sociais. No dia 30/06/2020 o Senado Nacional aprovou o projeto da Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Acredito que esta decisão abre um precedente perigoso. Para justificar sua ação, o Senado divulgou uma pesquisa do Instituto DataSenado em que a maioria dos entrevistados declarou apoiar a criação de uma lei contra fake news. Um levantamento do Datafolha demonstrou um resultado diferente: 75% dos entrevistados acreditam ter o direito de ter uma conversa privada sem serem rastreados. A China, que é o case de controle social em larga escala, verifica as fotos, vídeos e áudios dos smartphones de todos os seus cidadãos em uma central de análise de dados do governo. O deslocamento de casa para o trabalho é acompanhado por câmeras capazes de reconhecer o rosto da pessoa em milésimos de segundos. As fontes oficiais afirmam que: “apesar de soar intrusivo, o uso de reconhecimento facial é aprovado pela maior parte da população chinesa, que associa o uso destas tecnologias à sensação de segurança”[.

Estas aspirações tecnocratas me lembraram os avisos assustadores da distopia de Orwell: “O Grande Irmão está de olho em você”. A decisão do Senado Federal foi seguida por uma série de manifestações. Representantes das empresas de mídia fizeram declarações incisivas: “estamos decepcionados com a decisão do Senado. As notícias falsas são um grande problema social que existe há séculos em toda forma de comunicação. Estamos combatendo a desinformação por meio de mudanças significativas para reduzir mensagens em massa e virais, que geraram uma redução de 70% nas mensagens altamente encaminhadas no WhatsApp. Forçar as empresas a adicionar um carimbo permanente a todas as mensagens privadas enviadas pelas pessoas marcaria o fim das conversas particulares – tudo o que você disser ou encaminhar seria rastreado e poderia ser usado contra você[. A própria ONU apelou aos políticos no período que precedeu a votação. O relator para Liberdade de Expressão do órgão alertou que: “um dos aspectos que é essencial nos direitos humanos é a liberdade de expressão e há um consenso que qualquer restrição a isso é uma potencial barreira aos direitos democráticos básicos”. O jornalista experiente Alexandre Garcia alertou que existem mentiras nas mídias sociais, mas elas não estão somente ali. As redes aprenderam isso com os meios tradicionais de comunicação.                               

Se é fato que as informações tendenciosas e/ou falsas estão presentes em todos os canais, o primeiro dilema que se impõe é: quem define o que é falso, verdadeiro ou útil para mim?  

De fato, há mais de dois mil anos, Aristóteles já alertava para os riscos da falácia: uma linha de raciocínio falsa, com um objetivo torpe ou desonesto, mas convincente, que parecia verdadeira. Acredito que as redes sociais apenas refletem aquilo que é mais humano. Por isso, a liberdade de expressão deve ser prezada ao máximo em um ambiente livre.

Se é fato que as informações tendenciosas e/ou falsas estão presentes em todos os canais, o primeiro dilema que se impõe é: quem define o que é falso, verdadeiro ou útil para mim?  

O jornalista colaborador do Orbis Media Review João Payne fez um questionamento intrigante em seu artigo: “Trabalhar com verdades é uma tarefa complicada, pois elas nem sempre são fáceis de encontrar, podem ser conflituosas e estão sujeitas às circunstâncias (…) Se verificar fatos, portanto, já é uma tarefa delicada, o que dizer de julgar a intenção daqueles que criam e divulgam conteúdo? Um veículo de fake news, afinal, não é aquele que publica uma mentira ou gafe pontual, mas aquele que age com o intuito de enganar a população, desinformar e manipular. Mas como podemos conhecer a intenção de outros jornalistas ou meros influenciadores?”. 

Um dos senadores propositores da PL2630, quando questionado por um jornalista sobre este risco de concentrar a definição do conteúdo das notícias (se elas são falsas ou não) respondeu categoricamente: “Em uma democracia, em última instância quem decide o que é verdade ou não é o judiciário…”.

Eu acredito que a definição do verdadeiro e útil depende de um empenho pessoal e de um rico debate em um ambiente propício.

A VERDADE E SUAS VÁRIAS FACETAS

Um importante inquisidor já fez esta pergunta há algum tempo: Quid est veritas? (O que é a verdade?). Encontrar a verdade não é um exercício simples. São muitos fatos e factóides disputando nossa atenção diariamente. Não basta realizar uma simples “checagem das fontes” como nos indicou o Senado Federal (se a fonte é confiável o problema está resolvido), é preciso responder estes questionamentos em primeira pessoa.

Para ajudá-los em sua jornada, acho válido demonstrar que a “batalhas de narrativas” é um processo natural da comunicação social. Cada pessoa emite e processa mensagens a partir do seu sistema de referências. Esta “lente” do mundo é única e irrepetível; formada por uma história de vida, experiências, valores, emoções e aspirações transcendentes. Este conjunto de elementos pessoais influencia a forma como uma pessoa interpreta a realidade. Por isso, nenhuma narração de fatos é plenamente isenta, ela sempre portará um pouco do seu transmissor. O jornalista que narra ininterruptamente o número crescente de mortes por covid-19 ou o profissional que alega que seus argumentos estão baseados estritamente na ciência partem de um pressuposto.

Além das posições individuais, estamos inseridos num contexto social mais amplo, que recebe influência de correntes de pensamento poderosas. Carlos Llano, um dos principais professores da Escola de Negócios do México (IPADE) e um dos grandes teóricos da rede de escolas associados ao IESE, descreveu o tecido social pós-moderno com três forças dominantes[.

Para o autor, o funcionamento da sociedade contemporânea tinha dois pilares centrais: o mercado e o estado. Estas seriam as representações de duas instâncias valiosas da vida: o economicismo transacional mercantil e o racionalismo do plano estatal. Partindo desta perspectiva, a relação destes dois pilares se expressaria numa oscilação de correntes: mais Estado e menos mercado ou menos mercado e mais Estado. Com o passar dos anos o âmbito da comunicação coletiva se converteu num fator persuasivo e determinante na sociedade, tornando-se um poderoso ente. Com este esquema, Llano descrevia muitos comportamentos humanos: executivos obtendo dinheiro para adquirir poder, funcionários públicos adquirindo dinheiro por meio do poder e a imprensa conseguindo dinheiro e poder através de sua influência.

Estas forças presentes em nossa história poderiam causar uma homogeneização de pensamento, dificultando a avaliação pessoal.  Segundo o autor, a sociedade pós-moderna permitiu que o Estado, o Mercado e os Meios de Comunicação invadissem a esfera pessoal de análise e decisão: Jornais e a Televisão ditam formas e modelos, o Estado determina as linhas básicas de educação desde a infância e molda as investigações científicas, e o Mercado comercializa a moda, expondo artefatos de status, realização e felicidade.

O livro “A rebelião das Massas” de Ortega y Gasset faz um retrato magistral deste fenômeno: “Há um fato que, para o bem ou para o mal, é o mais importante na vida atual: a ascensão das massas ao completo poder social (…) A massa atropela tudo que é diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto. Quem não é como todo o mundo, quem não pensa como todo o mundo corre o risco de ser eliminado”. Observem que este livro começou a ser escrito em 1926! Seu retrato segue atual ainda hoje…  

 O TRATAMENTO ÉTICO

Para Carlos Llano, nenhum destes paradigmas supracitados é suficiente para responder às necessidades da sociedade. A vida humana é mais rica, heterogênea e profunda que qualquer outra realidade. O mundo das relações pessoais não pode traduzir-se exclusivamente em termos de dinheiro, influência ou poder. Para fugir da “bolha” superficial de opiniões, é preciso recorrer ao ethos vital das nossas relações mais íntimas.

Acredito que a vida corrente e ordinária é a saída mais prática para deixarmos o labirinto em que estamos. Muitas vezes nos perdemos em discussões abstratas, teóricas e/ou influenciadas por correntes de pensamento que não correspondem àquilo que vivemos. Neste mundo pessoal, que Edmund Husserl denominou como Lebenswelt (família e amizade), não estamos submetidos ao cálculo transacional ou à ação despersonalizante. Somos acolhidos com a nossa forma de ser, e o debate se torna mais honesto e enriquecedor, porque ali impera a confiança, a alegria e o perdão.

Acredito que neste momento turbulento que estamos vivendo, não podemos renunciar às nossas relações pessoais. Se estamos navegando sem um mapa bem definido do caminho que devemos percorrer, só nos resta “olhar para dentro”. Devemos reavaliar a forma como estamos incidindo sobre esta comunidade silenciosa da família, dos amigos e do trabalho.

Comungo da visão de Carlos Llano de que o que necessitamos não é uma grande mudança estratégica. O “novo normal” logo mais se tornará a antiga vida imprevisível de sempre. O que precisamos é de uma influência maior da vida ordinária em nossas decisões. As escolhas substanciais não dependem dos modelos, mas de uma transformação interna e pessoal.

A verdade não é uma resposta definitiva sobre os desafios da covid-19, ela é uma jornada pessoal! Tenham audácia de avaliar estes dilemas a partir daquilo que mais nos aproxima do real. Não precisamos apenas vencer este vírus, devemos melhorar nossa capacidade de avaliar a realidade e tomar decisões mais prudentes nos espaços em que incidimos hoje.

Coragem!