Tag

Conteúdo de qualidade

Browsing

O que uma jovem nascida em 2001 tem para ensinar a jornalistas, acadêmicos e gestores de veículos da atualidade? Em poucas palavras: muita coisa.

O comentário de Melina Barragan, estudante do segundo ano de Comunicação Social da Universidad Austral, de Buenos Aires, flutuava despretensiosamente no chat da sessão online de lançamento do livro “Cultura Snack”, de Carlos Scolari, na última semana. Ela dizia:

“Nossas mentes – como produto do esquecimento – funcionam de maneira ‘micro’, ou seja, condensamos e encurtamos grandes ideias para lembrar do ‘essencial’ de cada texto, sem que isso signifique, necessariamente, uma ‘simplificação’, mas que possamos dar conta de toda a complexidade de algo em poucas palavras. Talvez os ‘microtextos’ sejam reflexo dessa natural necessidade humana.”

As linhas de Melina subiram na lateral direita da tela com a velocidade da interação de mais de 200 pessoas presentes na sessão ao vivo. Se Melina tivesse se prolongado, possivelmente eu não teria alcançado sua mensagem como, de fato, não consegui ler os comentários de vários colegas.

Meus limites não eram apenas visuais, mas cognitivos. Queria prestar atenção na fala do autor e dos painelistas. Queria visitar os links de referência que eles compartilhavam. Queria ler os comentários no chat. Queria eu mesma compartilhar meus pensamentos na ocasião. Mas era isso: uma ocasião, um momento carregado de informação. E minha atenção se pulverizava naquele turbilhão de ideias incríveis, atuais, atraentes demais para mim.

Então pergunto: em que momentos do cotidiano NÃO nos sentimos assim, atraídos por vários lados, por informações que queremos consumir? 

Dou ênfase ao querer consumir, porque na vontade já há um componente importante da atenção que colocamos naquilo que nos cerca. Nem assim, porém, é possível captar tudo o que chega a nós.

O breve não é, necessariamente, efêmero ou superficial.

Francisco Albarello

Melina entendeu essa limitação tão humana, tão contemporânea. Ela não julgou essa característica da mente como preguiça ou desinteresse. Ao contrário! Queremos captar a complexidade das coisas e recordá-las! Mas como carregar, numa memória exausta, toda a bagagem densa e extensa do conteúdo que boa parte dos jornalistas ainda considera “de qualidade”?

Microformatos e a miniaturização do mundo

Carlos Scolari traz da micrologia – estudo de estruturas muito pequenas – um olhar compreensivo aos textos curtos e a quem os prefere.

  • Os bonsais permitem que árvores sejam móveis
  • As séries aproximam o cinema do cotidiano
  • As urnas funerárias devolvem a presença do ser à casa
  • O Código de Hamurábi compactou as leis para que fossem memorizadas
  • Os refrões fazem uma música “grudar” e marcar época
  • Os slogans publicitários impulsionam o consumo
  • As “porções”, de bares e restaurantes, encolhem a refeição e aproximam pessoas

Quando foi que associamos o alto valor à extensão de algo? Objetos de grandes dimensões, geralmente, são imóveis, perenes, estáveis, como os volumes de uma enciclopédia. Eles nunca saíam das bibliotecas; era apenas para consulta local. Enquanto isso, o livro já foi uma forma de “portabilidade do conhecimento”.

Henry Jenkins, em “Cultura do Compartilhamento” (2013), comparou grandes empresas tradicionais como hieroglifos na pedra. Já startups e companhias inovadoras voam leves, como a palavra escrita no fino papiro.

Se a miniatura compactar o mundo de modo que podermos levá-lo de um lado a outro, a brevidade dos microtextos facilita a sua circulação pelas redes. O texto curto é mais lido e compartilhado. O vídeo rápido chega a mais pessoas. Eis a raiz de todo o processo de viralização, de uma nova circulação [hiper]midiática. Eis uma cultura mais gasosa do que líquida, compara o autor.

Jornalismo snack?

Julgar se algo é melhor ou pior com base apenas na portabilidade nos leva aos comerciais de “micro system” dos anos 80 e para a icônica imagem do jovem dançando na rua com um 3 em 1 apoiado no ombro. Sabemos que isso não basta ao jornalismo. Então, será mesmo o caso de abraçarmos sem medo a cultura snack?

“O breve não é, necessariamente, efêmero ou superficial”, define Francisco Albarello, mediador da discussão. Este, aliás, seria justamente o maior desafio do jornalista e de todos que produzem conteúdo para o ambiente digital: como ser breve sem ser simplista? 

De tudo o que fazemos, publicamos e falamos, o que, de fato, fica?

Carlos Scolari percebe que é possível haver um micro que aponte ao macro. Escrever um texto curto que conte uma história, de fato, não é tarefa simples. O exercício da síntese requer conhecimento profundo sobre uma pauta e muita habilidade narrativa. O autor acredita que, por trás de muitos conteúdos “micro” publicados pela web, há uma trama gigantesca de significados, referências, cruzamento de ideias que ficam apenas sinalizados a um leitor sobrecarregado.

Como consumimos informação? A colagem informativa individual

No comando de um processo único e individual de consumo de informação, cada usuário é responsável pelas suas escolhas, quase um editor particular. É neste trajeto que ele fará conexões entre as inúmeras micro informações com que se depara ao longo do dia.

Talvez o usuário nem faça esta colagem informativa conscientemente. Como disse a estudante Melina, condensar para guardar na memória pode ser o reflexo de uma natural necessidade humana. Aos veículos e jornalistas, então, nos resta buscar um lugar neste patchwork de ideias. Tanto melhor se entregarmos um conteúdo enxuto, objetivo, que faça ao menos uma parte deste trabalho mental de seleção e recorte da realidade.

Qual a probabilidade de um conteúdo longo, cheio de expressões formais ou rebuscadas, distante de um cotidiano formado por instantes eternos ser parte do mosaico de informações do indivíduo contemporâneo? De tudo o que fazemos, publicamos e falamos, o que, de fato, fica?

Infodemia: Estamos cansados de tanta informação

Scolari não faz uma ode aos textos curtos. Como pesquisador, ele constata que as pessoas leem cada vez menos de forma linear. “Estamos esgotados. Desde que começou a pandemia, a sensação de incerteza, a dificuldade de ter foco nas coisas nos faz experimentar um colapso na produção de sentido”, analisa.

A sensação de estarmos soterrados em informação e à mercê de nossas próprias [boas ou más] escolhas não é nova. Ele lembra que a percepção de quem viveu no começo do século XIX era de que o mundo movia-se rápido demais. Até o telégrafo pode ser entendido como uma pré-snackização do conteúdo. A popularização dos jornais, o surgimento das emissoras comerciais de rádio e TV no século XX também causaram esse esgotamento mental que hoje damos o nome de infodemia.

Compatível à reflexão, o livro “Cultura Snack: lo bueno, si breve…”, apresenta o conteúdo de 200 páginas em aforismos. A experiência pretendida pelo autor é que o público faça uma leitura não-linear, começando por onde quiser, pulando páginas, voltando outras… aos moldes da obra-prima de Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha (Rayuela), publicada originalmente em 1963.

Ainda disponível apenas em espanhol, o novo livro de Scolari provoca:Se falar muito aborrece, falar pouco leva à decisão sobre o que dizer e o que ignorar. Quando o atirador tem poucas balas, deve escolher muito bem como usá-las, para onde e quando apertar o gatilho”.

[Breve] Nota:

Se você chegou até aqui e a julgar pelo tamanho deste texto, já percebeu que ainda tenho muito o que aprender sobre Cultura Snack e microformatos… 😉

Ah, e se interessar, um assunto correlato é o “microjornalismo”, tema da tese que defendi em 2018. Download livre aqui.

O desejo de dar notícias é tão antigo quanto o próprio jornalismo. E a oportunidade de ser o primeiro a reportar um fato de forma rápida só reforça uma falsa impressão de que esse feito é essencial para o exercício da profissão. Já produzimos uma pequena #Fagulha sobre o assunto neste Orbis, e vimos que a corrida incessante por estar no topo do podium incentiva ainda mais os corredores a buscarem atalhos que, por outro lado, ameaçam a credibilidade da mídia.

Ao seguirmos a linha de pensamento do jornalista canadense John Macfarlane, a ideia de que notícias rápidas se assemelham, em analogia, a comidas de fast food – enquanto notícias mais aprofundadas e detalhadas se parecem com as de slow food – pode ser totalmente verossímil. Fato é que este segundo movimento gastronômico incentiva uma maior atenção com aquilo que comemos e uma busca por consumir aquilo que fará bem ao nosso corpo. 

Ao reproduzir a fala do editor do The Walrus, podemos medir como consumidores

“…se quero avaliar o valor nutricional [da comida] antes de colocá-la na boca, não seria também uma precaução sensata quando se trata de notícias? […] Se, como seres físicos, somos o que comemos, como cidadãos somos tão sólidos quanto as notícias e informações que consumimos. Uma dieta de notícias rápidas é tão prejudicial à saúde quanto uma dieta de fast food.”

No entanto, como bons chefs de cozinha que buscamos ser, nós (jornalistas) não poderíamos almejar uma Estrela Michelin e iniciar um ritmo mais saudável na produção e publicação do nosso conteúdo? Oferecer pratos consagrados que fogem ao movimento do “aqueça três minutos no microondas” não poderia ser um caminho para chegar à qualidade que há muito tempo buscamos e contribuir com uma dieta mais balanceada aos leitores?

Não é de hoje que as redes sociais adentraram o meio jornalístico: seja como plataforma onde matérias são postadas, seja nas rodas de conversa onde se constata o quanto elas afetaram a profissão. Todavia, há um mau hábito de olhar para as redes como um lugar intelectualmente raso no qual apenas o conteúdo de rápido e fácil consumo tem chance de prosperar. Se essa é a verdade, então por lógica estamos fadados a compartilhar da tendência e reduzirmos o nível do conteúdo produzido.

Uma rápida pesquisa nas plataformas, no entanto, mostra como artigos bem contextualizados conseguem atiçar a curiosidade do público. Igualmente, longos vídeos sobre ideias complexas são capazes de alcançar inúmeras visualizações. O fato é que as redes sociais não têm vida própria; ao contrário, são meros ambientes alimentados por pessoas. Há, ali, espaço para tudo aquilo que existe fora dali: trivialidades, entretenimento, curiosidades e, sim, conteúdo de alta qualidade.

Neste ambiente, onde atualmente o público se encontra, é relevante que os veículos pensem sobre a forma de atuar. As redes mostram que há parcelas do público dispostas a investir tempo no conteúdo que lhes agregará valor. Embora seja comum entre jornalistas o hábito de se queixar do meio digital, ao apresentar temas urgentes e imediatos cuja relevância tende a se perder rapidamente, estaríamos imitando o melhor ou o pior daquilo que as redes têm a nos oferecer?