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Um dia desses, um grupo de jornalistas conversava sobre uma situação hipotética, em que as empresas jornalísticas não cobriam mais os pronunciamentos do atual presidente em razão de suas últimas decisões. Num determinado momento da conversa, alguém disse: “A imprensa do Brasil, de forma geral, é muito desunida. Iria se combinar de não cobrir os acontecimentos de Brasília, mas aposto como alguém iria quebrar a regra, só para garantir o furo.”

Apesar de o furo jornalístico ter perdido bastante valor com a chegada e o avanço da informação nos meios digitais, ele ainda pode ter um valor fundamental para que os veículos possam tornar seus conteúdos exclusivos. Contudo, e não de forma geral, atitudes como essa fazem com que as questões sobre o fim último de nossa profissão mereçam ser discutidas.

Afinal, em quem estamos pensando no momento de cobrir e descobrir os fatos? No público e, especialmente, nas questões que fazem sentido para suas realidades, ou em nossa própria vontade de sair na frente pela busca de uma novidade que, daqui a pouco, já se tornará antiga?

Certo dia uma jornalista experiente e editora num grande veículo nacional fez o seguinte comentário durante uma aula sobre redação digital: “A primeira coisa que eu escrevo, em uma matéria, é o título”. A fala seguia com uma justificativa impositiva de que aquele era o seu estilo e, por essa razão, o método seria válido.

Estilo costuma ser, de fato, um traço pessoal que alguém imprime sobre seu trabalho e o diferencia de qualquer outro autor. Para o jornalista, estilo é parte da identidade individual, motivo de orgulho. Até aí, zero problema. O difícil é quando este “estilo” esvazia a razão de o jornalismo existir.

A aluna seguiu o comentário revelando que, após escrever o título, ela “via com mais clareza aquilo que ela realmente queria“. Só então começava a apurar o assunto. Num momento ponderou, jogando a mão repetidamente pro lado, num gesto de desdém: “Quando alguma investigação aponta algo diferente às vezes eu até mexo um pouquinho no título, mas o importante é eu saber qual será a minha tese”.

Destaco a palavra tese porque aí reside um perigo ainda maior do que escrever o título antes de fazer a apuração. Tese é uma expressão que se costuma usar na academia, associada à prática da ciência ou à busca contínua pela verdade. Sei que este discurso soa modernista demais para seguir em uso na pós-modernidade. O fato é que a estrutura da pesquisa científica ainda é feita do confronto entre tese e antítese, que darão origem à síntese.

Quando uma tese nasce, ela vem com a verificação de hipóteses, ou seja, a análise. É certo que o jornalista observe a realidade e conte para o público. Mas da observação à análise há uma diferença abismal que escorrega na armadilha do enviesamento, ou seja, de um jornalismo pretensamente imparcial mas atravessado por simpatias a antipatias, por interesses próprios, pela militância fora de lugar.

Não sejamos ingênuos: imparcialidade não existe, objetividade é uma utopia etc, etc. Sabemos, no entanto, que um jornalismo honesto se faz a partir de, pelo menos, um esforço de relatar a realidade com o máximo de fidelidade aos acontecimentos. E isto é possível quando o autor ou o veículo explicitam seu lugar de fala. Quando não existe posicionamento claro, então estamos diante de uma armadilha ao público, de um desserviço à sociedade.

Já vi repórteres de TV escreverem o texto da passagem no carro da empresa, no caminho de ida ao local da pauta. Pergunto: para que serve mesmo apurar, investigar?

Mesmo que esta jornalista não aplicasse seu método de criar teses antes da apuração ao breaking news e o deixasse apenas para grandes reportagens, o perigo do anti-jornalismo seguiria presente. Quem faz análise é o analista. Quem constrói teses é quem encontra elementos para observar um fenômeno desde um referencial teórico aplicado a uma amostragem real. Portanto, tese é ponto de vista.

Tese é território de posicionamento. E não há forma legítima de uma tese se aplicar ao jornalismo. Tratar jornalismo como tese é uma afronta a quem for consumir aquele produto, é a subestimação da capacidade de raciocínio da população. Além disso, é um extraordinário indício de preguiça profissional.

Fazer uma tese pensando que está fazendo jornalismo indica que o jornalista não fez nem mesmo um mínimo esforço em se expor à realidade de forma desarmada, permitindo que os fatos falem por si e conduzam a apuração de modo orgânico, não guiados por seus desejos.

Lamentavelmente, este comportamento não é exclusividade daquela editora que mencionei no começo deste artigo. Já vi repórteres de TV escreverem o texto da passagem no carro da empresa, no caminho de ida ao local da pauta. Pergunto: para que serve mesmo apurar, investigar?

Se a fonte não deu exatamente aquela declaração que o jornalista buscava, então ela ‘não serve’.

Até mesmo o colunista, o analista da realidade sustenta suas teses em argumentos concretos e fatos, pesquisas, declarações. Que autoridade tem o jornalista para criar uma tese antes de se encontrar com a realidade, antes de ouvir as fontes, de conversar com pessoas, de ver um fato com seus próprios olhos e depois vendê-la às audiências como o sumo da verdade?

Não é raro encontrar repórter que busque fonte ou personagem com perfis extremamente precisos, que apenas confirmem a história que ele quer contar. Se a fonte não deu exatamente aquela declaração que o jornalista buscava, então ela não serve e se parte na busca de outra, e outra, e outra pessoa que apenas valide a tese formulada na redação.

Assim como no método científico, a graça do jornalismo está na descoberta! Deixe a realidade falar e coloque-se à serviço dela. Não tente condicioná-la aos seus pré-conceitos. Faça jornalismo, não defenda teses.


No afã de produzir conteúdos relevantes para o público, veículos e jornalistas seguem definindo, por si próprios, aquilo que julgam importante para suas audiências, sobretudo nos tempos de crise em que vivemos. Como consequência disso, vemos, hoje, nos noticiários, temáticas monótonas e que, por vezes, até podem trazer mais desespero que esperança aos leitores.

Antigamente, não se podia ter uma noção tão precisa das necessidades do público por se estar tão distante dele. No entanto, por que não atendemos as demandas de cada um dos nichos de nossos negócios, apesar de termos – aparentemente – uma dimensão exata delas?

Será que os jornais utilizam os critérios corretos para definir as prioridades de seus conteúdos? Estariam eles usando entre os critérios de noticiabilidade uma busca pelas reais necessidades de seus leitores, ou de suas próprias percepções?

A transformação que o mundo atravessa, diante da pandemia do novo coronavírus, está abalando diversas indústrias — inclusive a jornalística. Sem previsão para o fim da crise sanitária e econômica, anunciantes seguram o bolso. Em consequência, cai a verba publicitária que sustenta os veículos de comunicação, sobretudo aqueles que não têm assinatura como uma de suas fontes de receita.

Aqui no Brasil, empresas de mídia começaram a cortar o salário de jornalistas, seguindo a MP 936, que permite a redução de remuneração (em 25%, 50% ou 70%) proporcional à jornada de trabalho. As inevitáveis demissões já se confirmam em grupos como Abril e RBS. Os jornalistas se deparam com um cenário de instabilidade financeira, que parece aprofundar a crise na profissão em suas diversas frentes — de credibilidade, de influência e, claro, de mercado.

A mídia perdeu o monopólio da comunicação, e audiências pulverizadas foram se conectando cada vez mais a perfis pessoais e ideológicos em detrimento de publishers.

Desde a década passada, o jornalismo tem visto sua reputação colocada em xeque ao ser atacado duramente por governantes. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rotulou a imprensa americana de “fake news media” e “inimiga do povo”. Diferentemente de outras épocas, desta vez o desprestígio contou com expressiva adesão popular; cada vez mais, os americanos confiam menos na mídia

No Brasil, o boicote do presidente Jair Bolsonaro, fã de Trump, à imprensa tem sido semelhante. Perseguição a jornalistas e relatos de desrespeito e humilhação se tornaram comuns na cobertura do Palácio do Planalto, em Brasília. Só nos três primeiros meses de 2020, foi um ataque a cada três dias, aponta levantamento da ONG Repórteres Sem Fronteiras. Por aqui também, reportagens apuradas e que apresentam pluralidade de versões são tachadas de “fake news” por apoiadores do mandatário.

Além disso, a massificação das redes sociais e a popularização de smartphones permitiram a eclosão de inúmeros canais e formadores de opinião na web. Influenciadores, creators, youtubers, blogs e páginas afiliadas a movimentos sociais ou partidos políticos passaram a disputar com veículos a atenção de leitores e espectadores. A mídia perdeu o monopólio da comunicação, e audiências pulverizadas foram se conectando cada vez mais a perfis pessoais e ideológicos em detrimento de publishers. Como resultado, a influência da imprensa diminui, e a desinformação, muitas vezes fomentada pelos players em ascensão, impera.

Apesar de tanta má notícia para o jornalismo, a pandemia acarretou mudanças na rotina produtiva da notícia e no consumo de informação, que podem ser tanto oportunidades quanto esperanças para nossa profissão. 

A constatação de que é possível produzir um bom jornalismo de qualquer lugar, mesmo ao lado de onde você acorda, pode ajudar a salvar o nosso negócio!

Os 5 fatos que listo a seguir podem não ser a solução para o jornalismo, mas seguramente servem de farol para diretores de redação, executivos dos veículos de comunicação e estudiosos que, como eu, buscam o modelo de negócios ideal para produção de conteúdo de qualidade:

1. O zap e o Face estão em baixa na confiança dos brasileiros

A TV e os jornais são os veículos de comunicação em que os brasileiros mais confiam sobre informações do coronavírus. A constatação foi de pesquisa Datafolha publicada em 23 de março. A televisão conta com 61% de confiança; os jornais, 56%; rádio, 50%; e, mais atrás, os sites de notícia, 38%. WhatsApp e Facebook têm apenas 12% de confiança cada um. 

Mas o dado que sobressai é o nível de desconfiança nas duas marcas de Mark Zuckerberg em relação aos conteúdos divulgados da Covid-19: 58% não confiam no zap e 50% não confiam no Face. A desconfiança na TV, jornais e rádio não passa dos 12%. Em sites de notícia, 22%. Como jornalista, é um alento saber que a população reconhece no jornalismo profissional a informação mais confiável para basear práticas de prevenção da doença.

2. Audiência do jornalismo cresce na TV e na Internet

A pesquisa Consumo de Informações sobre o Coronavírus no Brasil, do Orbis Media Review, aponta que os sites de notícia e a TV aberta são os principais canais de novidade sobre a Covid-19. Dos 240 entrevistados de 25 de março a 2 de abril, 78% se informam a partir de portais e 54% pela TV.

Em linha com os números do Datafolha e do Orbis Media Review, os resultados positivos de sites de notícia e canais de TV nos últimos meses indicam que os brasileiros estão correndo para o jornalismo profissional para se municiar contra a Covid-19. Maior portal brasileiro, o UOL informou que em março a cobertura da crise do coronavírus levou a “índices sem precedentes de audiência”. Foram quase 1 bilhão de visitas, de acordo com o Google Analytics. Em abril, a Folha atingiu recorde de páginas vistas, embalada também pela crise política. 

Na TV aberta, programação especial de coronavírus elevou a audiência da Rede Globo. Na TV paga, o segmento de notícias foi o que mais cresceu durante a quarentena. Apenas de 9 a 22 de março, o aumento no número de aparelhos ligados nos canais all-news foi de 111%.

3. Jornalismo científico e de saúde ganha relevância

Não é surpresa que mais reportagens de saúde e de ciência estejam nas manchetes dos jornais e sites de notícia. Afinal, a curiosidade sobre a doença, as descobertas mais recentes sobre o vírus, as dúvidas sobre os tratamentos potenciais, a expectativa pela vacina, tudo isso está na pauta do dia. O jornalismo cola na ciência, e ambos reafirmam mutuamente sua importância — um dueto mais do que necessário em tempos de negacionismo.

No HuffPost, onde trabalho, temos uma repórter totalmente dedicada à saúde e à ciência. Ela tem conseguido antecipar estudos, como o que relaciona desigualdade social a acesso a testes de Covid-19 no Brasil, e deu furos como o da limitação de confiabilidade dos testes rápidos, que depois virou notícia no Globo

Segundo a pesquisa do Orbis Media Review, há uma demanda substancial por pesquisas sobre a cura ou vacina do coronavírus (50% dos entrevistados). Como não há horizonte para o fim da crise de saúde e da busca por esse tipo de informação, o jornalismo científico se apresenta como um dos caminhos mais promissores para a imprensa.

4. A “redação distribuída” veio para ficar

Diversas redações de jornais e sites de notícia estão operando integralmente via home office. Se num primeiro momento emergiram as dificuldades de trabalhar de casa e focar individualmente em tarefas que antes se faziam coletivamente, em voz alta e com muito barulho, os jornalistas vão se adaptando ao novo ambiente de trabalho, onde mais uma vez as tecnologias digitais ganham protagonismo inequívoco.

“As infraestruturas digitais implantadas agora devem ser mantidas e desenvolvidas para funcionar paralelamente aos espaços físicos. Ao fazer isso, nós podemos capitalizar em todas as coisas que mantêm o trabalho distribuído tão efetivo.”

Tom Treweinnard

Em entrevista ao Jornalistas&Cia, o editor de Esportes do Estadão, Robson Morelli, conta que todos os profissionais estão trabalhando remotamente. “Nós agora estamos nos contatando via ferramentas de meeting, videoconferências, e o processo fica mais lento, mas funciona. Alguns especialistas dizem que talvez essa situação possa vir a se tornar um legado, pois as pessoas se deram conta de que é possível trabalhar remotamente sem perder a qualidade do que é feito”, opina.

A observação de Morelli vai ao encontro da tese do cofundador da Fathm, consultoria americana de jornalismo digital, Tom Treweinnard. No artigo A crise do coronavírus vai acabar em algum momento, mas a redação distribuída veio para ficar, publicado pelo NiemanLab, ele lista os benefícios dessa nova dinâmica do jornalismo, que deixou temporariamente os limites espaciais das redações para estar espalhada pelas residências dos jornalistas.

“As infraestruturas digitais implantadas agora devem ser mantidas e desenvolvidas para funcionar paralelamente aos espaços físicos”, escreve Treweinnar. “Ao fazer isso, nós podemos capitalizar em todas as coisas que mantêm o trabalho distribuído tão efetivo.”

O home office seguramente reduz custos de uma redação. Gastos com instalações, manutenção do espaço, seguros, segurança, limpeza: tudo isso pode ser poupado se o local de trabalho dos editores for sua casa. A constatação de que é possível produzir um bom jornalismo de qualquer lugar, mesmo ao lado de onde você acorda, pode ajudar a salvar o nosso negócio!

Treweinnar também relata que este novo cenário tem implicações positivas para acessibilidade e diversidade. Como boa parte dos grandes veículos de comunicação fica em capitais e em bairros centrais, há entraves econômicos, sociais e espaciais para que jornalistas de periferias, oriundos de cidades menores e com deficiência física possam integrar os quadros dessas empresas. A redação distribuída seria mais inclusiva na medida em que o deslocamento para o centro não seria mais pré-requisito para trabalhar no jornal X ou no site Y.

5. Esta é a hora da reconexão com o público 

Além do medo do novo coronavírus e dos efeitos econômicos da pandemia, como o desemprego e a pobreza, o próprio isolamento é uma preocupação constante. Como passar o tempo, de que modo enfrentar o tédio, como contornar a ansiedade, a solidão e até a depressão são questões que perpassam pessoas de todas as faixas etárias nesta quarentena.

Esta é uma oportunidade única para o jornalismo fazer-se importante, para além de noticiar sobre o novo coronavírus. Muita gente, aliás, não quer saber de doença. A busca por boas notícias saltou no Google americano, de acordo com o The New York Times. Os Estados Unidos lideram hoje o ranking da Covid-19, com mais de 1,1 milhão de casos confirmados.

A National Geographic criou duas newsletters com fatos positivos para enviar aos leitores durante este período de pandemia. “As pessoas estão buscando uma razão para continuar”, afirmou o editor-executivo de newsletters, David Beard, ao NYT. Uma newsletter é dirigida aos pais e filhos — para “explorações” em família — e a outra, intitulada Your Weekly Escape traz histórias de pessoas e lugares extraordinários, com as belíssimas imagens que são características da publicação. “Eu penso nela [Weekly Escape] como um app de meditação, mas é jornalismo“, resume Beard.

No Brasil, as lives são ferramentas poderosas de informação, comunicação e entretenimento que têm se popularizado ainda mais nesta quarentena. De custo relativamente baixo, se comparado ao aparato de produção de vídeo de TVs e estúdios, a transmissão ao vivo de uma entrevista, um bate-papo sobre um tema de interesse da audiência pode estreitar vínculo com os leitores-seguidores no YouTube, Twitter, Facebook e principalmente Instagram.

No HuffPost, também escolhemos fazer lives de temas que fogem do novo coronavírus. Os seguidores do Instagram são convidados a participar de cineclubes, conversas com estrelas de reality show e debates sobre temas de comportamento da atualidade. As perguntas dos leitores são tão importantes quanto a do jornalista que conduz a entrevista. 

Este senso de pertencimento e participação pode contribuir com o resgate da confiança nos veículos de comunicação. Como diz o pesquisador João Arantes, “se a mídia puder dialogar com o público e contribuir com o bom conteúdo que é capaz de produzir, sua função já estará sendo cumprida e o debate público se tornará ainda melhor”.


As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.

Por Eduardo Acquarone

A primeira onda do Covid-19 fez com que todos nos recolhêssemos e começássemos a testar, na prática, o que se discute teoricamente há anos: ensino à distância, home office. Ainda não há um consenso, mas parece provável que a nova sociedade que virá incorpore de maneira permanente alguns desses novos hábitos.

A mídia também passou por uma revolução em poucas semanas, especialmente em relação aos hábitos de consumo e ao nível de confiança: as audiências dos canais de TV, especialmente os de notícias, explodiram e houve um grande aumento de confiança nos media tradicionais frente às informações disponíveis em mídias sociais; ao mesmo tempo, pequenos jornais e sites locais, já pressionados pela diminuição da publicidade, talvez não resistam e desapareçam. 

Em termos de comunicação, precisamos lidar com um paradoxo que tem ficado cada vez mais claro: a tecnologia consegue preencher algumas funções, mas ainda necessitamos de contato humano, algo que nenhuma chamada via Skype ou Zoom consegue preencher

Você, transformado em interrogador, tem que decidir: essa pessoa deve entrar nos Estados Unidos ou não?

E, no caso específico do jornalismo, é preciso não perder a conexão com as pessoas, mesmo através de aparatos super tecnológicos. É nessa “linha estreita” que trabalham alguns artistas e produtores audiovisuais. As experiências já realizadas ainda têm pequena escala (de distribuição) e alto custo. Mas apontam um caminho altamente promissor.

A obra “Terminal 3”, de Asad J. Malik, simula a entrevista de um agente da imigração norte americana com viajantes muçulmanos.

Em “Terminal 3”, o diretor paquistanês Asad J. Malik coloca o público numa posição incomum. Ao colocar os óculos de realidade aumentada, a pessoa se torna um funcionário de imigração norte-americano, cuja função é permitir ou não a entrada de passageiros que embarcam em Abu Dhabi. 

Na experiência, a pessoa começa uma conversa com uma figura holográfica, quase fantasmagórica, que vai ganhando forma à medida que a conversa prossegue. Todos os hologramas da experiência são baseados em pessoas reais, portanto as respostas são também reais. E você, transformado em interrogador, tem que decidir: essa pessoa deve entrar nos Estados Unidos ou não?

O fato dos hologramas representarem viajantes muçulmanos é mais um fator que precisa ser levado em conta por quem faz a experiência. Ou isso não é relevante? A resposta está na mente de cada um, e isso já é uma mudança enorme em relação à mídia não-interativa e não-imersiva.

Talvez, essa nova empatia produza resultados como uma maior disposição para ouvir opiniões divergentes.

Um outro exemplo é a exibição “Take a Stand”, no Illinois Holocaust Museum. Desde 2017 o público do museu vai a um auditório e pode conversar — sim, conversar — com um dos 13 sobreviventes do Holocausto que foram captados em vídeo volumétrico (em 3D) e transformados em hologramas. 

A conversa acontece de forma natural. Alguém faz a pergunta em um microfone e o holograma (auxiliado por programas de Inteligência Artificial que entendem a pergunta e buscam instantaneamente a resposta adequada dentre horas e horas de gravação) responde.  Para o público, fica a impressão de uma conversa — não com uma máquina ou através de uma tela, mas sim com uma pessoa real, que apenas por um “detalhe” não está lá. A emoção é similar. 

“Terminal 3”, apresentado pela primeira vez no Festival de Tribeca nos Estados Unidos em 2018, ainda é uma experiência difícil de ser vista — é necessário uma sala cenográfica e equipamentos caros que precisam ser calibrados para que a ilusão da realidade aumentada funcione de maneira adequada. Diferentes versões de Take a Stand começaram a ser apresentadas em museus nos Estados Unidos e Europa. Em ambos os casos, a presença física é necessária, o que impede que experiências assim atinjam um número maior de pessoas. 

Mas em breve experiências parecidas poderão ser feitas dentro de casa. O novo iPad lançado pela Apple em março vem com um novo scanner Lidar, uma tecnologia que permite mapear o ambiente onde se está. A partir daí é possível inserir objetos digitais que interagem com esse ambiente. Alguns analistas acham que a tecnologia logo será incorporada também aos iPhones.

Os celulares, aliás, serão as principais ferramentas para as novas narrativas. Apps como The Enemy — onde você fica posicionado entre dois inimigos e ouve ambas as histórias — ou JFK Moonshot — feito para comemorar os 50 anos do homem na Lua e que mistura games com uma reprodução fiel, incluindo sons e movimentos, do lançamento da Apollo 11 — já mostram o potencial dessas novas formas de contar histórias.

Ao trazer a história para dentro de casa, ao usarmos nosso corpo para nos movimentarmos, ao nos sentirmos “dentro” da experiência, há uma possibilidade maior de entendimento — e, talvez, essa nova empatia produza resultados como uma maior disposição para ouvir opiniões divergentes. Talvez experiências assim possam começar a romper nossas bolhas digitais e comportamentais exacerbadas por algoritmos de redes sociais. Será o momento em que realidades — virtuais ou aumentadas — passam a ser apenas “reais”.


* Roteirista, diretor e criador de projetos digitais, o jornalista Eduardo Acquarone (eduacquarone@gmail.com) trabalha com inovação desde 2008, quando lançou o Globo Amazônia, projeto indicado ao Emmy Digital e que conseguiu mais de 55 milhões de protestos virtuais contra a destruição da floresta. Em 2015 estudou no Tow-Knight Center for Entrepreneurial Journalism em Nova York, onde fundou a Flying Content, empresa que mistura narrativa com tecnologia. Após trabalhar em empresas como CBS (EUA), Reuters, UOL e TV Globo, hoje Eduardo atua como consultor, além de fazer parte do grupo de pesquisas LabArteMídia (ECA/USP) e de estar na fase final de um doutorado no Iscte-IUL, em Lisboa, com a tese “Imerso na notícia: Como a Realidade Virtual pode ajudar o jornalismo a solucionar problemas reais“.

Por Bruna Bariani*

Não é de hoje que sabemos que nosso público não parece muito disposto a colocar a mão no bolso para ler o que escrevemos. Mas calma, caro colega jornalista: a coisa fica pior. O percentual de pessoas que correm na direção oposta de qualquer notícia aumenta. Neste contexto, o termo “news avoiders” soa como um soco no estômago e no ego para nós, profissionais da imprensa. Não nos querem nem de graça! Mas como canja de galinha e humildade não costumam fazer mal a ninguém, é preciso esmiuçar de cabeça baixa o que estamos fazendo de errado.

O Reuters Institute constatou que, em dois anos, o percentual de pessoas que evitam ativamente as notícias aumentou em 3% e o número de pessoas dispostas a pagar por conteúdo permaneceu estável desde 2013, em 11%, em nove países. Nos EUA, o cenário é um pouco melhor, mas a quantidade de pessoas dispostas a pagar por notícias é a mesma desde 2017: apenas 16%.

Imediatismo e hedonismo são intrínsecos a uma geração que tem diversos nomes complicados para problemas bastante simples, como baixa tolerância à frustração.

Quando indagados, estes “evitadores de notícia” nos deram dois motivos principais para torcerem o nariz ao nosso produto: 58% afirmaram que consumir notícias tem impacto negativo no humor, seguidos por 40% que admitiram um sentimento de impotência diante daquilo que leem. Tais justificativas suscitam diversos questionamentos e creio ser válido recorrer à psicologia e à sociologia para tentar entendê-las.

Nas primeiras décadas do século passado Freud, pai da Psicanálise, reconhecia no homem a força do “princípio do prazer” que, em síntese, tratava da busca instintiva por aquilo que nos dá prazer e a evitação do que nos causa desprazer. Em tempos de geração Y, millennials, homo smartphonicos e cia, talvez Freud nunca tenha sido tão atual: imediatismo e hedonismo são intrínsecos a uma geração que tem diversos nomes complicados para problemas bastante simples, como baixa tolerância à frustração.

Estaríamos, mais do que nunca, sendo regidos pelo princípio freudiano do prazer? Pode ser. Isso tem lá sua lógica psicanalítica, mas me arrisco a dizer que o buraco é mais embaixo. Se lançarmos luz à sociologia, talvez possamos , humildemente, dialogar com Zygmunt Bauman que denominou nossa condição de “modernidade líquida”.

Para Bauman, a sociedade pós-moderna, líquida, caracteriza-se por um tempo sem ilusões. A época anterior à atual também desmontrava a realidade herdada, mas com o objetivo de torná-la melhor e então novamente sólida; por isso o autor a denominou “modernidade sólida”. Na contemporaneidade, nada é capaz de permanecer; tudo é líquido: nós destruímos e não reconstruímos nada no lugar.

Se trouxermos este paradigma para nosso trabalho como imprensa e ousarmos ser suficientemente fortes e humildes, talvez possamos reconhecer que ajudamos a que não sobrasse pedra sobre pedra: instituições, referências, crenças, poderes públicos, empresas privadas etc. Algumas destas realidades precisavam, de fato, escorrer pelo ralo de nossas redações para que fossem renovadas. Mas o que construímos no lugar delas?

Na nossa edição, reservamos alguns caracteres para contar o que está sendo feito, ou melhor, construído no lugar? No nosso editorial reservamos um espaço para empoderar o nosso leitor que, antes de tudo e de mais nada é um cidadão?

Lembro-me quando ouvi, ainda na faculdade, o famoso jargão jornalístico “bad news are good news”. Talvez esta lei tenha expirado. Talvez ela fosse válida na época em que as notícias tinham data e hora para entrar e sair da casa das pessoas: o jornal das 20h, o carteiro que entregava a revista semanal no domingo, o rapaz que jogava o jornal impresso na porta de casa e que abríamos na hora do café e fechávamos após o último gole.

Hoje a notícia não pede mais licença: a TV não desliga, a informação vem no meio da programação musical, os aplicativos de notícia enviam constantes alertas, o grupo de WhatsApp vem recheado de (fake) news que se acumulam durante todo o dia.

Quando as estatísticas apontam que a maior razão das pessoas evitarem notícia é a sensação de desânimo e impotência precisamos, como jornalistas, nos implicar nisso. O mundo não é cor de rosa e, como Ruy Barbosa dizia, devemos ser “os olhos da nação” e retratar com ética o factual. Mas será que, na nossa edição, reservamos alguns caracteres para contar o que está sendo feito, ou melhor, construído no lugar? No nosso editorial reservamos um espaço para empoderar o nosso leitor que, antes de tudo e de mais nada é um cidadão?

Bauman dizia que vivemos buscando soluções individuais para problemas produzidos socialmente e sofridos coletivamente. E o fato é que, como imprensa, só damos informações para o leitor se sentir impotente e deprimido. Estamos falhando. De novo, quem aguenta um mundo tão líquido?

O escritor francês Maurice Blanchot dizia que as respostas são a má sorte das perguntas. Precisamos reconhecer que não temos a resposta para barrar este número crescente de news avoiders que não digerem bem este prato que servimos. Mas se não soubermos as respostas e se tivermos humildade, veremos que ter a boa sorte das perguntas já é um bom começo.

*Jornalista, estudante de Psicologia

É preciso sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeça para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e, por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada. Nas redações brasileiras, multiplicam-se as telas coloridas que trazem, minuto a minuto, indicadores e gráficos mirabolantes. Ao final de um dia de trabalho, qualquer editor está habilitado a responder quais foram as reportagens mais lidas. Mas e depois disso? Continuamos incapazes de interpretar adequadamente todas essas cifras e utilizá-las a nosso favor.

É preciso investir forte em tecnologia e não há outro caminho. Os jornais The New York Times e Washington Post, para citar algumas referências da mídia impressa, já entenderam que neste novo contexto digital produção de conteúdo e tecnologia vão de mãos dadas. Tanto que, em tempos de crise no setor, o renomado diário de Jeff Bezos parece fazer questão de andar na contramão da concorrência. Ao invés de enxugar os seus quadros, o que faz é expandir suas equipes. Mas Bezos não contrata apenas jornalistas. Busca também profissionais que, controlando ferramentas de dados, apoiem a redação, o departamento comercial e o marketing. São engenheiros, estatísticos e desenvolvedores que interpretam os números gerados pelas audiências digitais, identificam tendências e propõem estratégias relacionadas ao negócio.

Também não levará muito tempo para que a tão comentada inteligência artificial seja incorporada à rotina das redações. Na Associated Press e em outras agências de notícias já são os robôs que geram parte das notícias sobre os balanços corporativos e fechamento das bolsas de valores. Um prato cheio para empresas jornalísticas especializadas na cobertura do setor financeiro. Mas com isso não quero dar a entender que, num futuro não muito distante, as redações poderão prescindir de seus repórteres. Apenas acredito que profissionais altamente capacitados deixarão de se dedicar a informações que podem ser geradas automaticamente para contribuir com reportagens analíticas e contextualizadas. Quem ganha é o consumidor. 

Certo é que os veículos não podem assistir inertes ao avanço dessas novas tendências. Não podemos repetir a atitude que tivemos nos primórdios da internet, quando raras figuras nas redações apostavam que o ambiente multimídia tomaria a dianteira nos negócios. Também não podemos reproduzir a postura de meados da década passada, quando, fechados em nossos paradigmas, observávamos atônitos como o Google e o Facebook abocanhavam parcelas cada vez mais significativas da verba publicitária.

Na última semana tive a oportunidade de conversar com um grupo de competentes jornalistas e gestores de veículos de comunicação, todos eles responsáveis pelo processo de transição digital em suas empresas. Vindos de diferentes Estados brasileiros e de alguns países da América Latina, eles se reuniram em São Paulo para o segundo módulo do “Estratégias Digitais para Empresas de Mídia”, programa que dirijo no ISE Business School.

Todos eles estavam desejosos de encontrar novos caminhos de monetização. Em sala de aula crescia a certeza de que as verbas publicitárias não retornarão aos níveis de antigamente e que, portanto, os ingressos deverão ser alavancados prioritariamente por meio do conteúdo digital. Como tarefa de casa, levaram um desafio nada fácil: olhar para a cobertura de seus veículos e questionar-se se há valor diferencial naquilo que estão entregando aos seus consumidores. Sabem que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar esse conteúdo. Afinal, ninguém pagará por aquilo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

Receberam também a missão de colocar a audiência no centro do processo. Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. Felizmente, o ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada. 

Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Passará pela construção de uma identidade editorial sólida, com apoio da tecnologia que permita escutar a voz dos consumidores. Mas, antes de tudo, exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de inovação.