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critério de noticiabilidade

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Um grupo de alunos que participaram de um workshop sobre Audience Firstno ano passado, fizeram um exercício tão simples quanto raro na correria da redação: selecionei algumas manchetes de veículos mainstream (generalistas, não especializados) e pedi que eles respondessem 2 perguntas em relação a cada uma delas:

  • Quem vai se interessar por esta notícia?
  • Qual o efeito ela produzirá na vida dessa pessoa?

Antes que alguém pense que este é um exercício de Teoria dos Usos e Gratificações, paremos antes. É um caminho para encontrar a ancoragem (vamos falar disso noutro momento), para descobrir a motivação de uma pessoa ao decidir acessar tal conteúdo, vista da perspectiva de quem consome – e não de quem produz.

O desafio, aqui, é esquecer um pouco do futuro do pretérito e não escolher as pautas de acordo com o que o público deveria saber. – Ah, então só vou publicar aquilo que as audiências querem consumir? Ou seja, tragédia, bizarrice e celebridades? – Não. Até porque um jornalismo útil e de qualidade não pode trabalhar com esta visão polarizada sobre sua própria capacidade de produção.

De volta ao exercício – e de forma totalmente espontânea! – todo nós nos surpreendemos com o padrão de efeitos que esperamos causar na população:

  • revolta
  • indignação
  • dúvida
  • incerteza
  • desconfiança
  • desânimo
  • medo
  • preocupação
  • indiferença

Dá só uma olhada…

A menos que você esteja muito interessado em paleontologia, a seleção despretensiosa de notícias é para fazer o povo sair correndo sem olhar para trás! Brincadeiras à parte, sabemos que o cidadão médio não procura por boas notícias e nem espera que o jornalismo o deixará feliz. Isso é tarefa para a Netflix, para o Instagram…

A preocupação, aqui, vai além do estado de ânimo que nosso trabalho provoca nas pessoas. A frustração, a revolta são partes da existência e precisamos enfrentá-las, saber como lidar com elas, nem que seja nas próximas eleições. O problema é quando isso se torna dogma e não deixa espaço para a utilidade da notícia, para a aplicabilidade da informação no dia a dia das audiências.

Quem quer ver notícia para ficar revoltado o tempo todo?

Não defendo a ideia de que veículos especializados em denúncias se furtem de praticar o jornalismo que investiga, que derruba autoridades ou interfere na cotação do dólar. Aqui há uma situação delicada de erro de proporção que contamina boa parte dos veículos. Um espaço absurdo é dado à cobertura do Big Brother político, cuja maior parte dos “fatos” noticiados não exerce impacto algum no dia a dia da população. Mas toma conta do noticiário porque “é revoltante” ou “vai causar indignação”. É isso mesmo o que queremos com o nosso trabalho?

Deixo aqui o desafio das 2 perguntas, sobretudo para veículos generalistas (os hiperlocais e os segmentados estão mais próximos de um jornalismo útil e aplicável): perguntem-se, antes de cada pauta, quem irá, de fato, dedicar tempo e atenção para saber deste assunto E, principalmente, o que vocês esperam que tal informação cause na vida desta pessoa. Quem sabe, assim, recuperamos a relevância e a confiabilidade da população.

O desejo de dar notícias é tão antigo quanto o próprio jornalismo. E a oportunidade de ser o primeiro a reportar um fato de forma rápida só reforça uma falsa impressão de que esse feito é essencial para o exercício da profissão. Já produzimos uma pequena #Fagulha sobre o assunto neste Orbis, e vimos que a corrida incessante por estar no topo do podium incentiva ainda mais os corredores a buscarem atalhos que, por outro lado, ameaçam a credibilidade da mídia.

Ao seguirmos a linha de pensamento do jornalista canadense John Macfarlane, a ideia de que notícias rápidas se assemelham, em analogia, a comidas de fast food – enquanto notícias mais aprofundadas e detalhadas se parecem com as de slow food – pode ser totalmente verossímil. Fato é que este segundo movimento gastronômico incentiva uma maior atenção com aquilo que comemos e uma busca por consumir aquilo que fará bem ao nosso corpo. 

Ao reproduzir a fala do editor do The Walrus, podemos medir como consumidores

“…se quero avaliar o valor nutricional [da comida] antes de colocá-la na boca, não seria também uma precaução sensata quando se trata de notícias? […] Se, como seres físicos, somos o que comemos, como cidadãos somos tão sólidos quanto as notícias e informações que consumimos. Uma dieta de notícias rápidas é tão prejudicial à saúde quanto uma dieta de fast food.”

No entanto, como bons chefs de cozinha que buscamos ser, nós (jornalistas) não poderíamos almejar uma Estrela Michelin e iniciar um ritmo mais saudável na produção e publicação do nosso conteúdo? Oferecer pratos consagrados que fogem ao movimento do “aqueça três minutos no microondas” não poderia ser um caminho para chegar à qualidade que há muito tempo buscamos e contribuir com uma dieta mais balanceada aos leitores?

Uma das primeiras lições ensinadas a todo “foca” diz respeito aos critérios de noticiabilidade. Criados por Galtung e Ruge, um casal de noruegueses, na década de 60, os critérios trazem abrangência à qualquer conteúdo e, inclusive, têm a ver com a proximidade do fato com o leitor. Ou seja: o fato será tão mais relevante quanto mais próximo de seu público tiver acontecido.

Considerando cruciais os critérios para a produção atual da notícia, é fácil perceber que há uma clara deficiência dos grandes veículos com relação à produção de conteúdo. E na brecha deixada por eles, as novas iniciativas de jornalismo local vêm se beneficiando e tirando de letra. Em outras palavras, uma notícia dada por um veículo local – que conhece seu pequeno público – tem condições infinitamente maiores de informar com mais relevância aquilo que seu leitor precisa, de maneira acessível. Enquanto que, para um grande veículo, esta tarefa é muito mais difícil, e comunicar grandes assuntos para um grande público – que não conhece tão bem – se torna uma tarefa quase impossível.

Portanto, se por uma lado os grande veículos falam, predominantemente, de assuntos sobre Brasília, e estes não estão sendo mais tão relevantes assim, não seria prudente olharem para “baixo”, nem que seja por um instante, e aprenderem com as novas iniciativas locais, que fazem um jornalismo à serviço da comunidade e não de si próprio?

Semana passada eu conversava com um repórter de veículo online sobre a publicação de releases como notícias. A prática é tão comum quanto antiga e indesejável.

Tomando um caso em particular, eu vi caráter elogioso ao autor do release na publicação da “notícia”. O repórter não viu, afinal, ele só tinha usado as mesmas informações do release. Então – expliquei a ele -, o simples fato de um veículo dar espaço à publicação de um release é um gesto em favor daquela fonte (única).

Ele entendeu, mas sei que boa parte dos jornalistas que são cobrados por produtividade em quantidade de notas por dia não entende. A exigência de publicar oito, dez, quinze notas ao longo de oito horas limita qualquer repórter de produzir entrevistas, checar fatos, buscar outras fontes, fazer jornalismo, enfim. Daí alguns releases chegam como presentes celestiais, onde só o ctrl+C, ctrl+V salva.

Como fugir do mero release

A sugestão que dei ao colega foi a de ouvir um especialista e acrescentar algumas aspas mais neutras às informações trazidas pelo release. Isso daria um tom jornalístico pra coisa – e não tão institucional/promocional.

Nem sempre se trata de “ouvir o outro lado”, porque há pautas que não têm lado: são registros, lançamentos de projetos, publicações, eventos que estão por vir. Então nos resta fazer mídia gratuita ou acrescentar uma segunda fonte que comente ou opine de forma independente sobre o objeto do release.

Não é só o material de release que termina servindo de “fonte única”. Um post no Instagram virou fonte, virou notícia! Não sobra tempo para uma ligadinha ao agente da celebridade que acaba de postar.

Licença para uma historinha

Lembro de um caso que aconteceu enquanto eu trabalhava em um portal, lá em 2011: o cantor Latino havia postado uma foto em seu Twitter abraçado a uma moça coberta por lençol branco. Eles mostravam o colo e os ombros desnudos. O texto que acompanhava a foto era: “Pensa em acordar do lado de uma princesa como essa!! Kkkkkk 😉 Meu verdadeiro amor“.

Dias antes, o cantor havia terminado um namoro. Claro que o repórter de “Diver” (editoria de Diversão) entendeu que Latino não havia perdido tempo para apresentar a nova namorada! A matéria foi ao ar com este teor e, minutos depois, o próprio Latino respondeu ao Twitter do portal: “Vocês estão loucos? Ela é minha filha!

A obsolescência da segunda fonte

À prática de “ouvir uma segunda fonte”, a Dra. Consuelo Aguirre chama de “contrastación“, o que inclusive se encaixaria melhor no conceito de “ouvir o outro lado”, “contrastar”. Não foi por acaso que ela detectou em sua pesquisa de doutorado, recentemente defendida na Universidad Austral, em Buenos Aires, que a “contrastación” é um dos critérios de noticiabilidade que a Internet reduziu ou tornou obsoleto.

Dra. Aguirre revisou os critérios de noticiabilidade em relação às Leis da Mídia, de Marshall McLuhan, aplicadas a 140 notícias e a partir de entrevistas em profundidade com 30 jornalistas dos jornais El Comercio e El Telegrafo, do Equador.

A pesquisa intitulada “Los criterios de noticiabilidad en el ecosistema digital: un análisis de las transformaciones de los contenidos informativos en dos cabeceras periodísticas de Ecuador , orientada pelo Prof. Dr. Francisco Albarello, tem achados interessantes. Mas antes vamos lembrar como são as Leis da Mídia, do “eme-cí Luán”, como já ouvi de um aluno de graduação:

Tétrade das Leis da Mídia, de Marshal McLuhan

Quais critérios de noticiabilidade, então, a tecnologia digital vem Aperfeiçoar, Reverter, Recuperar e Obsolescer?

De bate-pronto, Dra. Aguirre diz o seguinte:

APERFEIÇOA (o que na versão em espanhol foi dito como “agranda” ou “aumenta”: IMEDIATISMO

OBSOLESCE ou REDUZ (em espanhol se manteve a nomenclatura): EXCLUSIVIDADE e CONTRASTE

RECUPERA (também mantido em espanhol): SERVIÇO, APROXIMAÇÃO COM LEITOR, VERIFICAÇÃO

REVERTE: INFOTAINMENT

A sistematização da Dra. Aguirre vai bem além dos que resumi acima, que é o foco da discussão que tive com o colega semana passada – sobretudo o segundo item (OBSOLESCE/REDUZ).

Foi uma grata surpresa, no entanto, ver que o conteúdo como serviço (útil, aplicado) e a aproximação com o leitor (sobretudo com enfoques segmentados) são recuperados dos meios antigos. O mesmo não posso dizer sobre a VERIFICAÇÃO, que se tornou objeto de militância política travestido de jornalismo.


Los criterios de noticiabilidad en el ecosistema digital: un análisis de las transformaciones de los contenidos informativos en dos cabeceras periodísticas de Ecuador”, pesquisa de doutoramento de Consuelo Aguirre, defendida na Universidad Austral, sob orientação do Prof. Dr. Francisco Albarello.

O furo não garante a exclusividade

Outro apontamento interessante da tese foi a queda da exclusividade como critério para decidir o que será notícia. É sabido que a natureza da informação digital é a replicabilidade infinita sem qualquer prejuízo à precisão do conteúdo. A qualidade de uma música gravada de um LP a uma K-7 era questionável, enquanto arquivos MP3 podem ser compartilhados eternamente sem perder um bit de qualidade.

Na seara do copia-e-cola, a exclusividade se esvai. A informação é exclusiva até se tornar pública – e copiada por outro site dois minutos depois.

Dra. Aguirre esclarece que “O que cai é a exclusividade, não o furo”. Os veículos continuam obcecados em ser os primeiros a noticiar algo, por mais que aquilo só tenha valor entre eles mesmos. O público não costuma ligar e nem nota quem foi o primeiro a noticiar algo. A notícia que vale é aquela que aparece primeiro e casa com as demandas particulares do usuário.

Acho perigoso, inclusive, que muitos veículos digitais abdiquem da precisão para ganhar a corrida pelo furo. O conteúdo sai capenga porque tem que sair. E o tempo em relação à concorrência se torna o maior critério de noticiabilidade(?!).

“Os critérios de noticiabilidade não são mais do que a raiz daquilo que entendemos como jornalismo. É um assunto absolutamente nuclear dentro da atividade jornalística”, comentou um dos avaliadores da banca, o Prof. Dr. Ramón Salaverría. E justamente por tamanha centralidade é que não podemos aceitar de modo passivo que os critérios de noticiabilidade se tornem peões da ansiedade, nem que abdiquem da pluralidade de fontes. Caso contrário, o que sobra são toneladas de conteúdos apressados e imprestáveis, reproduzidos por profissionais que atuam como robôs.

Em 2015, enquanto escrevia a tese, me deparei com a seguinte frase: “se os jovens de hoje não estão interessados nos conteúdos clássicos das notícias, isso não é um problema dos jovens, mas dos veículos”.

O autor é Wolfgang Donsbach, um professor e pesquisador alemão extremamente crítico – e realista destemido – da indústria da mídia. A clareza do raciocínio dele ecoa até hoje na minha cabeça e me ajuda a buscar um caminho para o reposicionamento do jornalismo na sociedade contemporânea, em especial, na rotina de cada indivíduo.

O que Donsbach e, humildemente, eu tentávamos alertar em meados da década passada era que o conceito de notícia clamava por revisão. Noutras palavras, notícia estava virando uma coisa chata! Mas como algo pode se tornar chato sem ter mudado? Justamente por esta razão – por não ter mudado – é que o noticiário de sempre se perdeu na avalanche de informações novas, sedutoras e abundantes no meio digital.

Pesquisa com news avoiders mexe com as bases do jornalismo

O começo do milênio deu o tom de uma geração hedonista ao extremo, sensível ~demais~ e intolerante às asperezas que fazem parte da vida de qualquer um. Ah, mas quem aceita ser tratado como “qualquer um”? 

Daí surgiram os news avoiders, que escolhem, conscientemente, não consumir notícias em função do mal-estar que elas geram em seus humores. No dia 20 de agosto de 2020, a revista científica Journalism Studies publicou uma pesquisa esmiuçando o olhar dos news avoiders sobre o noticiário. Os pesquisadores Ruth Palmer, Benjamin Toff e Rasmus Kleis Nielsen conversaram com 83 pessoas na Espanha e no Reino Unido. Os resultados são, no mínimo, provocativos.

Entender que a relevância do jornalismo está na manutenção da democracia é conversa de jornalista.

O ponto alto do estudo não está nas respostas dos news avoiders, mas na chacoalhada de realidade que os autores dão naqueles que ainda acreditam na imprensa como uma instituição independente de quaisquer interesses políticos ou privados, e que carrega o poder de vigiar as instâncias públicas em prol do bem comum. 

A utopia acabou. Entender que a relevância do jornalismo está na manutenção da democracia é conversa de jornalista. A maior parte das pessoas não enxerga assim. Que os veículos estejam cumprindo seu papel de informar decentemente a população é uma coisa. Já a percepção que o público tem dessa cobertura é outra. Ela é o oposto da visão idealizada que muitos de nós ainda temos da imprensa – e já se aninha no imaginário popular.

News avoiders vêem as notícias como algo, na melhor das hipóteses, irrelevante.

O relatório da pesquisa com os news avoiders afirma que eles vêem as notícias como algo, na melhor das hipóteses, irrelevante. Na pior das hipóteses, jornalismo é tido como um cúmplice de sistemas político e econômico, de algum dos lados.

Notícias e política se misturam na cabeça dessas pessoas e formam um monstro gigante de negatividade. Esta é a leitura de Joshua Benton, editor do NiemanLab, faz dos comentários colhidos pelos pesquisadores.

“Política é algo horroroso! Políticos são horrorosos!”

Para simplificar a história, a maioria dos entrevistados diz que política é algo horroroso; políticos são horrorosos. Então por que raios é preciso ler notícias sobre isso? (Lembrem-se do hedonismo, da intolerância à frustração, da falência das instituições sociais… Não é só a mídia que sofre com a falta de credibilidade; o poder público, os sindicatos, os partidos políticos são alvos ainda mais evidentes do desengajamento à organização tradicional da sociedade.)

Mais do que desgastada, a política que pauta a pesada maioria das notícias se mostra muito distante da vida cotidiana destas pessoas:  “… a maioria dos entrevistados usa o termo ‘política’ e ‘político’ para descrever o que políticos profissionais fazem, geralmente no nível nacional, distante de suas rotinas”, analisa o relatório.

Ouso dizer: neste ponto, os news avoiders têm toda a razão! São inúmeros os casos em que os títulos começam por “Bolsonaro diz…” ou “Câmara vota…”. Os agentes das notícias sempre são os políticos. É como se o jornalismo se limitasse à órbita daqueles que foram eleitos a cargos públicos – sobre eles e para eles -, sendo que muita gente nem lembra em quem votou nas últimas eleições.

Se o que realmente impacta na vida da população é a ação praticada por tal político, por que, então, não trazer o grupo impactado para o início do título? Eles é que são os reais agentes da notícia! (Eles não são agentes do fato, mas são protagonistas da notícia.)

Façamos um breve exercício de enfoque:

O fato de o presidente sancionar leis é recorrente e não impacta tanto na rotina de um cidadão quanto o efeito da lei sancionada. O agente da notícia não é o político, mas como o seu ato influencia na vida das pessoas.

Jornalistas e políticos estão em simbiose no imaginário popular

Voltando aos news avoiders, eles – e convenhamos, muitos de nós – associam(os) política à briga entre partidos e à corrupção. A vasta maioria não se identifica com qualquer partido político, não presta atenção à política em geral e ainda se descreve como “apolítica”, alegando estar “farta” do sistema, diz o relatório.

Por mais que a pesquisa de Palmer, Toff e Nielsen alerte para uma leitura inconscientemente preconceituosa da mídia, dizendo que os news avoiders adotam tais opiniões por reproduzirem o senso comum e não tanto a partir de um consumo crítico de notícias, é importante entender qual a imagem que os produtos e profissionais do jornalismo têm em certos grupos.

O desinteresse pela política vazou para o jornalismo e o contaminou.

Fundamentada ou não, a relação entre jornalistas e políticos está no imaginário popular e daí se prolifera o desinteresse e uma profunda desconfiança. Segundo o relatório, as notícias são apenas cartadas políticas para qualquer partido com quem o repórter ou a empresa de comunicação simpatize.

Alguns [entrevistados] mudaram a expressão de cínicos para conspiratórios, colocando a mídia como conivente a um sistema de ‘forças obscuras [que] deliberadamente escondem ou distorcem informações para manter os cidadãos ignorantes ou distraídos diante daquilo que pessoas poderosas estariam realmente fazendo’.” – frankfurtianos, contenham o entusiasmo!

Os próprios pesquisadores reconhecem o tom populista na fala dos participantes, embora eles próprios não se classifiquem como populistas. Para além de um posicionamento ideológico, a abstenção impera:

“Eu odeio política. Esta é, provavelmente, uma das razões pelas quais eu não leio notícias, para ser sincero”, Ryan (Reino Unido).

Ou seja, o desinteresse pela política vazou para o jornalismo e o contaminou. Já que o jornalismo insiste em fazer notícia sobre si e para as fontes, a lógica diz que o desinteresse pelo jornalismo é o mínimo que se poderia esperar das audiências!

Para o espelho e para as fontes

Essa história de jornalismo escrever para o espelho é grave e já passou da hora de acabar. Nelson Traquina denuncia esta má prática há décadas. “Quando fontes e jornalistas são parte da mesma ‘rotina’ de maneira regular, pode-se estabelecer certa interdependência. O perigo é evidente.” – e cita Walter Lippmann: “O jornalista está, inevitavelmente, em contato pessoal com os líderes políticos e homens de negócio, criando relações de confiança e de simpatia; é muito mais difícil e embaraçoso ignorá-las”. 

O jornalista precisa da fonte para fazer seu trabalho. A fonte precisa do jornalista para difundir suas ideias. (Sim, estou pensando no tapete verde do Congresso.) É um ambiente favorável à formação de um rede de cooperação! Você me ajuda e eu te ajudo. Simples assim. Esta é a percepção que os news avoiders têm da nossa profissão.

O jornalista escreve notícias para suas fontes e não para o público, distanciando-se das audiências e perdendo a relevância no cenário midiático.

Soma-se a isso os contatos viciados, o tempo sempre exíguo, as cobranças por audiência e a carência de postos de trabalho em redações. Repórteres se vêem praticamente numa situação de “fazemos qualquer negócio para manter nosso emprego”, mesmo que isso signifique publicar notícias que não fazem a menor diferença na rotina do cidadão.

Diante de cada pauta, pergunte-se: o que o meu leitor fará com esta notícia? Como ela vai influenciar na sua vida? Como vai melhorar sua rotina?

Lá em 2015 eu escrevia: “NelsonTraquina alerta que, aos jornalistas, os benefícios aparecem na eficácia de seu trabalho e na estabilidade do posto que ocupam, uma vez que usam uma autoridade para validar sua notícia. Do outro lado, as fontes oficiais também se beneficiam com a difusão de seus atos de maneira profissional, o que lhes dá relevância e reforça sua legitimidade. É comum, conforme diz o autor, que sob tais condições o jornalista passe a escrever notícias para suas fontes e não para o público, distanciando-se das audiências em nome de garantir sua sobrevivência nesta rotina profissional. Raquel San Martín reproduz a fala de um jornalista entrevistado em suas pesquisas: ‘Quando estou escrevendo sobre política, penso nos político, na classe dirigente, que controla o poder’.

O autocentramento da cultura profissional do jornalista reforça o microclima na atividade, fazendo com que o jornalismo seja uma trabalho feito para o espelho, ou seja, por e para o próprio repórter e sua rede imediata de contatos.” [Leia-se: fazemos jornalismo para nós mesmos e para os políticos que nos rodeiam.]

Entendem, agora, por que insisto há 17 anos em aproximar o jornalista do público? Porque é no microcosmos de nossas rotinas e interesses que vivemos, trabalhamos, entendemos o mundo e podemos fazer alguma diferença.

Interesse jornalístico

Falando em interesses, toda essa discussão passa pelos valores-notícia. O “interessante” sempre é para alguém. E não há nenhum ranço nesta observação.

Gosto quando Juan Ramón Muñoz-Torres busca na filosofia o entendimento para o interessante como valor-notícia. INTER-ES: A etimologia da palavra interesse conduz a tudo o que é ou está entre algo ou alguém. Por seu caráter relacional, o interesse é algo tipicamente pessoal e pertence ao que Aristóteles chamava de “prática” ou práxis, relativo ao conhecimento aplicado, ao “obrar”. O interesse, portanto, é aquilo que leva o indivíduo à ação. Pergunte-se, diante de cada pauta: o que o leitor fará com esta notícia? Qual ação ela pode desencadear em sua vida?

Enquanto nós publicamos denúncias, na esperança de que elas mobilizem a população, o sentimento que despertamos é de impotência.

Se nos movemos por interesses [no melhor dos sentidos, como motivação], precisamos buscá-lo para sairmos do estado de inércia e, enfim, viver! No entanto, tomar atitudes é o que menos passa na cabeça desse pessoal cansado do noticiário de política…

A justificativa deles é que não podem fazer nada para melhorar a política retratada nas notícias. Mesmo diante da corrupção denunciada por uma reportagem de jornalismo investigativo, eles pensam como a Emily (UK): “Ninguém pode realmente mudar isso. Porque no final do dia não conta o que nós, pequeninos, pensamos. É tudo o que o governo decidir fazer. Isso é o mais importante”.

Enquanto nós publicamos denúncias, na esperança de que elas mobilizem a população, o sentimento que despertamos é de impotência.Muitos evitam as notícias sobre política como grande parte da estratégia de gerenciar suas emoções. Ao invés de se engajarem com as notícias, eles se sentem tristes a respeito do estado das coisas e frustrados sobre a própria impotência em mudá-lo. Eles preferem conservar suas energias emocionais para enfocar em seus próprios problemas”, concluem os autores da pesquisa.

Para aproximar política e público

Chame isso de individualismo ou de espírito de sobrevivência, não importa. O fato é que o noticiário político não conversa com a vida das pessoas, não diz como tal fato pode impactar a rotina de cada um – se é que os fatos noticiados realmente têm poder de impacto. 

É claro que o público se ocupará de problemas que realmente tocam suas vidas! É a conta de luz que sobe, o remédio que não chega no posto, o perrengue com o banco, a obra no condomínio, a reunião na escola dos filhos… Não sobra tempo nem atenção para que a bancada xpto pressione o relator Fulaninho a incluir o veto do Beltrano na pauta de votação do Senado.

Só que boa parte dos veículos que cobrem política ainda dá isso. E prioritariamente isso! Posso imaginar o repórter tomando o rumo da Esplanada de manhã cedo, condicionado a transformar em notícia todo o espirro que alguém der por ali. Não é assim que o jornalismo funciona. Mas foi nisso que se tornou: um retrato autocentrado de acontecimentos insossos e sem impacto imediato na vida do cidadão.

Critérios de noticiabilidade, para que te quero…

É como se muitas redações tivessem esquecido dos critérios de noticiabilidade. É isso: falta critério na seleção das pautas. Ao menos, falta o uso de bons parâmetros e a noção de que eles existem para agir como critérios de desempate diante de fatos necessariamente relevantes à população. A ideia é de Muñoz-Torres, a quem os valores-notícia não são atributos a serem encaixados nos acontecimentos, sob a obrigação burocrática. Os valores-notícia brotam dos fatos. É como se a realidade acenasse ao repórter e dissesse: eu preciso ser noticiada! Não o contrário.

Quando Boczkowski e Mitchelstein publicaram o livro The News Gap, em 2013, provaram em números o abismo que existe entre aquilo que sai no jornal e o que é de interesse da população. “Ao contrário das principais escolhas dos jornalistas, as preferências do público são marcadas por uma forte predileção por assuntos que não tratem do poder público, além das “notícias-que-você-pode-usar” (o que significa matérias com implicações diretas na vida cotidiana)”, escreve o casal. 

O que fazer?

Como conclusão da pesquisa deste ano, com os news avoiders, os autores recomendam que os veículos criem esforços para separar suas atividades de tudo aquilo que tem a ver com a elite do poder público no imaginário popular. Essa seria uma condição para recuperarmos a credibilidade aos olhos de nossas audiências e, só então, voltarmos a ter relevância em suas vidas. Particularmente, vejo que uma das formas de se fazer isso é conectando o noticiário político à rotina da população. E se um fato não trouxer esta conexão, então não se trata de uma notícia. Que venha o próximo.

Acrescento à recomendação deles:

  • Não copie e cole trechos do Diário Oficial da União. São textos chatos e longos, nada jornalísticos.
  • Não se “acostume” com o juridiquês da política brasileira. O jornalismo existe para traduzir a realidade, fazer a mediação com o público, lembra? 😉 Você pode saber o que significa “pedir vista” ou “substitutiva”. Mas o público não é obrigado a saber disso e ele não vai procurar no Google para entender sua matéria.
  • Nem tudo tem que ser noticiado! Lembre-se que há vida além do Congresso, do Planalto, dos gabinetes, palácios e câmaras locais. O público não precisa estar a par de tudo o que você vê. Logo, o que parece ser uma super novidade para você talvez não faça o menor sentido para suas audiências, a menos que você contextualize.
  • Fuja do jornalismo declaratório. Ele tende a ser pobre e desinteressante.
  • Recomendo fortemente este artigo que fala da importância de publicarmos menos notas e com mais qualidade. A maior parte do noticiário de política é commoditie e aparece em vários veículos simultaneamente.
  • [O que mais você sugere?]

As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.

Este conteúdo faz parte da entrevista com o jornalista espanhol Lluís Cucarella, diretor do Observatorio para la Transformación del Periodismo Local e diretor editorial do site Laboratorio de Periodismo, da Fundación Luca de Tena. Acompanhe outros tópicos desta entrevista.


Orbis Media Review – Quanto à necessidade de que “o veículo ajude as pessoas em seus problemas diários”, mencionada no dossiê Desafios Editoriais da Imprensa Local no Mundo Pós-Coronavírus (pdf, em espanhol) – é possível que se precise fazer uma revisão dos critérios de noticiabilidade (valor-notícia)? Quais são os critérios que devem cair e quais outros valores os editores devem passar a considerar?

Lluís Cucarella – Falta uma profunda revisão do que estamos fazendo como jornalistas, principalmente entre aqueles que estão em cargos diretivos nas redações. Eu alterno a consultoria com trabalho em veículos e quando estive na liderança de empresas de mídia, conservei o costume de agarrar todos os dias o jornal impresso (e também o digital, de alguma forma) e, ao analisar o produto, apontar por quais artigos ali publicados valeria a pena pagar.

Sugiro aos editores e chefes de seção com quem trabalho que não esqueçam de perguntar a si mesmos quais conteúdos mereceriam ser pagos e, na medida do possível, estendam o hábito a diferentes colegas da empresa. Na maior parte das vezes a lista é encabeçada por aquelas informações que resolvem problemas das pessoas, que falam daquilo que realmente lhes interessa, daquilo que elas vivem no dia a dia, como receber a aposentadoria, para alguns, ou como parcelar o pagamento de impostos durante a pandemia, para outros.

À escala local, quais setores são os que mais ofertam emprego na cidade, ou onde é possível comprar máscaras subsidiadas. O jornalismo deve avançar na direção das respostas, mais do que repetir ou amplificar as perguntas que já existem.

E não é apenas em relação a interesses pessoais. Por exemplo, sobre os problemas que afetam uma cidade, os veículos devem ir além e contar casos de sucesso, por exemplo, como regiões sob as mesmas circunstâncias conseguiram solucionar o problema ou realizar um projeto que há muito tempo dá esperança a uma comunidade. Aí o jornalismo de soluções tem muito o que dizer. Alguns jornais já entenderam a mudança. The Guardian, por exemplo, multiplicou por seis a produção de conteúdos de jornalismo de soluções durante a pandemia.

Evidentemente, a informação política também é necessária e insisto que um jornal deve oferecer esta visão de mundo, saber contextualizar e hierarquizar a informação. Mas quando uma edição traz apenas duas ou três notícias pelas quais entendemos que alguém estaria disposto a pagar, porque elas ajudam no seu dia a dia, este é um sinal de mau negócio.

Acompanhe outros tópicos desta entrevista com Lluís Cucarella.