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Você leu este comunicado da Meta? “Testes aleatórios nos ajudarão a criar uma solução de produto eficaz para acabar com a disponibilização de notícias no Canadá.”

Não, ele não foi interpretado ou reescrito. Copiei e colei a partir do site original:  “Conforme nos preparamos para consentir com a legislação, anunciamos hoje que iremos começar testes em ambas as plataformas [Facebook e Instagram] que irão limitar alguns usuários e editores a visualizar e compartilhar alguns conteúdos de notícia no Canadá”.

O comunicado na forma de uma conquista tecnológica tem como contexto a aprovação do Projeto de Lei C-18, que versa sobre o mercado de notícias online. E a Meta não deixa qualquer margem de dúvida quanto ao que está obstinada a concretizar: “Pretendemos encerrar a disponibilização de conteúdo de notícias no Canadá permanentemente após a aprovação do Projeto de Lei C-18.

O que levaria uma empresa no século XXI a erguer um exército em combate a uma instituição basilar da história da democracia? 

O que diz a Lei de Notícias Online?

A Lei de Notícias Online canadense é um desdobramento natural e previsível da regulamentação pela qual as big techs vêm passando em vários países. Mais precisamente, o Canadá segue o caminho aberto pela Austrália que, no começo de 2021, instituiu o News Media Bargaining Code e colocou veículos e plataformas a negociarem um pagamento recorrente aos editores. 

(Se você não é da área, vale contar que a razão disso está no fato de as empresas de redes sociais terem adotado o modelo de negócio da publicidade que, até então, sustentava os meios de comunicação. Isso, sem assumir responsabilidade pelo conteúdo que nelas circula).

Voltando ao Canadá, a Lei C-18 diz que estarão isentos de cobrança os intermediários de notícias digitais que celebrarem acordo com empresas jornalísticas sob os seguintes critérios selecionados:    

  • forneçam compensação justa às organizações de notícia pelo conteúdo disponibilizado;
  • assegurem que uma parte da remuneração seja usada pelas organizações de notícias para apoiar a produção de conteúdo jornalístico local, regional ou nacional;
  • não permitam que a influência corporativa prejudique a liberdade de expressão e a independência jornalística de qualquer meio de comunicação;
  • contribuam para a viabilidade do mercado de notícias canadense;
  • garantam que uma parte significativa das empresas de notícias locais e independentes se beneficie, contribuam para sua viabilidade e incentivem modelos de negócio inovadores;
  • visem uma variedade de meios de comunicação com fins lucrativos e sem fins lucrativos e que sejam firmados com organizações de notícia que prestem serviços a todos os mercados e a várias populações, em particular a mercados locais e regionais.

A história se repete

Diante da provável obrigatoriedade em destinar parte de sua receita às empresas jornalísticas daquele país, a Meta achou melhor investir em uma “solução de produto eficaz para acabar com a disponibilização de notícias”. 

A ameaça de bloqueio e a efetiva proibição do compartilhamento de conteúdo noticioso em todos os produtos da Meta não é novidade. Assim como os legisladores canadenses se inspiraram no modelo australiano, a Meta repete agora exatamente o que fez na Austrália, em 17 de fevereiro de 2021, quando bloqueou todo conteúdo jornalístico até que o texto da lei fosse flexibilizado. 

Na Califórnia a situação não está diferente. Um dia após legisladores democratas e republicanos terem apresentado – e aprovado em primeira instância – o projeto de lei California Journalism Preservation Act, o porta-voz da Meta, Andy Stone publicou em seu perfil de Twitter que seria “forçado a remover as notícias do Facebook e do Instagram”.

As justificativas apresentadas pela Meta

À medida em que a história se repete, o discurso fica mais direto e sem floreios.

A justificativa para tal postura é que os legisladores não entendem como funciona a internet e ignoram a realidade. Veja o que dizem os comunicados oficiais:

Fevereiro/2021 – Austrália

A lei proposta não entende fundamentalmente a relação entre nossa plataforma e os editores que a usam para compartilhar conteúdo de notícias. Isso nos deixou diante de uma escolha difícil: tentar cumprir uma lei que ignora as realidades desse relacionamento ou parar de permitir conteúdo de notícias em nossos serviços na Austrália.

Junho/2023 – Canadá

A Lei de Notícias Online é uma legislação fundamentalmente falha que ignora as realidades de como nossas plataformas funcionam, as preferências das pessoas que as usam e o valor que fornecemos aos editores de notícias.” 

Maio/2023 – Califórnia

“A lei falha por não reconhecer que os publishers e broadcasters colocam seu conteúdo na nossa plataforma por vontade própria.”

Por que as plataformas precisam pagar aos veículos?

Andy Stone tem razão quando diz que os publishers compartilham seu conteúdo na plataforma livre e espontaneamente. Por uma ingenuidade algo oportunista, acreditamos que as redes sociais solucionariam nossos problemas de tráfego em troca de pouco ou quase nenhum esforço. É fato: não solucionaram e ainda prejudicaram o ecossistema de consumo de notícias ao adotar uma dinâmica de distribuição totalmente opaca

Mesmo assim, se um veículo ainda publica seu conteúdo em redes sociais, o faz em busca de algum benefício. Geralmente, o benefício é geração de (cada vez menos) audiência ou consciência de marca. Então parece ilógico usar uma plataforma espontaneamente e esperar que ela ainda pague por isso.

Um dos argumentos que os legisladores estão usando para justificar a cobrança de taxas das big techs em favor dos meios de comunicação é a infringência de direitos de autor, uma tese falha, já que é o próprio veículo quem publica seu conteúdo ali. (Com o Google a história é diferente e o expediente adotado pela empresa também é outro; fica para outro post).

Se o problema das leis, segundo a Meta, é que elas “não entendem a realidade”, vamos a situações indubitavelmente reais, suficientes para embasar a exigência de pagamento das big techs a empresas jornalísticas. 

Ao longo dos últimos 10 anos, fatos reais provocados direta ou indiretamente pelas redes sociais causaram prejuízos históricos aos veículos:

  • verba publicitária migra da imprensa para as redes;
  • plataformas utilizam as audiências segmentada pela presença de veículos e as vendem para anunciantes;
  • redes sociais entregam audiência orgânica, tornam os meios de comunicação dependentes disso e, depois, derrubam arbitrariamente o alcance dos posts, impactando na queda de audiência;
  • os veículos se veem obrigados a alocar mais esforços e a publicar mais conteúdo nas plataformas em busca do tráfego perdido, onerando a operação;
  • para ter algum alcance nas redes, empresas jornalísticas se obrigam a pagar para promover posts e chegar a uma audiência que, antes, era delas.

Programas de apoio ao jornalismo foram criados pelas big techs ao longo desses fatos para amenizar o caos que elas instauravam no setor. O golpe de misericórdia será o impedimento explícito de veiculação de conteúdo jornalístico nestes espaços. Se essa for, de fato, a nova “realidade”, resta esperar que ela seja o marco de uma nova e produtiva etapa da indústria jornalística, mais centrada em seus próprios produtos, com real controle de suas operações. Quem viver verá.

Navegar pela internet realmente oferece grandes momentos de reflexão. Percebi isso outro dia quando procurava fotos em um destes muitos bancos de imagens que existem por aí. Na ocasião, precisava de uma que representasse o jornalismo, e embora houvesse uma porção de belas fotografias e ilustrações, o que mais chamou a atenção foram as imagens de itens como um megafone ou de uma pessoa gritando como se fosse ativista de uma causa qualquer. Engraçado que na busca por jornalismo tenham surgido tantas figuras que significam o oposto da nossa profissão – ou ao menos o oposto daquilo que deveria ser o seu pilar: a isenção, a objetividade, a imparcialidade.

Não vou negar: minha vontade de estudar jornalismo sempre foi ancorada no desejo de causar um impacto na sociedade. Acredito que eu não seja uma exceção entre tantos outros que entraram nesta área. Mas é preciso cuidado para que esta poderosa motivação não acabe nos desviando dos critérios que distinguem o jornalismo de outros tipos de manifestações públicas sobre eventos correntes.

Todas estas questões vêm na toada de um artigo do Professor Carlos Alberto Di Franco sobre o tema. Segundo ele, é preciso “lutar contra as atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem e minam a credibilidade dos produtos jornalísticos”. Assim, segundo ele, “É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. A audiência quer informação clara, corajosa, bem apurada. E, hoje em dia, pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital”.

Para mim, o apontamento mais arrebatador do artigo é de que a audiência ficará conosco apenas “se soubermos apresentar um produto de qualidade”.

Esta conclusão pode parecer óbvia, mas está longe disso. A PL das Fake News, que voltou ao noticiário em função dos recentes debates ocorridos em Brasília, é prova disso. Para além do projeto em si que muda a cada dia – e certamente terá sofrido novas alterações assim que este artigo for ao ar –, o que chama a atenção é o posicionamento corporativo de muitas empresas de mídia e associações do setor.

A ideia que parece guiar muitos dos nossos colegas é a de que a lei beneficia o jornalismo profissional e, mais importante do que isso, as notícias corretas e precisas que publicamos. Como consequência direta, o maior vencedor é a sociedade, que se fortalece ao ser nutrida com informações verdadeiras e bem apuradas.

Essa visão, entretanto, é demasiadamente simplista. Pouca coisa prova isso tão bem quanto a pandemia da Covid-19. Assim que começou a se espalhar pelo mundo e chamar a atenção do noticiário, por exemplo, muitas das empresas do setor foram rápidas em rechaçar a hipótese de o vírus ter surgido em um laboratório chinês – algo por vezes associado a algum tipo de teoria da conspiração.

Algo parecido aconteceu com as próprias vacinas, cujas alegações de causarem problemas como arritmia cardíaca eram frequentemente tratadas como negacionismo. Mesmo as máscaras, consideradas fundamentais para conter a disseminação do vírus eventualmente se mostraram duvidosas. Em todos estes casos, muitas empresas de mídia optaram por ouvir fontes oficiais, tratando-as como detentoras da verdade absoluta e suprimindo qualquer tentativa de questionamento.

Isso certamente não deve levar ao extremo de que a imprensa não é uma fonte confiável de informação. Ao contrário, tais apontamentos servem apenas para nos lembrarmos de que não somos uma fonte de informações corretas e precisas apenas pelo fato de existirmos.

É certo que o jornalismo possui sua ética própria, critérios de noticiabilidade que nos ajudam a definir as pautas mais pertinentes, exigências de apuração para garantir a qualidade do conteúdo publicado – elementos que contribuem para a profissionalização do nosso setor e do trabalho que realizamos. Mas para que todos estes elementos contribuam realmente para o bom jornalismo, é fundamental termos a noção clara de que o simples status de “jornalista” não garante a qualidade do conteúdo produzido. O contrário é mais verdadeiro: é a noção de nossa própria falibilidade e de nossas limitações que tendem a nos deixar sempre vigilantes para os erros e exageros que podemos cometer.


A retomada do protagonismo

Muita da nossa discussão sobre fake news se dá em função da desintermediação causada pelas mídias sociais – e como elas abriram espaço para que qualquer um pudesse escrever e falar aquilo que pensa, tirando dos jornais o protagonismo que sempre tiveram e abrindo a caixa de pandora para que todo tipo de mentira e desinformação saísse.

Mas mentiras e manipulações dos fatos sempre existiram. O que mudou é o alcance que elas podem ter nos dias de hoje e a perda da centralidade dos jornais como fontes confiáveis de informação. Contra dois destes elementos nós não podemos realmente lutar. Nenhum projeto de lei será capaz de suprimir e aniquilar informações consideradas falsas por qualquer órgão de Estado. O alcance do conteúdo não controlado e não produzido por nós, jornalistas, também não pode ser revertido a não ser que revertamos o próprio avanço tecnológico (o que parece improvável). A única coisa que realmente podemos fazer, portanto, é reconquistar o protagonismo que um dia tivemos – algo que não pode ser feito pelas vias da força.

Para isso, é fundamental entendermos que muitos embates presentes não se dão dentro do campo da verdade e da mentira, e sim no campo das interpretações sobre aquilo que é bom e aquilo que é ruim dentro do contexto atual. Isso faz com que o termo fake news seja frequentemente usado não para apontar erros objetivos nas informações presentes, mas para fazer um julgamento de valor sobre as posturas ideológicas de certos grupos sociais. E convenhamos, quando falamos em fake news estamos pensando em um grupo político específico, aquele de viés conservador que surgiu nos últimos anos e cujo posicionamento desagrada profundamente a maior parte do nosso setor.

Quando lançaram o livro “Nacional populismo – a revolta contra a democracia liberal”, os pesquisadores Roger Eatwell e Matthew Goodwin fizeram uma análise profunda, repleta de dados, mostrando alguns dos motivos que explicam a ascensão disso que nos acostumamos a chamar de direita conservadora e que teve expressões nacionais e internacionais com figuras como Bolsonaro, Trump, Le Pen. Confesso que não sei qual é o posicionamento pessoal dos dois autores sobre estes políticos e o movimento que eles representam. Mas também, pouco importa se são contra ou a favor. O que é realmente relevante é que eles conseguiram chegar a conclusões interessantes sobre os motivos por trás do surgimento destes movimentos ideológicos – conclusões que vão muito além daquela lista de palavras rasas que a então candidata à presidência dos EUA Hilary Clinton usou para descrever metade dos apoiadores de Trump: “racistas, sexistas, homofóbicos, xenofóbicos, islamofóbicos”.

Termos como estes simplificam movimentos sociais complexos. A própria Clinton, por exemplo, foi derrotada por Trump em 209 distritos americanos que haviam votado em Obama nas duas vezes em que ele concorreu ao cargo. Igualmente, Trump obteve o voto de um terço dos eleitores “latinos” do país, assim como o Brexit obteve mais ou menos a mesma quantidade de votos de grupos etnicamente minoritários da Inglaterra. Estes dados fazem parte da pesquisa de Eatwell e Goodwin e mostram como a palavra racismo e xenofobia não dão conta de explicar a ascensão da direita atual – na verdade, é possível que causem mais confusão do que esclarecimento.

Os dois autores até concordam que “alguns nacionais populistas enveredam no racismo e na xenofobia”, mas isso não deveria, segundo eles, “nos distrair do fato de que eles também tocam em ansiedades públicas abrangentes e legítimas”. Como bem explicam, estes eleitores questionam, por exemplo, “o modo em que as elites (culturais, políticas e mesmo econômicas) se tornaram cada vez mais isoladas das vidas e preocupações das pessoas comuns”. Estas pessoas também questionam “a erosão do Estado-Nação, que é visto como a única construção que foi capaz de organizar nossas vidas políticas e sociais”. Talvez mais significativo ainda, “elas questionam a capacidade das sociedades ocidentais de rapidamente absorver taxas de imigração (…) que não tem precedente na história da civilização moderna”, assim como questionam que tipo de sociedade estas e outras mudanças sociais levantadas por outros movimentos políticos criarão.

E ainda assim, pouco espaço houve na mídia para uma discussão aprofundada e uma tentativa genuína de entender as motivações por trás das preferências políticas desta parcela do eleitorado (o que não significa concordar com elas). Em 2017, por exemplo, pouco antes do segundo turno da eleição presidencial francesa que terminou com a vitória de Emmanuel Macron, a revista Vanity Fair publicou o artigo “Marine Le Pen pode tornar o fascismo mainstream?”. Que haja diversos motivos legítimos para se criticar as posturas e políticas públicas defendidas pela então candidata é uma coisa, mas banalizar um termo tão complexo de uma ideologia que devastou a Europa em um momento específico da história é algo completamente diferente. Não há dúvidas de que tal conteúdo ofendeu uma parte considerável da população que tinha seus motivos legítimos para votar em Le Pen.

E aqui vai o ponto final sobre esta reflexão: a despeito das possíveis e eventuais fake news, da ampliação da capacidade de ler e publicar qualquer coisa no ambiente digital e dos excessos nos diferentes posicionamentos políticos que se encontram por aí, o fato é que a postura da sociedade – ou parte dela – em relação às empresas de mídia tem muito mais a ver com os nossos posicionamentos editoriais do que com estes e outros fatores externos.

É verdade que uma PL sobre o assunto pode até tornar o ambiente digital mais salutar, embora os custos disso devam ser seriamente questionados. Mas mesmo que isso aconteça, nada indica que o público voltará a confiar plenamente em nosso trabalho. Portanto, se quisermos reconquistar o protagonismo que já tivemos, precisamos que a população volte a ver relevância em gastar o seu tempo lendo aquilo que publicamos. Nada disso será possível se antes não conseguirmos demonstrar que entendemos o que o nosso público realmente pensa sobre os assuntos que cobrimos diariamente.