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Proliferam notícias falsas e vivemos sob o domínio das narrativas. São compartilhadas acriticamente com a compulsão de um clique. Fazem muito estrago. Confundem. Enganam. Desinformam.

Tem muita gente desencantada com o jornalismo e fascinada com as redes sociais. Acham que o jornalismo tradicional deixou de ser um porto seguro. Acreditam, ingenuamente, que a balbúrdia do mundo digital vai resgatar a verdade perdida. Como se as redes fossem um espaço plural que se contrapõe a uma suposta hegemonia da chamada grande imprensa. Não percebem que a internet tende a criar redutos fechados, bolhas impermeáveis ao contraditório, um ambiente embalado ao som de Samba de Uma Nota só.

Sou apaixonado pelo jornalismo. Escrevo na imprensa tradicional e participo intensamente das novas mídias. Não são excludentes. O clima de nós contra eles não cabe. Precisamos, todos, apostar na qualidade, na ética e na capacidade de ouvir e dialogar.

A mentira, por óbvio, precisa ser enfrentada. As narrativas ideológicas devem ser desmascaradas com a força dos fatos.  A informação confiável é um grande desafio. O combate às fake news, importante e necessário, não deve justificar censura, limitações abusivas à liberdade de expressão, intimidações, prisões ilegais e arbitrárias.

Quem vai definir o que é ou não fake news? O ministro da Justiça? O Supremo Tribunal Federal? Transferir para o Estado a tutela da liberdade é muito perigoso. Só o Congresso Nacional, com prudência e os olhos na Constituição, tem legitimidade para estudar assunto tão sensível às liberdades democráticas.

Mas voltemos, amigo leitor, ao nosso tema: O desafio da informação confiável. A perda de confiança no jornalismo está ligada ao abandono do factual e ao avanço do subjetivismo engajado. Quase sem perceber, alguns jornais sucumbem à síndrome da opinião invasiva. Ganham traços de redes sociais. Como disse João Pereira Coutinho, “não são as redes sociais que matam os jornais, são eles próprios que se suicidam quando seguem o exemplo das redes”.

É preciso apostar na informação. Sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeças para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”.

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada. Nas redações brasileiras, multiplicam-se as telas coloridas que trazem, minuto a minuto, indicadores e gráficos mirabolantes. Ao final de um dia de trabalho, qualquer editor está habilitado a responder quais foram as reportagens mais lidas. Mas e depois disso?  Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer.

O ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa.

Alguns jornalistas da grande mídia, sobretudo na cobertura de política, em nome de suposta independência, têm enveredado excessivamente pelo que eu chamaria de jornalismo de militância. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda seus próprios leitores. Na verdade, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela internet.

É necessário perceber, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se um jornalismo menos anti e mais propositivo. Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores. Sabendo que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar nosso conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

O jornalismo precisa recuperar a vibração da vida, o cara a cara, o coração e a alma. O consumidor precisa sentir que o jornal é um parceiro relevante na sua aventura cotidiana.

Com crescente regularidade tenho recorrido a uma ideia que pode ser resumida da seguinte maneira: se uma pessoa se empenhar, ela consegue encontrar justificativa para qualquer coisa.

A meu ver, nada resume tão bem o ambiente das redes sociais e de todo o debate político atual. Seja para defender sua ideologia ou para definir quem é vilão e mocinho na guerra entre Israel e Hamas, haverá sempre alguma informação perdida por aí capaz de confirmar aquilo em que acreditamos. O curioso é observar como todos nós conseguimos pescar algumas poucas notícias ou fatos que corroboram uma opinião prévia enquanto ignoramos todo o resto que joga contra nossa narrativa pré-estabelecida.

Frequentemente percebo isso quando entro em uma rede social ou acesso o site de um jornal. É tanta informação disponível que cada um pode selecionar aquilo que quiser. Se estou pré-disposto a tomar o lado dos palestinos no atual conflito, posso encontrar mil matérias dizendo que Israel bombardeou de forma cruel e desumana um hospital localizado na Faixa de Gaza. Se estou pré-disposto a defender o lado israelense, posso encontrar mil outras notícias dizendo que o hospital foi, na verdade, alvo de um míssil mal direcionado por terroristas palestinos. É claro que existe uma verdade neste e em outros casos, mas o ponto é que o ambiente de notícias hoje parece uma prateleira de supermercado onde cada um pode pegar o produto que melhor satisfaz suas preferências.

Para não ficar relativista demais, reconheço que o conteúdo das empresas de mídia sérias não pode ser comparado com muito daquilo que se vê no Twitter. Mas mesmo nelas, o excesso de informação pode ser um problema, ainda mais quando esta informação é desprovida de contexto. E se o jornalismo acaba por confundir as pessoas mais do que esclarecê-las, não será uma surpresa se elas começarem a evitar o que temos a dizer.

O que podemos fazer de melhor para evitar essa situação?

Arrisco dizer – e falo isso como leitor que acompanha o noticiário publicado dentro e fora do Brasil – que o público (e por consequência as empresas de mídia) se beneficiaria muito se tivesse mais acesso a notícias bem contextualizadas, capazes não apenas de informar sobre acontecimentos recentes, mas também de dar sentido ao cenário mais amplo no qual estamos inseridos.

Uma matéria que li hoje mesmo exemplifica isso. O texto, publicado na revista Spectator, é do professor e historiador Timothy Garton Ash e fala sobre a difícil situação da Ucrânia agora que o foco dos EUA também se volta para Israel. Diz ele:

Eu voltei ao Reino Unido depois de ter estado na Ucrânia fortemente persuadido de que isso é o que nós, na Europa, devemos fazer (aumentar a ajuda no esforço de guerra ucraniano). A alternativa – infelizmente quase tão provável quanto ruim – é que o Ocidente acabe por se contentar com uma ‘paz’ que implique na perda de uma grande parcela do território por parte da Ucrânia. Isso não seria paz, mas um conflito semicongelado – apenas uma pausa antes outra rodada de guerra, tal como temos visto por décadas no Oriente Médio. No meio tempo, isso também permitiria a Putin declarar vitória em casa, podendo ficar no poder por mais tempo, e mandando a mensagem errada para Xi Jinping sobre Taiwan…

Neste caso o autor sequer está apresentando fatos, dando uma nova informação ou replicando aquilo que outros veículos já publicaram. Ao contrário, sua maior preocupação é apresentar os dilemas sociais presentes na Europa e nos EUA (ler artigo completo) e analisar as consequências globais de um processo de paz que implique no fortalecimento da posição Russa e enfraquecimento do campo ocidental.

A análise é perfeita? Certamente não, tal como acontece com muitas previsões sobre geopolítica. Ainda assim, ela faz algo de interessante: aumenta o entendimento do leitor sobre a situação do mundo no atual momento de uma forma que poucas matérias – sobretudo aquelas que apenas informam sobre um novo bombardeio, um novo conflito armado ou ainda uma declaração esdruxula de um político qualquer – conseguem fazer.

Aqui no Orbis, falamos com regularidade que o conceito de “menos é mais” também se aplica ao jornalismo. Esse “menos”, entretanto, se refere ao número de matérias publicadas, jamais à qualidade do conteúdo. Permitir que um repórter publique em um ritmo menor pode dar a ele o tempo necessário para uma bela apuração. Com isso, aumentamos o valor do nosso conteúdo e oferecemos ao público mais do que um amontoado de informações perdidas e descontextualizadas.

Batemos tanto na questão da fake news que ignoramos que a polarização não precisa de falsidades para se estabelecer. Basta uma informação perdida para glorificar um grupo ou demonizar o outro. Não são apenas as redes sociais que contribuem para este fenômeno. Também o jornalismo, quando repercute polêmicas desprovidas de substância ou fatos sem a devida contextualização, colabora para enfraquecer nossa percepção da realidade e reduzir a qualidade da discussão.

Navegar pela internet realmente oferece grandes momentos de reflexão. Percebi isso outro dia quando procurava fotos em um destes muitos bancos de imagens que existem por aí. Na ocasião, precisava de uma que representasse o jornalismo, e embora houvesse uma porção de belas fotografias e ilustrações, o que mais chamou a atenção foram as imagens de itens como um megafone ou de uma pessoa gritando como se fosse ativista de uma causa qualquer. Engraçado que na busca por jornalismo tenham surgido tantas figuras que significam o oposto da nossa profissão – ou ao menos o oposto daquilo que deveria ser o seu pilar: a isenção, a objetividade, a imparcialidade.

Não vou negar: minha vontade de estudar jornalismo sempre foi ancorada no desejo de causar um impacto na sociedade. Acredito que eu não seja uma exceção entre tantos outros que entraram nesta área. Mas é preciso cuidado para que esta poderosa motivação não acabe nos desviando dos critérios que distinguem o jornalismo de outros tipos de manifestações públicas sobre eventos correntes.

Todas estas questões vêm na toada de um artigo do Professor Carlos Alberto Di Franco sobre o tema. Segundo ele, é preciso “lutar contra as atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem e minam a credibilidade dos produtos jornalísticos”. Assim, segundo ele, “É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. A audiência quer informação clara, corajosa, bem apurada. E, hoje em dia, pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital”.

Para mim, o apontamento mais arrebatador do artigo é de que a audiência ficará conosco apenas “se soubermos apresentar um produto de qualidade”.

Esta conclusão pode parecer óbvia, mas está longe disso. A PL das Fake News, que voltou ao noticiário em função dos recentes debates ocorridos em Brasília, é prova disso. Para além do projeto em si que muda a cada dia – e certamente terá sofrido novas alterações assim que este artigo for ao ar –, o que chama a atenção é o posicionamento corporativo de muitas empresas de mídia e associações do setor.

A ideia que parece guiar muitos dos nossos colegas é a de que a lei beneficia o jornalismo profissional e, mais importante do que isso, as notícias corretas e precisas que publicamos. Como consequência direta, o maior vencedor é a sociedade, que se fortalece ao ser nutrida com informações verdadeiras e bem apuradas.

Essa visão, entretanto, é demasiadamente simplista. Pouca coisa prova isso tão bem quanto a pandemia da Covid-19. Assim que começou a se espalhar pelo mundo e chamar a atenção do noticiário, por exemplo, muitas das empresas do setor foram rápidas em rechaçar a hipótese de o vírus ter surgido em um laboratório chinês – algo por vezes associado a algum tipo de teoria da conspiração.

Algo parecido aconteceu com as próprias vacinas, cujas alegações de causarem problemas como arritmia cardíaca eram frequentemente tratadas como negacionismo. Mesmo as máscaras, consideradas fundamentais para conter a disseminação do vírus eventualmente se mostraram duvidosas. Em todos estes casos, muitas empresas de mídia optaram por ouvir fontes oficiais, tratando-as como detentoras da verdade absoluta e suprimindo qualquer tentativa de questionamento.

Isso certamente não deve levar ao extremo de que a imprensa não é uma fonte confiável de informação. Ao contrário, tais apontamentos servem apenas para nos lembrarmos de que não somos uma fonte de informações corretas e precisas apenas pelo fato de existirmos.

É certo que o jornalismo possui sua ética própria, critérios de noticiabilidade que nos ajudam a definir as pautas mais pertinentes, exigências de apuração para garantir a qualidade do conteúdo publicado – elementos que contribuem para a profissionalização do nosso setor e do trabalho que realizamos. Mas para que todos estes elementos contribuam realmente para o bom jornalismo, é fundamental termos a noção clara de que o simples status de “jornalista” não garante a qualidade do conteúdo produzido. O contrário é mais verdadeiro: é a noção de nossa própria falibilidade e de nossas limitações que tendem a nos deixar sempre vigilantes para os erros e exageros que podemos cometer.


A retomada do protagonismo

Muita da nossa discussão sobre fake news se dá em função da desintermediação causada pelas mídias sociais – e como elas abriram espaço para que qualquer um pudesse escrever e falar aquilo que pensa, tirando dos jornais o protagonismo que sempre tiveram e abrindo a caixa de pandora para que todo tipo de mentira e desinformação saísse.

Mas mentiras e manipulações dos fatos sempre existiram. O que mudou é o alcance que elas podem ter nos dias de hoje e a perda da centralidade dos jornais como fontes confiáveis de informação. Contra dois destes elementos nós não podemos realmente lutar. Nenhum projeto de lei será capaz de suprimir e aniquilar informações consideradas falsas por qualquer órgão de Estado. O alcance do conteúdo não controlado e não produzido por nós, jornalistas, também não pode ser revertido a não ser que revertamos o próprio avanço tecnológico (o que parece improvável). A única coisa que realmente podemos fazer, portanto, é reconquistar o protagonismo que um dia tivemos – algo que não pode ser feito pelas vias da força.

Para isso, é fundamental entendermos que muitos embates presentes não se dão dentro do campo da verdade e da mentira, e sim no campo das interpretações sobre aquilo que é bom e aquilo que é ruim dentro do contexto atual. Isso faz com que o termo fake news seja frequentemente usado não para apontar erros objetivos nas informações presentes, mas para fazer um julgamento de valor sobre as posturas ideológicas de certos grupos sociais. E convenhamos, quando falamos em fake news estamos pensando em um grupo político específico, aquele de viés conservador que surgiu nos últimos anos e cujo posicionamento desagrada profundamente a maior parte do nosso setor.

Quando lançaram o livro “Nacional populismo – a revolta contra a democracia liberal”, os pesquisadores Roger Eatwell e Matthew Goodwin fizeram uma análise profunda, repleta de dados, mostrando alguns dos motivos que explicam a ascensão disso que nos acostumamos a chamar de direita conservadora e que teve expressões nacionais e internacionais com figuras como Bolsonaro, Trump, Le Pen. Confesso que não sei qual é o posicionamento pessoal dos dois autores sobre estes políticos e o movimento que eles representam. Mas também, pouco importa se são contra ou a favor. O que é realmente relevante é que eles conseguiram chegar a conclusões interessantes sobre os motivos por trás do surgimento destes movimentos ideológicos – conclusões que vão muito além daquela lista de palavras rasas que a então candidata à presidência dos EUA Hilary Clinton usou para descrever metade dos apoiadores de Trump: “racistas, sexistas, homofóbicos, xenofóbicos, islamofóbicos”.

Termos como estes simplificam movimentos sociais complexos. A própria Clinton, por exemplo, foi derrotada por Trump em 209 distritos americanos que haviam votado em Obama nas duas vezes em que ele concorreu ao cargo. Igualmente, Trump obteve o voto de um terço dos eleitores “latinos” do país, assim como o Brexit obteve mais ou menos a mesma quantidade de votos de grupos etnicamente minoritários da Inglaterra. Estes dados fazem parte da pesquisa de Eatwell e Goodwin e mostram como a palavra racismo e xenofobia não dão conta de explicar a ascensão da direita atual – na verdade, é possível que causem mais confusão do que esclarecimento.

Os dois autores até concordam que “alguns nacionais populistas enveredam no racismo e na xenofobia”, mas isso não deveria, segundo eles, “nos distrair do fato de que eles também tocam em ansiedades públicas abrangentes e legítimas”. Como bem explicam, estes eleitores questionam, por exemplo, “o modo em que as elites (culturais, políticas e mesmo econômicas) se tornaram cada vez mais isoladas das vidas e preocupações das pessoas comuns”. Estas pessoas também questionam “a erosão do Estado-Nação, que é visto como a única construção que foi capaz de organizar nossas vidas políticas e sociais”. Talvez mais significativo ainda, “elas questionam a capacidade das sociedades ocidentais de rapidamente absorver taxas de imigração (…) que não tem precedente na história da civilização moderna”, assim como questionam que tipo de sociedade estas e outras mudanças sociais levantadas por outros movimentos políticos criarão.

E ainda assim, pouco espaço houve na mídia para uma discussão aprofundada e uma tentativa genuína de entender as motivações por trás das preferências políticas desta parcela do eleitorado (o que não significa concordar com elas). Em 2017, por exemplo, pouco antes do segundo turno da eleição presidencial francesa que terminou com a vitória de Emmanuel Macron, a revista Vanity Fair publicou o artigo “Marine Le Pen pode tornar o fascismo mainstream?”. Que haja diversos motivos legítimos para se criticar as posturas e políticas públicas defendidas pela então candidata é uma coisa, mas banalizar um termo tão complexo de uma ideologia que devastou a Europa em um momento específico da história é algo completamente diferente. Não há dúvidas de que tal conteúdo ofendeu uma parte considerável da população que tinha seus motivos legítimos para votar em Le Pen.

E aqui vai o ponto final sobre esta reflexão: a despeito das possíveis e eventuais fake news, da ampliação da capacidade de ler e publicar qualquer coisa no ambiente digital e dos excessos nos diferentes posicionamentos políticos que se encontram por aí, o fato é que a postura da sociedade – ou parte dela – em relação às empresas de mídia tem muito mais a ver com os nossos posicionamentos editoriais do que com estes e outros fatores externos.

É verdade que uma PL sobre o assunto pode até tornar o ambiente digital mais salutar, embora os custos disso devam ser seriamente questionados. Mas mesmo que isso aconteça, nada indica que o público voltará a confiar plenamente em nosso trabalho. Portanto, se quisermos reconquistar o protagonismo que já tivemos, precisamos que a população volte a ver relevância em gastar o seu tempo lendo aquilo que publicamos. Nada disso será possível se antes não conseguirmos demonstrar que entendemos o que o nosso público realmente pensa sobre os assuntos que cobrimos diariamente.

Estou em Roma. Aqui, como aí no Brasil, há gente desencantada com o jornalismo e fascinada com as redes sociais. Acreditam, talvez ingenuamente, que a agitação do mundo digital vai resgatar a verdade conspurcada. Como se as redes fossem um espaço plural que se contrapõem a uma suposta hegemonia da mídia tradicional. Não percebem que os algoritmos tendem a criar redutos fechados, bolhas impermeáveis ao contraditório.

Sou apaixonado pelo jornalismo. Escrevo na imprensa tradicional e participo intensamente das novas mídias. Ambas são importantes. Não são excludentes. É preciso navegar com profissionalismo e seriedade.

O combate às fake news, demanda importante e necessária, não deve justificar censura, limitações à liberdade de expressão e prisões arbitrárias e ilegais. Quem vai dizer o que podemos ou não consumir? Quem vai definir o que é ou não fake news? O Estado? O Executivo? Os ministros do STF? Transferir para o Estado a tutela da liberdade é muito perigoso. Fake news se combatem não com menos informação, mas com mais informação, e informação mais qualificada.

A reinvenção do jornalismo, a recuperação do encanto, passa, necessariamente, pelo retorno aos sólidos pilares da ética e da qualidade informativa.

A crise do jornalismo está ligada à falência da objetividade e ao avanço do subjetivismo engajado e das narrativas divorciadas dos fatos. Quase sem perceber, alguns jornais sucumbem à síndrome da opinião invasiva. Ganham traços de redes sociais. Falam para si mesmos, e não para sua audiência.

É preciso apostar na informação. Sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeças para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada. Nas redações brasileiras, multiplicam-se as telas coloridas que trazem, minuto a minuto, indicadores e gráficos mirabolantes. Ao final de um dia de trabalho, qualquer editor está habilitado a responder quais foram as reportagens mais lidas. Mas e depois disso? Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. O ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada.

Ao longo deste ano, alguns jornalistas da grande mídia, sobretudo na cobertura de política, em nome de suposta independência, têm enveredado excessivamente pelo que eu chamaria de jornalismo de militância. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda seus próprios leitores.

Na verdade, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela internet.

É necessário perceber, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se um jornalismo menos “anti” e mais propositivo. Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores. Sabendo que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar nosso conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de reinvenção. Chegou a hora do encantamento.

Por Marcelo de Mattos Salgado

Apesar da história do fact checking – ou checagem de fatos – ainda ser disputada, as primeiras tentativas de formalizar a busca por precisão factual máxima nos jornais teriam acontecido por volta de 1920, nos EUA. Muito depois, já na era digital, a ideia de checagem passaria por sites norte-americanos como Snopes, criado em 1994 para, inicialmente, investigar lendas urbanas, além do Factcheck.Org (2003) e do Politifact (2007).

Já no Brasil de hoje, a materialização das incrivelmente autonomeadas agências de checagem de fatos aconteceu em 2015, sobretudo com Aos Fatos e Agência Lupa. A partir de 2016, de forma severamente guiada pela mídia e por outros atores de esferas intelectuais, emergiu a expressão “pós-verdade” — que até virou palavra do ano do dicionário Oxford. Também renasceu o termo fake news, rapidamente conectado às eleições dos EUA de 2016 e, quase que exclusivamente, a Donald Trump e à direita política nas redes digitais.

Outro alvo do suposto apelo às fake news e à pós-verdade foi, também em 2016, a vitória do Brexit — a saída do Reino Unido da União Europeia. O Brexit, assim como a eleição de Trump naquele ano, também fora algo a que as mesmas elites pensantes se opuseram amplamente. O motivo: costumam abraçar o globalismo, o qual muitas vezes chamam “teoria da conspiração” (embora seja cada vez menos razoável) ou confundem com globalização por burrice ou malícia.

As agências de checagem, mais do que um novo gatekeeper, são uma tentativa artificial e arbitrária de conferir, à canetada, um verniz de legitimidade ao jornalismo e tentar recuperar sua confiabilidade

O globalismo, grosso modo, enfraquece as democracias nacionais e reduz os poderes locais ao concedê-los a burocracias internacionais como a ONU (caso da OMS nesta pandemia) e a referida União Europeia, ambas fortemente conectadas a e pressionadas por fundações bilionárias. São estruturas formadas por pessoas que nunca receberam um voto sequer de um cidadão comum, pagador de impostos.

Mecanismo forte

Este foi o contexto em que nasceram e, até agora, prosperaram as agências de fact checking no mundo Ocidental. Mas, com a pandemia, o Ocidente está caminhando a passos largos em suas lições a respeito de hipertrofia estatal, autoritarismo e controle social, cada vez mais em fortes parcerias com as ainda mais agigantadas (e atrevidas) big techs, que são as gigantes digitais como Google (Alphabet) e Facebook.

É precisamente neste mecanismo que molda até mesmo as nossas mais essenciais percepções sobre a realidade que as agências de fact checking têm um papel básico e fundamental: determinar o que é verdade e o que é mentira. Mas há consequências muito mais graves a partir deste ponto inicial. Considere os efeitos cumulativos e automotivados deste tipo de sistema. Em outras palavras: ao longo de meses e anos, mais intensos serão os efeitos cumulativos das “checagens de fatos” a que nossa realidade e nós mesmos somos expostos.

Tudo começa pela simples escolha de quais veículos e notícias checar, o que faz do chamado fact checking muito mais uma luta por poder para escolher quem pode ou não falar e ser ouvido do que um apego honesto à busca pela verdade.

Em 2018, participei de um encontro informal com cerca de 30 colegas para debater o mercado editorial — com exceção de mim, uma elite de jornalistas, publicitários, professores, administradores etc. — em uma faculdade de renome na capital paulista. Tenho o hábito de fazer anotações (e as guardei). Em certo momento, a discussão abordou as agências de fact checking que inspiraram, na maior parte dos participantes, elogios e esperança.

Àquele grupo, eu disse — segundo minhas memórias e anotações — aproximadamente o seguinte: “As agências de checagem, mais do que um novo gatekeeper, são uma tentativa artificial e arbitrária de conferir, à canetada, um verniz de legitimidade ao jornalismo e tentar recuperar sua confiabilidade”. Lembro-me que o silêncio, com poucos sussurros, durou vários segundos até mudarem de assunto.

Desconfiança no jornalismo

Aliás, é bem documentado que a confiança do jornalismo continua em baixa nos EUA e no Brasil, mesmo com as medidas tomadas contra a pandemia forçando as pessoas a ficarem em casa. Segundo o Gallup, a confiança dos americanos na grande mídia vem sofrendo forte queda desde 1976, quando alcançou seu ponto mais alto: 72%. Em 2018, o índice chegou a 45% — após se recuperar de sua baixa histórica em 2016, quando desabou a apenas 32%.

Em 2020, a ausência de credibilidade já caiu de novo para 40%. No Brasil, o cenário não é diferente: o PoderData registrou queda da confiabilidade no jornalismo profissional em 2020. Apenas 18% consideram o jornalismo “muito confiável”, contra 30% que o classificam como “pouco” ou “nem um pouco” confiável e 50% que acham a imprensa brasileira “mais ou menos” confiável.

As agências de fact checking influenciam parcerias nacionais e internacionais entre checadores e big techs, os algoritmos das grandes redes e sites de pesquisa e, assim, a (in)visibilidade de conteúdo neles.

Retomo minhas palavras naquele encontro de 2018 e pergunto: seria o caminho da redenção tentar, por canetada, de maneira artificial, criar mais uma camada de burocracia jornalística com a intenção de determinar verdade e mentira?

Um dos elementos mais importantes — e raramente analisados — da checagem de fatos é quando ela alcança um resultado gelatinoso como “mostly true/false” (“na maior parte, verdadeiro/falso”), “subestimado” ou “verdadeiro, mas”. Tais termos mais dependem de manipulação seletiva da argila linguística e semântica pelo checador dos fatos do que, necessariamente, por aderência à realidade. E tudo começa pela simples escolha de quais veículos e notícias checar, o que faz do chamado fact checking muito mais uma luta por poder de quem segura o porrete verificador para escolher quem pode ou não falar e ser ouvido do que um apego honesto à busca pela verdade.

Ainda sobre “mostly true”, “subestimado” e afins: digo há mais de uma década que vagueza é poder. Quanto mais vaga e subjetiva a expressão usada — palavra, etiqueta, classificação e até lei — mais poder têm aqueles que as definem e, atenção, redefinem. No contexto atual, isto é particularmente verdadeiro não apenas para a checagem de notícias, mas para expressões incendiárias e emocionalmente carregadas como racismo, fascismo, genocídio e discurso de ódio. A própria fake news ainda não tem designação jurídica específica — não é crime definido em código algum no Brasil — mas já é usada em processos e até prisões.

Os autodefinidos checadores de fatos, que também são, em maioria, jornalistas de histórico e formação, cada vez mais decidem quem e o que aparece e some nas redes e buscadores, como Facebook e Google.

No fim das contas, os resultados do trabalho de fact checking — isto é muitíssimo importante — influenciam, desde parcerias nacionais e internacionais entre checadores e big techs, os algoritmos das grandes redes e sites de pesquisa e, assim, a (in)visibilidade de conteúdo neles. Em outras palavras, os autodefinidos checadores de fatos, que também são, em maioria, jornalistas de histórico e formação, cada vez mais decidem quem e o que aparece e some nas redes e buscadores, como Facebook e Google. O risco de censura, como vem acontecendo até com líderes de países, é muito real. Ficamos à mercê dos novos donos da verdade — mas, agora, com a etiqueta de grife de checagem de fatos. Que beleza.

Censura do bem

Sobre as parcerias entre agências de fact checking, big techs e fundações bilionárias: a expressão “follow the money” (“siga o dinheiro”) é um bom começo. Ela foi popularizada pelo filme “Todos os homens do presidente” (1976), em que trabalho jornalístico sério do Washington Post ajudou a derrubar o presidente Richard Nixon no escândalo de Watergate. Aliás, ironia adicional: é o mesmo Washington Post que apoiou oficialmente Joe Biden em 2020 e, poucos dias atrás, informou que não manterá, para além dos cem primeiros dias, nenhuma base de dados das checagens de fatos sobre o presidente Biden. No entanto, o jornal manterá a ácida e imensa base de dados de quatro anos que fez sobre a Presidência de Donald Trump (2016–2020). Significa que, a depender do Washington Post, a história terá vastos registros dos horrores do fascista laranja, mas pouca coisa sobre Biden, tratado pela mesma mídia já com tanta generosidade.

No dia de hoje, porém, recupero o “follow the money” para tão somente sugerir que o leitor pesquise as fontes de renda e os laços das principais agências de fact checking nacionais e internacionais com big techs como Facebook e Google, além de fundações internacionais das mais poderosas. Você ficará surpreso como certos nomes se repetem.

O Poynter Institute, por exemplo, opera o PolitiFact e criou a maior entidade internacional de checagem de fatos, à qual algumas agências brasileiras também são filiadas: a IFCN (International Fact-Checking Network). Entre os doadores do Poynter e, portanto, do IFCN, estão Pierre Omidyar (Omidyar Network) e George Soros (Foundation to Promote Open Society), além de — imagine só — Google e Facebook. Por fim, quem tiver curiosidade de conhecer o histórico bastante tendencioso de doações eleitorais de jornalistas (20162020), empresas e funcionários das big techs (20162020) nos EUA poderá fazer uma avaliação mais completa da situação. Pior disso tudo: mais e mais poder tende a ficar concentrado nas mãos de poucos.

Outra questão para reforçar o problema do enviesamento: empresas como Facebook, Twitter e YouTube (que pertence ao Google) aproveitam amplamente as vantagens comerciais e jurídicas de serem (supostamente) “plataformas neutras” — isto significa que, em teoria, não criam nem interferem em conteúdo. No entanto, todas têm forte inclinação política ou, mais precisamente, nas palavras do próprio Mark Zuckerberg em 2018, ao Congresso dos EUA, o Vale do Silício é “um lugar de viés extremamente esquerdista”.

A ideia de “censura do bem”, aliás, tomou forma em um documento do Google pouquíssimo conhecido, mas vazado em 2018, de 85 páginas. Seu nome já se mostrava auspicioso: “The good censor”, ou “O bom censor”. Este briefing confidencial admite abertamente uma “mudança na direção da censura”, mas para, entre outras coisas, “criar espaços bem ordenados de segurança e civilidade” (p. 70), que eles próprios determinam, obviamente. Tudo isto seria necessário porque, como informam na página 2, “a liberdade de expressão se tornou uma arma social, econômica e política”. É medonho assim.

A burocracia da verdade

A articulação de todos esses atores permite a criação e, em tempo, consolidação de um sistema em que as notícias feitas por jornalistas podem receber o carimbo de seus colegas checadores de fatos; em seguida, essas notícias se tornam ainda mais visíveis e relevantes nas redes das big techs, já que foram validadas antes. O processo passa por várias esferas culturais, inclusive pela propagação e adicional autenticação intelectual de grupos acadêmicos para, por fim, alcançar e integrar o discurso de políticos e juízes, inclusive os de cortes mais elevadas. Tais juristas passam a usar aquelas matérias jornalísticas como parte de um conjunto de provas e/ou argumentação jurídica. E tudo ganha uma circularidade “autolegitimadora”, uma capa de moralidade e legalidade difícil de ser atravessada: no lugar da lavagem de dinheiro, bem-vindo à lavagem de notícias ou, de forma mais geral, à lavagem de ideias. Deu para compreender a gravidade deste mecanismo?

A intenção afirmada abertamente por boa parte dessa burocracia da verdade (além das menos óbvias: ganhar muito dinheiro, poder e influência política) que reúne agências de fact checking, jornalistas em outras posições, big techs, políticos, juristas e outros membros da elite intelectual é bela — ou assim muitos pensam. Querem higienizar o debate público (algo com precedentes históricos catastróficos) de discurso de ódio, robôs e fake news, que aqueles iluminados e seus apoiadores definem — e redefinem — conforme sua vontade. Quem sabe, ainda teremos um Ministério da Verdade?

Não seria uma ideia original, mas muitos abraçariam sua concretização com gosto — sob um nome eufemístico, bem menos óbvio e muito mais palatável, provavelmente.

Este texto foi escrito a partir de alguns trechos de outro artigo do autor.

Poucos personagens tiveram maior repercussão na história dos Estados Unidos – e porque não dizer na história mundial -, do que Abraham Lincoln (1809-1865). Décimo sexto presidente norte-americano, Lincoln é tido como um dos principais idealizadores da democracia moderna e é definido como um dos maiores estadistas de todos os tempos por sua visão, pela capacidade de propor soluções, por sua inteligência emocional e pelo poder conciliador.

Acontece que o jovem advogado Abraham não indicava que daria espaço no futuro ao moderado Lincoln. Ainda antes de cursar a faculdade de Direito, o rapaz desenvolveu o hábito de escrever poemas e cartas ridicularizando e difamando seus desafetos. Em 1842, utilizando-se do codinome “Rebecca”, ele publicou um editorial com mentiras, ou meias-verdades, em um pequeno jornal de uma cidade do Estado de Illinois, zombando de um belicoso político irlandês.

Fake News. Nunca gostei do termo pela confusão, proposital ou não, que ele pode gerar na análise de um conteúdo.

Sensível e orgulhoso, o ofendido político descobriu o autor do texto e o desafiou para um duelo do qual somente o vencedor sairia vivo. Lincoln ficou apavorado. Era contra duelos, mas não tinha alternativas, uma vez que a recusa mancharia a sua honra para o resto da vida.

Na data marcada, os dois oponentes já estavam no local e …ufa! – no minuto final, a turma do deixa-disso entrou em cena suspendendo a peleja. A partir deste dia, Abraham Lincoln nunca mais escreveu uma linha sequer para insultar, difamar, ridicularizar ou contar mentiras sobre qualquer pessoa.

Elevar uma mentira, uma falsificação ou, para ficar no termo da moda, uma “fake” à condição de notícia – ou “news” – é contraditório e só estimula a confusão de quem seriam os agentes responsáveis pela produção de conteúdos inverídicos.

De certa maneira, o editorial de Lincoln, nos dias de hoje, poderia ser enquadrado no que convencionamos chamar de Fake News. Nunca gostei do termo pela confusão, proposital ou não, que ele pode gerar na análise de um conteúdo.

O princípio de uma notícia é exatamente basear-se em fatos. Portanto, para ser “news” é preciso ancorar-se em “facts”. Elevar uma mentira, uma falsificação ou, para ficar no termo da moda, uma “fake” à condição de notícia – ou “news” – é contraditório e só estimula a confusão de quem seriam os agentes responsáveis pela produção de conteúdos inverídicos.

Por exemplo, neste exato momento se você leitor acessar o site do portal Brasil Escola, uma referência importante de pesquisa para estudantes e professores de todo o país, e procurar “o que são Fake News?”, você verá a seguinte declaração no primeiro parágrafo:

“Fake News são notícias falsas publicadas por veículos de comunicação como se fossem informações reais. Esse tipo de texto, em sua maior parte, é feito e divulgado com o objetivo de legitimar um ponto de vista ou prejudicar uma pessoa ou grupo (geralmente figuras públicas)”.

Veículos de comunicação não produzem textos com o objetivo de difamar, desqualificar ou subverter a verdade. Quem faz isso não faz “Fake News”. Faz mentira, difamação e crime pelo qual deve ser investigado, julgado e responsabilizado.

Tal definição coloca em um mesmo balaio empresas jornalísticas – a quem devidamente cabe a classificação de veículos de comunicação -, sites noticiosos que vivem a soldo de determinados grupos militantes ou criminosos digitais. Estes entes devem ser separados e tratados de maneira diametralmente oposta às empresas de mídia.

Veículos de comunicação não produzem textos com o objetivo de difamar, desqualificar ou subverter a verdade. Quem faz isso não faz “Fake News”. Faz mentira, difamação e crime pelo qual deve ser investigado, julgado e responsabilizado.

Acontece que o jornalismo profissional, por mais correto e cuidadoso que possa ser, não está livre de falhas. (Vale um parêntese aqui para tratar deste outro termo maluco criado nestes tempos de desinformação, uma vez que, se é jornalismo, então é sempre profissional, qualquer outra coisa não é jornalismo).

Portanto, desculpem a audácia, mas deixo aqui a provocação para adotarmos novas nomenclaturas. De agora em diante sugiro chamarmos “Fake News” de “Mentira”, “Jornalismo Profissional” de “Jornalismo” e “Erro Jornalístico”, caso queiram, de “Mistake News”.

Adotando estas definições conceituais, deixamos de propagar rótulos que aviltam a produção jornalística, indispensável ao estado democrático e à garantia das liberdades individuais, nos afastando do drama existencial de Hamlet, uma vez que já está mais do que na hora de nos libertarmos do dilema “Fake or News”.

Não é preciso trabalhar com redes sociais há muito tempo para lembrar dos incontáveis anúncios que as plataformas fizeram com o intuito de manter seus newsfeed longe das fake news. Além de destinar, eventualmente, gordas verbas de PR para veículos, empresas como Facebook, Twitter e mesmo o Google assumiram o papel de social justice warrior. Além de abraçarem causas ligadas às minorias identitárias, chamaram a si a tarefa de lutar contra a desinformação em seus ambientes. Nada mais justo… quanto “insustentável”.

Algumas das iniciativas…

… em novembro de 2020, o Twitter passou a notificar usuários que curtissem conteúdos sinalizados como “enganosos”;

… em maio de 2020, o Facebook comunicou a criação de um “conselho internacional independente” – com direito a ganhador de Nobel da paz – que decidiria o que os usuários poderiam ver ou não;

… em novembro de 2020, o Twitter revelou plano para “conter a desinformação” nas eleições norte-americanas;

… em outubro de 2020, o Twitter anunciou a chegada do Birdwatch, em teste desde agosto daquele ano, uma possibilidade de os usuários contextualizarem tweets que trariam mensagens reportadas como falsas;

… em setembro de 2020, o Twitter colocou no ar uma funcionalidade que alertava os usuários para lerem um conteúdo linkado antes de compartilharem. A ferramenta dizia: “As manchetes não contam toda a história“;

… em outubro de 2020, TikTok e Twitter fecharam parceria com o Tribunal Superior Eleitoral para “evitar fake news” nas eleições municipais brasileiras;

… um ano antes, em outubro de 2019, o Facebook lançou uma aba exclusiva para notícias, na intenção de “conter as fake news”;

… em dezembro de 2019, uma ferramenta do Instagram se propôs a “filtrar as fake news”;

… em abril de 2019, o Facebook assinou acordo com uma série de redações brasileiras que colaborariam com o programa global de fact cheking da rede;

… esse programa, aliás, já existia desde 2016 e em 2018 passou a contar com agências verificadoras de informação, como a Lupa e a Aos Fatos;

… além de outras tantas iniciativas (se você lembrar de mais alguma, por favor, conte nos comentários!).

manchetes fake news social media

Segundo o próprio Facebook, medidas como as parcerias de fact checking resultaram na diminuição de 80% das fake news nos Estados Unidos. “Estamos comprometidos em combater a disseminação de notícias falsas no Facebook“, anunciava em 2018 a líder de parcerias com veículos de mídia para LatAm.

Pouco mais de dois anos depois, em meio à ameaça planetária de sofrer regulação em diversos países, as social big techs começam a pedir socorro.

Facebook quer que Estado se responsabilize pelo conteúdo

O head do Facebook no Canadá, Kevin Chan, declarou recentemente que não é mais sustentável as empresas de social media autorregularem os conteúdos que circulam em seus ambientes e que é tempo de os governos entrarem na jogada.

“Neste momento, são empresas privadas – como o Facebook – que decidem o que pode ou não ser veiculado no Facebook e achamos que muitas pessoas não estão de acordo com isso. Elas querem políticas públicas onde haja responsabilidade pública legítima e democrática. Então, se os legisladores puderem acordar onde esta linha limítrofe deve ser traçada e então impô-la a nós, isso certamente seria bem-vindo.”

Tomemos o tema com calma…

Conteúdo impróprio, como calúnia (grosso modo, fake news), injúria e difamação (discurso de ódio), já é legalmente proibido e amplamente rejeitado em regimes democráticos. Quem sempre flertou com os limites entre a informação publicável e a ofensa foi o humor, mas o jogo de cena que as big techs têm feito com veículos jornalísticos perdeu a graça há muito tempo.

Empresas jornalísticas estão duplamente em desvantagem em relação às redes sociais: perdemos a publicidade para elas e ainda trabalhamos de graça, alimentando perfis com conteúdo profissional que sequer convertem em visitas aos nossos produtos digitais. A pergunta é: qual o objetivo de veículos continuarem alimentando seus perfis com chamadas de conteúdo? O esforço realmente compensa?

Sob a chancela do livre mercado, as redes sociais se ergueram sobre um modelo de negócios sabidamente predatório aos veículos jornalísticos. Olhemos para o ecossistema econômico global, em que diferente indústrias coexistem, e notamos que o transporte por aplicativo erodiu o mercado de táxis, assim como o AirBnB estremeceu a indústria hoteleira. Mas em nenhum desses casos o negócio inovador se alimentaria dos antecessores: Uber prescinde táxis e AirBnB não se estabeleceu usando hotéis. Já as redes sociais, ainda que não dependam do conteúdo jornalístico, souberam usá-lo muito bem para não orkutizar.

Veículos podem evitar que plataformas se “orkutizem”

Muito já se especulou sobre “o que seriam das redes sociais sem conteúdo produzidos por profissionais” e a resposta é esta: seriam um Orkut. Vale dizer que o Orkut e redes contemporâneas ainda pouco habitadas por marcas jornalísticas (como Twitch e TikTok) guardam a preciosidade do diálogo interpessoal com dimensão midiática, isto é, indivíduos se unem ao redor de interesses compartilhados e trocam informações de extrema relevância particular. Mas esteja seguro de que poucos acessam tais redes com a intenção de ver notícias, como fazemos com Facebook, Twitter, YouTube e mesmo Instagram ou WhatsApp.

É importante lembrar da insistência com que as social tech giants afirmam que não são veículos jornalísticos e nem querem ser – elas sabem que isso implicaria assumir a responsabilidade sobre algo que não conseguem gerenciar: o conteúdo.

É bem verdade, porém, que as plataformas onde os veículos ainda não operam abrigam toda sorte de material, conteúdo vulgar – quando não ilícito – e levam seus próprios usuários a se perceberem cercados pela desfaçatez humana. Àqueles que não lembram, foi daí que se popularizou o termo pejorativo orkutizar. O Orkut orkutizou quando foi adotado massivamente e povoado por qualquer conteúdo (sem filtros e sem a presença de veículos jornalísticos). Foi a partir deste momento que o Orkut entrou em declínio.

Sobram pesquisas mostrando quanta gente usa as principais redes sociais como fontes de notícias. A expressão social media as a news source chega ter um verbete da Wikipedia. Outro indicativo do quanto as redes precisam do conteúdo jornalístico em seus newsfeed são os projetos de parceria que Google e Facebook oferecem a redações mundo afora, amplamente sustentados no discurso do quanto essas big techs acreditam em um jornalismo de qualidade e querem contribuir para que a indústria editorial se fortaleça!

Ocorre que Google News Initiative e Facebook Journalism Project estão longe de contornar o estrago que as big techs causaram aos veículos. As empresas jornalísticas, aos poucos, acordam para esta realidade. Daí surgem, pelo menos, dois posicionamentos:

(1) Não, as big techs não devem ser responsabilizadas pela crise financeira nas redações

Neste caso vale lembrar que veículos criaram o hábito de compartilhar seus conteúdos gratuitamente nas redes com a intenção clara e válida de aumentar suas audiências e, com isso, fazer crescer o faturamento publicitário. Estávamos enganados – é preciso reconhecer. A audiência já não vem mais sem boost post e o faturamento publicitário migrou para os newsfeed.

Jogar a responsabilidade sobre o conteúdo para o poder público significa onerar ainda mais o Estado – consequentemente, o cidadão -, atribuindo a governos inaptos uma tarefa crucial para manter estas plataformas operantes. Tanto a máquina estatal quanto as administrações públicas são inaptas a dar limite para os conteúdos das redes sociais simplesmente porque desconhecem os processos, porque os algoritmos são opacos e inacessíveis, porque o esforço de fiscalização é tão inviável que os próprios donos das plataformas já não conseguem mais lidar com o peso que isso representa.

Na realidade, portanto, empresas jornalísticas estão duplamente em desvantagem em relação às redes sociais: perdemos a publicidade para elas e ainda trabalhamos de graça, alimentando perfis com conteúdo profissional que sequer convertem em visitas aos nossos produtos digitais (sites, apps, assinaturas, whatever). A pergunta é: qual o objetivo de veículos continuarem alimentando seus perfis com chamadas de conteúdo? O esforço realmente compensa?

Não se trata de abandonar as redes sociais; apenas repensar o jeito como veículos se fazem presentes nas plataformas, de maneira que faça sentido tanto para eles, quanto para o público, quanto para as próprias big techs.

Àquelas redações que ainda registram vantagem significativa de negócio ao publicar seus links nas redes, não há do quê responsabilizar as big techs. Quando a troca é justa, cada um faz a sua parte do negócio: veículos se comprometem com a produção de conteúdo e redes sociais se encarregam da distribuição. No entanto, sabemos que isso não é uma realidade.

As grandes plataformas se manteriam sem os veículos? Claro! E o risco de orkutizar e entrar em decadência? Isso se resolve ao tomar responsabilidade pelo conteúdo circulante – algo que as empresas de redes sociais, aparentemente, vêm tentando, sem sucesso, e começam a entregar os pontos. É importante lembrar da insistência com que as social tech giants afirmam que não são veículos jornalísticos e nem querem ser – obviamente, pois isso implicaria assumir a responsabilidade sobre algo que elas não conseguem gerenciar.

Jogar a responsabilidade sobre o conteúdo para o poder público significa onerar ainda mais o Estado – consequentemente, o cidadão -, atribuindo a governos inaptos uma tarefa crucial para manter estas plataformas operantes. Tanto a máquina estatal quanto as administrações públicas são inaptas a dar limite para os conteúdos das redes sociais simplesmente porque desconhecem os processos, porque os algoritmos são opacos e inacessíveis, porque o esforço de fiscalização é tão inviável que os próprios donos das plataformas já não conseguem mais lidar com o peso que isso representa.

As redes sociais se tornaram monstros, gigantes incontroláveis. Lidar com a humanidade, em tudo de bom e ruim que há nela, definitivamente, não é coisa para moleques de irmandades acadêmicas.

(2) Sim, as big techs devem ser responsabilizadas pela crise financeira nas redações

Uma forma de resolver o dilema das redes com as empresas jornalísticas é adotando a proposta – tão lúcida quanto transformadora – que vem sendo apresentada pelo presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Marcelo Rech. Ele próprio conta no vídeo abaixo (aos 59’36”):

“Vivemos um momento em que as grande plataformas digitais, em seus processos de construção de negócio, produzem uma poluição social. Não é a intenção delas, mas a poluição social – bolhas, fake news, desinformação, discurso de ódio – é o lado obscuro, o efeito colateral das redes sociais de forma geral. Quem tem a capacidade, a habilidade, a competência para fazer a limpeza dessa poluição é o jornalismo profissional. Tenho advogado que as grandes plataformas que produzem essa poluição social paguem uma taxa de limpeza. Quem limpa é o jornalismo profissional. A atividade do jornalismo deve ser remunerada, em parte, pelas plataformas de redes sociais. É como se elas estivessem produzindo uma fumaça ou despejando um produto poluente num rio e alguém tem a capacidade de fazer a limpeza desse rio. Nós fazemos a limpeza desse rio. É preciso criar agora uma taxa de limpeza da poluição social produzida pelos gigantes digitais.”

Marcelo Rech, presidente da ANJ

Como fazer isto é algo amplamente discutível. Mas o propósito maior inauguraria uma nova era para o jornalismo, de algum senso de justiça e ordem ao caos. Na proposta de Rech, qualquer tentativa das redes sociais em envolver governos na gestão de seus produtos, com a esperança de conter o movimento de regulação e taxação, resultaria ineficaz.

Veremos (ou faremos) isto acontecer?

Meu primeiro contato com a tecnologia blockchain foi em uma visita ao escritório da Civil Project, em Nova York. A Civil tinha por objetivo criar uma rede descentralizada de produtores de conteúdo independente e conectá-la por blockchain aos consumidores de notícias. A plataforma também pretendia ser livre de anúncios. É de conhecimento geral que a publicidade ainda é a principal viabilidade econômica para o sustento de empresas jornalísticas. Mas este panorama está mudando…

A Civil Project iniciou suas atividades em 2017, quando o mercado de criptografia começava a tomar corpo, mas terminou no ano seguinte por não conseguir atingir sua meta mínima de subsistência de US$8 milhões anuais.

Blockchain é uma solução com potencial para a indústria do jornalismo, já que permite lidar com dados que precisam ser mantidos sob controle e de forma colaborativa.

Atualmente, a Civil vem tentando seguir na plataforma ConsenSys, através de uma doação de US$5 milhões deste consórcio. Também firmou parceria de licenciamento de conteúdo com a Associated Press (AP), na qual a AP entregaria seu conteúdo, incluindo notícias nacionais e internacionais à Civil, para que as agências de notícias pudessem acessá-las nesta plataforma.

Foi uma das primeiras tentativas e que infelizmente não se concretizou. Mas, então, ainda seria viável aplicar ao jornalismo a tecnologia baseada em blockchain?

Uma pesquisa realizada pelo Tow Center for Digital Journalism, da Universidade de Columbia, em Nova York, indica que a tecnologia baseada em blockchain é uma solução com potencial para uma indústria do jornalismo, já que permite lidar com dados que precisam ser mantidos sob controle e de forma colaborativa.

A ideia seria construir uma plataforma onde qualquer leitor interessado poderia assinar um serviço baseado em criptomoeda para checagem de informação jornalística.

Para aplicar essa tecnologia em nossa indústria, precisaríamos das instituições (veículos de comunicação, governos e empresas), de pessoas (clientes, leitores e assinantes) e de mineradores (que cuidariam das transações em criptomoeda).

Blockchain a serviço da credibilidade

O jornalismo tem estado sob forte crítica mundo afora. Mais da metade dos internautas está preocupada com a capacidade em separar o que é real e falso na rede, segundo o relatório de notícias digitais do Reuters Institute. A pesquisa também revela que o nível médio de confiança no noticiário tem caído em todo o mundo e menos da metade dos entrevistados afirma confiar nos meios de comunicação que utilizam.

As redes sociais continuam crescendo exponencialmente, mas seguem sem saber lidar com um problema básico: a incapacidade de impedir adequadamente a disseminação de desinformação. No mundo digital, a linha entre o real e a ficção é cada vez mais tênue, sutil.

Para tentar combater a disseminação de notícias falsas, as chamadas ‘fake news’, a ideia de usar blockchain no jornalismo seria construir uma plataforma onde qualquer leitor interessado poderia assinar um serviço baseado em criptomoeda para checagem de informação jornalística.

O sistema poderia checar não só textos, como também imagens, vídeos e áudios. Estes dados seriam indexados por blockchain, que é imutável, e poderia ser incorporado a qualquer material compartilhado, certificando se um fato seria verdadeiro ou não.

Uma alternativa de viabilidade econômica para o projeto seria ele ser patrocinado pelas próprias gigantes da tecnologia, principais interessadas em diminuir o impacto da disseminação de notícias falsas.

Neste serviço, qualquer tipo de informação jornalística poderia estar armazenada com segurança e ser acessada novamente, como a data e a hora de publicação de um conteúdo (texto ou imagem), a origem das informações contidas em uma reportagem, como ela foi compartilhada, como foi a reação dos leitores ao conteúdo, entre outras coisas.

Estadão foi acusado de difundir fake news. O blockchain teria ajudado a desmentir a acusação?

Um exemplo real de necessidade de checagem de informação foi o caso em que o Estadão foi acusado de propagar notícia falsa ao divulgar uma foto de praia lotada no Rio de Janeiro.

Outro estudo também revela, no relatório anual da Freedom House, que o público vem perdendo confiança na mídia profissionalizada. Pelo 14º ano consecutivo, o nível de liberdade de imprensa vem caindo em todo o mundo, e não é incomum ver, seja em países pobres ou ricos, forças políticas tentando insistentemente desacreditar veículos de mídia profissional. 

O aumento do medo e da violência também estão crescendo na atuação jornalística, à medida em que a liberdade de imprensa cai, como mostram o relatório do Repórteres sem Fronteiras (RSF). Dos 180 países analisados, somente 8% consideram o clima de mídia satisfatório.

Buscar uma solução que fortaleça o trabalho do jornalismo, de forma a tentar neutralizar o impacto da disseminação de desinformação, ajudaria a melhorar as condições de atuação dos profissionais e a fortalecer os laços democráticos e de liberdade de expressão tão importantes para uma sociedade mais justa.


As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.

A reputação está presente em nosso cotidiano, em tudo o que consumimos, de produtos e serviços aos relacionamentos pessoais e profissionais. É o que norteia nossas escolhas com base em valores morais e éticos, em credibilidade, em idoneidade, em qualidade. São elementos que, no conjunto, podem ser resumidos em um estado de confiança, de segurança em relação ao que investimos tempo, atenção ou dinheiro.

Ela é construída em longo prazo em uma base consistente de boas práticas que forja a estrutura que a permeia e cria um legado essencial de sobrevivência, especialmente em momentos de crise.

No que tange ao jornalismo e à imprensa em geral, a reputação tem sido balizadora importante no consumo das notícias nos últimos tempos, tendo a chance de resgatar públicos tragados pela websfera e pelos grupos de WhatsApp voltados à disseminação de fake news. E quando falamos em fake news, entendamos que compreendem não apenas a informação falsa, criada propositalmente para a conversão dos públicos aos interesses de quem a produz, mas também de informações imprecisas, sem fundamentos, sem bases concretas ou analíticas por quem a reproduz.

No efeito cascata que começa pela queda de audiência, caem também anunciantes e empregos nas redações, em um ciclo vicioso em que se entregar às mesmas armadilhas desonestas usadas pelo inimigo para sobreviver é o mesmo e único caminho para submergir.

Entra também neste cenário a pós-verdade, aquela em que as bases podem ser verídicas, mas são descontextualizadas, distorcidas nos mesmos moldes de interesses das fake news.

A verdade é que a oferta de consumo instantâneo de informações cada vez mais rasas pelas mídias digitais e, particularmente, pelas redes sociais, ajudadas por algoritmos viciados e comprados, tem se configurado em uma concorrência desleal na disputa pela atenção e retenção dos públicos pela imprensa.

No efeito cascata que começa pela queda de audiência, caem também anunciantes e empregos nas redações, em um ciclo vicioso em que se entregar às mesmas armadilhas desonestas usadas pelo inimigo para sobreviver é caminho certo para submergir.

O momento da virada para o jornalismo

Mas voltando ao ponto sobre a reputação ser a balizadora do consumo, vemos aumentar as oportunidades para o jornalismo se apresentar na separação do joio do trigo no campo da informação. E ele curiosamente se dá em meio ao aumento da polarização dos públicos sob todas as esferas editoriais, mas especialmente sob a pauta política e o que se desdobra a partir dela pelas pautas de saúde, educação, segurança, economia…, ou seja, tudo o que impacta os fatores de subsistência e desenvolvimento do indivíduo e da sociedade.

No Brasil e no mundo vemos todas essas pautas mais do que entrelaçadas atualmente, em meio ao efeito sistêmico da pandemia pela covid-19 e a propagação de informações em torno delas, nas mídias tradicionais e nas informais. 

A overdose de notícias conflituosas de todos os lados passou a gerar um efeito colateral tóxico, onde o filtro para o indivíduo se manter minimamente informado – e são – tem como base justamente a credibilidade das fontes, ou seja, a reputação de quem produz a notícia.

Se trata de um consumidor paradoxalmente mais crítico, que busca fontes opinativas e a personificação da notícia, para que possa interagir e não apenas digerir a informação.

Assim, o jornalismo que vem se construindo com uma base investigava séria e idônea, apresentando notícias com base nos preceitos da origem da imprensa, consegue resgatar o valor financeiro de seus conteúdos a partir do valor da sua prestação de serviço.

É um momento ainda de descobertas e reformulações de modelos, uma busca do equilíbrio pelo conteúdo crível e informativo agregado às formas dinâmicas do consumo e do consumidor moderno, tecnológico, hiper conectado e condicionado ao ultra processado. 

Se trata de um consumidor paradoxalmente mais crítico, que busca fontes opinativas e a personificação da notícia, para que possa interagir e não apenas digerir a informação.

Particularmente sobre este quesito, ao agregar a humanização na sua construção jornalística, os veículos e os jornalistas precisam estar ainda mais atentos ao desafio de equalizar suas pesquisas pelas fontes opostas de uma mesma pauta e ao espaço e caráter do registro dado a elas. Pois é justamente aí que é percebida e atestada a verdade nua e crua sobre a sua reputação e, consequentemente, todo o resultado que ela proverá.


As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.

Em palestra de encerramento do Seminário Internacional de Liberdade de Expressão, em São Paulo, há exatos 8 anos, o então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ex-ministro Carlos Ayres Britto, fez uma vibrante defesa da liberdade de imprensa e de expressão.

Eu fui, juntamente com o jurista Ives Gandra Martins, um dos promotores do evento. Eram tempos de governos petistas. Surgiam, aqui, ali e acolá ameaças às liberdades. O seminário teve um papel importante na reafirmação da defesa de valores inegociáveis: liberdade de imprensa e de expressão.

Ayres Britto foi contundente. Seu discurso não deixou margem para interpretações ambíguas: “Onde for possível a censura prévia se esgueirar, se manifestar, mesmo que procedente do Poder Judiciário, não há plenitude de liberdade de imprensa”. Para o então presidente do STF, o confronto de interesses entre o livre exercício do jornalismo e o direito à privacidade, por exemplo, “inevitavelmente” se dará. Brito garantiu, porém, que a nossa Carta Magna estabelece a prioridade à livre expressão ante o direito à privacidade: “A liberdade de imprensa ocupa, na Constituição, este pedestal de irmã siamesa da democracia”.

Eu jamais podia imaginar que passados poucos anos as ameaças às liberdades viriam não dos petistas, mas de importantes instituições da República: o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

O projeto dessa Lei da Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet (ou “Lei das Fake News), que acaba de ser aprovado pelo Senado por 44 votos favoráveis e 32 contrários, e vai agora para apreciação da Câmara dos Deputados, é um exemplo da corrosão programada da liberdade de expressão.

O Congresso, aparentemente, pretende proteger a sociedade do mau uso da internet. Muita desinformação e falsidade explícita corre solta no mundo digital. É um fato. Mas o remédio para combater os crimes e abusos já existem: estão previstos há 80 anos no Código Penal Brasileiro, com penas de multa, detenção ou reclusão. São a calúnia, a difamação e a injúria. Existe, além disso, um leque de punições cíveis para os que causem danos por dizer mentiras, fazer insultos ou espalhar falsidades. Como salientou recentemente J.R. Guzzo, “por que, então, criminalizar o que está nas redes sociais, quando tudo que se pode fazer de mal pela palavra já é crime?”

O objetivo oculto da “Lei das Fake News” é amedrontar, censurar a liberdade de expressão e de opinião e criar uma couraça protetora para os representantes do mundo político.

É o mesmo, rigorosamente, que o STF busca com o seu inquérito para apurar “atos contra a democracia”. Na contramão da Constituição, assumindo o papel de polícia, promotor e juiz da própria causa, a Corte Suprema vai minando as garantias básicas do cidadão – da liberdade de expressão ao direito de defesa.

O Supremo Tribunal Federal não tem histórico de combate à criminalidade do andar de cima. Alguém se lembra de algum delinquente da chamada “elite” política que tenha sido condenado pelos ilustres ministros do STF? Ninguém. No entanto, armados de uma celeridade incomum investem contra os “perigosíssimos criminosos” da internet. Gente presa por determinação de um ministro da Corte Suprema, e sem culpa formada, escancara uma face perigosa do autoritarismo judicial.

Não defendo, por óbvio, a irresponsabilidade nas redes sociais. Afinal, tenho martelado, teimosa e reiteradamente, que a responsabilidade é a outra face da liberdade.

Soma-se a tudo isso o desmanche da Operação Lava Jato. Na verdade, a guerra declarada da Procuradoria Geral da República (PGR) com a força-tarefa de Curitiba está apenas começando. Vem aí o desmonte de uma operação anticorrupção que ganhou fama mundo afora, mobilizou o Brasil e, com a prisão de um ex-presidente, ex-governadores, ex-presidente da Câmara e os maiores empresários do País, gerou a esperança de que a lei valeria para todos. O sonho do fim da impunidade começa a ruir.

É claro que eventuais excessos da Lava Jato devem ser corrigidos. É evidente que as redes sociais não podem ser um território sem valores. Mas nada disso será alcançado por meio de interesses corporativos que, no fundo, pretendem apenas consolidar privilégios que confrontam a cidadania.

Não defendo, por óbvio, a irresponsabilidade nas redes sociais. Afinal, tenho martelado, teimosa e reiteradamente, que a responsabilidade é a outra face da liberdade. Não sou contra os legítimos instrumentos que coíbam os abusos da internet. Mas eles já existem e estão previstos na legislação vigente, sem necessidade de novas intervenções do Estado.

O que fazer quando a política se transforma em plataforma de banditismo? O que fazer quando políticos se lixam para a opinião pública? Só há um caminho: informação livre, independente e plural. E sem qualquer forma de controle ilegítimo, tanto na imprensa tradicional quanto nas redes sociais. Não se constrói um país com mentira, casuísmo e esperteza. Não se levanta uma democracia com a mesma ferramenta autoritária usada pela ditadura: a censura. Controles e regulação são apenas eufemismos que ocultam o que, de fato, se pretende: uma Nação ajoelhada diante de comportamentos autoritários. Você, amigo leitor, pode e deve se manifestar. Com respeito, mas com firmeza. O Brasil não quer isso.