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O que diz nosso senso comum sobre o posicionamento ideológico da direita e da esquerda em relação à imprensa? Estes grupos aprovam ou reprovam o que fazemos, leem ou não leem o que publicamos, concordam ou não concordam com o que escrevemos?

Algo que ajuda a entender estas questões é uma recente pesquisa publicada pelo YouGov que perguntou aos americanos se eles confiam ou não confiam nas empresas de mídia. Os dados dizem respeito a nada menosdo que 56 veículos presentes nos EUA, dentro os quais estão alguns dos mais reconhecidos do mundo, como o New York Times, a revista Time, Forbes, The Economist e a rede BBC, para citar apenas alguns. Figurões, de fato, que desfrutam de uma longa tradição no jornalismo.

Ainda assim, quem realmente conquistou o primeiríssimo lugar da pesquisa foi o The Weather Channel – o canal do tempo americano.

No primeiro momento, esta constatação pode trazer algum desânimo. Mas há de se convir que o dado talvez não seja lá muito surpreendente considerando que o canal esteve distante de qualquer polêmica em função da própria natureza de seu conteúdo. Todos os outros veículos presentes na pesquisa tratam, de um jeito ou de outro, da rotina política – o assunto que mais tem dividido as pessoas e resultado em fadiga em relação às notícias nos últimos anos.

Em mais detalhes

Toda a polarização que observamos no cotidiano e nos embates que se passam nas redes sociais se refletem na opinião em relação às empresas de mídia. A CNN americana, por exemplo, assim como New York Times, fez um combate ferrenho a Donald Trump no período em que foi presidente dos EUA. Não à toa, no recorte da pesquisa que apresenta o grau de confiança por preferência eleitoral, estes são dois dos três veículos que mais dividiram Republicanos e Democratas, juntamente com a MSNBC. Portanto, se a CNN, a MSNBC e o New York Times possuem uma ótima pontuação de confiança entre Democratas (55, 54 e 53 pontos respectivamente), a pontuação delas entre Republicanos é extremamente negativa (-37, -37 e -30 pontos).

São pouquíssimos veículos que tem um grau de aprovação similar entre estes dois grupos. Novamente, o The Weather Channel desfruta de muita confiança entre eleitores da direita e da esquerda. Outros que não dividem muito Republicanos e Democratas são empresas de mídia menores, como o The Daily Caller (diferença de 12 pontos entre cada grupo), The Washington Examiner (11 pontos), The Federalist (10 pontos) e o Infowars (4 pontos).

Além disso, o que a pesquisa nos mostra é que mesmo entre os eleitores médios que não apresentaram uma preferência partidária, o grau de confiança nas empresas de mídia não é muito alto. Para os veículos tradicionais, o que pode explicar isso é a própria polarização e a fadiga em relação às polêmicas políticas que incomodam justamente aqueles que não são politizados (algo que foi apontado pela Reuters em relatório de 2022).

Mas política não explica tudo. No caso dos canais menores como os já citados acima, este baixo nível de confiança pode ser explicado pelo simples fato de não serem amplamente conhecidos ou não possuírem uma longa tradição jornalística (convenhamos, é difícil confiar naquilo que não conheço ou em um veículo que ainda não viveu tempo o suficiente para conquistar credibilidade).

 

Há algo de peculiar na direita

Um argumento caricato – e frequentemente utilizado – para explicar por que os Republicanos (e pessoas conservadoras em geral) não confiam nas empresas de mídia tradicionais é que elas têm sido fortemente impactadas por fake news, criando um eleitorado muitas vezes conspiracionista e avesso ao que publicamos.

Outra explicação que parece mais razoável (e também produtiva) é que a maior parte dos veículos presentes na pesquisa do YouGov tem conseguido falar a língua do eleitorado Democrata com muito mais sucesso do que a do eleitorado Republicano. Isso é algo presente no livro “Nacional populismo – a revolta contra a democracia liberal”, em que os pesquisadores Roger Eatwell e Matthew Goodwin identificam como o eleitorado conservador (presente não apenas nos EUA) foi colocado à margem da discussão pública. Portanto, ao sentirem que o seu discurso e valores não são representados ou mesmo minimamente respeitados por diversas instituições (o jornalismo sendo uma delas), eles se revoltam contra toda esta classe falante. Parte deste argumento parece fazer sentido, embora não explique tudo aquilo que a pesquisa identificou.

Talvez o ponto mais curioso de se observar é que mesmo os veículos mais identificados com a direita não conseguiram uma pontuação de confiança equiparável ao que muitos veículos obtiveram perante o eleitorado Democrata. A Fox News, frequentemente associada ao que há de mais “direitista” por aí, obteve uma média de 41 pontos de confiança com os Republicanos. Embora seja um bom número, está abaixo da média de 50 ou mais pontos que NBC, Time, BBC e Washington Post – para citar apenas alguns – obtiveram entre Democratas.

Um dos casos mais interessantes de citar é o da revista National Review, que foi fundada em 1955 por William Buckley Jr., um dos mais influentes intelectuais e comentaristas políticos da direita de seu tempo. Ainda hoje a revista se propõe a publicar “comentários conservadores sobre as principais questões políticas e culturais, domésticas e globais”. Ainda assim, a National Review desfruta de um maior grau de confiança entre Democratas do que entre os próprios Republicanos (20 pontos contra 3). A margem é expressiva demais para ser ignorada. O que pode explicar este fenômeno?

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que há diversas divergências dentro do campo conservador. Nos EUA, em especial, é fácil notar este embate entre conservadores tradicionais, cujo pensamento continua sendo expresso pela revista National Review, e a corrente da direita que surgiu nos últimos anos e teve em Trump o seu principal expoente. Há uma profunda discordância entre os dois grupos, de forma que qualquer veículo que queira representar o conservadorismo terá uma grande dificuldade de ser a voz unânime deste grupo.

Um outro fator que talvez ajude a explicar este fenômeno, é que boa parte da direita tem apresentado, nos últimos anos, um comportamento mais personalista do que institucional. Isso significa que sua confiança tem estado mais presente em indivíduos específicos do que em órgãos públicos, um partido político, entidades sociais ou veículos da imprensa. Basta lembrar que quando foi eleito em 2016, Trump se apresentou como um outsider dentro de seu próprio partido. A sua briga não era apenas por uma agenda que ele considerava benéfica para o país, mas contra todo um establishment dominado ao longo de muitos anos por uma cultura progressista em ascensão. Pouco importa aqui discutir se ele estava certo ou não – há diversos argumentos que podem ser usados para refutar ou corroborar sua visão. O que importa é que esta característica – disseminada por Trump mas não criada por ele – se tornou a expressão de boa parte da direita ocidental. Tudo isto faz com que os veículos tenham dificuldade de conversar com os conservadores.

Ao todo, a maior parte da imprensa americana ressoa uma visão liberal de mundo – que embora não esteja associado à matriz tradicional da esquerda trabalhista, ecoa muito do pensamento progressista presente em todo o ocidente e rechaçado com diferentes níveis de intensidade pelas diversas correntes da direita atual.

 

E o que dizer de nós mesmos

Agora que já olhamos bastante para o perfil e comportamento conservador, vamos falar um pouco de nós mesmos. Uma pesquisa publicada em 2021 pela Universidade Federal de Santa Catarina mostrou que o perfil dos jornalistas está fortemente atrelado ao espectro ideológico da esquerda. Nada menos do que 52,8% dos participantes se identificaram como sendo de esquerda, enquanto outros 25,9% disseram ser de centro-esquerda e 2% de extrema-esquerda. Já a centro-direita respondeu por 2,5% dos entrevistados. Apenas 1,4% e 0,1%, por sua vez, disseram ser de direita e extrema-direita respectivamente.

É interessante perceber que o número de profissionais se autodefinindo como de extrema-esquerda quase equivale ao total dos que se dizem de centro-direita. Se somados todos os espectros de uma mesma ideologia (do mais radical ao mais moderado), 80% dos jornalistas podem ser considerados de esquerda, enquanto que apenas 4% se dizem de direita. Os 16% restantes se disseram de centro ou preferiram não informar seu posicionamento.

Um último dado curioso é que 10,3% dos jornalistas entrevistados são filiados a algum partido político. Destes partidos, o PT é o mais popular com 40,1% de todos os filiados, seguido do PSOL (17,6%), PCdoB (7,8%), PSB (3,4%) e PSDB (2,9%). Esta taxa impressiona ainda mais se comparado com os dados coletados na época pelo Tribunal Superior Eleitoral, que mostravam que 7,4% de toda a população era filiada a algum partido político. Ou seja, jornalistas possuem um engajamento partidário mais alto do que a própria população que não necessita de nenhum compromisso com a isenção como nós.

 

Com quem estamos falando

Embora a equiparação das pesquisas do YouGov e da UFSC seja complicado por estarem tratando de países diferentes, o fato é que a direita, no Brasil como nos EUA, tem apresentado um comportamento similar em relação às empresas de mídia.

Mas se há um profundo ceticismo em relação à maior parte dos veículos, o que temos a ver com isso? Afinal, seguimos rigorosos critérios éticos, temos sempre a objetividade em mente e publicamos matérias que passam por diversos filtros de checagem. Se alguém não gosta disso e continua achando que a imprensa não é digna de confiança, o problema não é nosso, certo?

Bom, em parte. Por um lado, quem quer que argumente que a imprensa não tem a função de agradar a ninguém está parcialmente correto. Boa parte da nossa relevância vem do fato de que devemos apurar e publicar o conteúdo doa a quem doer. Entretanto, há muito mais no jornalismo do que isso. Não é preciso ficar chovendo no molhado: todos sabemos que uma informação passa por recortes, que os deadlines frequentemente dificultam uma apuração mais criteriosa e que os repórteres são propensos a falhas assim como qualquer outro ser humano.

A reportagem, portanto, jamais será ideal. Ela será o possível em uma dada circunstância. Mas isso não significa que não podemos nos esforçar mais para nos comunicarmos com os outros. O mundo de hoje, mais plural e complexo do que nunca, mostra que não basta estar atento à informação que será publicada. É preciso também estar atento ao linguajar que será empregado na matéria e quem irá consumi-la.

Neste sentido os dados da pesquisa da UFSC são importantes. Jornalistas terem uma preferência ideológica não é um problema e não faz de ninguém um profissional precário por si só. Ainda assim, é necessário um cuidado com vieses inconscientes, que levam muitos a acharem que seus valores são universais e bens absolutos questionados apenas por elementos radicais e extremistas da sociedade (há sempre uma justificativa legítima para as pessoas terem as ideias e valores que tem. Ser jornalista implica, frequentemente, se colocar no lugar dos outros).

Portanto, mesmo que a reportagem seja feita com a melhor das intenções e seguindo uma boa apuração, ainda assim é possível que a forma como ela foi produzida contenha vieses que, de tão inconscientes, o próprio jornalista não será capaz de notar, mas que não passarão desapercebidos por quem estiver consumindo o conteúdo.

Mais do que nunca, o jornalismo de hoje em dia não é mais apenas uma comunicação de mão única. O público precisa, cada vez mais, ser atendido – e fazer com que ele não se revolte com o conteúdo já é um grande passo para construir uma relação de confiança. Isso significa sempre publicar o que a audiência quer ouvir? Não, mas demonstrar que entendemos e respeitamos a sua visão de mundo, que somos capazes de tê-la em conta ao tratar de temas espinhosos e legitimamente debatíveis pode ser um bom caminho – em especial se quisermos nos conectar com partes da audiência que se sentem incompreendidas e que atualmente estão fora do nosso alcance.

Minha mais recente coluna neste espaço opinativo teve um título bem estudado: “Jornalismo – a hora de recuperar o encanto”.  É disso que se trata. O jornalismo precisa recuperar a confiança dos consumidores. O texto repercutiu entre leitores e colegas. Recebi muitas mensagens. Isso mostra uma sadia inquietação. Um movimento de autocrítica e renovação.

Hoje, provocado por um excelente artigo de Martin Baron, ex-editor-executivo do Washington Post publicado no caderno “Ilustríssima” da Folha de S.Paulo no dia 15 de abril, volto ao tema. O texto é magnífico. E está ancorado no prestígio de um dos grandes nomes do jornalismo norte-americano.

Num momento de crise da mídia, Baron, na contramão de boa parte dos seus colegas, empunha o valor da objetividade como arma poderosa em defesa do jornalismo de qualidade.

“A maior parte do público, me arrisco a dizer, espera que os jornalistas sejam objetivos. Ignorar suas expectativas ou desafiá-las diretamente é um ato de arrogância. Demonstra leniência com nossos vieses, os consagra e, o que é mais grave, trai a causa da verdade”. O diagnóstico de Baron é certeiro: um dos elementos centrais da crise dos veículos está no questionamento e na corrosão cotidiana da objetividade.

Baron defende que devemos iniciar nossas pesquisas “com a cabeça aberta e então trabalhar da maneira mais conscienciosa possível. Isso requer uma disposição de ouvir, uma ânsia de aprender e uma consciência de que há muito que precisamos saber.” (…) “Não começamos já com as respostas prontas. Saímos em busca delas, primeiro com o desafio já grande de articular as perguntas certas e finalmente com a tarefa árdua de verificação.”

Queremos juízes e médicos objetivos; por que não jornalistas? A pergunta de Baron está gritando em muitas críticas sinceras ao nosso trabalho. A busca da objetividade, nem sempre fácil ou tranquila, é uma meta a ser perseguida. Todos os dias.

O importante é saber escutar. As respostas são sempre mais importantes que as perguntas que você faz. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos. Precisamos lutar contra as atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem e minam a credibilidade dos produtos jornalísticos.

O bom repórter ilumina a cena, o jornalista manipulador constrói a história. A distorção, no entanto, nem sempre é clara. Escapa, frequentemente, à perspicácia do leitor médio. Tem aparência de informação, mas não é. Daí a gravidade do dolo. Na verdade, a batalha da isenção, forte demanda da sociedade atual, enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência atrevida. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos próprios de certa delinquência editorial transformam um princípio ético irretocável numa grande farsa.

A apuração de faz-de-conta representa uma das maiores agressões à imprensa de qualidade. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade. É um artifício que transmite um simulacro de objetividade, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade factual culmina com uma estratégia exemplar: a repercussão seletiva. O pluralismo de fachada convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a reportagem. Cria-se a versão. Uma das grandes crises de nossa profissão é a perda da primazia do trabalho de reportagem.

A imprensa tem caído nessa armadilha antijornalística. Trata-se de uma prática que, certamente, acaba arranhando sua credibilidade. Ainda não conseguimos superar a síndrome dos rótulos. Alguns colegas não perceberam que o mundo mudou. Insistem, teimosamente, em reduzir a vida à pobreza de quatro qualificativos: direita, esquerda, conservador, progressista. Tais epítetos, estrategicamente pendurados, têm dupla finalidade: exaltar ou afundar, gerar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas. A reportagem é, ou deveria ser, sempre substantiva. O adjetivo é o enfeite da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta de apuração. É, frequentemente, uma mentira.

É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. A audiência quer informação clara, corajosa, bem apurada. E, hoje em dia, pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital. Ficará conosco se soubermos apresentar um produto de qualidade.

A reportagem precisa ser recuperada. Deve ser trazida para posição central da produção jornalística. Basta de narrativas. Basta de militância ideológica, romântica ou não. Basta de contrabando opinativo na informação.

O público busca formar uma convicção equilibrada, corajosa e firme nos espaços de opinião e nos editoriais. Mas quer informação objetiva no conteúdo jornalístico.

Não devemos sucumbir à tentação do protagonismo. Nosso ofício, humilde e grandioso, é o de iluminar a história.

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade de uma apuração ética.

A sociedade está cansada do clima de radicalização que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo militante. Um denominador comum marca a superficialidade que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: a politização.

Em tempos de ansiedade digital, a reinvenção do jornalismo reclama revisitar alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

O jornalismo transformador é substantivo. Insisto. Sua força não está na militância, mas no vigor persuasivo da verdade factual e no equilíbrio de uma opinião fundamentada.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente. Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir, mesmo com a melhor das intenções, certa politização das coberturas. Cair na síndrome das narrativas. Os desvios não se combatem com o enviesamento informativo, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.

Sem jornais a democracia não funciona. O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos. Sua agenda é por valores perenes: liberdade, dignidade humana, respeito às minorias, promoção da livre iniciativa, abertura ao contraditório. O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blablablá inconsistente do teatro político, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Os desvios, reafirmo, não se combatem com o enviesamento informativo, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores.

Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

Pessoas são seres curiosos. Surpreende o quanto podem deduzir sobre os outros e, ao mesmo tempo, conhecer tão pouco sobre si mesmos. Tal fato é muito claro quando se analisa as ideologias. Não raro, os mais imersos em um pensamento ideológico único acreditam estar acima deste mal, como se nenhum conjunto fixo de ideias guiasse a forma como eles percebem o mundo. Tirando este raciocínio da escala individual e o trazendo ao patamar do coletivo, também percebe-se que sociedades inteiras podem considerar-se “não ideológicas” quando tomadas por uma ideologia dominante.

No livro The Uncensored War, o autor Daniel C. Hallin analisa a cobertura da Guerra do Vietnã feita pela mídia norte-americana. Entre os aspectos discutidos por ele, a ideologia predominante na sociedade da época está no centro da obra. É esta ideologia, afinal, que moldou não apenas o formato da cobertura midiática, mas também o enfoque frequentemente dado pela imprensa dos conflitos que antecederam a entrada oficial do país na guerra.

Hallin explica que o jornalismo da década de 1960 possuía um aspecto ambíguo: ainda que a profissionalização da atividade tenha dado aos jornalistas liberdade para atuarem sem interferências políticas, a necessidade de fazerem uma cobertura isenta e imparcial exigia que acessassem regularmente órgãos internos do governo. Em outras palavras, os profissionais podiam atuar com independência, mas dependiam de informações cedidas pelo governo, por membros da burocracia e por parlamentares em geral.

“De várias formas, a profissionalização do jornalismo nos Estados Unidos fortaleceu, ao invés de enfraquecer, os laços entre a imprensa e o Estado”, escreve Hallin.

Deixar de publicar aquilo que o governo lhes concedia, portanto, significaria resignar da própria objetividade, um dos valores reinantes na época.

Desta forma, o presidente do país tinha a capacidade de controlar o noticiário, pois declarações do Chefe de Governo estavam sempre no topo dos critérios de noticiabilidade. Ao mesmo tempo, criticar abertamente informações oficiais significaria tomar lado no debate e abandonar a isenção.

Mas este aspecto diz respeito apenas à cultura jornalística da época. Havia, ainda, a ideologia de meados do século XX nos EUA, que também influenciava o noticiário. Segundo Hallin, “o consenso bipartidário forjado durante as administrações de Truman e Eisenhower que associaram a política exterior a (uma questão de) ‘segurança nacional’ (…) retiraram a maior parte das decisões relativas à política externa da agenda do debate político”.

Esta ideologia da Guerra Fria, por sua vez, não era detida apenas pelos políticos da época, mas por toda a sociedade na qual se incluem os jornalistas. Um dos motivos para o noticiário conter tanto desta ideologia – cujas crenças eram de que os EUA deveriam atuar no âmbito internacional para conter o avanço comunista impulsionado pela URSS e China – era de que as colunas dos jornais estavam repletas de declarações de oficiais do governo americano. Mas além disso, “os próprios jornalistas estavam tão profundamente imersos na ideologia da Guerra Fria quanto aqueles sobre quem escreviam”.

O mundo vivia em conflito entre o modelo comunista soviético e a democracia liberal americana. E neste contexto, o que estava em jogo era a influência sobre os demais países do globo. O fato de ser uma ideologia, portanto, não implica que seja ruim ou que seja falsa. O problema é que ela “estreite o âmbito do pensamento”, como colocou Orwell no clássico 1984.

E neste sentido, Hallin argumenta que na época anterior à entrada de fato dos EUA na guerra, nenhum grande debate estava acontecendo sobre o direcionamento da política pública do país. Este silêncio “não representava o fim das ideologias, mas o triunfo de uma única sob todas as demais. Era uma época de consenso ideológico e isso era verdade, acima de tudo, na política externa”. O espaço para este debate viria apenas depois e com uma força poderosa, como descobriu Lyndon Johnson, presidente responsável pela escalada dos EUA na guerra.

Esferas de Hallin

O livro The Uncensored War talvez seja mais famoso pela teoria desenvolvida pelo seu autor e atualmente conhecida como Esferas de Hallin. O diagrama elaborado por ele serve para entender como alguns assuntos são tratados na mídia. Afinal, ainda que muitos profissionais da área acreditem que sua cobertura é isenta de paixões, inconscientemente certas temáticas são vistas de formas totalmente diferentes pelos jornalistas.


A primeira das três esferas, Hallin chamou de Esfera do Consenso. Nela estão temas e ideias tidas como senso comum. Nas palavras do autor, “Dentro desta região, jornalistas não se sentem impelidos a apresentar visões opostas (…) Pelo contrário, o papel do jornalista é de servir como um defensor dos valores consentidos”. Na cultura que temos atualmente, é de se esperar que uma ideia como liberdade de expressão seja automaticamente tratada como algo bom no espaço jornalístico. E se for preciso argumentar sobre o tema, será para fazer uma defesa deste princípio. Aqui o jornalista não atua de forma imparcial. Ele sequer questiona sobre o quão bom certo princípio, de fato, é, pois este já está enraizado na cultura à qual ele pertence.

Margeando a Esfera do Consenso está a Esfera da Controvérsia Legítima. Aqui, sim, o jornalista atuará de forma isenta. Afinal, as questões nela contidas estão plenamente abertas a questionamentos e o jornalista não tomará lados. Ao contrário, ele servirá apenas como um transmissor de opiniões. O conceito de ouvir os dois lados caberá para as ideias atualmente em debate pela sociedade.

Por fim, resta a Esfera do Desvio – ou como chamarei, a Esfera da Aberração. Este é o domínio “daqueles atores políticos e opiniões que os jornalistas e o mainstream político da sociedade rejeitam como indigno de ser ouvido”. Aqui os jornalistas “cumprem o papel de expor, condenar ou excluir da agenda pública aqueles que violam ou desafiam o consenso político”. Novamente, neste espaço, o jornalista não atuará de forma isenta. Ele irá assumir que certos valores são ruins e não dará a eles o benefício de serem debatidos. Alguém que defenda, por exemplo, que discriminar e excluir da sociedade determinadas pessoas em função de sua raça, será automaticamente descartada ou invalidada, juntamente com sua opinião, pela mídia. Esta ideia, afinal, é tida como uma aberração pela cultura atual.

Como ideias são fluídas e princípios são moldados pelas circunstâncias, muitos temas e valores podem transitar entre as esferas. E o jornalista, embora goste de pensar que está livre de ideologias, será tão influenciado como qualquer outro pela cultura do momento.

De 1960 para 2020

De uns anos para cá, tanto o Brasil quanto os EUA e boa parte dos países ocidentais entraram em um processo de polarização política. A maior parte do mainstream midiático, acadêmico e intelectual, de forma geral, viu suas ideias e valores confrontados por parcelas significativas da sociedade. É possível encontrar diversos motivos para que estes confrontos tenham emergido de forma tão súbita e potente. Aqui me concentro em apenas dois: falta de consenso ideológico na sociedade e o crescimento das redes sociais.

Boa parte da obra de Hallin se concentra entre os anos 1960 e 1965 e o consenso ideológico do qual ele trata na primeira metade do livro não demorou para se desfazer. Ainda nesta década, avançava no mundo uma ideologia progressista. A contracultura veio para mudar costumes por muito tempo tidos pela sociedade. A libertinagem sexual começava a ser estimulada. O uso de drogas passou a se intensificar. No âmbito político, o papel dominante dos EUA, não apenas como potência mundial mas principalmente como referência cultural, era desfeito. Na França, estudantes protestavam, entre outras coisas, contra o capitalismo e instituições tradicionais como a Igreja.

A polarização dos últimos anos é consequência, em parte, das súbitas mudanças culturais de meados do século passado. A mídia pode ter assumido como consenso as ideologias que se desenvolveram da década de 1960 em diante. Mas as eleições de Bolsonaro e Trump, a aprovação do Brexit e a forte retomada de pautas conservadoras mostram, claramente, que boa parte da população não a acompanhou nesta nova cultura progressista. Ainda assim, faltava a muitos os meios para criticar o senso comum jornalístico e divulgar suas próprias opiniões. Este papel, por sua vez, tem sido cumprido pelas redes sociais.

Não é difícil compreender porque o jornalismo se isolou em uma bolha ideológica própria que reluta em admitir que existe. Acostumados a falar sozinhos, os profissionais de imprensa não perceberam que poderia haver tanta discordância em potencial. Para retomar Hallin, as visões de mundo que jornalistas tinham como consenso estão, para muitos, na Esfera do Debate Legítimo, quando não na Aberração. O fato de acusarem tantos de fake news talvez seja explicado por isso. Afinal, quando se transforma opiniões em senso comum, elas se tornam indistinguíveis de fatos.

Na Esfera do Consenso não estão apenas aqueles valores que a sociedade irá defender; estão ali, também, aqueles cujo mérito ninguém precisa questionar, uma vez que já são amplamente aceitos por todos. O erro de muitos jornalistas foi creditar ao consenso aquilo que é consensual apenas para si e seus pares. A cultura e as ideologias presentes no meio jornalístico simplesmente não são compartilhadas por milhões de cidadãos do Brasil e do mundo.

Este erro, no entanto, não deve ser creditado apenas na conta dos profissionais da mídia. Ele se estende, também, às classes pensantes. São raros os acadêmicos, filósofos, sociólogos e intelectuais em geral que não compartilham da chamada ideologia progressista cujo credo, em sua forma mais extrema, reside em ver nas coisas novas um caminho certo rumo ao progresso e na conservação de práticas e hábitos antigos – como defesa da estrutura familiar tradicional, de valores cristãos, de uma ética de virtudes e não de uma meramente utilitarista – um resquício obscurantista de um passado ainda não contemplado pelo racionalismo.

Neste sentido, é curioso perceber como a atual polarização política e ideológica é apontada como um problema causado por esta parcela da população que não adotou a cultura progressista. O reflexo desta incompreensão por parte das classes pensantes fez surgir uma das culturas mais perigosas dos últimos tempos: a cultura do cancelamento. Seus proponentes, tão certos de que seus valores são consensuais e corretos, não admitem que tantas pessoas possam ter uma opinião diferente das suas.

Este conflito poderia ser amenizado pela simples aceitação de que as questões mais recorrentes dos tempos atuais fazem parte da Esfera do Debate Legítimo. Ao contrário, esta esfera parece estar a cada dia menor e aqueles que discordam dos consensos progressistas são jogados diretamente no rol das aberrações. Na falta do debate, portanto, resta transformar os atuais insurgentes em meras caricaturas a quem não se deveria dar voz, pois são vistos como anomalias de uma cultura racista, fascista, intolerante e intolerável.

Este caminho não pode levar a outro resultado que não a adoção de uma ideologia dominante, embora alcançada não de forma natural, mas pela imposição, que deixará no caminho incontáveis pessoas canceladas.

O jornalismo, espaço essencial da liberdade de expressão, precisa repensar o seu papel neste contexto. Imerso na cultura progressista, ele não precisa necessariamente abandonar os seus valores, mas entender que eles não são consensuais exceto dentro do próprio meio.

E se hoje tantos jornalistas assumem a polarização dos últimos anos como algo ruim, só existe uma solução: retomar a tão atrofiada Esfera do Debate Legítimo para que, com o estímulo de novas discussões e argumentações, a sociedade possa encontrar, de forma natural, novos consensos ou retomar aqueles que ficaram no passado.

AA censura não é a única forma de silenciar o outro. Aliás, somos bons em adotar estratégias sutis para conquistar aquilo que queremos de maneira mais direta.  Em artigo para a Gazeta do Povo, o jornalista Leonardo Coutinho cita o seguinte fato: “Na campanha eleitoral de 2016, o então candidato Donald Trump apontou um tal globalismo como uma das causas dos problemas dos Estados Unidos”. Reagindo à afirmação do então candidato à presidência, o jornal The New York Times reforçou a tese de que globalismo era uma ideia de extrema-direita que servia para negar a globalização. Em suma, segundo Coutinho, o importante era massacrar a ideia para fazer prevalecer a própria.

De maneira similar, vimos órgãos representativos do jornalismo utilizando a linguagem e a retórica para reduzir a relevância do jornalista Oswaldo Eustáquio, quando este foi preso em junho pelo Supremo Tribunal Federal. Como levantado, também pela Gazeta do Povo, muitas destas entidades preferiram não se manifestar sobre o caso ou simplesmente reduzir a atuação de Eustáquio, afirmando, por exemplo, que quando foi preso ele não atuava como jornalista ou que usa “ferramentas de comunicação para caluniar, difamar e ameaçar autoridades, jornalistas e instituições democráticas”.


Eustáquio tem simpatia pelo presidente Jair Bolsonaro e defende ideias conservadoras. O mesmo já assumiu isso publicamente. A questão é: a visão de mundo que possui torna ilegítima sua participação no debate público? É fato que o Brasil vive um momento de disrupção política. Neste momento em que tentamos nos encontrar, não seria mais útil que a imprensa desse voz a grupos ideológicos diferentes ao invés de isolar certas figuras e opiniões como se estas não fossem dignas de ecoar entre a sociedade?