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Imparcialidade

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Por que o jornalismo surgiu? Esta pergunta foi feita a profissionais da área em uma postagem recente da nossa editora Ana Brambilla no LinkedIn. Sem pretender fazer uma ampla pesquisa e dar uma resposta definitiva à questão – se é que isto é possível –, optei, ao contrário, por lançar uma hipótese: será que o jornalismo não surgiu da necessidade que determinadas pessoas tinham de se posicionarem politicamente e fazer com que suas vozes fossem ouvidas? Caso esta suposição se sustente, então temos de assumir que há mais no jornalismo do que apenas a missão de informar. É certo que desta conclusão surge uma outra pergunta: escrever para defender uma causa é jornalismo? Talvez não seja jornalismo moderno e profissional, mas não seria uma forma de jornalismo ainda assim?

Daniel Hallin, doutor em ciência política e professor de comunicação da Universidade da Califórnia, por exemplo, é claro em afirmar que o “jornal do início do século XIX era uma instituição francamente política, normalmente financiada por um partido ou por um político”. Além disso, os jornais também abraçavam causas sem muito constrangimento. É provável que em nenhum momento da história americana isso tenha sido mais verdadeiro do que durante as décadas da Revolução em que os EUA lutaram contra a Inglaterra. Uma das consequências deste período, segundo o professor Robert Parkinson, foi um aumento considerável no número de jornais, que quadruplicaram do início dos anos 1760 até o fim daquele século. Mas esta não foi a única e nem a mais importante consequência causada pela ebulição política e social pela qual os Estados Unidos passaram no período:

“O engajamento político também levou os jornais a se afastarem das tentativas tradicionais presentes no início do século de deixar suas colunas abertas para ambos os lados dos debates. Depois de aprovada a Lei do Selo (pelo Parlamento inglês em 1765) – seja por inclinações políticas pessoais ou porque acharam que isso se adequaria melhor ao seu nicho de mercado -, os profissionais da área começaram a abandonar o ideal de neutralidade para abraçar ou rejeitar a resistência colonial à reforma imperial britânica”. (Robert Parkinson)

Desta forma, as circunstâncias políticas do país acabaram por moldar o estilo editorial, por assim dizer, dos impressos que circulavam na época. Alguns aderiram à luta revolucionária, “abrindo suas oficinas para encontros políticos ou publicando uma grande variedade de artigos e ensaios que suportavam a causa”. Muitos destes tornaram-se até mesmo membros dos Filhos da Liberdade – grupo que lutou em defesa dos colonos e organizou a Festa do Chá de Boston em protesto contra a Inglaterra. Outros, por sua vez, se mantiveram leais à Coroa e abriram seus jornais para que fossem publicados textos criticando os esforços dos revolucionários americanos. Neutralidade, se havia anteriormente, deixara então de existir.

Esta história é contada de forma mais criativa por Antonio García Martínez na revista americana Wired, ao considerar que uma versão ressuscitada de Benjamin Franklin “não teria um emprego no The Washington Post. Ao contrário, se ele fosse transportado para os dias atuais, provavelmente “teria uma conta anônima no Twitter com muitos seguidores, a qual usaria para rotineiramente trolar oponentes políticos”. Assim como Franklin, Samuel Adams – primo de John Adams – também escreveu sob diversos pseudônimos e não parecia considerar a imparcialidade um valor muito importante.

Isso leva a uma questão importante: o estilo de jornalismo imparcial e objetivo que passamos a conhecer é frequentemente invocado como um elemento essencial para a manutenção da democracia. No entanto, como conciliar este pensamento com o fato histórico de que a maior democracia do planeta foi consolidada em uma época de partidarismo declarado por parte dos jornais?

Ao contrário, o que parece ser verdade é que a democracia depende de muitos outros pilares para se sustentar e, embora jornais cumpram uma função substancial em uma sociedade livre e aberta, a imparcialidade não garante que a democracia permaneça viva e nem assegura a qualidade da reportagem.

Por outro lado, é certo que o jornalismo evoluiu desde aquele século de revoluções. A profissionalização da atividade (e a mudança nos modelos de geração de receita) fez com que os jornalistas mudassem suas práticas. Se antes os jornais eram claramente financiados por partidos políticos, eles passaram a lucrar principalmente com a publicidade após meados do século XIX, quando a Guerra Civil entre os estados do norte e os escravagistas do sul chegou ao fim.

Para que este modelo de negócios fizesse sentido, no entanto, era necessário mudar a proposta editorial. Um tom partidarista invariavelmente iria limitar o alcance da circulação, resultando na redução dos lucros obtidos com a publicidade. O conteúdo generalista e imparcial surge, então, como o produto mais adequado para as demandas financeiras das publicações.

Para que a sociedade precisa de jornais AGORA?

Vê-se que todas as propostas editoriais – partidárias ou generalistas – tornaram-se norma a depender das circunstâncias do momento. Conclusão esta que gera uma pergunta capital: quais são as demandas exigidas pelas circunstâncias atuais?

O financiamento partidário não retomou a popularidade que uma vez teve nos EUA. Embora muitos jornais brasileiros se acostumaram a receber verbas públicas, obter recursos de um partido específico destruiria todas as pretensões de isenção cultivadas pelos veículos tradicionais. Ainda assim, o modelo de negócios está inegavelmente passando por uma transição. Uma vez que a verba publicitária não tem mais como destino principal o bolso das empresas de mídia, a aposta tem sido na obtenção de recursos diretamente do leitor. Menos publicidade e mais assinaturas ainda é um modelo difícil de ser implementado, mas é o que garante maior estabilidade aos veículos que souberam adotá-lo com sucesso.

Um ponto que merece destaque, no entanto, é que o modelo de assinaturas dificilmente irá vingar para uma empresa de mídia se não estiver amparado e sustentado por uma proposta editorial adequada. O conteúdo neutro e generalista dificilmente será suficientemente necessário na vida do leitor ocasional para que ele comprometa parte de sua verba mensal com mais uma assinatura. Para isto, o jornal terá de encontrar uma forma de se diferenciar da concorrência – e no meio digital, ele está competindo não apenas com outros jornais, mas com plataformas de streaming e com todo o barulho gerado pelas redes sociais.

Falar para um dos muitos grupos engajados no debate político é uma alternativa, mas adotar um tom militante não é necessário – e nem necessariamente uma boa solução – para que os veículos consigam se engajar de forma mais profunda com os leitores. Exemplos como o site The Information, voltado ao setor da tecnologia, livre de anúncios e centrado no leitor, mostram que o conteúdo de nicho é uma boa alternativa. Para os veículos tradicionais que se acostumaram a publicar assuntos diversos, há ainda outros caminhos. Recentemente analisamos, aqui no Orbis, o exemplo da revista inglesa The Spectator, que não abdicou de falar sobre política e atualidades para oferecer um diferencial para o leitor. No caso, a publicação se propõe a escrever conteúdo analítico de excelência, sem separar a reportagem da opinião. Por este motivo, seus autores – não necessariamente jornalistas – se abstêm de qualquer pretensão de imparcialidade.

Ambos os casos são bons exemplos para os veículos tradicionais que ainda lutam para sobreviver nos tempos atuais e dentro de circunstâncias diferentes sob as quais prosperaram. Se posicionar parece ser cada vez mais uma necessidade, embora posicionamento nem sempre seja sinônimo de militância simplória que tem como fim último a causa política e não o cuidado com o leitor.

Além da mera imparcialidade, jornalismo também é ética e compromisso com a verdade. Nenhum destes dois critérios são incompatíveis com as demandas atuais por maior posicionamento e maior engajamento com parcelas específicas do público. Os dilemas editoriais e de negócios, em tempos de disrupção mercadológica, são sempre difíceis, embora fascinantes.

Do jornalismo posicionado que se consolidou durante a Revolução Americana, ao jornalismo personalista dos anos 1900, até o profissionalismo da atividade tal qual conhecemos hoje, o fato é que o setor está em constante evolução. Martínez acredita que o jornalismo não está morrendo, e sim voltando às suas raízes – isto é, ao estilo de parcialidade que marcou o século dezoito. A percepção pode bem ser verdade, mas não em sua totalidade. As demandas do público e os modelos de negócios, realmente, parecem favorecer um grau de posicionamento maior do que o existente na época em que a publicidade gerava renda, a neutralidade imperava e os jornais monopolizavam a comunicação social. Para os veículos que construíram longamente sua credibilidade baseada nestes critérios, no entanto, a parcialidade imprudente pode ser um suicídio. Já a declaração de valores e a transparência com o leitor, aliadas à ética de compromisso com a verdade e independência política que marcou a profissionalização da atividade, podem ser uma saída à crise editorial do presente momento. É uma solução certeira? Não. Mas ainda assim, é uma trilha melhor do que aquela que se desfaz sob nossos pés.

O noticiário local que foi ao ar na noite da última terça-feira, 19, em São Paulo, revelou o quanto nos falta  aprender para fazer jornalismo. Em uma emissora, o apresentador anunciou: “Homem atira em assaltantes no Bom Retiro e não é indiciado por porte ilegal de arma nem por matar um dos ladrões“. Minutos depois, no outro canal, a manchete era: “Clientes e funcionários de restaurante no Bom Retiro são feitos reféns. Sequestadores foram baleados por vizinho.” Fiquei apenas nestes dois telejornais e a diferença no enquadramento de cada emissora me chocou mais do que a barbárie da acontecimento em si.

Há vários fatos no ocorrido. Há uma tentativa de roubo. Há bandidos armados. Há reféns na mira de pistolas. Há um vizinho do restaurante, também armado. Há dois homens baleados. E há uma obsessão ideológica acintosa norteando o trabalho em certas redações.

Pela ótica dos colegas, o sequestro parece ter sido apenas evento cotidiano que serviu de pretexto à atrocidade de um cidadão, rendido por um criminoso, disparar contra aquele que estava prestes a tirar sua vida.

O programa onde ouvi a primeira chamada dedicou nada menos que seis minutos para declarar sua revolta com o cidadão que portava uma arma em local não autorizado e que atirou contra os criminosos. Ao exibir um vídeo cedido pela Polícia Militar, o repórter narra que o morador “caminha em direção aos sequestradores, é rendido por um deles e reage descarregando a arma em dois assaltantes“. Mas isso foi apenas um detalhe, na visão dos colegas. A tônica da reportagem, do começo ao fim, foi denunciar a impunidade sobre o porte de arma por uma pessoa que não suportou assistir passivamente seus vizinhos sendo torturados. Está claro que a reação colocou em risco a vida dos reféns e isso precisa ser mencionado no relato editorial. Porém, o sequestro virou paisagem. Pela ótica destes colegas, o crime parece ter sido apenas um evento cotidiano que serviu de pretexto à atrocidade de um homem, rendido por um criminoso, disparar contra aquele que estava prestes a tirar sua vida.

A indignação do repórter com as autoridades que liberaram o autor dos disparos transbordava em trechos do boletim de ocorrência lidos no texto do off, em uma tentativa furiosa de legitimar sua ira contra aquele “assassino de sequestradores”. Uma das frases lidas no documento dizia que o atirador – exposto e nomeado pela reportagem – teria “recorrido ao chamado excludente de licitude“. Na certeza de que todos os espectadores de seu telejornal, transmitido pela TV aberta, entenderiam indubitavelmente a expressão “recorrido ao chamado excludente de licitude“, o repórter provou que estava engajado demais para lembrar que uma de suas funções vitais é traduzir à população, em linguagem simples e acessível, a informação que lhes foi dada por especialistas.

Quando foi que nos insensibilizamos, como seres humanos, diante da angústia de reféns na mira de três homens armados?

Após assistir à reportagem, me peguei em um diálogo interno de ordem jornalística mas, mais do que isso, foi uma reflexão a respeito de civilidade e de humanidade. Desde quando um sequestro de trabalhadores inocentes tem menos valor notícia do que o fato de dois de seus autores terem sido baleados ao renderem um indivíduo com arma de fogo? Desde quanto telejornais criticam e questionam a decisão da Polícia em não deter alguém que sequer foi investigado? Quando foi que normalizamos a invasão e o roubo à propriedade privada? Quando foi que nos insensibilizamos, como seres humanos, diante da angústia de reféns na mira de três homens armados? Desde quando o jornalismo milita pelo desarmamento da população? Desde quando jornalismo milita?

O que rotulamos como “absurdo”?

O caso acima ilustra o resultado de uma pesquisa publicada neste mês pelo Pew Research Center, com jornalistas norte-americanos de várias idades e cargos, atuantes em veículos. Mais da metade dos participantes (55%) admitiram que nem sempre os dois lados de uma pauta merecem receber a mesma cobertura. Isso é o mesmo que se posicionar, declarar apoio ou repúdio a algum aspecto da realidade e oferecer um conteúdo à sociedade como se fosse uma visão equilibrada dos fatos, como se fosse verdade em si.

Como jornalistas, sabemos que, por sermos humanos, somos passíveis de entender e relatar a realidade a partir dos valores que aprendemos e nos quais acreditamos. Porém, isso não nos dá o direito de usarmos o jornalismo como instrumento de articulação intencional.

Nos últimos anos houve uma multiplicação de veículos posicionados em vários pontos do espectro ideológico e político. No entanto, estes costumam firmar um pacto explícito com o leitor, que é ciente dos valores defendidos por aquele produto. Expôr a população à militância disfarçada de jornalismo é uma ofensa à sociedade. Justamente no momento em que o Brasil ocupa a primeira posição  no ranking de países onde mais se evita deliberadamente o consumo de notícias, há empresas de mídia que reagem dando ainda mais razões para as pessoas fugirem do noticiário.

Como jornalistas, nós mesmos sabemos que a linha divisória entre os gêneros informativo e opinativo é tênue e nem sempre fica clara às audiências. Nós também sabemos o quanto é difícil ser imparcial e que, por sermos humanos, somos passíveis de entender e relatar a realidade a partir dos valores que aprendemos e nos quais acreditamos. Porém, isso não nos dá o direito de usarmos o jornalismo como instrumento de articulação intencional.

Se a objetividade jornalística pertence à esfera do ideal, o esforço de contarmos uma história de maneira equilibrada é o que separa jornalistas de meros militantes.

Ao situarmos certos “lados” de uma discussão no universo do imponderável estamos, conscientemente, utilizando a atividade jornalística para difundir uma ideia ao invés de uma informação, para conduzir um pensamento ao invés de melhorar o estar-no-mundo da população, para alcançar interesses particulares que convergem, em última análise, na busca por poder. Nada mais antiprofissional, nada mais egoísta, nada mais desrespeitoso com quem ainda consome notícias na intenção pura de se manter informado.

O esforço para manter o profissionalismo nunca se fez tão urgente. Se a objetividade jornalística pertence à esfera do ideal, a tentativa de contarmos uma história de maneira equilibrada é o que separa jornalistas de meros militantes. Em qualquer profissão há procedimentos a serem seguidos, há convenções que precisam ser respeitadas. Por que haveria de ser diferente conosco? Por que seria aceitável transformar nosso trabalho num ato de interesse próprio? Há lugares socialmente legítimos para defendermos nossos ideiais: há grupos de estudo, há partidos políticos, há protestos pacíficos, há ONGs, centros comunitários, assembleias legislativas e mesmo o Congresso Nacional. Estes, sim, são espaços de ativismo; não o jornal, não o noticiário da TV aberta, não de forma sorrateira, fazendo de conta que é jornalismo.

Como podemos ajudar?

Procurar um novo modelo de negócio que sustente veículos no longo prazo é fundamental. Publicar conteúdos em formatos alternativos é necessário. Dialogar com o público, então, é urgente. Mas enquanto reproduzirmos a polarização do debate no fruto de nossos trabalhos, dificilmente voltaremos a ser percebidos como profissionais relevantes na vida de alguém.

Pense comigo: a lei da escassez rege relações de interesse de toda ordem, não apenas em transações comerciais. Existe uma oferta exagerada de informação, sobretudo instigando a polarização social. Entre discussões em redes sociais, estudos acadêmicos, fake news e mesmo em relatos opinativos válidos, qualquer ponto de debate está bem suprido de defesa. Não precisamos – nem devemos – ser mais um agente desta ou daquela bandeira. Isso equivale a dissolver o jornalismo num mar de subjetividades que não apenas nos descaracteriza, mas nos vulgariza. Seremos apenas mais um na multidão.

O que há em escassez na sociedade, hoje? Isto é, onde e como podemos fazer a diferença na vida das pessoas?

O American Press Institute (API) se lançou ao desafio de entender o que está escapando do olhar das redações e, não por acaso, a descoberta diz respeito à melhoria do convívio social. O fornecimento de informações sólidas e a abertura de espaços propícios ao diálogo foram apontados como formas de o jornalismo contribuir, com relevância, com a sociedade. Às vezes isso passa pela conscientização de que, mesmo sem querer, estamos agindo como apoiadores de causas, como críticos deste ou daquele político, ou que vemos como “realidade” aquilo que não passa de um recorte da nossa compreensão. Repito: isso pode ser inconsciente. E espero que o seja! Assim, temos alguma chance de recuperar a relevância do que fazemos na rotina das comunidades.

Podemos ajudar a traçar, através do jornalismo honesto, o ponto de virada para a retomada da convivência pacífica, do respeito mútuo e da integridade do ser humano.

Kevin Loker, diretor de pesquisa do API, considera essencial repensar o papel do jornalismo na vida das pessoas. “Se não mostrarmos uma abertura para a autorreflexão e mudança quando as críticas forem justas, nosso trabalho pode ser descartado como um empreendimento partidário ou monocultural. E quando isso acontece, perdemos o público.”

O vácuo deixado pelo público nos relatórios de audiência não prejudica apenas o desempenho financeiro das empresas de mídia. Não coloca em risco apenas nossos empregos. Ele gera um outro vácuo, dessa vez, na engrenagem social. Sem fontes confiáveis de informação, dignas do respeito da população e de legitimidade editorial, abre-se uma lacuna de civilidade, pronta para ser preenchida pelo caos, pela intolerância e pela selvageria humana.

Em 2016, ao perceber que a política fraturava relações humanas, um grupo de jornalistas norte-americanas criou o projeto Spaceship Media, com o objetivo de auxiliar cidadãos com opiniões opostas a dialogarem outra vez. As jornalistas atuam em parceria com veículos locais na identificação de temas antagônicos em uma determinada comunidade: da instalação de uma indústria a políticas migratórias, do armamento da população ao preconceito racial. Uma vez que são mapeados simpatizantes de diferentes “lados” da polêmica, o Spaceship Media pesquisa e fornece estudos, notícias, relatórios sobre o caso para preparar os participantes para um encontro presencial.

Com a moderação de jornalistas, os grupos antagônicos se reúnem em espaços comunitários – escolas, igrejas, bibliotecas públicas – e seguem um roteiro de quatro perguntas feitas mutuamente:

  1. O que você acha que o outro grupo pensa sobre você?
  2. O que você pensa sobre o outro grupo?
  3. O que você deseja que o grupo oposto saiba sobre você?
  4. O que você deseja saber sobre o outro grupo?

Com criatividade e fazendo um jornalismo honesto, podemos ajudar a traçar o ponto de virada para a retomada da convivência pacífica, da capacidade de escuta, do respeito mútuo e da integridade do ser humano. E podemos começar já, servindo como exemplo.

Aprende-se que, no constante exercício da profissão jornalística, é sempre imprescindível ouvir os dois lados de um fato, e que esta seria [teoricamente] a atitude ideal do bom jornalista! Mas, na prática, sabemos que ouvir os dois lados e garantir a imparcialidade tão sonhada pela grande mídia é tão difícil  – ou praticamente impossível – se levássemos em conta a essência fundamentalmente humana do jornalismo. 

A ideia defendida por Geneva Overholser em “Death to bothsidesism” nos traz à vida real e expõe a tentativa frustrada do mainstream em buscar uma neutralidade utópica na produção de notícias. A jornalista, veterana do The New York Times e do The Washington Post, defende o fim dessa isenção que, no fim das contas, acaba por apresentar uma “realidade a preto-e-branco ao leitor”. Além disso, afirma que a mesma imparcialidade faz com que “as pessoas pensem que não há nada sólido em que possam acreditar”.

Por essas e outras razões, fica difícil aceitar que a regra de ouro – defendida não só pelos publishers brasileiros como no mundo todo, desde o século passado – esteja cada dia mais comprometida.

E você, caro leitor, deve estar se perguntando: se a objetividade não serve ao jornalismo, o que, então, podemos fazer?

Podemos, todas as noites, deitar nossas cabeças no travesseiro com muita tranquilidade, sabendo que nossa sociedade (ainda) suporta a liberdade de defender pontos de vista sem que falemos obrigatoriamente dos dois lados de um fato. “Mas, com isso não estimulamos a bolha?”, podem perguntar. Também. Contudo, o jornalismo não é o grande culpado nessa história. Enquanto os veículos procurarem a verdade – nem que para isso tenham que declarar o fim deste “Doisladismo” – e tiverem a noção de que juntos podem manter a democracia, então grande parte da missão estará cumprida. 

Por isso, considerando o contexto mercadológico em que veículos de diferentes posições podem (e precisam) coexistir, não seria esta uma evolução do modo de se defender a democracia?

No livro The Uncensored War, Daniel C. Hallin trata do papel midiático durante a Guerra do Vietnã – papel este que foi altamente relevante, inclusive, para mudanças futuras na forma de atuação dos governos norte-americanos. Afinal, como explica Hallin, a cobertura irrestrita das batalhas ocasionou um novo fenômeno no país: se durante a Segunda Guerra Mundial os EUA estavam unidos em torno de um único objetivo, a situação americana dos anos 1960 e 1970 nada tinha a ver com isso:

Em cada noticiário da TV e em cada jornal matinal a guerra era reportada batalha por batalha, mas pouco ou nenhum sentido do propósito da batalha era expresso. Eventualmente isto contribuiu para a impressão de que estávamos lutando em um terreno militar e moral movediço, e não em direção de um objetivo importante e valoroso.

Se o papel da imprensa na ocasião for entendido como o de apenas replicar aquilo que ocorria nos campos de batalha, então talvez não haja muito o que ser criticado. Neste sentido, no entanto, Hallin faz mais uma observação sobre a mídia. O jornalismo nem sempre foi um setor no qual valores de isenção e imparcialidade eram estimulados. Da mesma forma, estes valores não passaram a ser praticados sem que antes houvesse uma troca com os próprios órgãos políticos e governamentais:

… jornalistas desistiram do direito de falar com uma voz política própria e, em troca, receberam um direito de acessar regularmente órgãos internos do governo; um direito do qual nunca desfrutaram na era do jornalismo partidário.

Os tempos do jornalismo apoiado diretamente por partidos políticos e, mais tarde, dos jornais que atuavam em nome de seus “barões” provam historicamente que não existe um único modelo a ser adotado pela mídia. O jornalismo objetivo e isento certamente cumpre um importante papel. Mas, como mostra a Guerra do Vietnã e eventos de meados do século passado, as circunstâncias estão ligadas às formas de atuação midiática. Com o surgimento e popularização da Internet, o modelo de publicidade que tanto estimulava a produção de um jornalismo imparcial dá claros sinais de exaustão. Inovar é se colocar à frente das novas demandas. E quais seriam elas nestes novos tempos?

Entre tantos papéis atribuídos ao jornalismo, um vem sendo abordado com bastante frequência nos últimos tempos: o de defender a democracia por meio da vigilância ao poder. Mas esta tarefa é, no mínimo, vaga demais. Mesmo porque, democracia envolve uma série de questões divergentes, de forma que a própria tentativa de definir aquilo que a ameaça estará sempre acompanhada de muita subjetividade.

Em artigo publicado na Wired, o escritor Antonio García Martínez argumenta que a democracia norte-americana se sustentou, prosperou e se consolidou nos anos pré e pós independência sem nunca ter uma imprensa objetiva e imparcial. O que eles pareciam ter, ao contrário, era uma imprensa simplesmente muito ativa que não se colocava acima do debate, mas justamente no meio dele

Não é, obviamente, o caso de lutarmos por uma revolução jornalística com o fim de transformar as empresas em veículos partidários ou panfletos militantes. Isso seria absurdo. Mas se nossa democracia precisa ser discutida, não seria a hora de descermos de alguns pedestais e nos envolvermos mais com a população, tanto para nos fazermos compreender quanto para compreendê-la?

Valores são importantes para guiar nossas condutas. No jornalismo, temos como princípio a busca pela imparcialidade. Ainda assim, é importante perguntar: por mais que seja capaz de orientar as normas profissionais, até que ponto a imparcialidade é compatível com o que significa ser humano?

Afinal, não fazemos julgamentos de valor? Não observamos e opinamos? Não percebemos o que parece certo e o que se mostra errado?

Como argumentava o escritor, crítico literário e filósofo inglês Chesterton, a chamada imparcialidade pode significar uma mera indiferença, enquanto a parcialidade pode ser uma simples atividade mental – que nos força a pensar e não apenas a repercutir.

Falando concretamente do jornalismo, a opinião é frequente, em maior ou menor grau, no conteúdo veiculado. A busca pela imparcialidade mitiga a sua exposição, mas dados cuidadosamente pinçados e declarações de especialistas muito bem selecionados frequentemente contam aquilo que queremos que seja captado pelo público.

Portanto, sem apresentar claramente nossas opiniões, com que frequência não optamos por uma omissão calculada? 

O jornalista enfrenta diversos dilemas, e ser parcial por certo tem seus problemas. Se não há uma conduta perfeita a ser adotada pelo profissional, a exposição transparente de ideias e opiniões ao menos facilita ao público cobra-lo por seus posicionamentos. Por si só, este já não seria um bom estímulo para uma conduta jornalisticamente responsável?