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Qual o impacto que os veículos jornalísticos podem ter na economia local? Em Minas Gerais, a TV Integração responde esta pergunta de uma forma simples e eficiente. Não é apenas através da produção de conteúdo que o jornalismo cumpre com sua função social. Um serviço que mistura traços das antigas páginas amarelas dos guias telefônicos com o bom e velho “classificados” dá visibilidade ao comércio de bairro.

O MegaDelivery nasce da necessidade impulsionada pela pandemia. De portas fechadas, mas com as contas em aberto, pequenos negócios locais encontram na plataforma um jeito gratuito de chegar aos consumidores. “Analisamos os cadastros que estão sendo feitos e a grande maioria não tem condições de ser anunciante da TV”, pondera Wladmir Virote, gerente de negócios e administração da afiliada da TV Globo em Juiz de Fora e um dos responsáveis pelo projeto

Ao lado de Paulo Vieira, diretor de jornalismo da TV Integração e masteriano de 2013, Wladmir  vê no MegaDelivery um potencial de conscientização dos comerciantes a respeito do quão benéfica pode ser a propaganda e os resultados que ela traz. “Estamos vivendo um momento de dificuldade para todos os pequenos negócios e eles precisam dar vazão a seus produtos e serviços, precisam comunicar à população o que funciona e como”, analisa. 

Do Marquinhos Serralheiro aos Bolos da Tia Pati

São salões de beleza, doceiras, escritórios de contabilidade, floriculturas, serviços de lavagem de carro, motoboy, eletricistas, assistências técnicas autorizadas, professores de inglês e uma série de outros tipos de estabelecimentos de pequeno e médio porte. Nos primeiros cinco dias, o MegaDelivery cadastrou 667 negócios das 500 cidades com cobertura da TV Integração.

Amostra de estabelecimentos cadastrados no MegaDelivery

Na verdade, é o próprio estabelecimento quem faz o registro na plataforma. Após uma checagem automatizada de links de redes sociais, profissionais da emissora fazem a validação do cadastro antes que o negócio apareça no site. Nesta etapa inicial o desafio é povoar a plataforma. Para isso a TV criou campanhas em espaços editoriais e de publicidade. A próxima etapa será desenvolver o hábito dos consumidores mineiros usarem os filtros do site para localizarem profissionais e produtos acessíveis, mesmo em tempos de isolamento.

A volta do MegaMinas

Tornar o site uma referência para o comércio local da região não deve ser uma tarefa difícil, já que o MegaDelivery reativa a marca Megaminas, uma velha conhecida do internauta mineiro. O MegaDelivery deve ser um braço do Megaminas, portal de conteúdo da TV Integração que existiu entre 2001 e 2013, quando todos os sites locais das afiliadas da TV Globo passaram a operar sobre a marca G1.

“A ideia do MegaMinas é de ter outros módulos que estão em planejamento, como balcão de empregos, previsão do tempo, cotações financeiras e entretenimento local”, anuncia Wladmir. Apesar de resgatar algumas de suas funcionalidades, o MegaMinas não irá competir com a operação digital de notícias da emissora, que seguirá no G1.

Jornalismo para criar pontes

No livro “A armadilha do conteúdo”, o autor Bharat Anand fala de uma relevância dos veículos de outrora em criar conexões entre pessoas com interesses semelhantes. No fundo, estes jornais não ganhavam dinheiro vendendo conteúdo, mas conectando compradores e vendedores, empregados e empregadores em espaços amplamente frequentados.

Qualquer semelhança com Uber, Airbnb ou mesmo com as redes sociais não é mera coincidência. O negócio da mídia funciona, historicamente, através da relevância das conexões sociais que promove. O conteúdo atrai, incentiva o trânsito pela plataforma; mas o que realmente envolve – e noutros tempos, dava dinheiro – é o encontro de quem tem interesses complementares em comum.

A situação atual das empresas jornalísticas – especialmente das provenientes da mídia impressa – mostra que Bharat tinha razão. Por mais que o MegaDelivery seja de uso gratuito tanto para os donos dos estabelecimentos quanto para os clientes, a aproximação da TV Integração com as comunidades locais deve se aprofundar e, quem sabe, recuperar ao veículo a função de alto impacto social na criação de pontes que fortalecem a economia e as relações locais.

A transformação que o mundo atravessa, diante da pandemia do novo coronavírus, está abalando diversas indústrias — inclusive a jornalística. Sem previsão para o fim da crise sanitária e econômica, anunciantes seguram o bolso. Em consequência, cai a verba publicitária que sustenta os veículos de comunicação, sobretudo aqueles que não têm assinatura como uma de suas fontes de receita.

Aqui no Brasil, empresas de mídia começaram a cortar o salário de jornalistas, seguindo a MP 936, que permite a redução de remuneração (em 25%, 50% ou 70%) proporcional à jornada de trabalho. As inevitáveis demissões já se confirmam em grupos como Abril e RBS. Os jornalistas se deparam com um cenário de instabilidade financeira, que parece aprofundar a crise na profissão em suas diversas frentes — de credibilidade, de influência e, claro, de mercado.

A mídia perdeu o monopólio da comunicação, e audiências pulverizadas foram se conectando cada vez mais a perfis pessoais e ideológicos em detrimento de publishers.

Desde a década passada, o jornalismo tem visto sua reputação colocada em xeque ao ser atacado duramente por governantes. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rotulou a imprensa americana de “fake news media” e “inimiga do povo”. Diferentemente de outras épocas, desta vez o desprestígio contou com expressiva adesão popular; cada vez mais, os americanos confiam menos na mídia

No Brasil, o boicote do presidente Jair Bolsonaro, fã de Trump, à imprensa tem sido semelhante. Perseguição a jornalistas e relatos de desrespeito e humilhação se tornaram comuns na cobertura do Palácio do Planalto, em Brasília. Só nos três primeiros meses de 2020, foi um ataque a cada três dias, aponta levantamento da ONG Repórteres Sem Fronteiras. Por aqui também, reportagens apuradas e que apresentam pluralidade de versões são tachadas de “fake news” por apoiadores do mandatário.

Além disso, a massificação das redes sociais e a popularização de smartphones permitiram a eclosão de inúmeros canais e formadores de opinião na web. Influenciadores, creators, youtubers, blogs e páginas afiliadas a movimentos sociais ou partidos políticos passaram a disputar com veículos a atenção de leitores e espectadores. A mídia perdeu o monopólio da comunicação, e audiências pulverizadas foram se conectando cada vez mais a perfis pessoais e ideológicos em detrimento de publishers. Como resultado, a influência da imprensa diminui, e a desinformação, muitas vezes fomentada pelos players em ascensão, impera.

Apesar de tanta má notícia para o jornalismo, a pandemia acarretou mudanças na rotina produtiva da notícia e no consumo de informação, que podem ser tanto oportunidades quanto esperanças para nossa profissão. 

A constatação de que é possível produzir um bom jornalismo de qualquer lugar, mesmo ao lado de onde você acorda, pode ajudar a salvar o nosso negócio!

Os 5 fatos que listo a seguir podem não ser a solução para o jornalismo, mas seguramente servem de farol para diretores de redação, executivos dos veículos de comunicação e estudiosos que, como eu, buscam o modelo de negócios ideal para produção de conteúdo de qualidade:

1. O zap e o Face estão em baixa na confiança dos brasileiros

A TV e os jornais são os veículos de comunicação em que os brasileiros mais confiam sobre informações do coronavírus. A constatação foi de pesquisa Datafolha publicada em 23 de março. A televisão conta com 61% de confiança; os jornais, 56%; rádio, 50%; e, mais atrás, os sites de notícia, 38%. WhatsApp e Facebook têm apenas 12% de confiança cada um. 

Mas o dado que sobressai é o nível de desconfiança nas duas marcas de Mark Zuckerberg em relação aos conteúdos divulgados da Covid-19: 58% não confiam no zap e 50% não confiam no Face. A desconfiança na TV, jornais e rádio não passa dos 12%. Em sites de notícia, 22%. Como jornalista, é um alento saber que a população reconhece no jornalismo profissional a informação mais confiável para basear práticas de prevenção da doença.

2. Audiência do jornalismo cresce na TV e na Internet

A pesquisa Consumo de Informações sobre o Coronavírus no Brasil, do Orbis Media Review, aponta que os sites de notícia e a TV aberta são os principais canais de novidade sobre a Covid-19. Dos 240 entrevistados de 25 de março a 2 de abril, 78% se informam a partir de portais e 54% pela TV.

Em linha com os números do Datafolha e do Orbis Media Review, os resultados positivos de sites de notícia e canais de TV nos últimos meses indicam que os brasileiros estão correndo para o jornalismo profissional para se municiar contra a Covid-19. Maior portal brasileiro, o UOL informou que em março a cobertura da crise do coronavírus levou a “índices sem precedentes de audiência”. Foram quase 1 bilhão de visitas, de acordo com o Google Analytics. Em abril, a Folha atingiu recorde de páginas vistas, embalada também pela crise política. 

Na TV aberta, programação especial de coronavírus elevou a audiência da Rede Globo. Na TV paga, o segmento de notícias foi o que mais cresceu durante a quarentena. Apenas de 9 a 22 de março, o aumento no número de aparelhos ligados nos canais all-news foi de 111%.

3. Jornalismo científico e de saúde ganha relevância

Não é surpresa que mais reportagens de saúde e de ciência estejam nas manchetes dos jornais e sites de notícia. Afinal, a curiosidade sobre a doença, as descobertas mais recentes sobre o vírus, as dúvidas sobre os tratamentos potenciais, a expectativa pela vacina, tudo isso está na pauta do dia. O jornalismo cola na ciência, e ambos reafirmam mutuamente sua importância — um dueto mais do que necessário em tempos de negacionismo.

No HuffPost, onde trabalho, temos uma repórter totalmente dedicada à saúde e à ciência. Ela tem conseguido antecipar estudos, como o que relaciona desigualdade social a acesso a testes de Covid-19 no Brasil, e deu furos como o da limitação de confiabilidade dos testes rápidos, que depois virou notícia no Globo

Segundo a pesquisa do Orbis Media Review, há uma demanda substancial por pesquisas sobre a cura ou vacina do coronavírus (50% dos entrevistados). Como não há horizonte para o fim da crise de saúde e da busca por esse tipo de informação, o jornalismo científico se apresenta como um dos caminhos mais promissores para a imprensa.

4. A “redação distribuída” veio para ficar

Diversas redações de jornais e sites de notícia estão operando integralmente via home office. Se num primeiro momento emergiram as dificuldades de trabalhar de casa e focar individualmente em tarefas que antes se faziam coletivamente, em voz alta e com muito barulho, os jornalistas vão se adaptando ao novo ambiente de trabalho, onde mais uma vez as tecnologias digitais ganham protagonismo inequívoco.

“As infraestruturas digitais implantadas agora devem ser mantidas e desenvolvidas para funcionar paralelamente aos espaços físicos. Ao fazer isso, nós podemos capitalizar em todas as coisas que mantêm o trabalho distribuído tão efetivo.”

Tom Treweinnard

Em entrevista ao Jornalistas&Cia, o editor de Esportes do Estadão, Robson Morelli, conta que todos os profissionais estão trabalhando remotamente. “Nós agora estamos nos contatando via ferramentas de meeting, videoconferências, e o processo fica mais lento, mas funciona. Alguns especialistas dizem que talvez essa situação possa vir a se tornar um legado, pois as pessoas se deram conta de que é possível trabalhar remotamente sem perder a qualidade do que é feito”, opina.

A observação de Morelli vai ao encontro da tese do cofundador da Fathm, consultoria americana de jornalismo digital, Tom Treweinnard. No artigo A crise do coronavírus vai acabar em algum momento, mas a redação distribuída veio para ficar, publicado pelo NiemanLab, ele lista os benefícios dessa nova dinâmica do jornalismo, que deixou temporariamente os limites espaciais das redações para estar espalhada pelas residências dos jornalistas.

“As infraestruturas digitais implantadas agora devem ser mantidas e desenvolvidas para funcionar paralelamente aos espaços físicos”, escreve Treweinnar. “Ao fazer isso, nós podemos capitalizar em todas as coisas que mantêm o trabalho distribuído tão efetivo.”

O home office seguramente reduz custos de uma redação. Gastos com instalações, manutenção do espaço, seguros, segurança, limpeza: tudo isso pode ser poupado se o local de trabalho dos editores for sua casa. A constatação de que é possível produzir um bom jornalismo de qualquer lugar, mesmo ao lado de onde você acorda, pode ajudar a salvar o nosso negócio!

Treweinnar também relata que este novo cenário tem implicações positivas para acessibilidade e diversidade. Como boa parte dos grandes veículos de comunicação fica em capitais e em bairros centrais, há entraves econômicos, sociais e espaciais para que jornalistas de periferias, oriundos de cidades menores e com deficiência física possam integrar os quadros dessas empresas. A redação distribuída seria mais inclusiva na medida em que o deslocamento para o centro não seria mais pré-requisito para trabalhar no jornal X ou no site Y.

5. Esta é a hora da reconexão com o público 

Além do medo do novo coronavírus e dos efeitos econômicos da pandemia, como o desemprego e a pobreza, o próprio isolamento é uma preocupação constante. Como passar o tempo, de que modo enfrentar o tédio, como contornar a ansiedade, a solidão e até a depressão são questões que perpassam pessoas de todas as faixas etárias nesta quarentena.

Esta é uma oportunidade única para o jornalismo fazer-se importante, para além de noticiar sobre o novo coronavírus. Muita gente, aliás, não quer saber de doença. A busca por boas notícias saltou no Google americano, de acordo com o The New York Times. Os Estados Unidos lideram hoje o ranking da Covid-19, com mais de 1,1 milhão de casos confirmados.

A National Geographic criou duas newsletters com fatos positivos para enviar aos leitores durante este período de pandemia. “As pessoas estão buscando uma razão para continuar”, afirmou o editor-executivo de newsletters, David Beard, ao NYT. Uma newsletter é dirigida aos pais e filhos — para “explorações” em família — e a outra, intitulada Your Weekly Escape traz histórias de pessoas e lugares extraordinários, com as belíssimas imagens que são características da publicação. “Eu penso nela [Weekly Escape] como um app de meditação, mas é jornalismo“, resume Beard.

No Brasil, as lives são ferramentas poderosas de informação, comunicação e entretenimento que têm se popularizado ainda mais nesta quarentena. De custo relativamente baixo, se comparado ao aparato de produção de vídeo de TVs e estúdios, a transmissão ao vivo de uma entrevista, um bate-papo sobre um tema de interesse da audiência pode estreitar vínculo com os leitores-seguidores no YouTube, Twitter, Facebook e principalmente Instagram.

No HuffPost, também escolhemos fazer lives de temas que fogem do novo coronavírus. Os seguidores do Instagram são convidados a participar de cineclubes, conversas com estrelas de reality show e debates sobre temas de comportamento da atualidade. As perguntas dos leitores são tão importantes quanto a do jornalista que conduz a entrevista. 

Este senso de pertencimento e participação pode contribuir com o resgate da confiança nos veículos de comunicação. Como diz o pesquisador João Arantes, “se a mídia puder dialogar com o público e contribuir com o bom conteúdo que é capaz de produzir, sua função já estará sendo cumprida e o debate público se tornará ainda melhor”.


As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.

Quando o assunto é a inovação no jornalismo, tendemos a esquecer que a atuação humana é essencial no processo. Isso ocorre porque, atualmente, os jornais têm concentrado grandes esforços em novas tecnologias na tentativa de entender melhor o comportamento do leitor e aumentar seus faturamentos.

No entanto, não podemos esquecer que, para a transformação acontecer, serão necessárias pessoas que liderem e que conduzam este processo.

As inovações tecnológicas são importantes, mas nenhuma será eficaz o suficiente se as empresas jornalísticas não investirem em líderes capazes de conduzi-las.

Afinal, no seu veículo, quem vai liderar a inovação e tomar as melhores decisões diante dos desafios das novas tecnologias? Quem vai provocar a mudança de cultura necessária para se inovar? Quem vai desenvolver os talentos para garantir o sucesso das próximas gerações?

Era o início da noite de 14 de fevereiro de 2020 e o centro histórico do Recife já estava agitado com o pré-carnaval. Pelas janelas do prédio da Rua Marquês de Olinda, onde está a sede do mais antigo jornal da América Latina, o Diário de Pernambuco, era possível ouvir a passagem barulhenta de inúmeros blocos e grupos. A alegria parecia contagiar os profissionais da Redação, que preparavam a primeira edição de um jornal renovado em conteúdo e forma e que anunciava o projeto Rumo aos 200 anos – o DP, como é carinhosamente chamado, tem 194 anos de uma história riquíssima.

As duas ideias eram parte de um trabalho iniciado havia pouco mais de 60 dias, com a intenção de melhorar com rapidez a sobrevida do título. Como todos os jornais tradicionais, o Diário de Pernambuco vem sofrendo as consequências da revolução digital. Alguns, como o DP, em grau desesperador, por diversas razões. Não havia verba para melhorias, pois o capital disponível era usado para pagar os salários e as dívidas e para manter a operação.

Nos muitos anos em que passei pelo Estadão (foram 26, a partir de 1990), percebi o quanto um processo de desconstrução é difícil.

O jornal estava editorialmente frágil, com pouca produção local, trazendo basicamente conteúdos nacionais. A operação digital, que chegou a ser uma das melhores do Brasil, mostrava números de quedas impressionantes. Resultado do processo de enxugamento de sua Redação, vivido por todos os grupos brasileiros para tentar manter seu título vivo. E tinha ainda distorções sérias de produção e negócio, causadas por cortes em todas as áreas na mesma busca pela sobrevivência.

Nos muitos anos em que passei pelo Estadão (foram 26, a partir de 1990), percebi o quanto um processo de desconstrução é difícil. Tive a chance de acompanhar e comandar alguns deles. Certamente um dos maiores problemas era o desejo de tentar manter a maior parte das estruturas existentes, mesmo com a redução gradual dos recursos e do pessoal. Com o tempo este processo vai causando uma distorção enorme não somente na forma de produzir e entregar o conteúdo, mas nas áreas de produção, logística e negócios. Gera distorções como as vistas então no DP. Não só uma Redação voltada basicamente para o fechamento do jornal, com pouquíssima produção local e num horário muito tardio, mas uma marca com muitos produtos supérfluos e uma operação de produção e de logística não adaptada às novas condições.

O processo de foco preciso impactava positivamente não só a Redação, mas a operação digital, de logística, de mercado leitor, comercial e administrativo.

Tanto na experiência no Estadão como em outros trabalhos posteriores na Bahia, tinha ficado claro que era preciso abrir mão de cadernos, seções e produtos secundários, para liberar profissionais e energia no trabalho do que era o principal da marca. No caso do Estadão, um jornal do poder – político, econômico, cultural, etc. No dos regionais, a cobertura de sua cidade, seu Estado. O processo de foco preciso impactava positivamente não só a Redação, mas a operação digital, de logística, de mercado leitor, comercial e administrativo.

Confiando nas experiências, o foco principal no DP foi o de buscar medidas de melhorias na operação e na reorganização da forma de trabalho da Redação. Algumas soluções simples e de rápido ganho foram tomadas na produção. Foi definido um comando claro e criado um grupo de líderes do projeto entre alguns dos profissionais que haviam feito o jornal continuar funcionando, apesar das terríveis ondas de cortes dos últimos anos. Foi assim definida uma nova forma de trabalho na Redação, baseada no foco na produção local e exclusiva. Os muitos níveis horizontais de produção foram drasticamente simplificados e horários modificados para atender ao novo foco. Para isso, seções e cadernos secundários foram excluídos. Em paralelo foi pensado um projeto gráfico e de conteúdo que mantivesse as características históricas do jornal, mas com soluções simples que mostrassem sua evolução.

Era a fase 1 do trabalho. Os resultados foram bem recebidos por leitores e pelo mercado. A operação digital ganhou agilidade e mais conteúdos locais e a audiência e o engajamento dispararam. Houve em seguida uma etapa rápida de ajustes e correções. A fase 2, a de novas mudanças editoriais e de operação e o início do projeto Rumo aos 200 Anos, iria ser iniciada no final de março. A ideia do projeto é mobilizar empresários, autoridades e a sociedade no apoio de um caminho para tornar o DP, um patrimônio não só do Recife e de Pernambuco, mas do Brasil, o primeiro jornal da América Latina a conseguir chegar ao bicentenário. Aí veio o coranavírus…

Escrevo este texto no dia 2 abril de 2020, em meio à pandemia. Estamos eu e a família isolados em casa, preocupados com a sobrevivência, como quase todo mundo. Sobrevivência, justamente a palavra que certamente mais usei neste e em outros projetos que tive a honra de comandar. A fase 2 foi adiada, sabe-se lá para quando e como. Enquanto escrevo, parece ainda estar distante a certeza de quando e como eu e minha família e muitos jornais do Brasil chegaremos ao fim desta crise. Espero que estejamos todos bem e que o DP possa comemorar seu bicentenário.

Por Eduardo Acquarone

A primeira onda do Covid-19 fez com que todos nos recolhêssemos e começássemos a testar, na prática, o que se discute teoricamente há anos: ensino à distância, home office. Ainda não há um consenso, mas parece provável que a nova sociedade que virá incorpore de maneira permanente alguns desses novos hábitos.

A mídia também passou por uma revolução em poucas semanas, especialmente em relação aos hábitos de consumo e ao nível de confiança: as audiências dos canais de TV, especialmente os de notícias, explodiram e houve um grande aumento de confiança nos media tradicionais frente às informações disponíveis em mídias sociais; ao mesmo tempo, pequenos jornais e sites locais, já pressionados pela diminuição da publicidade, talvez não resistam e desapareçam. 

Em termos de comunicação, precisamos lidar com um paradoxo que tem ficado cada vez mais claro: a tecnologia consegue preencher algumas funções, mas ainda necessitamos de contato humano, algo que nenhuma chamada via Skype ou Zoom consegue preencher

Você, transformado em interrogador, tem que decidir: essa pessoa deve entrar nos Estados Unidos ou não?

E, no caso específico do jornalismo, é preciso não perder a conexão com as pessoas, mesmo através de aparatos super tecnológicos. É nessa “linha estreita” que trabalham alguns artistas e produtores audiovisuais. As experiências já realizadas ainda têm pequena escala (de distribuição) e alto custo. Mas apontam um caminho altamente promissor.

A obra “Terminal 3”, de Asad J. Malik, simula a entrevista de um agente da imigração norte americana com viajantes muçulmanos.

Em “Terminal 3”, o diretor paquistanês Asad J. Malik coloca o público numa posição incomum. Ao colocar os óculos de realidade aumentada, a pessoa se torna um funcionário de imigração norte-americano, cuja função é permitir ou não a entrada de passageiros que embarcam em Abu Dhabi. 

Na experiência, a pessoa começa uma conversa com uma figura holográfica, quase fantasmagórica, que vai ganhando forma à medida que a conversa prossegue. Todos os hologramas da experiência são baseados em pessoas reais, portanto as respostas são também reais. E você, transformado em interrogador, tem que decidir: essa pessoa deve entrar nos Estados Unidos ou não?

O fato dos hologramas representarem viajantes muçulmanos é mais um fator que precisa ser levado em conta por quem faz a experiência. Ou isso não é relevante? A resposta está na mente de cada um, e isso já é uma mudança enorme em relação à mídia não-interativa e não-imersiva.

Talvez, essa nova empatia produza resultados como uma maior disposição para ouvir opiniões divergentes.

Um outro exemplo é a exibição “Take a Stand”, no Illinois Holocaust Museum. Desde 2017 o público do museu vai a um auditório e pode conversar — sim, conversar — com um dos 13 sobreviventes do Holocausto que foram captados em vídeo volumétrico (em 3D) e transformados em hologramas. 

A conversa acontece de forma natural. Alguém faz a pergunta em um microfone e o holograma (auxiliado por programas de Inteligência Artificial que entendem a pergunta e buscam instantaneamente a resposta adequada dentre horas e horas de gravação) responde.  Para o público, fica a impressão de uma conversa — não com uma máquina ou através de uma tela, mas sim com uma pessoa real, que apenas por um “detalhe” não está lá. A emoção é similar. 

“Terminal 3”, apresentado pela primeira vez no Festival de Tribeca nos Estados Unidos em 2018, ainda é uma experiência difícil de ser vista — é necessário uma sala cenográfica e equipamentos caros que precisam ser calibrados para que a ilusão da realidade aumentada funcione de maneira adequada. Diferentes versões de Take a Stand começaram a ser apresentadas em museus nos Estados Unidos e Europa. Em ambos os casos, a presença física é necessária, o que impede que experiências assim atinjam um número maior de pessoas. 

Mas em breve experiências parecidas poderão ser feitas dentro de casa. O novo iPad lançado pela Apple em março vem com um novo scanner Lidar, uma tecnologia que permite mapear o ambiente onde se está. A partir daí é possível inserir objetos digitais que interagem com esse ambiente. Alguns analistas acham que a tecnologia logo será incorporada também aos iPhones.

Os celulares, aliás, serão as principais ferramentas para as novas narrativas. Apps como The Enemy — onde você fica posicionado entre dois inimigos e ouve ambas as histórias — ou JFK Moonshot — feito para comemorar os 50 anos do homem na Lua e que mistura games com uma reprodução fiel, incluindo sons e movimentos, do lançamento da Apollo 11 — já mostram o potencial dessas novas formas de contar histórias.

Ao trazer a história para dentro de casa, ao usarmos nosso corpo para nos movimentarmos, ao nos sentirmos “dentro” da experiência, há uma possibilidade maior de entendimento — e, talvez, essa nova empatia produza resultados como uma maior disposição para ouvir opiniões divergentes. Talvez experiências assim possam começar a romper nossas bolhas digitais e comportamentais exacerbadas por algoritmos de redes sociais. Será o momento em que realidades — virtuais ou aumentadas — passam a ser apenas “reais”.


* Roteirista, diretor e criador de projetos digitais, o jornalista Eduardo Acquarone (eduacquarone@gmail.com) trabalha com inovação desde 2008, quando lançou o Globo Amazônia, projeto indicado ao Emmy Digital e que conseguiu mais de 55 milhões de protestos virtuais contra a destruição da floresta. Em 2015 estudou no Tow-Knight Center for Entrepreneurial Journalism em Nova York, onde fundou a Flying Content, empresa que mistura narrativa com tecnologia. Após trabalhar em empresas como CBS (EUA), Reuters, UOL e TV Globo, hoje Eduardo atua como consultor, além de fazer parte do grupo de pesquisas LabArteMídia (ECA/USP) e de estar na fase final de um doutorado no Iscte-IUL, em Lisboa, com a tese “Imerso na notícia: Como a Realidade Virtual pode ajudar o jornalismo a solucionar problemas reais“.