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jornalismo declaratório

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O jornalismo está fustigado não apenas por uma crise grave. Vive uma mudança cultural vertiginosa. A revolução digital é um processo disruptivo. Quebra todos os moldes e exige uma forte reinvenção pessoal e corporativa.

O jornalismo vai morrer? Não. Nunca se consumiu tanta informação como na atualidade. O modelo de negócios está na UTI. A publicidade tradicional evaporou-se. E não voltará. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. A pressão pela conquista da atenção dos consumidores, o frenesi da audiência, a necessidade inescapável de aumentar a carteira de assinaturas e o esforço de fidelização tira, e muito, o sono e, frequentemente, o foco: o conteúdo de qualidade.

O cenário do consumo de informação preocupa. Exige reflexão, autocrítica e coragem. Vamos aos fatos: 54% das pessoas evitam ativamente o noticiário no Brasil. Quase metade daqueles que diziam fugir das notícias, no mundo e também entre nós, alegavam que estavam esgotados do noticiário de política e sobre covid-19. Excessivo baixo astral.

Os dados estão no artigo da professora Ana Brambilla no Orbis Media Review, que dissecou o último relatório global sobre jornalismo digital do Reuters Institute divulgado em junho do ano passado. De lá para cá nada mudou. Suscita preocupação. Mas também pode abrir uma avenida de iniciativas transformadoras.

Além disso, o modo de produzir informação e o diálogo com o consumidor romperam o modelo tradicional. As pessoas rejeitam intermediações – dos partidos, das igrejas, das corporações, dos veículos de comunicação.

O que fazer? Olhar para trás? Tentar fazer mudanças cosméticas? Não. Precisamos olhar para a frente, mudar de verdade e descobrir incríveis oportunidades.

Mas é preciso, previamente, fazer uma autocrítica corajosa a respeito do modo como vemos o mundo e dialogamos com ele.

Qual é o nosso mundo? Antes da era digital, em quase todas as famílias existia um álbum de fotos. Lembra-se disso, amigo leitor? Lá estavam nossas lembranças, nossos registros afetivos, nossa saudade. Muitas vezes abríamos o álbum e a imaginação voava. Era bem legal.

Agora fotografamos tudo e arquivamos compulsivamente. Nosso antigo álbum foi substituído pelas galerias de fotos de nossos dispositivos móveis. Temos overdose de fotos, mas falta o mais importante: a memória afetiva, a curtição daqueles momentos. Fica para depois. E continuamos fotografando e arquivando. Pensamos, equivocadamente, que o registro do momento reforça sua lembrança, mas não é assim. Milhares de fotos são incapazes de superar a vivência de um instante. As relações afetivas estão sucumbindo à coletiva solidão digital.

Algo análogo, muito parecido mesmo, acontece com o consumo da informação. Navegamos freneticamente no espaço virtual. Uma enxurrada de estímulos dispersa a inteligência. Ficamos reféns da superficialidade. Perdemos contexto e sensibilidade crítica. A fragmentação dos conteúdos pode transmitir certa sensação de liberdade. Não dependemos, aparentemente, de ninguém. Somos os editores do nosso diário personalizado. Será?

Não creio, sinceramente. Penso haver uma crescente nostalgia de conteúdos editados com rigor, critério e qualidade técnica e ética. Há uma demanda reprimida de reportagem. É preciso reinventar o jornalismo e recuperar, num contexto muito mais transparente e interativo, as competências e a magia do jornalismo de sempre.

Jornalismo sem alma e sem rigor. É o diagnóstico de uma perigosa doença que contamina redações. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do asfalto. É preciso dar novo brilho à reportagem e ao conteúdo bem editado, sério, preciso, isento.

É preciso contar boas histórias. Com transparência e sem filtros ideológicos. O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história.

Sucumbe-se, frequentemente, ao politicamente correto. Certas matérias, algemadas por chavões inconsistentes que há muito deveriam ter sido banidos das redações, mostram o flagrante descompasso entre essas interpretações e a força eloquente dos números e dos fatos. Resultado: a credibilidade, verdadeiro capital de um veículo, se esvai pelo ralo dos preconceitos.

A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso encantar o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência. Além disso, os consumidores estão cansados do baixo-astral da imprensa. O cidadão que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.

Perdemos a capacidade de sonhar e a coragem de investir em pautas criativas. Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo. E redescobrir uma verdade constantemente negligenciada: o bom jornalismo é sempre um trabalho de garimpagem.

O papel da informação no conturbado momento nacional mostra uma coisa: o jornalismo está mais vivo que nunca. Exatamente por isso é que mudar é preciso.

Escrevo esta coluna no campus da Universidade de Navarra, Espanha. Estou participando do VII Encontro Internacional do Programa de Graduados Latino-Americanos (PGLA). Um evento formidável com muitos colegas de prestígio no mundo da comunicação.

O cenário do consumo de informação preocupa. E muito. Exige reflexão, autocrítica e coragem. Todos, sem exceção, percebem que chegou para o jornalismo a hora da reinvenção.

A sociedade está cansada do clima de militância que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo. Um denominador comum marca o achismo que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: radicalização e politização. Trata-se de um fenômeno generalizado.

O jornalismo reclama alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais do que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.

O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve precedentes que poderiam ter sido evitados, não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Pensemos, por exemplo, na ignominiosa situação da corrupção. É preciso reverter um quadro que agride a dignidade humana, envergonha o Brasil e torna inviável o futuro de gerações. Não seria uma bela bandeira, uma excelente causa a ser abraçada pela imprensa?

Com seriedade e profundidade, e não como consequência do jogo político. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blá-blá-blá inconsistente, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais do que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores. E, além disso, é uma resposta ética e editorial aos que pretendem tornar o jornalismo refém da fácil cultura do negativismo.

A imprensa de qualidade, séria e independente, é essencial para a democracia. E tudo isso, tudo mesmo, depende da nossa coragem e humildade para fazer a urgente e necessária autocrítica. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais ideológicos. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

Chegou a hora do jornalismo propositivo. Aquele que não se limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções.

Uma das teorias que explicam a crise que o jornalismo vive nos dias de hoje é a do jornalismo declaratório. A fuga de anunciantes causada pela transformação digital estaria empobrecendo os meios de comunicação e comprometendo, por consequência, as redações e a qualidade do conteúdo produzido pelos veículos.

Num ambiente onde os recursos humanos são escassos, também falta tempo para fazer o básico, ou seja,  checar as informações. Seguindo esta lógica, a escassez acaba preenchida com declarações que não são  confrontadas com dados, fatos ou até mesmo versões diferentes da mesma história, o que em tese deveria ser a essência do jornalismo.

Àqueles que acreditam nesta teoria, a cada dia faltam mais recursos e sobram mais declarações alimentando um círculo vicioso que deixa o conteúdo ainda mais pobre de informação, portanto, menos interessante para o público.

No entanto, uma outra versão é possível para explicar o surgimento do jornalismo declaratório. E parte do problema teria origem no processo de desintermediação da mídia. À medida que os meios de comunicação foram perdendo o monopólio da informação, muitas autoridades e personalidades – as fontes da notícia de uma forma geral – passaram a usar outras mídias para chegar ao público.

Num primeiro momento esta tendência parece inofensiva, algo que faz parte de um novo modelo de consumo da informação no qual todos são potenciais produtores de conteúdo. Mas a situação se agrava quando estas mesmas fontes passam a evitar os meios de comunicação, priorizando apenas outras mídias para garantir o direito de não serem confrontados por suas declarações e fazendo com que prevaleça uma narrativa que lhes é favorável.

Neste cenário, o prefeito já não precisa da imprensa para anunciar uma nova obra, mas também não será questionado se o dinheiro deveria ir para outra área. O jogador de futebol pode comentar a vitória do seu time em uma live do seu Instagram, mas se esquiva de dar declarações quando a equipe perde. A celebridade consegue dar spoilers do seu novo papel na novela com vídeos curtos no TikTok, mas evita que alguém aborde suas polêmicas pessoais.

Talvez por isso, surge um movimento quase espontâneo, nos meios de comunicação, de evitar o mal-estar natural que surge quando se é obrigado a  confrontar as fontes com fatos e dados. O jornalista, então, se limita a captar as declarações e, com isso, mantém uma relação amigável entre fonte e o veículo.

Nesta dinâmica, após colher a declaração com perguntas de conexão e não de questionamento, a análise do que foi dito acontece em um segundo momento, dentro do processo de construção da notícia. É neste contexto que ganha relevância o fact checking de entrevistas que confrontam as declarações aos fatos, comparando o que é verdade ou não. A mesma lógica se aplica aos comentaristas políticos que, distantes fisicamente das autoridades, conseguem analisar as declarações de forma mais crítica e contextualizada

O caminho mais óbvio para os críticos dos meios de comunicação é apontar que a crise do modelo de negócios estaria justamente na omissão do jornalismo em sua responsabilidade de questionar os entrevistados. Mas isso não leva em conta que o risco de perder o acesso à fonte da informação pode ser ainda mais prejudicial, favorecendo a prática do jornalismo declaratório. 

Uma vez que o veículo perde o acesso à fonte, ela certamente buscará outro canal – seja de notícia ou mídia social – para fazer tal declaração. Isso agrava o processo de desintermediação da imprensa e terceiriza a responsabilidade de trazer à público aquela versão ainda que, num primeiro momento, esteja descontextualizada de outros fatos ou versões.

Soma-se a isso o tom inquisitório com que muitas entrevistas e sabatinas assumiram, como se para confrontar declarações com fatos ou dados fosse obrigatório submeter a fonte a um constrangimento público para livrá-la moralmente da culpa de ter divulgado uma informação de forma imprecisa do ponto de vista jornalístico. O público manifesta aversão a este modelo de entrevistas e tem por instinto a tendência de ficar do lado que se mostra acuado, na posição de vítima (ainda que circunstancial). 

Por fim, vale lembrar que existe ainda um terceiro caminho possível para o excesso de declarações nos meios de comunicação. Justificados pela necessidade de trazer os muitos lados de uma história, no lugar de ampliar e contextualizar a informação, muitos meios acabam se limitando a expor versões declaradas deixando ao público o julgamento opinativo. 

A proposta deste artigo não é defender o jornalismo declaratório, mas entender os possíveis cenários que fazem deste modelo um fenômeno crescente. Está claro que, em todos estes cenários, a qualidade da informação é prejudicada, reduzindo a relevância do jornalismo em geral. Mas como reverter esta onda que parece a cada dia ganhar mais força?

Parte da resposta reside em voltar a fazer o básico e revisitar os bons e velhos pilares do jornalismo. Porém, ao mesmo tempo é necessário inovar e repensar a forma como abordamos estas fontes, extraindo delas informação que não seja meramente declaratória, mas que tampouco precise soar com uma acordo de delação premiada.

O fato é que mesmo que os veículos optem por não dar mais espaço ao jornalismo declaratório, este conteúdo terá cada vez mais lugar na sociedade através das redes sociais e, de uma forma ou de outra, acabará repercutindo na imprensa. São muitos os casos recentes de lives, podcasts ou vídeos amadores que pautam debates importantes.

Por que, então, estamos terceirizando esta responsabilidade, ainda que a origem seja uma declaração? Nossos colunistas não farão comentários acerca do tema de qualquer maneira num segundo momento? Não vamos suitar o assunto com enfoque em contexto de qualquer forma? Somos tão superiores ao ponto de que só vale ter acesso a uma fonte se pudermos extrair dela o que quisermos, no formato que melhor nos convém?

Precisamos ter a humildade de reconhecer que já não detemos o monopólio da informação e tampouco somos os únicos caminhos para se revelar a verdade. Talvez seja a hora de aposentar, de uma vez por todas, a capa de super-homem, assumindo que é o disfarce de Clark Kent o que mais condiz com a nossa realidade – e que nem por isso deixamos de ser bons jornalistas.