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Mercado jornalístico

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Publicações de todas as partes do mundo viveram o “corona-bubble” de audiência online. Entre abril e junho de 2020, sites de revistas, jornais, portais de notícia eliminaram seus paywalls e viram as métricas subirem com fôlego. A boa notícia era que, em assunto de vida-ou-morte, o público confia mesmo é no jornalismo profissional.

A preocupação estava no momento de voltar a cobrar por acesso ou assinatura. Com a economia abalada, o público realmente se animaria a pagar por conteúdo depois de acessá-lo gratuitamente por algum tempo? The Atlantic foi um caso extraordinário já no começo de 2020 e converteu 36 mil assinantes apenas no mês de março, quando a contaminação já se espalhava por mais da metade do mundo.

Enquanto o mercado estremecia, The Atlantic comemorava. O restante do ano mostrou que a pandemia não seria suficiente para frear o bom momento do business. Felizmente, The Atlantic não estava sozinha.

As campeãs

Dez marcas de revistas norte-americanas tiveram desempenho positivo em todos os canais de circulação durante 2020, em comparação ao ano anterior. Entre elas, média de crescimento foi de +34% em desktop, +56% em mobile e +11% no consolidado print + digital.

Além da The Atlantic (+25% print+digital, +25% desktop e +38% mobile), a New Yorker registrou crescimento significativo (+20% desktop, +5% mobile e +13% print+digital), assim como a Wired (+19% desktop, +21% mobile, +23% print+digital). Elle foi outra marca conhecida dos brasileiros que teve algum êxito no mercado norte-americano, na faixa de +2%.

Formatos digitais x Mídia impressa

A circulação de 92 revistas norte-americanas em mobile cresceu +11%, o que não ficou muito atrás dos resultados positivos em desktop, que subiram +13%. Nos números absolutos, porém, o consumo no celular (627 milhões) é mais de quatro vezes maior do que no computador (148 milhões).

Apesar do crescimento, os formatos digitais ainda perdem em circulação para as edições impressas. A quantidade de leitores que preferem o papel é 16 milhões maior do que o grupo que lê pelo celular. No entanto, no suporte analógico, a queda de circulação é representativa e nem mesmo todo o crescimento em plataformas digitais é capaz de compensar essa perda. O consolidado print+digital apresentou resultado de -7% no comparativo entre 2020 e 2019 e atingiu 75% do mercado rastreado.

O movimento de forte queda no impresso acompanhado pelo aumento da circulação digital acontece em marcas que já existiram, existem ou estão por chegar ao Brasil:

  • Fast Company: +9% desktop, +37% mobile, -9% print+digital
  • Marie Claire: +13% desktop, +39% mobile, -21% print+digital
  • Vogue: +21,5% desktop, +38,5% mobile, -14% print+digital
  • In Style: +27% desktop, +3% mobile, -14% print+digital
  • Men’s Health: +33% desktop, +20% mobile, -7% print+digital
  • Women’s Health: +55% desktop, +38% mobile, -8% print+digital

Outras revistas mundialmente conhecidas tiveram um ano apertado ou negativo:

  • Time: +0,3% desktop, -12% mobile, -9% print+digital
  • People: -1,5% desktop, +1,5% mobile, -11% print+digital
  • Reader’s Digest (Seleções): -25% desktop, +13% mobile, -5% print+digital

Vídeo

Aos publishers que enxergam no vídeo o formato de salvação das revistas, o mercado editorial norte-americano emite um alerta: 38% dos principais títulos daquele país registraram queda de visualização.

Entre as marcas mais conhecidas estão Esquire (-37,2%), O Oprah (-64,7), People (-10,5%), Sports Illustrated (-80,5%), Time (-29,5), Vanity Fair (-4,8%), Vogue (-15,4%) e Wired (-9,1%). Até The Atlantic, que teve alta em todos os canais de circulação (desktop, mobile e print+digital) também caiu em visualização de vídeos (-2,4%).

Ainda assim, no índice geral, o formato vídeo teve um leve aumento de +1,7% em relação a 2019. As responsáveis pela melhora no cenário são quatro marcas que viram seus analytics dispararem nos players: National Geographic (+207,9%), Mother Earth News, da Ogden (+178,9%), House Beautiful, da Hearst (+151,1%) e Fast Company (+81,2%).

O relatório

Todos os dados acima constam no relatório Media 360º, publicado em dezembro de 2020 pela Alliance for Audited Media. O levantamento reúne dados de entidades como Ipsos, Comscore e outros institutos de monitoramento de circulação nos Estados Unidos e está disponível para download.

Já foi escrito anteriormente, neste Orbis, sobre o livro The Uncensored War, onde o autor Daniel C. Hallin trata da cobertura da Guerra do Vietnã pela mídia norte-americana. Aqui, novamente, tomo de empréstimo algumas de suas palavras sobre a história do jornalismo no país. Segundo ele, a profissionalização da atividade no séc. XX tem um aspecto ambíguo: se em parte serviu para dar aos jornalistas uma maior autonomia, eles, em troca, “se submeteram à autoridade de um conjunto de regras que exigiam que abandonassem o direito de usar sua recém conquistada autonomia e prestígio em busca de valores políticos próprios”. Entre estes conjuntos de regra, talvez as mais importantes sejam a objetividade e isenção.

Antes do século XX, no entanto, os jornalistas atuavam de forma diferente e, especialmente as empresas de mídia, possuíam muito mais liberdade para defender suas próprias agendas. Diz Hallin que “No séc. XIX, quando os jornais eram pequenos e numerosos, eles conseguiam defender seu papel político ao apelar para a Primeira Emenda da Constituição (que defende a liberdade de expressão) e o conceito de um livre mercado de ideias”. 

Pelos argumentos do autor, podemos entender que a atuação da mídia, ao longo da história, esteve muito ligada ao contexto do mercado: o fato de existirem muitos jornais de pequena expressão significa que o partidarismo tem efeitos mitigados. Por outro lado, abandonar a objetividade e a isenção quando o mercado é dominado por poucas empresas pode representar uma ameaça à imaginação popular.

A questão é: em qual contexto mercadológico estamos inseridos atualmente? Um que é detido por poucas empresas de mídia ou um cenário fragmentado por muitas e pequenas vozes?