Tag

news avoidance

Browsing

Uma busca rápida por manchetes publicadas na imprensa nacional nos últimos anos confirma a adoção de uma triste estrutura textual: a boa notícia seguida por “mas”. Tão usada quanto o “fulano diz que” nos títulos de notícias, a conjunção adversativa denota a preocupação premente de associarmos um elemento negativo sempre que possível.

jornalismo negativo títulos notícias

As montagens deste post são pequena amostra do tom que boa parte do noticiário assumiu: nada de bom pode ser noticiado impunemente. Repare que a estrutura de oração subordinada adverbial concessiva prolonga os títulos e quebra qualquer expectativa por algo que vinha sendo anunciado. Como um julgamento da realidade – o que jornalista deveria evitar ao máximo -, o complemento dos títulos termina sendo editorialmente desnecessário e até inoportuno, já que informação demais – e logo no título – confunde o leitor.

Para justificar esta tendência torpe de formato de conteúdo, poderíamos cogitar a hipótese de que a boa notícia seguida por “mas” é o resultado da busca por um jornalismo equilibrado, que mostra ter ouvido dois lados de uma notícia já na chamada. O problema desta nobre intenção é que ela desvia o foco do fato e, naturalmente, conduz a interpretação do público. Ora, o “complemento” que, segunda esta hipótese, serviria para “equilibrar” a notícia nem sempre é tão factual quanto a pauta central. Há casos em que tudo o que vem depois do “mas”, “porém”, “ainda que”, “entretanto” e similares não passa de uma leitura do fato noticiado segundo a perspectiva de quem escreve. Eis o momento em que a notícia termina e a opinião começa.

Fatos interpretados no título não apenas contribuem para o enviesamento da notícia; são obras concretas de desinformação. Ainda que sejam escritas de modo inconsciente, notícias que seguem esta estrutura na chamada contribuem fortemente para que o usuário – que consome notícias de modo cada vez mais incidental, ao acaso – não sinta necessidade de clicar para ler. Afinal, tanto já se disse no título, até mesmo um ponto de vista ou o recorte de uma informação adicional.

Outra hipótese para a popularização deste formato de chamada pode ser justamente uma tentativa de informar o público o máximo possível, mesmo aqueles que não clicam para ler as notícias completas, sem gerar click-bait. O dano colateral, neste caso, pode ser ainda maior: a sensação de que é impossível acontecer algo bom sem que exista um porém.

títulos notícias

O impacto negativo das notícias no humor das audiências já é um dos principais responsáveis pelo fenômeno de news avoidance, que afeta 54% da população brasileira. Desde a faculdade, aprendemos que “negatividade” é um critério de noticiabilidade e que, diante de dois acontecimentos ruins, o pior ganha mais destaque editorial. Os critérios de noticiabilidade – ou valores-notícia – foram sistematizados nos anos 60 por um casal de pesquisadores noruegueses, Johan Galtung e Mari Holmboe Ruge, a partir da análise de jornais daquele país. As particularidades culturais já são outras, mesmo se consideremos apenas os contextos geográficos. Nada contra a Noruega, ao contrário! O país tem excelentes experimentos de reeducação das audiências na criação do hábito de compra de conteúdo. É inegável, porém, que o imaginário cultural do brasileiro seja muito diferente, orientado a menos austeridade, mais informalidade e referências completamente distintas.

E quanto ao tempo? Quanta coisa mudou – inclusive na Noruega! – dos anos 60 para cá. O volume de oferta de informação, a facilidade do acesso, a operação de inúmeras atividades ao mesmo tempo e em uma só tela são os pontos mais “técnicos” dentre as profundas transformações de valores que a humanidade tem sofrido nos últimos 50 anos. Há muito mais pessoas no mundo. A competitividade só aumenta. O burnout virou a doença do novo século e por mais que a tecnologia tenha facilitado muitos processos, ela configurou um mundo mais complexo para se viver.

Naqueles 15 minutos de descanso que tem durante o dia, quando pode finalmente se informar, é muito provável que o usuário não queira sentir-se mais preocupado, decepcionado e impotente diante das agruras da realidade retratadas pelo jornalismo. Não é o caso de ignorarmos situações adversas, mas de respeitarmos quando algo de bom acontece no front. Daí, a busca pelo equilíbrio se faz mandatória em qualquer redação.

Título sempre foi a síntese daquilo que há de mais importante na notícia. Se a notícia nasce de um fato, o desafio passa a ser limitar-nos a este fato. Sem desdobramentos, sem comparações, sem contextualizações que agregam camadas interpretativas nada isentas e capazes, até mesmo, de causar desagrado a quem lê. Se há muitos tópicos relevantes em um mesmo acontecimento, cabe ao editor decidir qual será o agente do lead e preparar suítes, quando os detalhes forem demasiadamente importantes a ponto de precisarem, todos, aparecerem no título. Temos que reaprender a dar boas notícias. A saúde mental das audiências – e a nossa, convenhamos – agradece! 😉

Desde o lançamento da edição de 2022 do tradicional estudo Digital News Report, do Reuters Institute, no último dia 15 de junho, alguns setores da mídia brasileira têm comemorado o fato de o país registrar um índice de confiança nas notícias superior à média global. O percentual (48%) realmente é maior do que os 42% que representam a combinação dos 46 países investigados e isso deve ser destacado. Porém, é preciso olhar o contexto: o dado representa uma queda de confiança do brasileiro nas notícias.

A credibilidade medida no ano passado foi de 54% e isso representou um leve – e único – aumento de três pontos percentuais, impulsionado pela cobertura do início da pandemia, quando a população recorreu massivamente aos veículos profissionais em busca por informação confiável. Este fenômeno, aliás, foi percebido em veículos do mundo todo através do aumento pontual de tráfego nos sites e de audiência em canais de TV. Poucos meses depois, os números voltaram aos seus patamares anteriores, outros entraram em queda: era o fenômeno de news avoidance que se apresentava.

A história recente do índice de credibilidade no noticiário, aqui no Brasil, infelizmente, não é dos melhores. O Reuters Institute mensura esta confiança desde 2015, quando o jornalismo brasileiro representava um porto seguro de informações para  62% da população. No consolidado dos últimos sete anos, portanto, menos gente acredita no trabalho da imprensa e isso corresponde a uma queda de nada menos que 14 pontos percentuais [gráfico acima, reprodução do DNR22].

Neste ano, o Brasil não está sozinho, é claro, na perda de confiança pelo público. Nosso índice está acima da média global porque cerca da metade dos países pesquisados também registrou queda de credibilidade. Ou seja, a média global, em si, caiu; portanto, ficou mais fácil ficar acima dela. A imprensa dos Estados Unidos nunca teve um grau tão baixo de confiança desde 2015 e hoje ocupa o último lugar no ranking mundial, ao lado da Eslováquia, com 26%.

O Brasil está em nono lugar, atrás do Quênia, da Nigéria, da África do Sul, por exemplo [gráfico ao lado]. Isso abre margem para repensarmos o quanto veículos como o New York Times realmente devem ser considerados como exemplos a serem seguidos na formulação de estratégias editoriais e de modelos de negócio. Cabe lembrar, também, que o NYT antecipou o alcance da meta de 10 milhões de assinantes, projetada para 2025, ao comprar o veículo The Athletic e a plataforma de jogos Wordle e, com eles, suas respectivas carteiras de clientes.

Brasileiro é o povo que mais evita notícias

De volta ao Brasil, o Reuters Institute traz outro dado ainda mais preocupante no Digital News Report deste ano: somos o país que mais evita, deliberadamente, o consumo de notícias.

news avoidance é um comportamento que o estudo mapeia desde 2017 e identifica pessoas que decidem ignorar jornalismo. Naquela ocasião, apenas 17% dos brasileiros confessavam evitar ler, assistir ou ouvir conteúdo noticioso. Em 2019, este número já havia subido para 34% e também era superior à média global, então de 32%. Já neste ano, a quantidade de pessoas que evita ativamente o noticiário disparou para 54% – o maior índice global.

A diferença do dado de news avoidance entre o Brasil e o segundo lugar – Reino Unido – é de oito pontos percentuais, uma das maiores de todo o ranking. A situação fica ainda mais grave se compararmos nossos 54% com a média global, que é de 38% neste ano [gráfico a seguir].

brasil jornalismo audiências news avoidanceJá são cinco anos que os números nos alertam para a diminuição intencional no consumo de jornalismo. Segundo o relatório, há mais brasileiros desinteressados em notícias do que dispostos a acompanhar o trabalho dos veículos. Em paralelo, os modelos de geração de receita nunca apontaram com tanta força para o reader revenue (assinatura, membership, micropagamento, doação). Qual estratégia teremos que adotar para reconquistar a atenção das audiências a ponto de torná-las dispostas a pagar pelo nosso trabalho?

Uma coisa é certa: continuar cegamente o que temos feito até hoje, efetivamente, não resolverá o problema – ao contrário, o número de news avoiders brasileiros continuará subindo.

O que afasta a população das notícias

O próprio relatório do Reuters Institute dá algumas pistas sobre o que afasta o público do jornalismo. Num olhar geral sobre a amostra, quase a metade daqueles que dizem fugir das notícias alega que está esgotada da cobertura política e sobre o Covid-19. É importante lembrar, no entanto, que os relatórios de 2017 e de 2019, quando 17% e 34% dos brasileiros já confessavam estar fartos de jornalismo, não havia pandemia. Isso nos obriga a olhar para o noticiário político, cuja proporção é esmagadoramente maior na agenda de boa parte dos veículos, em relação a qualquer outro tema.

Outra razão apontada pelo público é o impacto emocional negativo que as notícias causam (36%). Já discutimos este fenômeno no Orbis Media Review e ele sempre vem associado ao crescimento do jornalismo de soluções: um modelo de reportagem em que o veículo não se limita à denúncia do que está errado, mas busca, efetivamente, mostrar como o problema pode ser resolvido.

Outros 29% admitem que estão saturados de notícia. A resposta para este problema é foco recorrente dos programas do Master Negócios de Mídia, quando estudamos casos de veículos que diminuíram a quantidade de publicações e, com isso, aumentaram resultados de audiência, de satisfação e de conversão (os mais exemplares são The Guardian, Le Monde e The Information).

Para um grupo de usuários mais jovens (até 35 anos), as notícias são difíceis de entender. O Brasil ocupa o segundo lugar, no mesmo relatório, entre os países onde a geração Z tem dificuldades para interpretar o que dizemos. Eles representam 15% dos news avoiders e estamos apenas atrás da Austrália, onde 16% dos jovens acham os produtos jornalísticos complicados.

É hora de agir

Diante destes fatos, é inevitável recuperar algumas premissas compartilhadas ao longo das últimas décadas por redações do Brasil e do mundo, na intenção de fazermos um exercício honesto de autocrítica, para identificarmos caminhos que nos levem a reverter este cenário:

  1. O jornalista é um mediador social, que traduz a informação colhida nas fontes para grupos de múltiplos níveis culturais. Precisamos falar e escrever de modo correto e acessível, sem o uso de jargões ou de vocabulário próprio do universo de nossas fontes. Como anda nossa linguagem? 
  2. Existimos para explicar como as coisas funcionam, para mostrar à população como ela será impactada pelas decisões tomadas nas instâncias de poder. Quem realmente se interessa pelo que publicamos?
  3. Se assumimos um compromisso com a isonomia, maior ainda deve ser a relação de transparência que mantemos com nossas audiências. É isso que elas esperam de nós. Conseguimos deter nossas convicções pessoais, sobretudo ideológicas, no exercício do jornalismo?
  4. Queremos ser relevantes, impactar o dia das pessoas, tornar a vida delas melhor. Como esperamos que elas se sintam ao consumirem um conteúdo que produzimos?

As perguntas e provocações não param por aqui. O mais importante, no entanto, é estarmos cientes da necessidade da mudança. Para alguns, a transformação do jornalismo pode começar no âmbito individual. Como sugestão, deixamos o Teste de Humildade Intelectual para Jornalistas, adaptado pelo Orbis Media Review a partir da revista científica Journal of Personality Assessment.

Só conseguiremos fazer um jornalismo melhor com jornalistas melhores. E para sermos jornalistas melhores, é preciso que busquemos ser pessoas melhores.