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O Orbis Media Review acaba de lançar mais uma pesquisa sobre consumo de mídia no Brasil. O estudo Consumo de Notícias por Universitários Brasileiros mostra a relação que estudantes do ensino superior, de instituições públicas e privadas, localizadas nas cinco regiões do país, tiveram com o noticiário.

A coleta dos dados foi feita entre 6 de setembro e 21 de novembro de 2022, período em que aconteceram os dois turnos das eleições presidenciais, além de outros fatos de grande projeção, como a morte da Rainha Elizabeth II, o Rock’n Rio, a morte do ator Guilherme de Pádua, os debates eleitorais e as manifestações com o bloqueio de estradas pós-segundo turno, além dos preparativos para a Copa do Mundo no Qatar.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Notícias sobre estes e outros temas, publicadas em sete grandes veículos generalistas, foram alvo da análise dos 1.030 participantes. Mais do que classificar o impacto de tais relatos em suas vidas, os estudantes disseram o que os leva a procurar por notícias e quais suas expectativas em relação às publicações.

Conteúdo útil, curioso e que “contribua com o meu desenvolvimento”

A curiosidade aparece como principal motivação e, também, como o maior efeito que o noticiário exerce sobre cada indivíduo. Em segundo lugar, os estudantes querem notícias que os ajudem no cotidiano, mas apenas 2% das chamadas que eles analisaram foram classificadas como sendo capazes de “ajudar no meu dia a dia“.

Um grupo de 62% de universitários mencionou que se sente atraído pelo noticiário que contribui com o seu desenvolvimento. Por outro lado, um quarto das análises que eles fizeram sobre as notícias reportou que tal conteúdo “é indiferente para mim“.

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Ainda assim, cerca de um terço da amostra informou acessar, assistir ou procurar ativamente algum veículo jornalístico, pelo menos, uma vez por dia. Já um quarto dos universitários admitiu não ter o hábito de consumir notícias.

Estes jovens adultos, em sua maioria matriculados em universidades públicas, lembram que a última notícia que viram foi em alguma rede social (36,6%) ou em um veículo jornalístico (34,5%). Whatsapp ou Telegram somaram apenas 2,5% das respostas quanto à fonte da informação.

Baixo impacto do noticiário

Poucos souberam contar com algum detalhe sobre a última notícia que haviam visto. Em um campo aberto para resposta, muitos pareceram lembrar vagamente sobre o relato mais recente com que tiveram contato, em sua maioria, no mesmo dia em que participaram da pesquisa. Quase 4% dos participantes admitiram não saber ou não lembrar da última notícia a que foram expostos.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Embora rejeitem a negatividade do noticiário, foi notável a quantidade de graduandos que mencionaram alguma notícia sobre violência como a última que viram. Mas um destaque maior fica por conta de acontecimentos locais ou referentes ao universo da profissão à qual se preparam. Alguns exemplos são:

[Pergunta] Qual foi a última notícia que você viu?

  • Cachorro na França é o primeiro animal suspeito de varíola de macaco” (estudante de Zootecnia)
  • Repórter que foi atingido por uma pedra por um bolsonarista” (estudante de Jornalismo)
  • Sobre a interpretação jurídica” (estudante de Direito)
  • Raio atinge e mata metade das cabeças de gado do local” (estudante de Engenharia Agrônoma)
  • Informações esportivas” (estudante de Educação Física)
  • Crítica ao imposto de renda” (estudante de Ciências Econômicas)
  • Da chuva de granizo em Minas Gerais” (estudante de Geografia)

É natural que o noticiário generalista não contemple, rotineiramente, pautas específicas de uma ou outra área e para isso está a mídia segmentada. Mas quando se fala em “notícias” ou mesmo em “mídia”, de modo geral, a política domina a agenda e aí se cria uma repulsa que os números confirmam.

O grupo mais representativo de jovens que se identificam com a esquerda (39%) dizem que a mídia é de direita. Por sua vez, 42% dos estudantes de direita percebem a cobertura da maior parte dos veículos generalistas enviesada à esquerda. A imparcialidade – tão necessária, segundo as respostas dos próprios participantes – é um atributo que apenas um quinto da amostra percebe.

Um quarto da amostra se diz neutro, ideologicamente. Isso pode ser um indicativo de que há um grupo importante de jovens adultos que se abstêm do debate polarizado. Entre eles, 44% declararam não saber avaliar se a cobertura de 11 veículos brasileiros de abrangência nacional estaria enviesada ou não. Vale sublinhar que isso não significa que eles notem isonomia no noticiário, mas provavelmente preferem ficar à margem da pauta predominante e se concentrar em assuntos de interesse e impacto imediatos.

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Poucos personagens tiveram maior repercussão na história dos Estados Unidos – e porque não dizer na história mundial -, do que Abraham Lincoln (1809-1865). Décimo sexto presidente norte-americano, Lincoln é tido como um dos principais idealizadores da democracia moderna e é definido como um dos maiores estadistas de todos os tempos por sua visão, pela capacidade de propor soluções, por sua inteligência emocional e pelo poder conciliador.

Acontece que o jovem advogado Abraham não indicava que daria espaço no futuro ao moderado Lincoln. Ainda antes de cursar a faculdade de Direito, o rapaz desenvolveu o hábito de escrever poemas e cartas ridicularizando e difamando seus desafetos. Em 1842, utilizando-se do codinome “Rebecca”, ele publicou um editorial com mentiras, ou meias-verdades, em um pequeno jornal de uma cidade do Estado de Illinois, zombando de um belicoso político irlandês.

Fake News. Nunca gostei do termo pela confusão, proposital ou não, que ele pode gerar na análise de um conteúdo.

Sensível e orgulhoso, o ofendido político descobriu o autor do texto e o desafiou para um duelo do qual somente o vencedor sairia vivo. Lincoln ficou apavorado. Era contra duelos, mas não tinha alternativas, uma vez que a recusa mancharia a sua honra para o resto da vida.

Na data marcada, os dois oponentes já estavam no local e …ufa! – no minuto final, a turma do deixa-disso entrou em cena suspendendo a peleja. A partir deste dia, Abraham Lincoln nunca mais escreveu uma linha sequer para insultar, difamar, ridicularizar ou contar mentiras sobre qualquer pessoa.

Elevar uma mentira, uma falsificação ou, para ficar no termo da moda, uma “fake” à condição de notícia – ou “news” – é contraditório e só estimula a confusão de quem seriam os agentes responsáveis pela produção de conteúdos inverídicos.

De certa maneira, o editorial de Lincoln, nos dias de hoje, poderia ser enquadrado no que convencionamos chamar de Fake News. Nunca gostei do termo pela confusão, proposital ou não, que ele pode gerar na análise de um conteúdo.

O princípio de uma notícia é exatamente basear-se em fatos. Portanto, para ser “news” é preciso ancorar-se em “facts”. Elevar uma mentira, uma falsificação ou, para ficar no termo da moda, uma “fake” à condição de notícia – ou “news” – é contraditório e só estimula a confusão de quem seriam os agentes responsáveis pela produção de conteúdos inverídicos.

Por exemplo, neste exato momento se você leitor acessar o site do portal Brasil Escola, uma referência importante de pesquisa para estudantes e professores de todo o país, e procurar “o que são Fake News?”, você verá a seguinte declaração no primeiro parágrafo:

“Fake News são notícias falsas publicadas por veículos de comunicação como se fossem informações reais. Esse tipo de texto, em sua maior parte, é feito e divulgado com o objetivo de legitimar um ponto de vista ou prejudicar uma pessoa ou grupo (geralmente figuras públicas)”.

Veículos de comunicação não produzem textos com o objetivo de difamar, desqualificar ou subverter a verdade. Quem faz isso não faz “Fake News”. Faz mentira, difamação e crime pelo qual deve ser investigado, julgado e responsabilizado.

Tal definição coloca em um mesmo balaio empresas jornalísticas – a quem devidamente cabe a classificação de veículos de comunicação -, sites noticiosos que vivem a soldo de determinados grupos militantes ou criminosos digitais. Estes entes devem ser separados e tratados de maneira diametralmente oposta às empresas de mídia.

Veículos de comunicação não produzem textos com o objetivo de difamar, desqualificar ou subverter a verdade. Quem faz isso não faz “Fake News”. Faz mentira, difamação e crime pelo qual deve ser investigado, julgado e responsabilizado.

Acontece que o jornalismo profissional, por mais correto e cuidadoso que possa ser, não está livre de falhas. (Vale um parêntese aqui para tratar deste outro termo maluco criado nestes tempos de desinformação, uma vez que, se é jornalismo, então é sempre profissional, qualquer outra coisa não é jornalismo).

Portanto, desculpem a audácia, mas deixo aqui a provocação para adotarmos novas nomenclaturas. De agora em diante sugiro chamarmos “Fake News” de “Mentira”, “Jornalismo Profissional” de “Jornalismo” e “Erro Jornalístico”, caso queiram, de “Mistake News”.

Adotando estas definições conceituais, deixamos de propagar rótulos que aviltam a produção jornalística, indispensável ao estado democrático e à garantia das liberdades individuais, nos afastando do drama existencial de Hamlet, uma vez que já está mais do que na hora de nos libertarmos do dilema “Fake or News”.

A percepção de que a cobertura jornalística tem se limitado a falar, da mesma maneira,  sobre os mesmos assuntos, tem sido cada vez mais comum aos leitores, sobretudo nos tempos de crise em que vivemos. O que podemos ver é que enquanto o público está cada vez mais sedento de histórias de pessoas do mundo real, a notícia está num constante afastamento dessa realidade.

Em tempos em que a utilidade da notícia é encarada de uma forma prática e funcional, a relevância se torna um valor imenso para o exercício do bom jornalismo. Mas o cenário real só confirma o que temos visto cada vez mais: noticiários diários que contam repetidas histórias em preto e branco, que nos mostram sempre a mesma face saturada de uma realidade que pouco atinge os leitores. 

E diante deste cenário, é fácil se perguntar: quantas histórias deixamos de contar?

O isolamento social no plano físico provocou uma super conexão informacional. Emissoras de TV e sites de notícia registraram aumento expressivo de audiência nas últimas semanas. De fato, a preferência por estes canais para receber informações sobre o Coronavírus corresponde a mais de 3/4 dos participantes da pesquisa Consumo de Informações sobre o Coronavírus no Brasil, realizada pelo Orbis Media Review entre os dias 25/03 e 02/04.

O dado não significa, porém, que a mídia informal de conteúdo amador esteja fora do radar da população. Mensagens de amigos, grupos e familiares, além de posts em redes sociais também têm servido de fonte de novidades sobre a pandemia para mais da metade dos usuários. A quantidade de atenção dada às redes sociais, no entanto, não significa que todo este conteúdo esteja sendo absorvido de forma automática.

Questionados sobre a forma como percebem mensagens de áudio e vídeo que vêm sendo amplamente compartilhadas por WhatsApp, 53% dos participantes admitiu que a maioria deste conteúdo não é confiável. O problema é quando essa desconfiança contamina os veículos de jornalismo profissional. Um grupo correspondente a 58,6% da amostra afirmou ter visto uma notícia falsa sendo dada como verdadeira em sites de notícia, TV, rádio ou mídia impressa.

Apesar disso, a qualidade da cobertura que a mídia vem fazendo sobre a pandemia foi bem avaliada. Nada menos que 80% da amostra classificou o trabalho dos veículos como adequado, ótimo ou excelente. Várias pautas foram apontadas como alvo de interesse dos usuários, que disseram querer saber mais a respeito. O grupo que admite estar consumindo menos notícias do que o usual é de 11% e tomam essa decisão porque o noticiário estaria causando mal-estar.

Para aqueles que passaram a dar mais atenção às notícias (45%) ou que seguem acompanhando o noticiário como sempre (38%), a abertura do sinal de algumas emissoras a cabo e a derrubada do paywall de sites jornalísticos são bem-vindas. Num universo em que 67% do público não é assinante de qualquer produto jornalístico e também não se mostra disposto a pagar por notícia, as empresas de mídia exercem o jornalismo como serviço à sociedade.

Os desafios de médio e longo prazo da indústria jornalística, pós-quarentena, apontam para o um esforço extra nas iniciativas para captar assinantes e, antes disso, para a retomada da confiança da população, que oscila entre o consumo de uma boa cobertura e a desconfiança de que veículos não estão imunes às fake news.

Por Carlos Alberto Di Franco

As virtudes e as fraquezas dos jornais não são recatadas. Registram-nas fielmente os sensíveis radares dos leitores. Precisamos, por isso, derrubar inúmeros desvios que conspiram contra a credibilidade dos jornais.

Um deles, talvez o mais resistente, é o dogma da objetividade absoluta. Transmite, num pomposo tom de verdade, a falsa certeza da neutralidade jornalística. Só que essa separação radical entre fatos e interpretações simplesmente não existe. É uma bobagem.

Negatividade é valor-notícia desde antes do surgimento dos tabloides sensacionalistas. As “folhas volantes” que circulavam na Europa do século XVII publicavam relatos em primeira pessoa escritos por assassinos condenados à morte. Eram as chamadas “canções da forca”. Mas agora tem (bastante) gente que, deliberadamente, evita consumir notícias porque elas são ruins. Será essa a raiz da crise no Jornalismo?

Além disso, credibilidade é uma coisa séria e, sim, a indústria também sofre com a desconfiança sobre o conteúdo dos veículos. O último relatório do Reuters Institute mostrou que a confiança nas notícias caiu 2 pontos percentuais no último ano, de 44% para 42%. Não convencemos nem mesmo a metade da população que ainda nos lê/assiste/ouve. Mas fake news não é o nosso maior calcanhar de Aquiles.

Tendo a acreditar que, quando as pessoas dizem que se afastam das notícias porque estão cansadas de “coisas ruins”, na verdade há duas razões subjacentes:

  • a sensação de impotência;
  • a falta de um impacto efetivo que aquela notícia terá no seu dia a dia.

Era da Hipersensibilidade

Notícia nunca teve o objetivo de fazer alguém feliz. E mesmo assim líamos o noticiário para “estarmos informados” sobre o mundo ao nosso redor. Acontece que esse mundo deu voltas e chegou à era do hedonismo, da razão sensível. Hipersensível. Não se trata de estarmos vivendo num mundo cor-de-rosa; longe disso! O hedonismo se manifesta nas intenções do dia a dia, na busca permanente pela felicidade, na liberdade imperativa, no lazer barato e encantador que a tecnologia promove.

É fácil passar horas jogando online. Caçar Pokemón cria uma camada lúdica e colorida sobre a cidade real, suja e insegura que habitamos. Quer coisa mais envolvente que cantar com amigos? É com isso que o TikTok agarra adolescentes mundo afora. E rir com os vídeos do YouTube? Fazer maratona no Netflix não falha pra gente participar da conversa no grupinho. Senão, põe aquela playlist no Spotify que parece ter sido feitinha pra ti. A tecnologia lava de dopamina nossas almas cinzas, da cor do jornal.

Solidariedade e afeto

Se vivemos, de fato, um reencantamento do mundo, onde as tribos urbanas instituem um código de estar-junto sustentado pela sensibilidade, é natural que a solidariedade ressurja como um elemento dessa “nebulosa afetiva”, de que fala Michel Maffesoli. Quero o outro porque ele me protege, me faz forte, me permite existir. Quero o outro porque ele “me”… Hum. Não. Melhor deixar essa polêmica para depois.

Viver na coletividade não só me sensibiliza, como também me mobiliza. Amo a quem nunca vi nem ouvi, mas pensa do mesmo jeito que eu. E esse afeto me impele a agir em nome do laço que nos une. A solidariedade emerge da necessidade de pertencer a uma comunidade sensível, já que as estruturas racionais e utilitaristas da sociedade ruíram.

A insustentável impotência do ser

Assim fica difícil ver o sofrimento dos meus pares na televisão, sem fazer nada a respeito. Ou ainda, é insuportável sentir a dor e a injustiça provocada por aqueles que são notícia e reconhecer minha inaptidão para mudar a realidade.

Não são as “notícias ruins” que afastam o público do Jornalismo. As notícias não mudam, infelizmente, desde o século XVII. O que mudou foi a reação do público diante delas. A sensação de impotência foi agravada pela necessidade do afeto urgente. Só resta nutrir minha hipersensibilidade com aquilo que me faz feliz. E focar no mundo “do bem”.

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Sugestão de leitura e disparador deste texto: Why do some people avoid news? Because they don’t trust us — or because they don’t think we add value to their lives?