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Há gente desencantada com o jornalismo e fascinada com as redes sociais. Acredita, talvez ingenuamente, que a agitação do mundo digital vai resgatar a verdade conspurcada. Como se as redes fossem um espaço plural que se contrapõem a uma suposta hegemonia da mídia tradicional. Não percebem que os algoritmos tendem a criar redutos fechados, bolhas impermeáveis ao contraditório.

Sou apaixonado pelo jornalismo. Escrevo na imprensa tradicional e participo intensamente das novas mídias. Ambas são importantes. Não são excludentes. É preciso navegar com profissionalismo e seriedade.

A reinvenção do jornalismo, a recuperação do encanto, passa, necessariamente, pelo retorno aos sólidos pilares da ética e da qualidade informativa.

A crise do jornalismo está ligada à falência da objetividade e ao avanço do subjetivismo engajado e das narrativas divorciadas dos fatos. Quase sem perceber, alguns jornais sucumbem à síndrome da opinião invasiva. Ganham traços de redes sociais. Falam para si mesmos, e não para sua audiência.

É preciso apostar na informação. Sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeças para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.

Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. O ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada.

Alguns jornalistas da grande mídia, sobretudo na cobertura de política e em nome de suposta independência, têm enveredado excessivamente pelo que eu chamaria de jornalismo de militância. Esta atitude não fortalece a credibilidade e incomoda seus próprios leitores.

Na verdade, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela internet.

Jornalismo sem brilho e sem alma é uma perigosa doença que pode contaminar redações. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro de asfalto. É preciso dar novo vigor à reportagem e ao conteúdo bem editado, sério, preciso, ético.

É necessário perceber, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se um jornalismo menos anti e mais propositivo. Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores. Sabendo que, se a resposta for negativa, poucas serão as possibilidades de monetizar nosso conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de reinvenção. Chegou a hora do encantamento.

Minha mais recente coluna neste espaço opinativo teve um título bem estudado: “Jornalismo – a hora de recuperar o encanto”.  É disso que se trata. O jornalismo precisa recuperar a confiança dos consumidores. O texto repercutiu entre leitores e colegas. Recebi muitas mensagens. Isso mostra uma sadia inquietação. Um movimento de autocrítica e renovação.

Hoje, provocado por um excelente artigo de Martin Baron, ex-editor-executivo do Washington Post publicado no caderno “Ilustríssima” da Folha de S.Paulo no dia 15 de abril, volto ao tema. O texto é magnífico. E está ancorado no prestígio de um dos grandes nomes do jornalismo norte-americano.

Num momento de crise da mídia, Baron, na contramão de boa parte dos seus colegas, empunha o valor da objetividade como arma poderosa em defesa do jornalismo de qualidade.

“A maior parte do público, me arrisco a dizer, espera que os jornalistas sejam objetivos. Ignorar suas expectativas ou desafiá-las diretamente é um ato de arrogância. Demonstra leniência com nossos vieses, os consagra e, o que é mais grave, trai a causa da verdade”. O diagnóstico de Baron é certeiro: um dos elementos centrais da crise dos veículos está no questionamento e na corrosão cotidiana da objetividade.

Baron defende que devemos iniciar nossas pesquisas “com a cabeça aberta e então trabalhar da maneira mais conscienciosa possível. Isso requer uma disposição de ouvir, uma ânsia de aprender e uma consciência de que há muito que precisamos saber.” (…) “Não começamos já com as respostas prontas. Saímos em busca delas, primeiro com o desafio já grande de articular as perguntas certas e finalmente com a tarefa árdua de verificação.”

Queremos juízes e médicos objetivos; por que não jornalistas? A pergunta de Baron está gritando em muitas críticas sinceras ao nosso trabalho. A busca da objetividade, nem sempre fácil ou tranquila, é uma meta a ser perseguida. Todos os dias.

O importante é saber escutar. As respostas são sempre mais importantes que as perguntas que você faz. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos. Precisamos lutar contra as atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem e minam a credibilidade dos produtos jornalísticos.

O bom repórter ilumina a cena, o jornalista manipulador constrói a história. A distorção, no entanto, nem sempre é clara. Escapa, frequentemente, à perspicácia do leitor médio. Tem aparência de informação, mas não é. Daí a gravidade do dolo. Na verdade, a batalha da isenção, forte demanda da sociedade atual, enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência atrevida. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos próprios de certa delinquência editorial transformam um princípio ético irretocável numa grande farsa.

A apuração de faz-de-conta representa uma das maiores agressões à imprensa de qualidade. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade. É um artifício que transmite um simulacro de objetividade, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade factual culmina com uma estratégia exemplar: a repercussão seletiva. O pluralismo de fachada convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a reportagem. Cria-se a versão. Uma das grandes crises de nossa profissão é a perda da primazia do trabalho de reportagem.

A imprensa tem caído nessa armadilha antijornalística. Trata-se de uma prática que, certamente, acaba arranhando sua credibilidade. Ainda não conseguimos superar a síndrome dos rótulos. Alguns colegas não perceberam que o mundo mudou. Insistem, teimosamente, em reduzir a vida à pobreza de quatro qualificativos: direita, esquerda, conservador, progressista. Tais epítetos, estrategicamente pendurados, têm dupla finalidade: exaltar ou afundar, gerar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas. A reportagem é, ou deveria ser, sempre substantiva. O adjetivo é o enfeite da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta de apuração. É, frequentemente, uma mentira.

É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. A audiência quer informação clara, corajosa, bem apurada. E, hoje em dia, pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital. Ficará conosco se soubermos apresentar um produto de qualidade.

A reportagem precisa ser recuperada. Deve ser trazida para posição central da produção jornalística. Basta de narrativas. Basta de militância ideológica, romântica ou não. Basta de contrabando opinativo na informação.

O público busca formar uma convicção equilibrada, corajosa e firme nos espaços de opinião e nos editoriais. Mas quer informação objetiva no conteúdo jornalístico.

Não devemos sucumbir à tentação do protagonismo. Nosso ofício, humilde e grandioso, é o de iluminar a história.

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade de uma apuração ética.

A sociedade está cansada do clima de radicalização que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo militante. Um denominador comum marca a superficialidade que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: a politização.

Em tempos de ansiedade digital, a reinvenção do jornalismo reclama revisitar alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

O jornalismo transformador é substantivo. Insisto. Sua força não está na militância, mas no vigor persuasivo da verdade factual e no equilíbrio de uma opinião fundamentada.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente. Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir, mesmo com a melhor das intenções, certa politização das coberturas. Cair na síndrome das narrativas. Os desvios não se combatem com o enviesamento informativo, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.

Sem jornais a democracia não funciona. O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos. Sua agenda é por valores perenes: liberdade, dignidade humana, respeito às minorias, promoção da livre iniciativa, abertura ao contraditório. O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blablablá inconsistente do teatro político, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Os desvios, reafirmo, não se combatem com o enviesamento informativo, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores.

Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

O noticiário local que foi ao ar na noite da última terça-feira, 19, em São Paulo, revelou o quanto nos falta  aprender para fazer jornalismo. Em uma emissora, o apresentador anunciou: “Homem atira em assaltantes no Bom Retiro e não é indiciado por porte ilegal de arma nem por matar um dos ladrões“. Minutos depois, no outro canal, a manchete era: “Clientes e funcionários de restaurante no Bom Retiro são feitos reféns. Sequestadores foram baleados por vizinho.” Fiquei apenas nestes dois telejornais e a diferença no enquadramento de cada emissora me chocou mais do que a barbárie da acontecimento em si.

Há vários fatos no ocorrido. Há uma tentativa de roubo. Há bandidos armados. Há reféns na mira de pistolas. Há um vizinho do restaurante, também armado. Há dois homens baleados. E há uma obsessão ideológica acintosa norteando o trabalho em certas redações.

Pela ótica dos colegas, o sequestro parece ter sido apenas evento cotidiano que serviu de pretexto à atrocidade de um cidadão, rendido por um criminoso, disparar contra aquele que estava prestes a tirar sua vida.

O programa onde ouvi a primeira chamada dedicou nada menos que seis minutos para declarar sua revolta com o cidadão que portava uma arma em local não autorizado e que atirou contra os criminosos. Ao exibir um vídeo cedido pela Polícia Militar, o repórter narra que o morador “caminha em direção aos sequestradores, é rendido por um deles e reage descarregando a arma em dois assaltantes“. Mas isso foi apenas um detalhe, na visão dos colegas. A tônica da reportagem, do começo ao fim, foi denunciar a impunidade sobre o porte de arma por uma pessoa que não suportou assistir passivamente seus vizinhos sendo torturados. Está claro que a reação colocou em risco a vida dos reféns e isso precisa ser mencionado no relato editorial. Porém, o sequestro virou paisagem. Pela ótica destes colegas, o crime parece ter sido apenas um evento cotidiano que serviu de pretexto à atrocidade de um homem, rendido por um criminoso, disparar contra aquele que estava prestes a tirar sua vida.

A indignação do repórter com as autoridades que liberaram o autor dos disparos transbordava em trechos do boletim de ocorrência lidos no texto do off, em uma tentativa furiosa de legitimar sua ira contra aquele “assassino de sequestradores”. Uma das frases lidas no documento dizia que o atirador – exposto e nomeado pela reportagem – teria “recorrido ao chamado excludente de licitude“. Na certeza de que todos os espectadores de seu telejornal, transmitido pela TV aberta, entenderiam indubitavelmente a expressão “recorrido ao chamado excludente de licitude“, o repórter provou que estava engajado demais para lembrar que uma de suas funções vitais é traduzir à população, em linguagem simples e acessível, a informação que lhes foi dada por especialistas.

Quando foi que nos insensibilizamos, como seres humanos, diante da angústia de reféns na mira de três homens armados?

Após assistir à reportagem, me peguei em um diálogo interno de ordem jornalística mas, mais do que isso, foi uma reflexão a respeito de civilidade e de humanidade. Desde quando um sequestro de trabalhadores inocentes tem menos valor notícia do que o fato de dois de seus autores terem sido baleados ao renderem um indivíduo com arma de fogo? Desde quanto telejornais criticam e questionam a decisão da Polícia em não deter alguém que sequer foi investigado? Quando foi que normalizamos a invasão e o roubo à propriedade privada? Quando foi que nos insensibilizamos, como seres humanos, diante da angústia de reféns na mira de três homens armados? Desde quando o jornalismo milita pelo desarmamento da população? Desde quando jornalismo milita?

O que rotulamos como “absurdo”?

O caso acima ilustra o resultado de uma pesquisa publicada neste mês pelo Pew Research Center, com jornalistas norte-americanos de várias idades e cargos, atuantes em veículos. Mais da metade dos participantes (55%) admitiram que nem sempre os dois lados de uma pauta merecem receber a mesma cobertura. Isso é o mesmo que se posicionar, declarar apoio ou repúdio a algum aspecto da realidade e oferecer um conteúdo à sociedade como se fosse uma visão equilibrada dos fatos, como se fosse verdade em si.

Como jornalistas, sabemos que, por sermos humanos, somos passíveis de entender e relatar a realidade a partir dos valores que aprendemos e nos quais acreditamos. Porém, isso não nos dá o direito de usarmos o jornalismo como instrumento de articulação intencional.

Nos últimos anos houve uma multiplicação de veículos posicionados em vários pontos do espectro ideológico e político. No entanto, estes costumam firmar um pacto explícito com o leitor, que é ciente dos valores defendidos por aquele produto. Expôr a população à militância disfarçada de jornalismo é uma ofensa à sociedade. Justamente no momento em que o Brasil ocupa a primeira posição  no ranking de países onde mais se evita deliberadamente o consumo de notícias, há empresas de mídia que reagem dando ainda mais razões para as pessoas fugirem do noticiário.

Como jornalistas, nós mesmos sabemos que a linha divisória entre os gêneros informativo e opinativo é tênue e nem sempre fica clara às audiências. Nós também sabemos o quanto é difícil ser imparcial e que, por sermos humanos, somos passíveis de entender e relatar a realidade a partir dos valores que aprendemos e nos quais acreditamos. Porém, isso não nos dá o direito de usarmos o jornalismo como instrumento de articulação intencional.

Se a objetividade jornalística pertence à esfera do ideal, o esforço de contarmos uma história de maneira equilibrada é o que separa jornalistas de meros militantes.

Ao situarmos certos “lados” de uma discussão no universo do imponderável estamos, conscientemente, utilizando a atividade jornalística para difundir uma ideia ao invés de uma informação, para conduzir um pensamento ao invés de melhorar o estar-no-mundo da população, para alcançar interesses particulares que convergem, em última análise, na busca por poder. Nada mais antiprofissional, nada mais egoísta, nada mais desrespeitoso com quem ainda consome notícias na intenção pura de se manter informado.

O esforço para manter o profissionalismo nunca se fez tão urgente. Se a objetividade jornalística pertence à esfera do ideal, a tentativa de contarmos uma história de maneira equilibrada é o que separa jornalistas de meros militantes. Em qualquer profissão há procedimentos a serem seguidos, há convenções que precisam ser respeitadas. Por que haveria de ser diferente conosco? Por que seria aceitável transformar nosso trabalho num ato de interesse próprio? Há lugares socialmente legítimos para defendermos nossos ideiais: há grupos de estudo, há partidos políticos, há protestos pacíficos, há ONGs, centros comunitários, assembleias legislativas e mesmo o Congresso Nacional. Estes, sim, são espaços de ativismo; não o jornal, não o noticiário da TV aberta, não de forma sorrateira, fazendo de conta que é jornalismo.

Como podemos ajudar?

Procurar um novo modelo de negócio que sustente veículos no longo prazo é fundamental. Publicar conteúdos em formatos alternativos é necessário. Dialogar com o público, então, é urgente. Mas enquanto reproduzirmos a polarização do debate no fruto de nossos trabalhos, dificilmente voltaremos a ser percebidos como profissionais relevantes na vida de alguém.

Pense comigo: a lei da escassez rege relações de interesse de toda ordem, não apenas em transações comerciais. Existe uma oferta exagerada de informação, sobretudo instigando a polarização social. Entre discussões em redes sociais, estudos acadêmicos, fake news e mesmo em relatos opinativos válidos, qualquer ponto de debate está bem suprido de defesa. Não precisamos – nem devemos – ser mais um agente desta ou daquela bandeira. Isso equivale a dissolver o jornalismo num mar de subjetividades que não apenas nos descaracteriza, mas nos vulgariza. Seremos apenas mais um na multidão.

O que há em escassez na sociedade, hoje? Isto é, onde e como podemos fazer a diferença na vida das pessoas?

O American Press Institute (API) se lançou ao desafio de entender o que está escapando do olhar das redações e, não por acaso, a descoberta diz respeito à melhoria do convívio social. O fornecimento de informações sólidas e a abertura de espaços propícios ao diálogo foram apontados como formas de o jornalismo contribuir, com relevância, com a sociedade. Às vezes isso passa pela conscientização de que, mesmo sem querer, estamos agindo como apoiadores de causas, como críticos deste ou daquele político, ou que vemos como “realidade” aquilo que não passa de um recorte da nossa compreensão. Repito: isso pode ser inconsciente. E espero que o seja! Assim, temos alguma chance de recuperar a relevância do que fazemos na rotina das comunidades.

Podemos ajudar a traçar, através do jornalismo honesto, o ponto de virada para a retomada da convivência pacífica, do respeito mútuo e da integridade do ser humano.

Kevin Loker, diretor de pesquisa do API, considera essencial repensar o papel do jornalismo na vida das pessoas. “Se não mostrarmos uma abertura para a autorreflexão e mudança quando as críticas forem justas, nosso trabalho pode ser descartado como um empreendimento partidário ou monocultural. E quando isso acontece, perdemos o público.”

O vácuo deixado pelo público nos relatórios de audiência não prejudica apenas o desempenho financeiro das empresas de mídia. Não coloca em risco apenas nossos empregos. Ele gera um outro vácuo, dessa vez, na engrenagem social. Sem fontes confiáveis de informação, dignas do respeito da população e de legitimidade editorial, abre-se uma lacuna de civilidade, pronta para ser preenchida pelo caos, pela intolerância e pela selvageria humana.

Em 2016, ao perceber que a política fraturava relações humanas, um grupo de jornalistas norte-americanas criou o projeto Spaceship Media, com o objetivo de auxiliar cidadãos com opiniões opostas a dialogarem outra vez. As jornalistas atuam em parceria com veículos locais na identificação de temas antagônicos em uma determinada comunidade: da instalação de uma indústria a políticas migratórias, do armamento da população ao preconceito racial. Uma vez que são mapeados simpatizantes de diferentes “lados” da polêmica, o Spaceship Media pesquisa e fornece estudos, notícias, relatórios sobre o caso para preparar os participantes para um encontro presencial.

Com a moderação de jornalistas, os grupos antagônicos se reúnem em espaços comunitários – escolas, igrejas, bibliotecas públicas – e seguem um roteiro de quatro perguntas feitas mutuamente:

  1. O que você acha que o outro grupo pensa sobre você?
  2. O que você pensa sobre o outro grupo?
  3. O que você deseja que o grupo oposto saiba sobre você?
  4. O que você deseja saber sobre o outro grupo?

Com criatividade e fazendo um jornalismo honesto, podemos ajudar a traçar o ponto de virada para a retomada da convivência pacífica, da capacidade de escuta, do respeito mútuo e da integridade do ser humano. E podemos começar já, servindo como exemplo.

Aprende-se que, no constante exercício da profissão jornalística, é sempre imprescindível ouvir os dois lados de um fato, e que esta seria [teoricamente] a atitude ideal do bom jornalista! Mas, na prática, sabemos que ouvir os dois lados e garantir a imparcialidade tão sonhada pela grande mídia é tão difícil  – ou praticamente impossível – se levássemos em conta a essência fundamentalmente humana do jornalismo. 

A ideia defendida por Geneva Overholser em “Death to bothsidesism” nos traz à vida real e expõe a tentativa frustrada do mainstream em buscar uma neutralidade utópica na produção de notícias. A jornalista, veterana do The New York Times e do The Washington Post, defende o fim dessa isenção que, no fim das contas, acaba por apresentar uma “realidade a preto-e-branco ao leitor”. Além disso, afirma que a mesma imparcialidade faz com que “as pessoas pensem que não há nada sólido em que possam acreditar”.

Por essas e outras razões, fica difícil aceitar que a regra de ouro – defendida não só pelos publishers brasileiros como no mundo todo, desde o século passado – esteja cada dia mais comprometida.

E você, caro leitor, deve estar se perguntando: se a objetividade não serve ao jornalismo, o que, então, podemos fazer?

Podemos, todas as noites, deitar nossas cabeças no travesseiro com muita tranquilidade, sabendo que nossa sociedade (ainda) suporta a liberdade de defender pontos de vista sem que falemos obrigatoriamente dos dois lados de um fato. “Mas, com isso não estimulamos a bolha?”, podem perguntar. Também. Contudo, o jornalismo não é o grande culpado nessa história. Enquanto os veículos procurarem a verdade – nem que para isso tenham que declarar o fim deste “Doisladismo” – e tiverem a noção de que juntos podem manter a democracia, então grande parte da missão estará cumprida. 

Por isso, considerando o contexto mercadológico em que veículos de diferentes posições podem (e precisam) coexistir, não seria esta uma evolução do modo de se defender a democracia?

Já foi escrito anteriormente, neste Orbis, sobre o livro The Uncensored War, onde o autor Daniel C. Hallin trata da cobertura da Guerra do Vietnã pela mídia norte-americana. Aqui, novamente, tomo de empréstimo algumas de suas palavras sobre a história do jornalismo no país. Segundo ele, a profissionalização da atividade no séc. XX tem um aspecto ambíguo: se em parte serviu para dar aos jornalistas uma maior autonomia, eles, em troca, “se submeteram à autoridade de um conjunto de regras que exigiam que abandonassem o direito de usar sua recém conquistada autonomia e prestígio em busca de valores políticos próprios”. Entre estes conjuntos de regra, talvez as mais importantes sejam a objetividade e isenção.

Antes do século XX, no entanto, os jornalistas atuavam de forma diferente e, especialmente as empresas de mídia, possuíam muito mais liberdade para defender suas próprias agendas. Diz Hallin que “No séc. XIX, quando os jornais eram pequenos e numerosos, eles conseguiam defender seu papel político ao apelar para a Primeira Emenda da Constituição (que defende a liberdade de expressão) e o conceito de um livre mercado de ideias”. 

Pelos argumentos do autor, podemos entender que a atuação da mídia, ao longo da história, esteve muito ligada ao contexto do mercado: o fato de existirem muitos jornais de pequena expressão significa que o partidarismo tem efeitos mitigados. Por outro lado, abandonar a objetividade e a isenção quando o mercado é dominado por poucas empresas pode representar uma ameaça à imaginação popular.

A questão é: em qual contexto mercadológico estamos inseridos atualmente? Um que é detido por poucas empresas de mídia ou um cenário fragmentado por muitas e pequenas vozes?

O momento é de rever práticas jornalísticas e de revisitar valores, até então, intocáveis da atividade. Dito dessa forma, o desafio que nossa indústria enfrenta parece simples e até óbvio.

Esta semana estive conversando sobre o tema com um técnico em informática de alguma cidade do Amazonas (o DDD que ele usava no WhatsApp era 92). E me chamou a atenção a tranquilidade e a clareza com que ele enxergava a solução para a crise no jornalismo.

[16:25, 27/07/2020] +55 92 xxxx-xxxx: Então tem YouTube, Instagram, Facebook, etc… Tudo que é rede social paga por visualizações, curtidas, etc…

[16:26, 27/07/2020] +55 92 xxxx-xxxx: É só evoluir

Adorei, especialmente, a parte do “é só evoluir”. Expliquei a ele que veículos não funcionam como influencers e que não podemos condicionar o nosso business a um terceiro (como as redes sociais). Mas realmente a visão sobre o que é “evoluir” para o jornalismo parece não estar suficientemente elucidada – nem mesmo para a própria indústria jornalística.

Por muito tempo, inovar correspondeu a experimentar novos formatos de conteúdo, empacotar as notícias de formas atraentes, compatíveis às múltiplas possibilidades que o meio digital oferece. Quebramos a cabeça em produzir conteúdo para redes sociais. Lembro como se fosse hoje, da estratégia “social first”. Demos nosso sangue e nossa alma para as plataformas de tecnologia porque era “in”, porque era bacana ser o primeiro a explorar tal ferramenta, porque no fim das contas a gente esperava que o público clicasse nos links e fosse para nossos sites.

O problema é que isso não aconteceu. As redes sociais deixaram de trazer todo aquele tráfego que nos seduziu entre 2010 e 2015. Além disso, se posicionou como mídia concorrente e atraiu a verba que os anunciantes investiam nos veículos. A ficha demorou para cair – e na maior parte das empresas, eu diria que ainda não caiu. Mas isso é tema para outro artigo…

Olhar de longe, em perspectiva

Evoluir, inovar, então, não está apenas na produção grátis de conteúdo para redes sociais. Tampouco no uso de novas linguagens e formatos. Fizemos isso e não foi suficiente. As empresas de mídia continuam encolhendo, o faturamento é esquálido e a atividade segue sob ameaça. Então, o que significa evoluir?!

Sempre acreditei que a melhor forma de resolvermos um problema é olhando de fora para ele, em perspectiva. Sim, é preciso ter conhecimento do mercado, mas também é fundamental um certo distanciamento para, inicialmente, entender que o jornalismo é “apenas” uma parte da vida em sociedade e que nossos veículos são um pedaço ainda menor da rotina das pessoas.

[Em tempo: conhecer as audiências, engajar o usuário são outros bordões associados à evolução no jornalismo. Elas têm sua verdade, mas adotá-los isoladamente, sem uma estratégia por trás, de novo, será desperdício de tempo e dinheiro.]

Exercício

Pois bem: nos cabe, antes de mais nada, identificar qual o espaço que ocupamos no mundo e na vida das pessoas. Este exercício pode soar algo “filosófico”, mas nos obrigará a enxergar o nosso produto desde outro ponto de vista, talvez mais próximo do olhar que o público tem em relação ao jornalismo.

Para o exercício funcionar bem, é importante respondermos como indivíduos – não como profissionais de uma empresa. 

  • Quantos conteúdos você consome por dia em um mesmo site jornalístico?
  • Você prefere conteúdos que tentam ser imparciais ou abertamente posicionados?
  • Você prefere conteúdos generalistas, de massa ou aqueles que falam de temas mais específicos aos seus interesses pessoais/profissionais?
  • Você consome jornalismo sempre do mesmo veículo ou prefere ter autonomia para escolher suas fontes de informação?

Fiz algumas destas perguntas a um grupo de jornalistas que participou de uma aula aberta do curso Empreender no Jornalismo, oferecido pelo Master Negócios de Mídia. As respostas me causaram surpresa. Uma boa surpresa! Pois estamos mais próximos de entender o jornalismo pelo ponto de vista da população – e não apenas pelo olhar do jornalista.

Nada menos que 35% dos colegas admitiram consumir até três conteúdos por dia num mesmo site noticioso. Apenas 17% afirmaram acessar mais de 10 notícias de uma mesmo produto. Diante deste cenário, pergunto: Por que insistimos em publicar conteúdo por toneladas, imaginando que o volume de trabalho se reflita diretamente numa audiência mais numerosa? Percebam que nem entrei no mérito da qualidade desse usuário, nem no valor do conteúdo editorial. Já discutimos, neste Orbis, casos de veículos que cortaram o volume de produção e registraram melhores resultados de audiência e negócio.

Isenção em xeque

Outra premissa centenária do jornalismo que entra em discussão – embora muitos jornalistas custem a admitir – se refere à demanda por conteúdo posicionado, seja politicamente, seja em relação a qualquer outro setor da sociedade.

Mais da metade dos colegas disse que prefere conteúdo posicionado. Se tantos de nós se sentem mais atraídos por veículos que assumem determinados valores, faz sentido sustentar o discurso da isenção?

Objetividade sempre foi um tema delicado – e utópico – no jornalismo. A ambição pela objetividade não é uma garantia de que ela se cumpra. Por muito tempo eu mesma defendi que o jornalista precisaria ao menos tentar sem objetivo, ainda que todos terminássemos relatando a realidade com base em nossos valores individuais ou corporativos, mesmo inconscientemente.

Quando o próprio jornalista escolhe conteúdo posicionado para consumir individualmente, não será o caso de abrirmos o jogo com o usuário e dizermos a ele, de uma vez por todas, qual o nosso lugar de fala? Não será mais honesto declarar nossos valores do que buscar sem sucesso uma pretensa e falida isenção?

Ora, o debate está polarizado. O mundo está polarizado! As bolhas algorítmicas não ajudam que este mindset mude, ao contrário! O veículo que se propuser à objetividade extrema e que consiga convencer os usuários a consumirem tal conteúdo com a mesma dedicação e preferência com que eles já consomem conteúdos posicionados talvez seja o próximo New York Times.

Já não se trata de ser contra ou a favor da objetividade. A evolução, nessa hora, passa por uma necessidade de adequação de certos valores jornalísticos ao espírito de nossos tempos. O mercado é outro, a demanda informativa da população é outra. Podemos insistir na busca pela isenção, mas enfrentaremos o sério risco de ficarmos falando sozinhos…

A informação posicionada já circula, bem ou mal, por mãos idôneas, outras nem tanto. E é para lá que a atenção do público vai. Não se trata de dar apenas aquilo que audiências querem, embora seja fundamental levá-las em conta. O ponto é que o jornalismo não tem poder suficiente para desfazer a polarização no imaginário popular. A cultura dos extremos surgiu e existe numa esfera muito mais profunda daquela onde atua nosso discurso. Poderíamos fazer nossa parte em dar o exemplo e insistir em mostrar os dois lados? Isso é fácil. O difícil é fazer o usuário a consumir essa informação.

A volta do jornalismo posicionado

É importante esclarecer: rever a objetividade não significa, em hipótese alguma, assumir um discurso falso ou militante. A verdade ainda é nossa matéria-prima. O que percebo é um movimento de naturalização do framing, de aceitação do viés no conteúdo editorial. Mais: sinto que as audiências já criaram uma expectativa de posicionamento dos veículos e buscam aqueles que simplesmente fortalecem seus pontos de vista.

É a era da pós-verdade. E por mais que doa ao nosso orgulho, não está nas mãos dos jornalistas, apenas, a reversão desse mindset. É preciso aceitar que os tempos são outros, a mentalidade vigente já não é mais a mesma do começo dos anos 2000. Ou jogamos o jogo com suas novas regras, ou estamos fora do mercado!

Este artigo da Wired e este outro, do NiemanLab, reforçam a tendência de que boa parte dos veículos voltarão a assumir posições, tal como era até meados do século XIX, quando partidos políticos financiavam jornais e incentivavam a venda de assinaturas. Naquela época não havia publicidade bancando a nossa indústria – hoje também não!

Jornalismo e democracia

Um grande amigo me ouve dizer essas coisas e se espanta: “Se não mostrar o outro lado não há debate! E o jornalismo é o lugar para o debate, onde a democracia se sustenta!” – sorry, querido, mas o público não lerá notícias contrárias ao seu ponto de vista com a finalidade de que este gesto os transforme em sustentáculos da democracia.

Pode ser decepcionante notarmos isso, mas a maior parte de quem está disposto a pagar por jornalismo não está preocupado com democracia. Os objetivos são outros, são pessoais e, sobretudo, que ajudem este usuário a se posicionar com mais força no viés em que ele já se enquadra. Essa afirmação não é leitura aleatória minha; está nesta pesquisa da Universidade de Michigan.

Sobre sermos fiéis a um mesmo veículo ou termos autonomia para escolhermos nossas fontes de informação, isso fica para outro artigo, porque este já está longo demais e poucos têm tempo suficiente para uma discussão tão estendida. Obrigada por ter chegado até aqui! Voltaremos! 😉


As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.




Entre tantos papéis atribuídos ao jornalismo, um vem sendo abordado com bastante frequência nos últimos tempos: o de defender a democracia por meio da vigilância ao poder. Mas esta tarefa é, no mínimo, vaga demais. Mesmo porque, democracia envolve uma série de questões divergentes, de forma que a própria tentativa de definir aquilo que a ameaça estará sempre acompanhada de muita subjetividade.

Em artigo publicado na Wired, o escritor Antonio García Martínez argumenta que a democracia norte-americana se sustentou, prosperou e se consolidou nos anos pré e pós independência sem nunca ter uma imprensa objetiva e imparcial. O que eles pareciam ter, ao contrário, era uma imprensa simplesmente muito ativa que não se colocava acima do debate, mas justamente no meio dele

Não é, obviamente, o caso de lutarmos por uma revolução jornalística com o fim de transformar as empresas em veículos partidários ou panfletos militantes. Isso seria absurdo. Mas se nossa democracia precisa ser discutida, não seria a hora de descermos de alguns pedestais e nos envolvermos mais com a população, tanto para nos fazermos compreender quanto para compreendê-la?

Entre as consequências das acaloradas discussões do momento, a percepção de que existem apenas vilões e mocinhos no mundo está entre as mais cansativas. Buscando embasar seu conteúdo em dados e informações objetivas, o jornalismo tenta, ao menos em tese, trazer racionalidade para a discussão. Mas dados são, por si só, infalíveis e inquestionáveis? Segundo um conceito matemático datado, aproximadamente, de dois séculos atrás, “lixo dentro” significa “lixo fora”. A ideia é bem direta: pouco importa o que digam as pesquisas se as informações coletadas forem incertas.

Não faz sentido, portanto, tomar o resultado de estudos como verdades absolutas. Assuntos complexos dificilmente serão enfrentados por meio de soluções simples e generalistas, ao mesmo tempo em que a imprevisibilidade humana é, por definição, um fator incalculável. Certamente, dados, pesquisas e o conhecimento de especialistas podem ser valiosos como orientação. Mas como jornalistas é importante perguntar: até que ponto não nos servimos deles para encerrar debates com conclusões das quais concordamos ao invés de construir boas e valiosas discussões?

As virtudes e as fraquezas dos jornais não são recatadas. Registram-nas fielmente os sensíveis radares dos leitores. Precisamos, por isso, derrubar inúmeros desvios que conspiram contra a credibilidade dos jornais.

Um deles, talvez o mais resistente, é o dogma da objetividade absoluta. Transmite, num pomposo tom de verdade, a falsa certeza da neutralidade jornalística. Só que essa separação radical entre fatos e interpretações simplesmente não existe. É uma bobagem.

Jornalismo não é ciência exata e jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza é anti-humana e, portanto, antijornalística. A neutralidade é uma mentira, mas a isenção é uma meta a ser perseguida. Todos os dias. A imprensa honesta e desengajada tem um compromisso com a verdade. E é isso que conta.

Mas a busca da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, a falta de rigor e o excesso de declarações entre aspas.

O jornalista engajado é sempre um mau repórter. Militância e jornalismo não combinam. Trata-se de uma mescla, talvez compreensível e legítima nos anos sombrios da ditadura, mas que, agora, tem a marca do atraso e o vestígio do sectarismo. O militante não sabe que o importante é saber escutar. Esquece, ofuscado pela arrogância ideológica ou pela névoa do partidarismo, que as respostas são sempre mais importantes que as perguntas.

A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos. O bom repórter é um curioso essencial, um profissional que é pago para se surpreender. Pode haver algo mais fascinante? O jornalista ético esquadrinha a realidade, o profissional preconceituoso constrói a história. Mata o fato e vende a versão.

Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Trata-se de um esforço de isenção mínimo e incontornável. Alguns desvios, porém, transformam um princípio irretocável num jogo de cena. 

Matérias previamente decididas em guetos engajados buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é sincera, não se fundamenta na busca da verdade. É uma estratégia. 

O assalto à verdade culmina com uma tática exemplar: a repercussão seletiva. O pluralismo de fachada convoca, então, pretensos especialistas para declararem o que o repórter quer ouvir. Personalidades entrevistadas avalizam a “seriedade” da reportagem. Assassina-se o jornalismo. Cria-se a ideologia.

É preciso cobrir os fatos com uma perspectiva mais profunda. Convém fugir das armadilhas do politicamente correto e do contrabando opinativo semeado pelos arautos dos partidarismos.

A precipitação e a falta de rigor são outros vírus que ameaçam a qualidade da informação. A manchete de impacto, oposta ao fato ou fora do contexto da matéria, transmite ao leitor a sensação de uma fraude.

Autor do mais famoso livro sobre a história do The New York Times, Gay Talese vê importantes problemas que castigam a imprensa de qualidade. “Não fazemos matéria direito, porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mails, telefones, gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas”. 

“Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando”, conclui Talese. E o leitor, não duvidemos, capta tudo isso.

Boa parte do noticiário de política, por exemplo, não tem informação. Está dominado pela fofoca e pelo declaratório. Não tem o menor interesse para os leitores. O show político ocupa manchetes e colunas. Falta, no entanto, a análise aprofundada do que realmente acontece. 

O uso de grampos como material jornalístico virou ferramenta de trabalho. A velha e boa reportagem foi sendo substituída por dossiê. De uns tempos para cá, o leitor passou a receber dossiês e áudios que, muitas vezes, não se sustentam em pé por muito tempo. Curiosamente, quem os publica não se sente obrigado a dar nenhuma satisfação ao leitor. Entramos na era do jornalismo sem jornalistas, nos tempos da reportagem sem repórteres. Ficamos, todos, fechados no ambiente rarefeito das redações. Enquanto esperamos o próximo áudio ou dossiê, tratamos de reproduzir declarações entre aspas, de repercutir frases vazias de políticos experientes na arte de manipular a imprensa.

Mesmo assim, os jornais têm prestado um magnífico serviço no combate à corrupção. Alguém imagina que o saldo para lá de positivo da Operação Lava Jato teria ocorrido sem uma imprensa independente? Jornais de credibilidade oxigenam a democracia.

O leitor que precisamos conquistar em qualquer plataforma, não quer superficialidade e espuma informativa. Ele quer algo mais. Quer o texto elegante, a matéria aprofundada, a análise que o ajude, efetivamente, a tomar decisões. Conquistar leitores é um desafio formidável. Reclama realismo, ética e qualidade.

A autocrítica, justa e necessária, deve ser acompanhada por um firme propósito de transparência e de retificação dos nossos equívocos. Hoje não temos mais a hegemonia da informação. As redes sociais deram ao consumidor um protagonismo interessante. Ele coteja as informações e quer ser ouvido. 

Uma imprensa ética sabe reconhecer seus erros. As palavras podem informar corretamente, denunciar situações injustas, cobrar soluções. Mas podem também esquartejar reputações, desinformar. Confessar um erro de português ou uma troca de legendas é fácil. Mas admitir a prática de atitudes de prejulgamento, preconceitos informativos ou leviandade noticiosa exigem coragem ética. Reconhecer o erro, limpa e abertamente, é o pré-requisito da qualidade.

O jornalismo tropeça em armadilhas. Nossa profissão enfrenta desafios, dificuldades e riscos sem fim. E é aí que mora o desafio.