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Navegar pela internet realmente oferece grandes momentos de reflexão. Percebi isso outro dia quando procurava fotos em um destes muitos bancos de imagens que existem por aí. Na ocasião, precisava de uma que representasse o jornalismo, e embora houvesse uma porção de belas fotografias e ilustrações, o que mais chamou a atenção foram as imagens de itens como um megafone ou de uma pessoa gritando como se fosse ativista de uma causa qualquer. Engraçado que na busca por jornalismo tenham surgido tantas figuras que significam o oposto da nossa profissão – ou ao menos o oposto daquilo que deveria ser o seu pilar: a isenção, a objetividade, a imparcialidade.

Não vou negar: minha vontade de estudar jornalismo sempre foi ancorada no desejo de causar um impacto na sociedade. Acredito que eu não seja uma exceção entre tantos outros que entraram nesta área. Mas é preciso cuidado para que esta poderosa motivação não acabe nos desviando dos critérios que distinguem o jornalismo de outros tipos de manifestações públicas sobre eventos correntes.

Todas estas questões vêm na toada de um artigo do Professor Carlos Alberto Di Franco sobre o tema. Segundo ele, é preciso “lutar contra as atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem e minam a credibilidade dos produtos jornalísticos”. Assim, segundo ele, “É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. A audiência quer informação clara, corajosa, bem apurada. E, hoje em dia, pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital”.

Para mim, o apontamento mais arrebatador do artigo é de que a audiência ficará conosco apenas “se soubermos apresentar um produto de qualidade”.

Esta conclusão pode parecer óbvia, mas está longe disso. A PL das Fake News, que voltou ao noticiário em função dos recentes debates ocorridos em Brasília, é prova disso. Para além do projeto em si que muda a cada dia – e certamente terá sofrido novas alterações assim que este artigo for ao ar –, o que chama a atenção é o posicionamento corporativo de muitas empresas de mídia e associações do setor.

A ideia que parece guiar muitos dos nossos colegas é a de que a lei beneficia o jornalismo profissional e, mais importante do que isso, as notícias corretas e precisas que publicamos. Como consequência direta, o maior vencedor é a sociedade, que se fortalece ao ser nutrida com informações verdadeiras e bem apuradas.

Essa visão, entretanto, é demasiadamente simplista. Pouca coisa prova isso tão bem quanto a pandemia da Covid-19. Assim que começou a se espalhar pelo mundo e chamar a atenção do noticiário, por exemplo, muitas das empresas do setor foram rápidas em rechaçar a hipótese de o vírus ter surgido em um laboratório chinês – algo por vezes associado a algum tipo de teoria da conspiração.

Algo parecido aconteceu com as próprias vacinas, cujas alegações de causarem problemas como arritmia cardíaca eram frequentemente tratadas como negacionismo. Mesmo as máscaras, consideradas fundamentais para conter a disseminação do vírus eventualmente se mostraram duvidosas. Em todos estes casos, muitas empresas de mídia optaram por ouvir fontes oficiais, tratando-as como detentoras da verdade absoluta e suprimindo qualquer tentativa de questionamento.

Isso certamente não deve levar ao extremo de que a imprensa não é uma fonte confiável de informação. Ao contrário, tais apontamentos servem apenas para nos lembrarmos de que não somos uma fonte de informações corretas e precisas apenas pelo fato de existirmos.

É certo que o jornalismo possui sua ética própria, critérios de noticiabilidade que nos ajudam a definir as pautas mais pertinentes, exigências de apuração para garantir a qualidade do conteúdo publicado – elementos que contribuem para a profissionalização do nosso setor e do trabalho que realizamos. Mas para que todos estes elementos contribuam realmente para o bom jornalismo, é fundamental termos a noção clara de que o simples status de “jornalista” não garante a qualidade do conteúdo produzido. O contrário é mais verdadeiro: é a noção de nossa própria falibilidade e de nossas limitações que tendem a nos deixar sempre vigilantes para os erros e exageros que podemos cometer.


A retomada do protagonismo

Muita da nossa discussão sobre fake news se dá em função da desintermediação causada pelas mídias sociais – e como elas abriram espaço para que qualquer um pudesse escrever e falar aquilo que pensa, tirando dos jornais o protagonismo que sempre tiveram e abrindo a caixa de pandora para que todo tipo de mentira e desinformação saísse.

Mas mentiras e manipulações dos fatos sempre existiram. O que mudou é o alcance que elas podem ter nos dias de hoje e a perda da centralidade dos jornais como fontes confiáveis de informação. Contra dois destes elementos nós não podemos realmente lutar. Nenhum projeto de lei será capaz de suprimir e aniquilar informações consideradas falsas por qualquer órgão de Estado. O alcance do conteúdo não controlado e não produzido por nós, jornalistas, também não pode ser revertido a não ser que revertamos o próprio avanço tecnológico (o que parece improvável). A única coisa que realmente podemos fazer, portanto, é reconquistar o protagonismo que um dia tivemos – algo que não pode ser feito pelas vias da força.

Para isso, é fundamental entendermos que muitos embates presentes não se dão dentro do campo da verdade e da mentira, e sim no campo das interpretações sobre aquilo que é bom e aquilo que é ruim dentro do contexto atual. Isso faz com que o termo fake news seja frequentemente usado não para apontar erros objetivos nas informações presentes, mas para fazer um julgamento de valor sobre as posturas ideológicas de certos grupos sociais. E convenhamos, quando falamos em fake news estamos pensando em um grupo político específico, aquele de viés conservador que surgiu nos últimos anos e cujo posicionamento desagrada profundamente a maior parte do nosso setor.

Quando lançaram o livro “Nacional populismo – a revolta contra a democracia liberal”, os pesquisadores Roger Eatwell e Matthew Goodwin fizeram uma análise profunda, repleta de dados, mostrando alguns dos motivos que explicam a ascensão disso que nos acostumamos a chamar de direita conservadora e que teve expressões nacionais e internacionais com figuras como Bolsonaro, Trump, Le Pen. Confesso que não sei qual é o posicionamento pessoal dos dois autores sobre estes políticos e o movimento que eles representam. Mas também, pouco importa se são contra ou a favor. O que é realmente relevante é que eles conseguiram chegar a conclusões interessantes sobre os motivos por trás do surgimento destes movimentos ideológicos – conclusões que vão muito além daquela lista de palavras rasas que a então candidata à presidência dos EUA Hilary Clinton usou para descrever metade dos apoiadores de Trump: “racistas, sexistas, homofóbicos, xenofóbicos, islamofóbicos”.

Termos como estes simplificam movimentos sociais complexos. A própria Clinton, por exemplo, foi derrotada por Trump em 209 distritos americanos que haviam votado em Obama nas duas vezes em que ele concorreu ao cargo. Igualmente, Trump obteve o voto de um terço dos eleitores “latinos” do país, assim como o Brexit obteve mais ou menos a mesma quantidade de votos de grupos etnicamente minoritários da Inglaterra. Estes dados fazem parte da pesquisa de Eatwell e Goodwin e mostram como a palavra racismo e xenofobia não dão conta de explicar a ascensão da direita atual – na verdade, é possível que causem mais confusão do que esclarecimento.

Os dois autores até concordam que “alguns nacionais populistas enveredam no racismo e na xenofobia”, mas isso não deveria, segundo eles, “nos distrair do fato de que eles também tocam em ansiedades públicas abrangentes e legítimas”. Como bem explicam, estes eleitores questionam, por exemplo, “o modo em que as elites (culturais, políticas e mesmo econômicas) se tornaram cada vez mais isoladas das vidas e preocupações das pessoas comuns”. Estas pessoas também questionam “a erosão do Estado-Nação, que é visto como a única construção que foi capaz de organizar nossas vidas políticas e sociais”. Talvez mais significativo ainda, “elas questionam a capacidade das sociedades ocidentais de rapidamente absorver taxas de imigração (…) que não tem precedente na história da civilização moderna”, assim como questionam que tipo de sociedade estas e outras mudanças sociais levantadas por outros movimentos políticos criarão.

E ainda assim, pouco espaço houve na mídia para uma discussão aprofundada e uma tentativa genuína de entender as motivações por trás das preferências políticas desta parcela do eleitorado (o que não significa concordar com elas). Em 2017, por exemplo, pouco antes do segundo turno da eleição presidencial francesa que terminou com a vitória de Emmanuel Macron, a revista Vanity Fair publicou o artigo “Marine Le Pen pode tornar o fascismo mainstream?”. Que haja diversos motivos legítimos para se criticar as posturas e políticas públicas defendidas pela então candidata é uma coisa, mas banalizar um termo tão complexo de uma ideologia que devastou a Europa em um momento específico da história é algo completamente diferente. Não há dúvidas de que tal conteúdo ofendeu uma parte considerável da população que tinha seus motivos legítimos para votar em Le Pen.

E aqui vai o ponto final sobre esta reflexão: a despeito das possíveis e eventuais fake news, da ampliação da capacidade de ler e publicar qualquer coisa no ambiente digital e dos excessos nos diferentes posicionamentos políticos que se encontram por aí, o fato é que a postura da sociedade – ou parte dela – em relação às empresas de mídia tem muito mais a ver com os nossos posicionamentos editoriais do que com estes e outros fatores externos.

É verdade que uma PL sobre o assunto pode até tornar o ambiente digital mais salutar, embora os custos disso devam ser seriamente questionados. Mas mesmo que isso aconteça, nada indica que o público voltará a confiar plenamente em nosso trabalho. Portanto, se quisermos reconquistar o protagonismo que já tivemos, precisamos que a população volte a ver relevância em gastar o seu tempo lendo aquilo que publicamos. Nada disso será possível se antes não conseguirmos demonstrar que entendemos o que o nosso público realmente pensa sobre os assuntos que cobrimos diariamente.

Sempre soube que tinha algo errado.

Não fazia muito tempo que eu tinha entrado no mercado de trabalho e já me questionava. Lembro de uma noite, depois de um dia inteiro na redação, ter comentado com meu marido — que não é do ramo — que eu não entendia a importância de escrever e publicar aquilo que estava escrevendo e publicando.

Não tenho certeza se era recém-formada ou não, mas sei que era meu primeiro emprego em um site de notícias superespecializado. Escrevíamos apenas sobre política mato-grossense.

Em geral, as matérias tratavam de decisões políticas. Trocas de partidos, reuniões, aprovações de projetos, brigas, picuinhas, fofocas – quase sempre, situações que não tinham absolutamente qualquer relação com a população que esses políticos “governavam”. Mas eram textos sempre envoltos num manto de suposta importância e seriedade, afinal, é política e as pessoas deveriam se interessar por ela.

Bom, foi nisso que eu decidi acreditar.

Os anos passaram e eu “cresci” no ofício de jornalista. Passei de estagiária a repórter e de repórter a editora. Troquei de emprego algumas vezes; parte delas voltando para empresas e cargos que eu mesma havia decidido deixar, e sempre fazendo a mesma coisa: escrevendo sobre estes “fatos” políticos que não pareciam ter qualquer relevância na “vida real”.

Embora aquele questionamento, lá do início da carreira, ainda rondasse minha mente, eu estava em uma situação cômoda, profissionalmente falando. Trabalhava muito, é verdade, mas sabia exatamente o que fazer, o que facilitava minha vida. Ganhava relativamente bem e, de quebra, ocupava um espaço com um certo status. Era reconhecida entre outros jornalistas e entre os políticos.

Hoje, cerca de 10 anos mais tarde, entendi que aquele primeiro site, o superespecializado, tinha um público específico. Mas ainda acho que meus questionamentos não eram sem sentido. Aqueles “fatos” não importavam para ninguém, além das próprias pessoas que eram retratadas nos textos. E o restante da sociedade não estava errada em não se interessar por “política”.

Não sei exatamente o que me fez enxergar isso com clareza, mas me senti isolada entre os colegas de profissão. Com raras exceções (sobrariam vários dedos de uma mão), eles pareciam não estar vendo o que eu via. Considerei mero comodismo. Mas, afinal, quem era eu para criticar?!

O que seria o certo então?

Não sou das jornalistas mais antigas no mercado, mas com o passar dos anos acompanhando (e vivendo) a profissão, fui, cada vez mais, sentido falta de contexto.  

Colher os dois lados de uma história e reproduzir o que cada um deles disse; relatar que determinado projeto de lei foi aprovado ou manchetar obras que custaram ou custarão X milhões de reais não me parece fazer sentido. Não o suficiente. 

É preciso deixar claro para o leitor o que muda (ou não) na vida dele depois desses fatos.   

É necessário mostrar, com clareza, qual o impacto disso – em termos práticos – na vida daquele cidadão médio, que dedicou parte do seu tempo para ler aquela informação.

Convenhamos, a maioria das pessoas sequer consegue imaginar a quantia de X milhões de reais que foi gasta nas obras que retratamos. Você consegue?

O contexto é o que faz o jornalismo, e é exatamente o que nós, jornalistas, estamos deixando de lado há anos.

À medida em que a tecnologia avança, as sugestões de pautas se transformam em “textos prontos para publicação”; as entrevistas, em conversas por telefone e, agora, em perguntas respondidas pelo WhatsApp.

Temos feito cada vez menos e, no lugar de informar, “empobrecemos” nossos leitores.

Vou dar um exemplo prático.

Era 2021. Um release chegou na redação em que eu trabalho mostrando dados sobre a abertura de novas empresas em Mato Grosso ao longo de 2020. À primeira vista, eram dados animadores. Só no segundo quadrimestre daquele ano, 22 mil novos negócios criados no Estado. Um crescimento de 10% na quantidade de empresas abertas.

Mas “algo de errado não estava certo”. O contexto era a pandemia e a crise econômica que veio junto com ela, causando desemprego e falências.

O mesmo release afirmava que, entre as atividades desses novos “empreendedores”, as que mais se destacavam eram vendas, seguida do ramo de estética. Ou seja, mais de 11 mil pessoas que “viraram empresárias” eram vendedores, cabelereiros, manicures, maquiadores.

De volta ao contexto, o setor de serviço — e os salões de beleza estão nesse nicho de mercado — estava na lista dos mais afetados pelas medidas de isolamento social, a ponto de virar polêmica se o ofício de cabelereiro poderia ou não ser considerado um serviço essencial.

Logo, não seria estranho supor que esses cabelereiros, manicures e maquiadores não eram realmente empresários. Estavam mais para pessoas desempregadas que se viram obrigadas a empreender para tentar manter alguma renda.

Até o mais acomodado dos jornalistas deveria perceber isso. Seria preciso ser um extraterrestre e ter caído na Terra há poucos dias para não estranhar os dados. Mas poucos não se limitaram a simplesmente reproduzir o release.

E nossa rotina nas redações está repleta de outros casos não tão óbvios assim.

Nós desistimos do jornalismo?

Uma pergunta que não me sai da cabeça é: por que paramos de questionar? Por que paramos de indagar se aquilo que está diante dos nossos olhos faz sentido, se aquilo que foi dito é mesmo a verdade? Por que continuamos nesse “piloto automático”, se está tão claro que estamos no caminho errado?

Quando iniciei a carreira, não tinha a experiência necessária para entender porque certas coisas pareciam não ter sentido. Além disso, precisava me enquadrar em um mercado de trabalho que, na minha avaliação, exigia aquele “padrão” de jornalismo. Hoje, tenho convicção de que aquilo que eu sempre achei errado, estava errado de fato. E, infelizmente, parece que só piora.

Uma mudança é mais necessária, mas sinto que, a cada dia que passa, fica mais difícil praticá-la. É um sentimento que me fez pensar em largar a redação e até o jornalismo. Mas, enquanto esse dia não chega, acredito que o mínimo que posso fazer é ser uma voz (hoje sei que não estou tão sozinha quanto eu imaginava) que clama por boas práticas na profissão.

O mercado, de fato, impõe um ritmo desumano e industrial. Mas nós PRECISAMOS fazer diferente. Estar inconformado é o começo.