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Práticas Editoriais

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Um dia desses, um grupo de jornalistas conversava sobre uma situação hipotética, em que as empresas jornalísticas não cobriam mais os pronunciamentos do atual presidente em razão de suas últimas decisões. Num determinado momento da conversa, alguém disse: “A imprensa do Brasil, de forma geral, é muito desunida. Iria se combinar de não cobrir os acontecimentos de Brasília, mas aposto como alguém iria quebrar a regra, só para garantir o furo.”

Apesar de o furo jornalístico ter perdido bastante valor com a chegada e o avanço da informação nos meios digitais, ele ainda pode ter um valor fundamental para que os veículos possam tornar seus conteúdos exclusivos. Contudo, e não de forma geral, atitudes como essa fazem com que as questões sobre o fim último de nossa profissão mereçam ser discutidas.

Afinal, em quem estamos pensando no momento de cobrir e descobrir os fatos? No público e, especialmente, nas questões que fazem sentido para suas realidades, ou em nossa própria vontade de sair na frente pela busca de uma novidade que, daqui a pouco, já se tornará antiga?

Certo dia uma jornalista experiente e editora num grande veículo nacional fez o seguinte comentário durante uma aula sobre redação digital: “A primeira coisa que eu escrevo, em uma matéria, é o título”. A fala seguia com uma justificativa impositiva de que aquele era o seu estilo e, por essa razão, o método seria válido.

Estilo costuma ser, de fato, um traço pessoal que alguém imprime sobre seu trabalho e o diferencia de qualquer outro autor. Para o jornalista, estilo é parte da identidade individual, motivo de orgulho. Até aí, zero problema. O difícil é quando este “estilo” esvazia a razão de o jornalismo existir.

A aluna seguiu o comentário revelando que, após escrever o título, ela “via com mais clareza aquilo que ela realmente queria“. Só então começava a apurar o assunto. Num momento ponderou, jogando a mão repetidamente pro lado, num gesto de desdém: “Quando alguma investigação aponta algo diferente às vezes eu até mexo um pouquinho no título, mas o importante é eu saber qual será a minha tese”.

Destaco a palavra tese porque aí reside um perigo ainda maior do que escrever o título antes de fazer a apuração. Tese é uma expressão que se costuma usar na academia, associada à prática da ciência ou à busca contínua pela verdade. Sei que este discurso soa modernista demais para seguir em uso na pós-modernidade. O fato é que a estrutura da pesquisa científica ainda é feita do confronto entre tese e antítese, que darão origem à síntese.

Quando uma tese nasce, ela vem com a verificação de hipóteses, ou seja, a análise. É certo que o jornalista observe a realidade e conte para o público. Mas da observação à análise há uma diferença abismal que escorrega na armadilha do enviesamento, ou seja, de um jornalismo pretensamente imparcial mas atravessado por simpatias a antipatias, por interesses próprios, pela militância fora de lugar.

Não sejamos ingênuos: imparcialidade não existe, objetividade é uma utopia etc, etc. Sabemos, no entanto, que um jornalismo honesto se faz a partir de, pelo menos, um esforço de relatar a realidade com o máximo de fidelidade aos acontecimentos. E isto é possível quando o autor ou o veículo explicitam seu lugar de fala. Quando não existe posicionamento claro, então estamos diante de uma armadilha ao público, de um desserviço à sociedade.

Já vi repórteres de TV escreverem o texto da passagem no carro da empresa, no caminho de ida ao local da pauta. Pergunto: para que serve mesmo apurar, investigar?

Mesmo que esta jornalista não aplicasse seu método de criar teses antes da apuração ao breaking news e o deixasse apenas para grandes reportagens, o perigo do anti-jornalismo seguiria presente. Quem faz análise é o analista. Quem constrói teses é quem encontra elementos para observar um fenômeno desde um referencial teórico aplicado a uma amostragem real. Portanto, tese é ponto de vista.

Tese é território de posicionamento. E não há forma legítima de uma tese se aplicar ao jornalismo. Tratar jornalismo como tese é uma afronta a quem for consumir aquele produto, é a subestimação da capacidade de raciocínio da população. Além disso, é um extraordinário indício de preguiça profissional.

Fazer uma tese pensando que está fazendo jornalismo indica que o jornalista não fez nem mesmo um mínimo esforço em se expor à realidade de forma desarmada, permitindo que os fatos falem por si e conduzam a apuração de modo orgânico, não guiados por seus desejos.

Lamentavelmente, este comportamento não é exclusividade daquela editora que mencionei no começo deste artigo. Já vi repórteres de TV escreverem o texto da passagem no carro da empresa, no caminho de ida ao local da pauta. Pergunto: para que serve mesmo apurar, investigar?

Se a fonte não deu exatamente aquela declaração que o jornalista buscava, então ela ‘não serve’.

Até mesmo o colunista, o analista da realidade sustenta suas teses em argumentos concretos e fatos, pesquisas, declarações. Que autoridade tem o jornalista para criar uma tese antes de se encontrar com a realidade, antes de ouvir as fontes, de conversar com pessoas, de ver um fato com seus próprios olhos e depois vendê-la às audiências como o sumo da verdade?

Não é raro encontrar repórter que busque fonte ou personagem com perfis extremamente precisos, que apenas confirmem a história que ele quer contar. Se a fonte não deu exatamente aquela declaração que o jornalista buscava, então ela não serve e se parte na busca de outra, e outra, e outra pessoa que apenas valide a tese formulada na redação.

Assim como no método científico, a graça do jornalismo está na descoberta! Deixe a realidade falar e coloque-se à serviço dela. Não tente condicioná-la aos seus pré-conceitos. Faça jornalismo, não defenda teses.


As aulas de gestão de crise sempre costumam render. Apesar das situações analisadas serem algo desastrosas, a curiosidade fica por conta do absurdo de algumas interações entre jornalistas e audiências. O episódio da leitora que encomendou um pudim à revista de gastronomia se soma aos inúmeros casos em que usuários perguntam qual é o nome da pessoa que responde comentários de uma publicação. É a personificação potencializada pelas redes!

Ainda que interações como estas não cheguem a ser uma “crise”, a troca entre jornalistas e público cria oportunidades que podem servir para aproximar e fidelizar o usuário, ou para torná-lo um crítico ainda mais feroz do nosso trabalho.

E o senhor, está bem?

Nesta semana, uma colega contou o caso de um ouvinte da rádio onde ela trabalhava. Religiosamente no mesmo dia, no mesmo horário de cada semana, ele ligava para a emissora e descarregava sua raiva no jornalista que atendesse o telefone. Geralmente o produtor retrucava ou dava um jeito daquela barbaridade acabar logo e cortar a chamada. Até que um dia, essa colega atendeu o rapaz e, pela primeira vez, alguém da rádio ouviu o que ele tinha a dizer.

O ouvinte xingou, rosnou, destilou todo o seu veneno contra a programação, os radialistas e tudo o que compreendia aquela teimosa sintonia. A colega não retrucou; só ouviu. Depois que o homem esgotou seu português, a jornalista perguntou: “E o senhor, está bem?” – sem ironia, de modo interessado. E adivinhem? Não, ele não estava bem.

Nos minutos seguintes, a raiva deu lugar ao lamento. A mãe dele estava doente e ele, cuidando dela, além de outras penas. A jornalista ouviu, ouviu, ouviu e só intervinha com interjeições de concordância: Puxa vida… Que coisa, né? É… complicado. No fundo, no fundo, o ódio dele não era contra a rádio nem contra os jornalistas, mas contra a vida dele próprio.

A jornalista que sabia ouvir

Aos poucos, o ouvinte enfurecido deu lugar a um homem manso, sofrido, mas educado, que sabia falar para quem sabia ouvir. E isso foi tudo o que a jornalista fez: ela ouviu. Era isso, também, o que aquele homem mais precisava: ser ouvido, ser acolhido.

Como pode um gesto tão simples ter tamanho impacto nas relações humanas – e nas relações entre público e veículo? 

Depois de ouvir a história, eu disse à colega: Parabéns! Tu fostes simplesmente humana. Mostraste àquele homem que, do outro lado do telefone, havia um ser humano igual a ele, dotado de sentimentos, individualidade… – e ela complementou: Ele se deu conta de que eu estava trabalhando e parou de xingar!

Beira a obviedade. Mas àquelas pessoas que se revoltam com jornalistas é preciso mostrar que somos profissionais, seres humanos, pais e mães de família, pagadores de impostos enfim… somos pessoas, indivíduos como qualquer outro e assim devemos nos portar. Usar o nome da empresa como salvo conduto ao anonimato nem sempre “salva” o jornalista de enfrentar a insatisfação das audiências. E pior: fica ainda mais difícil resolver o conflito.

Jornalista não tem aura e veículo não é objeto de culto

Ao contrário do que muitos ainda podem pensar, jornalista não tem aura e veículo não é objeto de culto. Walter Benjamin olhava para o que se tornaria “mídia” e denunciava a superexposição daquilo que é mais importante existir do que ser visto

O coreano Byung-Chul Han faz eco ao frankfurtiano e considera a transparência uma obscenidade de um tempo aceleradamente positivo (afinal, só o botão de Like existe numa estética em que todos são obrigados a serem felizes hoje).

A transparência nos afasta do mistério, do sagrado, da imaginação pródiga em criar jogos de conquista e poder. Ocorre que o jornalismo não é religião, não é espetáculo, não pertence à ordem do onírico e, por mais que esteja feito de gente cheia de subjetividades, o motivo pelo qual a profissão existe anda à pé, descalço e de cara lavada. Jornalismo não é arte. É vida! E não aquela que imita a arte.

Se é feito de realidade, não há porquê o jornalismo se confundir com qualquer manifestação humana que presuma a assimetria para existir, como o teatro e a plateia, o ídolo dos gramados e o torcedor. De fato, as redes sociais viraram do avesso qualquer noção que distinguia o público e o privado, a intimidade do devasso.

Existe uma rica parte do humano que se esgota na transparência excessiva, na busca cega por holofotes que ofuscam a graça e a expressão. Mas essa parte não inclui o jornalista, aquele que escolheu uma profissão que serve à sociedade porque é parte dela. E se não pertencer à essa sociedade, como saberá servi-la?

A capacidade de escuta como diferencial

Abracemos, pois, a transparência de ser, servir e conviver. O convívio, aliás, começa com saber ouvir. Na sociedade da informação falta atenção e o resultado disso é a carência. Quando sugeri para um grupo de editores de um veículo que adotassem práticas de escuta dos usuários, ouvi de uma colega: Ah, tá! Agora a gente vai abrir um consultório psicológico pro leitor! – Eu ri, por não chorar.

Cada indivíduo sabe dos seus limites e das habilidades que dispõe. Saber ouvir não é tão óbvio quanto parece. Mas talvez seja mais necessário agora, no jornalismo, do que em qualquer outra época, em qualquer outra profissão, porque ainda pode ser o diferencial que precisamos para sobreviver.

Enquanto eu alinhava a rotina de responder comentários com uma redação, um dos colegas destacou: “Vamos ser diferentes fazendo isso!” – e a editora lembrou: “É bom iniciar a resposta pelo nome do usuário, né?” – coisa bem boa que existem jornalistas assim!

Sim, editora, é bom mencionar o nome do usuário no início da resposta, porque é tão bom quando um professor chama a gente pelo nome, né? – o sorriso farto no rosto de toda a redação confessou que sim.

Por mais que o jornalista nem sempre seja um professor, ele é um ponto de encontro entre indivíduos com propósitos semelhantes. Nossa tarefa maior passa por criar pontes entre eles, mas para isso, o primeiro passo é ouvir quem eles são.

No afã de produzir conteúdos relevantes para o público, veículos e jornalistas seguem definindo, por si próprios, aquilo que julgam importante para suas audiências, sobretudo nos tempos de crise em que vivemos. Como consequência disso, vemos, hoje, nos noticiários, temáticas monótonas e que, por vezes, até podem trazer mais desespero que esperança aos leitores.

Antigamente, não se podia ter uma noção tão precisa das necessidades do público por se estar tão distante dele. No entanto, por que não atendemos as demandas de cada um dos nichos de nossos negócios, apesar de termos – aparentemente – uma dimensão exata delas?

Será que os jornais utilizam os critérios corretos para definir as prioridades de seus conteúdos? Estariam eles usando entre os critérios de noticiabilidade uma busca pelas reais necessidades de seus leitores, ou de suas próprias percepções?

Não importa o seu momento de carreira. Se você for principiante, aprender a escrever de forma clara é uma tarefa necessária. Se você for um jornalista senior, é provável que tenha uma equipe para treinar. E se você não for jornalista, dizem que escrever de forma clara e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

Seja para aperfeiçoar sua redação, seja para sugerir o material à sua equipe, o Orbis Media Review preparou este Guia de Clareza Textual a partir de experiências do time. O guia também é uma forma de buscarmos uma escrita mais simples – e nem por isso pobre, ao contrário!

A simplicidade de um texto o torna elegante, ao contrário do que muita gente pensa. Informar de modo claro é um jeito de tornar o jornalismo mais próximo da população. Isso passa pela escrita, mas também pela contextualização de uma pauta, pelo estilo do discurso, pela relevância que o conteúdo terá na vida do usuário.

Abordamos estas e outras questões no Guia de Clareza Textual. Baixe gratuitamente, use, compartilhe e, se achar necessário, deixe seu feedback para corrigirmos ou expandirmos o material.

Era o início da noite de 14 de fevereiro de 2020 e o centro histórico do Recife já estava agitado com o pré-carnaval. Pelas janelas do prédio da Rua Marquês de Olinda, onde está a sede do mais antigo jornal da América Latina, o Diário de Pernambuco, era possível ouvir a passagem barulhenta de inúmeros blocos e grupos. A alegria parecia contagiar os profissionais da Redação, que preparavam a primeira edição de um jornal renovado em conteúdo e forma e que anunciava o projeto Rumo aos 200 anos – o DP, como é carinhosamente chamado, tem 194 anos de uma história riquíssima.

As duas ideias eram parte de um trabalho iniciado havia pouco mais de 60 dias, com a intenção de melhorar com rapidez a sobrevida do título. Como todos os jornais tradicionais, o Diário de Pernambuco vem sofrendo as consequências da revolução digital. Alguns, como o DP, em grau desesperador, por diversas razões. Não havia verba para melhorias, pois o capital disponível era usado para pagar os salários e as dívidas e para manter a operação.

Nos muitos anos em que passei pelo Estadão (foram 26, a partir de 1990), percebi o quanto um processo de desconstrução é difícil.

O jornal estava editorialmente frágil, com pouca produção local, trazendo basicamente conteúdos nacionais. A operação digital, que chegou a ser uma das melhores do Brasil, mostrava números de quedas impressionantes. Resultado do processo de enxugamento de sua Redação, vivido por todos os grupos brasileiros para tentar manter seu título vivo. E tinha ainda distorções sérias de produção e negócio, causadas por cortes em todas as áreas na mesma busca pela sobrevivência.

Nos muitos anos em que passei pelo Estadão (foram 26, a partir de 1990), percebi o quanto um processo de desconstrução é difícil. Tive a chance de acompanhar e comandar alguns deles. Certamente um dos maiores problemas era o desejo de tentar manter a maior parte das estruturas existentes, mesmo com a redução gradual dos recursos e do pessoal. Com o tempo este processo vai causando uma distorção enorme não somente na forma de produzir e entregar o conteúdo, mas nas áreas de produção, logística e negócios. Gera distorções como as vistas então no DP. Não só uma Redação voltada basicamente para o fechamento do jornal, com pouquíssima produção local e num horário muito tardio, mas uma marca com muitos produtos supérfluos e uma operação de produção e de logística não adaptada às novas condições.

O processo de foco preciso impactava positivamente não só a Redação, mas a operação digital, de logística, de mercado leitor, comercial e administrativo.

Tanto na experiência no Estadão como em outros trabalhos posteriores na Bahia, tinha ficado claro que era preciso abrir mão de cadernos, seções e produtos secundários, para liberar profissionais e energia no trabalho do que era o principal da marca. No caso do Estadão, um jornal do poder – político, econômico, cultural, etc. No dos regionais, a cobertura de sua cidade, seu Estado. O processo de foco preciso impactava positivamente não só a Redação, mas a operação digital, de logística, de mercado leitor, comercial e administrativo.

Confiando nas experiências, o foco principal no DP foi o de buscar medidas de melhorias na operação e na reorganização da forma de trabalho da Redação. Algumas soluções simples e de rápido ganho foram tomadas na produção. Foi definido um comando claro e criado um grupo de líderes do projeto entre alguns dos profissionais que haviam feito o jornal continuar funcionando, apesar das terríveis ondas de cortes dos últimos anos. Foi assim definida uma nova forma de trabalho na Redação, baseada no foco na produção local e exclusiva. Os muitos níveis horizontais de produção foram drasticamente simplificados e horários modificados para atender ao novo foco. Para isso, seções e cadernos secundários foram excluídos. Em paralelo foi pensado um projeto gráfico e de conteúdo que mantivesse as características históricas do jornal, mas com soluções simples que mostrassem sua evolução.

Era a fase 1 do trabalho. Os resultados foram bem recebidos por leitores e pelo mercado. A operação digital ganhou agilidade e mais conteúdos locais e a audiência e o engajamento dispararam. Houve em seguida uma etapa rápida de ajustes e correções. A fase 2, a de novas mudanças editoriais e de operação e o início do projeto Rumo aos 200 Anos, iria ser iniciada no final de março. A ideia do projeto é mobilizar empresários, autoridades e a sociedade no apoio de um caminho para tornar o DP, um patrimônio não só do Recife e de Pernambuco, mas do Brasil, o primeiro jornal da América Latina a conseguir chegar ao bicentenário. Aí veio o coranavírus…

Escrevo este texto no dia 2 abril de 2020, em meio à pandemia. Estamos eu e a família isolados em casa, preocupados com a sobrevivência, como quase todo mundo. Sobrevivência, justamente a palavra que certamente mais usei neste e em outros projetos que tive a honra de comandar. A fase 2 foi adiada, sabe-se lá para quando e como. Enquanto escrevo, parece ainda estar distante a certeza de quando e como eu e minha família e muitos jornais do Brasil chegaremos ao fim desta crise. Espero que estejamos todos bem e que o DP possa comemorar seu bicentenário.

Entre tantos assuntos que rondam o cotidiano jornalístico, as fakes news surgem com frequência entre os mais debatidos. No meio, há uma preocupação lógica com os problemas que as informações falsas causam à sociedade. Afinal, se é função da mídia deixar o público bem informado, a disseminação de mentiras é claramente um obstáculo a este propósito final.

Ao entrar de cabeça na luta contra a desinformação, no entanto, é possível esquecer de analisar a questão em si, suas implicações, a gravidade do problema e, principalmente, o papel que o jornalista pode exercer. A solução do fact-checking” parece beirar a unanimidade entre profissionais da comunicação, podendo realmente ser boa para expor uma mentira evidente antes que tome grandes proporções. Mas há considerações importantes a serem feitas relativas a esta prática, inclusive ao olhar para a sociedade, com quem o jornalista deve dialogar e perceber como boa parte dela enxerga a questão.


Dados concretos e oficiais sobre um determinado assunto nos ajudam a guiar, mas também podem ser enganosos e contar apenas meias verdades.

Dado que no amplo e inflamado debate público dos anos recentes encontramos não apenas informações deliberadamente mentirosas, mas também distorções de fatos verdadeiros e dados descontextualizados, aplicar uma medida única e definitiva para o problema não é algo muito fácil, para não dizer impossível.

A atuação dos fact-checkers oferece uma alternativa à exposição de notícias falsas. O problema, no entanto, está muitas vezes em definir o que é verdadeiro. Certamente há questões objetivas facilmente identificáveis, mas em muitos outros casos a fronteira entre verdade e mentira não será tão clara. Dados concretos e oficiais sobre um determinado assunto nos ajudam a guiar, mas também podem ser enganosos e contar apenas meias verdades. O falso consenso ou mera opinião também podem oferecer uma interpretação parcial do mundo ao nosso redor, permitindo que enquadremos como mentira algo que talvez não esteja fechado para o debate.

É certo que, em um mercado aberto, a checagem de fatos tem seu lugar e um público consumidor. Mas institucionalizar grupos de checadores de notícias como controladores oficiais da verdade pode ser um risco para a livre circulação de informações.

Ao se colocar em uma posição de infalibilidade, muitas empresas de mídia se fecham para a autorreflexão e passam a ver na sociedade um obstáculo à realização de seu propósito maior. Parte do descrédito midiático resulta da desconexão com o público, o que é reforçado por seu posicionamento de detentora oficial da verdade. Uma vez que as redes sociais amplificaram as vozes da crítica e do questionamento, o jornalismo oficial simplesmente perdeu o monopólio da comunicação.

É preciso, portanto, questionar sobre o valor gerado pela checagem de notícias, dado que no atual momento há ampla circulação de informações, opiniões e conteúdo de entretenimento. Ao atuar apenas de forma reativa, revisando e corrigindo aquilo que é divulgado por tantos outros, o jornalismo gera pouco valor para si mesmo.

É curioso pensar em crise no jornalismo em um momento de tanta difusão de conteúdo. Mesmo empresas cujo produto nada tem a ver com informação oferecem conteúdo que agrega conhecimento ao seu público e gera engajamento com a marca. Diversas pessoas qualificadas trespassam o cada vez mais frágil filtro jornalístico para difundir nas redes suas opiniões e visões de mundo. Há valor sendo criado em todo canto para pessoas que buscam se distrair, se informar, conhecer novas ideias e ouvir histórias cativantes. Como competir com isso apenas checando um limitado número de notícias que correm nos meios mais diversos?

O funcionamento do mercado mostra que produtos e serviços ruins são deixados de lado e superados, não por uma atitude limitadora de órgãos públicos ou entidades setoriais, mas pela concorrência que força a melhoria.

A discussão que deveria rondar o jornalismo acerca do fenômeno das fake news está limitada. Não se trata apenas de mostrar a verdade e a mentira que rondam a comunicação de massa que hoje existe e, portanto, de controlar e regular o que está chegando aos ouvidos do público. Este posicionamento ignora o potencial do jornalismo, cujo poder reside não apenas em dar informação ao público, mas em ajudá-lo a compreender o mundo a sua volta.

Ainda que em termos gerais, o funcionamento do mercado mostra que produtos e serviços ruins são deixados de lado e superados, não por uma atitude limitadora de órgãos públicos ou entidades setoriais, mas pela concorrência que força a melhoria. O mercado midiático possui suas particularidades e, muitas vezes, a desinformação conta com forte apelo humano. Ainda assim, investigar, descobrir informações relevantes e produzir conteúdo de qualidade, de verdadeira qualidade – o que é o trabalho do jornalista -, pode contribuir mais para o esclarecimento do que se passa ao nosso entorno no atual e confuso cenário de debate público, do que simplesmente caçar mentiras produzidas.

O problema da desinformação não é novo; ao contrário, existe desde que o mundo é mundo e continuará existindo enquanto o ser humano for humano. A novidade são as novas tecnologias, que permitem uma disseminação maior e mais veloz da informação. Mas esta é uma via de mão dupla, pois se a mentira pode ser compartilhada com grande facilidade, velocidade e alcance, o mesmo serve para a verdade, para o conteúdo de qualidade.


A retomada da credibilidade do jornalismo, no entanto, não passa apenas pela geração de conteúdo e opinião de qualidade, que muitas vezes é apenas aquilo que os próprios jornalistas acham relevante e acreditam estar correto. Parte importante do descrédito midiático se deve à falta de contato entre jornalistas e o público, que não mais enxerga seus valores refletidos nos jornais, nas rádios e televisões. Quando há esta desconexão, o diálogo é perdido e o jornalista fala apenas para si mesmo.

Colocar o jornalismo de volta a sua posição de destaque por meio do aprimoramento do conteúdo que distribui não é solução definitiva para o problema da desinformação. Não é possível dissipar e ordenar o caos informativo dos tempos atuais, mas permitir que o público se guie neste cenário é algo que está nas mãos do jornalista, desde que ele esteja disposto a criar e oferecer um tipo de conteúdo de real valor.

A retomada da credibilidade do jornalismo, no entanto, não passa apenas pela geração de conteúdo e opinião de qualidade, que muitas vezes é apenas aquilo que os próprios jornalistas acham relevante e acreditam estar correto. Parte importante do descrédito midiático se deve à falta de contato entre jornalistas e o público, que não mais enxerga seus valores refletidos nos jornais, nas rádios e televisões. Quando há esta desconexão, o diálogo é perdido e o jornalista fala apenas para si mesmo. A realidade é que a internet quebrou o intermédio da mídia, dando à população um poder sem precedente de buscar diversas fontes de informação e de expressar aquilo que pensa. O jornalismo precisa dos ouvidos tanto quanto precisa da boca. E ser checado pela opinião pública é essencial para que não se perca em sua própria bolha.

Mais do que uma tutela midiática ou de poderes públicos com capacidade regulatória, a população precisa também de liberdade para discutir e, portanto, para pensar.

É possível acreditar que a circulação de informações incorretas e inverídicas levam a um empobrecimento das crenças populares, ou ainda a um risco à democracia. A verdade é que o aumento da circulação de notícias e opiniões também provoca um amadurecimento da população em sua busca por compreender a realidade. Certo conflito, como acontece no próprio processo dialético do discurso, estimula o raciocínio ao contrapor, com argumentos, qualquer tese desenvolvida, filtrando o conhecimento e o aproximando da verdade.

Portanto, mais do que uma tutela midiática ou de poderes públicos com capacidade regulatória, a população precisa também de liberdade para discutir e, portanto, para pensar. Não se trata de achar que regulações e controles não são necessários em sociedade. A mentira descarada, quando criada para difamar, enganar e manipular, precisa ser exposta como tal. Mas a luta contra a desinformação pode também ser positiva ao ofertar conteúdo de alta relevância e grande profundidade intelectual. No fundo, tal discussão diz respeito às pessoas, que formam suas opiniões com base nas informações que circulam por todos os canais. Se a mídia puder dialogar com o público e contribuir com o bom conteúdo que é capaz de produzir, sua função já estará sendo cumprida e o debate público se tornará ainda melhor.

Enquanto crescem os debates sobre o futuro do jornalismo, três correntes da atividade se fortalecem no cenário internacional. São elas: Constructive JournalismListening JournalismDialogue Journalism. Todas têm em comum a centralidade do público no processo editorial e não apenas no fim da cadeia, como receptor, aos moldes do que a maioria dos veículos ainda trabalha.

O protagonismo do usuário na produção de notícias e reportagens não é algo novo, nem mesmo no ambiente digital. Em fevereiro de 2000, o noticiário sul-coreano OhmyNews estremecia setores tradicionais da mídia internacional ao afirmar que every citizen is a reporter. O slogan convidava cidadãos do mundo todo a uma versão do site em inglês — além da original, em alfabeto hangul –, onde se publicava conteúdo enviado por não-jornalistas, mas discutido, selecionado e editado por profissionais baseados numa redação em Seul. A onda se espalhou e diversos veículos — muitos deles, brasileiros como Estadão, G1, O Globo, Terra e iG — criaram suas editorias colaborativas. O fenômeno ficou conhecido como jornalismo cidadão, jornalismo colaborativo ou jornalismo open source.

Constructive Journalism (ou Jornalismo de Soluções)

Quinze anos depois de cada cidadão poder tornar-se um repórter, se usaria pela primeira vez o termo Constructive Journalism, que nada tem a ver com a Teoria Construtivista do jornalismo. Internacionalmente projetada pelos estudos de newsmaking de Gaye Tuchman, o jornalismo construtivista entende que a notícia é sempre uma construção e não um espelho da realidade. Já o Constructive Journalism ficou conhecido como o “jornalismo de soluções”, ou seja, aquele que repudia a negatividade e o sensacionalismo como valores centrais para decidir o que é notícia e prioriza um olhar positivo.

O dinamarquês Ulrik Haagerup, fundador do Constructive Institute e um dos criadores do modelo, explicou no congresso mundial da WAN-IFRA de 2018, em Portugal, que o Constructive Journalism não busca pintar o mundo de cor-de-rosa. Ao contrário, o conteúdo enfoca os graves problemas mundiais como a contaminação dos oceanos pelo plástico, o trabalho escravo, o combustível fóssil, o desflorestamento, as epidemias, a miséria. Mas o trabalho editorial não para na investigação das mazelas. O diferencial do Constructive Journalism é perguntar: E agora? Que soluções estão funcionando noutros lugares e podem ser replicadas aqui? O que podemos fazer para mudar essa triste realidade?

O último relatório do Reuters Institute sobre jornalismo digital, publicado em junho de 2019, chama a atenção para os crescentes índices de fadiga noticiosa. Já são 32% dos participantes que admitem evitar o consumo de notícias. A principal razão é o impacto negativo que elas exercem no estado de ânimo do indivíduo. Se notícia ruim sempre existiu, o que mudou foi o olhar da população diante do noticiário e da vida em sociedade.

A reconstituição das tribos por meio das redes sociais provocou o ressurgimento de uma solidariedade sem fronteiras. O imperativo do hedonismo e a “obrigação em ser feliz” tornaram insuportável o sentimento de impotência que um leitor tem ao saber de uma desgraça pelo jornal. É justamente esse gap que o Jornalismo Construtivo vem preencher, munindo o usuário de caminhos para melhorar o mundo. Como exemplos podemos citar o Upside, do Guardian, o People Fixing the World, da BBC, o Fixes, do New York Times e o Impact, do HuffPost.

Listening Journalism

A segunda corrente de jornalismo que promete evoluir está inserida em uma “cultura da escuta”. Mas não será óbvio dizer que qualquer jornalismo é feito a partir do que o profissional escute de suas fontes, de autoridades e da própria comunidade? O compromisso do Listening Journalism é ouvir ativamente as necessidades de informação que o público tem, assim como o feedback sobre trabalhos já publicados. A escuta, portanto, não acontece apenas durante a produção das reportagens, mas principalmente antes da definição da pauta e depois da publicação.

Entre as técnicas já experimentadas, a bola de neve ajuda a expandir o conhecimento do jornalista sobre e entre uma comunidade. Dennis Anderson, editor executivo do Journal Star, de Illinois, começou conversando com uma pessoa sobre o que ela gostaria de ver no jornal. Ao fim do diálogo, ele pediu que a “entrevistada” indicasse cinco pessoas com quem ele pudesse continuar a conversa. Essas cinco pessoas indicariam, cada uma, outras cinco para serem ouvidas. Assim, a rede cresce exponencialmente, aproximando o jornalista e o veículo de áreas da sociedade que não tinham o menor contato ou interesse pela imprensa até então.


A bola de neve é uma ferramenta metodológica utilizada na pesquisa científica. No diagrama acima, desenhei a aplicação da técnica na minha tese de doutorado, quando usei o snowball para compor minha amostragem, a partir de redes sociais.

Humildade e empatia estão no topo da lista de atributos que o praticante do Listening Journalism precisa ter. Deixar que os indivíduos contem suas histórias é o modo mais simples e verdadeiro de recriar essa ponte entre o jornalismo e a sociedade. O maior desafio, no entanto, está em ouvir os críticos da imprensa, os ex-assinantes e descrentes no veículo para onde o profissional trabalha. Mas é justamente aí que o Listening Journalism pode fazer a diferença.

Além de contribuir para o aumento da geração de receita às empresas de comunicação, o Listening Journalism ajuda a reconstruir a confiança do público no veículo e detecta o real impacto que as publicações têm no dia a dia da população. A análise é de Cole Goins, do American Press Institute, responsável por ancorar uma série de estudos no jornalismo de escuta.

Seja nutrindo um grupo fechado de Facebook, seja promovendo eventos presenciais para a escuta focalizada, o Listening Journalism deve estar presente na rotina das comunidades. Assim funciona em Ohio, no YourVoice, em Nova Jersey, na Carolina do Norte e em Filadélfia por meio do News Voices.

Dialogue Journalism

Além de olhar pro mundo buscando soluções (Construtive Journalism) e de exercitar a escuta como parte da atividade da redação (Listening Journalism), o jornalismo assume uma nova função social: facilitar o diálogo entre a população.

No contexto de uma forte polarização de ideias no cenário político mundial, Eve Pearlman e Jeremy Hay lançaram em 2017, na Califórnia, um serviço de conversas sustentadas por conteúdo jornalístico e mediadas por jornalistas. O Spaceship Media já reuniu grupos de posições frontalmente antagônicas sobre aborto, posse de armas, disputa por terras, imigração e, claro, sobre o governo Trump.

O roteiro de ação do Dialogue Journalism começa em grupos online, fechados, que em alguns casos se expandem para encontros presenciais. A dinâmica consiste na aplicação de 4 perguntas que todos os integrantes devem responder:

  • O que você pensa sobre o grupo oponente?
  • O que você acha que que eles pensam sobre você?
  • O que você gostaria que eles soubessem a seu respeito?
  • O que você gostaria de saber sobre eles?

As respostas dos participantes são mediadas por jornalistas que seguem o debate agregando informações apuradas previamente sobre o tema em questão. As sessões são acompanhadas por profissionais de veículos parceiros, que transformam o conteúdo dos diálogos em material jornalístico e sugestões de pauta.

Dialogue Journalism segue sete princípios:

  1. Construção: mapeamento de temáticas e comunidades em conflito.
  2. Integração: descoberta do que um grupo pensa a respeito do grupo oponente.
  3. Acolhida: organização de eventos ou momentos de conversa entre os dois grupos.
  4. Experiência: criação de oportunidades para jornalistas e patrocinadores encontrarem um público altamente engajado e participativo.
  5. Continuidade: as conversas seguem após os eventos e, nelas, os praticantes do Dialogue Journalism ajudam a manter o respeito entre os debatedores e a fazer com que a interação seja produtiva.
  6. Alimentação: os jornalistas proveem pesquisa e informações apuradas que sustentam as discussões.
  7. Compartilhamento: o Dialogue Journalism funciona em parceria com outros veículos de mídia, que usam o conteúdo das conversas para entender a relevância de certas pautas entre a população.

Como técnica central ou dispositivo auxiliar no processo tradicional de fazer jornalismo, as três modalidades reafirmam o público como a razão principal da existência de qualquer veículo de comunicação. Mais do que reaproximar jornalistas e leitores, ouvintes, usuários, telespectadores, o desafio parece estar na busca por um novo e relevante papel do jornalismo no dia a dia dos indivíduos.