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Faz quatro anos que acompanho a estratégia do “menos é mais” na produção de conteúdo por empresas jornalísticas. São vários cases, estudos e aulas que surgiram em função de uma máxima usada noutras áreas, como na corrente da arquitetura que caminha de mãos dadas com o design minimalista. O pai da expressão foi um arquiteto alemão que experimentou o ápice da sua carreira no período entre-guerras, Ludwig Mies van der Rohe. Não por acaso, ele foi diretor da escola germânica Bauhaus, onde nasceu o estilo homônimo, cujo princípio mais conhecido é “forma segue função”.

Não foi para menos. Reconstruir um país destruído pela guerra era uma tarefa complexa, sobretudo pela falta de matéria-prima e pela necessidade de erguer edifícios e redesenhar objetos para uso cotidiano. As ornamentações de prédios deram lugar a linhas retas. O que era belo precisava, agora, ser prioritariamente funcional. Cada material tinha de ser aproveitado inteligentemente; daí a prevalência de elementos versáteis, como a madeira, o aço e o vidro. Além de resistentes e de fácil manipulação, eram materiais baratos em comparação ao mármore, ao bronze e à seda.

Mas o que isso tudo tem a ver com jornalismo? Digamos, talvez, que nossa indústria esteja atravessando um pós-guerra, clamando por reconstrução.

Sou uma das tantas viúvas da Abril e todas as vezes que vejo o NEA, de longe ou pegando a Marginal Pinheiros pela Sumidouro, o nó na garganta denuncia o sentimento de devastação. A imponência do prédio – que não é Bauhaus, mas estilo contemporâneo – é só um dos superlativos que projetou a indústria jornalística na direção do show business, da cultura do entretenimento, de Hollywood. Mas jornalistas não são artistas e nem os veículos podem ser comparados a produtoras cinematográficas. Mesmo assim, o espírito do excesso pode ser uma das causas da crise na indústria – e reconhecê-lo pode ser a solução.

O excesso, infelizmente, não está apenas em infraestruturas e operações caras, como um grande edifício-sede. O exagero aparece na quantidade de conteúdo produzido, atrelado a um modelo de negócios onde “mais é sempre melhor”: a publicidade. 

Desafiando a publicidade

Há alguns dias, o título da newsletter do analista de mídia dinamarquês, Thomas Baekdal, perguntava: “Você quer cliques ou leitores?”. A questão é tão simples quanto cruel. É claro que qualquer um de nós deseja que seu trabalho seja efetivamente consumido (lido, assistido, ouvido) com atenção, do começo ao fim. Mas o que, de fato, perseguimos?

Enquanto tentamos equilibrar os dois pratinhos ao mesmo tempo, perseguindo cliques E leitores, produzimos toneladas de conteúdo para aumentar a extensão da rede que jogamos ao mar. Ora, quanto maior a rede, mais peixes virão! 

Você não clicou na matéria do carro-bomba na Colômbia? Então talvez se interesse pelas eleições na Argentina! Ou preferiria descobrir o que sua posição de dormir diz sobre sua personalidade? Já sei: você quer mesmo é saber que a atriz Aracy Balamanian morreu ouvindo música clássica! Porque você não perderia uma só notícia sobre a sucessão do Lira na Câmara, né?

O problema é que há cada vez mais pescadores jogando redes cada vez maiores e a chance de sobrar algum peixe para cair na sua é cada vez menor. As redes já se cruzam e se embolam e a desinformação traduz o desinteresse crescente pelo jornalismo.

Um dito popular lembra que nem Jesus Cristo conseguiu agradar a todos; mas jornalista segue firme neste propósito, nem que seja a fórceps! Se não agrada de um jeito, tenta agradar de outro. Se uma notícia ou um programa teve pouca audiência, produz outro, publica outra, faz mais! Uma hora, acerta. Afinal, o que conta é o número de audiência.

A publicidade não é um modelo de negócios problemático. Ela tem sua lógica e funciona bem há décadas. Só que ela se orienta pelo volume. E volume de audiência era algo que tínhamos quando a informação era um bem escasso. Por isso a indústria da informação se ergueu e se consolidou: produzíamos um bem escasso. Por isso a Abril tinha até academia com piscina dentro daquele prédio maravilhoso. E por acreditar que não tinha concorrentes, a outrora maior editora da América Latina não está mais lá. 

As revistas da Abril tiveram sucesso monumental, inclusive com publicidade, porque eram únicas, bem acabadas, compostas com planejamento, zelo, tempo e num padrão altíssimo de qualidade. Mas o consumo para esse tipo de produto mudou. A Abril não fez mau jornalismo, não pecou por falta de qualidade. Nem assim a qualidade foi suficiente. Portanto, na indústria jornalística contemporânea que deseja viver de publicidade – ou mesmo de assinaturas -, não basta ser bom, é preciso ser único.

[À parte: li na revista da Gol uma chamada para marcas anunciarem na empresa aérea. O anunciante pode escolher entre mensagens sonoras lidas por comissários de bordo, distribuição de amostras de produtos durante os voos e adesivagem de aeronave. A mídia está em todo lugar e até companhia aérea concorre com veículos de imprensa.]

O volume de audiência é consequência

No fim das contas, o problema não está na publicidade. É sobre ser relevante e fazer sentido a ponto de atrair a atenção de muitas pessoas. A publicidade é consequência disso e ela pode ser viável à medida em que o veículo alcance volume. De qual forma estamos buscando volume? Com mais conteúdo, mesmo que seja commodity, mesmo que haja 489 conteúdos iguais àquele em outros veículos, com quem nadamos em um oceano vermelho.

Para a publicidade funcionar, para atrair um bom número de audiência, o princípio da escassez nunca fez tanto sentido. Quanto menos há, mais valioso é um produto. Se a oferta de todo tipo de informação é infinita, que demanda atendemos? Ou ainda: o que leva alguém a procurar, especificamente, por nós e não por outros? O que fazemos de diferente, de único, de escasso a ponto de atrair a atenção de muita gente?

É realmente difícil ser exclusivo em um ecossistema propício à pirataria, à multiplicação infinita da informação sem perda de qualidade técnica. Então, a equação lógica que vai se desenhando para a indústria jornalística é: 

Se:
ATENÇÃO = EXCLUSIVIDADE
QUANTIDADE < QUALIDADE < EXCLUSIVIDADE
logo:
ATENÇÃO ≠ QUANTIDADE

Procurar por um diferencial real é só um dos pontos que precisam ser pensados em uma estratégia editorial. O medo de fazer algo novo ainda é gigante no setor; daí a eterna e falsa sensação de “garantia” trazida pela fórmula que se repete, pelas pautas que se repetem à exaustão. Mas é na exclusividade, na singularidade de um produto que mora a verdadeira inovação. 

Em tempos de informação excessiva, a inovação pode estar em publicar menos. Se os recursos são escassos, não tenhamos medo de ser simples, funcionais, úteis. Isso não tira nosso brilho; ao contrário, nos faz diferentes, menos iguais que a multidão, mais agradáveis (porque menos prolixos). 

Publicar menos é valorizar cada minuto de atenção da nossa audiência. Experimente!

Você leu este comunicado da Meta? “Testes aleatórios nos ajudarão a criar uma solução de produto eficaz para acabar com a disponibilização de notícias no Canadá.”

Não, ele não foi interpretado ou reescrito. Copiei e colei a partir do site original:  “Conforme nos preparamos para consentir com a legislação, anunciamos hoje que iremos começar testes em ambas as plataformas [Facebook e Instagram] que irão limitar alguns usuários e editores a visualizar e compartilhar alguns conteúdos de notícia no Canadá”.

O comunicado na forma de uma conquista tecnológica tem como contexto a aprovação do Projeto de Lei C-18, que versa sobre o mercado de notícias online. E a Meta não deixa qualquer margem de dúvida quanto ao que está obstinada a concretizar: “Pretendemos encerrar a disponibilização de conteúdo de notícias no Canadá permanentemente após a aprovação do Projeto de Lei C-18.

O que levaria uma empresa no século XXI a erguer um exército em combate a uma instituição basilar da história da democracia? 

O que diz a Lei de Notícias Online?

A Lei de Notícias Online canadense é um desdobramento natural e previsível da regulamentação pela qual as big techs vêm passando em vários países. Mais precisamente, o Canadá segue o caminho aberto pela Austrália que, no começo de 2021, instituiu o News Media Bargaining Code e colocou veículos e plataformas a negociarem um pagamento recorrente aos editores. 

(Se você não é da área, vale contar que a razão disso está no fato de as empresas de redes sociais terem adotado o modelo de negócio da publicidade que, até então, sustentava os meios de comunicação. Isso, sem assumir responsabilidade pelo conteúdo que nelas circula).

Voltando ao Canadá, a Lei C-18 diz que estarão isentos de cobrança os intermediários de notícias digitais que celebrarem acordo com empresas jornalísticas sob os seguintes critérios selecionados:    

  • forneçam compensação justa às organizações de notícia pelo conteúdo disponibilizado;
  • assegurem que uma parte da remuneração seja usada pelas organizações de notícias para apoiar a produção de conteúdo jornalístico local, regional ou nacional;
  • não permitam que a influência corporativa prejudique a liberdade de expressão e a independência jornalística de qualquer meio de comunicação;
  • contribuam para a viabilidade do mercado de notícias canadense;
  • garantam que uma parte significativa das empresas de notícias locais e independentes se beneficie, contribuam para sua viabilidade e incentivem modelos de negócio inovadores;
  • visem uma variedade de meios de comunicação com fins lucrativos e sem fins lucrativos e que sejam firmados com organizações de notícia que prestem serviços a todos os mercados e a várias populações, em particular a mercados locais e regionais.

A história se repete

Diante da provável obrigatoriedade em destinar parte de sua receita às empresas jornalísticas daquele país, a Meta achou melhor investir em uma “solução de produto eficaz para acabar com a disponibilização de notícias”. 

A ameaça de bloqueio e a efetiva proibição do compartilhamento de conteúdo noticioso em todos os produtos da Meta não é novidade. Assim como os legisladores canadenses se inspiraram no modelo australiano, a Meta repete agora exatamente o que fez na Austrália, em 17 de fevereiro de 2021, quando bloqueou todo conteúdo jornalístico até que o texto da lei fosse flexibilizado. 

Na Califórnia a situação não está diferente. Um dia após legisladores democratas e republicanos terem apresentado – e aprovado em primeira instância – o projeto de lei California Journalism Preservation Act, o porta-voz da Meta, Andy Stone publicou em seu perfil de Twitter que seria “forçado a remover as notícias do Facebook e do Instagram”.

As justificativas apresentadas pela Meta

À medida em que a história se repete, o discurso fica mais direto e sem floreios.

A justificativa para tal postura é que os legisladores não entendem como funciona a internet e ignoram a realidade. Veja o que dizem os comunicados oficiais:

Fevereiro/2021 – Austrália

A lei proposta não entende fundamentalmente a relação entre nossa plataforma e os editores que a usam para compartilhar conteúdo de notícias. Isso nos deixou diante de uma escolha difícil: tentar cumprir uma lei que ignora as realidades desse relacionamento ou parar de permitir conteúdo de notícias em nossos serviços na Austrália.

Junho/2023 – Canadá

A Lei de Notícias Online é uma legislação fundamentalmente falha que ignora as realidades de como nossas plataformas funcionam, as preferências das pessoas que as usam e o valor que fornecemos aos editores de notícias.” 

Maio/2023 – Califórnia

“A lei falha por não reconhecer que os publishers e broadcasters colocam seu conteúdo na nossa plataforma por vontade própria.”

Por que as plataformas precisam pagar aos veículos?

Andy Stone tem razão quando diz que os publishers compartilham seu conteúdo na plataforma livre e espontaneamente. Por uma ingenuidade algo oportunista, acreditamos que as redes sociais solucionariam nossos problemas de tráfego em troca de pouco ou quase nenhum esforço. É fato: não solucionaram e ainda prejudicaram o ecossistema de consumo de notícias ao adotar uma dinâmica de distribuição totalmente opaca

Mesmo assim, se um veículo ainda publica seu conteúdo em redes sociais, o faz em busca de algum benefício. Geralmente, o benefício é geração de (cada vez menos) audiência ou consciência de marca. Então parece ilógico usar uma plataforma espontaneamente e esperar que ela ainda pague por isso.

Um dos argumentos que os legisladores estão usando para justificar a cobrança de taxas das big techs em favor dos meios de comunicação é a infringência de direitos de autor, uma tese falha, já que é o próprio veículo quem publica seu conteúdo ali. (Com o Google a história é diferente e o expediente adotado pela empresa também é outro; fica para outro post).

Se o problema das leis, segundo a Meta, é que elas “não entendem a realidade”, vamos a situações indubitavelmente reais, suficientes para embasar a exigência de pagamento das big techs a empresas jornalísticas. 

Ao longo dos últimos 10 anos, fatos reais provocados direta ou indiretamente pelas redes sociais causaram prejuízos históricos aos veículos:

  • verba publicitária migra da imprensa para as redes;
  • plataformas utilizam as audiências segmentada pela presença de veículos e as vendem para anunciantes;
  • redes sociais entregam audiência orgânica, tornam os meios de comunicação dependentes disso e, depois, derrubam arbitrariamente o alcance dos posts, impactando na queda de audiência;
  • os veículos se veem obrigados a alocar mais esforços e a publicar mais conteúdo nas plataformas em busca do tráfego perdido, onerando a operação;
  • para ter algum alcance nas redes, empresas jornalísticas se obrigam a pagar para promover posts e chegar a uma audiência que, antes, era delas.

Programas de apoio ao jornalismo foram criados pelas big techs ao longo desses fatos para amenizar o caos que elas instauravam no setor. O golpe de misericórdia será o impedimento explícito de veiculação de conteúdo jornalístico nestes espaços. Se essa for, de fato, a nova “realidade”, resta esperar que ela seja o marco de uma nova e produtiva etapa da indústria jornalística, mais centrada em seus próprios produtos, com real controle de suas operações. Quem viver verá.

No livro The Uncensored War, Daniel C. Hallin trata do papel midiático durante a Guerra do Vietnã – papel este que foi altamente relevante, inclusive, para mudanças futuras na forma de atuação dos governos norte-americanos. Afinal, como explica Hallin, a cobertura irrestrita das batalhas ocasionou um novo fenômeno no país: se durante a Segunda Guerra Mundial os EUA estavam unidos em torno de um único objetivo, a situação americana dos anos 1960 e 1970 nada tinha a ver com isso:

Em cada noticiário da TV e em cada jornal matinal a guerra era reportada batalha por batalha, mas pouco ou nenhum sentido do propósito da batalha era expresso. Eventualmente isto contribuiu para a impressão de que estávamos lutando em um terreno militar e moral movediço, e não em direção de um objetivo importante e valoroso.

Se o papel da imprensa na ocasião for entendido como o de apenas replicar aquilo que ocorria nos campos de batalha, então talvez não haja muito o que ser criticado. Neste sentido, no entanto, Hallin faz mais uma observação sobre a mídia. O jornalismo nem sempre foi um setor no qual valores de isenção e imparcialidade eram estimulados. Da mesma forma, estes valores não passaram a ser praticados sem que antes houvesse uma troca com os próprios órgãos políticos e governamentais:

… jornalistas desistiram do direito de falar com uma voz política própria e, em troca, receberam um direito de acessar regularmente órgãos internos do governo; um direito do qual nunca desfrutaram na era do jornalismo partidário.

Os tempos do jornalismo apoiado diretamente por partidos políticos e, mais tarde, dos jornais que atuavam em nome de seus “barões” provam historicamente que não existe um único modelo a ser adotado pela mídia. O jornalismo objetivo e isento certamente cumpre um importante papel. Mas, como mostra a Guerra do Vietnã e eventos de meados do século passado, as circunstâncias estão ligadas às formas de atuação midiática. Com o surgimento e popularização da Internet, o modelo de publicidade que tanto estimulava a produção de um jornalismo imparcial dá claros sinais de exaustão. Inovar é se colocar à frente das novas demandas. E quais seriam elas nestes novos tempos?