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O Orbis Media Review coletou a visão de 45 líderes de alguns dos principais veículos brasileiros, para projetar os rumos do nosso mercado. Eles estão à frente de empresas e operações editoriais em diferentes suportes (online, TV aberta, TV por assinatura, jornal, rádio, revista, nacionais, locais, generalistas, segmentados) e renovam diariamente o compromisso em fortalecer o setor.

Entre os temas abordados estão as audiências, a atuação em redes sociais, a projeção da receita publicitária e por assinatura, outros canais de faturamento, cenário econômico, visão de produto, formatos de conteúdo, trabalho híbrido das redações, as principais competências que os jornalistas deverão apresentar neste ano, regulação da mídia, ESG e outros tópicos que cruzam a estratégia de nossos veículos.

BAIXE O RELATÓRIO (PDF)

Comumente, as referências para a mídia brasileira vêm do exterior, são vanguardistas e inspiradoras. Mas é preciso lembrar que também há uma força gigante na indústria jornalística nacional. São mentes dispostas a inovar e a zelar pelo legado de uma imprensa resistente e persistente.

É pela união do potencial destes tantos players, em nome da riqueza de ideias e da produção de qualidade que emerge dos veículos brasileiros que o Orbis Media Review reuniu as perspectivas para o mercado de mídia nacional neste primeiro Relatório de Tendências para o Jornalismo.

Nosso objetivo é de que este documento sirva de intercâmbio para aproximar veículos e auxiliá-los a definir estratégias, parcerias, atuações marcadas por propósitos claros em um ano de resultados positivos.

Ao final do relatório, você encontrará assuntos que recomendamos a que fique atento ao longo do ano, além de 23 Provocações e Recomendações preparadas cuidadosamente pelo jornalista e consultor Eduardo Tessler com exclusividade para o Orbis Media Review.

Agradecemos a generosidade e o tempo de todos que contribuíram para que este relatório pudesse existir. E como já é costume aqui no Orbis, sinta-se à vontade para dar seu feedback.

Baixe o relatório gratuitamente e compartilhe com seus colegas.

Feliz 2023!

 

 

Desde o lançamento da edição de 2022 do tradicional estudo Digital News Report, do Reuters Institute, no último dia 15 de junho, alguns setores da mídia brasileira têm comemorado o fato de o país registrar um índice de confiança nas notícias superior à média global. O percentual (48%) realmente é maior do que os 42% que representam a combinação dos 46 países investigados e isso deve ser destacado. Porém, é preciso olhar o contexto: o dado representa uma queda de confiança do brasileiro nas notícias.

A credibilidade medida no ano passado foi de 54% e isso representou um leve – e único – aumento de três pontos percentuais, impulsionado pela cobertura do início da pandemia, quando a população recorreu massivamente aos veículos profissionais em busca por informação confiável. Este fenômeno, aliás, foi percebido em veículos do mundo todo através do aumento pontual de tráfego nos sites e de audiência em canais de TV. Poucos meses depois, os números voltaram aos seus patamares anteriores, outros entraram em queda: era o fenômeno de news avoidance que se apresentava.

A história recente do índice de credibilidade no noticiário, aqui no Brasil, infelizmente, não é dos melhores. O Reuters Institute mensura esta confiança desde 2015, quando o jornalismo brasileiro representava um porto seguro de informações para  62% da população. No consolidado dos últimos sete anos, portanto, menos gente acredita no trabalho da imprensa e isso corresponde a uma queda de nada menos que 14 pontos percentuais [gráfico acima, reprodução do DNR22].

Neste ano, o Brasil não está sozinho, é claro, na perda de confiança pelo público. Nosso índice está acima da média global porque cerca da metade dos países pesquisados também registrou queda de credibilidade. Ou seja, a média global, em si, caiu; portanto, ficou mais fácil ficar acima dela. A imprensa dos Estados Unidos nunca teve um grau tão baixo de confiança desde 2015 e hoje ocupa o último lugar no ranking mundial, ao lado da Eslováquia, com 26%.

O Brasil está em nono lugar, atrás do Quênia, da Nigéria, da África do Sul, por exemplo [gráfico ao lado]. Isso abre margem para repensarmos o quanto veículos como o New York Times realmente devem ser considerados como exemplos a serem seguidos na formulação de estratégias editoriais e de modelos de negócio. Cabe lembrar, também, que o NYT antecipou o alcance da meta de 10 milhões de assinantes, projetada para 2025, ao comprar o veículo The Athletic e a plataforma de jogos Wordle e, com eles, suas respectivas carteiras de clientes.

Brasileiro é o povo que mais evita notícias

De volta ao Brasil, o Reuters Institute traz outro dado ainda mais preocupante no Digital News Report deste ano: somos o país que mais evita, deliberadamente, o consumo de notícias.

news avoidance é um comportamento que o estudo mapeia desde 2017 e identifica pessoas que decidem ignorar jornalismo. Naquela ocasião, apenas 17% dos brasileiros confessavam evitar ler, assistir ou ouvir conteúdo noticioso. Em 2019, este número já havia subido para 34% e também era superior à média global, então de 32%. Já neste ano, a quantidade de pessoas que evita ativamente o noticiário disparou para 54% – o maior índice global.

A diferença do dado de news avoidance entre o Brasil e o segundo lugar – Reino Unido – é de oito pontos percentuais, uma das maiores de todo o ranking. A situação fica ainda mais grave se compararmos nossos 54% com a média global, que é de 38% neste ano [gráfico a seguir].

brasil jornalismo audiências news avoidanceJá são cinco anos que os números nos alertam para a diminuição intencional no consumo de jornalismo. Segundo o relatório, há mais brasileiros desinteressados em notícias do que dispostos a acompanhar o trabalho dos veículos. Em paralelo, os modelos de geração de receita nunca apontaram com tanta força para o reader revenue (assinatura, membership, micropagamento, doação). Qual estratégia teremos que adotar para reconquistar a atenção das audiências a ponto de torná-las dispostas a pagar pelo nosso trabalho?

Uma coisa é certa: continuar cegamente o que temos feito até hoje, efetivamente, não resolverá o problema – ao contrário, o número de news avoiders brasileiros continuará subindo.

O que afasta a população das notícias

O próprio relatório do Reuters Institute dá algumas pistas sobre o que afasta o público do jornalismo. Num olhar geral sobre a amostra, quase a metade daqueles que dizem fugir das notícias alega que está esgotada da cobertura política e sobre o Covid-19. É importante lembrar, no entanto, que os relatórios de 2017 e de 2019, quando 17% e 34% dos brasileiros já confessavam estar fartos de jornalismo, não havia pandemia. Isso nos obriga a olhar para o noticiário político, cuja proporção é esmagadoramente maior na agenda de boa parte dos veículos, em relação a qualquer outro tema.

Outra razão apontada pelo público é o impacto emocional negativo que as notícias causam (36%). Já discutimos este fenômeno no Orbis Media Review e ele sempre vem associado ao crescimento do jornalismo de soluções: um modelo de reportagem em que o veículo não se limita à denúncia do que está errado, mas busca, efetivamente, mostrar como o problema pode ser resolvido.

Outros 29% admitem que estão saturados de notícia. A resposta para este problema é foco recorrente dos programas do Master Negócios de Mídia, quando estudamos casos de veículos que diminuíram a quantidade de publicações e, com isso, aumentaram resultados de audiência, de satisfação e de conversão (os mais exemplares são The Guardian, Le Monde e The Information).

Para um grupo de usuários mais jovens (até 35 anos), as notícias são difíceis de entender. O Brasil ocupa o segundo lugar, no mesmo relatório, entre os países onde a geração Z tem dificuldades para interpretar o que dizemos. Eles representam 15% dos news avoiders e estamos apenas atrás da Austrália, onde 16% dos jovens acham os produtos jornalísticos complicados.

É hora de agir

Diante destes fatos, é inevitável recuperar algumas premissas compartilhadas ao longo das últimas décadas por redações do Brasil e do mundo, na intenção de fazermos um exercício honesto de autocrítica, para identificarmos caminhos que nos levem a reverter este cenário:

  1. O jornalista é um mediador social, que traduz a informação colhida nas fontes para grupos de múltiplos níveis culturais. Precisamos falar e escrever de modo correto e acessível, sem o uso de jargões ou de vocabulário próprio do universo de nossas fontes. Como anda nossa linguagem? 
  2. Existimos para explicar como as coisas funcionam, para mostrar à população como ela será impactada pelas decisões tomadas nas instâncias de poder. Quem realmente se interessa pelo que publicamos?
  3. Se assumimos um compromisso com a isonomia, maior ainda deve ser a relação de transparência que mantemos com nossas audiências. É isso que elas esperam de nós. Conseguimos deter nossas convicções pessoais, sobretudo ideológicas, no exercício do jornalismo?
  4. Queremos ser relevantes, impactar o dia das pessoas, tornar a vida delas melhor. Como esperamos que elas se sintam ao consumirem um conteúdo que produzimos?

As perguntas e provocações não param por aqui. O mais importante, no entanto, é estarmos cientes da necessidade da mudança. Para alguns, a transformação do jornalismo pode começar no âmbito individual. Como sugestão, deixamos o Teste de Humildade Intelectual para Jornalistas, adaptado pelo Orbis Media Review a partir da revista científica Journal of Personality Assessment.

Só conseguiremos fazer um jornalismo melhor com jornalistas melhores. E para sermos jornalistas melhores, é preciso que busquemos ser pessoas melhores.

 

Quem trabalha com informação tem que ter muita vontade de servir. É com a compreensão de jornalismo como um serviço à sociedade que Marcello Corrêa Petrelli chegou à presidência do Grupo ND, conglomerado de mídia de Santa Catarina composto por 10 veículos, entre canais de televisão, jornais e plataformas digitais.

Em entrevista concedida ao jornalista Prof. Dr. Carlos Alberto Di Franco, no dia 12 de novembro de 2020, Petrelli apontou caminhos de prosperidade a empresas de comunicação. Tanto se fala nas dificuldades trazidas pela big techs, nos desafios apresentados pelas redes sociais, na dura competição pela atenção do usuário em tempos de overdose informativa. Mas para Petrelli, “quando se tem problemas, se tem oportunidades”.


“Conteúdo de política é importante, o contexto é importante, mas o mundo real é mais”, lembra Marcello Pettreli, presidente do Grupo ND de comunicação, de Santa Catarina.

“A verdadeira revolução da redação é defender a simplicidade, a humildade e, principalmente, o desejo de servir, de buscar aquilo que realmente interessa às pessoas e se relacionar. Jornalista tem que gostar de se relacionar”, analisa o ex-agricultor, que entregava pizza nos Estados Unidos para bancar os estudos e hoje lidera uma equipe de quase 600 funcionários.

A simplicidade que Petrelli acredita estar na raiz dos desafios a serem abraçados pelos jornalistas começa na formação do profissional. “As escolas formam jornalistas com uma visão distante da realidade, de querer estar próximo dela”, critica. Ao invés do estereótipo do “jornalista que sabe tudo”, é preciso “se aproximar das pessoas do mundo real, do que elas querem ouvir e saber”.

Menos Brasília, mais jornalismo local qualificado

Ele lembra que, como jornalistas, temos o “cacoete” de priorizar a política nos nossos noticiários. Como o brasileiro já não confia mais em político, “falar de política o tempo inteiro é perder audiência”, sentencia Petrelli. Ele ainda alerta: “Quanto mais noticiamos a política, mais poder eles têm, mais distanciamento da sociedade eles tomam. Nós damos todo este foco, toda essa coisa de ‘Excelentíssimo Senhor’ aos políticos. Mas temos que dar foco para quem? Para as pessoas comuns que estão dando emprego, buscando soluções, o empresário, o cidadão que atua no terceiro setor, para esta sociedade maravilhosa que aparece muito pouco [no noticiário] mas que está nas redes sociais”, observa.

“Às vezes o jornalista entende que é preciso que ele critique para resolver. Não é mais assim. As pessoas precisam aprender a elogiar, a estar muito mais no jornalismo construtivo, propositivo, do bem e da consciência. E sempre com a visão de reflexão para propor caminhos.”

É fato que as redes sociais trazem toda sorte de conteúdo e deixam nas mãos do usuário a tarefa de selecionar no que vai acreditar. “A pandemia colocou as redes sociais no lugar delas”, tranquiliza Petrelli, lembrando as inúmeras pesquisas que apontaram níveis de confiança discrepantes entre os veículos tradicionais e sites de relacionamento que retratam uma reaproximação do público a players de jornalismo profissional. Mas as redes vão além das fake news e mostram uma realidade muito particular que exerce profundo impacto na vida das pessoas. Este conteúdo, no entanto, não aparece na TV nem nos jornais. “Conteúdo de política é importante, o contexto é importante, mas o mundo real é mais”, pondera.

Diminuir o volume da cobertura de Brasília ou mesmo das agendas de vereadores e deputados é um caminho possível e até indicado para a despolarização do debate. Petrelli lembra dos tempos em que vivia em San Diego, há cerca de 30 anos, e o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, visitou a cidade. O jornal local noticiou o fato na quinta página da edição; se fosse no Brasil, seria matéria de capa! Como diz o Prof. Di Franco, muitas vezes “sobra Brasília, mas falta informação local, regional qualificada”.

Jornalista, um prestador de serviços

Enquanto vários colegas propagam a ideia de que o “jornalismo existe para incomodar governo”, a população cria uma imagem do noticiário – e dos jornalistas – cada vez mais desagradável para conviver. Não é gratuito o crescimento dos news avoiders nem a propagação do jornalismo de soluções. Enquanto muitos de nós publicamos denúncias sob a expectativa de que elas mobilizem a população, o que geramos é sentimento de impotência e afastamos ainda mais os consumidores das notícias.

“Às vezes o jornalista entende que é preciso que ele critique para resolver. Não é mais preciso isso. As pessoas precisam aprender a elogiar, a estar muito mais no jornalismo construtivo, propositivo, do bem e da consciência. E sempre com a visão de reflexão para propor caminhos”, orienta Petrelli.

O comportamento do jornalista será um diferencial nas redações.

Mudar a cultura que envolve a prática do jornalismo não é fácil, ele concorda. Mas o quanto antes se começa, mais cedo se colhe os frutos. 

O primeiro passo é desenvolver no jornalista a percepção de que ele é um prestador de serviços. Isso passa pela humanização do profissional, pela adoção de uma postura mais transparente, que assume a culpa quando erra, que é criativo, sensível e, sobretudo, nutre relações com diferentes grupos de indivíduos. Entender de tecnologia é importante, mas já está virando uma commoditie. “O comportamento do jornalista será um diferencial nas redações”, prenuncia Pettreli.

Ao invés de se impor diante da sociedade ou de “baixar” suas verdades, o profissional da imprensa precisa encontrar alegria e leveza naquilo que faz. “Comunicação é fazer o bem”, avalia Petrelli. Ainda que a realidade a ser noticiada costume ser difícil, é preciso tratar a informação com tranquilidade e apontar caminhos. Só assim as audiências sentirão a satisfação de perceberem que suas vidas foram melhoradas graças às informações trazidas por aquele veículo jornalístico.

A histórica preocupação jornalística de delimitar as fronteiras entre Igreja e Estado faz, a cada dia, menos sentido. Não se trata de permitir que a ética se corrompa no exercício da reportagem, tampouco de renunciar ao compromisso inquestionável com a verdade. Mas se trata de sobrevivência.

Imerso em crises desde muito antes da pandemia, o jornalismo chegou a situações limítrofes de subsistência por recusar-se a enxergar, no espelho ao qual equivocadamente se dirige, um produto informativo, um produto do mercado de mídia. Veículos que já contam com esta visão o fazem timidamente, com baixo ou nenhum envolvimento das redações. Muitos jornalistas ainda se vêem ou são tratados como uma casta protegida, cuja missão social é o único compromisso profissional a ser cumprido.

Sob esta cultura, inúmeras gerações de jornalistas são formados e atuam em veículos deficitários, carentes de estratégia de mercado e cada vez menos capazes de absorver a mão de obra editorial. A News Product Alliance surge com a missão de reverter este cenário, aperfeiçoar e apoiar as equipes de produto de empresas jornalísticas.


Luciana Cardoso é Diretora de Estratégias Digitais do Estadão e compõe o comitê de criação da News Product Alliance.

O Estadão é o único veículo brasileiro a integrar, até agora, a jovem iniciativa internacional. Na entrevista abaixo, a Diretora de Estratégias Digitais do veículo e integrante do comitê gestor da NPA, Luciana Cardoso, conta como o projeto irá atuar para elevar o jornalismo mundial a um patamar mais adequado às peculiaridades e às necessidades do mercado.

Orbis Media Review – Como o NPA, objetivamente, irá atuar? Haverá entregas? O que a comunidade jornalística pode esperar neste sentido?

Luciana Cardoso – Temos muitas ideias! Estamos discutindo lançar um canal no Slack aberto a todos, criar uma conferência, oferecer mentoria ou programas de treinamento, etc. Ainda estamos nos estágios iniciais para lançar esta comunidade. Nossa prioridade é aprender mais sobre as necessidades para que possamos definir quais programas e serviços priorizar e garantir os recursos necessários para gerenciar essas atividades com sucesso.

Orbis – Existe um cronograma de atividades ou previsão dos próximos passos do projeto?

Luciana – Em um futuro próximo, compartilharemos as primeiras iniciativas do NPA. Nosso comitê de direção, dirigido por voluntários, tem como objetivo criar uma organização formal com posições de liderança permanentes e um conselho até o final de janeiro de 2021. Nosso objetivo é construir um conselho global e diverso que represente as muitas facetas desta comunidade. Os membros do conselho são responsáveis por manter a organização responsável por sua missão e supervisionar as decisões financeiras da organização.

Orbis – De onde (ou de quem) surgiu a iniciativa do NPA?

Luciana – Alguns dos membros da News Product Alliance se reuniram em abril de 2019 com a ideia de criar essa comunidade. Na época eram 15 pessoas com a vontade de construir um espaço para troca de ideias e conhecimentos. Ainda não era uma iniciativa global, algo que foi evoluindo com o passar dos meses.

Muitos dos veículos ainda não possuem equipes de produto e, quando possuem não estão trabalhando em parceria com as áreas de conteúdo e de negócio. Este conhecimento, muitas vezes, fica limitado à área de tecnologia.

Orbis – Quem financia a iniciativa?

Luciana – A Escola de Jornalismo da Universidade de Missouri, a Escola de Pós-Graduação em Jornalismo Craig Newmark da CUNY e o News Catalyst forneceram apoio institucional inicial.

Orbis – Quais são as principais dificuldades que o grupo percebe, atualmente, em veículos no que diz respeito à visão de produto?

Luciana – Atualmente muitos dos veículos ainda não possuem equipes de produto e, quando possuem não estão trabalhando em parceria com as áreas de conteúdo e de negócio. Este conhecimento, muitas vezes, fica limitado à área de tecnologia. Em alguns locais, são apenas indivíduos tentando criar produtos sem ter com quem trocar experiências e, por esta razão, é tão importante termos uma comunidade para apoiar.

Todos que desejam fazer parte desta comunidade são bem-vindos. Nosso foco é apoiar profissionais de produtos que trabalhem em organizações de notícias para alinhar as áreas editoriais, de tecnologia e estratégia de negócios.

Orbis – O site e o release de divulgação do projeto falam em colaboração, em construção de uma comunidade. Quem pode se vincular ao NPA e quais são as condições para integrar esta comunidade?

Luciana – Todos que desejam fazer parte desta comunidade são bem-vindos. Nosso foco é apoiar profissionais de produtos que trabalhem em organizações de notícias para alinhar as áreas editoriais, de tecnologia e estratégia de negócios. Acreditamos que construir alianças é essencial, pois todos trabalhamos com o mesmo objetivo de produzir jornalismo de qualidade e sustentável que beneficie nossas comunidades.

Orbis – Há muitos anos se fala da necessidade de as redações conhecerem suas audiências, o que, até agora, tem ficado majoritariamente limitado à leitura de analytics ou enquetes de mercado. O que está sendo feito – ou o que o grupo pretende fazer – para concretizar este objetivo?

LucianaUm dos princípios da comunidade é justamente o de auxiliar na disseminação de conhecimento entre os seus participantes. Este fica ainda mais rico com participantes de todo mundo, pois sabemos que alguns países já estão mais evoluídos no entendimento das audiências do que outros. Através dos programas de treinamento e mentoria buscamos aprofundar em questões tão importantes quanto estas.

Os profissionais de produtos de notícias em todo o mundo estão enfrentando muitos dos mesmos desafios e se sentem isolados ou sem apoio.

Orbis – Para além do grupo que hoje integra o NPA – e outros participantes que possam vir a somar-se ao projeto – quem deve se beneficiar dos trabalhos a serem desenvolvidos?

LucianaAcreditamos que a criação de uma organização internacional é essencial para nossa missão, pois os profissionais de produtos de notícias em todo o mundo estão enfrentando muitos dos mesmos desafios e se sentem isolados ou sem apoio. É por isso que estamos procurando ativamente por mais profissionais de produtos de notícias internacionais para nos ajudar. Se você estiver interessado em ingressar na diretoria da NPA ou nos ajudar a aconselhar-nos sobre como fazer desta uma comunidade global, informe-nos por e-mail, hello@newsproduct.org

Orbis – O Estadão é o único veículo brasileiro a integrar o NPA. De que forma o projeto se encaixa aos planos do Estadão?

Luciana Desde 2017, o Estadão vem investindo ativamente na Transformação Digital da empresa e, um dos pilares de grande foco é o de Produto. Precisamos cada vez mais entender quem é a nossa audiência, suas necessidades para assim construir produtos que surpreendam o público.

Por esta razão, estamos cada vez mais focados em iniciativas como esta, que inspiram mais e mais organizações a criarem produtos de qualidade. A disciplina de Produto dentro das organizações de notícia ainda é muito nova e, por isso, acreditamos que a troca seja essencial.

Orbis – Pela declaração da Becca Aaronson no release e pelo que diz no próprio site do NPA, existe uma preocupação em atender comunidades tradicionalmente marginalizadas, negros, latinos, indígenas e imigrantes. De que forma a visão de produto nas redações se associa ao discurso de inclusão social?

Luciana Para criar produtos para o público, precisamos que ele esteja representado dentro das redações e em todo o ambiente jornalístico. Por isso, desde o início das conversas do NPA buscamos a diversidade no comitê gestor e também nos participantes. Hoje já temos membros de diversos países com diferentes realidades e necessidades.

Precisamos de mais líderes de produto que estão projetando novos produtos para atender às comunidades marginalizadas. Apoiaremos a transformação da liderança das organizações de notícias e permitiremos que mais pessoas que estão pensando sobre as necessidades dos grupos marginalizados orientem a indústria de notícias.

Semana passada eu conversava com um repórter de veículo online sobre a publicação de releases como notícias. A prática é tão comum quanto antiga e indesejável.

Tomando um caso em particular, eu vi caráter elogioso ao autor do release na publicação da “notícia”. O repórter não viu, afinal, ele só tinha usado as mesmas informações do release. Então – expliquei a ele -, o simples fato de um veículo dar espaço à publicação de um release é um gesto em favor daquela fonte (única).

Ele entendeu, mas sei que boa parte dos jornalistas que são cobrados por produtividade em quantidade de notas por dia não entende. A exigência de publicar oito, dez, quinze notas ao longo de oito horas limita qualquer repórter de produzir entrevistas, checar fatos, buscar outras fontes, fazer jornalismo, enfim. Daí alguns releases chegam como presentes celestiais, onde só o ctrl+C, ctrl+V salva.

Como fugir do mero release

A sugestão que dei ao colega foi a de ouvir um especialista e acrescentar algumas aspas mais neutras às informações trazidas pelo release. Isso daria um tom jornalístico pra coisa – e não tão institucional/promocional.

Nem sempre se trata de “ouvir o outro lado”, porque há pautas que não têm lado: são registros, lançamentos de projetos, publicações, eventos que estão por vir. Então nos resta fazer mídia gratuita ou acrescentar uma segunda fonte que comente ou opine de forma independente sobre o objeto do release.

Não é só o material de release que termina servindo de “fonte única”. Um post no Instagram virou fonte, virou notícia! Não sobra tempo para uma ligadinha ao agente da celebridade que acaba de postar.

Licença para uma historinha

Lembro de um caso que aconteceu enquanto eu trabalhava em um portal, lá em 2011: o cantor Latino havia postado uma foto em seu Twitter abraçado a uma moça coberta por lençol branco. Eles mostravam o colo e os ombros desnudos. O texto que acompanhava a foto era: “Pensa em acordar do lado de uma princesa como essa!! Kkkkkk 😉 Meu verdadeiro amor“.

Dias antes, o cantor havia terminado um namoro. Claro que o repórter de “Diver” (editoria de Diversão) entendeu que Latino não havia perdido tempo para apresentar a nova namorada! A matéria foi ao ar com este teor e, minutos depois, o próprio Latino respondeu ao Twitter do portal: “Vocês estão loucos? Ela é minha filha!

A obsolescência da segunda fonte

À prática de “ouvir uma segunda fonte”, a Dra. Consuelo Aguirre chama de “contrastación“, o que inclusive se encaixaria melhor no conceito de “ouvir o outro lado”, “contrastar”. Não foi por acaso que ela detectou em sua pesquisa de doutorado, recentemente defendida na Universidad Austral, em Buenos Aires, que a “contrastación” é um dos critérios de noticiabilidade que a Internet reduziu ou tornou obsoleto.

Dra. Aguirre revisou os critérios de noticiabilidade em relação às Leis da Mídia, de Marshall McLuhan, aplicadas a 140 notícias e a partir de entrevistas em profundidade com 30 jornalistas dos jornais El Comercio e El Telegrafo, do Equador.

A pesquisa intitulada “Los criterios de noticiabilidad en el ecosistema digital: un análisis de las transformaciones de los contenidos informativos en dos cabeceras periodísticas de Ecuador , orientada pelo Prof. Dr. Francisco Albarello, tem achados interessantes. Mas antes vamos lembrar como são as Leis da Mídia, do “eme-cí Luán”, como já ouvi de um aluno de graduação:

Tétrade das Leis da Mídia, de Marshal McLuhan

Quais critérios de noticiabilidade, então, a tecnologia digital vem Aperfeiçoar, Reverter, Recuperar e Obsolescer?

De bate-pronto, Dra. Aguirre diz o seguinte:

APERFEIÇOA (o que na versão em espanhol foi dito como “agranda” ou “aumenta”: IMEDIATISMO

OBSOLESCE ou REDUZ (em espanhol se manteve a nomenclatura): EXCLUSIVIDADE e CONTRASTE

RECUPERA (também mantido em espanhol): SERVIÇO, APROXIMAÇÃO COM LEITOR, VERIFICAÇÃO

REVERTE: INFOTAINMENT

A sistematização da Dra. Aguirre vai bem além dos que resumi acima, que é o foco da discussão que tive com o colega semana passada – sobretudo o segundo item (OBSOLESCE/REDUZ).

Foi uma grata surpresa, no entanto, ver que o conteúdo como serviço (útil, aplicado) e a aproximação com o leitor (sobretudo com enfoques segmentados) são recuperados dos meios antigos. O mesmo não posso dizer sobre a VERIFICAÇÃO, que se tornou objeto de militância política travestido de jornalismo.


Los criterios de noticiabilidad en el ecosistema digital: un análisis de las transformaciones de los contenidos informativos en dos cabeceras periodísticas de Ecuador”, pesquisa de doutoramento de Consuelo Aguirre, defendida na Universidad Austral, sob orientação do Prof. Dr. Francisco Albarello.

O furo não garante a exclusividade

Outro apontamento interessante da tese foi a queda da exclusividade como critério para decidir o que será notícia. É sabido que a natureza da informação digital é a replicabilidade infinita sem qualquer prejuízo à precisão do conteúdo. A qualidade de uma música gravada de um LP a uma K-7 era questionável, enquanto arquivos MP3 podem ser compartilhados eternamente sem perder um bit de qualidade.

Na seara do copia-e-cola, a exclusividade se esvai. A informação é exclusiva até se tornar pública – e copiada por outro site dois minutos depois.

Dra. Aguirre esclarece que “O que cai é a exclusividade, não o furo”. Os veículos continuam obcecados em ser os primeiros a noticiar algo, por mais que aquilo só tenha valor entre eles mesmos. O público não costuma ligar e nem nota quem foi o primeiro a noticiar algo. A notícia que vale é aquela que aparece primeiro e casa com as demandas particulares do usuário.

Acho perigoso, inclusive, que muitos veículos digitais abdiquem da precisão para ganhar a corrida pelo furo. O conteúdo sai capenga porque tem que sair. E o tempo em relação à concorrência se torna o maior critério de noticiabilidade(?!).

“Os critérios de noticiabilidade não são mais do que a raiz daquilo que entendemos como jornalismo. É um assunto absolutamente nuclear dentro da atividade jornalística”, comentou um dos avaliadores da banca, o Prof. Dr. Ramón Salaverría. E justamente por tamanha centralidade é que não podemos aceitar de modo passivo que os critérios de noticiabilidade se tornem peões da ansiedade, nem que abdiquem da pluralidade de fontes. Caso contrário, o que sobra são toneladas de conteúdos apressados e imprestáveis, reproduzidos por profissionais que atuam como robôs.

Há gente desencantada com o jornalismo e fascinada com as redes sociais. Acreditam, ingenuamente, que a balburdia do mundo digital vai resgatar a verdade conspurcada. Como se as redes fossem um espaço plural que se contrapõe a uma suposta hegemonia da mídia tradicional. Não percebem, talvez involuntariamente, que a Internet tende a criar redutos fechados, bolhas impermeáveis ao contraditório, um ambiente embalado ao som de Samba de Uma Nota Só.  

Sou apaixonado pelo jornalismo. Escrevo na imprensa tradicional e participo intensamente das novas mídias. Ambas são importantes. Não são excludentes.

Em tempos de tentativas de censura à liberdade de expressão, precisamos desenvolver um constante exercício de autocrítica. A reinvenção do jornalismo passa, necessariamente, pelo retorno aos sólidos pilares da ética e da qualidade informativa.

A crise do jornalismo está ligada à falência da objetividade e ao avanço do subjetivismo engajado. Quase sem perceber, alguns jornais sucumbem à síndrome da opinião invasiva. Ganham traços de redes sociais. Falam para si mesmos e não para suas audiências. Como disse João Pereira Coutinho, “não são as redes sociais que matam os jornais; são eles próprios que se suicidam quando seguem o exemplo das redes”.

Na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

É preciso apostar na informação. Sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeça para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada. Nas redações brasileiras, multiplicam-se as telas coloridas que trazem, minuto a minuto, indicadores e gráficos mirabolantes. Ao final de um dia de trabalho, qualquer editor está habilitado a responder quais foram as reportagens mais lidas. Mas e depois disso?  Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. O ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada.

Consumidores de jornais mostram cansaço com o excesso de negativismo de nossas matérias. Trata-se de um fato percebido nas redes. Ao longo deste ano, alguns jornalistas da grande mídia, sobretudo na cobertura de política, em nome de suposta independência, têm enveredado excessivamente pelo que eu chamaria de jornalismo de militância. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda seus próprios leitores.

Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores.

Na verdade, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela Internet.

Não se trata, por óbvio, de ficarmos reféns do leitorado. Os jornais, frequentemente, têm o dever ético de dizer coisas que podem não agradar a seus leitores. Mas é preciso não perder conexão com as percepções do público.

É necessário perceber, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se um jornalismo menos anti e mais propositivo. Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores. Sabendo que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar nosso conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de reinvenção.

Ao retomar a ideia do artigo passado, em que falávamos sobre a vocação como um chamado à determinada realidade, podemos dizer que a profissão jornalística nasceu a partir do chamado de se contar histórias. Vide a trajetória da humanidade, que sempre foi marcada e sobreviveu à base de contos dos heróis antigos, deuses e até homens comuns que saíam em suas odisséias. 

Ao pensarmos neste contexto, qualquer semelhança entre jornalismo e literatura não é mera coincidência. Não à toa que os grandes narradores da história também foram grandes jornalistas – ou pelo menos exerciam a profissão que hoje conhecemos como tal. Dostoiévski, Charles Dickens, Daniel Defoe, Balzac, Machado de Assis, Graciliano Ramos… Todos queriam nos mostrar uma coisa: que a realidade não nos passa diante dos olhos como uma natureza morta, mas sim cheia de vida e vida própria. E não seria este o papel do jornalismo?

O jornalista Tomás Eloy Martínez, já no ano de 2002, nos dá um exemplo sobre esta relação: “Quando lemos que um terremoto em Bangladesh causou um número de cem mil vítimas, os dados nos surpreendem, mas não nos comovem. Contudo, se lemos, em vez disso, a tragédia de uma mulher que foi deixada sozinha no mundo após o tsunami e seguimos a história de suas perdas, passo a passo, saberíamos tudo o que há para saber sobre esse tsunami…” 

Destarte, pensar em resumir a atividade jornalística na cobertura de estatísticas, estudos acadêmicos, informações oficiais e até mesmo na opinião de especialistas seria destruir toda a humanidade presente em cada história e afogar a melhor profissão do mundo num mar de simplismo. Mas ainda bem que nossa realidade é bem diferente, não é? 😉

Há duas semanas, falávamos sobre como a literatura pode contribuir para o ressurgimento de uma narrativa jornalística mais real e humana. Hoje vou falar sobre como a mesma literatura nos traz, de forma sensata e real, a noção de tempo e de que modo esta noção pode agregar positivamente ao jornalismo.

Para dar o pontapé inicial, me apoio no artigo do jornalista Allan de Abreu, sobre a relação da literatura e jornalismo. Ele defende: “[…] pensam, os arautos do jornalismo, que o leitor não tem tempo para ler um grande texto, nem tem paciência para ‘decifrar’ uma frase construída além da meia dúzia de técnicas já decoradas pelo repórter e pelo editor e, por conseqüência, introjetadas no público.” Nesse sentido, tendo muito a concordar com ele. 

O ser humano nunca tem – e nunca teve – tempo para nada. As grandes obras literárias, e até mesmo os contos infantis, nos mostram que o ser humano sempre está correndo contra o tempo. No livro Momo e o Senhor do Tempo (1973), por exemplo, as personagens são devoradas – literalmente – pelos Homens Cinzentos, que têm o objetivo de consumir o tempo dos seres humanos. Esta é uma clara analogia ao tempo que perdemos com as tarefas repetitivas, burocráticas e que nos fazem, muitas vezes, perder os sentidos e esquecer de que temos uma vida humana. Mas gostaria de focar na personagem principal da novela de Michael Ende: Momo.

Em um determinado ponto da história, o autor nos conta: 

“O que Momo sabia fazer melhor do que ninguém era ouvir. […] Muito pouca gente sabe ouvir de verdade. E o jeito de Momo ouvir e entender era muito especial. […] fitava as pessoas com seus grandes olhos negros, e nelas surgiam pensamentos que nunca tiveram antes, como se lhes tivessem sido encravados por aquele olhar. Momo ouvia de um jeito que fazia os desesperados ou hesitantes de repente saberem o que queriam.” 

No fundo, caro leitor, Momo tinha esse “superpoder” porque, simplesmente, tinha tempo disponível e queria doá-lo para quem realmente interessava: as pessoas.

Por isso, o discurso de que o leitor não tem tempo para ler, frente à quantidade de informação que fica à sua disposição, me parece pouco razoável. Sobretudo em tempos que diretores e lideranças dos veículos classificam suas audiências com adjetivos como “atenta”, “exigente”, “bem informada” e “respeitosa”. O fato é que os seres humanos têm tempo para consumir as matérias de um jornal. Mas esse tempo só será dedicado àquilo que os interessa. Sempre estarão dispostos a escutar e a ler uma boa história que só os verdadeiros vocacionados – sim, os que são verdadeiramente chamados no sentido etimológico da palavra – ao jornalismo podem oferecer.

E assim, a literatura nos dá sua 2ª aula. Mas também deixa uma lição de casa. Afinal, vale a pena nos rendermos aos Homens Cinzentos e nos deixarmos devorar pelo tempo e pela correria das publicações jornalísticas em nome da informação de todos os fatos?  Ou melhor seria confiar que as verdadeiras histórias humanas – ainda que difíceis de serem encontradas, mais extensas, porém bem contadas – podem contribuir além de tudo para que o leitor enxergue a sua humanidade e a realidade como ela é?

O mercado de mídia tradicional para os jornalistas encolhe ano a ano. É um fenômeno mundial que assombra os profissionais. A boa notícia é que, do outro lado da balança, cresce exponencialmente a demanda por profissionais da comunicação especializados em Marketing Digital. É uma tendência que há mais de uma década vem se desenhando. E, entendam, de uma vez por todas, que veio para ficar. Tem muito espaço para os jornalistas se reinventarem nesse nicho de mercado, mesmo estando nos veículos de mídia tradicionais.

Os grupos de comunicação estão ávidos por profissionais capazes de propor projetos e soluções que ajudem a dar relevância aos produtos. Na disputa pelas verbas de mídia, os veículos sistematicamente precisam inovar para se manter interessantes para o público. E o diferencial, além da credibilidade, é a produção de conteúdo. 

Repensar os modelos de negócio e os produtos para atrair audiência e leitores já deixou de ser tarefa para a Alta Direção há tempos. Cabe a todos nós, jornalistas que somos, ocupar esse espaço e propor novos modelos de negócio e produtos. Mas aí vem uma questão: o que vamos fazer? Não há fórmula mágica e nem um único caminho! Cada um pode olhar as suas habilidades, seus interesses e propor soluções. 

Mergulhados na rotina diária da redação, reconheço que as urgências e demandas dominam. Mas não deixem para se qualificar quando o mundo desabar na sua cabeça…

Hoje, em pleno distanciamento social – e incertezas no mercado -, observa-se o crescimento de oportunidades de trabalho para jornalistas nos anúncios do LinkedIn, grupos de Facebook e WhatsApp. As habilidades mais requisitadas são funções de social media: especialista de SEO, gestor de mídias digitais, criação de anúncios, monitoramento de redes, gestor de comunidade e a produção de conteúdo, expertise que a maioria dos jornalistas é craque e tira de letra.

O conteúdo de qualidade é capaz de engajar a audiência, dar credibilidade e fazer a diferença numa estratégia cuidadosamente desenhada para decolar no mundo digital. Vivenciamos o crescimento exponencial dos podcasts e o surgimento de startups que fazem curadoria de conteúdo. Além disto, está cada dia mais sólido o conceito de desintermediação de marcas: empresas investindo na criação de plataformas próprias e na produção de conteúdo customizado.

Neste “novo” mercado estão as vagas mais interessantes. Mas centenas de jornalistas enfrentam a barreira inicial para ocupar e concorrer a essas vagas: a qualificação nas ferramentas indispensáveis para trabalhar a comunicação no ambiente digital. E todos nós precisamos urgentemente desenvolver essas habilidades. Mergulhados na rotina diária da redação, reconheço que as urgências e demandas dominam. Mas não deixem para se qualificar quando o mundo desabar na sua cabeça…

Me fiz essa pergunta várias vezes: qual é a dificuldade? E parte do problema, penso eu, é que a dificuldade vem de bloqueios que carregamos ao longo da existência. Mudar hábitos e conceitos não é fácil. Exige um esforço e ter tempo livre para repensar e reaprender.

Parar para seguir

O tema é a minha, a sua, a nossa transformação digital, que todos falam, todos sabem que precisam, mas que não conseguem enfrentar o desafio e transpor as barreiras.  Me fiz essa pergunta várias vezes: qual é a dificuldade? E parte do problema, penso eu, é que a dificuldade vem de bloqueios que carregamos ao longo da existência. Para citar alguns: bloqueio da tradição, do ocupado, do especialista e até bloqueio da geração. Mudar hábitos e conceitos não é fácil. Exige um esforço e ter tempo livre para repensar e reaprender. Digo que o “momento da pausa”, necessário pelo distanciamento social, é propício à abertura de novas frentes de aprendizado. Muitos jornalistas podem e devem aproveitar! E mesmo estando em veículos de mídia tradicionais, é possível manter o emprego vencendo o preconceito e se qualificar para atuar como um jornalista digital. 

A minha intenção, ao organizar as ideias que apresento aqui, é compartilhar um pouco da minha vivência e da jornada que embarquei pra abandonar os hábitos arraigados, processos e rotinas que me acompanharam por três décadas na imprensa tradicional e que hoje me permitem manter ativa, interessada, necessária, criativa e ainda estar no mercado de trabalho. Como acredito que conhecimento é para ser compartilhado, trago alguns dos insights e experiências da jornada que me deu um norte e ganhou força no início de 2016, depois de ser demitida da empresa onde tive contrato formal de trabalho por 25 anos, jornadas extensas e exaustivas de trabalho. Tempo bom, de muito idealismo e com toda a estrutura para realizar o que a minha criatividade permitia. Mas se tudo mudou, não adianta ficar parado. É hora de agir!

Reaprendizagem Criativa

A minha jornada de conhecimento tem várias âncoras. Reaprendizagem Criativa é uma delas. Para reaprender, é necessário abandonar o que não nos representa mais e entrar, de cabeça, no processo de conhecer as tendências. Estamos neste momento: o que está posto já não nos representa. E o novo ainda está sendo desenhado, está em construção e quero fazer parte dele!

Há quatro anos optei por ser uma profissional liberal. Desde então fiz diversos cursos rápidos no Brasil e fora do país. Nessa altura da minha existência não adianta mestrados e doutorados. Há um mundo de oportunidades, muitas gratuitas, para ajudar o jornalista a entender o momento de transformação e muitas técnicas a serem aprendidas. E a cada novo evento me vem a frase de Sócrates, o filósofo grego “só sei que nada sei”… Meus interesses vão da comunicação a assuntos de Inteligência Artificial, decoração, mindfulness, o que se passa no Vale do Silício, nos grandes players do mercado da comunicação, no Tik Tok e outras plataformas que estão emergindo. 

Quando não alimentamos pensamentos egocentrados, somos verdadeiros principiantes e podemos aprender alguma coisa nova, de fato.

Recentemente descobri que, intuitivamente, adotei no meu processo de requalificação e de reinvenção o shoshin, que é um conceito presente nas religiões e filosofias orientais, sendo um dos pilares do zen-budismo japonês. É também o título de um famoso livro da década de 70, de Shunryu Suzuki, “Mente Zen, mente de principiante”. Na prática, shoshin significa manter-se sempre aberto ao aprendizado. Isso inclui todas as formas de absorver conhecimento e habilidades

Transportei o conceito para o meu desafio de mudança na Era da Informação. Incorporei no meu mindset que a transformação digital estava trazendo um grande impacto para a profissão que adotei por vocação e paixão. O jornalismo não estava morrendo, mas se reinventado, abrindo novas possibilidades de modelos de negócios e de empresas, de desintermediação dos veículos de comunicação como publisher e o surgimento de startups focadas em curadoria de conteúdo e publicações digitais de nicho.

Um marco no meu processo de reaprendizagem foi a decisão de fazer, em 2016, o curso Gestão de Empresas de Mídia do ISE, Instituição associada à Universidade de Navarra, na Espanha, um centro de estudo da Comunicação e da Transformação Digital. Vibrei! No ano seguinte, lá estava eu na turma do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia. Conheci jornalistas que também estavam nessa jornada, interessados em abraçar o novo momento da profissão.

Muita discussão de casos e principalmente insights para pensar novos negócios. Contato com narrativas transmídia, projetos nativos digitais. Experiências no Brasil e noutros países. E a oportunidade de estar lado a lado com quem está pensando e fazendo o novo momento da mídia no Brasil. Uma troca muito rica que extrapola o aprendizado em sala de aula. Foi o início de um círculo virtuoso da minha reaprendizagem criativa. E uma ideia criativa é a soma de inputs que estão na sua cabeça. Daí vem a inspiração para você também fazer a transição para a comunicação na era digital. 

A mente de principiante

Voltando ao conceito do “shoshin”. Nossa “mente original” é sempre rica e autossuficiente. É uma mente vazia e aberta a tudo. Há muitas possibilidades na mente do principiante. Mas poucas na mente do expert que eu acreditava ser como veterana do jornalismo. Suzuki Sensei explica o conceito: “na mente do principiante há muitas possibilidades. Na mente do perito há poucas”. Ou seja, se você acha que já aprendeu o suficiente sobre um determinado assunto, no nosso caso, jornalismo, bloqueia sua mente e perde a oportunidade de aprender cada vez mais. Quando não alimentamos pensamentos egocentrados, somos verdadeiros principiantes e podemos aprender alguma coisa nova, de fato.

Um jornalista com mente de perito deixa de tentar aprender novas habilidades porque acha que já tem conhecimento suficiente. E, especialmente no novo momento do jornalista, isso é mortal! Novidades aparecem o tempo todo. Ideias sólidas são derrubadas de repente. Abordagens novas sempre jogam luz sobre velhos problemas mal resolvidos. Assim, o mais importante é manter a sua mente de principiante.

E onde vou chegar com todo esse processo de Reaprendizagem Criativa? Eu não sei… E como a resposta para o futuro do jornalismo também não é simples, essa também não é uma resposta simples para os profissionais jornalistas. Tenho muitos webinares pela frente….

Hoje faço consultoria em Gestão de Empresas de Mídia, Planejamento e Desenvolvimento de Estratégias de Comunicação e Gestão de equipes, projetos de produção de conteúdo, formato de produção audiovisual e recentemente, projetos de Inbound marketing e Brand Publishing. Aprendo a cada novo desafio. O home office, compartilhado com afazeres domésticos, demandas da família e um equilíbrio melhor entre a vida profissional e pessoal entraram no meu dia a dia. Sou mais calma, mais serena, mais feliz!

Há muito tempo, os grandes clássicos da literatura mundial nos mostram o quanto a linguagem literária e as histórias bem contadas podem afetar positivamente a vida do ser humano. Não à toa, contos e histórias como as de Cervantes, Dickens, Dostoiévski e Machado de Assis seguem atuais ainda hoje. Apesar de se tratar de um mundo diferente do jornalismo, a literatura tem muito a ensinar aos seus profissionais. 

Ainda que a “overdose” de informação seja um modelo constantemente adotado pelos veículos com o argumento de informar bem o leitor (e aqui deixo um relevante artigo para refletir sobre o assunto), a entrega dessa informação tem atingido níveis de qualidade cada vez mais preocupantes. Notas informativas com um “lide” engessado e que não informam nada além do óbvio, aspas que tomam conta de praticamente todo o texto e notícias que mais se parecem artigos científicos – de tantos especialistas que nelas falam – têm sido cada vez mais comuns nos conteúdos dos veículos.

Quando alguém é testemunha de um acidente na estrada ou de um histórico jogo de futebol, por exemplo, poucas coisas lhe interessaram tanto quanto o relato daquilo que presenciou pessoalmente. Pensando nisso, podemos dizer que as palavras das notícias não são simplesmente uma mera prestação de contas do que acontece na realidade. É muito mais que isso. As palavras são confirmações de que tudo o que vimos e tudo o que acontece pelo mundo aconteceu de verdade e com uma imensidão de detalhes que nossos sentidos não foram capazes de captar. Esse é o grandioso papel do jornalista! 

E é aí que a literatura dá a sua primeira lição. Afinal, é tão necessário gastar força, tempo e até mesmo capital, informando sobre tantos assuntos que, em sua maioria não afetarão a vida das pessoas, ou as poucas histórias humanas – tão bem contadas como as da literatura – podem fazer muito mais do que imaginamos?