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The New York Times

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Dois fatos ocorreram no primeiro trimestre de 2023 que envolveram o New York Times, o Washington Post e até mesmo a indústria de games – e ambos os casos trazem ensinamentos interessantes.

A situação pode ser resumida da seguinte maneira:

Na ocasião em que o WaPo anunciava o encerramento do seu suplemento de jogos – o Launcher – o NYT comemorava um ano do recorde de uso do Wordle, game adquirido no início de 2022, no auge de sua popularidade. Ao conquistar a atenção de quase a metade da população norte-americana, o Wordle foi jogado 2 bilhões de vezes no ano passado.

Na esteira de antecessores de sucesso, como Sudoku, Spelling Bee e palavras cruzadas, o Wordle trouxe e atraiu novos assinantes ao ambiente do Times, que também engordava sua carteira por meio de outra aquisição que vem se revelando minimamente duvidosa, o The Athletic. Mas essa é outra história. Fato é que o jornalão americano chegou a anunciar que havia atingido sua meta de 10 milhões de assinantes antes do prazo e parecia acenar com uma tendência a todo o mercado editorial. 

Hoje, isoladamente, a área de games do NYT tem cerca de 1 milhão de assinantes – sem contar aqueles que assinam pacotes de games com outros produtos. Mais do que uma solução poderosa para o funil de vendas para todos os produtos da casa – incluindo as notícias -, os jogos ativam respostas psíquicas diferentes daquelas que o ser humano usualmente tem ao consumir jornalismo, e esta variável não pode ser ignorada.


Lição #1

“Jogar” não pode estar no mesmo balaio do que “ler sobre jogos”. Daí a necessidade de entendermos que nem toda aposta no assunto “games” é garantia de êxito. E foi essa a lição que o Washington Post aprendeu ao descontinuar um produto de conteúdo sobre jogos e ao criar, semanas depois, o seu próprio jogo, On The Record.

Mark Hume, editor de produtos emergentes do WaPo – e um dos criadores do novo jogo, descreveu a motivação do veículo ao criar, 5 anos atrás, o vertical sobre jogos:

Quando começamos a construir o Launcher em 2017, o objetivo era focar a atenção em um setor que se tornou o principal fornecedor de entretenimento do planeta. Para um número cada vez maior de jovens, os jogos têm mais influência do que a TV ou o cinema, e as estrelas online do YouTube, Twitch e TikTok comandam audiências que rivalizam com as de Hollywood ou do mundo dos esportes. E, no entanto, os jogos costumam ser considerados triviais, um nicho, um hobby infantil … mesmo que 3,2 bilhões de pessoas em todo o mundo se envolvam regularmente com jogos em PCs, consoles e telefones celulares.

Está fora de questionamento que a indústria de jogos seja um fenômeno global sem precedentes – e isso não é de hoje. O que move estas pessoas, porém, não é saber mais sobre o assunto, mas vivenciá-lo, experimentá-lo, ser parte daquele universo. É importante e atrativo estar informado sobre algo que nos interessa, mas ler sobre emergência climática não é o suficiente para quem quer salvar o planeta. Consumir conteúdo sobre IA nunca será tão instigante quanto usá-la. O mesmo vale para música, turismo, gastronomia, carros, moda, esporte e – pasme – também para pautas hard news, como segurança, política e economia. 

Assistir a uma reportagem sobre as enchentes do litoral paulista é uma experiência que ganha outra dimensão quando, junto, aparecem formas de fazer doações. Matérias sobre demissões em massa somariam muito se mostrassem caminhos para contratar aqueles profissionais. Com estes detalhes de enquadramento, o jornalismo não se encerra em negatividade e faz alguma diferença na sociedade – para melhor.

Portanto, não se contente em produzir conteúdo sobre um assunto em tendência. Seja a tendência. Faça a tendência. E deixe que o público seja parte dela.


Lição #2

De volta ao mágico mundo dos jogos, é inegável que a movimentação do Washington Post em criar seu jogo está inspirada no lance de mestre do NYT com o Wordle. Por mais que os criadores do On The Record digam que o jogo não foi desenvolvido para concorrer com o Wordle, há, digamos, coincidências demais: 

  • o NYT adquiriu o Wordle em janeiro/22 e o On The Record foi concebido poucos meses depois;
  • ambos trazem um desafio diário;
  • ambos são jogos de lógica;
  • ambos são facilmente compartilháveis com amigos;
  • ambos vinculam-se, em maior ou menor medida, ao noticiário do dia

Mas há uma diferença abismal que é suficiente para situar os dois jogos em patamares bem diferentes: o Times comprou o Wordle quando este já era um sucesso. Enquanto isso, o On The Record nasce debaixo da asa do WaPo, carregando o peso de conquistar adeptos, fidelizá-los para só então representar alguma coisa à carteira de assinantes do veículo. Sem dúvida, é um investimento de longo prazo. E bastante incerto.

(Lembrei agora de grandes empresas jornalĺisticas que, lá por 2007, 2008 se aventuravam a desenvolver suas próprias plataformas de blogs, de fotos do usuário e até redes sociais, gastavam boladas de dinheiro, enquanto os líderes de mercado seguiam tranquilos na preferência popular.)

Pode ser que o quiz jornalístico On The Record seja um sucesso, mas até chegar neste ponto, o esforço que o time do Bezos terá de fazer será muito maior – e custará muito mais caro – do que a compra do Wordle pelo NYT. Como a urgência do mercado de mídia não tem deixado muito espaço para resultados de longo prazo, parece altamente arriscado criar um jogo do zero, caso você esteja pensando em fazer isso no seu veículo.

O fôlego que o Wordle trouxe ao NYT não tem a ver apenas com a associação do lúdico ao universo cinza das notícias. Tem a ver com um produto estabelecido, aclamado e original. Veículos apostando em jogos, daqui para frente, pode até se tornar lugar comum e o resultado pode não ser o mesmo que no Times.

No fim, é muito mais do que jogo. Essa jogada é sobre inovação.

Aprende-se que, no constante exercício da profissão jornalística, é sempre imprescindível ouvir os dois lados de um fato, e que esta seria [teoricamente] a atitude ideal do bom jornalista! Mas, na prática, sabemos que ouvir os dois lados e garantir a imparcialidade tão sonhada pela grande mídia é tão difícil  – ou praticamente impossível – se levássemos em conta a essência fundamentalmente humana do jornalismo. 

A ideia defendida por Geneva Overholser em “Death to bothsidesism” nos traz à vida real e expõe a tentativa frustrada do mainstream em buscar uma neutralidade utópica na produção de notícias. A jornalista, veterana do The New York Times e do The Washington Post, defende o fim dessa isenção que, no fim das contas, acaba por apresentar uma “realidade a preto-e-branco ao leitor”. Além disso, afirma que a mesma imparcialidade faz com que “as pessoas pensem que não há nada sólido em que possam acreditar”.

Por essas e outras razões, fica difícil aceitar que a regra de ouro – defendida não só pelos publishers brasileiros como no mundo todo, desde o século passado – esteja cada dia mais comprometida.

E você, caro leitor, deve estar se perguntando: se a objetividade não serve ao jornalismo, o que, então, podemos fazer?

Podemos, todas as noites, deitar nossas cabeças no travesseiro com muita tranquilidade, sabendo que nossa sociedade (ainda) suporta a liberdade de defender pontos de vista sem que falemos obrigatoriamente dos dois lados de um fato. “Mas, com isso não estimulamos a bolha?”, podem perguntar. Também. Contudo, o jornalismo não é o grande culpado nessa história. Enquanto os veículos procurarem a verdade – nem que para isso tenham que declarar o fim deste “Doisladismo” – e tiverem a noção de que juntos podem manter a democracia, então grande parte da missão estará cumprida. 

Por isso, considerando o contexto mercadológico em que veículos de diferentes posições podem (e precisam) coexistir, não seria esta uma evolução do modo de se defender a democracia?

Quando falamos da constante luta pela informação é fácil imaginar que em um canto do ringue estão os grandes veículos de comunicação, com a paciência, experiência e credibilidade que só o tempo pode conceder. No outro, o adversário jovem e impetuoso das redes sociais, que não quer esperar soar o gongo para nocautear seu oponente com seus longos braços internéticos.

Todavia, é preciso nos questionarmos sobre uma coisa nessa batalha: ela deveria, de fato, estar acontecendo?
A verdade é que ela já começou, e ainda não podemos enxergar quem será o vencedor.

Podemos assisti-la de camarote quando, por exemplo, youtubers famosos, celebridades de todos os tipos começam a pressionar plataformas de produtos online, marcas e veículos importantes de mídia a se dobrarem perante a fúria do que ultimamente chamamos de “cultura do cancelamento”.

Neste cenário, porém, enquanto o trabalho do jornalismo deveria trazer novas ideias aos leitores, informar o público sobre as perspectivas e estar acompanhado dos mais recentes questionamentos, o poder influenciador das redes está – como bem disse Bari Weiss em sua carta aberta ao NYT – trabalhando para que o jornalismo encerre os debates e traga uma clareza moral que não é própria de sua natureza.

Enfim, o jornalismo pode ter vencido alguns rounds durante um tempo, mas quantos outros não perdeu nessa luta infame e infinda?

Muito se discutiu na semana passada sobre Bari Weiss, a ex-editora de opinião do The New York Times que se demitiu criticando abertamente o posicionamento do jornal e o comportamento de seus colegas. Em um dos trechos mais marcantes de sua carta aberta ao publisher A.G. Sulzberger, ela afirma que “um novo consenso surgiu na imprensa, mas talvez especialmente neste jornal: de que a verdade não é um processo de descoberta coletiva, mas uma ortodoxia já conhecida por alguns poucos iluminados cujo trabalho é informar todos os demais”.

Muito se sabe sobre como a mídia vem perdendo credibilidade e apelo perante o público. Weiss aponta para o pedestal no qual boa parte do jornalismo subiu, e também deixa claro que a desconexão entre visões de mundo presentes nas classes falantes e no restante da população complementa a trama. Foi para dar voz a esta parcela do público de valores tradicionais que ela foi contratada.

A iniciativa, agora com futuro incerto, tinha os seus méritos, mas também aponta para um problema mais profundo: seria a opinião o único campo restante para as vozes não ortodoxas? Nestes tempos em que a palavra “pluralidade” se tornou um norte a ser seguido, qual é a real pluralidade existente nas redações onde os fatos seriam apurados e o cotidiano deveria ser refletido?

É certo que as editorias de opinião têm grande relevância nos jornais. Mas elas também são um campo em que a subjetividade ganha mais espaço para aparecer. Como fica, portanto, a cobertura factual das redações? Esta não seria uma área a ser apurada, coberta e apresentada ao público por meio de óticas mais diversas?