Tag

Valores jornalísticos

Browsing

Ao retomar a ideia do artigo passado, em que falávamos sobre a vocação como um chamado à determinada realidade, podemos dizer que a profissão jornalística nasceu a partir do chamado de se contar histórias. Vide a trajetória da humanidade, que sempre foi marcada e sobreviveu à base de contos dos heróis antigos, deuses e até homens comuns que saíam em suas odisséias. 

Ao pensarmos neste contexto, qualquer semelhança entre jornalismo e literatura não é mera coincidência. Não à toa que os grandes narradores da história também foram grandes jornalistas – ou pelo menos exerciam a profissão que hoje conhecemos como tal. Dostoiévski, Charles Dickens, Daniel Defoe, Balzac, Machado de Assis, Graciliano Ramos… Todos queriam nos mostrar uma coisa: que a realidade não nos passa diante dos olhos como uma natureza morta, mas sim cheia de vida e vida própria. E não seria este o papel do jornalismo?

O jornalista Tomás Eloy Martínez, já no ano de 2002, nos dá um exemplo sobre esta relação: “Quando lemos que um terremoto em Bangladesh causou um número de cem mil vítimas, os dados nos surpreendem, mas não nos comovem. Contudo, se lemos, em vez disso, a tragédia de uma mulher que foi deixada sozinha no mundo após o tsunami e seguimos a história de suas perdas, passo a passo, saberíamos tudo o que há para saber sobre esse tsunami…” 

Destarte, pensar em resumir a atividade jornalística na cobertura de estatísticas, estudos acadêmicos, informações oficiais e até mesmo na opinião de especialistas seria destruir toda a humanidade presente em cada história e afogar a melhor profissão do mundo num mar de simplismo. Mas ainda bem que nossa realidade é bem diferente, não é? 😉

Há duas semanas, falávamos sobre como a literatura pode contribuir para o ressurgimento de uma narrativa jornalística mais real e humana. Hoje vou falar sobre como a mesma literatura nos traz, de forma sensata e real, a noção de tempo e de que modo esta noção pode agregar positivamente ao jornalismo.

Para dar o pontapé inicial, me apoio no artigo do jornalista Allan de Abreu, sobre a relação da literatura e jornalismo. Ele defende: “[…] pensam, os arautos do jornalismo, que o leitor não tem tempo para ler um grande texto, nem tem paciência para ‘decifrar’ uma frase construída além da meia dúzia de técnicas já decoradas pelo repórter e pelo editor e, por conseqüência, introjetadas no público.” Nesse sentido, tendo muito a concordar com ele. 

O ser humano nunca tem – e nunca teve – tempo para nada. As grandes obras literárias, e até mesmo os contos infantis, nos mostram que o ser humano sempre está correndo contra o tempo. No livro Momo e o Senhor do Tempo (1973), por exemplo, as personagens são devoradas – literalmente – pelos Homens Cinzentos, que têm o objetivo de consumir o tempo dos seres humanos. Esta é uma clara analogia ao tempo que perdemos com as tarefas repetitivas, burocráticas e que nos fazem, muitas vezes, perder os sentidos e esquecer de que temos uma vida humana. Mas gostaria de focar na personagem principal da novela de Michael Ende: Momo.

Em um determinado ponto da história, o autor nos conta: 

“O que Momo sabia fazer melhor do que ninguém era ouvir. […] Muito pouca gente sabe ouvir de verdade. E o jeito de Momo ouvir e entender era muito especial. […] fitava as pessoas com seus grandes olhos negros, e nelas surgiam pensamentos que nunca tiveram antes, como se lhes tivessem sido encravados por aquele olhar. Momo ouvia de um jeito que fazia os desesperados ou hesitantes de repente saberem o que queriam.” 

No fundo, caro leitor, Momo tinha esse “superpoder” porque, simplesmente, tinha tempo disponível e queria doá-lo para quem realmente interessava: as pessoas.

Por isso, o discurso de que o leitor não tem tempo para ler, frente à quantidade de informação que fica à sua disposição, me parece pouco razoável. Sobretudo em tempos que diretores e lideranças dos veículos classificam suas audiências com adjetivos como “atenta”, “exigente”, “bem informada” e “respeitosa”. O fato é que os seres humanos têm tempo para consumir as matérias de um jornal. Mas esse tempo só será dedicado àquilo que os interessa. Sempre estarão dispostos a escutar e a ler uma boa história que só os verdadeiros vocacionados – sim, os que são verdadeiramente chamados no sentido etimológico da palavra – ao jornalismo podem oferecer.

E assim, a literatura nos dá sua 2ª aula. Mas também deixa uma lição de casa. Afinal, vale a pena nos rendermos aos Homens Cinzentos e nos deixarmos devorar pelo tempo e pela correria das publicações jornalísticas em nome da informação de todos os fatos?  Ou melhor seria confiar que as verdadeiras histórias humanas – ainda que difíceis de serem encontradas, mais extensas, porém bem contadas – podem contribuir além de tudo para que o leitor enxergue a sua humanidade e a realidade como ela é?

Há muito tempo, os grandes clássicos da literatura mundial nos mostram o quanto a linguagem literária e as histórias bem contadas podem afetar positivamente a vida do ser humano. Não à toa, contos e histórias como as de Cervantes, Dickens, Dostoiévski e Machado de Assis seguem atuais ainda hoje. Apesar de se tratar de um mundo diferente do jornalismo, a literatura tem muito a ensinar aos seus profissionais. 

Ainda que a “overdose” de informação seja um modelo constantemente adotado pelos veículos com o argumento de informar bem o leitor (e aqui deixo um relevante artigo para refletir sobre o assunto), a entrega dessa informação tem atingido níveis de qualidade cada vez mais preocupantes. Notas informativas com um “lide” engessado e que não informam nada além do óbvio, aspas que tomam conta de praticamente todo o texto e notícias que mais se parecem artigos científicos – de tantos especialistas que nelas falam – têm sido cada vez mais comuns nos conteúdos dos veículos.

Quando alguém é testemunha de um acidente na estrada ou de um histórico jogo de futebol, por exemplo, poucas coisas lhe interessaram tanto quanto o relato daquilo que presenciou pessoalmente. Pensando nisso, podemos dizer que as palavras das notícias não são simplesmente uma mera prestação de contas do que acontece na realidade. É muito mais que isso. As palavras são confirmações de que tudo o que vimos e tudo o que acontece pelo mundo aconteceu de verdade e com uma imensidão de detalhes que nossos sentidos não foram capazes de captar. Esse é o grandioso papel do jornalista! 

E é aí que a literatura dá a sua primeira lição. Afinal, é tão necessário gastar força, tempo e até mesmo capital, informando sobre tantos assuntos que, em sua maioria não afetarão a vida das pessoas, ou as poucas histórias humanas – tão bem contadas como as da literatura – podem fazer muito mais do que imaginamos?

Este conteúdo faz parte da entrevista com o jornalista espanhol Lluís Cucarella, diretor do Observatorio para la Transformación del Periodismo Local e diretor editorial do site Laboratorio de Periodismo, da Fundación Luca de Tena. Acompanhe outros tópicos desta entrevista.


Orbis Media Review – Quanto à necessidade de que “o veículo ajude as pessoas em seus problemas diários”, mencionada no dossiê Desafios Editoriais da Imprensa Local no Mundo Pós-Coronavírus (pdf, em espanhol) – é possível que se precise fazer uma revisão dos critérios de noticiabilidade (valor-notícia)? Quais são os critérios que devem cair e quais outros valores os editores devem passar a considerar?

Lluís Cucarella – Falta uma profunda revisão do que estamos fazendo como jornalistas, principalmente entre aqueles que estão em cargos diretivos nas redações. Eu alterno a consultoria com trabalho em veículos e quando estive na liderança de empresas de mídia, conservei o costume de agarrar todos os dias o jornal impresso (e também o digital, de alguma forma) e, ao analisar o produto, apontar por quais artigos ali publicados valeria a pena pagar.

Sugiro aos editores e chefes de seção com quem trabalho que não esqueçam de perguntar a si mesmos quais conteúdos mereceriam ser pagos e, na medida do possível, estendam o hábito a diferentes colegas da empresa. Na maior parte das vezes a lista é encabeçada por aquelas informações que resolvem problemas das pessoas, que falam daquilo que realmente lhes interessa, daquilo que elas vivem no dia a dia, como receber a aposentadoria, para alguns, ou como parcelar o pagamento de impostos durante a pandemia, para outros.

À escala local, quais setores são os que mais ofertam emprego na cidade, ou onde é possível comprar máscaras subsidiadas. O jornalismo deve avançar na direção das respostas, mais do que repetir ou amplificar as perguntas que já existem.

E não é apenas em relação a interesses pessoais. Por exemplo, sobre os problemas que afetam uma cidade, os veículos devem ir além e contar casos de sucesso, por exemplo, como regiões sob as mesmas circunstâncias conseguiram solucionar o problema ou realizar um projeto que há muito tempo dá esperança a uma comunidade. Aí o jornalismo de soluções tem muito o que dizer. Alguns jornais já entenderam a mudança. The Guardian, por exemplo, multiplicou por seis a produção de conteúdos de jornalismo de soluções durante a pandemia.

Evidentemente, a informação política também é necessária e insisto que um jornal deve oferecer esta visão de mundo, saber contextualizar e hierarquizar a informação. Mas quando uma edição traz apenas duas ou três notícias pelas quais entendemos que alguém estaria disposto a pagar, porque elas ajudam no seu dia a dia, este é um sinal de mau negócio.

Acompanhe outros tópicos desta entrevista com Lluís Cucarella.

A percepção de que a cobertura jornalística tem se limitado a falar, da mesma maneira,  sobre os mesmos assuntos, tem sido cada vez mais comum aos leitores, sobretudo nos tempos de crise em que vivemos. O que podemos ver é que enquanto o público está cada vez mais sedento de histórias de pessoas do mundo real, a notícia está num constante afastamento dessa realidade.

Em tempos em que a utilidade da notícia é encarada de uma forma prática e funcional, a relevância se torna um valor imenso para o exercício do bom jornalismo. Mas o cenário real só confirma o que temos visto cada vez mais: noticiários diários que contam repetidas histórias em preto e branco, que nos mostram sempre a mesma face saturada de uma realidade que pouco atinge os leitores. 

E diante deste cenário, é fácil se perguntar: quantas histórias deixamos de contar?

No dia do jornalista, 7 de abril, fui surpreendido por um post no Facebook. Seu autor, Eduardo Castro, brilhante jornalista, mexeu com o coração do seu ex-professor de ética da comunicação. 

“Amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar. Foi o que você disse no dia da minha formatura e eu lembro todos os dias que levanto para trabalhar. Parabéns, professor”. 

Confesso que me emocionei. Ao mesmo tempo, caro Eduardo, ao revisitar o que eu te disse lá atrás, e que você não esqueceu, renovei minha convicção da importância daqueles valores: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais que nunca, numa sociedade radicalizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente. Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor.  Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blá blá blá  na entrada do Palácio da Alvorada, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo não deve confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa  e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores. 

Chegou a hora do jornalismo propositivo e inspirador.

Atualmente, é fácil perceber a transformação do meio jornalístico e a maneira como os leitores consomem notícias.

Em tempos de mídia analógica, comprávamos o jornal inteiro, com todo o seu conteúdo e, mesmo que quiséssemos saber somente notícias sobre esporte, pagávamos também pelo conteúdo sobre política, economia, entretenimento etc.

Com a popularização da Internet, não somente esta demanda, mas também a oferta pela informação, mudou. Na web, qualquer pessoa é capaz de encontrar conteúdos que atendam de maneira precisa e pessoal aos seus interesses. Por isso, a customização no ambiente digital é fator essencial, que deve ser levado sempre em consideração.

Já nos últimos tempos, ferramentas e novos investimentos em modelos de negócios e estratégias – como os paywalls, subscriptions, SEO e analytics – têm sido fundamentais na constante luta do jornalismo contra a volatilidade no consumo de notícias. Mas será que somente estas técnicas e estratégias são suficientes para que haja uma mudança no cenário de consumo de informação?

O que de fato sofreu uma profunda transformação foram as pessoas e a maneira como elas passaram a consumir a notícia. Infelizmente, o jornalismo ainda está atrasado no tempo, tentando se adaptar a estas mudanças que não cessarão tão cedo.

Talvez a pergunta indispensável a ser feita para que o jornalismo possa correr atrás do tempo perdido seja: se as pessoas não consomem mais conteúdo do mesmo jeito que antigamente, por que insistir na produção deste conteúdo do mesmo modo como sempre foi produzido?

Caso o jornalista comece a se aproximar de seu leitor, oferecendo notícias que façam sentido para o seu cotidiano, mudanças importantes no jornalismo, efetivamente, poderão começar a acontecer.

Valores são importantes para guiar nossas condutas. No jornalismo, temos como princípio a busca pela imparcialidade. Ainda assim, é importante perguntar: por mais que seja capaz de orientar as normas profissionais, até que ponto a imparcialidade é compatível com o que significa ser humano?

Afinal, não fazemos julgamentos de valor? Não observamos e opinamos? Não percebemos o que parece certo e o que se mostra errado?

Como argumentava o escritor, crítico literário e filósofo inglês Chesterton, a chamada imparcialidade pode significar uma mera indiferença, enquanto a parcialidade pode ser uma simples atividade mental – que nos força a pensar e não apenas a repercutir.

Falando concretamente do jornalismo, a opinião é frequente, em maior ou menor grau, no conteúdo veiculado. A busca pela imparcialidade mitiga a sua exposição, mas dados cuidadosamente pinçados e declarações de especialistas muito bem selecionados frequentemente contam aquilo que queremos que seja captado pelo público.

Portanto, sem apresentar claramente nossas opiniões, com que frequência não optamos por uma omissão calculada? 

O jornalista enfrenta diversos dilemas, e ser parcial por certo tem seus problemas. Se não há uma conduta perfeita a ser adotada pelo profissional, a exposição transparente de ideias e opiniões ao menos facilita ao público cobra-lo por seus posicionamentos. Por si só, este já não seria um bom estímulo para uma conduta jornalisticamente responsável?