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Ana Brambilla

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Jornalista, Doutora em Comunicação Social. Editora Orbis Media Review. Professora e Pesquisadora do Master Negócios de Mídia.

O Orbis Media Review coletou a visão de 45 líderes de alguns dos principais veículos brasileiros, para projetar os rumos do nosso mercado. Eles estão à frente de empresas e operações editoriais em diferentes suportes (online, TV aberta, TV por assinatura, jornal, rádio, revista, nacionais, locais, generalistas, segmentados) e renovam diariamente o compromisso em fortalecer o setor.

Entre os temas abordados estão as audiências, a atuação em redes sociais, a projeção da receita publicitária e por assinatura, outros canais de faturamento, cenário econômico, visão de produto, formatos de conteúdo, trabalho híbrido das redações, as principais competências que os jornalistas deverão apresentar neste ano, regulação da mídia, ESG e outros tópicos que cruzam a estratégia de nossos veículos.

BAIXE O RELATÓRIO (PDF)

Comumente, as referências para a mídia brasileira vêm do exterior, são vanguardistas e inspiradoras. Mas é preciso lembrar que também há uma força gigante na indústria jornalística nacional. São mentes dispostas a inovar e a zelar pelo legado de uma imprensa resistente e persistente.

É pela união do potencial destes tantos players, em nome da riqueza de ideias e da produção de qualidade que emerge dos veículos brasileiros que o Orbis Media Review reuniu as perspectivas para o mercado de mídia nacional neste primeiro Relatório de Tendências para o Jornalismo.

Nosso objetivo é de que este documento sirva de intercâmbio para aproximar veículos e auxiliá-los a definir estratégias, parcerias, atuações marcadas por propósitos claros em um ano de resultados positivos.

Ao final do relatório, você encontrará assuntos que recomendamos a que fique atento ao longo do ano, além de 23 Provocações e Recomendações preparadas cuidadosamente pelo jornalista e consultor Eduardo Tessler com exclusividade para o Orbis Media Review.

Agradecemos a generosidade e o tempo de todos que contribuíram para que este relatório pudesse existir. E como já é costume aqui no Orbis, sinta-se à vontade para dar seu feedback.

Baixe o relatório gratuitamente e compartilhe com seus colegas.

Feliz 2023!

 

 

Uma busca rápida por manchetes publicadas na imprensa nacional nos últimos anos confirma a adoção de uma triste estrutura textual: a boa notícia seguida por “mas”. Tão usada quanto o “fulano diz que” nos títulos de notícias, a conjunção adversativa denota a preocupação premente de associarmos um elemento negativo sempre que possível.

jornalismo negativo títulos notícias

As montagens deste post são pequena amostra do tom que boa parte do noticiário assumiu: nada de bom pode ser noticiado impunemente. Repare que a estrutura de oração subordinada adverbial concessiva prolonga os títulos e quebra qualquer expectativa por algo que vinha sendo anunciado. Como um julgamento da realidade – o que jornalista deveria evitar ao máximo -, o complemento dos títulos termina sendo editorialmente desnecessário e até inoportuno, já que informação demais – e logo no título – confunde o leitor.

Para justificar esta tendência torpe de formato de conteúdo, poderíamos cogitar a hipótese de que a boa notícia seguida por “mas” é o resultado da busca por um jornalismo equilibrado, que mostra ter ouvido dois lados de uma notícia já na chamada. O problema desta nobre intenção é que ela desvia o foco do fato e, naturalmente, conduz a interpretação do público. Ora, o “complemento” que, segunda esta hipótese, serviria para “equilibrar” a notícia nem sempre é tão factual quanto a pauta central. Há casos em que tudo o que vem depois do “mas”, “porém”, “ainda que”, “entretanto” e similares não passa de uma leitura do fato noticiado segundo a perspectiva de quem escreve. Eis o momento em que a notícia termina e a opinião começa.

Fatos interpretados no título não apenas contribuem para o enviesamento da notícia; são obras concretas de desinformação. Ainda que sejam escritas de modo inconsciente, notícias que seguem esta estrutura na chamada contribuem fortemente para que o usuário – que consome notícias de modo cada vez mais incidental, ao acaso – não sinta necessidade de clicar para ler. Afinal, tanto já se disse no título, até mesmo um ponto de vista ou o recorte de uma informação adicional.

Outra hipótese para a popularização deste formato de chamada pode ser justamente uma tentativa de informar o público o máximo possível, mesmo aqueles que não clicam para ler as notícias completas, sem gerar click-bait. O dano colateral, neste caso, pode ser ainda maior: a sensação de que é impossível acontecer algo bom sem que exista um porém.

títulos notícias

O impacto negativo das notícias no humor das audiências já é um dos principais responsáveis pelo fenômeno de news avoidance, que afeta 54% da população brasileira. Desde a faculdade, aprendemos que “negatividade” é um critério de noticiabilidade e que, diante de dois acontecimentos ruins, o pior ganha mais destaque editorial. Os critérios de noticiabilidade – ou valores-notícia – foram sistematizados nos anos 60 por um casal de pesquisadores noruegueses, Johan Galtung e Mari Holmboe Ruge, a partir da análise de jornais daquele país. As particularidades culturais já são outras, mesmo se consideremos apenas os contextos geográficos. Nada contra a Noruega, ao contrário! O país tem excelentes experimentos de reeducação das audiências na criação do hábito de compra de conteúdo. É inegável, porém, que o imaginário cultural do brasileiro seja muito diferente, orientado a menos austeridade, mais informalidade e referências completamente distintas.

E quanto ao tempo? Quanta coisa mudou – inclusive na Noruega! – dos anos 60 para cá. O volume de oferta de informação, a facilidade do acesso, a operação de inúmeras atividades ao mesmo tempo e em uma só tela são os pontos mais “técnicos” dentre as profundas transformações de valores que a humanidade tem sofrido nos últimos 50 anos. Há muito mais pessoas no mundo. A competitividade só aumenta. O burnout virou a doença do novo século e por mais que a tecnologia tenha facilitado muitos processos, ela configurou um mundo mais complexo para se viver.

Naqueles 15 minutos de descanso que tem durante o dia, quando pode finalmente se informar, é muito provável que o usuário não queira sentir-se mais preocupado, decepcionado e impotente diante das agruras da realidade retratadas pelo jornalismo. Não é o caso de ignorarmos situações adversas, mas de respeitarmos quando algo de bom acontece no front. Daí, a busca pelo equilíbrio se faz mandatória em qualquer redação.

Título sempre foi a síntese daquilo que há de mais importante na notícia. Se a notícia nasce de um fato, o desafio passa a ser limitar-nos a este fato. Sem desdobramentos, sem comparações, sem contextualizações que agregam camadas interpretativas nada isentas e capazes, até mesmo, de causar desagrado a quem lê. Se há muitos tópicos relevantes em um mesmo acontecimento, cabe ao editor decidir qual será o agente do lead e preparar suítes, quando os detalhes forem demasiadamente importantes a ponto de precisarem, todos, aparecerem no título. Temos que reaprender a dar boas notícias. A saúde mental das audiências – e a nossa, convenhamos – agradece! 😉

Sites indianos começaram a sexta-feira (14) anunciando o fim do Instant Articles, tecnologia lançada pelo Facebook em maio de 2015 para carregamento rápido de sites em mobile. Um alto executivo da Meta teria confirmado a informação à imprensa indiana, enquanto alguns jornalistas brasileiros começavam a receber o comunicado oficial da decisão.

O Instant Articles do Facebook será fechado em abril de 2023” e “Grande decisão do Facebook em relação ao Instant Articles: o serviço será fechado, anunciam os veículos indianos.

Apesar de saberque nossa comunidade valoriza compartilhar e discutir ideias e notícias” e ainda que se diga muito preocupadaem garantir que um ecossistema de notícias e jornalismo saudáveis possam prosperar“, a Meta enviou hoje o seguinte texto a redações: “Avaliamos constantemente nossos produtos para garantir que estejamos focados nas experiências mais significativas e impactantes para as pessoas no Facebook e o futuro do nosso negócio. Temos visto cada vez mais que links para artigos de notícias e outros conteúdos não são a razão pela qual a grande maioria das pessoas visita o Facebook.

instant articles

Acima, trecho do texto de lançamento do Facebook Journalism Project, publicado em 11 de janeiro de 2017.

A inconstância com que a Meta vem tratando suas ações no mercado demonstra uma completa falta de coerência estratégica. Em bom português: Zuckerberg e time nunca pareceram tão perdidos e está cada dia mais difícil acreditar em qualquer coisa anunciada pela empresa.

Em menos de 11 meses, a Meta copiou o Clubhouse, lançou sua plataforma de podcasts, fez um tremendo barulho e jogou tudo fora.

Há 10 dias, a empresa anunciou o fim de outro produto de cunho editorial – o Bulletin, plataforma de newsletters que se propôs a concorrer com o Substack. A iniciativa, que entrou em operação em junho de 2021, durou quase 16 meses, tempo suficiente para atrair escritores estabelecidos, como o colunista da revista New Yorker, Malcolm Gladwell e o professor universitário da área de saúde pública, James Hambin, que costumava escrever para a The Atlantic.

Bulletin foi apresentado como uma solução para veículos locais, que ouviram da Meta o compromisso de que a plataforma pagaria US$ 5 milhões para quem usasse o serviço de newsletter. O encerramento do Bulletin veio após a empresa sinalizar aos publishers do mundo todo que não trataria mais o conteúdo jornalístico como prioridade. Isso significou o encerramento de parcerias com veículos que haviam assinado acordos que chegavam a US$ 10 milhões por ano, em troca da produção de conteúdo para alimentar a aba de notícias da rede social.

Não é novidade que, para ser fiel ao seu conhecido modus operandi bipolar e predatório de fazer negócios, a Meta está focada em combater o TikTok e em concretizar o projeto do Metaverso – coisa que nem os próprios funcionários da empresa querem usar. Assim como agiu com a Zynga lá em 2010, a Meta simplesmente vira as costas para organizações que se tornaram dependentes de seu ecossistema. É o caso de veículos jornalísticos, cuja audiência esteve atrelada, durante vários anos, à circulação de links no Facebook.

O alcance dos posts com link continua diminuindo pelo menos desde 2018, quando a rede anunciou mudanças no algoritmo que privilegiariam publicações de indivíduos sobre conteúdos de empresas. Ainda assim, muitos veículos pareciam ter esperança no que havia sido feito especialmente para eles: o Instant Articles, lançado no recente 2015.

Vida e morte do Instant Articles

Para alavancar o produto, o Facebook convenceu 72 veículos de mídia – como os gigantes New York Times, BBC, BuzzFeed, Guardian e National Geographic – a depositarem seus conteúdos no ambiente da plataforma. O Washington Post chegou a dizer que transferiria 100% do seu conteúdo às páginas do Instant Articles. Naquele tempo, a rede ainda gerava um volume de tráfego para sites de notícias na casa dos 40%, à frente da audiência proveniente do Google. Era esperado que os mesmos resultados positivos fossem gerados caso o veículo passasse a usar o Instant Articles. Mas não foi bem assim.

O pioneiro a abandonar o sistema foi o inglês The Guardian, alegando que depositar seu conteúdo no ambiente de páginas leves do Facebook colidia com a estratégia do veículo. Na ocasião, um porta-voz do jornal britânico justificou assim a decisão de sair do Instant Articles:

Nosso objetivo principal é trazer o público para o ambiente confiável do Guardian para apoiar a construção de relacionamentos mais profundos com nossos leitores e aumentar o número de membros e contribuições para financiar nosso jornalismo de classe mundial.

Em 2018 e à medida em que os publishers percebiam que o Instant Articles não fazia sentido, o êxodo levou mais da metade dos parceiros iniciais a abandonarem o formato. Entre as principais razões apresentadas pelos veículos estavam:

  • Baixa monetização. Ainda que tenham experimentado o paywall no Instant Articles, muitos editores constataram que o faturamento em seus próprios sites era maior.
  • Pouco controle sobre os anúncios. Após a polêmica sobre “para quem é contabilizada a audiência das páginas do Instant Articles”, a possibilidade de veicular anúncios serviu de alento temporário às empresas de mídia. Mas logo veio a decepção de não poder controlar estes anúncios.
  • Falta de dados. O ouro contemporâneo ficou retido nas mãos do intermediário. Ao negar acesso a informações referentes à navegação no Instant Articles, o Facebook frustrou publishers que podiam estudar o comportamento do público em seus próprios sites, a fim de convertê-los em assinantes ou de realizar qualquer ação de marketing.

E assim, Forbes, Quarz, Hearst Bloomberg, ESPN, WSJ, Financial Times, CBS News, NBC, NYT e tantos outros players abandonaram a plataforma.

Apesar disso, é preciso dizer que o Instant Articles ostentou uma longevidade cada vez mais rara entre os produtos da Meta. Embora o encerramento efetivo do serviço esteja marcado para abril de 2023, nenhuma nova página poderá aderir ao formato a partir de hoje. De acordo com o comunicado, os links passarão a levar o público às versões mobile dos respectivos sites.

O mais grave, no entanto, não é o encerramento do Instant Articles – algo, digamos, bastante previsível dado o o afastamento que a Meta tomou das empresas de mídia. Como de costume, o pior ficou com os veículos que ainda dependem, em alguma medida, da audiência gerada pelo Facebook.

Ninguém pode ver o que não é mostrado

Mesmo que esteja em queda livre, este tráfego faz diferença no faturamento publicitário – também decrescente – das operações digitais das empresas jornalísticas. Agora note o abismo que há entre a Meta e os publishers: o comunicado emitido pela plataforma afirma que “Atualmente, menos de 3% do que as pessoas ao redor do mundo veem no Feed do Facebook são postagens com links para artigos de notícias.” E como mais pessoas poderão ver, se o alcance destes posts é derrubado pelo algoritmo?

O porta-voz da empresa piora tudo ao dizer que “não faz sentido investir demais em áreas que não alinhar com as preferências do usuário”.

A Meta quer fazer parecer orgânico um movimento que ela mesma orquestrou, com total irresponsabilidade econômica, social e um duplo discurso vergonhosamente antiético, com o qual a empresa ainda tenta seduzir editores.

Como disse um grande jornalista amigo, a era do click acabou. Ela acaba junto com a rede social, que agora se consolida como espaço de compras e de entretenimento – para o desespero de muitos veículos.

As lições parecem evidentes, mas vale recordar:

  • Enquanto condicionarmos o desempenho do nosso trabalho a produtos terceiros, nosso futuro será mais incerto do que o necessário.
  • Por mais que a bola da vez seja produzir vídeos na vertical, CALMA! Não saia fazendo tudo o que o outro diz. Pergunte-se o que seu veículo ganhará, concretamente, com isso. Lembre-se que nada disso pode valer daqui a alguns meses, a exemplo dos podcasts, clubhouses e newsletters da Meta.
  • A Meta prova, com tais episódios, não ser uma empresa digna de confiança. Não construa uma estratégia com base em uma organização incapaz de sustentar produtos por um ano no mercado – ainda que o faça a partir da destruição de concorrentes originais.
  • Por mais cool que sejam seus formatinhos, nem sempre são “seus” (na verdade, a maioria é cópia, vide Snapchat e Stories).
  • Tenha cautela com quem destrói o seu ecossistema de negócios, se apropria do seu modelo de faturamento e brilha posando como sua “parceira”.
  • Não procure um meio substituto para devolver-lhe os cliques perdidos com o fim do Instant Articles. SEO sempre ajudou, mas o Google é apenas outro produto terceiro do qual o jornalismo se tornará dependente. (Em muitos casos, já está!)
  • É urgente repensar sua estratégia de produto (editorial, inclusive) para fugir da dependência, recuperar o contato direto com suas audiências e transformar isso em receita (não apenas por assinaturas).

Aproveite! O fim do Instant Articles pode ser uma excelente oportunidade para inaugurar um novo momento do seu veículo.

 

Em 2004, quando fui ao primeiro Fórum do Software Livre, em Porto Alegre, queria entender o que significa va “open source” com o objetivo imediato de testar a abertura de códigos ao jornalismo. Dois anos depois, defendi a dissertação Jornalismo Open Source: discussão e experimentação do OhmyNews International, na UFRGS.

Quase 20 anos se passaram e ainda percebo que o conceito-raiz daquelas discussões ainda não pertence ao domínio comum e ainda gera muita confusão na indústria editorial.

[Para ajudar nas aulas que eu daria por vários anos depois de haver lido A Catedral e o Bazar, montei o desenho acima. Ele deve ser de 2004 ou 2005.]

O texto-base de toda a visão que ajudei a construir para um jornalismo efetivamente próximo à população, inclusivo e relevante à sociedade foi The Cathedral and the Bazaar, do hacker norte-americano Eric Steven Raymond, ex-presidente da Open Source Initiative (PDF do livro em domínio público e traduzido ao português).

Em síntese, o autor contrapõe dois modelos de produção com base na arquitetura de dois marcos de relações humanas: um deles é hierárquico e unidirecional (catedral) e o outro é horizontal e colaborativo (bazar). Ambos os modelos podem ser aplicados à engenharia de software (marco inicial da proposta), ao jornalismo e até à produção de cerveja.

Não há modelo melhor ou pior. São diferentes. Profunda e essencialmente diferentes. Mas ainda vemos uma mistura gritante entre estes dois modelos, que pode ser uma das causas da lentidão da transformação no jornalismo digital.

Isso tem ficado cada vez mais claro quando ouço alguém dizer que tem “uma comunidade em seu veículo” enquanto, na verdade, tudo o que faz é produzir conteúdo e publicar em um site, enviar uma newsletter, gravar um podcast, whatever. Não importa o assunto, tampouco o formato. Comunidade não é sinônimo de público-alvo.

Características de uma comunidade

Desde a Web 2.0, ficou bonito usar a expressão “comunidade” para se referir a um conjunto de pessoas com um perfil semelhante. Porém, comunidade presume troca, preferencialmente, espontânea e desintermediada entre os integrantes. Em uma comunidade, o poder de fala é compartilhado: todos falam, todos escutam, porque há um interesse em comum – inclusive, em manter a boa relação entre os participantes. Portanto, um produto jornalístico feito exclusivamente por jornalistas e profissionais associados não é uma comunidade. É um veículo, tal como se faz veículos jornalísticos há quatro séculos. Segue modelo catedral, com uma hierarquia clara entre quem produz e quem consome. Não há nada de errado, nem de inovador nisso.

Já ouvi colegas justificando o uso do termo “comunidade” da seguinte maneira: Falamos sobre pessoas com este perfil, para pessoas com este mesmo perfil. Portanto, os integrantes desta ‘comunidade’ se veem no conteúdo.

É nobre. Mas ainda assim não é comunidade. E a diferença é simples: não se trata do “sobre” mas de “quem” produz o conteúdo em seu veículo. Comunidade é Reddit, Wikipedia, o sul-coreano OhmyNews, que estudei no mestrado, grupos de WhatsApp/Telegram onde todos podem falar, listas de e-mail (Google Groups) e talvez, com um forte matiz, comunidades efêmeras se armam e desarmam nos comentários de algum post ou canal de conteúdo em redes sociais (YouTube – members, Twitch, Discord).

Em uma comunidade de verdade, todos os membros têm a chance de se conhecerem entre si; podem se apresentar e contatar uns aos outros, sem a necessidade de pedir licença a um líder. Logicamente, existe a figura do “moderador de comunidades”, que desempenha um papel válido e necessário de organizar as interações, estimulá-las quando o grupo se dispersa, zelar pela saúde das discussões, mesmo que isso signifique expulsar um participante daquela comunidade, sem agir com autoritarismo. Dá um trabalho monstruoso gerir uma comunidade! Não basta publicar conteúdo num site. Nem mesmo em redes sociais.

Com o reengenharia estrutural recente das plataformas da Meta, Facebook e Instagram tendem a se tornar  mais espaços de consumo e entretenimento do que redes sociais. Isso diminui drasticamente o caráter reticular e horizontalizado dessas plataformas. Logo mais, nem mesmo as redes sociais poderão ser chamadas de “redes”, muito menos, de “comunidades”.

Grupos de Facebook ainda são uma comunidade dentro de uma rede social, porque são espaços segmentados de troca, têm moderadores e podem seguir até mesmo suas regras próprias. Mas no Instagram, por exemplo, já fica difícil dizer que há comunidade. Em cada post há um conteúdo “soberano”, seguido ou não por comentários bem pouco visíveis. O poder de fala está compartilhado, é verdade, mas cada um se manifesta originalmente no seu próprio espaço, o seu perfil. Posso publicar comentários noutros perfis, claro. Apenas lembre-se de comparar o poder de expressão de um post original e de um comentário deixado embaixo deste post. Qual deles tem mais visiblidade? Exato, cada post é uma mini Catedral.

Então, não, você não tem “uma comunidade no Instagram”. Você deve ter, no máximo, seguidores que, na melhor das hipóteses, reagem a conteúdos que você dispara.

Perceba que são conceitos muito simples, com as quais lidamos diariamente e nos equivocamos sem más intenções. Você ouviu toda uma geração de internéticos dizendo: Você tem que criar comunidades! Você tem que se relacionar com o usuário! Sua marca precisa estar nas redes! – Mas provavelmente esqueceram de lhe explicar que tudo isso é Bazar. Então você abriu perfil em cada um desses novos ambientes, lançou newsletter e podcast, fez live a pandemia inteira, abriu sala no ClubHouse e canal no YouTube… mas continuou trabalhando no modelo Catedral.

Lamento, mas não foi inovação. Exceto pela plataforma, muitos produtos jornalísticos mal acompanharam a evolução do suporte: de papel ou ondas para bits. A transformação do nosso modelo de produção não acompanhou o modelo de rede.

“Então, dê um exemplo de comunidade”

Ele vem de Fortaleza, surgiu em 2017 e se chama Rapadura Valley. No começo, tudo era apenas um grupo de WhatsApp que reunia empreendedores de tecnologia do Ceará. Cinco anos e dois prêmios depois, já são mais de 400 participantes que trocam ideias, divulgam produtos, pedem e ganham indicações, sugestões e interagem harmoniosamente pelo mesmo WhatsApp.

O fluxo de publicação é contínuo. E a interação é organizada por um grupo de moderadores que se pautam em um mesmo guia. A propósito: o processo de produção do guia também foi coletivo, colaborativo e está documentado em material acessível a todos que participam da comunidade. Transparência é um contrato de confiança!

Processos que iniciam de modo 100% horizontal e aberto dão margem, naturalmente, para posturas indesejadas. Daí a necessidade de haver regras. Mas regras não significam controle total sobre uma comunidade. Elas se assemelham mais a acordos entre todos os integrantes realmente interessados em trocas produtivas, em um ambiente saudável.

 

Balaio de Rapaduras

Tão fértil quanto o Rapadura Valley talvez seja o seu parceiro, Rapadura Tech. Este site de conteúdo sobre inovação, empreendedorismo e tecnologia foi criado por um dos participantes do Rapadura Valley, o engenheiro de computação Flavio Carneiro. A ideia foi armar um espaço que oferecesse oportunidades a empreendedores, por meio da geração de conexões, eventos e da divulgação de suas iniciativas.

Acontece que o site de conteúdo não “coube em si” e originou canal de WhatsApp além de um grupo segmentado de Telegram, organizando o debate e direcionando interesses dos participantes. O grupo geral, Comunidade Rapadura Tech, no Telegram, tem mais de 1,3 mil inscritos. Também no Telegram surgiu no Rapadura Invest, com mais de 300 membros. Para sobreviver, os donos do Rapadura Tech fizeram parceria com redes de varejo, como a Amazon, onde ganham um percentual de compras efetuadas a partir de links que anunciam. E só para receber esses anúncios foram criados os grupos Rapadura Ofertas no WhatsApp e no Telegram.

Sim, tem quem entre em grupos para receber propaganda! E não é pouca gente. Só no Telegram, o Rapadura Ofertas soma mais de 4,4 mil associados.

Dicas para moderar comunidades

Reunir pessoas ao redor de interesses em comum traz todas as dores e as delícias das relações humanas. Não há garantias. Não há como profetizar que o conteúdo que ali circule seguirá todos os parâmetros específicos, como aqueles que norteiam o trabalho em uma publicação. Moderador não é editor. E parte do seu trabalho é acompanhar e confiar no poder de autorregulação da comunidade.

Já participei de infinitas reuniões em que propus comunidade a gestores de veículos e as inquietações (muitas delas, legítimas) são sempre as mesmas:

“E se alguém publicar alguma besteira?”

“E se o povo começar a brigar?”

“E se falarem mal da minha publicação?”

“E se postarem correntes?”

“E se ninguém postar nada?”

“E se minha equipe não der conta de moderar tantos membros?”

Antes do pânico, é importante assumir que qualquer comunidade está suscetível a todas as situações acima. O trabalho do moderador (ou do grupo de moderadores) é combinar com os integrantes os termos de funcionamento daquele convívio. E zelar por eles. Nem sempre isso significa expulsar pessoas. Mas se for necessário chegar a este ponto, as razões precisam estar claras e terem sido comunicadas previamente a todos.

A parte bonita de uma comunidade é quando os próprios integrantes (não moderadores) atuam na zeladoria da discussão. Então, se um sujeito mal intencionado entra em cena, naturalmente, outros participantes bem intencionados – e felizes com aquele espaço – tratam de neutralizar o problema. Nessa hora, o moderador nem precisa atuar, ou apenas agradece. Todos querem o melhor para aquele ambiente e o dia a dia vai mostrar que é possível ter uma troca saudável, mesmo entre milhares de pessoas que não se conhecem fora dali.

“Mas isso é jornalismo?”

À primeira vista, não. Mas muito jornalismo pode ser feito a partir de comunidades. Um exemplo que já tem alguns anos é a publicação inglesa Tortoise, dedicada a fazer jornalismo analítico e lento. A Tortoise oferece aos seus associados – pessoas que pagam até 450 libras por ano à publicação – a possibilidade de participar dos Think-Ins, encontros online com jornalistas e convidados onde são debatidas pautas passadas e futuras. E todos podem falar. Portanto, o maior ganho de uma atividade colaborativa não está em “enquadrá-la” em jornalismo ou não-jornalismo. Comunidades atendem necessidades de seus integrantes e é precisamente esta relevância que produtos jornalísticos precisam recuperar.

Então, pergunte-se: esta comunidade é útil a ponto de atrair a atenção e ajuda a melhorar de alguma forma a vida dos meus usuários? Se a resposta for SIM, então é já existe uma razão forte para ela estar sob os cuidados do seu veículo. Quem sabe elas não se inspiram no caso das Rapaduras e funcionam como um spin-off do seu produto de mídia?

A sugestão é: menos medo, menos garantias. Menos anseio de controle. Mais abertura. Mais humanidade. Mais utilidade e relevância.

Menos Catedral. Mais Bazar. 😉

O mercado editorial brasileiro ganhará um novo jornal no final de agosto. Detalhe: ele será impresso. O Tino Econômico terá oito páginas full collor e uma tiragem inicial de 40 mil exemplares. A publicação será mensal e se propõe a tratar de economia e educação financeira com o uso de linguagem didática, capaz de atrair jovens estudantes a partir do final do Ensino Fundamental II, ao redor dos 14 anos.

O estranhamento é inevitável, afinal, a geração Z já não nasce conectada? Por que, então, apostar em um jornal em papel justo em meio à crise que só se aprofunda na mídia impressa? Uma das razões é a sensação do pertencimento que a materialidade promove. “Crianças e jovens precisam do concreto”, explica Stephanie Habrich, diretora-executiva da editora Magia de Ler, que assina a criação do veículo.

Este não é o primeiro empreendimento de Stephanie no jornalismo infantojuvenil. O Tino Econômico será o “irmão mais velho” do Joca, jornal também impresso que circula em escolas públicas e privadas, explicando as atualidades para alunos do Ensino Fundamental I. Mas até adulto lê.

Leitores jovens, pautas sérias

Ao contrário dos tradicionais suplementos infantis de jornais da grande mídia, o Joca – e, agora, o Tino – tratam das mesmas pautas do noticiário tradicional. Até o visual é semelhante. A diferença está na explicação dos elementos que envolvem os fatos. Não é linguagem infantil, é linguagem acessível. Por exemplo, se numa pauta falarmos sobre inadimplência, vamos explicar o que é isso e qual a diferença entre inadimplência e superendividamento”, detalha Sílvia Balieiro, editora-chefe do Tino Econômico.

O fato de dirigir seus títulos para o público infantojuvenil não faz a editora Magia de Ler acreditar que deva ensinar seus leitores a fazer fantoches. O perfil da editora-chefe já é prova disso. Ex-editora da revista Época Negócios, Sílvia está prestes a completar 30 anos de jornalismo, com passagens pela revista Exame e InfoExame. Agora, ela lidera uma equipe de cinco jornalistas responsáveis pela produção do conteúdo para as versões impressa e online do Tino.

A escolha de pautas “sérias” do cotidiano está no cerne da estratégia editorial, tanto do Tino, quanto do Joca. “Era preciso dar respeito às crianças. Quero que a criança se sinta parte da sociedade”, confessa a diretora executiva das publicações. Stephanie conta que, há algum tempo, a editora fez uma pesquisa ouvindo mil jovens leitores do Joca e outros mil jovens que não liam o jornal: “Aqueles que não liam só sabiam falar de criminalidade e de entretenimento”, lamenta.

“Desenvolvimento de audiências”, ao pé da letra

A formação de leitores desde a primeira infância está nas raízes franco-germânicas da empresária. Nascida na Alemanha, Stephanie veio ao Brasil com seis anos. Atentos à preservação das origens culturais da filha, sua mãe francesa e seu pai alemão mantiveram as assinaturas de revistas infantis publicadas na Europa. Por lá, quando a criança nasce, os pais já fazem uma assinatura de revista para ela, conta Stephanie.

No Brasil, entretanto, o hábito de pagar por conteúdo – e ainda, de forma recorrente – não conquista suficientemente nem mesmo os adultos. Apesar do cenário economicamente nada promissor, Stephanie se lançou ao desafio de mudar esta cultura gradualmente, apostando no começo de vida das próximas gerações. 

Sobrevivente aos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, Stephanie escapou do quarto andar de uma das Torres Gêmeas, durante o tempo em que trabalhou no mercado financeiro de Nova York. Anos mais tarde, de volta ao Brasil, lançou as revistas Toca a um público de zero a quatro anos, e a revista Peteca, para crianças entre cinco e oito anos. Ambas faliram. Mas a empreendedora não desistiu.

O mundo inteiro tem revistas para crianças”, exclama. Obstinada em desenvolver o leitor do futuro e transformar os hábitos de consumo de informação no Brasil, Stephanie alcançou um modelo de produto e de produção de causar inveja a veículos da grande mídia. O Joca conta hoje com um Clube de Leitores que participam ativamente do jornal. Eles são consultados sobre as lives a serem oferecidas, fazem entrevistas para o veículo e palpitam sobre tudo o que é publicado.

Mais do que um consumo passivo de informação fugaz das redes sociais, a equipe de 31 pessoas da editora conseguiu mobilizar os jovens leitores. Como despertar a atenção ao jornalismo em um público tão assediado pelo entretenimento?A gente faz um gancho com alguma notícia ou um personagem que venha do mundo deles”, detalha Sílvia. A saída da cantora Anitta do conselho do Nubank, por exemplo, foi um bom argumento para tratar dos conselhos de administração das empresas.

Ideal e modelo de negócios

Assim como o Joca – que circula há 10 anos e hoje chega a mais de mil escolas brasileiras – o Tino terá modelo de negócios sustentado por assinaturas. A venda, no entanto, começa só no ano que vem e o plano anual custará a partir de R$ 93. Até janeiro de 2023, a distribuição será totalmente gratuita. A iniciativa é parte da estratégia de lançamento do veículo e recebeu o apoio do Instituto XP. A intenção de Stephanie, no entanto, é que o veículo de educação financeira chegue sem custo algum ao máximo possível das escolas públicas.

A acessibilidade às edições, aliás, é outra – grande – justificativa para a escolha do formato impresso. A experiência com o Joca mostrou à editora o grande potencial de exploração do veículo em atividades de sala de aula, a ponto de a Magia de Ler ter incorporado um comitê pedagógico em seu staff. Ao realizar visitas de orientação a professores em escolas da periferia, mesmo de grandes cidades como São Paulo, a equipe  da editora encontrou instituições completamente desconectadas, sem acesso à Internet fixa ou móvel

Impresso, o Joca chega hoje a cerca de 600 escolas municipais de São Paulo e a outros tantos colégios privados, o que soma uma base de 300 mil assinantes. Para alcançar estes números, porém, o veículo passou uma década operando sobre o break even. Mesmo assim, a venda de publicidade está fora de cogitação. “Nunca houve nem nunca haverá anúncios”, avisa Stephanie. Além de dificultar a entrada nas escolas, a publicidade ao público infantojuvenil é foco constante de controvérsias e as publicações chamam a si o dever de proteger os jovens deste apelo.

Vamos começar a fazer algum lucro no Joca recém agora. Sobrevivo de um sonho de mudar a educação no Brasil. E não dá para esperar tudo do Estado”, pondera Stephanie.

Enquanto isso, o Tino promete ajudar as escolas a cumprirem com uma exigência que o Ministério da Educação faz desde 2017. Em abril daquele ano foi entregue a Base Nacional Comum Curricular, um documento que regulamenta o ensino básico e fundamental no país, onde a “educação financeira” é um dos conteúdos obrigatórios na formação dos estudantes.

E jornalisticamente, o Tino tem algum benchmark, quem sabe, do exterior? Até aí a inspiração vem do mundo dos adultos: o novo jornal terá a cara do Financial Times, até mesmo na cor do papel. No país onde 54% das pessoas fogem das notícias por razões que incluem a dificuldade de entender o que é dito no noticiário, talvez o Tino siga os caminhos do seu irmão Joca e seja muito lido por gente mais velha do que o público mirado.

O último vendaval que varreu São Paulo deixou o bairro onde moro sem energia elétrica. No meio do apagão, cheguei do trabalho, ainda sem saber quanto tempo levaríamos sem luz. Esperei uns minutos na portaria, dei uma volta nas redondezas, mas duas horas se passaram e a vizinhança continuava às escuras. Não teve jeito. Encarei 18 andares de escada. Neste tempo, procurei o noticiário; precisava saber o que houve, em quanto tempo voltaria a luz, já que a concessionária não sabia dizer. No entanto, tudo o que encontrei foram notícias de três dias, uma semana atrás sobre corte de energia em São Paulo.

Na manhã seguinte li uma chamada dizendo “Ventania deixa vários bairros de São Paulo sem luz“. De fato, a matéria contava quantos bairros, moradores sofreram corte de energia, quantas árvores tinham caído, quantos acidentes de trânsito foram registrados naquela noite, um horror. Então me perguntei: de que me serve toda esta informação? E de que serve chegar agora?

Veículos norte-americanos dedicams-se ao conteúdo prático

Lembrei do Thomas Baekdel, analista de mídia dinamarquês, que ironiza a relação entre veículos locais e suas audiências como uma situação bizarra em que você pergunta a um amigo:
– Como se faz arroz?
E seu amigo responde:
– Sim, tem muita gente fazendo arroz!

É exatamente isso que acontece em tantas reportagens que contam o sofrimento de passageiros que tiveram seus voos cancelados e passaram dias sem tomar banho, dormindo no chão de algum aeroporto. Ou nas denúncias de falta de saneamento básico, com a imagem tão cliché quanto triste de crianças brincando ao lado de um esgoto a céu aberto. O que os personagens destas pautas poderão fazer com a informação destas matérias? Quais caminhos lhe sugerimos?

É verdade que as denúncias estão na essência da reportagem e ali devem estar. Mas somente denúncias já não sustentam a relevância que o jornalismo precisa voltar a ter na rotina da população. Mais do que contar histórias, precisamos ajudar quem recorre aos nossos veículos. Por isso celebro um movimento de jornais, sites e emissoras de rádio de jornalismo local dos Estados Unidos que estão reorientando suas propostas editoriais à produção de conteúdo prático para auxiliar os cidadãos em situações concretas, até mesmo urgentes.

As pautas e ações vão desde “como se preparar para um furacão“, trabalhada via WhatsApp e SMS pela rádio NuestroEstado.org, na Carolina do Sul, até um ebook preparado pelo Wall Street Journal sobre “como lidar com a dívida estudantil”. Mas chegar a estes temas requer uma comunicação direta e constante com os moradores da região onde o veículo circula. E por comunicação digo, sobretudo, escuta.

Para poder ajudar, é preciso ouvir

O fundador da rádio NuestroEstado, Fernando Soto comentou em um painel promovido pelo American Press Institute, em junho deste ano, que fazer um jornalismo prático, de informações úteis e aplicáveis exige que o jornalista vá além das suposições de assuntos que ele acha importante tal comunidade saber, apenas com base na experiência e na intuição profissional.

Imaginar quem são as pessoas a quem dirigimos nossos trabalhos é uma prática antiga e, lamentavelmente, ainda comum em muitas redações. O jornalista Jacob Nelson comenta, no livro Imagined Audiences (2021):

“Os jornalistas normalmente conceituam o público como pessoas sem nome, uma massa sem rosto, limitada apenas por sua decisão compartilhada de ler, assistir ou ouvir notícias. (…) Ao imaginar o público como ‘um público indiferenciado e bolha amorfa’, os jornalistas ficaram livres para recorrer ao que consideravam sua própria experiência profissional, ao decidir o que escrever e como escrever.”

(Jacob Nelson)

Como ser relevante para estas pessoas sem conhecê-las? E como conhecê-las sem ouvi-las? Dados do Google Analytics não contam as dores das audiências, não dão pistas sobre como podemos ser úteis a elas. Nelson também alerta: “se as organizações de notícias ouvirem o público mais explicitamente, os veículos ganharão mais confiança das pessoas e, então, se tornarão mais interessantes a elas, já que estas pessoas irão compreender melhor os conteúdos publicados.”

Esta escuta pode não ser simples, tampouco agradável no começo, sobretudo porque passamos as últimas décadas distantes da população. Mas em algum momento essa conversa precisa começar para tornar-se sistemática. “A abordagem de um jornalismo público à produção de notícias inclui ouvir histórias e ideias dos cidadãos, dando visibilidade a seus problemas no sentido de ajudá-los a resolvê-los“, explica Nelson.

Talvez nos anos 90 a justificativa de “dar visibilidade” a algo que está errado ainda fosse suficiente para garantir a relevância do jornalismo. No entanto, no mundo coberto por telas, há visibilidade demais e atenção de menos. É preciso ir além e ajudar os indivíduos de uma forma que eles sintam o impacto de nossa ajuda em sua realidade.

O professor Jeff Jarvis, da Universidade de Nova York (CUNY), fez a seguinte proposta, lá em 2016, para toda a indústria jornalística:

“Ao invés de continuar mantendo nossa fábrica de conteúdo, cujo business é vender audiências por toneladas, imagine se as notícias fossem um serviço que almeja ajudar as pessoas a melhorarem suas vidas e suas comunidades através da conexão não apenas entre elas e a informação, mas também entre elas próprias, com um modelo comercial construído sobre o valor, no lugar de volume.”

(Jeff Jarvis)

Um caso que se tornou exemplar aconteceu entre 2018 e 2019,  no Condado de Amador, na região de Sacramento, Califórnia. Uma emissora de rádio regional, a CapRadio, descobriu que a localidade tinha um dos maiores índices de suicídio do país. Boa parte dos 37 mil habitantes era de idosos e isso levou a equipe da rádio a ouvir aquela comunidade mais de perto. A carência de profissionais de saúde mental na região contribuía com o problema e resolver isso estava fora do alcance dos jornalistas. Mas falar sobre o tema e – mais do que isso – fazer os habitantes conversarem sobre suicídio foi uma tarefa abraçada com gosto por aqueles jornalistas. Reuniões, corrida de prevenção, podcasts com entrevistas e um “Kit Conversação” (guia com perguntas e roteiro para falar sobre suicídio) compunham um pacote de ações em uma situação, literalmente, de vida ou morte.

Outro exemplo a ser seguido foi protagonizado pelo Texas Tribune. Em fevereiro de 2021, o Estado foi atingido por uma nevasca que provocou corte de energia elétrica, de fornecimento de água e a conexão de internet ficou instável durante vários dias. O veículo, então, abriu um canal de comunicação via SMS com a população, primeiramente, para receber mensagens com dúvidas e relatos de problemas pontuais. Os usuários se registravam no serviço de SMS e recebiam as respostas pelo mesmo canal. O mais genial, porém, fica por conta do tom da resposta (ao lado), que mostra a informação oficial junto a uma sugestão vinda de outras pessoas. Não tem água? Tem gente fervendo neve.

Nada disso é novidade ao jornalismo. Mas provavelmente, nunca foi tão necessário. Rotulemos como “jornalismo utilitário” ou “jornalismo de serviços”, a missão é ajudar o público a lidar com problemas ou incertezas que acontecem no cotidiano ou que estão no centro das nossas vidas.

Jornalismo formativo + Jornalismo de serviços

A pesquisadora espanhola María Pilar Diezhandino identificou em 1994 dois tipos de jornalismo: o formativo e o de serviços. Enquanto o jornalismo formativo tem como missão a formação de uma consciência crítica da sociedade civil, o jornalismo de serviços ajuda as pessoas a viverem. Não há jornalismo melhor ou pior; eles apenas cumprem objetivos diferentes. Cabe a nós entender do que as pessoas mais precisam e como podemos ser mais relevante a elas. Ouso estimar que 90% do noticiário é formativo, com denúncias envolvendo políticos, relatos de injustiça e alertas sobre um futuro, quase sempre, sombrio. Quem sabe, se equilibrarmos este jornalismo formativo com informações e ações práticas, aplicáveis e efetivamente conectadas à realidade de nossas audiências, recuperamos a relevância no olhar da população?

*

P.S.: Há 15 dias, o Washington Post contratou uma editora de jornalismo de serviço. Megan Griffith-Greene atuará com toda a redação na identificação e na execução de pautas focadas em utilidades, “que aprofundem o relacionamento dos leitores com o The Post”. Fica a dica! 😉

O noticiário local que foi ao ar na noite da última terça-feira, 19, em São Paulo, revelou o quanto nos falta  aprender para fazer jornalismo. Em uma emissora, o apresentador anunciou: “Homem atira em assaltantes no Bom Retiro e não é indiciado por porte ilegal de arma nem por matar um dos ladrões“. Minutos depois, no outro canal, a manchete era: “Clientes e funcionários de restaurante no Bom Retiro são feitos reféns. Sequestadores foram baleados por vizinho.” Fiquei apenas nestes dois telejornais e a diferença no enquadramento de cada emissora me chocou mais do que a barbárie da acontecimento em si.

Há vários fatos no ocorrido. Há uma tentativa de roubo. Há bandidos armados. Há reféns na mira de pistolas. Há um vizinho do restaurante, também armado. Há dois homens baleados. E há uma obsessão ideológica acintosa norteando o trabalho em certas redações.

Pela ótica dos colegas, o sequestro parece ter sido apenas evento cotidiano que serviu de pretexto à atrocidade de um cidadão, rendido por um criminoso, disparar contra aquele que estava prestes a tirar sua vida.

O programa onde ouvi a primeira chamada dedicou nada menos que seis minutos para declarar sua revolta com o cidadão que portava uma arma em local não autorizado e que atirou contra os criminosos. Ao exibir um vídeo cedido pela Polícia Militar, o repórter narra que o morador “caminha em direção aos sequestradores, é rendido por um deles e reage descarregando a arma em dois assaltantes“. Mas isso foi apenas um detalhe, na visão dos colegas. A tônica da reportagem, do começo ao fim, foi denunciar a impunidade sobre o porte de arma por uma pessoa que não suportou assistir passivamente seus vizinhos sendo torturados. Está claro que a reação colocou em risco a vida dos reféns e isso precisa ser mencionado no relato editorial. Porém, o sequestro virou paisagem. Pela ótica destes colegas, o crime parece ter sido apenas um evento cotidiano que serviu de pretexto à atrocidade de um homem, rendido por um criminoso, disparar contra aquele que estava prestes a tirar sua vida.

A indignação do repórter com as autoridades que liberaram o autor dos disparos transbordava em trechos do boletim de ocorrência lidos no texto do off, em uma tentativa furiosa de legitimar sua ira contra aquele “assassino de sequestradores”. Uma das frases lidas no documento dizia que o atirador – exposto e nomeado pela reportagem – teria “recorrido ao chamado excludente de licitude“. Na certeza de que todos os espectadores de seu telejornal, transmitido pela TV aberta, entenderiam indubitavelmente a expressão “recorrido ao chamado excludente de licitude“, o repórter provou que estava engajado demais para lembrar que uma de suas funções vitais é traduzir à população, em linguagem simples e acessível, a informação que lhes foi dada por especialistas.

Quando foi que nos insensibilizamos, como seres humanos, diante da angústia de reféns na mira de três homens armados?

Após assistir à reportagem, me peguei em um diálogo interno de ordem jornalística mas, mais do que isso, foi uma reflexão a respeito de civilidade e de humanidade. Desde quando um sequestro de trabalhadores inocentes tem menos valor notícia do que o fato de dois de seus autores terem sido baleados ao renderem um indivíduo com arma de fogo? Desde quanto telejornais criticam e questionam a decisão da Polícia em não deter alguém que sequer foi investigado? Quando foi que normalizamos a invasão e o roubo à propriedade privada? Quando foi que nos insensibilizamos, como seres humanos, diante da angústia de reféns na mira de três homens armados? Desde quando o jornalismo milita pelo desarmamento da população? Desde quando jornalismo milita?

O que rotulamos como “absurdo”?

O caso acima ilustra o resultado de uma pesquisa publicada neste mês pelo Pew Research Center, com jornalistas norte-americanos de várias idades e cargos, atuantes em veículos. Mais da metade dos participantes (55%) admitiram que nem sempre os dois lados de uma pauta merecem receber a mesma cobertura. Isso é o mesmo que se posicionar, declarar apoio ou repúdio a algum aspecto da realidade e oferecer um conteúdo à sociedade como se fosse uma visão equilibrada dos fatos, como se fosse verdade em si.

Como jornalistas, sabemos que, por sermos humanos, somos passíveis de entender e relatar a realidade a partir dos valores que aprendemos e nos quais acreditamos. Porém, isso não nos dá o direito de usarmos o jornalismo como instrumento de articulação intencional.

Nos últimos anos houve uma multiplicação de veículos posicionados em vários pontos do espectro ideológico e político. No entanto, estes costumam firmar um pacto explícito com o leitor, que é ciente dos valores defendidos por aquele produto. Expôr a população à militância disfarçada de jornalismo é uma ofensa à sociedade. Justamente no momento em que o Brasil ocupa a primeira posição  no ranking de países onde mais se evita deliberadamente o consumo de notícias, há empresas de mídia que reagem dando ainda mais razões para as pessoas fugirem do noticiário.

Como jornalistas, nós mesmos sabemos que a linha divisória entre os gêneros informativo e opinativo é tênue e nem sempre fica clara às audiências. Nós também sabemos o quanto é difícil ser imparcial e que, por sermos humanos, somos passíveis de entender e relatar a realidade a partir dos valores que aprendemos e nos quais acreditamos. Porém, isso não nos dá o direito de usarmos o jornalismo como instrumento de articulação intencional.

Se a objetividade jornalística pertence à esfera do ideal, o esforço de contarmos uma história de maneira equilibrada é o que separa jornalistas de meros militantes.

Ao situarmos certos “lados” de uma discussão no universo do imponderável estamos, conscientemente, utilizando a atividade jornalística para difundir uma ideia ao invés de uma informação, para conduzir um pensamento ao invés de melhorar o estar-no-mundo da população, para alcançar interesses particulares que convergem, em última análise, na busca por poder. Nada mais antiprofissional, nada mais egoísta, nada mais desrespeitoso com quem ainda consome notícias na intenção pura de se manter informado.

O esforço para manter o profissionalismo nunca se fez tão urgente. Se a objetividade jornalística pertence à esfera do ideal, a tentativa de contarmos uma história de maneira equilibrada é o que separa jornalistas de meros militantes. Em qualquer profissão há procedimentos a serem seguidos, há convenções que precisam ser respeitadas. Por que haveria de ser diferente conosco? Por que seria aceitável transformar nosso trabalho num ato de interesse próprio? Há lugares socialmente legítimos para defendermos nossos ideiais: há grupos de estudo, há partidos políticos, há protestos pacíficos, há ONGs, centros comunitários, assembleias legislativas e mesmo o Congresso Nacional. Estes, sim, são espaços de ativismo; não o jornal, não o noticiário da TV aberta, não de forma sorrateira, fazendo de conta que é jornalismo.

Como podemos ajudar?

Procurar um novo modelo de negócio que sustente veículos no longo prazo é fundamental. Publicar conteúdos em formatos alternativos é necessário. Dialogar com o público, então, é urgente. Mas enquanto reproduzirmos a polarização do debate no fruto de nossos trabalhos, dificilmente voltaremos a ser percebidos como profissionais relevantes na vida de alguém.

Pense comigo: a lei da escassez rege relações de interesse de toda ordem, não apenas em transações comerciais. Existe uma oferta exagerada de informação, sobretudo instigando a polarização social. Entre discussões em redes sociais, estudos acadêmicos, fake news e mesmo em relatos opinativos válidos, qualquer ponto de debate está bem suprido de defesa. Não precisamos – nem devemos – ser mais um agente desta ou daquela bandeira. Isso equivale a dissolver o jornalismo num mar de subjetividades que não apenas nos descaracteriza, mas nos vulgariza. Seremos apenas mais um na multidão.

O que há em escassez na sociedade, hoje? Isto é, onde e como podemos fazer a diferença na vida das pessoas?

O American Press Institute (API) se lançou ao desafio de entender o que está escapando do olhar das redações e, não por acaso, a descoberta diz respeito à melhoria do convívio social. O fornecimento de informações sólidas e a abertura de espaços propícios ao diálogo foram apontados como formas de o jornalismo contribuir, com relevância, com a sociedade. Às vezes isso passa pela conscientização de que, mesmo sem querer, estamos agindo como apoiadores de causas, como críticos deste ou daquele político, ou que vemos como “realidade” aquilo que não passa de um recorte da nossa compreensão. Repito: isso pode ser inconsciente. E espero que o seja! Assim, temos alguma chance de recuperar a relevância do que fazemos na rotina das comunidades.

Podemos ajudar a traçar, através do jornalismo honesto, o ponto de virada para a retomada da convivência pacífica, do respeito mútuo e da integridade do ser humano.

Kevin Loker, diretor de pesquisa do API, considera essencial repensar o papel do jornalismo na vida das pessoas. “Se não mostrarmos uma abertura para a autorreflexão e mudança quando as críticas forem justas, nosso trabalho pode ser descartado como um empreendimento partidário ou monocultural. E quando isso acontece, perdemos o público.”

O vácuo deixado pelo público nos relatórios de audiência não prejudica apenas o desempenho financeiro das empresas de mídia. Não coloca em risco apenas nossos empregos. Ele gera um outro vácuo, dessa vez, na engrenagem social. Sem fontes confiáveis de informação, dignas do respeito da população e de legitimidade editorial, abre-se uma lacuna de civilidade, pronta para ser preenchida pelo caos, pela intolerância e pela selvageria humana.

Em 2016, ao perceber que a política fraturava relações humanas, um grupo de jornalistas norte-americanas criou o projeto Spaceship Media, com o objetivo de auxiliar cidadãos com opiniões opostas a dialogarem outra vez. As jornalistas atuam em parceria com veículos locais na identificação de temas antagônicos em uma determinada comunidade: da instalação de uma indústria a políticas migratórias, do armamento da população ao preconceito racial. Uma vez que são mapeados simpatizantes de diferentes “lados” da polêmica, o Spaceship Media pesquisa e fornece estudos, notícias, relatórios sobre o caso para preparar os participantes para um encontro presencial.

Com a moderação de jornalistas, os grupos antagônicos se reúnem em espaços comunitários – escolas, igrejas, bibliotecas públicas – e seguem um roteiro de quatro perguntas feitas mutuamente:

  1. O que você acha que o outro grupo pensa sobre você?
  2. O que você pensa sobre o outro grupo?
  3. O que você deseja que o grupo oposto saiba sobre você?
  4. O que você deseja saber sobre o outro grupo?

Com criatividade e fazendo um jornalismo honesto, podemos ajudar a traçar o ponto de virada para a retomada da convivência pacífica, da capacidade de escuta, do respeito mútuo e da integridade do ser humano. E podemos começar já, servindo como exemplo.

Toda a vez que surge um novo veículo de jornalismo, dois fenômenos acompanham o lançamento:

  • a promessa de que este veículo vai revolucionar o mercado de mídia;
  • a sensação de que isso não passa de mais um embuste.

Com a recém-lançada “Semafor” – que iniciou as operações hoje –  não é diferente. Em março deste ano li na Axios sobre uma nova publicação em gestação por dois grandes nomes da mídia norte-americana: Justin Smith (ex-chefe da Bloomberg Media) e Ben Smith (ex-colunista de mídia do New York Times e ex-editor-chefe do Buzzfeed News). Alguns investidores achavam o projeto “muito vago” e fugiam dele. No entanto, foram necessários apenas quatro meses para a história mudar.

O então chamado Project Coda prometia ser um produto jornalístico de elite, disposto a preparar o terreno para uma cobertura intensiva das eleições presidenciais de 2024, além de ter verticais de tecnologia, finanças, clima, segurança internacional e mídia. Mas o carro-chefe já estava decidido e seria mesmo a política norte-americana.

A movimentação dos Smith chamou a atenção do mercado não apenas pela audácia – e astúcia – de criar um veículo jornalístico em meio à profunda crise que o setor enfrenta. A dupla andava passando o chapéu entre milionários do setor, como Jessica Lessin, fundadora do icônico The Information, David Bradley, presidente emérito da The Atlantic, John Thornton, cofundador do Texas Tribune e do bilionário de criptomoedas Sam Bankman-Fried. E não é que deu certo?

Em pouco tempo, os fundadores da Semafor levantaram US$ 25 milhões para dar vida à publicação. A escolha por investidores particulares ao invés de empresas de capitais de risco foi proposital, para garantir mais segurança ao novo veículo, que não sofrerá tanta pressão para dar retorno imediato. As fontes de receita da Semafor, por enquanto, estão previstas para repetir os velhos modelos de publicidade, assinaturas (no futuro) e eventos presenciais.

Por outro lado, a Semafor surpreende por detalhes inovadores de sua proposta editorial.

Jornalistas na linha de frente

O nome do autor de cada matéria aparecerá quase com o mesmo destaque visual do que o título do conteúdo. A proposta enfrenta um tabu na indústria da mídia, em que profissionais têm uma opinião dividida entre preservar suas identidades e brilharem mais do que o veículo a ponto de concorrerem com ele nas redes sociais.

Na Semafor, a intenção é estimular que o público mantenha contato com o jornalista, que será incentivado a atuar em redes sociais e construir comunidades. Para o lançamento, a publicação conta com 30 jornalistas alocados em Londres, Nova York, Washington, com planos de expansão para a África ou o Oriente Médio.

Dependendo dos talentos editoriais que a Semafor conseguir fisgar do mercado, novos verticais poderão surgir, respeitando as especialidades de dedicação de cada jornalista.

Remuneração diferenciada

O protagonismo da redação promete ser um diferencial significativo da publicação. A empresa declarou que garantirá aos jornalistas o recebimento de “toda ou da maior parte” da receita proveniente de suas propriedades intelectuais, como contratos de livros ou direitos de filmes.

Será hora de revermos nossa CCDA?

Notícia de um lado, opinião do outro

O design do site colocará ênfase na divisão clara entre seções de relatos factuais e espaços opinativos. A meta é que não haja qualquer traço de opinião fora da seção de opinião (ou de análises dos repórteres). Noutro espaço estarão as informações factuais. A iniciativa é uma forma de reagir à mistura de informação e opinião que os Smith dizem ser praticada sem constrangimento por muitos veículos da atualidade.

O que esperar da Semafor?

Como uma startup de notícias nativa digital, a Semafor quer conquistar o mundo – ao menos a parte anglófona. A exemplo de Buzzfeed, Quartz, Vice e do moribundo Huffington Post, a Semafor pretende alcançar uma audiência global. E a escolha do nome reflete esta ambição: a palavra é uma variação de “semaphore” que, no inglês, significa um sistema de sinalização náutica. Sim, ela é um falso cognato ao português: semáforo, em inglês, é traffic lights. Mas o campo semântico é o mesmo.

E o que “semaphore” tem a ver com audiência global. É que a palavra tem uma grafia, uma sonoridade e uma denotação semelhantes em cerca de 30 idiomas, segundo Justin Smith.

Por enquanto, o domínio ainda está ocupado com um warm up convidando o público a deixar o e-mail. Mas um evento reunindo os fundadores e alguns jornalistas da redação e de outros veículos já aconteceu neste dia 7 de julho, para marcar o lançamento da publicação. Houve transmissão ao vivo e ficou gravado no YouTube. O tema é providencial: Sinais e Ruídos – Polarização e Confiança nas Notícias.