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João Arantes Payne

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Jornalista, Mestre em Ciência Política. Editor do Orbis Media Review e Professor do Master: Núcleo de Negócios de Mídia.

Desde que o primeiro turno das eleições presidenciais foi concluído, os erros dos institutos de pesquisa se tornaram assunto de amplo debate. Mesmo agora, que o pleito de 2022 terminou, o tema dificilmente se esvairá tão cedo – e não sem razão. Tanto ao cargo de presidente, quanto nas disputas pelos governos estaduais e vagas ao Senado, a verdade é que a maior parte dos institutos erraram drasticamente. Não é de hoje que eleitores buscam dar um voto útil e estratégico a um ou outro candidato – favorecendo-o não por uma preferência em si, mas por uma rejeição maior ao seu opositor. Neste sentido, pesquisas eleitorais sempre interferem na realidade. No caso mais recente, no entanto, esta interferência é ainda mais grave, uma vez que as eleições não foram influenciadas por uma leitura correta da realidade, e sim distorcidas em função dos erros graves cometidos pelos institutos de pesquisa.

Entender como determinadas ações impactam no mundo real é uma discussão fundamental para jornalistas, e há quem diga que a missão de ser imparcial existe justamente para que os profissionais da área apenas reportem os acontecimentos e influenciem o mínimo possível na realidade.

Entretanto, o fato é que não há um consenso sobre a função do jornalismo. Para alguns, este mercado existe para prover a população com informações relevantes, mas também para investigar temas de interesse público. De um outro lado mais filosófico, argumenta-se que o jornalismo exerce a função de situar as pessoas na realidade. Essa é a hipótese lançada por Robert Park, para quem “a função da notícia é orientar o homem e a sociedade em um mundo real”.

Em concreto, isso significa que nossa realidade é limitada a um âmbito curto, protagonizado por familiares e amigos, localizado em ambientes como trabalho, a escola, a faculdade… Desta forma, sem a existência das notícias, dificilmente daríamos conta do que acontece fora do nosso círculo de convívio cotidiano. O noticiário, assim, nos joga em outras realidades, que frequentemente envolve aquilo que é inusitado tanto negativamente quanto positivamente.

Uma das conclusões é que publicar aquilo que foge da normalidade é, por assim dizer, o normal do jornalismo. Não falamos que o fulano foi trabalhar normalmente na segunda-feira de manhã, mas podemos publicar que, a caminho do trabalho, o ciclano sofreu um determinado acidente ou foi vítima de violência. Este é um comportamento padrão da profissão, e faz sentido. O problema é quando tratamos de alguns fatos atípicos com tanta regularidade que o excepcional passa a ser interpretado como algo corriqueiro.

Exemplo: se os jornais reportam exaustivamente casos de violência à mão armada – como sequestros e homicídios -, boa parte dos leitores pode começar a superdimensionar, com o tempo, a própria existência e o uso das armas de fogo na sociedade. Este exemplo é mais presente nos Estados Unidos, onde armamentos são comercializados com mais facilidade e o debate público sobre o uso delas é corriqueiro. Em termos de percepção, a consequência é que o público acredita que o número de americanos que possuem uma arma de fogo é muito maior que na realidade. Este fenômeno foi observado pelo instituto de pesquisa YouGov. Segundo ele, 32% da população possui uma arma de fogo, mas o público, quando questionado sobre o assunto, respondeu em média que 54% dos americanos possuem uma.

Ou seja, o que o YouGov percebeu é que existe um abismo entre a percepção que os americanos têm da realidade e a realidade em si. O caso das armas de fogo é apenas um dos objetos apresentados pela pesquisa, mas há ainda muitos outros grupos da sociedade que são superdimensionados ou subestimados pela população. Pessoas filiadas a sindicatos, por exemplo, compõem 4% da população, enquanto as pessoas entrevistadas pela pesquisa estimaram, em média, que o número real é de 36%.

Esta discrepância também é perceptível em relação a grupos étnicos e identitários. Na opinião daqueles que participaram da pesquisa, 41% da população é negra e 39% têm origem hispânica. Os números reais, entretanto, são de 12% e 17% respectivamente. Os entrevistados também estimaram que transexuais respondem por 21% da população, enquanto muçulmanos e indígenas correspondem, individualmente, a 27% da sociedade. A realidade é que cada um deles equivale a apenas 1% da população. Gays e lésbicas, por sua vez, constituem 3% do país, mas os americanos acreditam que são 30%. Já ateus respondem por 3% da sociedade – número muito inferior aos 33% que os americanos acreditam existir.

Da mesma forma como existe uma super-representação em relação a tais grupos, o contrário acontece com outras parcelas da sociedade. Setenta por cento da população se declara cristã, por exemplo, enquanto os americanos acreditam que o número correto é 58%. Há outros dados em relação à renda, escolaridade e hábitos gerais que revelam uma grande discrepância entre o que os americanos enxergam como a realidade social do país e como ela é de fato.

É importante dizer que estes dados dizem respeito aos EUA apenas e que, em momento algum, o YouGov aponta o jornalismo como responsável pela desconexão entre realidade e percepção da realidade. Na verdade, muitos fatores podem explicar este fenômeno, incluindo a própria política, que também acaba por pautar a discussão pública através dos temas que traz para debate. Portanto, a regularidade com que determinados assuntos são abordados influencia na percepção que temos do mundo ao nosso redor. É justamente neste sentido que o jornalismo também pode estar contribuindo para o agravamento do fenômeno.

 

Moldando a realidade com fatos e como isto influencia o leitor

Nos últimos anos, poucos temas foram mais discutidos pelos jornais do que as fake news. O quase consenso que se formou entre profissionais da área é que notícias enganosas ou simplesmente falsas têm de ser combatidas – embora a forma de combatê-las ainda seja discutida. Entretanto, mesmo que informações propositalmente falsas sejam um problema evidente, é preciso reconhecer que há mais de uma forma de gerar uma percepção distorcida da realidade. Neste sentido, até fatos podem se tornar enganosos quando não são tratados na devida proporção ou sem o contexto necessário.

Inúmeros fatos noticiosos ocorrem todos os dias, e cabe aos jornalistas decidir quais deles realmente serão veiculados. Aquilo que resolvemos destacar, desta forma, se torna a realidade visível, o que é muito diferente da realidade em si ou em sua totalidade. Isso ocorre e influencia a percepção que o público tem do seu ambiente de convívio mesmo que o jornalista dê destaque a determinados acontecimentos sem um alto grau de enviesamento ideológico. Quem controla a linguagem e aquilo que é dito é capaz de moldar não apenas a opinião pública, mas talvez ainda mais fundamental, a percepção que temos do mundo a nossa volta.

Se assumirmos que os dados americanos sobre realidade e percepção de realidade podem se estender a outros países, então fica muito claro que a sociedade – ou parte dela – não está sendo adequadamente informada.

O desengajamento do público com as empresas de mídia tradicionais já é uma dura realidade. Portanto, para além de ser um dever ético da profissão buscar sempre um alto grau de isenção e um compromisso total com a verdade, a própria moderação na escolha de pautas e abordagem das matérias é, também, uma questão de sobrevivência dos jornais tal qual os conhecemos. É verdade que a perda de receitas provenientes da publicidade foi um duro golpe para as empresas. Outros modelos de negócios, no entanto, existem – mas só podem ser implementados com sucesso se os leitores continuarem engajados com os veículos. Para que isso aconteça, é necessário produzir um conteúdo que dialogue com os valores, ideias e necessidades da população. Igualmente, é preciso que as pessoas consigam relacionar as informações publicadas com a realidade na qual estão inseridas. Caso contrário, corremos um sério risco de perder relevância ao falar de temas e assuntos com os quais poucos conseguem se identificar, além de permitir que a tendência de migração da audiência para outras fontes de informação continue em crescimento.

Uma das obras-primas de Dostoiévski, o livro Os Irmãos Karamázov é repleto de personagens marcantes e memoráveis. O caçula Aliócha é um jovem simples, humilde e inocente; Dmitri, o mais velho dos três, é um homem apaixonado, beberrão e emocionalmente instável; Ivan, o irmão do meio, é um homem da razão, cético e descrente da existência de Deus. Assim, estas personalidades vão se intercalando ao longo de uma trama que possui seus momentos de beleza, mas também é marcada por conflitos e violência.

A visão de heróis infalíveis e vilões fundamentalmente perversos não faz parte das obras do russo. Não se vê, em Dostoiévski, um homem puramente bom ou puramente mau, e sim um homem completo, contraditório e falho, capaz de atos de bondade mas também vulnerável à maldade. Como poucos autores, ele nos apresenta as incontáveis nuances típicas da personalidade humana em cada um de seus personagens.

Ivan tem uma crença que move trama: se Deus não existe, pensa ele, e a imortalidade da alma é apenas ficção, então todos os atos são moralmente permitidos. Há uma lógica por trás do argumento, mas também uma consequência terrível: seu pai, Fiódor, é assassinado pelo criado – e possível filho bastardo – que aprende, justamente com Ivan, que tudo é permitido se Deus de fato não existe.

Em conflito com aquilo que diz sua razão e as consequências das ideias formuladas por ela, Ivan entra em um profundo delírio. Será que pode ter sido o culpado, mesmo que indiretamente, pelo assassinato do pai? Neste estado febril e alucinante, Ivan Karamázov se vê, de repente, sentado no sofá de sua casa conversando com um diabo que lhe diz muitas coisas e também faz uma confissão: está com reumatismo.

– “O diabo com reumatismo?”, questiona Ivan! Que absurdo seria esse?

Ora, e por que não, “se às vezes encarno”, responde o diabo. “Encarno, e então assumo as consequências”. “Satanás sou”, diz por fim, “e nada do que é humano me é estranho”.

Frase poderosa que permite refletir sobre nós mesmos e como nos portamos diante de nossos iguais.

Muito já foi dito sobre a nossa dificuldade de entrar em um diálogo minimamente civilizado com outras pessoas. A própria ideia de “cancelar” pessoas que não subscrevem a uma certa doutrina ideológica é um dos reflexos mais claros das tensões políticas, morais e culturais do presente. Não muitas décadas atrás, a direita conservadora era moralmente inflexível. Atualmente, a imposição de uma ortodoxia moral rígida tem sido característica da esquerda progressista, que observa tantos erros à sua volta, e busca cancelar tudo aquilo que não está em linha com sua pureza doutrinária, que nem mesmo o passado escapa da inquisição moderna.

Vale, portanto, algumas perguntas sobre os atuais grupos políticos: a imposição de uma doutrina moral é coisa da direita ou da esquerda? Indo além, a ambição pelo poder é própria dos conservadores ou dos progressistas? Quem faz a guerra em nome de ideais, os liberais ou os socialistas? A qual destes grupos pertence a ganância e a corrupção?

Dostoiévski deu a resposta: a nenhum deles. O problema da corrupção moral, da ambição, de todas as falhas em geral não pertence a grupo algum, mas sim aos homens como um todo. Nada do que é humano é estranho ao diabo que conversa com Ivan Karamázov, justamente porque ele conhece todas aquelas falhas que nos são comuns.

Assim, qualquer ideia de cancelamento ao oposto é totalmente ilógica e anti-humana. Cancelar quem pensa errado – como se isso fosse fácil definir – só é possível a partir do entendimento de que o cancelador possui e pratica uma moral definitiva e pura, razão pela qual tem a competência de eliminar da vida pública todos aqueles que incorrem em “falhas”.

Por muito tempo, o mundo das artes e da academia se acostumou a abraçar as mais modernas e disruptivas ideias sobre sexo, identidade e valores morais – exigindo que incontáveis pessoas também as aceitassem sem muita reclamação. Isso, por certo, não funcionou tão bem, e explica o alto grau de polarização presente no Brasil e em todo o ocidente.

Se for possível definir o ambiente político e social dos últimos anos em uma única palavra, esta palavra seria “acusatório”. Sem dúvida, não há escassez deste recurso na praça pública atual. Ademais, todo este clima de denúncia e cancelamento é facilitado por uma gama de palavras que surgem com incrível facilidade para mostrar como o seu inimigo é, realmente, um monstro que precisa ser destruído. E ainda assim, todo este clima é frágil, pois tem como base uma ideia de bem e mal que simplesmente não é compatível com o humano.

O jornalismo também foi afetado por esta tensão cultural. Atualmente, é possível encontrar, em muitas matérias publicadas, os mesmos valores e o mesmo tom de acusação típico das militâncias políticas. Este elemento é responsável pela profunda crise de credibilidade dos veículos. Afinal, o absolutismo moral da agenda identitária isola e condena incontáveis leitores. Pior, cria uma onda de pessoas desconfiadas do noticiário como um todo, ainda que não inteiramente sem razão. Em qualquer indústria, o cliente não é culpado quando deixa de comprar um produto que não lhe faz mais sentido. No jornalismo, ele é frequentemente criticado, como se fosse obrigado a consumir o conteúdo cegamente e aceitar as ideias ali disseminadas.

Certamente, esta é uma péssima receita para se engajar com o público. Felizmente, há uma saída que passa pela compreensão do humano em sua totalidade. Os leitores podem estar frequentemente equivocados, mas é preciso entender estes equívocos e sentimentos de revolta ou de indignação, como algo natural. Isso, por sua vez, inclui o reconhecimento de que, como jornalistas, somos tão falhos quanto qualquer outra pessoa. Por mais confortável que seja abraçar todas as bandeiras politicamente corretas – que se tornaram sinônimo simplório do “bem”, como frequentemente temos feito – nossas posturas não necessariamente estão corretas e as matérias que publicamos dificilmente contêm verdades absolutas.

Clássicos se tornam clássicos por falarem sobre questões universais e atemporais. Se obras escritas séculos atrás continuam sendo lidas atualmente, é porque elas dialogam conosco de diferentes formas. Dostoiévski, por exemplo, nos apresenta, como poucos, a personalidade humana – por vezes a beleza, por vezes o horror; nosso lado bom e nossos mais terríveis traços. Algumas destas descrições por vezes chocam, mas também capturam aquilo que o homem é: um ser capaz de fazer o bem, mas também capaz de causar o mal. O risco destas considerações é cair na abstração, transferindo e terceirizando para um ser humano vago, todas estas falhas que são próprias a cada um de nós.

Abraçar causas que julgamos justas pode ser algo louvável. Os próprios jornais também podem assumir posições, de forma honesta e transparente. Entretanto, difamar e jogar em descrédito quem quer que assuma uma posição contrária às ideias políticas e aos valores morais que surgem a cada novo instante, como frequentemente tem sido feito, é ignorar nossas limitações e a possibilidade de estarmos errados. Se jornalistas têm como objetivo se relacionar com o público por meio da informação, eles precisam praticar um mínimo de compreensão. E isso, por si só, exclui a imposição de doutrinas políticas e valores ideológicos diversos que, mesmo em nome do bem, só tirariam risadas sarcásticas do diabo de Ivan.

Todo mercado está sujeito a disrupções que levam até as maiores empresas a serem afetadas por novos concorrentes. A evolução e a migração de diversas atividades para os meios digitais afetou incontáveis indústrias. Com o setor bancário, isso não foi diferente. O Nubank, por exemplo, foi uma das primeiras empresas a se utilizar dos benefícios do universo online para oferecer produtos que ainda não faziam parte do pacote dos bancos tradicionais. Há não muito tempo, escrever sobre um banco sem agência, que oferece uma conta sem anuidade e possibilita todo tipo de transação cotidiana do conforto de casa, poderia ser confundido com uma propaganda qualquer. Hoje não passa de uma banalidade.

É possível dizer, com facilidade, que as fintechs mudaram o mercado. Atualmente, os bancos tradicionais oferecem produtos e serviços que foram criados por empresas que entraram no mercado há não mais de uma década. Embora este movimento tenha ocorrido, há algumas iniciativas que merecem ser observadas.

Em primeiro lugar, é importante perceber que a oferta de produtos e serviços criados pelas fintechs não é fácil, sobretudo porque os bancos tradicionais dificilmente conseguirão fechar todas as agências que possuem no país e que ainda atendem uma parcela da população que não se sente segura com bancos 100% digitais. Assim como as empresas de mídia, os bancos tradicionais também possuem seus próprios processos que não podem ser eliminados ou alterados de um dia para o outro com simplicidade. Tornar uma empresa tradicional em uma empresa inovadora é difícil em qualquer mercado.

Para lidar com estes desafios, muitos bancos fizeram um movimento alternativo e complementar. Exemplos como o Iti (do Itaú) e Woop (da Sicredi) ilustram bem a situação, que pode ser resumida da seguinte maneira: ao invés de fazer um Titanic navegar em velocidade acima de suas capacidades, alguns bancos optaram por lançar ao mar uma lancha capaz de competir com as mais rápidas do mercado. Em suma, buscaram manter sua estrutura original ao mesmo tempo em que lançam um novo produto para competir com as fintechs.

Este mesmo exemplo pode servir de inspiração para as empresas de mídia. Tanto no Orbis quanto no Master, falamos constantemente de inovação. O mercado está há anos passando por profundas mudanças e os produtos oferecidos, os modelos de negócios criados e a relação que sempre tivemos com a audiência não fazem mais sentido e não dão o mesmo retorno que no passado.

Atualmente, os jornais e publicações de maior sucesso encontraram diferenciais que fogem do padrão que conhecíamos, onde o conteúdo genérico expandia a circulação e garantia uma fonte maior de receita publicitária para pagar a operação. O modelo de assinatura é uma alternativa, embora não seja a única. Jornais como o espanhol El Diário apostam no membership, onde os usuários contribuem voluntariamente para ler os artigos que não são fechados atrás de um paywall. Para isso, no entanto, também precisam garantir um conteúdo diferenciado que gere uma maior identificação do leitor com o jornal e justifique o aporte financeiro.

Para as empresas tradicionais acostumadas com o conteúdo generalista, esta mudança de rota não é fácil. Mas quem disse que o jornal como um todo precisa se transformar em uma startup? Como mostram os bancos, a startup pode ser uma iniciativa complementar à empresa tradicional. A inovação no mercado de mídia já está acontecendo. A questão que fica em aberto para os jornais tradicionais é como melhor se posicionar para fazer parte deste processo.

Há alguns riscos, é certo, em adotar esta estratégia complementar. Em primeiro lugar, apostar em uma nova inciativa, por menor que seja, significa retirar recursos da operação principal em um momento em que boa parte das empresas de mídia já não está com muita margem de manobra. Também é possível pensar em um cenário em que as fintechs lançadas pelos bancos e as eventuais startups criadas pelos jornais acabem canibalizando as próprias empresas que as originaram.

Por mais reais que estes riscos sejam, alguns fatos são inegáveis. Existe uma crise de modelo de negócio e uma exaustão do conteúdo editorial que sempre oferecemos aos leitores. Manobrar mais rápido que o Titanic fez quando finalmente viu o perigo à frente é uma necessidade concreta. Talvez a melhor forma de fazer isto seja com uma nova iniciativa, mais ágil e mais inovadora. Se ela eventualmente começar a concorrer com a empresa que lhe criou, então coloco um último argumento: dada a situação atual, é melhor ser canibalizado por um produto interno do que ser devorado por agentes externos.

Por que o jornalismo surgiu? Esta pergunta foi feita a profissionais da área em uma postagem recente da nossa editora Ana Brambilla no LinkedIn. Sem pretender fazer uma ampla pesquisa e dar uma resposta definitiva à questão – se é que isto é possível –, optei, ao contrário, por lançar uma hipótese: será que o jornalismo não surgiu da necessidade que determinadas pessoas tinham de se posicionarem politicamente e fazer com que suas vozes fossem ouvidas? Caso esta suposição se sustente, então temos de assumir que há mais no jornalismo do que apenas a missão de informar. É certo que desta conclusão surge uma outra pergunta: escrever para defender uma causa é jornalismo? Talvez não seja jornalismo moderno e profissional, mas não seria uma forma de jornalismo ainda assim?

Daniel Hallin, doutor em ciência política e professor de comunicação da Universidade da Califórnia, por exemplo, é claro em afirmar que o “jornal do início do século XIX era uma instituição francamente política, normalmente financiada por um partido ou por um político”. Além disso, os jornais também abraçavam causas sem muito constrangimento. É provável que em nenhum momento da história americana isso tenha sido mais verdadeiro do que durante as décadas da Revolução em que os EUA lutaram contra a Inglaterra. Uma das consequências deste período, segundo o professor Robert Parkinson, foi um aumento considerável no número de jornais, que quadruplicaram do início dos anos 1760 até o fim daquele século. Mas esta não foi a única e nem a mais importante consequência causada pela ebulição política e social pela qual os Estados Unidos passaram no período:

“O engajamento político também levou os jornais a se afastarem das tentativas tradicionais presentes no início do século de deixar suas colunas abertas para ambos os lados dos debates. Depois de aprovada a Lei do Selo (pelo Parlamento inglês em 1765) – seja por inclinações políticas pessoais ou porque acharam que isso se adequaria melhor ao seu nicho de mercado -, os profissionais da área começaram a abandonar o ideal de neutralidade para abraçar ou rejeitar a resistência colonial à reforma imperial britânica”. (Robert Parkinson)

Desta forma, as circunstâncias políticas do país acabaram por moldar o estilo editorial, por assim dizer, dos impressos que circulavam na época. Alguns aderiram à luta revolucionária, “abrindo suas oficinas para encontros políticos ou publicando uma grande variedade de artigos e ensaios que suportavam a causa”. Muitos destes tornaram-se até mesmo membros dos Filhos da Liberdade – grupo que lutou em defesa dos colonos e organizou a Festa do Chá de Boston em protesto contra a Inglaterra. Outros, por sua vez, se mantiveram leais à Coroa e abriram seus jornais para que fossem publicados textos criticando os esforços dos revolucionários americanos. Neutralidade, se havia anteriormente, deixara então de existir.

Esta história é contada de forma mais criativa por Antonio García Martínez na revista americana Wired, ao considerar que uma versão ressuscitada de Benjamin Franklin “não teria um emprego no The Washington Post. Ao contrário, se ele fosse transportado para os dias atuais, provavelmente “teria uma conta anônima no Twitter com muitos seguidores, a qual usaria para rotineiramente trolar oponentes políticos”. Assim como Franklin, Samuel Adams – primo de John Adams – também escreveu sob diversos pseudônimos e não parecia considerar a imparcialidade um valor muito importante.

Isso leva a uma questão importante: o estilo de jornalismo imparcial e objetivo que passamos a conhecer é frequentemente invocado como um elemento essencial para a manutenção da democracia. No entanto, como conciliar este pensamento com o fato histórico de que a maior democracia do planeta foi consolidada em uma época de partidarismo declarado por parte dos jornais?

Ao contrário, o que parece ser verdade é que a democracia depende de muitos outros pilares para se sustentar e, embora jornais cumpram uma função substancial em uma sociedade livre e aberta, a imparcialidade não garante que a democracia permaneça viva e nem assegura a qualidade da reportagem.

Por outro lado, é certo que o jornalismo evoluiu desde aquele século de revoluções. A profissionalização da atividade (e a mudança nos modelos de geração de receita) fez com que os jornalistas mudassem suas práticas. Se antes os jornais eram claramente financiados por partidos políticos, eles passaram a lucrar principalmente com a publicidade após meados do século XIX, quando a Guerra Civil entre os estados do norte e os escravagistas do sul chegou ao fim.

Para que este modelo de negócios fizesse sentido, no entanto, era necessário mudar a proposta editorial. Um tom partidarista invariavelmente iria limitar o alcance da circulação, resultando na redução dos lucros obtidos com a publicidade. O conteúdo generalista e imparcial surge, então, como o produto mais adequado para as demandas financeiras das publicações.

Para que a sociedade precisa de jornais AGORA?

Vê-se que todas as propostas editoriais – partidárias ou generalistas – tornaram-se norma a depender das circunstâncias do momento. Conclusão esta que gera uma pergunta capital: quais são as demandas exigidas pelas circunstâncias atuais?

O financiamento partidário não retomou a popularidade que uma vez teve nos EUA. Embora muitos jornais brasileiros se acostumaram a receber verbas públicas, obter recursos de um partido específico destruiria todas as pretensões de isenção cultivadas pelos veículos tradicionais. Ainda assim, o modelo de negócios está inegavelmente passando por uma transição. Uma vez que a verba publicitária não tem mais como destino principal o bolso das empresas de mídia, a aposta tem sido na obtenção de recursos diretamente do leitor. Menos publicidade e mais assinaturas ainda é um modelo difícil de ser implementado, mas é o que garante maior estabilidade aos veículos que souberam adotá-lo com sucesso.

Um ponto que merece destaque, no entanto, é que o modelo de assinaturas dificilmente irá vingar para uma empresa de mídia se não estiver amparado e sustentado por uma proposta editorial adequada. O conteúdo neutro e generalista dificilmente será suficientemente necessário na vida do leitor ocasional para que ele comprometa parte de sua verba mensal com mais uma assinatura. Para isto, o jornal terá de encontrar uma forma de se diferenciar da concorrência – e no meio digital, ele está competindo não apenas com outros jornais, mas com plataformas de streaming e com todo o barulho gerado pelas redes sociais.

Falar para um dos muitos grupos engajados no debate político é uma alternativa, mas adotar um tom militante não é necessário – e nem necessariamente uma boa solução – para que os veículos consigam se engajar de forma mais profunda com os leitores. Exemplos como o site The Information, voltado ao setor da tecnologia, livre de anúncios e centrado no leitor, mostram que o conteúdo de nicho é uma boa alternativa. Para os veículos tradicionais que se acostumaram a publicar assuntos diversos, há ainda outros caminhos. Recentemente analisamos, aqui no Orbis, o exemplo da revista inglesa The Spectator, que não abdicou de falar sobre política e atualidades para oferecer um diferencial para o leitor. No caso, a publicação se propõe a escrever conteúdo analítico de excelência, sem separar a reportagem da opinião. Por este motivo, seus autores – não necessariamente jornalistas – se abstêm de qualquer pretensão de imparcialidade.

Ambos os casos são bons exemplos para os veículos tradicionais que ainda lutam para sobreviver nos tempos atuais e dentro de circunstâncias diferentes sob as quais prosperaram. Se posicionar parece ser cada vez mais uma necessidade, embora posicionamento nem sempre seja sinônimo de militância simplória que tem como fim último a causa política e não o cuidado com o leitor.

Além da mera imparcialidade, jornalismo também é ética e compromisso com a verdade. Nenhum destes dois critérios são incompatíveis com as demandas atuais por maior posicionamento e maior engajamento com parcelas específicas do público. Os dilemas editoriais e de negócios, em tempos de disrupção mercadológica, são sempre difíceis, embora fascinantes.

Do jornalismo posicionado que se consolidou durante a Revolução Americana, ao jornalismo personalista dos anos 1900, até o profissionalismo da atividade tal qual conhecemos hoje, o fato é que o setor está em constante evolução. Martínez acredita que o jornalismo não está morrendo, e sim voltando às suas raízes – isto é, ao estilo de parcialidade que marcou o século dezoito. A percepção pode bem ser verdade, mas não em sua totalidade. As demandas do público e os modelos de negócios, realmente, parecem favorecer um grau de posicionamento maior do que o existente na época em que a publicidade gerava renda, a neutralidade imperava e os jornais monopolizavam a comunicação social. Para os veículos que construíram longamente sua credibilidade baseada nestes critérios, no entanto, a parcialidade imprudente pode ser um suicídio. Já a declaração de valores e a transparência com o leitor, aliadas à ética de compromisso com a verdade e independência política que marcou a profissionalização da atividade, podem ser uma saída à crise editorial do presente momento. É uma solução certeira? Não. Mas ainda assim, é uma trilha melhor do que aquela que se desfaz sob nossos pés.

O Brasil possui um grande histórico de jornais e publicações que moldaram o país como ele é hoje. Atualmente, no entanto, o setor encontra dificuldades para se sustentar e sofre uma crise de relevância. Os dados do último estudo do Reuters Institute sobre a mídia, destrinchados recentemente pela nossa editora Ana Brambilla, não deixa dúvidas:  pouco menos da metade da população confia no noticiário. É verdade que os dados são ruins no mundo todo. É verdade, também, que o setor enfrenta uma delicada situação financeira no Brasil e no exterior. Poucos veículos são poupados. Os que conseguem nadar enquanto muitos se afogam, no entanto, merecem ser estudados com cuidado, uma vez que conseguem publicar conteúdo relevante e diferenciado, manter os leitores engajados e garantir um bom balanço financeiro.

Talvez um dos elementos que mais faltem para as empresas jornalísticas retomarem uma maior relevância perante o público e obterem maior retorno financeiro, seja criatividade. É comum ouvirmos dos profissionais da mídia que se uma ideia não foi ainda testada por outros jornais, então não vale a pena implementá-la em seu próprio veículo; é arriscado demais. O risco, no entanto, é inerente a toda inovação. E inovação, por sua vez, nunca foi tão necessária.

 

O sucesso da revista The Spectator:

A inglesa The Spectator é a revista semanal mais antiga do mundo – ou isso é o que argumentam de forma bastante convincente. Publicada ininterruptamente desde 1828 – se aproximando do seu aniversário de 200 anos, portanto –, ela se especializa na cobertura de política, cultura e atualidades. Seu diferencial está na linha editorial, no formato de publicação, no design gráfico e no modelo de negócios.

Para se diferenciar da competição e atrair o leitor, a Spectator adota uma linha editorial clara e bem definida. “Nossos escritores não têm posição partidária; sua única lealdade é com a clareza de pensamentos, elegância de expressão e independência de opinião. Nossos escritores têm posições que variam da esquerda para a direita (…) Nenhum tem qualquer pretensão de ser imparcial”, afirmam. A colocação, a princípio, faz crer que a revista busca um certo grau de neutralidade ao afirmar que possui escritores nos dois lados do espectro político. Embora isto seja verdade, o diferencial está nas matérias em si. Nenhuma delas apresenta os dois lados da história e os escritores – a maioria não é repórter – não colocam aspas nas matérias que assinam. Citar especialistas é algo incomum na Spectator pois seus escritores são qualificados o suficiente – frequentemente mais do que o suficiente – para analisar e interpretar os acontecimentos e fatos por si só. Assim, um destaque da revista é que não há divisão entre a reportagem e a opinião. Ambas compõem uma mesma matéria.

Algumas capas marcantes da Spectator: da esquerda para a direita, as publicações abordam a invasão de Putin à Ucrânia, a edição 10.000 da revista (representando todas as gerações de leitores que tiveram) e a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA.

De forma semelhante, os escritores da revista não possuem o hábito de citar discursos políticos recentes de forma meramente informativa. Quando o fazem, é sempre para emitir uma opinião ou comentário sobre uma respectiva fala. Isso, no entanto, não significa que a revista se recuse a dar voz a políticos – muito pelo contrário. A recente renúncia de Boris Johnson ao cargo de Primeiro-Ministro abriu as portas para que diversos membros do Partido Conservador se lançassem candidatos para substitui-lo em Downing Street (até que haja novas eleições, o Partido Conservador continua tendo maioria no parlamento e, portanto, o direito de governar o país). Ao invés de publicar matérias com citações pontuais dos novos proponentes ao cargo, a revista optou por apresentar, na íntegra, os discursos políticos de ex-membros do gabinete de Johnson, como Rishi Sunak e Tom Tugendhat, que se candidataram a ocupar sua cadeira. Seguindo esta abordagem, a revista também traduziu e publicou integralmente o discurso feito por Vladimir Putin no início do ano em que anunciava suas justificativas para invadir a Ucrânia. Desta forma, a revista remove o papel exercido pelo jornalista de intermediário entre o discurso político e o leitor. Além disso, ela também garante que importantes pronunciamentos sejam lidos por completo, sem o risco de enquadramentos que frequentemente descontextualizam importantes mensagens.

Todos estes elementos propiciam uma forte identidade à revista (e identidade é o seu principal motor para garantir leitores e receita).

 

Charges, caricaturas e chocolates

Não é propriamente uma novidade, mas vale reforçar a importante conexão entre um produto e sua embalagem. Esta relação pode ser observada em todos os setores do mercado e não é menos verdade no setor da mídia. Produtos jornalísticos, assim como qualquer outra mercadoria, também precisam conectar sua identidade visual com aquilo que pretendem vender. No caso da Spectator, esta conexão é profunda, clara e muito bem explorada.

O visual diferenciado se nota rapidamente. As capas da revista nunca estampam fotografias, por exemplo. Ao contrário, o artigo principal é sempre destacado por uma expressiva ilustração. O estilo artístico também está presente nas matérias do site e nas páginas impressas, com diversas charges irônicas sobre temas atuais. Este visual se mostra presente até mesmo entre os autores dos artigos e análises, que ganham destaque no início e no final dos textos e são representados não por uma fotografia, e sim por caricaturas.

Charges vendidas na loja online da Spectator (cada uma no valor de 95 libras, aproximadamente 600 reais).

Esta identidade visual própria também rende frutos financeiros, já que a revista não se intimida em vender produtos diretamente ao público – seja ele assinante ou não. Na loja online do site é possível encontrar diversos tipos de mercadoria (muitos deles altamente inconvencionais para um veículo de mídia): de chocolates embalados com caricaturas típicas a roupas de bebê com estampas da revista. As capas, assim como as charges que ilustram o site e as páginas do impresso, também são vendidas de forma avulsa por nada mais, nada menos, do que 95 libras (aproximadamente R$ 600,00). Caso o comprador queira dar ainda mais reconhecimento artístico às ilustrações, é possível adicionar uma moldura às capas ou charges por mais 30 libras (R$ 190,00).

Em novembro de 2021, seguindo uma publicação feita pelo colunista Jack Rivlin sobre NFTs (sigla para “tolkens não fungíveis” que tem sido, na expressão do próprio Rivlin, “a última fronteira dos maníacos das criptomoedas” que gastam somas altíssimas de dinheiro para comprar e vender “arte” digital), a Spectator entrou na brincadeira e resolveu leiloar uma das suas capas mais famosas como um tolken digital. Ao fim do leilão, a capa feita após o referendo do Brexit foi vendida por pouco menos de US$ 19,000 (R$ 104,000,00 pela cotação da época).

Capa leiloada pela Spectator como NFT. Na ocasião do Brexit, esta edição ficou conhecida no país por mostrar uma borboleta com as cores do Reino Unido saindo de uma caixa representada pelas cores da União Europeia. Na capa lê-se: “Fora, e para dentro do mundo”

Toda essa ampla gama de produtos que geram receita para a revista só é possível graças à sua identidade visual distinta. No entanto, a proposta gráfica também se conecta ao modelo editorial da Spectator, dando o tom do estilo de conteúdo que publicam: matérias bem elaboradas que analisam e interpretam a realidade, e não apenas a apresentam objetivamente. Assim, com publicações fortemente diferenciadas, a revista consegue ter 87% da receita vindo diretamente dos leitores segundo balanço divulgado pela empresa em agosto do ano passado.

Outro dado impressionante, é que a assinatura do produto exclusivamente digital é popular, mas a maior parte dos novos assinantes opta pelo pacote completo: impresso + digital pelo preço nada modesto de 18,99 libras ao mês (aproximadamente R$ 122,00). Dentre as revistas inglesas, a Economist continua reinando com uma tiragem média de 995 mil exemplares (embora apenas 163 mil deles circulem no Reino Unido). Já a Spectator tem uma tiragem média de 102 mil exemplares, dos quais 89 mil circulam no Reino Unido. Os números completos podem ser encontrados aqui. Talvez o que mais chame a atenção é que dentre as 10 revistas sobre atualidades com maior tiragem do país, apenas três reportaram um aumento na publicação em comparação com 2020. Enquanto a revista Private Eye e a BBC History Magazine aumentaram sua circulação em 1% e 3% respectivamente, a Spectator, excluindo sua edição “Austrália”, cresceu 13%. É, sem dúvida, um ponto fora de curva em um mercado que não tem prosperado nos últimos tempos.

Imagem tirada da Press Gazette

Além da revista impressa fazer sucesso, o site, recentemente redesenhado, vem permitindo que a Spectator publique matérias regularmente para atrair mais tráfego online. Em relatório publicado em agosto de 2021, a empresa anunciou ter tido 6,7 milhões de pageviews entre os meses de abril a junho daquele ano. Embora seja um número significativo, o próprio editor Fraser Nelson anuncia: “Nós não prestamos mais muita atenção em tráfego: nosso foco é recrutar e servir aos assinantes”. Isso representa uma mentalidade diferente da praticada por muitas empresas de mídia que migraram para o digital, mas continuam seguindo a lógica do impresso onde a ideia de expandir a circulação para obter mais dinheiro dos anunciantes ainda impera.

A realidade da imprensa, no entanto, nem sempre fora essa. Como explica Martínez no já citado artigo da Wired, o jornalismo nos EUA deixou de ser partidário quando “um mercado nacional para consumo de bens se abriu após a Guerra Civil Americana”. Foi nesta ocasião que os “fornecedores como lojas de departamento buscaram alcançar grandes públicos urbanos” e os jornais, por sua vez, “responderam aumentando o número de anúncios e mudaram para modelos que pegam leve no partidarismo político no interesse de expandir a circulação”.

A publicidade continua rendendo rios de dinheiro, mas nas mídias digitais, apenas uma pequena fração dessa enxurrada cai na conta dos jornais. Aquelas empresas que melhor se adaptaram aos novos tempos adotaram o modelo de assinatura. Mas qualquer modelo de negócios só rende frutos – e isso é especialmente verdadeiro no mercado jornalístico – se estiver alinhado com a proposta editorial.

Para converter os leitores ocasionais em assinantes, a Spectator luta constantemente para fortalecer sua identidade. Não há dúvidas de que o maior diferencial editorial da revista seja o seu conteúdo analítico, profundo e bem elaborado. É possível que isso, por si só, já restrinja o seu público e o seu potencial de conseguir uma audiência tão ampla quanto os jornais e portais generalistas. Mas é certo, também, que a revista é muito eficaz em conseguir a assinatura e a fidelidade da parcela dos leitores que ela se propõe a atingir com conteúdo analítico.

No relatório publicado em agosto de 2021 sobre os bons resultados obtidos pela revista, seu editor Fraser Nelson conclui escrevendo: “Nós estamos convidando nossos leitores para uma bebida em nosso jardim ao longo do verão a fim de agradecê-los pessoalmente, e eu gostaria que tivéssemos o espaço para conhecer todo mundo. Trabalhar para você é realmente a maior honra do jornalismo”. Identidade bem-marcada, produto diferenciado, contato com o leitor e um modelo de negócio bem-desenvolvido tem sido um bom caminho para as empresas de mídia que continuam sofrendo financeiramente com a queda da receita publicitária. Certamente é mais fácil falar do que aplicar estas ideias. Exemplos práticos, no entanto, mostram que esse caminho é possível… e talvez, mais ainda, necessário.

Nacionalismo se tornou uma palavra feia no vocabulário político internacional mais ou menos desde que passou a ser associado ao nazismo. É natural que governantes defendam o interesse de seus respectivos países, mas principalmente no ocidente, falar abertamente sobre isso não costuma render boas nem simpáticas manchetes. Um dos motivos é que o nacionalismo costuma ser visto como uma postura individualista, antiquada e odiosa, defendida por quem busca privilegiar o seu próprio país em detrimento dos outros. Nos dias atuais e segundo a ortodoxia moderna, um político que deseja manter uma boa imagem pessoal deve adotar características opostas: ser aberto a todos, buscar pluralidade, defender fronteiras livres e reger a nação segundo padrões, normas e doutrinas internacionais.

No entanto, é importante apontar que a associação entre nacionalismo e nazismo é altamente questionável. O fascismo se formou a partir de uma doutrina ideológica centralizadora, é verdade, graças à visão de Mussolini de que “tudo está no Estado, e nada humano ou espiritual existe, e menos ainda tem valor, fora do Estado”. Sob o comando de Hitler, no entanto, tal doutrina nunca foi usada para fortalecer o Estado-nação exclusivamente. Ao contrário, as aspirações de Hitler podem ser muito mais facilmente caracterizadas como imperialistas do que como nacionalistas, como aponta o acadêmico israelense Yoram Hazony: “A Alemanha Nazista era, de fato, um Estado imperial em todos os sentidos, buscando pôr um fim, de uma vez por todas, ao princípio de independência nacional e a autodeterminação dos povos”.

De fato, a política de Hitler para os judeus nunca se limitou à geografia. Ao contrário, ele começou por anexar e, mais tarde, invadir outras nações a fim de implementar um programa global de extermínio e de dominação. Além de fortalecer o Estado alemão, seu objetivo era instaurar um Terceiro Reich que, segundo Hazony, se inspirava no “Primeiro Reich” do Sacro Império Romano-Germânico “com seu reinado de mil anos e aspirações universais”. Seguindo, portanto, esta análise, o projeto de Hitler era especialmente baseado na expansão imperial alemã sem respeito por fronteiras, diferentes formas de governo e tradições.

As raízes do nacionalismo

Nada disso tem a ver com os princípios de soberania nacional estabelecidos pelos europeus no século XVII. O nacionalismo surge e se consolida, primeiro na Europa e depois no mundo, como ordenamento internacional onde uma nação respeita a outra, independente de suas diferenças. Como muitas das práticas políticas, esta ordem só foi gerada como reação a uma situação insustentável e desastrosa que precisava ser corrigida: isto é, uma série de conflitos entre nações e impérios europeus que devastaram a Europa Central entre 1618 e 1648.

Mapa que apresenta a situação religiosa da Europa central em 1618. Em azul, é apresentada a predominância do catolicismo. Já nas regiões de domínio Habsburgo, a leste, o protestantismo era majoritário.

A Guerra dos Trinta Anos, como ficou chamada, foi o auge de uma tensão iniciada cem anos antes pelo surgimento e florescimento do protestantismo onde hoje é o norte da Alemanha. Vendo a unidade espiritual católica do Sacro Império Romano-Germânico se desfazer neste período, a dinastia Habsburgo buscou, por décadas, conter os avanços do protestantismo. O que seria um conflito religioso interno entre regiões protestantes e uma dinastia católica acabou por abarcar diversos outros Estados europeus que buscavam defender os seus próprios interesses estratégicos.

A França é o maior exemplo disso. Em tese, era de se esperar que a dinastia Bourbon apoiasse seus vizinhos Habsburgos com quem compartilhavam a fé católica. Como política de Estado, no entanto, era benéfico para a França manter os territórios da Europa Central divididos (a Alemanha só foi unificada dois séculos mais tarde, em 1871). Caso eles fossem unificados pela já dominante dinastia Habsburgo, dariam ao Sacro Império Romano as condições de conquistar o continente europeu e passariam, portanto, a constituir uma ameaça direta à soberania francesa. Após trinta anos de guerra, delegações de diversos países assinaram diferentes tratados que ficaram conhecidos como Paz de Westfália e cujos resultados não foram apenas pôr fim aos conflitos que tomaram conta da Europa, mas criar uma ordem internacional baseada na soberania da nação.

Mapa de 1884 mostrando a Europa pós-Paz de Westfália.

Este novo ordenamento seguia, em suma, a premissa de igualdade entre os Estados soberanos, independente de eles terem estruturas políticas ou religiosas diferentes. A Paz de Westfália tornou-se, segundo o ex-Secretário de Estado Americano Henry Kissinger, “um ponto de inflexão na história das nações porque (…) o Estado, não o império, a dinastia ou a confissão religiosa, foi consagrado como pedra fundamental da ordem europeia” e gerou, com isso, um conceito que “tomava a multiplicidade como seu ponto de partida e unia uma múltipla variedade de sociedades, cada uma aceita como uma realidade, numa busca comum por ordem”.

É claro que isso não significou a paz universal ou uma ordem inabalável de respeito entre Estados. Como mostra a história, a Europa e, mais tarde, o mundo se veriam frequentemente envoltos em diversos outros conflitos e guerras nos séculos seguintes. Ainda assim, o princípio de nação soberana permaneceu, de forma que, enquanto alguns países utilizavam de seus próprios interesses para avançar e conquistar territórios, outros defendiam a si próprios e uma ordem baseada não em princípios morais (o que permitiria a um Estado alegar legitimidade moral para subjugar o outro) e sim na ideia de soberania e naquilo que viria a ser chamado de autodeterminação (o que passaria a conferir ilegitimidade às conquistas pela força).

Desta forma, as guerras que viriam a ser travadas dentro da mentalidade westfaliana foram circunscritas ao interesse nacional. Na busca por obter vantagens políticas e econômicas, as nações entraram em guerras limitadas em escala, que exigiam o investimento de menos recursos e geravam um menor grau de miséria e de destruição. Os conflitos europeus que provocaram perdas massivas, por sua vez, não estiveram circunscritos à defesa do interesse nacional. Estes, ao contrário, foram baseados na imposição de uma ordem ou ideologia universal a todas as nações, o que fez com que causassem muito mais destruição do que as guerras pragmáticas entre nações que possuíam interesses específicos conflitantes. Este ponto é explicado por Hazony e merece citação:

“As guerras que assombram a Europa – e, com isso, o mundo – não foram (…) guerras entre Estados nacionais buscando ganhar vantagem sobre os seus rivais. Ao contrário, elas foram guerras ideológicas, travadas em nome de alguma doutrina universal que deveria trazer salvação a toda a humanidade. Por causa desta doutrina universal, exércitos foram enviados pelo mundo para tragar uma nação após a outra, com o objetivo de derrubar a ordem estabelecida em cada nação conquistada”.

Além da Guerra dos Trinta Anos, esse foi o caso das Guerras Napoleônicas que buscaram estabelecer uma ordem liberal e imperial francesa em todo o continente e resultaram, efetivamente, na queda de diversas monarquias tradicionais europeias. A Segunda Guerra Mundial, como já foi dito, também é exemplo de conflito ideológico baseado em uma visão de mundo distorcida e uma “teoria universal perversa de como a salvação da humanidade deveria ser alcançada”.

O termo nacionalismo, portanto, contém em si uma complexidade muito maior do que a simples defesa do interesse nacional. Ademais, nacionalismo não implica a busca ilimitada pela expansão territorial. Esta prática bélica sempre esteve mais próxima dos impérios e dos ideólogos racionalistas que, julgando terem descoberto uma ordem política, social ou moral absoluta e universal, nunca se intimidaram em tentar impô-las indiscriminadamente às outras nações.

Nacionalismo (ou ausência de) nos dias de hoje

No último dia 24 de junho, a Suprema Corte americana entrou no centro dos holofotes mundiais. O motivo? Por 5 votos a 4, os juízes da instituição derrubaram uma decisão datada de 1973, que garantia o direito constitucional ao aborto no país. Como tem acontecido com preocupante frequência, logo após o veredito, os Estados Unidos rapidamente foram pegos por uma onda de militantes enfurecidos e dispostos a se manifestarem violentamente contra o ato. A um oceano de distância, o presidente francês Emmanuel Macron também foi rápido no gatilho, publicando em sua conta no Twitter que “O aborto é um direito fundamental para todas as mulheres. Ele deve ser protegido. Eu gostaria de expressar minha solidariedade às mulheres cujas liberdades estão sendo minadas pela Suprema Corte dos Estados Unidos”.

O comentário pode parecer uma simples tuitada sem maiores consequências. De fato, ninguém espera que tal observação vá colocar a França em pé de conflito com os EUA. Ainda assim, a opinião de Macron não deixa de ser relevante, especialmente por refletir um comportamento que tem se tornado cada vez mais comum entre as lideranças liberais europeias: a proclamação indiscriminada de ideias e princípios da atualidade como se fossem valores eternos e universais. Isso pode ser visto tanto na defesa do aborto quanto em relação a diversas outras pautas que agora fazem parte da ortodoxia progressista ocidental, as principais delas vinculadas às pautas identitárias.

Independentemente das opiniões pessoais sobre estes assuntos, podemos refletir sobre a forma como eles têm sido propagados por lideranças políticas e quais as implicações disso internacionalmente.

A Paz de Westfália, como observado, foi responsável por colocar a nação como elemento central da política doméstica e internacional dos países europeus. O significado disso, na prática, foi o surgimento da ideia de soberania nacional e autodeterminação, onde cada país podia assumir o modelo político e a doutrina religiosa que mais lhe conviesse. Para além de suas fronteiras, a política internacional era formulada a partir do interesse de Estado – o que, por vezes, significava guerra contra outra nação, embora estas fossem limitadas em recursos gastos e na destruição causada justamente por estarem circunscritas aos interesses pontuais da nação.

O ordenamento westfaliano foi quebrado todas as vezes em que o interesse nacional foi substituído por doutrinas ideológicas que, justamente por serem ideológicas, nunca estiveram limitadas a fronteiras. As já citadas Guerras Napoleônicas foram conflitos que abrangeram todo o continente e alteraram o ordenamento político de diversos países pela força. Suas motivações, no entanto, nunca estiveram circunscritas ao interesse nacional. Ao contrário, foram guerras motivadas pela ideologia e produzidas, em grande medida, por um movimento político anterior que também se pretendia universal e não meramente nacional: a Revolução Francesa que “ressuscitou (…) as paixões da Guerra dos Trinta Anos, substituindo o impulso religioso do século XVII por uma cruzada laica”. De acordo com os princípios dessa ideologia, segundo Kissinger, “todas as monarquias eram, por definição, tratadas como inimigas. Como elas não abririam mão do poder sem resistir, a Revolução, para se impor, seria forçada a se voltar para uma cruzada internacional com o objetivo de conquistar a paz mundial pela imposição dos seus princípios”.

Um padrão histórico pode ser observado: quando o interesse nacional é priorizado, os conflitos tendem a ser restritos àquilo que é benéfico à nação. Por uma questão de incompatibilidade, as ambições nacionais dificilmente serão universais. Por sua vez, quando a ideologia e princípios morais tomam conta das políticas de Estado, os conflitos, quando acontecem, buscam sempre se estender o tanto quanto possível.

Na Europa atual, e principalmente, entre os países mais ocidentais, as pautas ideológicas e de valores têm sequestrado a política nacional com crescente regularidade. Países que compõem a própria União Europeia têm sofrido com isso. Os dois principais exemplos são a Polônia e a Hungria, cujos governos têm sido punidos em função de diversas políticas públicas contrárias à orientação ideológica da organização.

No caso da Hungria, as discordâncias se dão, entre outras coisas, pelas diferenças entre o primeiro-ministro Viktor Orbán e as lideranças políticas europeias acerca da pauta identitária de gênero. Estes embates tornaram-se particularmente inflamados em 2021, quando uma legislação proibindo a disseminação de materiais escolares que promovem a homossexualidade e mudança de gênero foi aprovada no país. A União Europeia não gostou e algumas lideranças nacionais também vociferaram contra. O primeiro-ministro holandês Mark Rutte, por exemplo, disse que a Hungria “não tem mais por que estar na UE”. Macron não permaneceu calado e também afirmou que “lutar contra leis homofóbicas significa defender as liberdades individuais e a dignidade humana”. Dezessete outras lideranças europeias assinaram uma carta prometendo “continuar lutando contra a discriminação da comunidade LGBTI, reafirmando nossa defesa de seus direitos fundamentais”.

A briga entre a Polônia e a União Europeia, por sua vez, se dá principalmente pela insistência do governo polonês de lutar contra a supremacia da lei europeia sobre a sua própria constituição. Entretanto, o país também é malvisto pelas lideranças do continente pelo posicionamento não alinhado aos seus próprios valores progressistas. Assim, a UE tem insistido que os Estados-membros mais conservadores merecem ser punidos. Especialmente nos últimos anos, a organização tem ameaçado interferir nos assuntos domésticos destes países usando seu poder econômico.

Tais políticas sociais são legitimamente debatidas no âmbito interno de cada nação. Como referência para a política internacional, no entanto, as pautas de valores (especialmente valores recentes e ainda não consolidados entre a população) causam mais divisões do que consensos.

Ao vincular normas morais e culturais – sobretudo normas que estão longe de se tornarem consensuais – à política externa de seus países, as lideranças liberais do Ocidente têm frequentemente colocado a ideologia acima dos interesses puramente nacionais.

Os valores atuais podem ser considerados pertencentes a todos os seres humanos. No entanto, é preciso lembrar que doutrinas universais foram causa, ao longo da história, dos mais profundos e danosos conflitos que a humanidade já viu. O nacionalismo, por sua vez, restringiu a ação bélica do Estado a interesses palpáveis, concretos e de menor dimensão, enquanto disseminou a ideia de soberania e autodeterminação. Este conceito pode ter se tornado antiquado, mas resgatá-lo é tão necessário quanto lembrar os danos causados pelo absolutismo moral das ideologias.

“Hoje, novamente, eu julgo necessário retornar aos trágicos eventos que estão ocorrendo na região de Donbass e às questões-chave para garantir a segurança da própria Rússia”. Foi com estas palavras que o presidente russo Vladimir Putin lançou, no dia 24 de fevereiro deste ano, sua “operação militar especial” contra a Ucrânia – eufemismo difícil para aquilo que deveria simplesmente ser chamado de guerra.

A região de Donbass, localizada no leste ucraniano, faz fronteira com a Rússia e compreende as Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk – ambas reconhecidas como independentes por Moscou apenas três dias antes do início do conflito. De acordo com Putin, o objetivo da “operação especial” era proteger as pessoas desta região que estavam sendo submetidas “a bullying e genocídio pelo regime de Kiev” desde que o governo pró-Rússia da Ucrânia foi derrubado em 2014.

Para entender as disputas que levaram ao atual conflito entre os dois países, é fundamental levar em conta que a Ucrânia possui uma quantidade significativa de russos étnicos concentrados na porção leste do seu território. Em regiões como Donetsk e Luhansk, a língua ucraniana sequer é majoritária. Ao contrário, o russo é falado por 74% e 68% da população respectivamente segundo censo de 2001 – o último realizado no país. Desde 2014, o governo Putin tem apoiado separatistas pró-Rússia que já controlam boa parte da região. Desta forma, Donetsk e Luhansk são uma complicação para o governo ucraniano, que precisa despender esforços e recursos para lutar pelo território que é uma das suas principais zonas industriais. Esta complicação, que resulta de grupos étnicos russos utilizados politicamente por Moscou, não apenas compromete a unidade territorial da Ucrânia, como atravanca a política interna de todo o país.

Embora a Ucrânia compartilhe uma longa fronteira e uma longa história com a Rússia, ela não é o único país a abrigar parcelas significativas de minorias russas em seu território. Ao contrário, tais grupos étnicos são parte do legado deixado pela União Soviética em todo o leste europeu e hoje consistem em um elemento estratégico da geopolítica russa para toda a região.

Situação similar é observada na Crimeia – uma península estrategicamente localizada no Mar Negro que abriga, assim como Donetsk e Luhansk, uma população majoritariamente russa. Quando as manifestações nacionalistas e pró-europeias tomaram conta da Ucrânia em 2013 e 2014, resultando na deposição do então presidente aliado de Moscou Viktor Yanukovych, a Crimeia acabou por se separar do restante do país. Este movimento também foi feito sob comando e incentivo do Kremlin, que não apenas deu apoio aos separatistas como enviou tropas disfarçadas para ocupar a península. Atualmente a Crimeia é considerada um território ucraniano sob ocupação russa, e o governo de Kiev continua a reivindicar a região. No entanto, mesmo que ela mude novamente de mãos, a quantidade de russos étnicos que lá residem continuará sendo um problema de difícil resolução e fonte de problemas para a Ucrânia.

Todos estes elementos podem parecer inteiramente circunstanciais e serem reflexo de uma situação particular da Ucrânia. Esta interpretação, no entanto, esconde um fato importante: embora a Ucrânia compartilhe uma longa fronteira e uma longa história com a Rússia, ela não é o único país a abrigar parcelas significativas de minorias russas em seu território. Ao contrário, tais grupos étnicos são parte do legado deixado pela União Soviética em todo o leste europeu e hoje consistem em um elemento estratégico da geopolítica russa para toda a região.

 

Conflitos Congelados – uma realidade e uma estratégia

A Guerra Fria terminou com a inquestionável derrota da União Soviética no início da década de 1990 causada, sobretudo, pela falência completa do modelo político e econômico comunista. A riqueza produzida pelo capitalismo ocidental, por sua vez, se confirmava como um grande sucesso que levou até mesmo regimes fechados como o da China a abrir seu mercado para o resto do mundo naquele período. O contraste entre o fracasso político e econômico do polo soviético e o sucesso do Ocidente era tão grande que cientistas políticos como Francis Fukuyama declaravam “o fim da história” – isto é, o fim da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal como forma final de governo. Trinta anos mais tarde, no entanto, é possível ver que a vitória do Ocidente não significa que o comunismo e os problemas causados por décadas de controle russo sobre o leste europeu tenham morrido com a URSS.

Em nenhum lugar isso é mais claro do que em algumas das antigas repúblicas soviéticas, especialmente a Ucrânia, a Georgia e a Moldávia. Atualmente, a política interna e externa destes países é gravemente afetada por algo que se convencionou chamar de frozen conflicts, ou conflitos congelados. Estes surgem quando hostilidades entre grupos que dividem um mesmo território terminam com acordos de cessar-fogo, mas sem que os motivos responsáveis pelas hostilidades sejam endereçados. Desta forma, tais conflitos podem voltar a acontecer a qualquer momento uma vez que eles nunca foram verdadeiramente solucionados.

Conflitos congelados podem acontecer em qualquer parte do mundo, mas são vistos com mais frequência e de forma mais clara em países que compunham a antiga URRS e resultam, justamente, de conflitos étnicos. Por este motivo, as comunidades russas na Ucrânia, na Moldávia e na Geórgia são tão importantes, uma vez que permitem que a Rússia mantenha forte influência no leste europeu mesmo após estes países terem deixado de ser repúblicas soviéticas. Dito de outra forma, estas minorias acabam se tornando ativos explorados por Moscou para assegurar suas ambições geopolíticas.

Ao dar apoio direto ou indireto a separatistas, a Rússia não apenas compromete a integridade territorial, mas também o próprio desenvolvimento político e econômico de nações próximas ou vizinhas. O motivo é que tais países encontram sérias dificuldades em lidar com as disputas internas e com os sentimentos nacionalistas que surgem entre sua própria população. A raiva gerada contra a Rússia não apenas mantém estes conflitos vivos, como empurra as lideranças políticas para um imbróglio interminável.

Um exemplo é o Batalhão Azov, formado em 2014 por militantes nacionalistas ucranianos e torcidas organizadas de futebol que se voluntariaram como milícias paramilitares. O objetivo era lutar no leste do país contra separatistas apoiados por Moscou. Isso se deve ao fato de que o governo estava militarmente despreparado para fazer frente à Rússia. Assim, o Batalhão conseguiu atender uma demanda com a qual o Estado não conseguia lidar e não tardou a ser incorporado à Guarda Nacional da Ucrânia. Ainda em 2014 o Batalhão Azov obteve relevantes conquistas lutando na região de Donbass – a principal delas sendo a retomada da importante cidade costeira de Mariupol que já estava sob controle de forças russas naquele momento. Tudo isto, no entanto, tem tido um alto custo, uma vez que o esforço para combater os separatistas acaba por tirar do governo ucraniano o foco naquilo que realmente importa: a realização de reformas políticas e econômicas que possam modernizar o país. O confronto contra separatistas simplesmente drena muito do foco e dos recursos do Estado e acaba por dificultar os esforços por reformas.

Assim como a Ucrânia, a Moldávia também enfrenta dificuldades com um de seus territórios: a Transnístria. Localizada ao leste do país, a Transnístria é internacionalmente reconhecida como parte da Moldávia, embora na prática tenha seu próprio governo e parlamento. A região, atualmente, conta com tropas russas que foram instaladas por Moscou como forças de mediação e manutenção da paz. A situação no local é complicada, uma vez que a Transnístria lutou por sua independência e hoje conta com três línguas oficiais e uma população composta por russos, moldávios e ucranianos. Para o Kremlin, no entanto, a região oferece benefícios, uma vez que sua presença militar na região torna o governo altamente suscetível a intimidações. O motivo é que Moscou pode usar suas forças para ações diretas contra os interesses nacionais da Moldávia ou dar apoio aos separatistas, ocasionando ainda mais fragmentação territorial.

Todos estes elementos beneficiam a política regional da Rússia, que perdeu o controle que tinha sobre a porção leste e central da Europa quando a União Soviética se desfez. Por mais que não haja nenhuma perspectiva do país retomar a influência que um dia possuiu na região, o Kremlin ainda assim consegue utilizar as minorias russas de forma estratégica para evitar, ao menos, que determinados países se aproximem do Ocidente.

Segundo artigo da Revista de Relações Internacionais da Columbia University, “A OTAN não admitirá membros com problemas territoriais não resolvidos por receio de que eles possam levar a aliança a um conflito militar. Tanto para a União Europeia como para a OTAN, os conflitos congelados têm o efeito indireto de gerar uma imagem pouco atraente dos países neles envolvidos, ao mesmo tempo em que os impede de atingir um nível de desenvolvimento que permitiria abordar seus problemas territoriais e os tornar parceiros internacionais legítimos”.

Após as manifestações de 2013 e 2014, a Ucrânia passou anos sem ter destaque no noticiário internacional – situação que somente foi mudar após a recente invasão promovida por Putin. Isto, por sua vez, pode gerar a sensação de que houve um hiato sem conflitos entre os dois países. Tal interpretação, no entanto, é incorreta. Por mais que não tenha havido embates diretos neste período, os anos que seguiram os protestos em Kiev e a anexação da Crimeia não foram nada tranquilos devido à disputa territorial envolvendo ucranianos e minorias russas. Mais importante ainda é que estes conflitos devem continuar acontecendo independentemente de qual seja o resultado da guerra.

Manter a instabilidade em países vizinhos é algo que beneficia a política externa de Moscou. Por meio desta estratégia, a Rússia tem conseguido manter um mínimo de influência em uma região que se voltou rapidamente para o Ocidente ao fim da Guerra Fria. No atual momento, os olhos estão voltados para a Ucrânia, mas é importante ter em vista a forma como a Rússia se utiliza das tensões sociais existentes no leste europeu para legitimar intervenções de maior ou menor grau na soberania dos Estados que faziam parte da antiga Cortina de Ferro, mas que, em sua maioria, continuam buscando maior integração com a Europa ocidental.

Desde que a Rússia lançou sua ofensiva contra a Ucrânia no dia 24 de fevereiro, a Europa se viu na curiosa posição de sentir-se, ao mesmo tempo, ameaçada e fortalecida. A invasão, é claro, gerou preocupações de que o conflito pudesse se alastrar para outros países europeus além de causar mais transtornos à economia do continente. Putin deixou a situação ainda pior quando ordenou que as forças nucleares de seu país fossem colocadas em alerta máximo poucos dias após o início do conflito. Embora a situação tenha sido e continue sendo temerária, a guerra parecia trazer ao menos uma boa notícia: a união dos países europeus após alguns anos de desgastes e conflitos internos.

O símbolo máximo deste desgaste interno havia sido a decisão tomada pelo Reino Unido de sair da União Europeia, mas não parou por aí. O futuro da OTAN também foi colocado em questionamento após Donald Trump chegar ao poder nos EUA em 2017. Para o então presidente americano, os EUA deveriam se afastar da agenda de cooperação multilateral e dar prioridade à posição de “America First”. Ao mesmo tempo, Trump também criticava diversos países europeus por não cumprirem a meta de investimento mínimo na organização (2% do PIB). Segundo relatório de 2021, apenas sete dos trinta Estados-membros investem ao menos 2% de seu PIB no orçamento de defesa da OTAN (são eles Grécia, EUA, Polônia, Reino Unido, Croácia, Estônia, Letônia e Lituânia).

Embora esta política americana fosse vista com maus olhos e criticada por ser isolacionista e nacionalista, a própria recusa dos europeus de investir o mínimo necessário em defesa demonstrava um desinteresse frente ao futuro da instituição. Emmanuel Macron, que sempre defendera o fortalecimento dos poderes da União Europeia, por sua vez, tampouco parecia muito comprometido com a OTAN, afirmando que ela sofria de “morte cerebral” em 2019. É certo que o presidente francês não criticava a OTAN pelos mesmos motivos que Trump. Seu objetivo, ao contrário, era a criação de um exército europeu que daria mais autonomia estratégica ao continente.

Ainda assim, o protagonismo dado por Macron à União Europeia não mudou o fato de que ela estava dividida internamente. Na Europa ocidental, ainda prevaleciam os políticos favoráveis ao bloco, mas os eurocéticos continuavam deixando os burocratas de Bruxelas – sede da UE – em estado de constante alerta. Se os ditos nacionalistas e populistas da Europa ocidental representavam um potencial de ameaça à coesão do organismo, em parte do Leste Europeu, por sua vez, eles já haviam alcançado o poder. Polônia e, principalmente a Hungria, são exemplos disto.

Tanto a OTAN, quanto a União Europeia continuam existindo, mas conversas sobre “Frexit” e “Polexit” (saída da França e da Polônia, respectivamente, do bloco europeu) certamente não eram bons sinais de vitalidade das organizações. A guerra na Ucrânia, no entanto, pareceu renovar ambas as entidades, sobretudo a OTAN. O motivo para isto, no fundo, é muito simples: a Rússia é um gigante frente aos países europeus. Sua economia pode até ser menor que a da Alemanha, da França, do Reino Unido e mesmo da Itália. Seu poder, porém, reside em como ela utiliza seus ativos. Ao passo que a maior parte dos europeus abandonaram parte considerável do controle sobre o setor energético, tão importante para a soberania nacional, há anos a Rússia utiliza suas reservas de gás natural para abastecer seus vizinhos ocidentais de forma estratégica: permitindo que os países mantenham suas luzes acesas e indústrias funcionando, ao mesmo tempo em que restringe ações vigorosas contra a própria Rússia por medo de que o abastecimento seja cortado. Ademais, a Rússia tem pouco menos que o dobro de habitantes que o maior país europeu (145 milhões de cidadãos frente aos 83 milhões da Alemanha), além de ser uma potência nuclear.

Se a OTAN servia como escudo de proteção contra uma ameaça potencial da Rússia, ela passou a ser vista, principalmente por países do leste e do norte da Europa, como uma necessidade após a invasão à Ucrânia. Finlândia e Suécia são exemplos claros disso. Ambos os países foram militarmente neutros durante a Guerra Fria, mas estão prestes a abandonar sua antiga política de não-alinhamento ao pedir para entrar na OTAN – algo que não deve tardar a acontecer. Como escreve Timothy Marshall, cujo livro já foi resenhado aqui no Orbis, os países do leste europeu conhecem uma verdade geográfica vital: “se você não está na Otan, Moscou está próximo e Washington D.C. está distante”. A atual guerra só deu mais razão a esta frase.

Ao mesmo tempo que a invasão russa deixou toda a Europa em estado de alerta, no entanto, ela também trouxe como consequência algo que Putin talvez não tenha calculado: a revitalização da razão de ser da OTAN. Se antes a Europa estava dividida internamente e o Tratado do Atlântico Norte parecia sem propósito, agora passou a haver um motivo concreto e urgente para os diversos países europeus buscarem políticas comuns a fim de conter o ressurgimento da Rússia como ameaça militar. A questão a ser pensada é a seguinte: essa união é real ou apenas circunstancial? Assim que a guerra terminar, é possível esperar que a Europa permaneça unida ou as velhas rachaduras de antes deverão voltar a aparecer?

Um Continente Dividido entre Globalismo e Nacionalismo

A União Europeia, em muitos sentidos, é uma organização contraditória. Ao mesmo tempo que ela busca manter o continente unido e em paz, suas políticas cada vez mais centralizadas tem resultado, na prática, em um crescente conflito entre nações que buscam manter um maior grau de soberania e outras – incluindo a própria UE – que desejam concentrar mais poder no âmbito supranacional (uniões políticas multinacionais cujo poder é delegado pelos Estados-membros)

Esta queda de braço entre o poder local e o poder supranacional, por sua vez, permitiu que partidos políticos contrários à União Europeia tenham ganhado relevância por dar voz a um sentimento negligenciado – e até mesmo atacado – pelos partidos tradicionais. O caso mais claro de sucesso foi o UKIP (UK Independence Party, ou Partido de Independência do Reino Unido), que conseguiu pressionar o então Primeiro-Ministro britânico David Cameron a levar adiante o referendo que resultou no Brexit. Embora a saída da União Europeia tenha sido aprovada por voto direto da população, não faltaram acusações ao UKIP de ser radical, nacionalista, populista e até mesmo xenófobo.

Antes que isso acontecesse, entretanto, o acadêmico português João Carlos Espada já alertava para o crescente apelo dos movimentos políticos e populares eurocéticos. Em edição de 2014 do Journal of Democracy, ele chegou a concordar que muitos destes partidos eram de fato radicais, mas seu apelo crescia entre os eleitores não por causa do radicalismo, mas por serem os únicos que davam voz a um sentimento popular latente e legítimo:

O motivo para o seu sucesso (partidos eurocéticos) reside menos na radicalização dos eleitores europeus do que naquilo que todos estes partidos têm em comum: darem voz a uma reinvindicação ignorada pelos partidos liberais-democráticos. Esta reinvindicação consiste no apelo para descentralizar mais poderes ao nível ‘local’ (o que significa, no contexto da União Europeia, ao nível nacional), e para devolver poderes para as mãos dos parlamentos nacionais.

Por trás deste fenômeno está o fato de que a descentralização da política europeia é considerada um assunto ilegítimo por grande parte da classe política do continente. É comum que partidos políticos concordem a defendam as normas constitucionais de seus respectivos países (ou mesmo de uma organização supranacional como acontece na Europa). Mas respeitando este ordenamento jurídico, muitas discordâncias podem existir entre os representantes democraticamente eleitos. Desta forma, é legítimo e até benéfico que haja debate sobre questões como gastos públicos, privatização de empresas, políticas migratórias, desde que elas não interfiram no arranjo constitucional de determinada nação.

O problema na Europa é que a discussão sobre a descentralização dos poderes adquiridos pela União Europeia não é aceita como parte do debate legítimo da política. Ao contrário, tal assunto é frequentemente rejeitado de forma dogmática, como se fosse assunto constitucional inviolável e indiscutível. Assim, praticamente todos os partidos tradicionais da política europeia tem se ausentado e mesmo lutado para impedir este debate de acontecer, gerando um vácuo de representação que vem sendo preenchido apenas por partidos e políticos “outsiders” rapidamente acusados de ameaçar a estabilidade democrática do continente com seu populismo, radicalismo e nacionalismo. Ora, a marginalização de um debate legítimo e democrático em nome da própria democracia não é apenas uma incoerência, mas também uma violação aos princípios que tornam qualquer país livre. Ademais, este posicionamento também é perigoso como bem aponta Espada:

Entregar a tais partidos políticos (eurocéticos) um assunto poderoso ao tratar a posição de ‘mais Europa’ (em contrapartida à defesa de mais autonomia aos estados-nação) como um princípio sacrossanto é um erro múltiplo: faz destes partidos mais fortes; semeia confusão ao permitir que preferências normais pela descentralização sejam identificadas com uma agenda iliberal; expõe qualquer um que exprima ligeiras tendências pela descentralização a suspeitas de ‘extremista’.

Desta forma, o que se vê no continente europeu não é, necessariamente, uma radicalização de partidos e eleitores céticos quanto à União Europeia, mas a acusação de radicalismo por parte de grupos políticos que se negam a aceitar a discussão sobre mais autonomia ao estado-nação como algo legítimo. Na falta, portanto, de meios para debater este assunto sem sofrer rapidamente a pecha de radical, e sem que haja maneiras efetivas de reduzir o poder adquirido nas últimas décadas pela UE, resta à parcela considerável do eleitorado abraçar a marginalização imposta justamente pelos partidos tradicionais. Quanto mais assuntos são retirados da esfera do debate legítimo, mais limitada se torna a democracia, uma vez que as demandas outrora razoáveis passam a ser acusadas, com cada vez mais frequência, de serem radicais.

A União Europeia continua sendo defendida pela maior parte dos europeus. A sua taxa de aceitação permanece alta em países como Espanha, Portugal, Alemanha, Itália e mesmo algumas nações do leste europeu como a Polônia. Não há razão, portanto, em negar que as vozes eurocéticas sejam ouvidas, já que elas sequer constituem a maioria do eleitorado nos principais países do bloco. No entanto, ao adotar esta postura, os partidos tradicionais acabam, eles próprios, gerando um radicalismo que não tinha razão para existir e que corrói a Europa internamente.

União Substancial ou Circunstancial?

É preciso reconhecer que o propósito da OTAN e da União Europeia são diferentes. Enquanto a primeira organização é essencialmente militar, a segunda existe para fins de cooperação econômica e política. Os motivos que fazem uma prosperar ou naufragar, portanto, não necessariamente afetam a outra. Ainda assim, ambas só existem enquanto houver unidade entre os países que as compõe. Desta forma, uma maior união em torno da OTAN, causada neste momento pela guerra à Ucrânia, pode representar uma maior união entre todas as nações. Mesmo que a UE não forneça benefícios militares tão urgentes neste momento, ela representa um ponto de unidade entre países que não se viam tão claramente ameaçados desde o fim da Guerra Fria.

O problema para a Europa é que toda esta união é circunstancial. Passada a guerra, as mesmas rachaduras que vinham crescendo nos últimos anos devem voltar a aparecer. A guerra na Ucrânia, afinal, não resolveu nenhum dos problemas existentes no seio do continente, isto é, o conflito entre aqueles que desejam delegar mais poderes à União Europeia e entre os que preferem resgatar a autonomia de suas nações, bem como os atritos frequentes entre as constituições de cada país e as decisões supranacionais vindas de Bruxelas.

Se a falta de unidade europeia é, essencialmente, um problema interno, não há por que esperar que um elemento externo vá solucionar tal questão. A disputa entre o poder supranacional e o poder local existe no mundo todo. Na Europa, esta problemática é ainda mais presente, uma vez que a União Europeia exerce sua autoridade diretamente em cada um dos Estados-membros. Enquanto os governos locais e as entidades supranacionais não interferem uma na outra, os conflitos permanecem adormecidos. Conforme a poder internacional cresce, entrando em rota de colisão com a soberania nacional, no entanto, mais estes conflitos se fazem presentes.

A guerra aberta contra a Ucrânia mostrou ao Ocidente, de forma franca, que ainda existem adversários dispostos a confrontar a ordem liberal por eles promovida. Embora este seja um desafio urgente para os europeus, é preciso lembrar que as feridas que dividem o continente não deixaram de existir e devem voltar a ficar aparentes assim que a guerra terminar. Quando isto acontecer, será necessária uma análise interna profunda. O Reino Unido já decidiu sua posição: entre delegar poderes à União Europeia ou resgatar sua soberania nacional, optou pela segunda. A Europa continental eventualmente terá de fazer o mesmo questionamento acerca do âmbito onde o poder político deve ser depositado. A guerra promovida pela Rússia pode influenciar os países europeus a adotar uma posição ou outra, mas no final, o futuro do continente deve ser decidido principalmente pelo resultado desta tensão entre os governos locais e o poder supranacional.

Tudo aquilo que é imutável tende a ser pouco atrativo para o jornalista. O motivo é simples: se não muda, não gera novas pautas; se permanece igual tende a ser assunto frio de reportagem. Este não é um problema para quem trabalha nas editorias políticas, no entanto. Para além do fato do jornalismo exercer o papel de vigilante do poder, a cobertura política é atraente graças à sua relevância e às novas pautas geradas diariamente. Mas ainda que os gabinetes mudem, as ideologias se alternem no poder e o relacionamento entre governos se transforme, há outros fatores que foram determinantes para a geopolítica ao longo da história e que continuarão a sê-lo independentemente da agenda política das lideranças do presente.

É disto que trata o livro Prisioneiros da Geografia, do jornalista britânico Timothy Marshall. A sua tese é que planícies e montanhas, desertos e rios, frio e calor são elementos cruciais na política global, mesmo que regularmente subestimados. Por este motivo, Marshall argumenta que “As realidades físicas que sustentam a política nacional e internacional são desconsideradas, com demasiada frequência, tanto quando se escreve sobre história quanto na cobertura contemporânea da mídia acerca dos assuntos mundiais”. Em relação a esta colocação, é legítimo argumentar que não há razão para que a geografia seja, em si própria, assunto de primeira ordem para os jornalistas. Isso, no entanto, não significa que ela não possa orbitar as matérias sobre políticas internacionais quando estas são determinadas ou amplamente influenciadas pelo terreno e pelo clima.

Exemplos sobre a correlação entre política e geografia não faltam. O noticiário internacional nos últimos anos – e em especial nos últimos meses – foi diversas vezes protagonizado pela China e pela Rússia. O posicionamento adotado por ambos de confrontar a ordem liberal promovida pelo Ocidente tem gerado repercussões importantes na política global. Nos últimos tempos, vimos um embate crescente entre EUA e China que provocou até mesmo uma guerra comercial envolvendo importantes sanções. A Rússia, por sua vez, tomou a drástica decisão de invadir a Ucrânia no início deste ano motivada, entre outras coisas, pelo desejo de retomar sua influência em uma região cada vez mais próxima da esfera ocidental.

Basta olhar para os mapas, no entanto, para entender como a geografia também exerce seu papel nas políticas conduzidas por cada país. Ela explica, por exemplo, o motivo pelo qual os conflitos entre Índia e China – dois países com mais de 1 bilhão de cidadãos, que compartilham fronteira, não são culturalmente alinhados e rivalizam influência sobre a região – nunca foram significativos. Entre os dois países, afinal, existe a maior cadeia de montanhas do mundo, os Himalaias, que impedem o movimento fácil e rápido de grandes forças militares. Mesmo que a tecnologia avance, o obstáculo geográfico continua sendo um forte elemento de dissuasão de um conflito aberto entre os dois países.

Com a guerra em andamento entre Rússia e Ucrânia, por sua vez, a geografia também ajuda a entender o que está em jogo para além dos motivos ideológicos que colocaram os dois países em conflito. Enquanto as montanhas criam uma fronteira natural e de difícil transposição entre China e Índia, o mesmo não pode ser dito sobre os dois países europeus. Entre eles não existem barreiras naturais – o que representa, para a Rússia, tanto uma oportunidade de invasão quanto uma ameaça de ser invadida. Neste sentido, a cortina de ferro criada pela União Soviética no século passado era útil para a Rússia não apenas em sua disputa com os EUA por influência global, mas também por colocar obstáculos políticos onde sempre faltaram obstáculos geográficos impedindo o movimento de tropas do oeste para o leste.

Como é possível ver no mapa, da Polônia até a Rússia o terreno começa a se abrir sem a interferência de montanhas capazes de criar uma fronteira natural entre os países.

É verdade que as tentativas de invasão à Rússia – de Napoleão a Hitler – foram frustradas, entre outras coisas, devido à dificuldade de lidar com o rigoroso inverno e de manter linhas de suprimento e comunicação tão extensas. Mas isso não significa que a Rússia, com seus mais de 3000 km de fronteira com a Europa, não se sinta em uma posição de vulnerabilidade frequente. Os planos de Putin parecem, neste momento, distantes de retomar toda a esfera de influência que seu país possuía durante a Guerra Fria. Ainda assim, conquistar a Ucrânia ou colocar no poder do país um presidente fantoche e subserviente aos comandos de Moscou significaria, para além de reduzir a influência ocidental sob o leste europeu, adicionar um obstáculo entre a Europa e o vasto território russo.

Além de ser o maior país do mundo, a Rússia enfrenta outros desafios peculiares. Embora a maior parte de sua superfície esteja na Ásia, apenas 22% da população vive lá (motivo que também se deve, em grande medida, à geografia). Para além dos Montes Urais, que dividem os dois continentes, e em direção à Sibéria, a Rússia é um país inóspito, “congelada por meses a fio, com vastas florestas (taiga), solo pobre para a agricultura e vastas extensões de pântanos”, segundo Marshall. Assim, o país tem muito território, demasiadas fronteiras, onze diferentes fusos e muita pouca gente para ocupar toda esta área.

Os desafios territoriais russos não se encerram aí. O país também enfrenta dificuldades em sua saída para o mar (embora seja cercado por oceanos a norte e a leste). Isto explica, em grande parte, a dificuldade da Rússia de se tornar efetivamente uma potência econômica mundial. Devido ao seu posicionamento no globo, o país praticamente não detém portos de águas mornas. Tanto no Ártico quanto na fronteira com o Pacífico, os portos russos congelam por vários meses do ano. No Oceano Báltico a situação tampouco é melhor, pois até que sua frota marítima consiga atingir o Atlântico, precisa inicialmente passar pela Estônia e Finlândia (o primeiro país já faz parte da OTAN e o segundo está ativamente buscando se juntar à Organização juntamente com a Suécia). Mais ainda, para atingir o Mar do Norte, a frota russa precisa também cruzar o estreito de Escagerraque, controlado pela Dinamarca e Noruega, ambos parte da OTAN. Como diz Marshall em seu livro:

Essa falta de um porto de águas mornas com acesso direto aos oceanos sempre foi o calcanhar de Aquiles da Rússia, tão estrategicamente importante para ela quanto a planície do norte da Europa. A Rússia está em desvantagem geográfica, salva de ser uma potência muito mais fraca apenas graças a seu petróleo e ao gás.

O mapa mostra a difícil saída da Rússia pelo Mar Báltico, cercado por diversos países da OTAN como Estônia, Letônia e Lituânia, além da Noruega e da Dinamarca no estreito de Escagerraque.

O Mar Negro é tentador para Putin justamente por dar acesso a portos de águas mornas ausentes em outras partes do país. Mas assim como a geografia conta muito para a política internacional russa, ela também é importante para a Turquia, que pouco desejo tem de compartilhar o controle sobre aquelas águas que se conectam ao Mar de Mármara, Egeu e Mediterrâneo até, enfim, desembocar no Atlântico. Isso explica, também, a posição adotada pelo governo turco desde que a guerra teve início.

Recep Tayyip Erdogan é ideologicamente parecido com Putin. Ambos minaram a liberdade de imprensa e prenderam oponentes políticos a fim de se manterem no poder. Talvez mais importante ainda é o fato de que ambos se opõem aos EUA e enxergam o capitalismo ocidental como uma arma para enfraquecer seus governos. Se adicionarmos a estes elementos que unem as duas lideranças o fato de que 30% da energia turca provém do gás russo, seria difícil imaginar o governo de Erdogan se opondo a Putin e tomando certas medidas que beneficiam a posição ocidental. O improvável tornou-se certo com poucas semanas de conflito, no entanto. Desde que Putin ordenou a invasão da Ucrânia, a Turquia não apenas fechou o estreito de Bósforo, que cruza Istambul conectando o Mar de Mármara ao Mar Negro, para a frota russa, como enviou à Ucrânia seus drones Bayraktar para ajudá-los no combate.

São inúmeros os motivos que explicam a decisão tomada por Putin de invadir a vizinha Ucrânia. Desde o início do conflito não faltaram jornalistas, acadêmicos e especialistas em geral tratando da importância de Kiev na história russa, sobre as implicações de aproximar a Ucrânia da OTAN e a conexão histórica entre os povos dos dois países que agora se encontram em combate. Mas como bem disse Marshall, a geografia está entre os assuntos mais subestimados e menos abordados na cobertura internacional, mesmo que muitas das políticas adotadas pelos governantes sejam frequentemente determinadas, influenciadas ou limitadas por este fator. O livro Prisioneiros da Geografia é, portanto, um grande ponto de partida para qualquer jornalista que queira acrescentar o “porquê” ao “o que” dos assuntos internacionais.