A palavra que muito se repete entre profissionais da mídia é polarização. Nós, jornalistas, falamos frequentemente sobre este fenômeno e sobre como não mais conseguimos publicar qualquer coisa sem receber um tiro de canhão de um dos lados do espectro político.
A esquerda mais radical, de cunho marxista, sempre teve um ranço contra a imprensa tradicional (assim como sempre teve um ranço contra o próprio governo, as cortes, o aparato policial e mesmo a Igreja), que enxerga como um instrumento da burguesia para continuar oprimindo as classes mais baixas da sociedade, sem que elas notem o que está acontecendo. Este é uma visão tipicamente ideológica que reduz a realidade a uma teoria. A direita, por sua vez, também tem disparado a artilharia contra os jornais que, de fato, parecem não ter acompanhado muitas das demandas políticas dos últimos anos. Referendos como o Brexit e eleição de Trump, nos EUA, foram frequentemente criticados pela mídia como casos de extremismo e ignorância do eleitorado. A verdade de que ignorância e extremismo podem existir em qualquer movimento político não ofusca, entretanto, uma outra verdade: a de que existem justificativas legítimas para estes mesmos movimentos. A incapacidade dos jornais de entender aqueles sobre quem devem reportar é causa das críticas que frequentemente recebemos.
Como se salvar neste cenário em que qualquer matéria publicada será imediatamente atacada por um dos polos políticos? Embora a política tenha causado inúmeras divisões na sociedade, a verdade é que esta pergunta acaba sendo uma pegadinha. A polarização existe, mas ela não é absoluta. Somente enxerga a polarização como um fato absoluto quem está, de uma forma ou de outra, completamente envolvido ou tomado por ela.
Vitória da despolarização
Recentemente, a jornalista americana/israelense Batya Ungar-Sargon fez uma excelente análise sobre as eleições americanas de meio de mandato, as chamadas midterms. Dado o péssimo desempenho de Biden na presidência dos EUA, a expectativa era de que os Republicanos tomariam, de forma avassaladora, o controle de ambas as casas do Congresso que haviam sido perdidas juntamente com a derrota de Trump em 2020. O previsto não aconteceu. Os Republicanos até conseguiram maioria na Câmara, embora por uma margem muito inferior à esperada, enquanto o Senado permanecerá sob controle dos Democratas.
O que muitos viram como uma derrota dos Republicanos, Sargon viu como uma derrota da polarização. Vale uma longa citação:
“As pessoas que decidiram os resultados de terça eram americanos comuns, cansados da atmosfera política superaquecida que está sangrando sobre a vida cotidiana. São pessoas que não passam o dia inteiro no Twitter, assistindo TV a cabo ou programas no YouTube, que estão cansadas das lutas no Facebook, brigas de família durante o dia de Ação de Graças e só querem um retorno à normalidade, aos bons e velhos tempos em que se podia debater as coisas de forma cordial”.
“Converse com qualquer pessoa de classe média ou trabalhadora sobre política e, em determinado momento, é provável que ela te diga o quão farta está de como tudo se tornou controverso. Embora nos digam incessantemente sobre o quão polarizado estamos, a verdade é que os americanos não se odeiam; eles odeiam os partidos políticos – ambos os partidos políticos”.
“Em disputa após disputa, os eleitores recompensaram candidatos que apresentaram as ideias mais razoáveis. Eles votaram em candidatos que poderiam ser imaginados – candidatos que talvez tenham sido vistos – conversando com alguém de quem eles discordam. Vitórias foram dadas a membros de ambos os partidos que conseguiram demonstrar, em suas declarações, em suas campanhas, com seu comportamento ou retórica, uma disposição para ultrapassar esta divisão que aliena tantos americanos”.
Todas estas afirmações podem valer ouro para jornalistas que polarizam, eles próprios e por vezes sem perceber, a disputa política para um lado ou para o outro, ou que não encontram uma audiência com a qual dialogar. A verdade é que, além do público que tem uma opinião política consolidada, há também uma parcela considerável da população que está cansada das disputas atuais e que não encontra um conteúdo que lhe satisfaça a curiosidade.
Por que uma pessoa que chega em casa após um longo dia de trabalho irá optar por ligar a TV em um jornal qualquer cujo principal produto são polêmicas que escandalizam hoje apenas para serem esquecidas amanhã, quando pode ouvir um podcast, acompanhar seu youtuber favorito, dar sequência a uma série da Netflix ou jogar videogame? Podemos argumentar, com todas as forças, que o conteúdo que produzimos torna o público mais bem informado, que ajuda as pessoas a entenderem o mundo a sua volta ou mesmo que mantemos a democracia viva. São argumentos que satisfazem apenas a nós mesmos, mas que não encontram eco entre aqueles com quem poderíamos estar dialogando.
Segundo o último Digital News Reporting do Reuters Institute, 54% dos brasileiros evitam o noticiário de forma consciente. Simplesmente preferem manter uma distância daquilo que publicamos. O motivo principal para isso, na opinião do público, é que há demasiada “política e Covid-19”. Isso significa que devemos parar de falar destes temas? Não necessariamente, apenas que devemos tratar do assunto de forma melhor, de forma mais construtiva. Nem sempre precisamos tentar ser os próximos Woodward e Bernstein. Como 4º poder, podemos permanecer vigilantes, mas não é nossa função derrubar governos eleitos, nem mesmo aqueles que não gostamos. Apenas uma parcela do público gostará disso, e esta é a parcela que milita para um dos polos políticos. O outro polo nos tratará como inimigos, e aqueles que não se interessam por política se sentirão alienados.
Há um outro caminho, que Bari Weiss, ex-editora de opinião do New York Times descreve tão bem como propósito de sua nova newsletter chamada Common Sense:
“Há milhões de americanos que não estão na extrema esquerda ou na extrema direita e que sentem que o mundo ficou louco. A ciência está à mercê da política. A identidade atropela as ideias. Em nome do progresso, a arte é apagada da história ou então é reescrita. É perigoso dizer verdades óbvias em alto e bom tom. (A newsletter) é para pessoas que desejam entender o mundo como ele é, não como alguns gostariam que ele fosse…”
Tornou-se um hábito entre nós, jornalistas, falar sobre como o público se tornou radicalizado, sem perceber que nós mesmos incentivamos esta radicalização ao publicar polêmicas incessantemente. Com frequência, discutimos modelos de negócios que podem revitalizar as empresas que ainda sofrem pela queda de receita proveniente da publicidade. Nada disso tem grande relevância se antes não reaprendermos a ouvir o público e produzir um material de real valor para ele.
Para que isso aconteça, será benéfico mudar nosso referencial: ao invés de olhar para aqueles que gritam alto, podemos começar a publicar para pessoas que seguem tocando sua vida sem estardalhaço. Quietos, porém numerosos, esta é uma parcela da população que ainda se vê órfã de uma publicação que não cai na superficialidade de uma disputa política que nós próprios condenamos. Esta é uma demanda que salta aos olhos; falta quem a atenda.
