O mercado editorial brasileiro ganhará um novo jornal no final de agosto. Detalhe: ele será impresso. O Tino Econômico terá oito páginas full collor e uma tiragem inicial de 40 mil exemplares. A publicação será mensal e se propõe a tratar de economia e educação financeira com o uso de linguagem didática, capaz de atrair jovens estudantes a partir do final do Ensino Fundamental II, ao redor dos 14 anos.
O estranhamento é inevitável, afinal, a geração Z já não nasce conectada? Por que, então, apostar em um jornal em papel justo em meio à crise que só se aprofunda na mídia impressa? Uma das razões é a sensação do pertencimento que a materialidade promove. “Crianças e jovens precisam do concreto”, explica Stephanie Habrich, diretora-executiva da editora Magia de Ler, que assina a criação do veículo.
Este não é o primeiro empreendimento de Stephanie no jornalismo infantojuvenil. O Tino Econômico será o “irmão mais velho” do Joca, jornal também impresso que circula em escolas públicas e privadas, explicando as atualidades para alunos do Ensino Fundamental I. Mas até adulto lê.
Leitores jovens, pautas sérias
Ao contrário dos tradicionais suplementos infantis de jornais da grande mídia, o Joca – e, agora, o Tino – tratam das mesmas pautas do noticiário tradicional. Até o visual é semelhante. A diferença está na explicação dos elementos que envolvem os fatos. “Não é linguagem infantil, é linguagem acessível. Por exemplo, se numa pauta falarmos sobre inadimplência, vamos explicar o que é isso e qual a diferença entre inadimplência e superendividamento”, detalha Sílvia Balieiro, editora-chefe do Tino Econômico.
O fato de dirigir seus títulos para o público infantojuvenil não faz a editora Magia de Ler acreditar que deva ensinar seus leitores a fazer fantoches. O perfil da editora-chefe já é prova disso. Ex-editora da revista Época Negócios, Sílvia está prestes a completar 30 anos de jornalismo, com passagens pela revista Exame e InfoExame. Agora, ela lidera uma equipe de cinco jornalistas responsáveis pela produção do conteúdo para as versões impressa e online do Tino.
A escolha de pautas “sérias” do cotidiano está no cerne da estratégia editorial, tanto do Tino, quanto do Joca. “Era preciso dar respeito às crianças. Quero que a criança se sinta parte da sociedade”, confessa a diretora executiva das publicações. Stephanie conta que, há algum tempo, a editora fez uma pesquisa ouvindo mil jovens leitores do Joca e outros mil jovens que não liam o jornal: “Aqueles que não liam só sabiam falar de criminalidade e de entretenimento”, lamenta.
“Desenvolvimento de audiências”, ao pé da letra
A formação de leitores desde a primeira infância está nas raízes franco-germânicas da empresária. Nascida na Alemanha, Stephanie veio ao Brasil com seis anos. Atentos à preservação das origens culturais da filha, sua mãe francesa e seu pai alemão mantiveram as assinaturas de revistas infantis publicadas na Europa. Por lá, quando a criança nasce, os pais já fazem uma assinatura de revista para ela, conta Stephanie.
No Brasil, entretanto, o hábito de pagar por conteúdo – e ainda, de forma recorrente – não conquista suficientemente nem mesmo os adultos. Apesar do cenário economicamente nada promissor, Stephanie se lançou ao desafio de mudar esta cultura gradualmente, apostando no começo de vida das próximas gerações.
Sobrevivente aos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, Stephanie escapou do quarto andar de uma das Torres Gêmeas, durante o tempo em que trabalhou no mercado financeiro de Nova York. Anos mais tarde, de volta ao Brasil, lançou as revistas Toca a um público de zero a quatro anos, e a revista Peteca, para crianças entre cinco e oito anos. Ambas faliram. Mas a empreendedora não desistiu.
“O mundo inteiro tem revistas para crianças”, exclama. Obstinada em desenvolver o leitor do futuro e transformar os hábitos de consumo de informação no Brasil, Stephanie alcançou um modelo de produto e de produção de causar inveja a veículos da grande mídia. O Joca conta hoje com um Clube de Leitores que participam ativamente do jornal. Eles são consultados sobre as lives a serem oferecidas, fazem entrevistas para o veículo e palpitam sobre tudo o que é publicado.
Mais do que um consumo passivo de informação fugaz das redes sociais, a equipe de 31 pessoas da editora conseguiu mobilizar os jovens leitores. Como despertar a atenção ao jornalismo em um público tão assediado pelo entretenimento? “A gente faz um gancho com alguma notícia ou um personagem que venha do mundo deles”, detalha Sílvia. A saída da cantora Anitta do conselho do Nubank, por exemplo, foi um bom argumento para tratar dos conselhos de administração das empresas.
Ideal e modelo de negócios
Assim como o Joca – que circula há 10 anos e hoje chega a mais de mil escolas brasileiras – o Tino terá modelo de negócios sustentado por assinaturas. A venda, no entanto, começa só no ano que vem e o plano anual custará a partir de R$ 93. Até janeiro de 2023, a distribuição será totalmente gratuita. A iniciativa é parte da estratégia de lançamento do veículo e recebeu o apoio do Instituto XP. A intenção de Stephanie, no entanto, é que o veículo de educação financeira chegue sem custo algum ao máximo possível das escolas públicas.
A acessibilidade às edições, aliás, é outra – grande – justificativa para a escolha do formato impresso. A experiência com o Joca mostrou à editora o grande potencial de exploração do veículo em atividades de sala de aula, a ponto de a Magia de Ler ter incorporado um comitê pedagógico em seu staff. Ao realizar visitas de orientação a professores em escolas da periferia, mesmo de grandes cidades como São Paulo, a equipe da editora encontrou instituições completamente desconectadas, sem acesso à Internet fixa ou móvel.
Impresso, o Joca chega hoje a cerca de 600 escolas municipais de São Paulo e a outros tantos colégios privados, o que soma uma base de 300 mil assinantes. Para alcançar estes números, porém, o veículo passou uma década operando sobre o break even. Mesmo assim, a venda de publicidade está fora de cogitação. “Nunca houve nem nunca haverá anúncios”, avisa Stephanie. Além de dificultar a entrada nas escolas, a publicidade ao público infantojuvenil é foco constante de controvérsias e as publicações chamam a si o dever de proteger os jovens deste apelo.
“Vamos começar a fazer algum lucro no Joca recém agora. Sobrevivo de um sonho de mudar a educação no Brasil. E não dá para esperar tudo do Estado”, pondera Stephanie.
Enquanto isso, o Tino promete ajudar as escolas a cumprirem com uma exigência que o Ministério da Educação faz desde 2017. Em abril daquele ano foi entregue a Base Nacional Comum Curricular, um documento que regulamenta o ensino básico e fundamental no país, onde a “educação financeira” é um dos conteúdos obrigatórios na formação dos estudantes.
E jornalisticamente, o Tino tem algum benchmark, quem sabe, do exterior? Até aí a inspiração vem do mundo dos adultos: o novo jornal terá a cara do Financial Times, até mesmo na cor do papel. No país onde 54% das pessoas fogem das notícias por razões que incluem a dificuldade de entender o que é dito no noticiário, talvez o Tino siga os caminhos do seu irmão Joca e seja muito lido por gente mais velha do que o público mirado.



