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O fim do BuzzFeed News, em abril, a falência da Vice, em maio, e as recentes movimentações em Quartz e Vox Media, trouxeram à tona discussões cruciais para o futuro do jornalismo: a “era do tráfego” – a audiência de redes sociais e mecanismos de busca – chegou ao fim? De onde virá o volume de leitores que irá alimentar o “funil de conversão” de assinantes ou pagar, via publicidade, o custo das operações?  

O contexto para essa mudança é o embate entre veículos de mídia e o duopólio Google/Meta (Facebook) – donos das maiores plataformas de redes sociais e busca do planeta que pressiona o jornalismo ao estrangular sua fonte de audiência. Ao mesmo tempo que as “Big Techs” entregavam tráfego para os publishers, fazendo bilhões de dólares em publicidade, estas jamais ensaiaram repassar parte da fortuna para os grupos de mídia.  

Como consequência dos embates, muitas vezes judicializados, a Meta desistiu do jornalismo e do conteúdo de terceiros, desmantelando suas equipes de curadoria e praticamente aniquilando o Facebook como fonte de tráfego para os sites de notícias. Já o Google começa movimento semelhante em suas plataformas – cortando, assim, uma enorme (e fundamental) fonte de receita para as empresas de mídia. E nem mencionamos o ex-Twitter: a rede social nunca teve a geração de tráfego como seu ponto forte, e enfrenta o ocaso, ao virar um brinquedo de Elon Musk. 

Se a sobrevivência do jornalismo num cenário de audiência e recursos minguantes é uma incógnita, vale lembrar que nem tudo foi tragédia. Embora o cenário ainda seja sombrio, a “era das plataformas”, que trouxe tráfego abundante, ajudou o jornalismo a evoluir no meio digital, criando metodologias e modelos de negócio próprios. Neste cenário, o modelo BuzzFeed teve um papel quase revolucionário.  

 

A influência do BuzzFeed 

No início dos anos 2010, jornalistas que se aprofundavam nas métricas, no tráfego, nas metodologias e no “negócio”, se dividiam sobre o “edgerank”, o algoritmo de entrega de conteúdo do Facebook. Enquanto uns se encantavam com a possibilidade de atingir novos públicos, de testar conteúdos e formas de buscar informação, outros desconfiavam daquele “robô” ameaçador que fazia curadoria de conteúdo e coletava dados valiosíssimos. Afinal, esse é o pressuposto da indústria da mídia: conteúdo, curadoria e dados.  

Para obter maestria do “edgerank” e abocanhar um grande pedaço do tráfego – vale lembrar que o Facebook bateu a marca incrível de 1.5 bilhão de usuários ativos mensais em 2015 –, era preciso dominar a ferramenta. E ninguém fazia isso melhor que o BuzzFeed, com sua lógica de engajar emocionalmente a audiência. O que fugia a nosso alcance, então, era um dos pilares do BuzzFeed: impacto.  

Em 2014, o New York Times, em seu famoso relatório anual de inovação, citou o BuzzFeed mais de 20 vezes, colocando o site de Jonah Peretti como referência em distribuição, plataforma, customização e até mesmo em produção de notícias! Afinal, sob o comando da então revelação do jornalismo americano Ben Smith, o BF começou a elencar dezenas de furos e a pautar a “velha mídia”.  

“O que é a disrupção? Hoje, um punhado de novas startups está se esforçando para promover a disrupção em nossa indústria, ao atacar seu incumbente mais poderoso – O The New York Times. Como essa disrupção funciona? Nós devemos defender nossa posição ou devemos nós mesmos promover essa disrupção? E não podemos apenas ignorar os BuzzFeeds do mundo, com seus ‘listicles’ e vídeos de gatinhos?”, diz o relatório do NYT, que segue com uma poderosa reflexão: “Somos jornalistas, e tendemos a olhar para os competidores pela ótica do conteúdo, não da estratégia. Mas BuzzFeed, Huffington Post e USA Today não estão tendo sucesso apenas pelas listas, quizzes, fotos de celebridades e cobertura esportiva. Estão tendo sucesso por conta de suas sofisticadas ferramentas de social e comunidade, e de suas estratégias, muitas vezes apesar de seus conteúdos. No NYT, frequentemente, para escritores e editores, o conteúdo está morto quando se aperta publicar. No Huffington Post, o artigo começa a viver quanto se aperta publicar”.    

 

O método BuzzFeed 

Em 2015, o CEO do BuzzFeed, Jonah Peretti foi convidado para uma sessão no South by Southwest (SXSW), um dos maiores festivais de empreendedorismo, inovação e mídia do planeta. Para um auditório lotado, Peretti foi direto ao ponto: “Percebemos que os conteúdos começaram a gerar emoção. E essa emoção conectou as pessoas. Então, o BuzzFeed entendeu que o conteúdo não era sobre informação, era sobre comunicação”. Enquanto falava, o CEO mostrava um slide onde se lia “Nós nunca focamos em cliques ou pageviews”. O que o executivo explicava era algo como o efeito cascata (o Ripple Effect, em inglês) na mídia, no jornalismo. A emoção do conteúdo passou a ser mais importante que a informação do conteúdo.  

Ainda no SXSW, Peretti trouxe três importantes pontos do BuzzFeed:  

  • Ter uma operação de jornalismo numa empresa com um público tão grande, e tão jovem, permite que ele chegue a uma audiência que não estava na “mídia legada”; 
  • Focar na distribuição, e numa distribuição que não objetivasse somente o pageview, mas o impacto, o engajamento;
  • Ter o ecossistema, a infraestrutura, o CMS de ponta a ponta, ter o máximo de controle sobre todas as etapas do negócio.  

BF não é um produto, é um serviço, que faz com que as pessoas fiquem melhores em produzir e distribuir conteúdo dia após dia. E como ficamos melhores? Criamos conteúdo, aprendemos com a distribuição para criar conteúdo melhor. O BF expandiu para o mundo não sendo apenas um site. Mas sendo um negócio, com conteúdo, app, site, distribuição pela web. Idealmente, queremos ser indiferentes em como as pessoas encontraram nosso conteúdo ou onde as pessoas encontraram nosso conteúdo.

 

Integração tecnológica + jornalismo 

O BuzzFeed, com sua maturidade digital, passou a usar, no início dos anos 2010, ferramentas para rastrear a geolocalização, para monitorar posts e tendências. Em julho de 2013, Max Seddon, correspondente internacional, conseguiu provar que soldados russos estavam atuando dentro de território ucraniano, e estavam atuando na região do Donbass e poderiam estar conectados à queda do avião da Malaysia Airlines.   

O BuzzFeed News deu ainda dois importantes furos sobre o Uber, no mesmo ano de 2014. Revelou que, em um jantar para a mídia, o VP da Uber sugeriu atacar a vida pessoal de jornalistas que cobriam sua companhia. E denunciou o esquema do “God View”, também da Uber, revelando que a companhia era capaz de monitorar qualquer usuário sem sua permissão.  

 

Identificar o problema é diferente de solucioná-lo  

No fim de sua apresentação à SXSW de 2016, Jonah Peretti resumiu, em tom profético, o principal motivo pelo qual as empresas legadas fracassaram – e seguem fracassando. Segundo o CEO, elas focam no lucro, mas não têm os dados:

O problema das empresas de mídia legadas é que você não consegue ter os dados de volta. Você tem lucro, mas não tem dados. E nós temos resistido a essas oportunidades, pois elas levam ao dilema de você passar 80% do tempo tentando levantar financiamento para um projeto, executar o projeto, ele ir ao ar, funcionar, e você não saber o motivo. Ou ele falha e também não sabe o motivo. Você não tem nenhum relacionamento com sua audiência. E você não pode fazer nada para melhorar seu produto. 

Curiosamente, menos de uma década depois, esse foi exatamente o ponto que decretou o fracasso do BuzzFeed. O grande problema era seu modelo de negócios estar essencialmente conectado a um parceiro: o Facebook. A big tech não hesita em canibalizar seus outrora aliados, conforme mostrou, pela primeira vez em 2010, quando encurralou a Zynga, criadora do fenômeno Farmville, e sinalizou que os publishers poderiam ser os próximos. Afinal, tudo gira em torno do mercado de publicidade. 

Além disso, vale lembrar que o BuzzFeed dependia do dinheiro de fundos de investimento para crescer. Como definiu o consultor ex-Axios, Ted Williams, “não é que o BuzzFeed fosse um mau negócio. Apenas não era um excelente negócio”. Logo, muito menos atrativo do que parecia. 

A conclusão é que Peretti tinha em suas mãos o ecossistema quase perfeito, mas falhou por não conseguir desviar do maior risco ao seu negócio: a dependência profunda de apenas um parceiro. O CEO cometeu o famoso erro de “colocar todos os ovos em uma só cesta”. Para um negócio que precisa de investimento constante, não ser excelente negócio é um pecado mortal. No entanto, seu legado pode nos ajudar, hoje, a sobreviver ao fim da “Era das plataformas”. 

 

* Este artigo é parte de uma série de reflexões sobre os impactos do fim da “Era das plataformas”, que por mais de uma década vêm sendo as grandes fontes de tráfego para o jornalismo.  

Você leu este comunicado da Meta? “Testes aleatórios nos ajudarão a criar uma solução de produto eficaz para acabar com a disponibilização de notícias no Canadá.”

Não, ele não foi interpretado ou reescrito. Copiei e colei a partir do site original:  “Conforme nos preparamos para consentir com a legislação, anunciamos hoje que iremos começar testes em ambas as plataformas [Facebook e Instagram] que irão limitar alguns usuários e editores a visualizar e compartilhar alguns conteúdos de notícia no Canadá”.

O comunicado na forma de uma conquista tecnológica tem como contexto a aprovação do Projeto de Lei C-18, que versa sobre o mercado de notícias online. E a Meta não deixa qualquer margem de dúvida quanto ao que está obstinada a concretizar: “Pretendemos encerrar a disponibilização de conteúdo de notícias no Canadá permanentemente após a aprovação do Projeto de Lei C-18.

O que levaria uma empresa no século XXI a erguer um exército em combate a uma instituição basilar da história da democracia? 

O que diz a Lei de Notícias Online?

A Lei de Notícias Online canadense é um desdobramento natural e previsível da regulamentação pela qual as big techs vêm passando em vários países. Mais precisamente, o Canadá segue o caminho aberto pela Austrália que, no começo de 2021, instituiu o News Media Bargaining Code e colocou veículos e plataformas a negociarem um pagamento recorrente aos editores. 

(Se você não é da área, vale contar que a razão disso está no fato de as empresas de redes sociais terem adotado o modelo de negócio da publicidade que, até então, sustentava os meios de comunicação. Isso, sem assumir responsabilidade pelo conteúdo que nelas circula).

Voltando ao Canadá, a Lei C-18 diz que estarão isentos de cobrança os intermediários de notícias digitais que celebrarem acordo com empresas jornalísticas sob os seguintes critérios selecionados:    

  • forneçam compensação justa às organizações de notícia pelo conteúdo disponibilizado;
  • assegurem que uma parte da remuneração seja usada pelas organizações de notícias para apoiar a produção de conteúdo jornalístico local, regional ou nacional;
  • não permitam que a influência corporativa prejudique a liberdade de expressão e a independência jornalística de qualquer meio de comunicação;
  • contribuam para a viabilidade do mercado de notícias canadense;
  • garantam que uma parte significativa das empresas de notícias locais e independentes se beneficie, contribuam para sua viabilidade e incentivem modelos de negócio inovadores;
  • visem uma variedade de meios de comunicação com fins lucrativos e sem fins lucrativos e que sejam firmados com organizações de notícia que prestem serviços a todos os mercados e a várias populações, em particular a mercados locais e regionais.

A história se repete

Diante da provável obrigatoriedade em destinar parte de sua receita às empresas jornalísticas daquele país, a Meta achou melhor investir em uma “solução de produto eficaz para acabar com a disponibilização de notícias”. 

A ameaça de bloqueio e a efetiva proibição do compartilhamento de conteúdo noticioso em todos os produtos da Meta não é novidade. Assim como os legisladores canadenses se inspiraram no modelo australiano, a Meta repete agora exatamente o que fez na Austrália, em 17 de fevereiro de 2021, quando bloqueou todo conteúdo jornalístico até que o texto da lei fosse flexibilizado. 

Na Califórnia a situação não está diferente. Um dia após legisladores democratas e republicanos terem apresentado – e aprovado em primeira instância – o projeto de lei California Journalism Preservation Act, o porta-voz da Meta, Andy Stone publicou em seu perfil de Twitter que seria “forçado a remover as notícias do Facebook e do Instagram”.

As justificativas apresentadas pela Meta

À medida em que a história se repete, o discurso fica mais direto e sem floreios.

A justificativa para tal postura é que os legisladores não entendem como funciona a internet e ignoram a realidade. Veja o que dizem os comunicados oficiais:

Fevereiro/2021 – Austrália

A lei proposta não entende fundamentalmente a relação entre nossa plataforma e os editores que a usam para compartilhar conteúdo de notícias. Isso nos deixou diante de uma escolha difícil: tentar cumprir uma lei que ignora as realidades desse relacionamento ou parar de permitir conteúdo de notícias em nossos serviços na Austrália.

Junho/2023 – Canadá

A Lei de Notícias Online é uma legislação fundamentalmente falha que ignora as realidades de como nossas plataformas funcionam, as preferências das pessoas que as usam e o valor que fornecemos aos editores de notícias.” 

Maio/2023 – Califórnia

“A lei falha por não reconhecer que os publishers e broadcasters colocam seu conteúdo na nossa plataforma por vontade própria.”

Por que as plataformas precisam pagar aos veículos?

Andy Stone tem razão quando diz que os publishers compartilham seu conteúdo na plataforma livre e espontaneamente. Por uma ingenuidade algo oportunista, acreditamos que as redes sociais solucionariam nossos problemas de tráfego em troca de pouco ou quase nenhum esforço. É fato: não solucionaram e ainda prejudicaram o ecossistema de consumo de notícias ao adotar uma dinâmica de distribuição totalmente opaca

Mesmo assim, se um veículo ainda publica seu conteúdo em redes sociais, o faz em busca de algum benefício. Geralmente, o benefício é geração de (cada vez menos) audiência ou consciência de marca. Então parece ilógico usar uma plataforma espontaneamente e esperar que ela ainda pague por isso.

Um dos argumentos que os legisladores estão usando para justificar a cobrança de taxas das big techs em favor dos meios de comunicação é a infringência de direitos de autor, uma tese falha, já que é o próprio veículo quem publica seu conteúdo ali. (Com o Google a história é diferente e o expediente adotado pela empresa também é outro; fica para outro post).

Se o problema das leis, segundo a Meta, é que elas “não entendem a realidade”, vamos a situações indubitavelmente reais, suficientes para embasar a exigência de pagamento das big techs a empresas jornalísticas. 

Ao longo dos últimos 10 anos, fatos reais provocados direta ou indiretamente pelas redes sociais causaram prejuízos históricos aos veículos:

  • verba publicitária migra da imprensa para as redes;
  • plataformas utilizam as audiências segmentada pela presença de veículos e as vendem para anunciantes;
  • redes sociais entregam audiência orgânica, tornam os meios de comunicação dependentes disso e, depois, derrubam arbitrariamente o alcance dos posts, impactando na queda de audiência;
  • os veículos se veem obrigados a alocar mais esforços e a publicar mais conteúdo nas plataformas em busca do tráfego perdido, onerando a operação;
  • para ter algum alcance nas redes, empresas jornalísticas se obrigam a pagar para promover posts e chegar a uma audiência que, antes, era delas.

Programas de apoio ao jornalismo foram criados pelas big techs ao longo desses fatos para amenizar o caos que elas instauravam no setor. O golpe de misericórdia será o impedimento explícito de veiculação de conteúdo jornalístico nestes espaços. Se essa for, de fato, a nova “realidade”, resta esperar que ela seja o marco de uma nova e produtiva etapa da indústria jornalística, mais centrada em seus próprios produtos, com real controle de suas operações. Quem viver verá.

Sites indianos começaram a sexta-feira (14) anunciando o fim do Instant Articles, tecnologia lançada pelo Facebook em maio de 2015 para carregamento rápido de sites em mobile. Um alto executivo da Meta teria confirmado a informação à imprensa indiana, enquanto alguns jornalistas brasileiros começavam a receber o comunicado oficial da decisão.

O Instant Articles do Facebook será fechado em abril de 2023” e “Grande decisão do Facebook em relação ao Instant Articles: o serviço será fechado, anunciam os veículos indianos.

Apesar de saberque nossa comunidade valoriza compartilhar e discutir ideias e notícias” e ainda que se diga muito preocupadaem garantir que um ecossistema de notícias e jornalismo saudáveis possam prosperar“, a Meta enviou hoje o seguinte texto a redações: “Avaliamos constantemente nossos produtos para garantir que estejamos focados nas experiências mais significativas e impactantes para as pessoas no Facebook e o futuro do nosso negócio. Temos visto cada vez mais que links para artigos de notícias e outros conteúdos não são a razão pela qual a grande maioria das pessoas visita o Facebook.

instant articles

Acima, trecho do texto de lançamento do Facebook Journalism Project, publicado em 11 de janeiro de 2017.

A inconstância com que a Meta vem tratando suas ações no mercado demonstra uma completa falta de coerência estratégica. Em bom português: Zuckerberg e time nunca pareceram tão perdidos e está cada dia mais difícil acreditar em qualquer coisa anunciada pela empresa.

Em menos de 11 meses, a Meta copiou o Clubhouse, lançou sua plataforma de podcasts, fez um tremendo barulho e jogou tudo fora.

Há 10 dias, a empresa anunciou o fim de outro produto de cunho editorial – o Bulletin, plataforma de newsletters que se propôs a concorrer com o Substack. A iniciativa, que entrou em operação em junho de 2021, durou quase 16 meses, tempo suficiente para atrair escritores estabelecidos, como o colunista da revista New Yorker, Malcolm Gladwell e o professor universitário da área de saúde pública, James Hambin, que costumava escrever para a The Atlantic.

Bulletin foi apresentado como uma solução para veículos locais, que ouviram da Meta o compromisso de que a plataforma pagaria US$ 5 milhões para quem usasse o serviço de newsletter. O encerramento do Bulletin veio após a empresa sinalizar aos publishers do mundo todo que não trataria mais o conteúdo jornalístico como prioridade. Isso significou o encerramento de parcerias com veículos que haviam assinado acordos que chegavam a US$ 10 milhões por ano, em troca da produção de conteúdo para alimentar a aba de notícias da rede social.

Não é novidade que, para ser fiel ao seu conhecido modus operandi bipolar e predatório de fazer negócios, a Meta está focada em combater o TikTok e em concretizar o projeto do Metaverso – coisa que nem os próprios funcionários da empresa querem usar. Assim como agiu com a Zynga lá em 2010, a Meta simplesmente vira as costas para organizações que se tornaram dependentes de seu ecossistema. É o caso de veículos jornalísticos, cuja audiência esteve atrelada, durante vários anos, à circulação de links no Facebook.

O alcance dos posts com link continua diminuindo pelo menos desde 2018, quando a rede anunciou mudanças no algoritmo que privilegiariam publicações de indivíduos sobre conteúdos de empresas. Ainda assim, muitos veículos pareciam ter esperança no que havia sido feito especialmente para eles: o Instant Articles, lançado no recente 2015.

Vida e morte do Instant Articles

Para alavancar o produto, o Facebook convenceu 72 veículos de mídia – como os gigantes New York Times, BBC, BuzzFeed, Guardian e National Geographic – a depositarem seus conteúdos no ambiente da plataforma. O Washington Post chegou a dizer que transferiria 100% do seu conteúdo às páginas do Instant Articles. Naquele tempo, a rede ainda gerava um volume de tráfego para sites de notícias na casa dos 40%, à frente da audiência proveniente do Google. Era esperado que os mesmos resultados positivos fossem gerados caso o veículo passasse a usar o Instant Articles. Mas não foi bem assim.

O pioneiro a abandonar o sistema foi o inglês The Guardian, alegando que depositar seu conteúdo no ambiente de páginas leves do Facebook colidia com a estratégia do veículo. Na ocasião, um porta-voz do jornal britânico justificou assim a decisão de sair do Instant Articles:

Nosso objetivo principal é trazer o público para o ambiente confiável do Guardian para apoiar a construção de relacionamentos mais profundos com nossos leitores e aumentar o número de membros e contribuições para financiar nosso jornalismo de classe mundial.

Em 2018 e à medida em que os publishers percebiam que o Instant Articles não fazia sentido, o êxodo levou mais da metade dos parceiros iniciais a abandonarem o formato. Entre as principais razões apresentadas pelos veículos estavam:

  • Baixa monetização. Ainda que tenham experimentado o paywall no Instant Articles, muitos editores constataram que o faturamento em seus próprios sites era maior.
  • Pouco controle sobre os anúncios. Após a polêmica sobre “para quem é contabilizada a audiência das páginas do Instant Articles”, a possibilidade de veicular anúncios serviu de alento temporário às empresas de mídia. Mas logo veio a decepção de não poder controlar estes anúncios.
  • Falta de dados. O ouro contemporâneo ficou retido nas mãos do intermediário. Ao negar acesso a informações referentes à navegação no Instant Articles, o Facebook frustrou publishers que podiam estudar o comportamento do público em seus próprios sites, a fim de convertê-los em assinantes ou de realizar qualquer ação de marketing.

E assim, Forbes, Quarz, Hearst Bloomberg, ESPN, WSJ, Financial Times, CBS News, NBC, NYT e tantos outros players abandonaram a plataforma.

Apesar disso, é preciso dizer que o Instant Articles ostentou uma longevidade cada vez mais rara entre os produtos da Meta. Embora o encerramento efetivo do serviço esteja marcado para abril de 2023, nenhuma nova página poderá aderir ao formato a partir de hoje. De acordo com o comunicado, os links passarão a levar o público às versões mobile dos respectivos sites.

O mais grave, no entanto, não é o encerramento do Instant Articles – algo, digamos, bastante previsível dado o o afastamento que a Meta tomou das empresas de mídia. Como de costume, o pior ficou com os veículos que ainda dependem, em alguma medida, da audiência gerada pelo Facebook.

Ninguém pode ver o que não é mostrado

Mesmo que esteja em queda livre, este tráfego faz diferença no faturamento publicitário – também decrescente – das operações digitais das empresas jornalísticas. Agora note o abismo que há entre a Meta e os publishers: o comunicado emitido pela plataforma afirma que “Atualmente, menos de 3% do que as pessoas ao redor do mundo veem no Feed do Facebook são postagens com links para artigos de notícias.” E como mais pessoas poderão ver, se o alcance destes posts é derrubado pelo algoritmo?

O porta-voz da empresa piora tudo ao dizer que “não faz sentido investir demais em áreas que não alinhar com as preferências do usuário”.

A Meta quer fazer parecer orgânico um movimento que ela mesma orquestrou, com total irresponsabilidade econômica, social e um duplo discurso vergonhosamente antiético, com o qual a empresa ainda tenta seduzir editores.

Como disse um grande jornalista amigo, a era do click acabou. Ela acaba junto com a rede social, que agora se consolida como espaço de compras e de entretenimento – para o desespero de muitos veículos.

As lições parecem evidentes, mas vale recordar:

  • Enquanto condicionarmos o desempenho do nosso trabalho a produtos terceiros, nosso futuro será mais incerto do que o necessário.
  • Por mais que a bola da vez seja produzir vídeos na vertical, CALMA! Não saia fazendo tudo o que o outro diz. Pergunte-se o que seu veículo ganhará, concretamente, com isso. Lembre-se que nada disso pode valer daqui a alguns meses, a exemplo dos podcasts, clubhouses e newsletters da Meta.
  • A Meta prova, com tais episódios, não ser uma empresa digna de confiança. Não construa uma estratégia com base em uma organização incapaz de sustentar produtos por um ano no mercado – ainda que o faça a partir da destruição de concorrentes originais.
  • Por mais cool que sejam seus formatinhos, nem sempre são “seus” (na verdade, a maioria é cópia, vide Snapchat e Stories).
  • Tenha cautela com quem destrói o seu ecossistema de negócios, se apropria do seu modelo de faturamento e brilha posando como sua “parceira”.
  • Não procure um meio substituto para devolver-lhe os cliques perdidos com o fim do Instant Articles. SEO sempre ajudou, mas o Google é apenas outro produto terceiro do qual o jornalismo se tornará dependente. (Em muitos casos, já está!)
  • É urgente repensar sua estratégia de produto (editorial, inclusive) para fugir da dependência, recuperar o contato direto com suas audiências e transformar isso em receita (não apenas por assinaturas).

Aproveite! O fim do Instant Articles pode ser uma excelente oportunidade para inaugurar um novo momento do seu veículo.

 

Passado o entusiasmo gerado pelo aumento de audiência em veículos jornalísticos digitais, registrado no início da pandemia, a preocupação com o tráfego volta às redações. Não é para menos: grandes players da mídia nacional viram seus índices em queda no segundo semestre do ano passado e a imprensa internacional não mostra uma condição incrivelmente melhor.

Por outro lado, o tráfego direto sobe 9 p.p. na média dos veículos analisados desde 2020 pelo Orbis Media Review. A busca orgânica mentém a entrega como fonte de audiência. Então, qual canal vem entregando menos audiência? São raros os editores que ainda não notaram a retração das redes sociais como fonte de tráfego.

Mídia nacional X internacional

Recentemente, a ferramenta Chartbeat divulgou que as plataformas de relacionamento passaram a levar mais usuários aos sites jornalísticos de Latam no último trimestre de 2021, em comparação ao mesmo período do ano anterior. O share da entrega corresponderia a 20% do total das visualizações de página, no nosso pedaço de continente. Tomando o período de dois anos, porém, pelo SimilarWeb, a queda se acumula entre 2020 e 2021 (3p.p.) e entre 2021 e 2022 (1p.p.).

É verdade que a medição do biênio 2020-2022, mostrada neste relatório (download gratuito) considera apenas a navegação em desktop, onde também houve o aumento do tráfego direto. Por mais que o consumo de informação em mobile tenha aumentado cerca de 3p.p. neste mesmo período, de acordo com o Statista, o consolidado de audiência desktop e mobile para sites de notícia ainda segue tendência de queda, especialmente no mercado nacional.

As diferenças na composição do tráfego entre a imprensa brasileira e a internacional vão além. Lá fora, a busca orgânica se mostra com mais fôlego para geração de audiência quanto no Brasil – o que nos leva a pensar em:

a) nós, brasileiros, procuramos menos notícias? ou
b) o esforço com SEO pode ser melhorado nos veículos/

Outro ponto curioso é o quanto os referrals externos têm uma representatividade nos relatórios de audiência. Não é possível afirmar o porquê de tal diferença, uma vez que não se sabe quais são os sites que levam o usuário às páginas noticiosas no exterior. Podem ser desde fóruns até outros players. Talvez seja possível afirmar, pelo menos, que lá fora é mais forte a cultura de linkar para conteúdos externos – o que não deixa de ser algo bom para se aprender.

E as newsletters? O velho-novo formato salvador! É bom esquecer, se a meta do negócio ainda está pautada pelo tráfego. Nos veículos brasileiros analisados, o que já era pouco em 2020 (4%) ficou ainda mais escasso neste ano (1%).

Para pensar:

Ainda vale postar chamadas nas redes sociais?

Quanta mão-de-obra o seu veículo investe para alimentar seus perfis de redes sociais? Quanto tempo isso toma da sua equipe? Isso tem, realmente, valido a pena? O retrospecto e a tendência são de queda de resultados. E isso não tem nada a ver com a quantidade de seguidores, que sempre irá subir! Avalie e realoque sua equipe naquilo que, de fato, pode aumentar seus resultados.

Quando fazer newsletters?

Qual o tamanho do esforço que sua equipe tem empregado na produção de newsletters? Está bem que você se orgulha das suas taxas de abertura. Mas qual o retorno desse trabalho no fim do mês? A menos que você use newsletters como ferramenta de marketing ou que ela se monetize por si só, elas drenam um tempo e uma força de trabalho que podem ser mais produtivos se alocados noutra frente do veículo.

Na tarde da última segunda-feira (4), três aplicativos de comunicação ficaram fora do ar em todo o mundo. Difícil que tenha passado despercebido a alguém. Facebook, Instagram e WhatsApp, que atingiram as marcas de segundo, terceiro e quarto lugares, respectivamente, dos mais baixados globalmente em abril deste ano[1], pararam repentinamente – e levaram cerca de sete horas para voltar a funcionar.

O noticiário trouxe – até mesmo na televisão – uma explicação técnica, e que representa uma parte do problema. Quando os repórteres escreveram ou falaram sobre o “DNS”, ofertaram ao público uma justificativa da engenharia para o apagão. Perguntamos se tal informação poderia efetivamente se juntar ao entendimento do indivíduo sobre o funcionamento da rede.

Embora a questão do “DNS”, do endereço digital, resuma, talvez precipitadamente, o motivo do problema, é pertinente que a imprensa discuta o aspecto da responsabilidade da big tech na vida rotineira. Em que medida os indivíduos e empresas passaram a depender de serviços digitais para as práticas de relacionamento pessoal e de negócios?

Algumas manchetes destacaram o declínio da fortuna de Mark Zuckerberg diante do problema com os acessos. Tal fortuna pode ser colocada à prova diante da intenção de pedidos de indenização. Para o advogado Kaique Yohan Kondraski Servo, entretanto, “seria difícil vencer sobre o Facebook, dada a condição de caso fortuito ou de força maior com o que se parece o defeito nas plataformas”.

Para alguns, ficar sem esses programas representou ficar “sem Internet”. Com a falha do Facebook, houve crescimento no número de reclamações contra as operadoras de telefonia e de conexão[2]. Há quem tenha mexido no roteador, para recobrar o acesso perdido.

Jardins murados

Em alguns planos de telefonia, o acesso a determinadas plataformas não é cobrado. Mesmo que o cliente não tenha créditos, ele pode continuar a navegar. É o “zero-rating”, que contribuiu para a ideia de “jardins murados”.

Para o pesquisador-responsável pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação Política e Democracia Digital (Compadd) da UFPR, Rafael Sampaio, “uma mudança começa a ser sentida a partir da Web 2.0, quando as plataformas passam a criar muros digitais. As pessoas passam a maior parte do tempo dentro dessas plataformas. Então, se aquela rede específica para de funcionar, a Internet como um todo também para, na experiência do usuário”.

Quais riscos essa percepção levanta? O quanto nós, da indústria da comunicação, contribuímos para que estes “jardins murados” se mantenham e, até, se fortaleçam?


[1] Dados da consultoria Sensor Tower.

[2] G1. “WhatsApp fora do ar: Anatel diz não ter sido notificada sobre problemas em operadoras e afirma monitorar situação”.