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Tecnologia e estabilidade são variáveis que não costumam andar juntas. No ambiente de redes sociais, tanto menos. Para empresas de mídia que precisam inovar para se manterem relevantes, o caminho traçado frequentemente se limita a replicar o que seus concorrentes já fazem com ferramentas relativamente novas. Tem sido assim com redações que montam equipes inteiras dedicadas ao TikTok, ainda que não tenham certeza do retorno que este esforço trará. O mesmo vale para o Threads, para o X-Twitter e até para X-Hiring primeiro desdobramento prometido por Elon Musk na direção de tornar o antigo Twitter um “aplicativo-para-tudo”. A ansiedade por “estar onde todo mundo está” aconteceu com o ClubHouse, o Tumblr, até com o Koo. Enquanto isso, na contra-corrente da volatilidade, o Linkedin completa 20 anos de serviço ameno e sólido.

Recém neste ano, a rede social que desde 2016 pertence à Microsoft projeta receita de US$ 15 bilhões, menos da metade do que a Meta faturou só no segundo trimestre de 2023. A quantidade de usuários ativos também é modesta: são 930 milhões (no Brasil são 65 milhões) comparados aos 5 bilhões que transitam pelos ambientes da Meta. Mas o Linkedin nunca se propôs a ser uma plataforma massiva, ao contrário. Com um propósito claro e um modelo de negócio que não disputa pela exígua atenção do público, o Linkedin não precisa inventar funcionalidades a cada mês, nem modificar o algoritmo para forçar o sucesso de uma novidade.

É da unicidade da proposta do Linkedin que emerge um modelo de negócios sustentável e independente de publicidade. Usa a plataforma quem procura trabalho e quem recruta – e ambos têm razões de sobra para pagar pelo serviço. Claro, há quem use para discussões profissionais, informação segmentada, auto-prestígio e, ultimamente, para anotações sobre a vida pessoal – o que, aliás, não tem sido muito bem recebido pela comunidade.

Ao contrário da tendência das outras redes, que se consolidam como espaços de entretenimento e consumo, o Linkedin tem espaço para informação jornalística, conteúdo denso e referencial. Fortemente habitado pela Geração Z, traz um recorte orgânico de audiências com maior poder aquisitivo e nível mais alto de escolaridade. Acerta quem vê nesta combinação a fórmula do tal “público qualificado”, tão pretendido por veículos hipersegmentados.

É verdade que usuários demandam uma sensibilidade maior de quem lhes oferta conteúdo e não gostam de ser alvejados por generalidades a todo instante. Embora o engajamento no Linkedin cresça – em abril o compartilhamento de conteúdo aumentou 41% em comparação a 2021 -, a empresa não divulga a duração média das sessões. Será que o povo entra, posta e cai fora? Para motivar a permanência no feed, a rede prioriza publicações de contatos diretos e de publicações cujo tema dialogue com o perfil informado pelo usuário. A esta matéria da Bloomberg, a empresa afirmou que quem usa o Linkedin gosta de ver “conteúdo baseado em conhecimento” e que, em junho deste ano, a quantidade de pessoas que gostariam de ver outro tipo de posts por ali reduziu 80%. Ou seja, há mais acertos do que erros.

A densidade do “clima” no Linkedin não elimina o aspecto humano que prevalece em qualquer rede social. Isso significa que as marcas não devem estar ali com a expectativa de fazer negócio. Mesmo quem usa muito o Linkedin, o faz na condição de indivíduo e navegar na plataforma não costuma ser parte da jornada laboral de ninguém. Linkedin não é vitrine de vendas e insistir nisso pode resultar em aversão à empresa. A tônica do conteúdo bem-vindo é a utilidade profissional, daí a importância de uma curadoria seletiva, de conteúdo quase atemporal (o algoritmo ainda peca no timing de entrega), de poucas postagens que sirvam a algo mais do que apenas informar.

Enquanto a Meta reitera seu divórcio com veículos editoriais, quem sabe o Linkedin possa ser a rede social onde o jornalismo ainda faz sentido. Para isso, é preciso rever o objetivo de gerar audiência volumosa a partir de incontáveis publicações. O Linkedin é um espaço ameno, talvez silencioso, como uma biblioteca: quem entrar ali falando alto pode acabar sendo expulso. Mas quem souber aliar jornalismo com serenidade e consistência pode colher bons frutos… no longo prazo.

Dois fatos ocorreram no primeiro trimestre de 2023 que envolveram o New York Times, o Washington Post e até mesmo a indústria de games – e ambos os casos trazem ensinamentos interessantes.

A situação pode ser resumida da seguinte maneira:

Na ocasião em que o WaPo anunciava o encerramento do seu suplemento de jogos – o Launcher – o NYT comemorava um ano do recorde de uso do Wordle, game adquirido no início de 2022, no auge de sua popularidade. Ao conquistar a atenção de quase a metade da população norte-americana, o Wordle foi jogado 2 bilhões de vezes no ano passado.

Na esteira de antecessores de sucesso, como Sudoku, Spelling Bee e palavras cruzadas, o Wordle trouxe e atraiu novos assinantes ao ambiente do Times, que também engordava sua carteira por meio de outra aquisição que vem se revelando minimamente duvidosa, o The Athletic. Mas essa é outra história. Fato é que o jornalão americano chegou a anunciar que havia atingido sua meta de 10 milhões de assinantes antes do prazo e parecia acenar com uma tendência a todo o mercado editorial. 

Hoje, isoladamente, a área de games do NYT tem cerca de 1 milhão de assinantes – sem contar aqueles que assinam pacotes de games com outros produtos. Mais do que uma solução poderosa para o funil de vendas para todos os produtos da casa – incluindo as notícias -, os jogos ativam respostas psíquicas diferentes daquelas que o ser humano usualmente tem ao consumir jornalismo, e esta variável não pode ser ignorada.


Lição #1

“Jogar” não pode estar no mesmo balaio do que “ler sobre jogos”. Daí a necessidade de entendermos que nem toda aposta no assunto “games” é garantia de êxito. E foi essa a lição que o Washington Post aprendeu ao descontinuar um produto de conteúdo sobre jogos e ao criar, semanas depois, o seu próprio jogo, On The Record.

Mark Hume, editor de produtos emergentes do WaPo – e um dos criadores do novo jogo, descreveu a motivação do veículo ao criar, 5 anos atrás, o vertical sobre jogos:

Quando começamos a construir o Launcher em 2017, o objetivo era focar a atenção em um setor que se tornou o principal fornecedor de entretenimento do planeta. Para um número cada vez maior de jovens, os jogos têm mais influência do que a TV ou o cinema, e as estrelas online do YouTube, Twitch e TikTok comandam audiências que rivalizam com as de Hollywood ou do mundo dos esportes. E, no entanto, os jogos costumam ser considerados triviais, um nicho, um hobby infantil … mesmo que 3,2 bilhões de pessoas em todo o mundo se envolvam regularmente com jogos em PCs, consoles e telefones celulares.

Está fora de questionamento que a indústria de jogos seja um fenômeno global sem precedentes – e isso não é de hoje. O que move estas pessoas, porém, não é saber mais sobre o assunto, mas vivenciá-lo, experimentá-lo, ser parte daquele universo. É importante e atrativo estar informado sobre algo que nos interessa, mas ler sobre emergência climática não é o suficiente para quem quer salvar o planeta. Consumir conteúdo sobre IA nunca será tão instigante quanto usá-la. O mesmo vale para música, turismo, gastronomia, carros, moda, esporte e – pasme – também para pautas hard news, como segurança, política e economia. 

Assistir a uma reportagem sobre as enchentes do litoral paulista é uma experiência que ganha outra dimensão quando, junto, aparecem formas de fazer doações. Matérias sobre demissões em massa somariam muito se mostrassem caminhos para contratar aqueles profissionais. Com estes detalhes de enquadramento, o jornalismo não se encerra em negatividade e faz alguma diferença na sociedade – para melhor.

Portanto, não se contente em produzir conteúdo sobre um assunto em tendência. Seja a tendência. Faça a tendência. E deixe que o público seja parte dela.


Lição #2

De volta ao mágico mundo dos jogos, é inegável que a movimentação do Washington Post em criar seu jogo está inspirada no lance de mestre do NYT com o Wordle. Por mais que os criadores do On The Record digam que o jogo não foi desenvolvido para concorrer com o Wordle, há, digamos, coincidências demais: 

  • o NYT adquiriu o Wordle em janeiro/22 e o On The Record foi concebido poucos meses depois;
  • ambos trazem um desafio diário;
  • ambos são jogos de lógica;
  • ambos são facilmente compartilháveis com amigos;
  • ambos vinculam-se, em maior ou menor medida, ao noticiário do dia

Mas há uma diferença abismal que é suficiente para situar os dois jogos em patamares bem diferentes: o Times comprou o Wordle quando este já era um sucesso. Enquanto isso, o On The Record nasce debaixo da asa do WaPo, carregando o peso de conquistar adeptos, fidelizá-los para só então representar alguma coisa à carteira de assinantes do veículo. Sem dúvida, é um investimento de longo prazo. E bastante incerto.

(Lembrei agora de grandes empresas jornalĺisticas que, lá por 2007, 2008 se aventuravam a desenvolver suas próprias plataformas de blogs, de fotos do usuário e até redes sociais, gastavam boladas de dinheiro, enquanto os líderes de mercado seguiam tranquilos na preferência popular.)

Pode ser que o quiz jornalístico On The Record seja um sucesso, mas até chegar neste ponto, o esforço que o time do Bezos terá de fazer será muito maior – e custará muito mais caro – do que a compra do Wordle pelo NYT. Como a urgência do mercado de mídia não tem deixado muito espaço para resultados de longo prazo, parece altamente arriscado criar um jogo do zero, caso você esteja pensando em fazer isso no seu veículo.

O fôlego que o Wordle trouxe ao NYT não tem a ver apenas com a associação do lúdico ao universo cinza das notícias. Tem a ver com um produto estabelecido, aclamado e original. Veículos apostando em jogos, daqui para frente, pode até se tornar lugar comum e o resultado pode não ser o mesmo que no Times.

No fim, é muito mais do que jogo. Essa jogada é sobre inovação.

Escrevo esta coluna no campus da Universidade de Navarra, Espanha. Estou participando do VII Encontro Internacional do Programa de Graduados Latino-Americanos (PGLA). Um evento formidável com muitos colegas de prestígio no mundo da comunicação.

O cenário do consumo de informação preocupa. E muito. Exige reflexão, autocrítica e coragem. Todos, sem exceção, percebem que chegou para o jornalismo a hora da reinvenção.

A sociedade está cansada do clima de militância que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo. Um denominador comum marca o achismo que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: radicalização e politização. Trata-se de um fenômeno generalizado.

O jornalismo reclama alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais do que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.

O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve precedentes que poderiam ter sido evitados, não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Pensemos, por exemplo, na ignominiosa situação da corrupção. É preciso reverter um quadro que agride a dignidade humana, envergonha o Brasil e torna inviável o futuro de gerações. Não seria uma bela bandeira, uma excelente causa a ser abraçada pela imprensa?

Com seriedade e profundidade, e não como consequência do jogo político. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blá-blá-blá inconsistente, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais do que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores. E, além disso, é uma resposta ética e editorial aos que pretendem tornar o jornalismo refém da fácil cultura do negativismo.

A imprensa de qualidade, séria e independente, é essencial para a democracia. E tudo isso, tudo mesmo, depende da nossa coragem e humildade para fazer a urgente e necessária autocrítica. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais ideológicos. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

Chegou a hora do jornalismo propositivo. Aquele que não se limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções.

Todo mercado está sujeito a disrupções que levam até as maiores empresas a serem afetadas por novos concorrentes. A evolução e a migração de diversas atividades para os meios digitais afetou incontáveis indústrias. Com o setor bancário, isso não foi diferente. O Nubank, por exemplo, foi uma das primeiras empresas a se utilizar dos benefícios do universo online para oferecer produtos que ainda não faziam parte do pacote dos bancos tradicionais. Há não muito tempo, escrever sobre um banco sem agência, que oferece uma conta sem anuidade e possibilita todo tipo de transação cotidiana do conforto de casa, poderia ser confundido com uma propaganda qualquer. Hoje não passa de uma banalidade.

É possível dizer, com facilidade, que as fintechs mudaram o mercado. Atualmente, os bancos tradicionais oferecem produtos e serviços que foram criados por empresas que entraram no mercado há não mais de uma década. Embora este movimento tenha ocorrido, há algumas iniciativas que merecem ser observadas.

Em primeiro lugar, é importante perceber que a oferta de produtos e serviços criados pelas fintechs não é fácil, sobretudo porque os bancos tradicionais dificilmente conseguirão fechar todas as agências que possuem no país e que ainda atendem uma parcela da população que não se sente segura com bancos 100% digitais. Assim como as empresas de mídia, os bancos tradicionais também possuem seus próprios processos que não podem ser eliminados ou alterados de um dia para o outro com simplicidade. Tornar uma empresa tradicional em uma empresa inovadora é difícil em qualquer mercado.

Para lidar com estes desafios, muitos bancos fizeram um movimento alternativo e complementar. Exemplos como o Iti (do Itaú) e Woop (da Sicredi) ilustram bem a situação, que pode ser resumida da seguinte maneira: ao invés de fazer um Titanic navegar em velocidade acima de suas capacidades, alguns bancos optaram por lançar ao mar uma lancha capaz de competir com as mais rápidas do mercado. Em suma, buscaram manter sua estrutura original ao mesmo tempo em que lançam um novo produto para competir com as fintechs.

Este mesmo exemplo pode servir de inspiração para as empresas de mídia. Tanto no Orbis quanto no Master, falamos constantemente de inovação. O mercado está há anos passando por profundas mudanças e os produtos oferecidos, os modelos de negócios criados e a relação que sempre tivemos com a audiência não fazem mais sentido e não dão o mesmo retorno que no passado.

Atualmente, os jornais e publicações de maior sucesso encontraram diferenciais que fogem do padrão que conhecíamos, onde o conteúdo genérico expandia a circulação e garantia uma fonte maior de receita publicitária para pagar a operação. O modelo de assinatura é uma alternativa, embora não seja a única. Jornais como o espanhol El Diário apostam no membership, onde os usuários contribuem voluntariamente para ler os artigos que não são fechados atrás de um paywall. Para isso, no entanto, também precisam garantir um conteúdo diferenciado que gere uma maior identificação do leitor com o jornal e justifique o aporte financeiro.

Para as empresas tradicionais acostumadas com o conteúdo generalista, esta mudança de rota não é fácil. Mas quem disse que o jornal como um todo precisa se transformar em uma startup? Como mostram os bancos, a startup pode ser uma iniciativa complementar à empresa tradicional. A inovação no mercado de mídia já está acontecendo. A questão que fica em aberto para os jornais tradicionais é como melhor se posicionar para fazer parte deste processo.

Há alguns riscos, é certo, em adotar esta estratégia complementar. Em primeiro lugar, apostar em uma nova inciativa, por menor que seja, significa retirar recursos da operação principal em um momento em que boa parte das empresas de mídia já não está com muita margem de manobra. Também é possível pensar em um cenário em que as fintechs lançadas pelos bancos e as eventuais startups criadas pelos jornais acabem canibalizando as próprias empresas que as originaram.

Por mais reais que estes riscos sejam, alguns fatos são inegáveis. Existe uma crise de modelo de negócio e uma exaustão do conteúdo editorial que sempre oferecemos aos leitores. Manobrar mais rápido que o Titanic fez quando finalmente viu o perigo à frente é uma necessidade concreta. Talvez a melhor forma de fazer isto seja com uma nova iniciativa, mais ágil e mais inovadora. Se ela eventualmente começar a concorrer com a empresa que lhe criou, então coloco um último argumento: dada a situação atual, é melhor ser canibalizado por um produto interno do que ser devorado por agentes externos.

O Brasil possui um grande histórico de jornais e publicações que moldaram o país como ele é hoje. Atualmente, no entanto, o setor encontra dificuldades para se sustentar e sofre uma crise de relevância. Os dados do último estudo do Reuters Institute sobre a mídia, destrinchados recentemente pela nossa editora Ana Brambilla, não deixa dúvidas:  pouco menos da metade da população confia no noticiário. É verdade que os dados são ruins no mundo todo. É verdade, também, que o setor enfrenta uma delicada situação financeira no Brasil e no exterior. Poucos veículos são poupados. Os que conseguem nadar enquanto muitos se afogam, no entanto, merecem ser estudados com cuidado, uma vez que conseguem publicar conteúdo relevante e diferenciado, manter os leitores engajados e garantir um bom balanço financeiro.

Talvez um dos elementos que mais faltem para as empresas jornalísticas retomarem uma maior relevância perante o público e obterem maior retorno financeiro, seja criatividade. É comum ouvirmos dos profissionais da mídia que se uma ideia não foi ainda testada por outros jornais, então não vale a pena implementá-la em seu próprio veículo; é arriscado demais. O risco, no entanto, é inerente a toda inovação. E inovação, por sua vez, nunca foi tão necessária.

 

O sucesso da revista The Spectator:

A inglesa The Spectator é a revista semanal mais antiga do mundo – ou isso é o que argumentam de forma bastante convincente. Publicada ininterruptamente desde 1828 – se aproximando do seu aniversário de 200 anos, portanto –, ela se especializa na cobertura de política, cultura e atualidades. Seu diferencial está na linha editorial, no formato de publicação, no design gráfico e no modelo de negócios.

Para se diferenciar da competição e atrair o leitor, a Spectator adota uma linha editorial clara e bem definida. “Nossos escritores não têm posição partidária; sua única lealdade é com a clareza de pensamentos, elegância de expressão e independência de opinião. Nossos escritores têm posições que variam da esquerda para a direita (…) Nenhum tem qualquer pretensão de ser imparcial”, afirmam. A colocação, a princípio, faz crer que a revista busca um certo grau de neutralidade ao afirmar que possui escritores nos dois lados do espectro político. Embora isto seja verdade, o diferencial está nas matérias em si. Nenhuma delas apresenta os dois lados da história e os escritores – a maioria não é repórter – não colocam aspas nas matérias que assinam. Citar especialistas é algo incomum na Spectator pois seus escritores são qualificados o suficiente – frequentemente mais do que o suficiente – para analisar e interpretar os acontecimentos e fatos por si só. Assim, um destaque da revista é que não há divisão entre a reportagem e a opinião. Ambas compõem uma mesma matéria.

Algumas capas marcantes da Spectator: da esquerda para a direita, as publicações abordam a invasão de Putin à Ucrânia, a edição 10.000 da revista (representando todas as gerações de leitores que tiveram) e a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA.

De forma semelhante, os escritores da revista não possuem o hábito de citar discursos políticos recentes de forma meramente informativa. Quando o fazem, é sempre para emitir uma opinião ou comentário sobre uma respectiva fala. Isso, no entanto, não significa que a revista se recuse a dar voz a políticos – muito pelo contrário. A recente renúncia de Boris Johnson ao cargo de Primeiro-Ministro abriu as portas para que diversos membros do Partido Conservador se lançassem candidatos para substitui-lo em Downing Street (até que haja novas eleições, o Partido Conservador continua tendo maioria no parlamento e, portanto, o direito de governar o país). Ao invés de publicar matérias com citações pontuais dos novos proponentes ao cargo, a revista optou por apresentar, na íntegra, os discursos políticos de ex-membros do gabinete de Johnson, como Rishi Sunak e Tom Tugendhat, que se candidataram a ocupar sua cadeira. Seguindo esta abordagem, a revista também traduziu e publicou integralmente o discurso feito por Vladimir Putin no início do ano em que anunciava suas justificativas para invadir a Ucrânia. Desta forma, a revista remove o papel exercido pelo jornalista de intermediário entre o discurso político e o leitor. Além disso, ela também garante que importantes pronunciamentos sejam lidos por completo, sem o risco de enquadramentos que frequentemente descontextualizam importantes mensagens.

Todos estes elementos propiciam uma forte identidade à revista (e identidade é o seu principal motor para garantir leitores e receita).

 

Charges, caricaturas e chocolates

Não é propriamente uma novidade, mas vale reforçar a importante conexão entre um produto e sua embalagem. Esta relação pode ser observada em todos os setores do mercado e não é menos verdade no setor da mídia. Produtos jornalísticos, assim como qualquer outra mercadoria, também precisam conectar sua identidade visual com aquilo que pretendem vender. No caso da Spectator, esta conexão é profunda, clara e muito bem explorada.

O visual diferenciado se nota rapidamente. As capas da revista nunca estampam fotografias, por exemplo. Ao contrário, o artigo principal é sempre destacado por uma expressiva ilustração. O estilo artístico também está presente nas matérias do site e nas páginas impressas, com diversas charges irônicas sobre temas atuais. Este visual se mostra presente até mesmo entre os autores dos artigos e análises, que ganham destaque no início e no final dos textos e são representados não por uma fotografia, e sim por caricaturas.

Charges vendidas na loja online da Spectator (cada uma no valor de 95 libras, aproximadamente 600 reais).

Esta identidade visual própria também rende frutos financeiros, já que a revista não se intimida em vender produtos diretamente ao público – seja ele assinante ou não. Na loja online do site é possível encontrar diversos tipos de mercadoria (muitos deles altamente inconvencionais para um veículo de mídia): de chocolates embalados com caricaturas típicas a roupas de bebê com estampas da revista. As capas, assim como as charges que ilustram o site e as páginas do impresso, também são vendidas de forma avulsa por nada mais, nada menos, do que 95 libras (aproximadamente R$ 600,00). Caso o comprador queira dar ainda mais reconhecimento artístico às ilustrações, é possível adicionar uma moldura às capas ou charges por mais 30 libras (R$ 190,00).

Em novembro de 2021, seguindo uma publicação feita pelo colunista Jack Rivlin sobre NFTs (sigla para “tolkens não fungíveis” que tem sido, na expressão do próprio Rivlin, “a última fronteira dos maníacos das criptomoedas” que gastam somas altíssimas de dinheiro para comprar e vender “arte” digital), a Spectator entrou na brincadeira e resolveu leiloar uma das suas capas mais famosas como um tolken digital. Ao fim do leilão, a capa feita após o referendo do Brexit foi vendida por pouco menos de US$ 19,000 (R$ 104,000,00 pela cotação da época).

Capa leiloada pela Spectator como NFT. Na ocasião do Brexit, esta edição ficou conhecida no país por mostrar uma borboleta com as cores do Reino Unido saindo de uma caixa representada pelas cores da União Europeia. Na capa lê-se: “Fora, e para dentro do mundo”

Toda essa ampla gama de produtos que geram receita para a revista só é possível graças à sua identidade visual distinta. No entanto, a proposta gráfica também se conecta ao modelo editorial da Spectator, dando o tom do estilo de conteúdo que publicam: matérias bem elaboradas que analisam e interpretam a realidade, e não apenas a apresentam objetivamente. Assim, com publicações fortemente diferenciadas, a revista consegue ter 87% da receita vindo diretamente dos leitores segundo balanço divulgado pela empresa em agosto do ano passado.

Outro dado impressionante, é que a assinatura do produto exclusivamente digital é popular, mas a maior parte dos novos assinantes opta pelo pacote completo: impresso + digital pelo preço nada modesto de 18,99 libras ao mês (aproximadamente R$ 122,00). Dentre as revistas inglesas, a Economist continua reinando com uma tiragem média de 995 mil exemplares (embora apenas 163 mil deles circulem no Reino Unido). Já a Spectator tem uma tiragem média de 102 mil exemplares, dos quais 89 mil circulam no Reino Unido. Os números completos podem ser encontrados aqui. Talvez o que mais chame a atenção é que dentre as 10 revistas sobre atualidades com maior tiragem do país, apenas três reportaram um aumento na publicação em comparação com 2020. Enquanto a revista Private Eye e a BBC History Magazine aumentaram sua circulação em 1% e 3% respectivamente, a Spectator, excluindo sua edição “Austrália”, cresceu 13%. É, sem dúvida, um ponto fora de curva em um mercado que não tem prosperado nos últimos tempos.

Imagem tirada da Press Gazette

Além da revista impressa fazer sucesso, o site, recentemente redesenhado, vem permitindo que a Spectator publique matérias regularmente para atrair mais tráfego online. Em relatório publicado em agosto de 2021, a empresa anunciou ter tido 6,7 milhões de pageviews entre os meses de abril a junho daquele ano. Embora seja um número significativo, o próprio editor Fraser Nelson anuncia: “Nós não prestamos mais muita atenção em tráfego: nosso foco é recrutar e servir aos assinantes”. Isso representa uma mentalidade diferente da praticada por muitas empresas de mídia que migraram para o digital, mas continuam seguindo a lógica do impresso onde a ideia de expandir a circulação para obter mais dinheiro dos anunciantes ainda impera.

A realidade da imprensa, no entanto, nem sempre fora essa. Como explica Martínez no já citado artigo da Wired, o jornalismo nos EUA deixou de ser partidário quando “um mercado nacional para consumo de bens se abriu após a Guerra Civil Americana”. Foi nesta ocasião que os “fornecedores como lojas de departamento buscaram alcançar grandes públicos urbanos” e os jornais, por sua vez, “responderam aumentando o número de anúncios e mudaram para modelos que pegam leve no partidarismo político no interesse de expandir a circulação”.

A publicidade continua rendendo rios de dinheiro, mas nas mídias digitais, apenas uma pequena fração dessa enxurrada cai na conta dos jornais. Aquelas empresas que melhor se adaptaram aos novos tempos adotaram o modelo de assinatura. Mas qualquer modelo de negócios só rende frutos – e isso é especialmente verdadeiro no mercado jornalístico – se estiver alinhado com a proposta editorial.

Para converter os leitores ocasionais em assinantes, a Spectator luta constantemente para fortalecer sua identidade. Não há dúvidas de que o maior diferencial editorial da revista seja o seu conteúdo analítico, profundo e bem elaborado. É possível que isso, por si só, já restrinja o seu público e o seu potencial de conseguir uma audiência tão ampla quanto os jornais e portais generalistas. Mas é certo, também, que a revista é muito eficaz em conseguir a assinatura e a fidelidade da parcela dos leitores que ela se propõe a atingir com conteúdo analítico.

No relatório publicado em agosto de 2021 sobre os bons resultados obtidos pela revista, seu editor Fraser Nelson conclui escrevendo: “Nós estamos convidando nossos leitores para uma bebida em nosso jardim ao longo do verão a fim de agradecê-los pessoalmente, e eu gostaria que tivéssemos o espaço para conhecer todo mundo. Trabalhar para você é realmente a maior honra do jornalismo”. Identidade bem-marcada, produto diferenciado, contato com o leitor e um modelo de negócio bem-desenvolvido tem sido um bom caminho para as empresas de mídia que continuam sofrendo financeiramente com a queda da receita publicitária. Certamente é mais fácil falar do que aplicar estas ideias. Exemplos práticos, no entanto, mostram que esse caminho é possível… e talvez, mais ainda, necessário.

Toda a vez que surge um novo veículo de jornalismo, dois fenômenos acompanham o lançamento:

  • a promessa de que este veículo vai revolucionar o mercado de mídia;
  • a sensação de que isso não passa de mais um embuste.

Com a recém-lançada “Semafor” – que iniciou as operações hoje –  não é diferente. Em março deste ano li na Axios sobre uma nova publicação em gestação por dois grandes nomes da mídia norte-americana: Justin Smith (ex-chefe da Bloomberg Media) e Ben Smith (ex-colunista de mídia do New York Times e ex-editor-chefe do Buzzfeed News). Alguns investidores achavam o projeto “muito vago” e fugiam dele. No entanto, foram necessários apenas quatro meses para a história mudar.

O então chamado Project Coda prometia ser um produto jornalístico de elite, disposto a preparar o terreno para uma cobertura intensiva das eleições presidenciais de 2024, além de ter verticais de tecnologia, finanças, clima, segurança internacional e mídia. Mas o carro-chefe já estava decidido e seria mesmo a política norte-americana.

A movimentação dos Smith chamou a atenção do mercado não apenas pela audácia – e astúcia – de criar um veículo jornalístico em meio à profunda crise que o setor enfrenta. A dupla andava passando o chapéu entre milionários do setor, como Jessica Lessin, fundadora do icônico The Information, David Bradley, presidente emérito da The Atlantic, John Thornton, cofundador do Texas Tribune e do bilionário de criptomoedas Sam Bankman-Fried. E não é que deu certo?

Em pouco tempo, os fundadores da Semafor levantaram US$ 25 milhões para dar vida à publicação. A escolha por investidores particulares ao invés de empresas de capitais de risco foi proposital, para garantir mais segurança ao novo veículo, que não sofrerá tanta pressão para dar retorno imediato. As fontes de receita da Semafor, por enquanto, estão previstas para repetir os velhos modelos de publicidade, assinaturas (no futuro) e eventos presenciais.

Por outro lado, a Semafor surpreende por detalhes inovadores de sua proposta editorial.

Jornalistas na linha de frente

O nome do autor de cada matéria aparecerá quase com o mesmo destaque visual do que o título do conteúdo. A proposta enfrenta um tabu na indústria da mídia, em que profissionais têm uma opinião dividida entre preservar suas identidades e brilharem mais do que o veículo a ponto de concorrerem com ele nas redes sociais.

Na Semafor, a intenção é estimular que o público mantenha contato com o jornalista, que será incentivado a atuar em redes sociais e construir comunidades. Para o lançamento, a publicação conta com 30 jornalistas alocados em Londres, Nova York, Washington, com planos de expansão para a África ou o Oriente Médio.

Dependendo dos talentos editoriais que a Semafor conseguir fisgar do mercado, novos verticais poderão surgir, respeitando as especialidades de dedicação de cada jornalista.

Remuneração diferenciada

O protagonismo da redação promete ser um diferencial significativo da publicação. A empresa declarou que garantirá aos jornalistas o recebimento de “toda ou da maior parte” da receita proveniente de suas propriedades intelectuais, como contratos de livros ou direitos de filmes.

Será hora de revermos nossa CCDA?

Notícia de um lado, opinião do outro

O design do site colocará ênfase na divisão clara entre seções de relatos factuais e espaços opinativos. A meta é que não haja qualquer traço de opinião fora da seção de opinião (ou de análises dos repórteres). Noutro espaço estarão as informações factuais. A iniciativa é uma forma de reagir à mistura de informação e opinião que os Smith dizem ser praticada sem constrangimento por muitos veículos da atualidade.

O que esperar da Semafor?

Como uma startup de notícias nativa digital, a Semafor quer conquistar o mundo – ao menos a parte anglófona. A exemplo de Buzzfeed, Quartz, Vice e do moribundo Huffington Post, a Semafor pretende alcançar uma audiência global. E a escolha do nome reflete esta ambição: a palavra é uma variação de “semaphore” que, no inglês, significa um sistema de sinalização náutica. Sim, ela é um falso cognato ao português: semáforo, em inglês, é traffic lights. Mas o campo semântico é o mesmo.

E o que “semaphore” tem a ver com audiência global. É que a palavra tem uma grafia, uma sonoridade e uma denotação semelhantes em cerca de 30 idiomas, segundo Justin Smith.

Por enquanto, o domínio ainda está ocupado com um warm up convidando o público a deixar o e-mail. Mas um evento reunindo os fundadores e alguns jornalistas da redação e de outros veículos já aconteceu neste dia 7 de julho, para marcar o lançamento da publicação. Houve transmissão ao vivo e ficou gravado no YouTube. O tema é providencial: Sinais e Ruídos – Polarização e Confiança nas Notícias.

(Este texto é a parte III do artigo Jornalismo para além do conteúdo.)

Há outros – vários – papéis desempenhados pelo jornalismo. Cada um deles, entendo, se justifica mediante uma necessidade real e todos, invariavelmente, se transformam em mais e mais informação. Sim, aquela informação que habita o mesmo lamaçal das fake news e, no melhor dos mundos, disputa a atenção do usuário com produtos de entretenimento e com a pirataria. Tudo no mesmo ambiente, tudo ao alcance de um clique. Quem saberá distinguir o jornalismo de qualidade? Quem poderá percebê-lo tão valioso a suas vidas, a ponto de pagar por ele?

Isso me diz que já não basta ter qualidade. É preciso encontrar uma forma de as pessoas voltarem a depender do jornalismo para alguma coisa além de “se informar e entender a realidade”. É difícil fazer isso sem acompanhar o noticiário. E digamos que, mesmo acompanhando, a sensação de que produtos jornalísticos saciam uma necessidade do meu dia é cada vez mais rara. Talvez as minhas necessidades sejam outras? Talvez outras fontes mais próximas estejam me mantendo informada e a par da realidade? Talvez mais pessoas estejam agindo assim?

Não se pode dizer, entretanto, que não haja outras “dores” a serem sanadas entre a população. Várias delas, aposto, poderiam ser atendidas por meio do trabalho de jornalistas e de veículos de comunicação. Não sabemos apenas produzir conteúdo.

  • Sabemos escutar, fazer perguntas, moderar o debate; podemos (ajudar o público a) dialogar.
  • Sabemos investigar, reagir com rapidez na busca por contatos e informações; podemos resolver problemas. (Tks, Victor Vieira!)
  • Temos o domínio da fala, da língua, da escrita, da comunicação; podemos ensinar.
  • Nutrimos relações ecléticas; podemos facilitar o convívio.
  • Carregamos um repertório cultural rico; podemos compartilhar e enriquecer outras pessoas.
  • Buscamos especialistas para que digam como agir em determinada situação; sabemos aconselhar.
  • Temos acesso privilegiado a diferentes instâncias de poder; podemos construir pontes, promover encontros, suscitar projetos.
  • Temos projeção midiática e, embora não sejamos mais os únicos, podemos emprestá-la a quem precisa, com legitimidade e boa intenção. 

O que mais temos, sabemos e podemos fazer pela sociedade? Que outras habilidades carregamos no âmago da nossa profissão?

No fim das contas, ficam três perguntas:

  1. Qual dor real do usuário temos para tratar? (Quais problemas a sociedade enfrenta hoje?)
  2. Assim como a Fujifilms, quais habilidades subjacentes temos em nossa atividade?
  3. No que podemos aplicar tais habilidades, para além da produção de conteúdo (ou de filmes fotográficos)?

INÍCIO
PARTE I: Mercado saturado e mercado decadente: a natureza infinitamente reprodutível da informação
PARTE II: Por que o jornalismo surgiu?


(Este texto é a parte I do artigo Jornalismo para além do conteúdo.)

A forma como grandes indústrias lidaram com a disrupção digital na história recente condicionou a continuidade ou o encerramento de suas atividades. Uma referência é o conhecido caso da Kodak – que decidiu não apostar na câmera digital desenvolvida em 1975 pelo seu próprio engenheiro, Steven Sasson. A alegação da empresa era de que as fotos digitais canibalizariam o processo de revelação, onde a Kodak realmente fazia dinheiro.

No começo dos anos 2000, ouvi esta mesma palavra – canibalização – ecoar pelos corredores de uma das maiores empresas jornalísticas da América Latina, como uma ameaça iminente: os sites não poderiam “concorrer” com a versão analógica dos veículos. Preferia-se não publicar parte do conteúdo no site do próprio veículo, como forma de induzir o consumo offline. Inevitavelmente, aquele conteúdo dito “premium” aparecia escaneado e disponibilizado gratuitamente em blogs e sites de compartilhamento pirata.

“Imprime e manda pelos correios” – eis a solução [irônica] para devolver uma informação.
A natureza da informação, como bem de consumo, é incompatível com a economia da escassez, regulada pelo princípio da oferta e demanda. Diferentemente das mídias palpáveis (CD, LP e, sobretudo, o papel), a informação é reprodutível ao infinito, sem prejuízo ao formato. Não há informação que possa ser “descompartilhada”; uma vez que ela chegou a você, ela é sua eternamente.

A qualidade mantida pelos formatos digitais permitiu que o som de um arquivo MP3 copiado gratuitamente fosse exatamente igual ao do álbum original e não cheio de ruídos como as fita K7 gravadas a partir de LPs. As páginas fotocopiadas de livros originais sempre traziam manchas ou a curva do exemplar dificultava a reprodução pela máquina. Era difícil de ler! Já a cópia de um PDF mostrará a mesma perfeição que o arquivo original. 

Por vários anos depois da consolidação da Internet como canal de distribuição e de circulação de conteúdo, empresas jornalísticas ainda tentam vender informação em um ambiente saturado por ela. É como se a Kodak insistisse em faturar com a revelação de fotos do Instagram. Simplesmente não faz sentido! O entorno é outro e, uma vez publicada na rede, a foto cumpriu o seu papel de conectar indivíduos. Afinal, este era o propósito das intermináveis sessões dos álbuns de viagem na casa dos parentes.

Como ser Kodak em meio ao Instagram? Como fazer jornalismo na Internet? Ambas perguntas apontam para a mesma necessidade: recuperar a relevância na vida das pessoas.

Em busca da sobrevivência

Nos primeiros meses da pandemia, a Kodak anunciou que entraria na indústria farmacêutica, com a produção de substâncias ativas para a fabricação de medicamentos genéricos que ajudariam no combate ao coronavírus. Mesmo que a companhia consiga driblar as exigências do governo norte-americano para a concessão de um empréstimo de US$ 765 milhões para viabilizar o projeto (o que se estende por quase dois anos), a falência da Kodak já levou a empresa a vender patentes de seus produtos a big techs, encerrando um mercado e um modelo de negócios rentável durante décadas.

Enquanto a Kodak amargava o fracasso de suas operações, a Fujifilm – concorrente japonesa na produção de filmes e câmeras fotográficos – tratava de redirecionar seu know-how químico e tecnológico para outras indústrias. De câmeras, passou a fabricar componentes para telas de TV e para manutenção de aeronaves, turbinas a gás e maquinário de alta precisão. De filmes e substâncias para revelação, hoje atende produtores de plástico e de borracha, além de ter uma unidade de importação de vinhos.

Relevância é isto: servir quem necessita da gente, a partir do que temos de melhor. A Fuji entendeu cedo que precisava olhar para dentro e identificar o que tinha de melhor para oferecer ao mercado. E não eram filmes fotográficos. Era aquilo que os habilitava a fazer filmes fotográficos. Esta é a essência de qualquer empresa: o que há de subjacente em seu produto atual e possibilita que ela sirva aquilo que o mercado necessita. [Esta reflexão sobre indústrias inovadoras foi trazida pelo Prof. Ricardo Engelbert, em sessão do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia de 2022, do Master Negócios de Mídia.]

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PARTE II: Por que o jornalismo surgiu?
PARTE III: O que sabemos fazer?

Certa vez, ouvi a história de uma empresa farmacêutica que tinha um problema a ser resolvido e não via outra saída a não ser trocar todo seu maquinário. Obviamente, isso demandaria um custo financeiro gigantesco. O problema era que, em sua linha de produção, algumas caixinhas do xarope mais vendido pela empresa acabavam chegando às farmácias com os vidros vazios. Tudo por causa de uma falta de regulagem na máquina que injetava o líquido do medicamento dentro dos vasilhames, a qual, infelizmente, não tinha mais conserto.

Um dia, o diretor da empresa, num último esforço para resolver a dificuldade, convocou uma reunião com todos os funcionários para pensarem juntos numa solução que não onerasse tanto a companhia. Após os diretores darem seus pitacos mirabolantes, com ideias revolucionárias e sem sucesso, uma figura simples – mas com muito vigor – saiu do meio dos colaboradores e surpreendeu o grupo.

Dona Maria, que há 10 anos realizava o serviço de faxina na área de produção – portanto, conhecia o setor como a palma de sua mão – levantou o braço e disse: “Dá licença, desculpe me meter na conversa dos doutores, mas… e se a gente colocar um ventilador ao lado da esteira de produção? Assim, as caixinhas com os vidros de xarope vazios cairão da esteira com a força do vento e não corremos o risco de enviá-las junto das que irão cheias para as farmácias.”

É comum, caro leitor, acharmos que a inovação está nas mais altas tecnologias, na necessidade de novos profissionais, novos “maquinários”, modelos de negócio, na análise de novos dados etc. Mas, no fundo, será que – como os executivos da empresa citada acima – não estamos procurando inserir elementos nas redações que nos provoquem uma sensação de inovação mais do que o verdadeiro tesouro da transformação que vem das ideias simples, de pessoas simples?

O mercado de mídia tradicional para os jornalistas encolhe ano a ano. É um fenômeno mundial que assombra os profissionais. A boa notícia é que, do outro lado da balança, cresce exponencialmente a demanda por profissionais da comunicação especializados em Marketing Digital. É uma tendência que há mais de uma década vem se desenhando. E, entendam, de uma vez por todas, que veio para ficar. Tem muito espaço para os jornalistas se reinventarem nesse nicho de mercado, mesmo estando nos veículos de mídia tradicionais.

Os grupos de comunicação estão ávidos por profissionais capazes de propor projetos e soluções que ajudem a dar relevância aos produtos. Na disputa pelas verbas de mídia, os veículos sistematicamente precisam inovar para se manter interessantes para o público. E o diferencial, além da credibilidade, é a produção de conteúdo. 

Repensar os modelos de negócio e os produtos para atrair audiência e leitores já deixou de ser tarefa para a Alta Direção há tempos. Cabe a todos nós, jornalistas que somos, ocupar esse espaço e propor novos modelos de negócio e produtos. Mas aí vem uma questão: o que vamos fazer? Não há fórmula mágica e nem um único caminho! Cada um pode olhar as suas habilidades, seus interesses e propor soluções. 

Mergulhados na rotina diária da redação, reconheço que as urgências e demandas dominam. Mas não deixem para se qualificar quando o mundo desabar na sua cabeça…

Hoje, em pleno distanciamento social – e incertezas no mercado -, observa-se o crescimento de oportunidades de trabalho para jornalistas nos anúncios do LinkedIn, grupos de Facebook e WhatsApp. As habilidades mais requisitadas são funções de social media: especialista de SEO, gestor de mídias digitais, criação de anúncios, monitoramento de redes, gestor de comunidade e a produção de conteúdo, expertise que a maioria dos jornalistas é craque e tira de letra.

O conteúdo de qualidade é capaz de engajar a audiência, dar credibilidade e fazer a diferença numa estratégia cuidadosamente desenhada para decolar no mundo digital. Vivenciamos o crescimento exponencial dos podcasts e o surgimento de startups que fazem curadoria de conteúdo. Além disto, está cada dia mais sólido o conceito de desintermediação de marcas: empresas investindo na criação de plataformas próprias e na produção de conteúdo customizado.

Neste “novo” mercado estão as vagas mais interessantes. Mas centenas de jornalistas enfrentam a barreira inicial para ocupar e concorrer a essas vagas: a qualificação nas ferramentas indispensáveis para trabalhar a comunicação no ambiente digital. E todos nós precisamos urgentemente desenvolver essas habilidades. Mergulhados na rotina diária da redação, reconheço que as urgências e demandas dominam. Mas não deixem para se qualificar quando o mundo desabar na sua cabeça…

Me fiz essa pergunta várias vezes: qual é a dificuldade? E parte do problema, penso eu, é que a dificuldade vem de bloqueios que carregamos ao longo da existência. Mudar hábitos e conceitos não é fácil. Exige um esforço e ter tempo livre para repensar e reaprender.

Parar para seguir

O tema é a minha, a sua, a nossa transformação digital, que todos falam, todos sabem que precisam, mas que não conseguem enfrentar o desafio e transpor as barreiras.  Me fiz essa pergunta várias vezes: qual é a dificuldade? E parte do problema, penso eu, é que a dificuldade vem de bloqueios que carregamos ao longo da existência. Para citar alguns: bloqueio da tradição, do ocupado, do especialista e até bloqueio da geração. Mudar hábitos e conceitos não é fácil. Exige um esforço e ter tempo livre para repensar e reaprender. Digo que o “momento da pausa”, necessário pelo distanciamento social, é propício à abertura de novas frentes de aprendizado. Muitos jornalistas podem e devem aproveitar! E mesmo estando em veículos de mídia tradicionais, é possível manter o emprego vencendo o preconceito e se qualificar para atuar como um jornalista digital. 

A minha intenção, ao organizar as ideias que apresento aqui, é compartilhar um pouco da minha vivência e da jornada que embarquei pra abandonar os hábitos arraigados, processos e rotinas que me acompanharam por três décadas na imprensa tradicional e que hoje me permitem manter ativa, interessada, necessária, criativa e ainda estar no mercado de trabalho. Como acredito que conhecimento é para ser compartilhado, trago alguns dos insights e experiências da jornada que me deu um norte e ganhou força no início de 2016, depois de ser demitida da empresa onde tive contrato formal de trabalho por 25 anos, jornadas extensas e exaustivas de trabalho. Tempo bom, de muito idealismo e com toda a estrutura para realizar o que a minha criatividade permitia. Mas se tudo mudou, não adianta ficar parado. É hora de agir!

Reaprendizagem Criativa

A minha jornada de conhecimento tem várias âncoras. Reaprendizagem Criativa é uma delas. Para reaprender, é necessário abandonar o que não nos representa mais e entrar, de cabeça, no processo de conhecer as tendências. Estamos neste momento: o que está posto já não nos representa. E o novo ainda está sendo desenhado, está em construção e quero fazer parte dele!

Há quatro anos optei por ser uma profissional liberal. Desde então fiz diversos cursos rápidos no Brasil e fora do país. Nessa altura da minha existência não adianta mestrados e doutorados. Há um mundo de oportunidades, muitas gratuitas, para ajudar o jornalista a entender o momento de transformação e muitas técnicas a serem aprendidas. E a cada novo evento me vem a frase de Sócrates, o filósofo grego “só sei que nada sei”… Meus interesses vão da comunicação a assuntos de Inteligência Artificial, decoração, mindfulness, o que se passa no Vale do Silício, nos grandes players do mercado da comunicação, no Tik Tok e outras plataformas que estão emergindo. 

Quando não alimentamos pensamentos egocentrados, somos verdadeiros principiantes e podemos aprender alguma coisa nova, de fato.

Recentemente descobri que, intuitivamente, adotei no meu processo de requalificação e de reinvenção o shoshin, que é um conceito presente nas religiões e filosofias orientais, sendo um dos pilares do zen-budismo japonês. É também o título de um famoso livro da década de 70, de Shunryu Suzuki, “Mente Zen, mente de principiante”. Na prática, shoshin significa manter-se sempre aberto ao aprendizado. Isso inclui todas as formas de absorver conhecimento e habilidades

Transportei o conceito para o meu desafio de mudança na Era da Informação. Incorporei no meu mindset que a transformação digital estava trazendo um grande impacto para a profissão que adotei por vocação e paixão. O jornalismo não estava morrendo, mas se reinventado, abrindo novas possibilidades de modelos de negócios e de empresas, de desintermediação dos veículos de comunicação como publisher e o surgimento de startups focadas em curadoria de conteúdo e publicações digitais de nicho.

Um marco no meu processo de reaprendizagem foi a decisão de fazer, em 2016, o curso Gestão de Empresas de Mídia do ISE, Instituição associada à Universidade de Navarra, na Espanha, um centro de estudo da Comunicação e da Transformação Digital. Vibrei! No ano seguinte, lá estava eu na turma do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia. Conheci jornalistas que também estavam nessa jornada, interessados em abraçar o novo momento da profissão.

Muita discussão de casos e principalmente insights para pensar novos negócios. Contato com narrativas transmídia, projetos nativos digitais. Experiências no Brasil e noutros países. E a oportunidade de estar lado a lado com quem está pensando e fazendo o novo momento da mídia no Brasil. Uma troca muito rica que extrapola o aprendizado em sala de aula. Foi o início de um círculo virtuoso da minha reaprendizagem criativa. E uma ideia criativa é a soma de inputs que estão na sua cabeça. Daí vem a inspiração para você também fazer a transição para a comunicação na era digital. 

A mente de principiante

Voltando ao conceito do “shoshin”. Nossa “mente original” é sempre rica e autossuficiente. É uma mente vazia e aberta a tudo. Há muitas possibilidades na mente do principiante. Mas poucas na mente do expert que eu acreditava ser como veterana do jornalismo. Suzuki Sensei explica o conceito: “na mente do principiante há muitas possibilidades. Na mente do perito há poucas”. Ou seja, se você acha que já aprendeu o suficiente sobre um determinado assunto, no nosso caso, jornalismo, bloqueia sua mente e perde a oportunidade de aprender cada vez mais. Quando não alimentamos pensamentos egocentrados, somos verdadeiros principiantes e podemos aprender alguma coisa nova, de fato.

Um jornalista com mente de perito deixa de tentar aprender novas habilidades porque acha que já tem conhecimento suficiente. E, especialmente no novo momento do jornalista, isso é mortal! Novidades aparecem o tempo todo. Ideias sólidas são derrubadas de repente. Abordagens novas sempre jogam luz sobre velhos problemas mal resolvidos. Assim, o mais importante é manter a sua mente de principiante.

E onde vou chegar com todo esse processo de Reaprendizagem Criativa? Eu não sei… E como a resposta para o futuro do jornalismo também não é simples, essa também não é uma resposta simples para os profissionais jornalistas. Tenho muitos webinares pela frente….

Hoje faço consultoria em Gestão de Empresas de Mídia, Planejamento e Desenvolvimento de Estratégias de Comunicação e Gestão de equipes, projetos de produção de conteúdo, formato de produção audiovisual e recentemente, projetos de Inbound marketing e Brand Publishing. Aprendo a cada novo desafio. O home office, compartilhado com afazeres domésticos, demandas da família e um equilíbrio melhor entre a vida profissional e pessoal entraram no meu dia a dia. Sou mais calma, mais serena, mais feliz!