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Era para ser uma entrevista sobre jornalismo local. Mas o entrevistado, Lluís Cucarella, jornalista e consultor espanhol, diretor do Observatorio para la Transformación del Periodismo Local resolveu dar uma aula aos leitores do Orbis Media Review.

Lluís Cucarella acaba de lançar o dossiê “Desafios Editoriais da Imprensa Local no Mundo Pós-Coronavírus”.

A análise de Cucarella se desdobra pela criação de hábito de consumo de notícias, pela revisão dos critérios de noticiabilidade, pelo jornalismo partidário ou posicionado, pela interação entre leitores e jornalistas, pelos desafios de se fazer jornalismo local em megalópoles e também pelo universo da televisão.

A visão ampla que Cucarella lança aos desafios do jornalismo na atualidade se sustenta pelos quase 30 anos de experiência que acumula ocupando cargos diretivos em veículos espanhóis e à frente da consultoria Next Idea Media. Sua atuação se estende à docência em escolas de negócio e à diretoria editorial do site Laboratorio de Periodismo, da Fundación Luca de Tena.

No final de maio, Cucarella lançou o dossiê Desafios Editoriais da Imprensa Local no Mundo Pós-Coronavírus (pdf, em espanhol) e agora prepara um livro em que entrevista editores de veículos locais. A previsão de lançamento é para o primeiro semestre de 2021.

Os tópicos abordados na entrevista:

Conquista da atenção do usuário e criação de hábito de consumo de notícias

Novos rumos do conteúdo editorial

Jornalismo a serviço da comunidade

Neutralidade e cobertura posicionada

Noticiário local nas megalópoles

Os desafios da TV local

Era o início da noite de 14 de fevereiro de 2020 e o centro histórico do Recife já estava agitado com o pré-carnaval. Pelas janelas do prédio da Rua Marquês de Olinda, onde está a sede do mais antigo jornal da América Latina, o Diário de Pernambuco, era possível ouvir a passagem barulhenta de inúmeros blocos e grupos. A alegria parecia contagiar os profissionais da Redação, que preparavam a primeira edição de um jornal renovado em conteúdo e forma e que anunciava o projeto Rumo aos 200 anos – o DP, como é carinhosamente chamado, tem 194 anos de uma história riquíssima.

As duas ideias eram parte de um trabalho iniciado havia pouco mais de 60 dias, com a intenção de melhorar com rapidez a sobrevida do título. Como todos os jornais tradicionais, o Diário de Pernambuco vem sofrendo as consequências da revolução digital. Alguns, como o DP, em grau desesperador, por diversas razões. Não havia verba para melhorias, pois o capital disponível era usado para pagar os salários e as dívidas e para manter a operação.

Nos muitos anos em que passei pelo Estadão (foram 26, a partir de 1990), percebi o quanto um processo de desconstrução é difícil.

O jornal estava editorialmente frágil, com pouca produção local, trazendo basicamente conteúdos nacionais. A operação digital, que chegou a ser uma das melhores do Brasil, mostrava números de quedas impressionantes. Resultado do processo de enxugamento de sua Redação, vivido por todos os grupos brasileiros para tentar manter seu título vivo. E tinha ainda distorções sérias de produção e negócio, causadas por cortes em todas as áreas na mesma busca pela sobrevivência.

Nos muitos anos em que passei pelo Estadão (foram 26, a partir de 1990), percebi o quanto um processo de desconstrução é difícil. Tive a chance de acompanhar e comandar alguns deles. Certamente um dos maiores problemas era o desejo de tentar manter a maior parte das estruturas existentes, mesmo com a redução gradual dos recursos e do pessoal. Com o tempo este processo vai causando uma distorção enorme não somente na forma de produzir e entregar o conteúdo, mas nas áreas de produção, logística e negócios. Gera distorções como as vistas então no DP. Não só uma Redação voltada basicamente para o fechamento do jornal, com pouquíssima produção local e num horário muito tardio, mas uma marca com muitos produtos supérfluos e uma operação de produção e de logística não adaptada às novas condições.

O processo de foco preciso impactava positivamente não só a Redação, mas a operação digital, de logística, de mercado leitor, comercial e administrativo.

Tanto na experiência no Estadão como em outros trabalhos posteriores na Bahia, tinha ficado claro que era preciso abrir mão de cadernos, seções e produtos secundários, para liberar profissionais e energia no trabalho do que era o principal da marca. No caso do Estadão, um jornal do poder – político, econômico, cultural, etc. No dos regionais, a cobertura de sua cidade, seu Estado. O processo de foco preciso impactava positivamente não só a Redação, mas a operação digital, de logística, de mercado leitor, comercial e administrativo.

Confiando nas experiências, o foco principal no DP foi o de buscar medidas de melhorias na operação e na reorganização da forma de trabalho da Redação. Algumas soluções simples e de rápido ganho foram tomadas na produção. Foi definido um comando claro e criado um grupo de líderes do projeto entre alguns dos profissionais que haviam feito o jornal continuar funcionando, apesar das terríveis ondas de cortes dos últimos anos. Foi assim definida uma nova forma de trabalho na Redação, baseada no foco na produção local e exclusiva. Os muitos níveis horizontais de produção foram drasticamente simplificados e horários modificados para atender ao novo foco. Para isso, seções e cadernos secundários foram excluídos. Em paralelo foi pensado um projeto gráfico e de conteúdo que mantivesse as características históricas do jornal, mas com soluções simples que mostrassem sua evolução.

Era a fase 1 do trabalho. Os resultados foram bem recebidos por leitores e pelo mercado. A operação digital ganhou agilidade e mais conteúdos locais e a audiência e o engajamento dispararam. Houve em seguida uma etapa rápida de ajustes e correções. A fase 2, a de novas mudanças editoriais e de operação e o início do projeto Rumo aos 200 Anos, iria ser iniciada no final de março. A ideia do projeto é mobilizar empresários, autoridades e a sociedade no apoio de um caminho para tornar o DP, um patrimônio não só do Recife e de Pernambuco, mas do Brasil, o primeiro jornal da América Latina a conseguir chegar ao bicentenário. Aí veio o coranavírus…

Escrevo este texto no dia 2 abril de 2020, em meio à pandemia. Estamos eu e a família isolados em casa, preocupados com a sobrevivência, como quase todo mundo. Sobrevivência, justamente a palavra que certamente mais usei neste e em outros projetos que tive a honra de comandar. A fase 2 foi adiada, sabe-se lá para quando e como. Enquanto escrevo, parece ainda estar distante a certeza de quando e como eu e minha família e muitos jornais do Brasil chegaremos ao fim desta crise. Espero que estejamos todos bem e que o DP possa comemorar seu bicentenário.