Tag

Jornalismo de Soluções

Browsing

A sociedade está cansada do clima de militância que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo. Um denominador comum marca o achismo que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: radicalização e politização.  

O jornalismo reclama alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente. Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.   

O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores.

Sem jornais a democracia não funciona. O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos. Sua agenda é, ou deveria ser, determinada por valores perenes: liberdade, dignidade humana, respeito às minorias, promoção da livre-iniciativa, abertura ao contraditório. O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia. 

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor.  Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Pensemos, por exemplo, na ignominiosa situação do saneamento básico. É preciso reverter um quadro que agride a dignidade humana, envergonha o Brasil e torna inviável o futuro de gerações. Não seria uma bela bandeira, uma excelente causa a ser abraçada pela imprensa? Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blá blá blá inconsistente do teatro político, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um País que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores. E, além disso, é uma resposta ética e editorial aos que pretendem tornar o jornalismo refém da fácil cultura do negativismo.

Chegou a hora do jornalismo propositivo. Aquele que não se limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções.

Texto originalmente publicado no site do autor.

O jornalismo não nos ajuda, somente, a construir uma imagem do mundo em que vivemos. Ele também permite que formemos uma imagem a respeito de nós mesmos em sociedade: se nos vemos como meros espectadores ou como atores capazes de mudar a realidade. Para desenhar estas duas possibilidades com precisão, necessitamos ter uma visão completa, equilibrada e fiel do mundo, que inclua a descrição dos problemas e suas consequências, mas também um relato rigoroso e ético a respeito das iniciativas em andamento para solucioná-los. O jornalismo pode se esforçar na busca por estas soluções e torná-las visíveis; pode verificar os resultados obtidos e extrair aprendizados valiosos que inspirem outras pessoas, projetem vínculos entre elas e favoreçam a escuta paciente em uma conversação social. Este é o propósito do jornalismo construtivo.

Faz um ano que nós, jornalistas, nos vimos atacados de forma repentina por uma pandemia convertida em uma avalanche de números de mortos e infectados. Os veículos assumiram uma linguagem científica e bélica que reforçou a desumanização da narrativa, transformada em uma espécie de placar esportivo atualizado diariamente com novos dígitos. Além disso, as redações se depararam com uma demanda histórica por informação.

Os veículos estão tomados por uma inclinação cultural ao medo e ao conflito; eles não aceitam a culpa que isso lhes traz, ao entenderem que o extraordinário tenha que ser, necessariamente, o negativo.

Foi preciso que algumas semanas se passassem para que os veículos encontrassem o sossego e o tempo necessários para assumir outra perspectiva e enfocar-se na solidariedade de quem cuidava de seus vizinhos, na cooperação entre empresas e organizações, nos aprendizados de como se administrava a pandemia noutros países ou na fortaleza que tantas pessoas, com nome e sobrenome, mostravam. Hoje deveríamos olhar para estas histórias não como conquistas pontuais, úteis para colorir um relato sinistro, mas como comportamentos sociais reais, que precisam ser contados e replicados.

Os chamados “possibilistas sérios”, como Hans Rosling ou Steven Pinker, defendem com dados que nunca houve menos pobreza no mundo, menos fome ou analfabetismo do que na atualidade, ainda que nós, jornalistas, façamos os cidadãos pensar o contrário. Os veículos estão tomados por uma inclinação cultural ao medo e ao conflito; eles não aceitam a culpa que isso lhes traz, ao entenderem que o extraordinário tenha que ser, necessariamente, o negativo.

Diante do medo paralisante e depressivo, a sociedade necessita de esperança. Não me refiro a uma esperança sedativa, que adoce a realidade, mas uma esperança sustentada por fatos, dados, que mostre, inspire e incentive uma mudança possível.

Ao mesmo tempo, estudos em vários países mostram que os cidadãos querem que os veículos lhes contem o que funciona bem na sociedade e valorizam as propostas editoriais que incluem soluções aos desafios do futuro: as pessoas passam mais tempo nesse tipo de notícia, se sentem melhor informadas, mais interessadas nas pautas, querem ler mais artigos escritos pelo mesmo autor, compartilham mais estes conteúdos e se sentem melhor. 

Tudo isso acontece no momento em que uma corrente se espalha por todo o mundo, a favor de um jornalismo mais construtivo e orientado a soluções. Há iniciativas nos Estados Unidos, Argentina, Índia, Nigéria e em países europeus como Reino Unido e Dinamarca. Na Espanha, fundei o Instituto de Periodismo Constructivo, onde acompanhamos jornalistas, diretores de veículos e empresas de comunicação para refletir sobre o propósito de seu trabalho, sobre encontrar formas de contar o mundo de uma maneira mais equilibrada e, com isso, desenvolver projetos com potencial transformador nas comunidades a que servem.

Assumamos que o jornalismo investigativo e a denúncia não são as únicas formas de sermos valiosos para a sociedade; que possamos ser críticos e construtivos ao mesmo tempo.

Este auge não parece casual. Em momentos históricos, como este que vivemos, a proeminência do jornalismo se torna mais necessária, assim como o equilíbrio dos relatos. Diante do medo paralisante e depressivo, a sociedade necessita de esperança. Não me refiro a uma esperança sedativa, que adoce a realidade, mas uma esperança sustentada por fatos, dados, que mostre, inspire e incentive uma mudança possível.

Olhares complementares à sociedade

É preciso que duas formas complementares de ver a sociedade e de contar o mundo convivam em paralelo: uma delas é mais focada na denúncia de abusos, na busca por culpados ou no controle dos poderes; a outra é dedicada a explorar iniciativas promissoras que apresentam soluções de futuro – que estas iniciativas tenham a visibilidade que merecem e, assim, possam ajudar os cidadãos a envolverem-se na ação social. A combinação de ambos olhares pode ser uma bússola poderosa no caminho de tentar recuperar a confiança da população.

Nas conversas que tenho tido nos últimos meses com jornalistas, diretores de veículos e professores universitários da Espanha e dos Estados Unidos, a respeito do jornalismo construtivo, percebi que ainda existe um caminho a ser percorrido. Necessitamos explicar bem o valor desta perspectiva, apresentar exemplos claros e realizar estudos que certifiquem o efeito deste modelo de jornalismo no público. Já existem algumas iniciativas nestes países, em veículos nacionais, jornais regionais e em publicações independentes, que nasceram nos últimos anos. No médio prazo, o passo seguinte será incorporar o jornalismo construtivo à sua estratégia editorial.

Não faria mais sentido encontrar a função que a sociedade demanda de nós para, só depois, ver a maneira de transformar isso em uma atividade sustentável?

Para iniciar este trânsito, proponho incluir o jornalismo construtivo nas nossas conversas sobre o futuro do setor. Sugiro que revisemos o papel dos veículos como porta-vozes do ódio e do medo que as manifestações de alguns políticos destilam; que desvelemos o preconceito de que as informações promissoras sempre são pouco críticas ou suspeitas de terem caráter de marketing. Que assumamos que o jornalismo investigativo e a denúncia não são as únicas formas de sermos valiosos para a sociedade; que possamos ser críticos e construtivos ao mesmo tempo.

Tenho a impressão de que estamos agarrados à busca por um modelo de negócio que nos permita manter as empresas tal como elas nasceram e fazer nosso trabalho como fizemos até agora. Talvez tenhamos que nos propor o seguinte: não faria mais sentido percorrer o caminho inverso, ou seja, primeiro encontrar qual é a função que a sociedade demanda de nós para, só depois, ver a maneira de transformar isso em uma atividade sustentável?

Os problemas do jornalismo não são apenas econômicos, de credibilidade ou confiança. O jornalismo sofre de uma profunda crise de proeminência. Temos a oportunidade de formar uma nova relevância coletiva baseada na cooperação, de desempenhar um papel importante, chancelado por nossa capacidade de subir na varanda da sociedade, de onde se contempla a realidade com uma perspectiva enorme, e descer à rua para arregaçar as mangas, misturar-nos com nossos vizinhos, estar à altura deles, entender a complexidade de integrar a diversidade e acompanhá-los em uma construção social permanente. Nós, jornalistas, podemos escolher se atuamos como meros observadores do sistema ou como agentes da mudança em uma sociedade madura e informada, na qual todos somos necessários.

Quem trabalha com informação tem que ter muita vontade de servir. É com a compreensão de jornalismo como um serviço à sociedade que Marcello Corrêa Petrelli chegou à presidência do Grupo ND, conglomerado de mídia de Santa Catarina composto por 10 veículos, entre canais de televisão, jornais e plataformas digitais.

Em entrevista concedida ao jornalista Prof. Dr. Carlos Alberto Di Franco, no dia 12 de novembro de 2020, Petrelli apontou caminhos de prosperidade a empresas de comunicação. Tanto se fala nas dificuldades trazidas pela big techs, nos desafios apresentados pelas redes sociais, na dura competição pela atenção do usuário em tempos de overdose informativa. Mas para Petrelli, “quando se tem problemas, se tem oportunidades”.


“Conteúdo de política é importante, o contexto é importante, mas o mundo real é mais”, lembra Marcello Pettreli, presidente do Grupo ND de comunicação, de Santa Catarina.

“A verdadeira revolução da redação é defender a simplicidade, a humildade e, principalmente, o desejo de servir, de buscar aquilo que realmente interessa às pessoas e se relacionar. Jornalista tem que gostar de se relacionar”, analisa o ex-agricultor, que entregava pizza nos Estados Unidos para bancar os estudos e hoje lidera uma equipe de quase 600 funcionários.

A simplicidade que Petrelli acredita estar na raiz dos desafios a serem abraçados pelos jornalistas começa na formação do profissional. “As escolas formam jornalistas com uma visão distante da realidade, de querer estar próximo dela”, critica. Ao invés do estereótipo do “jornalista que sabe tudo”, é preciso “se aproximar das pessoas do mundo real, do que elas querem ouvir e saber”.

Menos Brasília, mais jornalismo local qualificado

Ele lembra que, como jornalistas, temos o “cacoete” de priorizar a política nos nossos noticiários. Como o brasileiro já não confia mais em político, “falar de política o tempo inteiro é perder audiência”, sentencia Petrelli. Ele ainda alerta: “Quanto mais noticiamos a política, mais poder eles têm, mais distanciamento da sociedade eles tomam. Nós damos todo este foco, toda essa coisa de ‘Excelentíssimo Senhor’ aos políticos. Mas temos que dar foco para quem? Para as pessoas comuns que estão dando emprego, buscando soluções, o empresário, o cidadão que atua no terceiro setor, para esta sociedade maravilhosa que aparece muito pouco [no noticiário] mas que está nas redes sociais”, observa.

“Às vezes o jornalista entende que é preciso que ele critique para resolver. Não é mais assim. As pessoas precisam aprender a elogiar, a estar muito mais no jornalismo construtivo, propositivo, do bem e da consciência. E sempre com a visão de reflexão para propor caminhos.”

É fato que as redes sociais trazem toda sorte de conteúdo e deixam nas mãos do usuário a tarefa de selecionar no que vai acreditar. “A pandemia colocou as redes sociais no lugar delas”, tranquiliza Petrelli, lembrando as inúmeras pesquisas que apontaram níveis de confiança discrepantes entre os veículos tradicionais e sites de relacionamento que retratam uma reaproximação do público a players de jornalismo profissional. Mas as redes vão além das fake news e mostram uma realidade muito particular que exerce profundo impacto na vida das pessoas. Este conteúdo, no entanto, não aparece na TV nem nos jornais. “Conteúdo de política é importante, o contexto é importante, mas o mundo real é mais”, pondera.

Diminuir o volume da cobertura de Brasília ou mesmo das agendas de vereadores e deputados é um caminho possível e até indicado para a despolarização do debate. Petrelli lembra dos tempos em que vivia em San Diego, há cerca de 30 anos, e o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, visitou a cidade. O jornal local noticiou o fato na quinta página da edição; se fosse no Brasil, seria matéria de capa! Como diz o Prof. Di Franco, muitas vezes “sobra Brasília, mas falta informação local, regional qualificada”.

Jornalista, um prestador de serviços

Enquanto vários colegas propagam a ideia de que o “jornalismo existe para incomodar governo”, a população cria uma imagem do noticiário – e dos jornalistas – cada vez mais desagradável para conviver. Não é gratuito o crescimento dos news avoiders nem a propagação do jornalismo de soluções. Enquanto muitos de nós publicamos denúncias sob a expectativa de que elas mobilizem a população, o que geramos é sentimento de impotência e afastamos ainda mais os consumidores das notícias.

“Às vezes o jornalista entende que é preciso que ele critique para resolver. Não é mais preciso isso. As pessoas precisam aprender a elogiar, a estar muito mais no jornalismo construtivo, propositivo, do bem e da consciência. E sempre com a visão de reflexão para propor caminhos”, orienta Petrelli.

O comportamento do jornalista será um diferencial nas redações.

Mudar a cultura que envolve a prática do jornalismo não é fácil, ele concorda. Mas o quanto antes se começa, mais cedo se colhe os frutos. 

O primeiro passo é desenvolver no jornalista a percepção de que ele é um prestador de serviços. Isso passa pela humanização do profissional, pela adoção de uma postura mais transparente, que assume a culpa quando erra, que é criativo, sensível e, sobretudo, nutre relações com diferentes grupos de indivíduos. Entender de tecnologia é importante, mas já está virando uma commoditie. “O comportamento do jornalista será um diferencial nas redações”, prenuncia Pettreli.

Ao invés de se impor diante da sociedade ou de “baixar” suas verdades, o profissional da imprensa precisa encontrar alegria e leveza naquilo que faz. “Comunicação é fazer o bem”, avalia Petrelli. Ainda que a realidade a ser noticiada costume ser difícil, é preciso tratar a informação com tranquilidade e apontar caminhos. Só assim as audiências sentirão a satisfação de perceberem que suas vidas foram melhoradas graças às informações trazidas por aquele veículo jornalístico.

Era para ser uma entrevista sobre jornalismo local. Mas o entrevistado, Lluís Cucarella, jornalista e consultor espanhol, diretor do Observatorio para la Transformación del Periodismo Local resolveu dar uma aula aos leitores do Orbis Media Review.

Lluís Cucarella acaba de lançar o dossiê “Desafios Editoriais da Imprensa Local no Mundo Pós-Coronavírus”.

A análise de Cucarella se desdobra pela criação de hábito de consumo de notícias, pela revisão dos critérios de noticiabilidade, pelo jornalismo partidário ou posicionado, pela interação entre leitores e jornalistas, pelos desafios de se fazer jornalismo local em megalópoles e também pelo universo da televisão.

A visão ampla que Cucarella lança aos desafios do jornalismo na atualidade se sustenta pelos quase 30 anos de experiência que acumula ocupando cargos diretivos em veículos espanhóis e à frente da consultoria Next Idea Media. Sua atuação se estende à docência em escolas de negócio e à diretoria editorial do site Laboratorio de Periodismo, da Fundación Luca de Tena.

No final de maio, Cucarella lançou o dossiê Desafios Editoriais da Imprensa Local no Mundo Pós-Coronavírus (pdf, em espanhol) e agora prepara um livro em que entrevista editores de veículos locais. A previsão de lançamento é para o primeiro semestre de 2021.

Os tópicos abordados na entrevista:

Conquista da atenção do usuário e criação de hábito de consumo de notícias

Novos rumos do conteúdo editorial

Jornalismo a serviço da comunidade

Neutralidade e cobertura posicionada

Noticiário local nas megalópoles

Os desafios da TV local

Este conteúdo faz parte da entrevista com o jornalista espanhol Lluís Cucarella, diretor do Observatorio para la Transformación del Periodismo Local e diretor editorial do site Laboratorio de Periodismo, da Fundación Luca de Tena. Acompanhe outros tópicos desta entrevista.


Orbis Media Review – Quanto à necessidade de que “o veículo ajude as pessoas em seus problemas diários”, mencionada no dossiê Desafios Editoriais da Imprensa Local no Mundo Pós-Coronavírus (pdf, em espanhol) – é possível que se precise fazer uma revisão dos critérios de noticiabilidade (valor-notícia)? Quais são os critérios que devem cair e quais outros valores os editores devem passar a considerar?

Lluís Cucarella – Falta uma profunda revisão do que estamos fazendo como jornalistas, principalmente entre aqueles que estão em cargos diretivos nas redações. Eu alterno a consultoria com trabalho em veículos e quando estive na liderança de empresas de mídia, conservei o costume de agarrar todos os dias o jornal impresso (e também o digital, de alguma forma) e, ao analisar o produto, apontar por quais artigos ali publicados valeria a pena pagar.

Sugiro aos editores e chefes de seção com quem trabalho que não esqueçam de perguntar a si mesmos quais conteúdos mereceriam ser pagos e, na medida do possível, estendam o hábito a diferentes colegas da empresa. Na maior parte das vezes a lista é encabeçada por aquelas informações que resolvem problemas das pessoas, que falam daquilo que realmente lhes interessa, daquilo que elas vivem no dia a dia, como receber a aposentadoria, para alguns, ou como parcelar o pagamento de impostos durante a pandemia, para outros.

À escala local, quais setores são os que mais ofertam emprego na cidade, ou onde é possível comprar máscaras subsidiadas. O jornalismo deve avançar na direção das respostas, mais do que repetir ou amplificar as perguntas que já existem.

E não é apenas em relação a interesses pessoais. Por exemplo, sobre os problemas que afetam uma cidade, os veículos devem ir além e contar casos de sucesso, por exemplo, como regiões sob as mesmas circunstâncias conseguiram solucionar o problema ou realizar um projeto que há muito tempo dá esperança a uma comunidade. Aí o jornalismo de soluções tem muito o que dizer. Alguns jornais já entenderam a mudança. The Guardian, por exemplo, multiplicou por seis a produção de conteúdos de jornalismo de soluções durante a pandemia.

Evidentemente, a informação política também é necessária e insisto que um jornal deve oferecer esta visão de mundo, saber contextualizar e hierarquizar a informação. Mas quando uma edição traz apenas duas ou três notícias pelas quais entendemos que alguém estaria disposto a pagar, porque elas ajudam no seu dia a dia, este é um sinal de mau negócio.

Acompanhe outros tópicos desta entrevista com Lluís Cucarella.

Enquanto crescem os debates sobre o futuro do jornalismo, três correntes da atividade se fortalecem no cenário internacional. São elas: Constructive JournalismListening JournalismDialogue Journalism. Todas têm em comum a centralidade do público no processo editorial e não apenas no fim da cadeia, como receptor, aos moldes do que a maioria dos veículos ainda trabalha.

O protagonismo do usuário na produção de notícias e reportagens não é algo novo, nem mesmo no ambiente digital. Em fevereiro de 2000, o noticiário sul-coreano OhmyNews estremecia setores tradicionais da mídia internacional ao afirmar que every citizen is a reporter. O slogan convidava cidadãos do mundo todo a uma versão do site em inglês — além da original, em alfabeto hangul –, onde se publicava conteúdo enviado por não-jornalistas, mas discutido, selecionado e editado por profissionais baseados numa redação em Seul. A onda se espalhou e diversos veículos — muitos deles, brasileiros como Estadão, G1, O Globo, Terra e iG — criaram suas editorias colaborativas. O fenômeno ficou conhecido como jornalismo cidadão, jornalismo colaborativo ou jornalismo open source.

Constructive Journalism (ou Jornalismo de Soluções)

Quinze anos depois de cada cidadão poder tornar-se um repórter, se usaria pela primeira vez o termo Constructive Journalism, que nada tem a ver com a Teoria Construtivista do jornalismo. Internacionalmente projetada pelos estudos de newsmaking de Gaye Tuchman, o jornalismo construtivista entende que a notícia é sempre uma construção e não um espelho da realidade. Já o Constructive Journalism ficou conhecido como o “jornalismo de soluções”, ou seja, aquele que repudia a negatividade e o sensacionalismo como valores centrais para decidir o que é notícia e prioriza um olhar positivo.

O dinamarquês Ulrik Haagerup, fundador do Constructive Institute e um dos criadores do modelo, explicou no congresso mundial da WAN-IFRA de 2018, em Portugal, que o Constructive Journalism não busca pintar o mundo de cor-de-rosa. Ao contrário, o conteúdo enfoca os graves problemas mundiais como a contaminação dos oceanos pelo plástico, o trabalho escravo, o combustível fóssil, o desflorestamento, as epidemias, a miséria. Mas o trabalho editorial não para na investigação das mazelas. O diferencial do Constructive Journalism é perguntar: E agora? Que soluções estão funcionando noutros lugares e podem ser replicadas aqui? O que podemos fazer para mudar essa triste realidade?

O último relatório do Reuters Institute sobre jornalismo digital, publicado em junho de 2019, chama a atenção para os crescentes índices de fadiga noticiosa. Já são 32% dos participantes que admitem evitar o consumo de notícias. A principal razão é o impacto negativo que elas exercem no estado de ânimo do indivíduo. Se notícia ruim sempre existiu, o que mudou foi o olhar da população diante do noticiário e da vida em sociedade.

A reconstituição das tribos por meio das redes sociais provocou o ressurgimento de uma solidariedade sem fronteiras. O imperativo do hedonismo e a “obrigação em ser feliz” tornaram insuportável o sentimento de impotência que um leitor tem ao saber de uma desgraça pelo jornal. É justamente esse gap que o Jornalismo Construtivo vem preencher, munindo o usuário de caminhos para melhorar o mundo. Como exemplos podemos citar o Upside, do Guardian, o People Fixing the World, da BBC, o Fixes, do New York Times e o Impact, do HuffPost.

Listening Journalism

A segunda corrente de jornalismo que promete evoluir está inserida em uma “cultura da escuta”. Mas não será óbvio dizer que qualquer jornalismo é feito a partir do que o profissional escute de suas fontes, de autoridades e da própria comunidade? O compromisso do Listening Journalism é ouvir ativamente as necessidades de informação que o público tem, assim como o feedback sobre trabalhos já publicados. A escuta, portanto, não acontece apenas durante a produção das reportagens, mas principalmente antes da definição da pauta e depois da publicação.

Entre as técnicas já experimentadas, a bola de neve ajuda a expandir o conhecimento do jornalista sobre e entre uma comunidade. Dennis Anderson, editor executivo do Journal Star, de Illinois, começou conversando com uma pessoa sobre o que ela gostaria de ver no jornal. Ao fim do diálogo, ele pediu que a “entrevistada” indicasse cinco pessoas com quem ele pudesse continuar a conversa. Essas cinco pessoas indicariam, cada uma, outras cinco para serem ouvidas. Assim, a rede cresce exponencialmente, aproximando o jornalista e o veículo de áreas da sociedade que não tinham o menor contato ou interesse pela imprensa até então.


A bola de neve é uma ferramenta metodológica utilizada na pesquisa científica. No diagrama acima, desenhei a aplicação da técnica na minha tese de doutorado, quando usei o snowball para compor minha amostragem, a partir de redes sociais.

Humildade e empatia estão no topo da lista de atributos que o praticante do Listening Journalism precisa ter. Deixar que os indivíduos contem suas histórias é o modo mais simples e verdadeiro de recriar essa ponte entre o jornalismo e a sociedade. O maior desafio, no entanto, está em ouvir os críticos da imprensa, os ex-assinantes e descrentes no veículo para onde o profissional trabalha. Mas é justamente aí que o Listening Journalism pode fazer a diferença.

Além de contribuir para o aumento da geração de receita às empresas de comunicação, o Listening Journalism ajuda a reconstruir a confiança do público no veículo e detecta o real impacto que as publicações têm no dia a dia da população. A análise é de Cole Goins, do American Press Institute, responsável por ancorar uma série de estudos no jornalismo de escuta.

Seja nutrindo um grupo fechado de Facebook, seja promovendo eventos presenciais para a escuta focalizada, o Listening Journalism deve estar presente na rotina das comunidades. Assim funciona em Ohio, no YourVoice, em Nova Jersey, na Carolina do Norte e em Filadélfia por meio do News Voices.

Dialogue Journalism

Além de olhar pro mundo buscando soluções (Construtive Journalism) e de exercitar a escuta como parte da atividade da redação (Listening Journalism), o jornalismo assume uma nova função social: facilitar o diálogo entre a população.

No contexto de uma forte polarização de ideias no cenário político mundial, Eve Pearlman e Jeremy Hay lançaram em 2017, na Califórnia, um serviço de conversas sustentadas por conteúdo jornalístico e mediadas por jornalistas. O Spaceship Media já reuniu grupos de posições frontalmente antagônicas sobre aborto, posse de armas, disputa por terras, imigração e, claro, sobre o governo Trump.

O roteiro de ação do Dialogue Journalism começa em grupos online, fechados, que em alguns casos se expandem para encontros presenciais. A dinâmica consiste na aplicação de 4 perguntas que todos os integrantes devem responder:

  • O que você pensa sobre o grupo oponente?
  • O que você acha que que eles pensam sobre você?
  • O que você gostaria que eles soubessem a seu respeito?
  • O que você gostaria de saber sobre eles?

As respostas dos participantes são mediadas por jornalistas que seguem o debate agregando informações apuradas previamente sobre o tema em questão. As sessões são acompanhadas por profissionais de veículos parceiros, que transformam o conteúdo dos diálogos em material jornalístico e sugestões de pauta.

Dialogue Journalism segue sete princípios:

  1. Construção: mapeamento de temáticas e comunidades em conflito.
  2. Integração: descoberta do que um grupo pensa a respeito do grupo oponente.
  3. Acolhida: organização de eventos ou momentos de conversa entre os dois grupos.
  4. Experiência: criação de oportunidades para jornalistas e patrocinadores encontrarem um público altamente engajado e participativo.
  5. Continuidade: as conversas seguem após os eventos e, nelas, os praticantes do Dialogue Journalism ajudam a manter o respeito entre os debatedores e a fazer com que a interação seja produtiva.
  6. Alimentação: os jornalistas proveem pesquisa e informações apuradas que sustentam as discussões.
  7. Compartilhamento: o Dialogue Journalism funciona em parceria com outros veículos de mídia, que usam o conteúdo das conversas para entender a relevância de certas pautas entre a população.

Como técnica central ou dispositivo auxiliar no processo tradicional de fazer jornalismo, as três modalidades reafirmam o público como a razão principal da existência de qualquer veículo de comunicação. Mais do que reaproximar jornalistas e leitores, ouvintes, usuários, telespectadores, o desafio parece estar na busca por um novo e relevante papel do jornalismo no dia a dia dos indivíduos.