Quem trabalha com informação tem que ter muita vontade de servir. É com a compreensão de jornalismo como um serviço à sociedade que Marcello Corrêa Petrelli chegou à presidência do Grupo ND, conglomerado de mídia de Santa Catarina composto por 10 veículos, entre canais de televisão, jornais e plataformas digitais.
Em entrevista concedida ao jornalista Prof. Dr. Carlos Alberto Di Franco, no dia 12 de novembro de 2020, Petrelli apontou caminhos de prosperidade a empresas de comunicação. Tanto se fala nas dificuldades trazidas pela big techs, nos desafios apresentados pelas redes sociais, na dura competição pela atenção do usuário em tempos de overdose informativa. Mas para Petrelli, “quando se tem problemas, se tem oportunidades”.
“Conteúdo de política é importante, o contexto é importante, mas o mundo real é mais”, lembra Marcello Pettreli, presidente do Grupo ND de comunicação, de Santa Catarina.
“A verdadeira revolução da redação é defender a simplicidade, a humildade e, principalmente, o desejo de servir, de buscar aquilo que realmente interessa às pessoas e se relacionar. Jornalista tem que gostar de se relacionar”, analisa o ex-agricultor, que entregava pizza nos Estados Unidos para bancar os estudos e hoje lidera uma equipe de quase 600 funcionários.
A simplicidade que Petrelli acredita estar na raiz dos desafios a serem abraçados pelos jornalistas começa na formação do profissional. “As escolas formam jornalistas com uma visão distante da realidade, de querer estar próximo dela”, critica. Ao invés do estereótipo do “jornalista que sabe tudo”, é preciso “se aproximar das pessoas do mundo real, do que elas querem ouvir e saber”.
Menos Brasília, mais jornalismo local qualificado
Ele lembra que, como jornalistas, temos o “cacoete” de priorizar a política nos nossos noticiários. Como o brasileiro já não confia mais em político, “falar de política o tempo inteiro é perder audiência”, sentencia Petrelli. Ele ainda alerta: “Quanto mais noticiamos a política, mais poder eles têm, mais distanciamento da sociedade eles tomam. Nós damos todo este foco, toda essa coisa de ‘Excelentíssimo Senhor’ aos políticos. Mas temos que dar foco para quem? Para as pessoas comuns que estão dando emprego, buscando soluções, o empresário, o cidadão que atua no terceiro setor, para esta sociedade maravilhosa que aparece muito pouco [no noticiário] mas que está nas redes sociais”, observa.
“Às vezes o jornalista entende que é preciso que ele critique para resolver. Não é mais assim. As pessoas precisam aprender a elogiar, a estar muito mais no jornalismo construtivo, propositivo, do bem e da consciência. E sempre com a visão de reflexão para propor caminhos.”
É fato que as redes sociais trazem toda sorte de conteúdo e deixam nas mãos do usuário a tarefa de selecionar no que vai acreditar. “A pandemia colocou as redes sociais no lugar delas”, tranquiliza Petrelli, lembrando as inúmeras pesquisas que apontaram níveis de confiança discrepantes entre os veículos tradicionais e sites de relacionamento que retratam uma reaproximação do público a players de jornalismo profissional. Mas as redes vão além das fake news e mostram uma realidade muito particular que exerce profundo impacto na vida das pessoas. Este conteúdo, no entanto, não aparece na TV nem nos jornais. “Conteúdo de política é importante, o contexto é importante, mas o mundo real é mais”, pondera.
Diminuir o volume da cobertura de Brasília ou mesmo das agendas de vereadores e deputados é um caminho possível e até indicado para a despolarização do debate. Petrelli lembra dos tempos em que vivia em San Diego, há cerca de 30 anos, e o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, visitou a cidade. O jornal local noticiou o fato na quinta página da edição; se fosse no Brasil, seria matéria de capa! Como diz o Prof. Di Franco, muitas vezes “sobra Brasília, mas falta informação local, regional qualificada”.
Jornalista, um prestador de serviços
Enquanto vários colegas propagam a ideia de que o “jornalismo existe para incomodar governo”, a população cria uma imagem do noticiário – e dos jornalistas – cada vez mais desagradável para conviver. Não é gratuito o crescimento dos news avoiders nem a propagação do jornalismo de soluções. Enquanto muitos de nós publicamos denúncias sob a expectativa de que elas mobilizem a população, o que geramos é sentimento de impotência e afastamos ainda mais os consumidores das notícias.
“Às vezes o jornalista entende que é preciso que ele critique para resolver. Não é mais preciso isso. As pessoas precisam aprender a elogiar, a estar muito mais no jornalismo construtivo, propositivo, do bem e da consciência. E sempre com a visão de reflexão para propor caminhos”, orienta Petrelli.
O comportamento do jornalista será um diferencial nas redações.
Mudar a cultura que envolve a prática do jornalismo não é fácil, ele concorda. Mas o quanto antes se começa, mais cedo se colhe os frutos.
O primeiro passo é desenvolver no jornalista a percepção de que ele é um prestador de serviços. Isso passa pela humanização do profissional, pela adoção de uma postura mais transparente, que assume a culpa quando erra, que é criativo, sensível e, sobretudo, nutre relações com diferentes grupos de indivíduos. Entender de tecnologia é importante, mas já está virando uma commoditie. “O comportamento do jornalista será um diferencial nas redações”, prenuncia Pettreli.
Ao invés de se impor diante da sociedade ou de “baixar” suas verdades, o profissional da imprensa precisa encontrar alegria e leveza naquilo que faz. “Comunicação é fazer o bem”, avalia Petrelli. Ainda que a realidade a ser noticiada costume ser difícil, é preciso tratar a informação com tranquilidade e apontar caminhos. Só assim as audiências sentirão a satisfação de perceberem que suas vidas foram melhoradas graças às informações trazidas por aquele veículo jornalístico.
Uma das primeiras lições ensinadas a todo “foca” diz respeito aos critérios de noticiabilidade. Criados por Galtung e Ruge, um casal de noruegueses, na década de 60, os critérios trazem abrangência à qualquer conteúdo e, inclusive, têm a ver com a proximidade do fato com o leitor. Ou seja: o fato será tão mais relevante quanto mais próximo de seu público tiver acontecido.
Considerando cruciais os critérios para a produção atual da notícia, é fácil perceber que há uma clara deficiência dos grandes veículos com relação à produção de conteúdo. E na brecha deixada por eles, as novas iniciativas de jornalismo local vêm se beneficiando e tirando de letra. Em outras palavras, uma notícia dada por um veículo local – que conhece seu pequeno público – tem condições infinitamente maiores de informar com mais relevância aquilo que seu leitor precisa, de maneira acessível. Enquanto que, para um grande veículo, esta tarefa é muito mais difícil, e comunicar grandes assuntos para um grande público – que não conhece tão bem – se torna uma tarefa quase impossível.
Portanto, se por uma lado os grande veículos falam, predominantemente, de assuntos sobre Brasília, e estes não estão sendo mais tão relevantes assim, não seria prudente olharem para “baixo”, nem que seja por um instante, e aprenderem com as novas iniciativas locais, que fazem um jornalismo à serviço da comunidade e não de si próprio?
Em 2015, enquanto escrevia a tese, me deparei com a seguinte frase: “se os jovens de hoje não estão interessados nos conteúdos clássicos das notícias, isso não é um problema dos jovens, mas dos veículos”.
O autor é Wolfgang Donsbach, um professor e pesquisador alemão extremamente crítico – e realista destemido – da indústria da mídia. A clareza do raciocínio dele ecoa até hoje na minha cabeça e me ajuda a buscar um caminho para o reposicionamento do jornalismo na sociedade contemporânea, em especial, na rotina de cada indivíduo.
O que Donsbach e, humildemente, eu tentávamos alertar em meados da década passada era que o conceito de notícia clamava por revisão. Noutras palavras, notícia estava virando uma coisa chata! Mas como algo pode se tornar chato sem ter mudado? Justamente por esta razão – por não ter mudado – é que o noticiário de sempre se perdeu na avalanche de informações novas, sedutoras e abundantes no meio digital.
Pesquisa com news avoiders mexe com as bases do jornalismo
O começo do milênio deu o tom de uma geração hedonista ao extremo, sensível ~demais~ e intolerante às asperezas que fazem parte da vida de qualquer um. Ah, mas quem aceita ser tratado como “qualquer um”?
Daí surgiram os news avoiders, que escolhem, conscientemente, não consumir notícias em função do mal-estar que elas geram em seus humores. No dia 20 de agosto de 2020, a revista científica Journalism Studies publicou uma pesquisa esmiuçando o olhar dos news avoiders sobre o noticiário. Os pesquisadores Ruth Palmer, Benjamin Toff e Rasmus Kleis Nielsen conversaram com 83 pessoas na Espanha e no Reino Unido. Os resultados são, no mínimo, provocativos.
Entender que a relevância do jornalismo está na manutenção da democracia é conversa de jornalista.
O ponto alto do estudo não está nas respostas dos news avoiders, mas na chacoalhada de realidade que os autores dão naqueles que ainda acreditam na imprensa como uma instituição independente de quaisquer interesses políticos ou privados, e que carrega o poder de vigiar as instâncias públicas em prol do bem comum.
A utopia acabou. Entender que a relevância do jornalismo está na manutenção da democracia é conversa de jornalista. A maior parte das pessoas não enxerga assim. Que os veículos estejam cumprindo seu papel de informar decentemente a população é uma coisa. Já a percepção que o público tem dessa cobertura é outra. Ela é o oposto da visão idealizada que muitos de nós ainda temos da imprensa – e já se aninha no imaginário popular.
News avoiders vêem as notícias como algo, na melhor das hipóteses, irrelevante.
O relatório da pesquisa com os news avoiders afirma que eles vêem as notícias como algo, na melhor das hipóteses, irrelevante. Na pior das hipóteses, jornalismo é tido como um cúmplice de sistemas político e econômico, de algum dos lados.
Notícias e política se misturam na cabeça dessas pessoas e formam um monstro gigante de negatividade. Esta é a leitura de Joshua Benton, editor do NiemanLab, faz dos comentários colhidos pelos pesquisadores.
“Política é algo horroroso! Políticos são horrorosos!”
Para simplificar a história, a maioria dos entrevistados diz que política é algo horroroso; políticos são horrorosos. Então por que raios é preciso ler notícias sobre isso? (Lembrem-se do hedonismo, da intolerância à frustração, da falência das instituições sociais… Não é só a mídia que sofre com a falta de credibilidade; o poder público, os sindicatos, os partidos políticos são alvos ainda mais evidentes do desengajamento à organização tradicional da sociedade.)
Mais do que desgastada, a política que pauta a pesada maioria das notícias se mostra muito distante da vida cotidiana destas pessoas: “… a maioria dos entrevistados usa o termo ‘política’ e ‘político’ para descrever o que políticos profissionais fazem, geralmente no nível nacional, distante de suas rotinas”, analisa o relatório.
Ouso dizer: neste ponto, os news avoiders têm toda a razão! São inúmeros os casos em que os títulos começam por “Bolsonaro diz…” ou “Câmara vota…”. Os agentes das notícias sempre são os políticos. É como se o jornalismo se limitasse à órbita daqueles que foram eleitos a cargos públicos – sobre eles e paraeles -, sendo que muita gente nem lembra em quem votou nas últimas eleições.
Se o que realmente impacta na vida da população é a ação praticada por tal político, por que, então, não trazer o grupo impactado para o início do título? Eles é que são os reais agentes da notícia! (Eles não são agentes do fato, mas são protagonistas da notícia.)
Façamos um breve exercício de enfoque:
O fato de o presidente sancionar leis é recorrente e não impacta tanto na rotina de um cidadão quanto o efeito da lei sancionada. O agente da notícia não é o político, mas como o seu ato influencia na vida das pessoas.
Jornalistas e políticos estão em simbiose no imaginário popular
Voltando aos news avoiders, eles – e convenhamos, muitos de nós – associam(os) política à briga entre partidos e à corrupção. A vasta maioria não se identifica com qualquer partido político, não presta atenção à política em geral e ainda se descreve como “apolítica”, alegando estar “farta” do sistema, diz o relatório.
Por mais que a pesquisa de Palmer, Toff e Nielsen alerte para uma leitura inconscientemente preconceituosa da mídia, dizendo que os news avoiders adotam tais opiniões por reproduzirem o senso comum e não tanto a partir de um consumo crítico de notícias, é importante entender qual a imagem que os produtos e profissionais do jornalismo têm em certos grupos.
O desinteresse pela política vazou para o jornalismo e o contaminou.
Fundamentada ou não, a relação entre jornalistas e políticos está no imaginário popular e daí se prolifera o desinteresse e uma profunda desconfiança. Segundo o relatório, as notícias são apenas cartadas políticas para qualquer partido com quem o repórter ou a empresa de comunicação simpatize.
“Alguns [entrevistados] mudaram a expressão de cínicos para conspiratórios, colocando a mídia como conivente a um sistema de ‘forças obscuras [que] deliberadamente escondem ou distorcem informações para manter os cidadãos ignorantes ou distraídos diante daquilo que pessoas poderosas estariam realmente fazendo’.” – frankfurtianos, contenham o entusiasmo!
Os próprios pesquisadores reconhecem o tom populista na fala dos participantes, embora eles próprios não se classifiquem como populistas. Para além de um posicionamento ideológico, a abstenção impera:
“Eu odeio política. Esta é, provavelmente, uma das razões pelas quais eu não leio notícias, para ser sincero”, Ryan (Reino Unido).
Ou seja, o desinteresse pela política vazou para o jornalismo e o contaminou. Já que o jornalismo insiste em fazer notícia sobre si e para as fontes, a lógica diz que o desinteresse pelo jornalismo é o mínimo que se poderia esperar das audiências!
Para o espelho e para as fontes
Essa história de jornalismo escrever para o espelho é grave e já passou da hora de acabar. Nelson Traquina denuncia esta má prática há décadas. “Quando fontes e jornalistas são parte da mesma ‘rotina’ de maneira regular, pode-se estabelecer certa interdependência. O perigo é evidente.” – e cita Walter Lippmann: “O jornalista está, inevitavelmente, em contato pessoal com os líderes políticos e homens de negócio, criando relações de confiança e de simpatia; é muito mais difícil e embaraçoso ignorá-las”.
O jornalista precisa da fonte para fazer seu trabalho. A fonte precisa do jornalista para difundir suas ideias. (Sim, estou pensando no tapete verde do Congresso.) É um ambiente favorável à formação de um rede de cooperação! Você me ajuda e eu te ajudo. Simples assim. Esta é a percepção que os news avoiders têm da nossa profissão.
O jornalista escreve notícias para suas fontes e não para o público, distanciando-se das audiências e perdendo a relevância no cenário midiático.
Soma-se a isso os contatos viciados, o tempo sempre exíguo, as cobranças por audiência e a carência de postos de trabalho em redações. Repórteres se vêem praticamente numa situação de “fazemos qualquer negócio para manter nosso emprego”, mesmo que isso signifique publicar notícias que não fazem a menor diferença na rotina do cidadão.
Diante de cada pauta, pergunte-se: o que o meu leitor fará com esta notícia? Como ela vai influenciar na sua vida? Como vai melhorar sua rotina?
Lá em 2015 eu escrevia: “NelsonTraquina alerta que, aos jornalistas, os benefícios aparecem na eficácia de seu trabalho e na estabilidade do posto que ocupam, uma vez que usam uma autoridade para validar sua notícia. Do outro lado, as fontes oficiais também se beneficiam com a difusão de seus atos de maneira profissional, o que lhes dá relevância e reforça sua legitimidade. É comum, conforme diz o autor, que sob tais condições o jornalista passe a escrever notícias para suas fontes e não para o público, distanciando-se das audiências em nome de garantir sua sobrevivência nesta rotina profissional. Raquel San Martín reproduz a fala de um jornalista entrevistado em suas pesquisas: ‘Quando estou escrevendo sobre política, penso nos político, na classe dirigente, que controla o poder’.
O autocentramento da cultura profissional do jornalista reforça o microclima na atividade, fazendo com que o jornalismo seja uma trabalho feito para o espelho, ou seja, por e para o próprio repórter e sua rede imediata de contatos.” [Leia-se: fazemos jornalismo para nós mesmos e para os políticos que nos rodeiam.]
Entendem, agora, por que insisto há 17 anos em aproximar o jornalista do público? Porque é no microcosmos de nossas rotinas e interesses que vivemos, trabalhamos, entendemos o mundo e podemos fazer alguma diferença.
Interesse jornalístico
Falando em interesses, toda essa discussão passa pelos valores-notícia. O “interessante” sempre é para alguém. E não há nenhum ranço nesta observação.
Gosto quando Juan Ramón Muñoz-Torres busca na filosofia o entendimento para o interessante como valor-notícia. INTER-ES: A etimologia da palavra interesse conduz a tudo o que é ou estáentre algo ou alguém. Por seu caráter relacional, o interesse é algo tipicamente pessoal e pertence ao que Aristóteles chamava de “prática” ou práxis, relativo ao conhecimento aplicado, ao “obrar”. O interesse, portanto, é aquilo que leva o indivíduo à ação. Pergunte-se, diante de cada pauta: o que o leitor fará com esta notícia? Qual ação ela pode desencadear em sua vida?
Enquanto nós publicamos denúncias, na esperança de que elas mobilizem a população, o sentimento que despertamos é de impotência.
Se nos movemos por interesses [no melhor dos sentidos, como motivação], precisamos buscá-lo para sairmos do estado de inércia e, enfim, viver! No entanto, tomar atitudes é o que menos passa na cabeça desse pessoal cansado do noticiário de política…
A justificativa deles é que não podem fazer nada para melhorar a política retratada nas notícias. Mesmo diante da corrupção denunciada por uma reportagem de jornalismo investigativo, eles pensam como a Emily (UK): “Ninguém pode realmente mudar isso. Porque no final do dia não conta o que nós, pequeninos, pensamos. É tudo o que o governo decidir fazer. Isso é o mais importante”.
Enquanto nós publicamos denúncias, na esperança de que elas mobilizem a população, o sentimento que despertamos é de impotência. “Muitos evitam as notícias sobre política como grande parte da estratégia de gerenciar suas emoções. Ao invés de se engajarem com as notícias, eles se sentem tristes a respeito do estado das coisas e frustrados sobre a própria impotência em mudá-lo. Eles preferem conservar suas energias emocionais para enfocar em seus próprios problemas”, concluem os autores da pesquisa.
Para aproximar política e público
Chame isso de individualismo ou de espírito de sobrevivência, não importa. O fato é que o noticiário político não conversa com a vida das pessoas, não diz como tal fato pode impactar a rotina de cada um – se é que os fatos noticiados realmente têm poder de impacto.
É claro que o público se ocupará de problemas que realmente tocam suas vidas! É a conta de luz que sobe, o remédio que não chega no posto, o perrengue com o banco, a obra no condomínio, a reunião na escola dos filhos… Não sobra tempo nem atenção para que a bancada xpto pressione o relator Fulaninho a incluir o veto do Beltrano na pauta de votação do Senado.
Só que boa parte dos veículos que cobrem política ainda dá isso. E prioritariamente isso! Posso imaginar o repórter tomando o rumo da Esplanada de manhã cedo, condicionado a transformar em notícia todo o espirro que alguém der por ali. Não é assim que o jornalismo funciona. Mas foi nisso que se tornou: um retrato autocentrado de acontecimentos insossos e sem impacto imediato na vida do cidadão.
Critérios de noticiabilidade, para que te quero…
É como se muitas redações tivessem esquecido dos critérios de noticiabilidade. É isso: falta critério na seleção das pautas. Ao menos, falta o uso de bons parâmetros e a noção de que eles existem para agir como critérios de desempate diante de fatos necessariamente relevantes à população. A ideia é de Muñoz-Torres, a quem os valores-notícia não são atributos a serem encaixados nos acontecimentos, sob a obrigação burocrática. Os valores-notícia brotam dos fatos. É como se a realidade acenasse ao repórter e dissesse: eu preciso ser noticiada! Não o contrário.
Quando Boczkowski e Mitchelstein publicaram o livro The News Gap, em 2013, provaram em números o abismo que existe entre aquilo que sai no jornal e o que é de interesse da população. “Ao contrário das principais escolhas dos jornalistas, as preferências do público são marcadas por uma forte predileção por assuntos que não tratem do poder público, além das “notícias-que-você-pode-usar” (o que significa matérias com implicações diretas na vida cotidiana)”, escreve o casal.
O que fazer?
Como conclusão da pesquisa deste ano, com os news avoiders, os autores recomendam que os veículos criem esforços para separar suas atividades de tudo aquilo que tem a ver com a elite do poder público no imaginário popular. Essa seria uma condição para recuperarmos a credibilidade aos olhos de nossas audiências e, só então, voltarmos a ter relevância em suas vidas. Particularmente, vejo que uma das formas de se fazer isso é conectando o noticiário político à rotina da população. E se um fato não trouxer esta conexão, então não se trata de uma notícia. Que venha o próximo.
Acrescento à recomendação deles:
Não copie e cole trechos do Diário Oficial da União. São textos chatos e longos, nada jornalísticos.
Não se “acostume” com o juridiquês da política brasileira. O jornalismo existe para traduzir a realidade, fazer a mediação com o público, lembra? 😉 Você pode saber o que significa “pedir vista” ou “substitutiva”. Mas o público não é obrigado a saber disso e ele não vai procurar no Google para entender sua matéria.
Nem tudo tem que ser noticiado! Lembre-se que há vida além do Congresso, do Planalto, dos gabinetes, palácios e câmaras locais. O público não precisa estar a par de tudo o que você vê. Logo, o que parece ser uma super novidade para você talvez não faça o menor sentido para suas audiências, a menos que você contextualize.
Fuja do jornalismo declaratório. Ele tende a ser pobre e desinteressante.
Orbis Media Review – É perceptível que os estudos sobre jornalismo local se enfocam mais a jornais e revistas e até o modelo de reader revenue parece combinar melhor com esses tipos de veículos. Como você vê a situação das emissoras locais de televisão aberta, que também sofrem com a perda da publicidade? No que elas devem mudar e qual modelo de negócio se torna mais promissor a elas?
Lluís Cucarella – Tenho algumas dúvidas se as empresas de televisão exclusivamente locais podem utilizar o modelo de reader revenue como base principal de negócio se, primeiro, elas não ampliam o perímetro de seus serviços.
Há alguns casos de televisões locais abertas que estão construindo serviços adicionais premium, ainda que não sabemos qual será o resultado no médio prazo. Esses serviços premium agregam desde uma plataforma de webTV premium, independentemente da programação aberta, até um sistema de clube do espectador, pelo qual a pessoa que paga uma mensalidade a este canal é convidada para eventos que a emissora promove.
Além disso, o assinante tem acesso a serviços informativos, como newsletter premium. Mas são emissoras locais que saíram de suas configurações originais para converterem-se em veículos digitais multiplataforma. Elas têm, por exemplo, uma presença informativa potente na web, que reaproveita conteúdos, mas que também têm produção exclusiva e compete informativamente com jornais locais.
A plataforma de webTV premium geralmente oferece conteúdos televisivos adicionais sem suprimir material veiculado no sinal aberto, mas traz conteúdos adicionais, mais seletos, como debates com líderes empresariais, entrevistas, inclusive cursos ou formação, comentários dos próprios jornalistas a respeito de temas concretos, bem como serviços sob demanda.
De qualquer maneira, ainda estamos vendo como evoluem as TVs locais na hora de estabelecer um modelo de assinatura. Mas o primeiro passo realmente me parece este: superar as próprias localidades e configurações, com um serviço digital robusto que sirva inclusive como fonte primária de receita, àqueles usuários que estejam dispostos a pagar.
Orbis Media Review – Considerando São Paulo e outras metrópoles com milhões de habitantes, seus veículos locais costumam fazer cobertura nacional. Quais são os caminhos possíveis para fazer jornalismo realmente local nestes meios?
Cucarella – Este é um dos desafios mais complicados que existem, pois há veículos locais potentes em cidades de milhões de habitantes e fica mais difícil ainda se essas cidades são capitais. Há muitos fatores que jogam contra: são cidades com muita mobilidade de pessoas que vêm de outras localidades e não sentem este pertencimento a uma comunidade; assim os veículos dessas cidades se preocupam mais com o aspecto nacional dos fatos.
No local, dada a relevância pelo tamanho da metrópole, ela termina sendo coberta como uma parte do âmbito nacional. É aí que se apaga onde começa o local e onde termina o nacional. Em Madri, por exemplo, a agenda do prefeito assume status de informação nacional. Aquilo que, noutras cidades, é território jornalístico de veículos regionais, nas capitais se torna pauta de veículos generalistas, que deixam menos espaço às publicações locais.
Caso os veículos queiram ter presença local – porque esta é uma das formas de aumentar índices de assinaturas, por exemplo -, é preciso que dediquem espaço às comunidades com problemas ou simplesmente às necessidades comuns daquela população. Há jornais em capitais com milhões de habitantes que dão espaço a informações necessárias a quem chega, sobre onde ir, sobre preços de moradia, sobre trâmites legais, que têm verticais potentes sobre lazer local, guias, etc. Ou seja, aquilo que toca diretamente aos cidadãos.
Orbis Media Review – Você lembra que “o distanciamento entre veículos e leitores foi causado por um mal-entendido no conceito de neutralidade”. O que as publicações devem fazer para reconquistar a atenção, o respeito e até a admiração das audiências?
Lluís Cucarella – Reconquistar o respeito e a admiração vai ser, em geral, um caminho longo e complicado porque a onda vai na direção oposta. Por outro lado, muitos veículos fomentam a polarização e o jornalismo se converte, em muitos casos, em propaganda e isso implica no uso da mentira e da enganação. Chega uma hora em que o público fica cansado disso e busca novos modelos de informação.
No entanto, não acredito que estejamos perto deste ponto de cansaço em relação ao jornalismo posicionado, que não é novo, mas que aparece com força de maneira cíclica, de tempos em tempos.
Ainda resta bastante tempo para o partidarismo jornalístico, porque ele caiu no agrado de muita gente, em função das circunstâncias em que vivemos. O que os veículos devem fazer? Aqueles que querem oferecer um modelo diferente, devem apostar na honestidade intelectual. Se trata de dizer coisas que as pessoas não necessariamente querem escutar. Ainda que o veículo tenha uma linha editorial, é preciso ser honesto e criticar as coisas erradas que os opositores fazem, mas também as coisas erradas feitas por aqueles que são aliados e não deformar a realidade para contentar sempre os leitores, que buscam apenas reafirmar suas próprias ideias.
Este partidarismo é tão grande que, em alguns casos, assinantes ligam para cancelar porque não concordam com uma certa notícia que o jornal deu; geralmente são aquelas notícias que criticam o posicionamento deles ou que defendem o outro lado.
Muitas das reclamações que chegam ao serviço de atendimento ao cliente de um jornal neste momento têm a ver com isto. Por esta razão digo que não é fácil. Quando seus próprios leitores querem cancelar a assinatura porque não gostam de um artigo que não reforce suas posições ideológicas é porque ainda temos muito por fazer. Mas diante disso, é preciso explicar aos leitores que, quanto mais expostos estiverem a outras ideias, mais capacidade de juízo terão. No entanto, há que se desenhar muito bem essa estratégia didática.
Quando digo que há uma brecha entre veículos e usuários por um mal-entendido no conceito de neutralidade, me refiro à confusão que se faz entre neutralidade e equidistância – e o jornalismo não pode ser equidistante. Honestidade intelectual implica também tomar partido na defesa de direitos civis ou na reivindicação daquilo que é bom para uma cidade ou uma comunidade que está esquecida ou que é discriminada.
À escala local, quando algo é bom para uma cidade, o jornalismo não pode ficar sentado numa cadeira de bar contando apenas aquilo que vê; tem de liderar ou denunciar, envolver-se nos problemas das comunidades.
Lluís Cucarella acaba de lançar o dossiê “Desafios Editoriais da Imprensa Local no Mundo Pós-Coronavírus”.
A análise de Cucarella se desdobra pela criação de hábito de consumo de notícias, pela revisão dos critérios de noticiabilidade, pelo jornalismo partidário ou posicionado, pela interação entre leitores e jornalistas, pelos desafios de se fazer jornalismo local em megalópoles e também pelo universo da televisão.
A visão ampla que Cucarella lança aos desafios do jornalismo na atualidade se sustenta pelos quase 30 anos de experiência que acumula ocupando cargos diretivos em veículos espanhóis e à frente da consultoria Next Idea Media. Sua atuação se estende à docência em escolas de negócio e à diretoria editorial do site Laboratorio de Periodismo, da Fundación Luca de Tena.
Orbis Media Review – No relatório sobre jornalismo local você afirma que o veículo “deve ser parte das comunidades de interesse que já estão constituídas e servi-las”. Isso supõe que o jornalista esteja disposto a interagir individualmente com estas comunidades (conversar, mais do que produzir conteúdos atrás de sua tela). Como você avalia esta disponibilidade do jornalista em se aproximar do público e manter contato (ou convívio) permanente com as comunidades?
Lluís Cucarella – Às vezes tenho a sensação de que estamos deixando passar uma oportunidade magnífica de fazer um jornalismo muito melhor. Não falo de qualidade, porque há muito talento em profissionais jovens e em vários jornalistas mais velhos, que foram afastados das redações por conta da crise no setor e que agora são mais necessários do que nunca em função de sua experiência. Falo daquilo que parece ser um esforço nosso em adaptar os novos métodos e ferramentas à nossa forma de ver as coisas como indústria – e não de nos adaptarmos às inúmeras possibilidades que a tecnologia, por exemplo, nos oferece.
Outro dia escutei uma entrevista que o Jeff Jarvis dava a uma emissora de TV da Catalunha e ele fez uma análise sobre como os pesquisadores, médicos e cientistas souberam se adaptar rapidamente ao novo mundo e demonstraram isso com a covid-19 – por outro lado, como os jornalistas seguiram errando. Jarvis dizia que era normal ver a comunidade de pesquisadores usar a Internet para compartilhar informação, publicar artigos sobre a covid-19 à velocidade da luz, usar o Twitter para fazer revisão entre pares enquanto o jornalismo seguia entre suas muralhas.
O jornalismo precisa formar parte de comunidades
Ainda que os objetivos da comunidade científica não sejam necessariamente os mesmos dos jornalistas, devem ser coincidentes. Este exemplo ilustra a necessidade de que o jornalismo rompa suas barreiras e forme parte da comunidade de uma forma mais decidida. Isso implica estar sempre presente, se colocar a serviço da comunidade com o que pode contribuir e no que as pessoas precisem; implica dar voz a muito mais pessoas, sobretudo nas comunidades que têm algo a dizer mas que nunca foram ouvidas; implica buscar soluções, gerar debates, ajudar. O jornalista deve estar junto dessas comunidades, nestes setores, para escutá-las, ajudá-las no que seja positivo, para ver o que elas necessitam e dar vida a seus anseios.
Me preocupa que o jornalismo siga no sentido contrário, à medida em que veículos de uma linha editorial ou de outra, com honrosas exceções que dignificam o jornalismo, estejam tratando de polarizar a opinião pública, de reduzir o campo de batalha entre “os meus e os outros”, “nós e eles”, para gerar uma adesão por proximidade ideológica mais do que pela qualidade dos conteúdos ou pela forma em que ajudam a população a expandir suas mentes ou a serem capazes de entender melhor o mundo que as rodeia.
Me preocupa, logicamente, não apenas como jornalista, mas porque é um modelo que em algum momento se derrubará, assim como está caindo o modelo que se construiu ao redor das audiências massivas e do click-baiting. Para um jornalista, há poucas coisas mais tristes do que saber antecipadamente de que forma um veículo vai noticiar algo que tem diferentes interpretações ou lados, ou adivinhar como vai deformar um fato para que ele se encaixe em sua linha editorial.
Creio também que os governos deveriam apoiar mais o jornalismo local, se realmente querem uma sociedade diversa e plural, não apenas ideológica, mas territorialmente. No entanto, infelizmente, parece que em muitos casos os governantes estão satisfeitos com esta polarização que estamos vivendo. É mais fácil de controlar. Também acredito que este é um bom momento para que haja uma aproximação entre a imprensa local e a nacional, de mente mais aberta e que se llegue a acordos de, por exemplo, assinaturas conjuntas.
Orbis Media Review – Quanto à necessidade de que “o veículo ajude as pessoas em seus problemas diários”, mencionada no dossiê Desafios Editoriais da Imprensa Local no Mundo Pós-Coronavírus (pdf, em espanhol) – é possível que se precise fazer uma revisão dos critérios de noticiabilidade (valor-notícia)? Quais são os critérios que devem cair e quais outros valores os editores devem passar a considerar?
Lluís Cucarella – Falta uma profunda revisão do que estamos fazendo como jornalistas, principalmente entre aqueles que estão em cargos diretivos nas redações. Eu alterno a consultoria com trabalho em veículos e quando estive na liderança de empresas de mídia, conservei o costume de agarrar todos os dias o jornal impresso (e também o digital, de alguma forma) e, ao analisar o produto, apontar por quais artigos ali publicados valeria a pena pagar.
Sugiro aos editores e chefes de seção com quem trabalho que não esqueçam de perguntar a si mesmos quais conteúdos mereceriam ser pagose, na medida do possível, estendam o hábito a diferentes colegas da empresa.Na maior parte das vezes a lista é encabeçada por aquelas informações que resolvem problemas das pessoas, que falam daquilo que realmente lhes interessa, daquilo que elas vivem no dia a dia, como receber a aposentadoria, para alguns, ou como parcelar o pagamento de impostos durante a pandemia, para outros.
À escala local, quais setores são os que mais ofertam emprego na cidade, ou onde é possível comprar máscaras subsidiadas. O jornalismo deve avançar na direção das respostas, mais do que repetir ou amplificar as perguntas que já existem.
E não é apenas em relação a interesses pessoais. Por exemplo, sobre os problemas que afetam uma cidade, os veículos devem ir além e contar casos de sucesso, por exemplo, como regiões sob as mesmas circunstâncias conseguiram solucionar o problema ou realizar um projeto que há muito tempo dá esperança a uma comunidade. Aí o jornalismo de soluções tem muito o que dizer. Alguns jornais já entenderam a mudança. The Guardian, por exemplo, multiplicou por seis a produção de conteúdos de jornalismo de soluções durante a pandemia.
Evidentemente, a informação política também é necessária e insisto que um jornal deve oferecer esta visão de mundo, saber contextualizar e hierarquizar a informação. Mas quando uma edição traz apenas duas ou três notícias pelas quais entendemos que alguém estaria disposto a pagar, porque elas ajudam no seu dia a dia, este é um sinal de mau negócio.
Qual o impacto que os veículos jornalísticos podem ter na economia local? Em Minas Gerais, a TV Integração responde esta pergunta de uma forma simples e eficiente. Não é apenas através da produção de conteúdo que o jornalismo cumpre com sua função social. Um serviço que mistura traços das antigas páginas amarelas dos guias telefônicos com o bom e velho “classificados” dá visibilidade ao comércio de bairro.
O MegaDelivery nasce da necessidade impulsionada pela pandemia. De portas fechadas, mas com as contas em aberto, pequenos negócios locais encontram na plataforma um jeito gratuito de chegar aos consumidores. “Analisamos os cadastros que estão sendo feitos e a grande maioria não tem condições de ser anunciante da TV”, pondera Wladmir Virote, gerente de negócios e administração da afiliada da TV Globo em Juiz de Fora e um dos responsáveis pelo projeto
Ao lado de Paulo Vieira, diretor de jornalismo da TV Integração e masteriano de 2013, Wladmir vê no MegaDelivery um potencial de conscientização dos comerciantes a respeito do quão benéfica pode ser a propaganda e os resultados que ela traz. “Estamos vivendo um momento de dificuldade para todos os pequenos negócios e eles precisam dar vazão a seus produtos e serviços, precisam comunicar à população o que funciona e como”, analisa.
Do Marquinhos Serralheiro aos Bolos da Tia Pati
São salões de beleza, doceiras, escritórios de contabilidade, floriculturas, serviços de lavagem de carro, motoboy, eletricistas, assistências técnicas autorizadas, professores de inglês e uma série de outros tipos de estabelecimentos de pequeno e médio porte. Nos primeiros cinco dias, o MegaDelivery cadastrou 667 negócios das 500 cidades com cobertura da TV Integração.
Amostra de estabelecimentos cadastrados no MegaDelivery
Na verdade, é o próprio estabelecimento quem faz o registro na plataforma. Após uma checagem automatizada de links de redes sociais, profissionais da emissora fazem a validação do cadastro antes que o negócio apareça no site. Nesta etapa inicial o desafio é povoar a plataforma. Para isso a TV criou campanhas em espaços editoriais e de publicidade. A próxima etapa será desenvolver o hábito dos consumidores mineiros usarem os filtros do site para localizarem profissionais e produtos acessíveis, mesmo em tempos de isolamento.
A volta do MegaMinas
Tornar o site uma referência para o comércio local da região não deve ser uma tarefa difícil, já que o MegaDelivery reativa a marca Megaminas, uma velha conhecida do internauta mineiro. O MegaDelivery deve ser um braço do Megaminas, portal de conteúdo da TV Integração que existiu entre 2001 e 2013, quando todos os sites locais das afiliadas da TV Globo passaram a operar sobre a marca G1.
“A ideia do MegaMinas é de ter outros módulos que estão em planejamento, como balcão de empregos, previsão do tempo, cotações financeiras e entretenimento local”, anuncia Wladmir. Apesar de resgatar algumas de suas funcionalidades, o MegaMinas não irá competir com a operação digital de notícias da emissora, que seguirá no G1.
Jornalismo para criar pontes
No livro “A armadilha do conteúdo”, o autor Bharat Anand fala de uma relevância dos veículos de outrora em criar conexões entre pessoas com interesses semelhantes. No fundo, estes jornais não ganhavam dinheiro vendendo conteúdo, mas conectando compradores e vendedores, empregados e empregadores em espaços amplamente frequentados.
Qualquer semelhança com Uber, Airbnb ou mesmo com as redes sociais não é mera coincidência. O negócio da mídia funciona, historicamente, através da relevância das conexões sociais que promove. O conteúdo atrai, incentiva o trânsito pela plataforma; mas o que realmente envolve – e noutros tempos, dava dinheiro – é o encontro de quem tem interesses complementares em comum.
A situação atual das empresas jornalísticas – especialmente das provenientes da mídia impressa – mostra que Bharat tinha razão. Por mais que o MegaDelivery seja de uso gratuito tanto para os donos dos estabelecimentos quanto para os clientes, a aproximação da TV Integração com as comunidades locais deve se aprofundar e, quem sabe, recuperar ao veículo a função de alto impacto social na criação de pontes que fortalecem a economia e as relações locais.