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O que muitos chamam de jornalismo ativista eu chamo de jornalismo com propósito, algo fundamental para construção de marcas fortes e uma comunidade engajada.

No dicionário a palavra propósito significa a intenção de fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Pode ser ainda algo que se tem em vista, uma meta, um sentido. Na publicidade e no marketing é cada vez mais frequente o debate sobre como as marcas precisam de um propósito para seguir existindo e obter a atenção de consumidores, cada vez mais exigentes e com atenção disputada.

Marcas guiadas por propósito e com a comunicação de suas ações aos consumidores e parceiros tem sido o mantra entre as empresas mais sintonizadas na busca por inovação e longevidade em um mercado cada vez mais saturado, e que, ainda por cima, enfrenta uma economia global em crise.

Mas e quando buscamos aplicar o conceito de propósito de marca ao jornalismo? Você sabe me dizer qual o propósito do seu veículo preferido? Ou aquele onde você trabalha? Aqui não vale responder que é informar ou mencionar a função social do jornalismo.

Um verdadeiro propósito

É impressionante notar como veículos de mídia – sejam eles sites, portais, emissoras de rádio, televisão, e até mesmo os jornalistas, que também passam a ser entendidos como marcas – não deixam claros os seus propósitos. Em geral, é porque eles não os têm e, em alguns casos, empacotam seus trabalhos com um bonito slogan como se fosse um propósito da marca.

Cabe um parêntese para que não se confunda o propósito do jornalismo com o propósito de uma marca de jornalismo. Bill Kovach e Tom Rosenstiel escrevem em ‘The Elements of Journalism’, que o propósito do jornalismo é fornecer aos cidadãos as informações de que precisam para tomar as melhores decisões possíveis sobre suas vidas, suas comunidades, suas sociedades e seus governos. O propósito de uma marca de jornalismo, para sobreviver nos próximos anos, precisa ir além.

Valor único de jornalismo

Há algumas semanas, no Twitter, Jeff Jarvis, professor e diretor do Craig Newmark Graduate School of Journalism, refletiu sobre como o jornalismo atual segue um modelo que, segundo ele, é um reflexo residual do jornal desde o telégrafo – ou seja, continuar a fornecer notícias do mundo inteiro aos leitores. Isso é desnecessário e um desperdício. As organizações de notícias devem concentrar-se no valor único.

Além de uma frase clara e muito bem escrita, o propósito da marca precisa fazer parte da cultura de uma organização jornalística, seja nas suas reportagens, ao contratar profissionais e, sobretudo, ao entregar seu produto para a sua audiência consumidora. A pouca transparência e dificuldade em lidar com críticas que ajudem a melhorar o seu produto também são determinantes para a construção de uma marca com propósito.

Por fim, chego ao último ponto que considero fundamental para marcas de jornalismo que desejam construir conexões verdadeiras com sua audiência. É preciso desistir de tentar falar com muitos (principalmente na lógica dos algoritmos) e focar em criar conversas autênticas com quem está realmente interessado no seu jornalismo. Isso requer fazer escolhas editoriais do que se quer cobrir, como fazer isso e, principalmente, para quem.

Alguns bons exemplos de marcas com propósito

Apple: Mudar o mundo e a forma como as pessoas se comunicam.

Nike: Trazer inspiração e inovação para cada atleta do mundo. Se você tem um corpo, você é um atleta.

Starbucks: Inspirar e nutrir o espírito humano – uma pessoa, uma xícara de café e uma comunidade de cada vez.

Google: Organizar a informação mundial e torná-la universalmente acessível e útil.

Coca-Cola: Refrescar o mundo e inspirar momentos de otimismo e felicidade.

Red Bull: Revitalizar corpo e mente.

Por que o jornalismo surgiu? Esta pergunta foi feita a profissionais da área em uma postagem recente da nossa editora Ana Brambilla no LinkedIn. Sem pretender fazer uma ampla pesquisa e dar uma resposta definitiva à questão – se é que isto é possível –, optei, ao contrário, por lançar uma hipótese: será que o jornalismo não surgiu da necessidade que determinadas pessoas tinham de se posicionarem politicamente e fazer com que suas vozes fossem ouvidas? Caso esta suposição se sustente, então temos de assumir que há mais no jornalismo do que apenas a missão de informar. É certo que desta conclusão surge uma outra pergunta: escrever para defender uma causa é jornalismo? Talvez não seja jornalismo moderno e profissional, mas não seria uma forma de jornalismo ainda assim?

Daniel Hallin, doutor em ciência política e professor de comunicação da Universidade da Califórnia, por exemplo, é claro em afirmar que o “jornal do início do século XIX era uma instituição francamente política, normalmente financiada por um partido ou por um político”. Além disso, os jornais também abraçavam causas sem muito constrangimento. É provável que em nenhum momento da história americana isso tenha sido mais verdadeiro do que durante as décadas da Revolução em que os EUA lutaram contra a Inglaterra. Uma das consequências deste período, segundo o professor Robert Parkinson, foi um aumento considerável no número de jornais, que quadruplicaram do início dos anos 1760 até o fim daquele século. Mas esta não foi a única e nem a mais importante consequência causada pela ebulição política e social pela qual os Estados Unidos passaram no período:

“O engajamento político também levou os jornais a se afastarem das tentativas tradicionais presentes no início do século de deixar suas colunas abertas para ambos os lados dos debates. Depois de aprovada a Lei do Selo (pelo Parlamento inglês em 1765) – seja por inclinações políticas pessoais ou porque acharam que isso se adequaria melhor ao seu nicho de mercado -, os profissionais da área começaram a abandonar o ideal de neutralidade para abraçar ou rejeitar a resistência colonial à reforma imperial britânica”. (Robert Parkinson)

Desta forma, as circunstâncias políticas do país acabaram por moldar o estilo editorial, por assim dizer, dos impressos que circulavam na época. Alguns aderiram à luta revolucionária, “abrindo suas oficinas para encontros políticos ou publicando uma grande variedade de artigos e ensaios que suportavam a causa”. Muitos destes tornaram-se até mesmo membros dos Filhos da Liberdade – grupo que lutou em defesa dos colonos e organizou a Festa do Chá de Boston em protesto contra a Inglaterra. Outros, por sua vez, se mantiveram leais à Coroa e abriram seus jornais para que fossem publicados textos criticando os esforços dos revolucionários americanos. Neutralidade, se havia anteriormente, deixara então de existir.

Esta história é contada de forma mais criativa por Antonio García Martínez na revista americana Wired, ao considerar que uma versão ressuscitada de Benjamin Franklin “não teria um emprego no The Washington Post. Ao contrário, se ele fosse transportado para os dias atuais, provavelmente “teria uma conta anônima no Twitter com muitos seguidores, a qual usaria para rotineiramente trolar oponentes políticos”. Assim como Franklin, Samuel Adams – primo de John Adams – também escreveu sob diversos pseudônimos e não parecia considerar a imparcialidade um valor muito importante.

Isso leva a uma questão importante: o estilo de jornalismo imparcial e objetivo que passamos a conhecer é frequentemente invocado como um elemento essencial para a manutenção da democracia. No entanto, como conciliar este pensamento com o fato histórico de que a maior democracia do planeta foi consolidada em uma época de partidarismo declarado por parte dos jornais?

Ao contrário, o que parece ser verdade é que a democracia depende de muitos outros pilares para se sustentar e, embora jornais cumpram uma função substancial em uma sociedade livre e aberta, a imparcialidade não garante que a democracia permaneça viva e nem assegura a qualidade da reportagem.

Por outro lado, é certo que o jornalismo evoluiu desde aquele século de revoluções. A profissionalização da atividade (e a mudança nos modelos de geração de receita) fez com que os jornalistas mudassem suas práticas. Se antes os jornais eram claramente financiados por partidos políticos, eles passaram a lucrar principalmente com a publicidade após meados do século XIX, quando a Guerra Civil entre os estados do norte e os escravagistas do sul chegou ao fim.

Para que este modelo de negócios fizesse sentido, no entanto, era necessário mudar a proposta editorial. Um tom partidarista invariavelmente iria limitar o alcance da circulação, resultando na redução dos lucros obtidos com a publicidade. O conteúdo generalista e imparcial surge, então, como o produto mais adequado para as demandas financeiras das publicações.

Para que a sociedade precisa de jornais AGORA?

Vê-se que todas as propostas editoriais – partidárias ou generalistas – tornaram-se norma a depender das circunstâncias do momento. Conclusão esta que gera uma pergunta capital: quais são as demandas exigidas pelas circunstâncias atuais?

O financiamento partidário não retomou a popularidade que uma vez teve nos EUA. Embora muitos jornais brasileiros se acostumaram a receber verbas públicas, obter recursos de um partido específico destruiria todas as pretensões de isenção cultivadas pelos veículos tradicionais. Ainda assim, o modelo de negócios está inegavelmente passando por uma transição. Uma vez que a verba publicitária não tem mais como destino principal o bolso das empresas de mídia, a aposta tem sido na obtenção de recursos diretamente do leitor. Menos publicidade e mais assinaturas ainda é um modelo difícil de ser implementado, mas é o que garante maior estabilidade aos veículos que souberam adotá-lo com sucesso.

Um ponto que merece destaque, no entanto, é que o modelo de assinaturas dificilmente irá vingar para uma empresa de mídia se não estiver amparado e sustentado por uma proposta editorial adequada. O conteúdo neutro e generalista dificilmente será suficientemente necessário na vida do leitor ocasional para que ele comprometa parte de sua verba mensal com mais uma assinatura. Para isto, o jornal terá de encontrar uma forma de se diferenciar da concorrência – e no meio digital, ele está competindo não apenas com outros jornais, mas com plataformas de streaming e com todo o barulho gerado pelas redes sociais.

Falar para um dos muitos grupos engajados no debate político é uma alternativa, mas adotar um tom militante não é necessário – e nem necessariamente uma boa solução – para que os veículos consigam se engajar de forma mais profunda com os leitores. Exemplos como o site The Information, voltado ao setor da tecnologia, livre de anúncios e centrado no leitor, mostram que o conteúdo de nicho é uma boa alternativa. Para os veículos tradicionais que se acostumaram a publicar assuntos diversos, há ainda outros caminhos. Recentemente analisamos, aqui no Orbis, o exemplo da revista inglesa The Spectator, que não abdicou de falar sobre política e atualidades para oferecer um diferencial para o leitor. No caso, a publicação se propõe a escrever conteúdo analítico de excelência, sem separar a reportagem da opinião. Por este motivo, seus autores – não necessariamente jornalistas – se abstêm de qualquer pretensão de imparcialidade.

Ambos os casos são bons exemplos para os veículos tradicionais que ainda lutam para sobreviver nos tempos atuais e dentro de circunstâncias diferentes sob as quais prosperaram. Se posicionar parece ser cada vez mais uma necessidade, embora posicionamento nem sempre seja sinônimo de militância simplória que tem como fim último a causa política e não o cuidado com o leitor.

Além da mera imparcialidade, jornalismo também é ética e compromisso com a verdade. Nenhum destes dois critérios são incompatíveis com as demandas atuais por maior posicionamento e maior engajamento com parcelas específicas do público. Os dilemas editoriais e de negócios, em tempos de disrupção mercadológica, são sempre difíceis, embora fascinantes.

Do jornalismo posicionado que se consolidou durante a Revolução Americana, ao jornalismo personalista dos anos 1900, até o profissionalismo da atividade tal qual conhecemos hoje, o fato é que o setor está em constante evolução. Martínez acredita que o jornalismo não está morrendo, e sim voltando às suas raízes – isto é, ao estilo de parcialidade que marcou o século dezoito. A percepção pode bem ser verdade, mas não em sua totalidade. As demandas do público e os modelos de negócios, realmente, parecem favorecer um grau de posicionamento maior do que o existente na época em que a publicidade gerava renda, a neutralidade imperava e os jornais monopolizavam a comunicação social. Para os veículos que construíram longamente sua credibilidade baseada nestes critérios, no entanto, a parcialidade imprudente pode ser um suicídio. Já a declaração de valores e a transparência com o leitor, aliadas à ética de compromisso com a verdade e independência política que marcou a profissionalização da atividade, podem ser uma saída à crise editorial do presente momento. É uma solução certeira? Não. Mas ainda assim, é uma trilha melhor do que aquela que se desfaz sob nossos pés.

O momento é de rever práticas jornalísticas e de revisitar valores, até então, intocáveis da atividade. Dito dessa forma, o desafio que nossa indústria enfrenta parece simples e até óbvio.

Esta semana estive conversando sobre o tema com um técnico em informática de alguma cidade do Amazonas (o DDD que ele usava no WhatsApp era 92). E me chamou a atenção a tranquilidade e a clareza com que ele enxergava a solução para a crise no jornalismo.

[16:25, 27/07/2020] +55 92 xxxx-xxxx: Então tem YouTube, Instagram, Facebook, etc… Tudo que é rede social paga por visualizações, curtidas, etc…

[16:26, 27/07/2020] +55 92 xxxx-xxxx: É só evoluir

Adorei, especialmente, a parte do “é só evoluir”. Expliquei a ele que veículos não funcionam como influencers e que não podemos condicionar o nosso business a um terceiro (como as redes sociais). Mas realmente a visão sobre o que é “evoluir” para o jornalismo parece não estar suficientemente elucidada – nem mesmo para a própria indústria jornalística.

Por muito tempo, inovar correspondeu a experimentar novos formatos de conteúdo, empacotar as notícias de formas atraentes, compatíveis às múltiplas possibilidades que o meio digital oferece. Quebramos a cabeça em produzir conteúdo para redes sociais. Lembro como se fosse hoje, da estratégia “social first”. Demos nosso sangue e nossa alma para as plataformas de tecnologia porque era “in”, porque era bacana ser o primeiro a explorar tal ferramenta, porque no fim das contas a gente esperava que o público clicasse nos links e fosse para nossos sites.

O problema é que isso não aconteceu. As redes sociais deixaram de trazer todo aquele tráfego que nos seduziu entre 2010 e 2015. Além disso, se posicionou como mídia concorrente e atraiu a verba que os anunciantes investiam nos veículos. A ficha demorou para cair – e na maior parte das empresas, eu diria que ainda não caiu. Mas isso é tema para outro artigo…

Olhar de longe, em perspectiva

Evoluir, inovar, então, não está apenas na produção grátis de conteúdo para redes sociais. Tampouco no uso de novas linguagens e formatos. Fizemos isso e não foi suficiente. As empresas de mídia continuam encolhendo, o faturamento é esquálido e a atividade segue sob ameaça. Então, o que significa evoluir?!

Sempre acreditei que a melhor forma de resolvermos um problema é olhando de fora para ele, em perspectiva. Sim, é preciso ter conhecimento do mercado, mas também é fundamental um certo distanciamento para, inicialmente, entender que o jornalismo é “apenas” uma parte da vida em sociedade e que nossos veículos são um pedaço ainda menor da rotina das pessoas.

[Em tempo: conhecer as audiências, engajar o usuário são outros bordões associados à evolução no jornalismo. Elas têm sua verdade, mas adotá-los isoladamente, sem uma estratégia por trás, de novo, será desperdício de tempo e dinheiro.]

Exercício

Pois bem: nos cabe, antes de mais nada, identificar qual o espaço que ocupamos no mundo e na vida das pessoas. Este exercício pode soar algo “filosófico”, mas nos obrigará a enxergar o nosso produto desde outro ponto de vista, talvez mais próximo do olhar que o público tem em relação ao jornalismo.

Para o exercício funcionar bem, é importante respondermos como indivíduos – não como profissionais de uma empresa. 

  • Quantos conteúdos você consome por dia em um mesmo site jornalístico?
  • Você prefere conteúdos que tentam ser imparciais ou abertamente posicionados?
  • Você prefere conteúdos generalistas, de massa ou aqueles que falam de temas mais específicos aos seus interesses pessoais/profissionais?
  • Você consome jornalismo sempre do mesmo veículo ou prefere ter autonomia para escolher suas fontes de informação?

Fiz algumas destas perguntas a um grupo de jornalistas que participou de uma aula aberta do curso Empreender no Jornalismo, oferecido pelo Master Negócios de Mídia. As respostas me causaram surpresa. Uma boa surpresa! Pois estamos mais próximos de entender o jornalismo pelo ponto de vista da população – e não apenas pelo olhar do jornalista.

Nada menos que 35% dos colegas admitiram consumir até três conteúdos por dia num mesmo site noticioso. Apenas 17% afirmaram acessar mais de 10 notícias de uma mesmo produto. Diante deste cenário, pergunto: Por que insistimos em publicar conteúdo por toneladas, imaginando que o volume de trabalho se reflita diretamente numa audiência mais numerosa? Percebam que nem entrei no mérito da qualidade desse usuário, nem no valor do conteúdo editorial. Já discutimos, neste Orbis, casos de veículos que cortaram o volume de produção e registraram melhores resultados de audiência e negócio.

Isenção em xeque

Outra premissa centenária do jornalismo que entra em discussão – embora muitos jornalistas custem a admitir – se refere à demanda por conteúdo posicionado, seja politicamente, seja em relação a qualquer outro setor da sociedade.

Mais da metade dos colegas disse que prefere conteúdo posicionado. Se tantos de nós se sentem mais atraídos por veículos que assumem determinados valores, faz sentido sustentar o discurso da isenção?

Objetividade sempre foi um tema delicado – e utópico – no jornalismo. A ambição pela objetividade não é uma garantia de que ela se cumpra. Por muito tempo eu mesma defendi que o jornalista precisaria ao menos tentar sem objetivo, ainda que todos terminássemos relatando a realidade com base em nossos valores individuais ou corporativos, mesmo inconscientemente.

Quando o próprio jornalista escolhe conteúdo posicionado para consumir individualmente, não será o caso de abrirmos o jogo com o usuário e dizermos a ele, de uma vez por todas, qual o nosso lugar de fala? Não será mais honesto declarar nossos valores do que buscar sem sucesso uma pretensa e falida isenção?

Ora, o debate está polarizado. O mundo está polarizado! As bolhas algorítmicas não ajudam que este mindset mude, ao contrário! O veículo que se propuser à objetividade extrema e que consiga convencer os usuários a consumirem tal conteúdo com a mesma dedicação e preferência com que eles já consomem conteúdos posicionados talvez seja o próximo New York Times.

Já não se trata de ser contra ou a favor da objetividade. A evolução, nessa hora, passa por uma necessidade de adequação de certos valores jornalísticos ao espírito de nossos tempos. O mercado é outro, a demanda informativa da população é outra. Podemos insistir na busca pela isenção, mas enfrentaremos o sério risco de ficarmos falando sozinhos…

A informação posicionada já circula, bem ou mal, por mãos idôneas, outras nem tanto. E é para lá que a atenção do público vai. Não se trata de dar apenas aquilo que audiências querem, embora seja fundamental levá-las em conta. O ponto é que o jornalismo não tem poder suficiente para desfazer a polarização no imaginário popular. A cultura dos extremos surgiu e existe numa esfera muito mais profunda daquela onde atua nosso discurso. Poderíamos fazer nossa parte em dar o exemplo e insistir em mostrar os dois lados? Isso é fácil. O difícil é fazer o usuário a consumir essa informação.

A volta do jornalismo posicionado

É importante esclarecer: rever a objetividade não significa, em hipótese alguma, assumir um discurso falso ou militante. A verdade ainda é nossa matéria-prima. O que percebo é um movimento de naturalização do framing, de aceitação do viés no conteúdo editorial. Mais: sinto que as audiências já criaram uma expectativa de posicionamento dos veículos e buscam aqueles que simplesmente fortalecem seus pontos de vista.

É a era da pós-verdade. E por mais que doa ao nosso orgulho, não está nas mãos dos jornalistas, apenas, a reversão desse mindset. É preciso aceitar que os tempos são outros, a mentalidade vigente já não é mais a mesma do começo dos anos 2000. Ou jogamos o jogo com suas novas regras, ou estamos fora do mercado!

Este artigo da Wired e este outro, do NiemanLab, reforçam a tendência de que boa parte dos veículos voltarão a assumir posições, tal como era até meados do século XIX, quando partidos políticos financiavam jornais e incentivavam a venda de assinaturas. Naquela época não havia publicidade bancando a nossa indústria – hoje também não!

Jornalismo e democracia

Um grande amigo me ouve dizer essas coisas e se espanta: “Se não mostrar o outro lado não há debate! E o jornalismo é o lugar para o debate, onde a democracia se sustenta!” – sorry, querido, mas o público não lerá notícias contrárias ao seu ponto de vista com a finalidade de que este gesto os transforme em sustentáculos da democracia.

Pode ser decepcionante notarmos isso, mas a maior parte de quem está disposto a pagar por jornalismo não está preocupado com democracia. Os objetivos são outros, são pessoais e, sobretudo, que ajudem este usuário a se posicionar com mais força no viés em que ele já se enquadra. Essa afirmação não é leitura aleatória minha; está nesta pesquisa da Universidade de Michigan.

Sobre sermos fiéis a um mesmo veículo ou termos autonomia para escolhermos nossas fontes de informação, isso fica para outro artigo, porque este já está longo demais e poucos têm tempo suficiente para uma discussão tão estendida. Obrigada por ter chegado até aqui! Voltaremos! 😉


As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.




Este conteúdo faz parte da entrevista com o jornalista espanhol Lluís Cucarella, diretor do Observatorio para la Transformación del Periodismo Local e diretor editorial do site Laboratorio de Periodismo, da Fundación Luca de Tena. Acompanhe outros tópicos desta entrevista.


Orbis Media Review – Você lembra que “o distanciamento entre veículos e leitores foi causado por um mal-entendido no conceito de neutralidade”. O que as publicações devem fazer para reconquistar a atenção, o respeito e até a admiração das audiências?

Lluís Cucarella – Reconquistar o respeito e a admiração vai ser, em geral, um caminho longo e complicado porque a onda vai na direção oposta. Por outro lado, muitos veículos fomentam a polarização e o jornalismo se converte, em muitos casos, em propaganda e isso implica no uso da mentira e da enganação. Chega uma hora em que o público fica cansado disso e busca novos modelos de informação.

No entanto, não acredito que estejamos perto deste ponto de cansaço em relação ao jornalismo posicionado, que não é novo, mas que aparece com força de maneira cíclica, de tempos em tempos.

Ainda resta bastante tempo para o partidarismo jornalístico, porque ele caiu no agrado de muita gente, em função das circunstâncias em que vivemos. O que os veículos devem fazer? Aqueles que querem oferecer um modelo diferente, devem apostar na honestidade intelectual. Se trata de dizer coisas que as pessoas não necessariamente querem escutar. Ainda que o veículo tenha uma linha editorial, é preciso ser honesto e criticar as coisas erradas que os opositores fazem, mas também as coisas erradas feitas por aqueles que são aliados e não deformar a realidade para contentar sempre os leitores, que buscam apenas reafirmar suas próprias ideias.

Este partidarismo é tão grande que, em alguns casos, assinantes ligam para cancelar porque não concordam com uma certa notícia que o jornal deu; geralmente são aquelas notícias que criticam o posicionamento deles ou que defendem o outro lado.

Muitas das reclamações que chegam ao serviço de atendimento ao cliente de um jornal neste momento têm a ver com isto. Por esta razão digo que não é fácil. Quando seus próprios leitores querem cancelar a assinatura porque não gostam de um artigo que não reforce suas posições ideológicas é porque ainda temos muito por fazer. Mas diante disso, é preciso explicar aos leitores que, quanto mais expostos estiverem a outras ideias, mais capacidade de juízo terão. No entanto, há que se desenhar muito bem essa estratégia didática.

Quando digo que há uma brecha entre veículos e usuários por um mal-entendido no conceito de neutralidade, me refiro à confusão que se faz entre neutralidade e equidistância – e o jornalismo não pode ser equidistante. Honestidade intelectual implica também tomar partido na defesa de direitos civis ou na reivindicação daquilo que é bom para uma cidade ou uma comunidade que está esquecida ou que é discriminada.

À escala local, quando algo é bom para uma cidade, o jornalismo não pode ficar sentado numa cadeira de bar contando apenas aquilo que vê; tem de liderar ou denunciar, envolver-se nos problemas das comunidades.


Acompanhe outros tópicos desta entrevista com Lluís Cucarella.

Este conteúdo faz parte da entrevista com o jornalista espanhol Lluís Cucarella, diretor do Observatorio para la Transformación del Periodismo Local e diretor editorial do site Laboratorio de Periodismo, da Fundación Luca de Tena. Acompanhe outros tópicos desta entrevista.


Orbis Media Review – No relatório sobre jornalismo local você afirma que o veículo “deve ser parte das comunidades de interesse que já estão constituídas e servi-las”. Isso supõe que o jornalista esteja disposto a interagir individualmente com estas comunidades (conversar, mais do que produzir conteúdos atrás de sua tela). Como você avalia esta disponibilidade do jornalista em se aproximar do público e manter contato (ou convívio) permanente com as comunidades?

 Lluís Cucarella – Às vezes tenho a sensação de que estamos deixando passar uma oportunidade magnífica de fazer um jornalismo muito melhor. Não falo de qualidade, porque há muito talento em profissionais jovens e em vários jornalistas mais velhos, que foram afastados das redações por conta da crise no setor e que agora são mais necessários do que nunca em função de sua experiência. Falo daquilo que parece ser um esforço nosso em adaptar os novos métodos e ferramentas à nossa forma de ver as coisas como indústria – e não de nos adaptarmos às inúmeras possibilidades que a tecnologia, por exemplo, nos oferece.

Outro dia escutei uma entrevista que o Jeff Jarvis dava a uma emissora de TV da Catalunha e ele fez uma análise sobre como os pesquisadores, médicos e cientistas souberam se adaptar rapidamente ao novo mundo e demonstraram isso com a covid-19 – por outro lado, como os jornalistas seguiram errando. Jarvis dizia que era normal ver a comunidade de pesquisadores usar a Internet para compartilhar informação, publicar artigos sobre a covid-19 à velocidade da luz, usar o Twitter para fazer revisão entre pares enquanto o jornalismo seguia entre suas muralhas.

O jornalismo precisa formar parte de comunidades

Ainda que os objetivos da comunidade científica não sejam necessariamente os mesmos dos jornalistas, devem ser coincidentes. Este exemplo ilustra a necessidade de que o jornalismo rompa suas barreiras e forme parte da comunidade de uma forma mais decidida. Isso implica estar sempre presente, se colocar a serviço da comunidade com o que pode contribuir e no que as pessoas precisem; implica dar voz a muito mais pessoas, sobretudo nas comunidades que têm algo a dizer mas que nunca foram ouvidas; implica buscar soluções, gerar debates, ajudar. O jornalista deve estar junto dessas comunidades, nestes setores, para escutá-las, ajudá-las no que seja positivo, para ver o que elas necessitam e dar vida a seus anseios.

Me preocupa que o jornalismo siga no sentido contrário, à medida em que veículos de uma linha editorial ou de outra, com honrosas exceções que dignificam o jornalismo, estejam tratando de polarizar a opinião pública, de reduzir o campo de batalha entre “os meus e os outros”, “nós e eles”, para gerar uma adesão por proximidade ideológica mais do que pela qualidade dos conteúdos ou pela forma em que ajudam a população a expandir suas mentes ou a serem capazes de entender melhor o mundo que as rodeia. 

Me preocupa, logicamente, não apenas como jornalista, mas porque é um modelo que em algum momento se derrubará, assim como está caindo o modelo que se construiu ao redor das audiências massivas e do click-baiting. Para um jornalista, há poucas coisas mais tristes do que saber antecipadamente de que forma um veículo vai noticiar algo que tem diferentes interpretações ou lados, ou adivinhar como vai deformar um fato para que ele se encaixe em sua linha editorial.

Creio também que os governos deveriam apoiar mais o jornalismo local, se realmente querem uma sociedade diversa e plural, não apenas ideológica, mas territorialmente. No entanto, infelizmente, parece que em muitos casos os governantes estão satisfeitos com esta polarização que estamos vivendo. É mais fácil de controlar. Também acredito que este é um bom momento para que haja uma aproximação entre a imprensa local e a nacional, de mente mais aberta e que se llegue a acordos de, por exemplo, assinaturas conjuntas.



Acompanhe outros tópicos desta entrevista com Lluís Cucarella.