Quem trabalha com informação tem que ter muita vontade de servir. É com a compreensão de jornalismo como um serviço à sociedade que Marcello Corrêa Petrelli chegou à presidência do Grupo ND, conglomerado de mídia de Santa Catarina composto por 10 veículos, entre canais de televisão, jornais e plataformas digitais.
Em entrevista concedida ao jornalista Prof. Dr. Carlos Alberto Di Franco, no dia 12 de novembro de 2020, Petrelli apontou caminhos de prosperidade a empresas de comunicação. Tanto se fala nas dificuldades trazidas pela big techs, nos desafios apresentados pelas redes sociais, na dura competição pela atenção do usuário em tempos de overdose informativa. Mas para Petrelli, “quando se tem problemas, se tem oportunidades”.
“Conteúdo de política é importante, o contexto é importante, mas o mundo real é mais”, lembra Marcello Pettreli, presidente do Grupo ND de comunicação, de Santa Catarina.
“A verdadeira revolução da redação é defender a simplicidade, a humildade e, principalmente, o desejo de servir, de buscar aquilo que realmente interessa às pessoas e se relacionar. Jornalista tem que gostar de se relacionar”, analisa o ex-agricultor, que entregava pizza nos Estados Unidos para bancar os estudos e hoje lidera uma equipe de quase 600 funcionários.
A simplicidade que Petrelli acredita estar na raiz dos desafios a serem abraçados pelos jornalistas começa na formação do profissional. “As escolas formam jornalistas com uma visão distante da realidade, de querer estar próximo dela”, critica. Ao invés do estereótipo do “jornalista que sabe tudo”, é preciso “se aproximar das pessoas do mundo real, do que elas querem ouvir e saber”.
Menos Brasília, mais jornalismo local qualificado
Ele lembra que, como jornalistas, temos o “cacoete” de priorizar a política nos nossos noticiários. Como o brasileiro já não confia mais em político, “falar de política o tempo inteiro é perder audiência”, sentencia Petrelli. Ele ainda alerta: “Quanto mais noticiamos a política, mais poder eles têm, mais distanciamento da sociedade eles tomam. Nós damos todo este foco, toda essa coisa de ‘Excelentíssimo Senhor’ aos políticos. Mas temos que dar foco para quem? Para as pessoas comuns que estão dando emprego, buscando soluções, o empresário, o cidadão que atua no terceiro setor, para esta sociedade maravilhosa que aparece muito pouco [no noticiário] mas que está nas redes sociais”, observa.
“Às vezes o jornalista entende que é preciso que ele critique para resolver. Não é mais assim. As pessoas precisam aprender a elogiar, a estar muito mais no jornalismo construtivo, propositivo, do bem e da consciência. E sempre com a visão de reflexão para propor caminhos.”
É fato que as redes sociais trazem toda sorte de conteúdo e deixam nas mãos do usuário a tarefa de selecionar no que vai acreditar. “A pandemia colocou as redes sociais no lugar delas”, tranquiliza Petrelli, lembrando as inúmeras pesquisas que apontaram níveis de confiança discrepantes entre os veículos tradicionais e sites de relacionamento que retratam uma reaproximação do público a players de jornalismo profissional. Mas as redes vão além das fake news e mostram uma realidade muito particular que exerce profundo impacto na vida das pessoas. Este conteúdo, no entanto, não aparece na TV nem nos jornais. “Conteúdo de política é importante, o contexto é importante, mas o mundo real é mais”, pondera.
Diminuir o volume da cobertura de Brasília ou mesmo das agendas de vereadores e deputados é um caminho possível e até indicado para a despolarização do debate. Petrelli lembra dos tempos em que vivia em San Diego, há cerca de 30 anos, e o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, visitou a cidade. O jornal local noticiou o fato na quinta página da edição; se fosse no Brasil, seria matéria de capa! Como diz o Prof. Di Franco, muitas vezes “sobra Brasília, mas falta informação local, regional qualificada”.
Jornalista, um prestador de serviços
Enquanto vários colegas propagam a ideia de que o “jornalismo existe para incomodar governo”, a população cria uma imagem do noticiário – e dos jornalistas – cada vez mais desagradável para conviver. Não é gratuito o crescimento dos news avoiders nem a propagação do jornalismo de soluções. Enquanto muitos de nós publicamos denúncias sob a expectativa de que elas mobilizem a população, o que geramos é sentimento de impotência e afastamos ainda mais os consumidores das notícias.
“Às vezes o jornalista entende que é preciso que ele critique para resolver. Não é mais preciso isso. As pessoas precisam aprender a elogiar, a estar muito mais no jornalismo construtivo, propositivo, do bem e da consciência. E sempre com a visão de reflexão para propor caminhos”, orienta Petrelli.
O comportamento do jornalista será um diferencial nas redações.
Mudar a cultura que envolve a prática do jornalismo não é fácil, ele concorda. Mas o quanto antes se começa, mais cedo se colhe os frutos.
O primeiro passo é desenvolver no jornalista a percepção de que ele é um prestador de serviços. Isso passa pela humanização do profissional, pela adoção de uma postura mais transparente, que assume a culpa quando erra, que é criativo, sensível e, sobretudo, nutre relações com diferentes grupos de indivíduos. Entender de tecnologia é importante, mas já está virando uma commoditie. “O comportamento do jornalista será um diferencial nas redações”, prenuncia Pettreli.
Ao invés de se impor diante da sociedade ou de “baixar” suas verdades, o profissional da imprensa precisa encontrar alegria e leveza naquilo que faz. “Comunicação é fazer o bem”, avalia Petrelli. Ainda que a realidade a ser noticiada costume ser difícil, é preciso tratar a informação com tranquilidade e apontar caminhos. Só assim as audiências sentirão a satisfação de perceberem que suas vidas foram melhoradas graças às informações trazidas por aquele veículo jornalístico.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou a indicação da juíza Amy Coney Barrett para a Suprema Corte do País. A notícia recebeu um rótulo que, a meu ver, escancara um enviesamento ultrapassado, injusto e unilateral: “ultraconservadora”. Minha afirmação se apoia na constatação de um desequilíbrio recorrente. Quantas vezes, amigo leitor, você viu semelhante carimbo na outra ponta do espectro ideológico? Nenhuma, estou certo. Não vejo na imprensa uma gradação análoga para definir os que apoiam causas da esquerda. Todos são chamados genericamente de progressistas, qualificativo que transmite glamour e modernidade.
Vende-se ao leitor não informação, mas uma percepção, cartas marcadas, quase contrabando opinativo. Esta é a verdade. Aí você vai dar uma garimpada e descobre coisas interessantes. Amy Coney Barrett entra no Poder Judiciário pelas mãos de dois democratas. Nomeada pelo presidente Jimmy Carter em 1980 como juíza do Tribunal de Apelações dos Estados Unidos; nomeada por Bill Clinton para o cargo de Associada de Justiça da Suprema Corte e, finalmente, ascendida para a Suprema Corte.
Casada, católica, mãe de sete filhos, dois deles adotados e negros. Sua fotografia familiar atrai e tem pegada. Foi pupila de Antonin Scalia. Defensora da 1ª Emenda da Constituição Americana, aquela que garante às pessoas plena liberdade de expressão.
O rótulo “ultraconservadora” e a má vontade, creio, tem duas razões bem precisas. Primeiro porque o que está em jogo na indicação de Barrett é a possibilidade de a Suprema Corte dos EUA reverter o famoso caso Roe vs Wade, que permitiu a prática do aborto. Isso provoca vertigem nos chamados progressistas.
Depois, e para complicar, Barrett é uma originalista. Ela acredita que a enxuta Constituição dos Estados Unidos basta para resolver os conflitos jurídicos, mesmo tendo sido escrita há 233 anos. Os valores constitucionais, sobretudo o respeito às liberdades individuais e à vida, devem ser defendidos e conservados. Não é o que ocorre aqui na realidade brasileira, na qual ministros progressistas da Corte Suprema, armados de intenso ativismo judicial, atropelam o Congresso e impõem valores que estão na contramão da sociedade.
Creio que chegou a hora da imprensa superar a síndrome dos rótulos e desarmar esta armadilha antijornalística. Trata-se de uma prática que, certamente, acaba arranhando sua credibilidade. Alguns colegas, talvez inconscientemente, não perceberam que o mundo mudou. Insistem, teimosamente, em reduzir a vida à pobreza de quatro qualificativos: direita, esquerda, conservador, progressista. Tais epítetos, estrategicamente pendurados, têm dupla finalidade: exaltar ou afundar, criar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas. É tudo, menos jornalismo. Debatam-se os temas, com clareza e transparência, nas páginas de opinião. Mas não se use o espaço informativo para enviesar a notícia. O leitor não quer ser conduzido. Quer ser informado.
A reportagem é, ou deveria ser, sempre substantiva. O adjetivo é o enfeite da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta de apuração. É, frequentemente, uma mentira.
É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. O leitor quer informação clara, corajosa, completa, bem apurada. E hoje em dia pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital. Ficará conosco se soubermos apresentar um produto de qualidade.
É necessário perceber, para o bem o para o mal, que perdemos a hegemonia da informação e da narrativa. Impõe-se um jornalismo menos anti e mais propositivo. Precisamos olhar para as nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial no que estamos entregando aos nossos consumidores.
Outro problema recorrente: o negativismo e a falta de um jornalismo propositivo. Alguns setores da mídia, em nome da independência, castigam diariamente o fígado dos consumidores. Dominados pelo vírus do negativismo, perdem conexão com a vida real. O jornalismo não existe para elogiar, argumentam os defensores de uma imprensa que se transforma em exercício permanente de contrapoder. Tem uma missão de denúncia, de contraponto. Até aí, estou de acordo. A impunidade, embora resistente, está se enfrentando com o aparecimento de uma profunda mudança cultural: o ocaso do conformismo e o despertar da cidadania. Por isso, a imprensa investigativa, apoiada em denúncias bem apuradas, produz o autêntico jornalismo da boa notícia. Denunciar o mal é um dever ético.
A deformação, portanto, não está apenas no noticiário negativo, mas na miopia, na obsessão pelo underground da vida. O que critico não é o jornalismo de denúncia, mas o culto ao denuncismo e a ausência de um jornalismo propositivo. Estou convencido de que boa parte da crise que castiga a mídia pode ser explicada pelo isolamento de algumas redações, por sua orgulhosa incapacidade de ouvir suas audiências.
Menos rótulo e mais informação. Pode parecer uma pequena providência. Mas passará aos leitores um recado do equilíbrio cada vez mais demandado.
Qual a sua primeira reação ao ver uma notícia? Isso depende, é claro, do conteúdo. Mas depende, sobretudo, dos seus valores pessoais.
A terceira e nova pesquisa feita pelo Orbis Media Review mapeou como se dá o consumo de notícias nas redes sociais, especialmente sobre política. O levantamento intituladoConsumo de Notícias: uma Escuta das Bolhas se dedicou à reação mais espontânea e imediata que usuários relatam ter ao ler títulos de conteúdos jornalísticos de diferentes veículos, pretensamente neutros e expressamente posicionados.
As reações foram analisadas com base à linha ideológica declarada pelos participantes. Deste modo, foi possível notar que os usuários tendem a compartilhar conteúdos compatíveis às suas ideologias, justamente para grupos ou familiares que pensam da mesma forma (71%). Eles também preferem comentar notícias quando concordam com elas (55%), embora a quantidade de pessoas que dizem comentar notícias da oposição, mesmo antes de lê-las seja considerável (45%).
Bolhas como proteção ao cancelamento
O choque de ideias, porém, aparentemente necessário para a manutenção da democracia, tem extrapolado os limites do bom senso, no que ficou conhecido ultimamente como “cultura do cancelamento”. No ambiente hostil das discussões sobre política nas redes sociais, a bolha se consolida como um refúgio, uma proteção contra a agressividade; causa e consequência da dificuldade humana de ouvir o outro.
Não querer entrar no embate se expande ao ato de ignorar notícias da oposição. Sessenta por cento dos participantes confessaram simplesmente rolar a tela quando aparecem notícias de ideologia contrária à sua, ou enviam a seus pares, quem também se opõe a elas (53%).
Opostos, mas muito semelhantes
O aspecto mais curioso trazido por esta pesquisa foi o fato de que os dois pólos do debate político – direita e esquerda, aqui usados para fins de simplificação – reagem de maneira extremamente semelhante em relação ao conteúdo compatível e às notícias contrárias às suas respectivas posições. Não é possível afirmar, portanto, que determinado grupo político seja mais agressivo ou mais recluso em sua própria bolha, uma vez que as curvas dos gráficos de reações imediatas apresentam praticamente o mesmo desenho e que a amostragem foi composta de modo balanceado entre quem se declarou adepto à esquerda, centro-esquerda, direita ou centro-direita.
A pesquisa foi feita por meio de convite a perfis de redes sociais que atendiam a uma série de requisitos expostos no relatório. Entre julho e setembro, 310 respostas válidas foram coletadas de maneira anônima, via formulário online.
Aprende-se que, no constante exercício da profissão jornalística, é sempre imprescindível ouvir os dois lados de um fato, e que esta seria [teoricamente] a atitude ideal do bom jornalista! Mas, na prática, sabemos que ouvir os dois lados e garantir a imparcialidade tão sonhada pela grande mídia é tão difícil – ou praticamente impossível – se levássemos em conta a essência fundamentalmente humana do jornalismo.
A ideia defendida por Geneva Overholser em “Death to bothsidesism” nos traz à vida real e expõe a tentativa frustrada do mainstream em buscar uma neutralidade utópica na produção de notícias. A jornalista, veterana do TheNew York Times e do The Washington Post, defende o fim dessa isenção que, no fim das contas, acaba por apresentar uma “realidade a preto-e-branco ao leitor”. Além disso, afirma que a mesma imparcialidade faz com que “as pessoas pensem que não há nada sólido em que possam acreditar”.
Por essas e outras razões, fica difícil aceitar que a regra de ouro – defendida não só pelos publishers brasileiros como no mundo todo, desde o século passado – esteja cada dia mais comprometida.
E você, caro leitor, deve estar se perguntando: se a objetividade não serve ao jornalismo, o que, então, podemos fazer?
Podemos, todas as noites, deitar nossas cabeças no travesseiro com muita tranquilidade, sabendo que nossa sociedade (ainda) suporta a liberdade de defender pontos de vista sem que falemos obrigatoriamente dos dois lados de um fato. “Mas, com isso não estimulamos a bolha?”, podem perguntar. Também. Contudo, o jornalismo não é o grande culpado nessa história. Enquanto os veículos procurarem a verdade – nem que para isso tenham que declarar o fim deste “Doisladismo” – e tiverem a noção de que juntos podem manter a democracia, então grande parte da missão estará cumprida.
Por isso, considerando o contexto mercadológico em que veículos de diferentes posições podem (e precisam) coexistir, não seria esta uma evolução do modo de se defender a democracia?
Todo repórter merece um bom editor. Um tutor que o motive, um interlocutor que entenda de jornalismo e o faça rever decisões editoriais. E, em situações-limite, tome-as para si. Correção: não só merece como precisa. Seja eu, Luís Costa Pinto, Paulo Francis ou John Hersey… Observe que fauna ampla esta – da jornalista que faz investigação social no Nordeste, passando pelo que impulsiona a derrocada de um presidente da República, o que escreve críticas ácidas e o que narra uma explosão que matou 140 mil pessoas. Um editor, este ser que vem sendo testado – muitas vezes, dispensado – diante da crise do jornalismo e da dinâmica acelerada da internet.
“PC é testa de ferro de Fernando [Collor]”, “Os dois dividem tudo”, contava com ineditismo Pedro Collor, o irmão do então presidente Fernando a Luís Costa Pinto, jovem repórter pernambucano que trabalhava na sucursal da Veja em Brasília. Mais de duas horas de conversa. Novo encontro à noite, agora à beira-mar da Praia de Pajuçara. Dois copos de Red Label como testemunha. O que tinha ali era uma bomba, sabia o jornalista. Só tinha um problema: a conversa não foi gravada; Pedro Collor não quis.
É urgente destacarmos a importância do editor capaz de desempenhar o papel que lhe cabe: aprimorar o conteúdo, dar consistência à informação e, anonimamente, permitir que o holofote da glória se volte para o repórter.
Na conexão
Maceió-São Paulo se iniciava o diálogo entre o repórter e o diretor da Veja,
Mario Sergio Conti. Por fim, Conti liga para Elio Gaspari – correspondente em
Nova York, antecessor do cargo de Conti na Veja e cuja opinião ainda era muito
respeitada na revista. Cinco horas da manhã, repórter vidrado na escrita, Elio
Gaspari aconselha a não publicação até que houvesse uma gravação. A grande
bomba que a revista tinha nas mãos não foi publicada naquele momento. Só seria
edições depois, quando Luís Costa Pinto conseguiu que Pedro Collor desse a
entrevista gravada – com o desfecho que todos conhecemos.
Se a
primeira versão tivesse sido publicada, as consequências poderiam ter sido
outras. “Você teria o maior problema de sua vida”, disse anos depois Gaspari ao
repórter, em um jantar. “…Veja daria a entrevista e a revista começaria a
circular no sábado. Ela não estava gravada. Não tinha foto de Pedro falando com
você. As anotações tinham sido feitas com sua letra, a letra do jornalista. No
domingo, o Pedro Collor, acertado com o governo, iria à TV e desmentiria tudo.
Diria que o repórter inventou aquilo e a revista caiu na lorota. Você e a Veja
estariam desmoralizados…”. A história é contada pelo próprio Costa Pinto
em Trapaça, livro que ele lançou ano passado.
Um editor
que ponderasse. Foi o que faltou ao crítico Paulo Francis, quando escreveu o
artigo Tônia Carrero sem peruca, no Diário Carioca de 17 de
outubro de 1958, um texto “mesquinho e cruel” contra a atriz. O próprio Francis
– as aspas são dele – lamentaria depois não ter ouvido uma voz que o
contrariasse, um editor que recomendasse o engavetamento do texto por alguns
dias para então avaliar se tinha usado a dose certa de tinta. “O artigo é
sórdido, imperdoável, uma das mais pungentes vergonhas da minha vida, porque
foi pessoal, mesquinho, deliberadamente cruel, sem que houvesse motivo”, contou
Francis em suas memórias, O afeto que se encerra (1981)
Pare, espere ou avance na apuração. Complete. Lembro de uma celeuma criada no Diário de Pernambuco, em 2008, onde eu estava como repórter especial e produzia cadernos com longas reportagens. Havia percorrido oito mil quilômetros entre o Norte e o Nordeste do Brasil, dividindo o trajeto com a colega Marcionila Teixeira e a fotógrafa Alcione Ferreira, para falar sobre a hanseníase, a doença mais antiga da história que se colocava como ameaça às novas gerações.
Fui salva apenas por uma boa edição, feita por um profissional muito mais experiente que eu?
Tinha a
promessa de 12 páginas limpas de jornal de uma doença que até no papel
enfrentava preconceito. Quando publicar? Investimentos editoriais assim
costumam ter destaque na edição dominical, mas como estampar nesse dia uma
reportagem sobre doença tão discriminada?. “A grande inovação
será publicar no domingo. É a quebra do padrão”, defendeu o também repórter
especial Vandeck Santiago, que para mim sempre funcionou como editor. A
diretora de redação, Vera Ogando, decidiu: “Publica-se no domingo, sem
dúvidas”. Repercussão grande. Ministério da Saúde negociou a publicação para
uso informativo de agentes de saúde. Prêmio Esso. Acima do episódio, estava a
presença de dois editores experientes que acompanharam da produção à
publicação.
Na ativa há duas décadas, na maior parte do tempo como repórter, não foi só um; vivi alguns dilemas e questionamentos sobre o papel do editor. Este a seguir conto em conversas em turmas de estudantes. Havia deixado a editoria de política e estava focada em especiais. Escrevi uma longa reportagem sobre o fenômeno das lan houses no Nordeste. Partilhei com Vandeck cada passo da matéria, assim como as dúvidas enfrentadas. Veiculada como série de reportagem, ganhou repercussão nacional, impressionou jurados e se destacou como reportagem de informação científica. No Recife, ouvi de colegas: “a edição estava brilhante”. Ali, duvidei da minha capacidade de repórter. Fui salva apenas por uma boa edição, feita por um profissional muito mais experiente que eu?
O tempo mudou o modus operandi nas redações. Estamos diante do imediatismo imposto pela internet e padecendo com parcos recursos em virtude da crise econômica.
Meu editor percebeu a inquietação e insegurança da repórter iniciante sobre o resultado do esforço Sertão afora. “Leia Hiroshima, veja quantas vezes John Hersey teve de reescrevê-lo”. Sem comentários extras.
Primeiro, a reportagem sobre Hiroshima sairia em série, como de costume. Editores tomaram decisão inédita de condensar todo material em 30 mil palavras, numa única edição da New Yorker. O autor escreveu 150 páginas e as enviou aos editores. Eles fizeram um total de 200 observações até a reportagem ser concluída. Hersey havia passado seis semanas escrevendo a matéria. Só na primeira parte foram 47 observações com perguntas para a melhoria da matéria. Entre tantas, Harold Ross, um dos editores, apontava uma “falta grave”. Segundo ele, a primeira versão deixava pairar uma incerteza. Afinal, o que matou as pessoas: o incêndio, os escombros ou a concussão?
Aprendi a lição em 2007. O tempo mudou o modus operandi nas redações. Estamos diante do imediatismo imposto pela internet e padecendo com parcos recursos em virtude da crise econômica. Reduzem salários, postos e encurtam o processo produtivo. Hoje, em 2020, caminhei alguns quilômetros a mais. E chego aqui com a convicção de que é urgente destacarmos a importância do editor capaz de desempenhar o papel que lhe cabe: aprimorar o conteúdo, dar consistência à informação e, anonimamente, permitir que o holofote da glória se volte para o repórter.
O desejo de dar notícias é tão antigo quanto o próprio jornalismo. E a oportunidade de ser o primeiro a reportar um fato de forma rápida só reforça uma falsa impressão de que esse feito é essencial para o exercício da profissão. Já produzimos uma pequena #Fagulha sobre o assunto neste Orbis, e vimos que a corrida incessante por estar no topo do podium incentiva ainda mais os corredores a buscarem atalhos que, por outro lado, ameaçam a credibilidade da mídia.
Ao seguirmos a linha de pensamento do jornalista canadense John Macfarlane, a ideia de que notícias rápidas se assemelham, em analogia, a comidas de fast food – enquanto notícias mais aprofundadas e detalhadas se parecem com as de slow food – pode ser totalmente verossímil. Fato é que este segundo movimento gastronômico incentiva uma maior atenção com aquilo que comemos e uma busca por consumir aquilo que fará bem ao nosso corpo.
Ao reproduzir a fala do editor do The Walrus, podemos medir como consumidores:
“…se quero avaliar o valor nutricional [da comida] antes de colocá-la na boca, não seria também uma precaução sensata quando se trata de notícias? […] Se, como seres físicos, somos o que comemos, como cidadãos somos tão sólidos quanto as notícias e informações que consumimos. Uma dieta de notícias rápidas é tão prejudicial à saúde quanto uma dieta de fast food.”
No entanto, como bons chefs de cozinha que buscamos ser, nós (jornalistas) não poderíamos almejar uma Estrela Michelin e iniciar um ritmo mais saudável na produção e publicação do nosso conteúdo? Oferecer pratos consagrados que fogem ao movimento do “aqueça três minutos no microondas” não poderia ser um caminho para chegar à qualidade que há muito tempo buscamos e contribuir com uma dieta mais balanceada aos leitores?
O presidente Jair Bolsonaro e os jornalistas vivem em clima de guerra. Os embates, tóxicos e intransigentes, não têm a cara do Brasil. A perspectiva de quase dois anos de governo permite ensaiar um balanço das perdas e ganhos de um conflito desagradável e nada produtivo.
As últimas pesquisas mostram que o presidente da República, armado de seu estilo agressivo e tom de conversa em mesa de bar, está levando vantagem nas bolas divididas e fazendo mais gols. Bolsonaro ataca muito. Mas também apanha para valer. A percepção da sociedade refletida nas pesquisas é a de que Jair Bolsonaro, mesmo com o desgaste da “rachadinha”, está mais para vítima do que para vilão.
O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir certa postura de militância. Os eventuais desvios do governo não se combatem com o enviesamento das coberturas, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida.
Vamos a alguns exemplos. Eles ajudam a iluminar a argumentação deste artigo.
Não faz muito tempo, uma apresentadora de televisão afirmou, no ar, ao noticiar um evento do governo chamado “Vencendo a covid-19”, que “nem Bolsonaro nem as autoridades presentes prestaram solidariedade às vítimas”. Mas o distinto público pôde ver e ouvir que a médica Raissa Oliveira Azevedo de Melo Soares, uma das participantes da cerimônia, pediu um minuto de silêncio em homenagem aos 115 mil mortos na epidemia – e que todos os presentes atenderam ao seu apelo. Negar um fato comprovado com o som e a imagem é um tiro no pé, um absurdo.
É óbvio que nós, jornalistas, temos o dever ético de iluminar o lado escuro do governo. Mas denúncias, necessárias e pertinentes, precisam estar apoiadas na objetividade dos fatos e no verdadeiro interesse público.
Reproduzo recente manchete de jornal: “Bolsonaro monta roteiro para entregar obras de Lula e Dilma”. Pois bem, amigo leitor, a descontinuidade das obras de infraestrutura dos antecessores, com imensas consequências econômicas e perda de eficiência, tem sido objeto de recorrente crítica da imprensa e da sociedade. As inaugurações de Bolsonaro, independentemente do eventual ganho eleitoral, deveriam ser evitadas? É óbvio que não. Na verdade, o presidente está fazendo o que nós sempre cobramos: dar continuidade às obras de administrações anteriores.
O erro da imprensa, que a afasta das suas audiências, está em atribuir ao presidente coisas que ele não fez. É óbvio que nós, jornalistas, temos o dever ético de iluminar o lado escuro do governo. Mas denúncias, necessárias e pertinentes, precisam estar apoiadas na objetividade dos fatos e no verdadeiro interesse público.
Governo e imprensa não podem ter uma relação promíscua. É salutar certa tensão entre as instituições. Mas precisam conversar. São peças essenciais da estrutura democrática. Aguardo – já o disse outras vezes – que Bolsonaro desça do palanque e assuma o papel de presidente de todos os brasileiros. Espero também que nós, jornalistas, deponhamos as armas do engajamento e façamos jornalismo.
O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na ideologia, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião.
Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na ideologia, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião.
Ao longo deste ano, alguns jornalistas da grande mídia, na cobertura de política e do governo, e em nome de suposta independência, têm enveredado pelo que eu chamaria de jornalismo militante. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda crescentemente seus próprios leitores. Consumidores de jornais mostram cansaço com o excesso de negativismo de nossas pautas. Trata-se de um fato percebido nas redes sociais.
Na verdade, à semelhança do que aconteceu no segundo semestre de 2018, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e aquilo que se consolida paulatinamente como fatos e/ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas próprias reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela internet.
Sobra fofoca e falta notícia. No entanto, muitas pautas estão quicando na nossa frente. Precisamos fugir da espuma política e fazer a opção pela informação que realmente conta.
Ao agirem dessa forma, correm o risco de comprometer a viabilidade de seus próprios veículos, pois somarão às já conhecidas perdas de verbas publicitárias dos últimos muitos anos uma diminuição das audiências. Não se trata, por óbvio, de ficarmos reféns do leitorado. Os jornais, frequentemente, têm o dever ético de dizer coisas que podem não agradar aos seus leitores. Mas é preciso não perder conexão com as percepções do público e com a própria realidade.
É necessário reconhecer, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se, por óbvio, um jornalismo menos anti e mais propositivo. O que não significa, nem de longe, perder a necessária independência e senso crítico. A fiscalização dos governos e das instituições é parte essencial da atividade jornalística. A democracia se fortalece com uma imprensa isenta, mas crítica.
O jornalismo de registro, pobre e simplificador, repercute o Brasil oficial, mas oculta a verdadeira dimensão do País real. Sobra fofoca e falta notícia. No entanto, muitas pautas estão quicando na nossa frente. Precisamos fugir da espuma política e fazer a opção pela informação que realmente conta. É preciso investir em matérias profundas e capazes de despertar um debate consistente.
Uma das primeiras lições ensinadas a todo “foca” diz respeito aos critérios de noticiabilidade. Criados por Galtung e Ruge, um casal de noruegueses, na década de 60, os critérios trazem abrangência à qualquer conteúdo e, inclusive, têm a ver com a proximidade do fato com o leitor. Ou seja: o fato será tão mais relevante quanto mais próximo de seu público tiver acontecido.
Considerando cruciais os critérios para a produção atual da notícia, é fácil perceber que há uma clara deficiência dos grandes veículos com relação à produção de conteúdo. E na brecha deixada por eles, as novas iniciativas de jornalismo local vêm se beneficiando e tirando de letra. Em outras palavras, uma notícia dada por um veículo local – que conhece seu pequeno público – tem condições infinitamente maiores de informar com mais relevância aquilo que seu leitor precisa, de maneira acessível. Enquanto que, para um grande veículo, esta tarefa é muito mais difícil, e comunicar grandes assuntos para um grande público – que não conhece tão bem – se torna uma tarefa quase impossível.
Portanto, se por uma lado os grande veículos falam, predominantemente, de assuntos sobre Brasília, e estes não estão sendo mais tão relevantes assim, não seria prudente olharem para “baixo”, nem que seja por um instante, e aprenderem com as novas iniciativas locais, que fazem um jornalismo à serviço da comunidade e não de si próprio?
Em 2015, enquanto escrevia a tese, me deparei com a seguinte frase: “se os jovens de hoje não estão interessados nos conteúdos clássicos das notícias, isso não é um problema dos jovens, mas dos veículos”.
O autor é Wolfgang Donsbach, um professor e pesquisador alemão extremamente crítico – e realista destemido – da indústria da mídia. A clareza do raciocínio dele ecoa até hoje na minha cabeça e me ajuda a buscar um caminho para o reposicionamento do jornalismo na sociedade contemporânea, em especial, na rotina de cada indivíduo.
O que Donsbach e, humildemente, eu tentávamos alertar em meados da década passada era que o conceito de notícia clamava por revisão. Noutras palavras, notícia estava virando uma coisa chata! Mas como algo pode se tornar chato sem ter mudado? Justamente por esta razão – por não ter mudado – é que o noticiário de sempre se perdeu na avalanche de informações novas, sedutoras e abundantes no meio digital.
Pesquisa com news avoiders mexe com as bases do jornalismo
O começo do milênio deu o tom de uma geração hedonista ao extremo, sensível ~demais~ e intolerante às asperezas que fazem parte da vida de qualquer um. Ah, mas quem aceita ser tratado como “qualquer um”?
Daí surgiram os news avoiders, que escolhem, conscientemente, não consumir notícias em função do mal-estar que elas geram em seus humores. No dia 20 de agosto de 2020, a revista científica Journalism Studies publicou uma pesquisa esmiuçando o olhar dos news avoiders sobre o noticiário. Os pesquisadores Ruth Palmer, Benjamin Toff e Rasmus Kleis Nielsen conversaram com 83 pessoas na Espanha e no Reino Unido. Os resultados são, no mínimo, provocativos.
Entender que a relevância do jornalismo está na manutenção da democracia é conversa de jornalista.
O ponto alto do estudo não está nas respostas dos news avoiders, mas na chacoalhada de realidade que os autores dão naqueles que ainda acreditam na imprensa como uma instituição independente de quaisquer interesses políticos ou privados, e que carrega o poder de vigiar as instâncias públicas em prol do bem comum.
A utopia acabou. Entender que a relevância do jornalismo está na manutenção da democracia é conversa de jornalista. A maior parte das pessoas não enxerga assim. Que os veículos estejam cumprindo seu papel de informar decentemente a população é uma coisa. Já a percepção que o público tem dessa cobertura é outra. Ela é o oposto da visão idealizada que muitos de nós ainda temos da imprensa – e já se aninha no imaginário popular.
News avoiders vêem as notícias como algo, na melhor das hipóteses, irrelevante.
O relatório da pesquisa com os news avoiders afirma que eles vêem as notícias como algo, na melhor das hipóteses, irrelevante. Na pior das hipóteses, jornalismo é tido como um cúmplice de sistemas político e econômico, de algum dos lados.
Notícias e política se misturam na cabeça dessas pessoas e formam um monstro gigante de negatividade. Esta é a leitura de Joshua Benton, editor do NiemanLab, faz dos comentários colhidos pelos pesquisadores.
“Política é algo horroroso! Políticos são horrorosos!”
Para simplificar a história, a maioria dos entrevistados diz que política é algo horroroso; políticos são horrorosos. Então por que raios é preciso ler notícias sobre isso? (Lembrem-se do hedonismo, da intolerância à frustração, da falência das instituições sociais… Não é só a mídia que sofre com a falta de credibilidade; o poder público, os sindicatos, os partidos políticos são alvos ainda mais evidentes do desengajamento à organização tradicional da sociedade.)
Mais do que desgastada, a política que pauta a pesada maioria das notícias se mostra muito distante da vida cotidiana destas pessoas: “… a maioria dos entrevistados usa o termo ‘política’ e ‘político’ para descrever o que políticos profissionais fazem, geralmente no nível nacional, distante de suas rotinas”, analisa o relatório.
Ouso dizer: neste ponto, os news avoiders têm toda a razão! São inúmeros os casos em que os títulos começam por “Bolsonaro diz…” ou “Câmara vota…”. Os agentes das notícias sempre são os políticos. É como se o jornalismo se limitasse à órbita daqueles que foram eleitos a cargos públicos – sobre eles e paraeles -, sendo que muita gente nem lembra em quem votou nas últimas eleições.
Se o que realmente impacta na vida da população é a ação praticada por tal político, por que, então, não trazer o grupo impactado para o início do título? Eles é que são os reais agentes da notícia! (Eles não são agentes do fato, mas são protagonistas da notícia.)
Façamos um breve exercício de enfoque:
O fato de o presidente sancionar leis é recorrente e não impacta tanto na rotina de um cidadão quanto o efeito da lei sancionada. O agente da notícia não é o político, mas como o seu ato influencia na vida das pessoas.
Jornalistas e políticos estão em simbiose no imaginário popular
Voltando aos news avoiders, eles – e convenhamos, muitos de nós – associam(os) política à briga entre partidos e à corrupção. A vasta maioria não se identifica com qualquer partido político, não presta atenção à política em geral e ainda se descreve como “apolítica”, alegando estar “farta” do sistema, diz o relatório.
Por mais que a pesquisa de Palmer, Toff e Nielsen alerte para uma leitura inconscientemente preconceituosa da mídia, dizendo que os news avoiders adotam tais opiniões por reproduzirem o senso comum e não tanto a partir de um consumo crítico de notícias, é importante entender qual a imagem que os produtos e profissionais do jornalismo têm em certos grupos.
O desinteresse pela política vazou para o jornalismo e o contaminou.
Fundamentada ou não, a relação entre jornalistas e políticos está no imaginário popular e daí se prolifera o desinteresse e uma profunda desconfiança. Segundo o relatório, as notícias são apenas cartadas políticas para qualquer partido com quem o repórter ou a empresa de comunicação simpatize.
“Alguns [entrevistados] mudaram a expressão de cínicos para conspiratórios, colocando a mídia como conivente a um sistema de ‘forças obscuras [que] deliberadamente escondem ou distorcem informações para manter os cidadãos ignorantes ou distraídos diante daquilo que pessoas poderosas estariam realmente fazendo’.” – frankfurtianos, contenham o entusiasmo!
Os próprios pesquisadores reconhecem o tom populista na fala dos participantes, embora eles próprios não se classifiquem como populistas. Para além de um posicionamento ideológico, a abstenção impera:
“Eu odeio política. Esta é, provavelmente, uma das razões pelas quais eu não leio notícias, para ser sincero”, Ryan (Reino Unido).
Ou seja, o desinteresse pela política vazou para o jornalismo e o contaminou. Já que o jornalismo insiste em fazer notícia sobre si e para as fontes, a lógica diz que o desinteresse pelo jornalismo é o mínimo que se poderia esperar das audiências!
Para o espelho e para as fontes
Essa história de jornalismo escrever para o espelho é grave e já passou da hora de acabar. Nelson Traquina denuncia esta má prática há décadas. “Quando fontes e jornalistas são parte da mesma ‘rotina’ de maneira regular, pode-se estabelecer certa interdependência. O perigo é evidente.” – e cita Walter Lippmann: “O jornalista está, inevitavelmente, em contato pessoal com os líderes políticos e homens de negócio, criando relações de confiança e de simpatia; é muito mais difícil e embaraçoso ignorá-las”.
O jornalista precisa da fonte para fazer seu trabalho. A fonte precisa do jornalista para difundir suas ideias. (Sim, estou pensando no tapete verde do Congresso.) É um ambiente favorável à formação de um rede de cooperação! Você me ajuda e eu te ajudo. Simples assim. Esta é a percepção que os news avoiders têm da nossa profissão.
O jornalista escreve notícias para suas fontes e não para o público, distanciando-se das audiências e perdendo a relevância no cenário midiático.
Soma-se a isso os contatos viciados, o tempo sempre exíguo, as cobranças por audiência e a carência de postos de trabalho em redações. Repórteres se vêem praticamente numa situação de “fazemos qualquer negócio para manter nosso emprego”, mesmo que isso signifique publicar notícias que não fazem a menor diferença na rotina do cidadão.
Diante de cada pauta, pergunte-se: o que o meu leitor fará com esta notícia? Como ela vai influenciar na sua vida? Como vai melhorar sua rotina?
Lá em 2015 eu escrevia: “NelsonTraquina alerta que, aos jornalistas, os benefícios aparecem na eficácia de seu trabalho e na estabilidade do posto que ocupam, uma vez que usam uma autoridade para validar sua notícia. Do outro lado, as fontes oficiais também se beneficiam com a difusão de seus atos de maneira profissional, o que lhes dá relevância e reforça sua legitimidade. É comum, conforme diz o autor, que sob tais condições o jornalista passe a escrever notícias para suas fontes e não para o público, distanciando-se das audiências em nome de garantir sua sobrevivência nesta rotina profissional. Raquel San Martín reproduz a fala de um jornalista entrevistado em suas pesquisas: ‘Quando estou escrevendo sobre política, penso nos político, na classe dirigente, que controla o poder’.
O autocentramento da cultura profissional do jornalista reforça o microclima na atividade, fazendo com que o jornalismo seja uma trabalho feito para o espelho, ou seja, por e para o próprio repórter e sua rede imediata de contatos.” [Leia-se: fazemos jornalismo para nós mesmos e para os políticos que nos rodeiam.]
Entendem, agora, por que insisto há 17 anos em aproximar o jornalista do público? Porque é no microcosmos de nossas rotinas e interesses que vivemos, trabalhamos, entendemos o mundo e podemos fazer alguma diferença.
Interesse jornalístico
Falando em interesses, toda essa discussão passa pelos valores-notícia. O “interessante” sempre é para alguém. E não há nenhum ranço nesta observação.
Gosto quando Juan Ramón Muñoz-Torres busca na filosofia o entendimento para o interessante como valor-notícia. INTER-ES: A etimologia da palavra interesse conduz a tudo o que é ou estáentre algo ou alguém. Por seu caráter relacional, o interesse é algo tipicamente pessoal e pertence ao que Aristóteles chamava de “prática” ou práxis, relativo ao conhecimento aplicado, ao “obrar”. O interesse, portanto, é aquilo que leva o indivíduo à ação. Pergunte-se, diante de cada pauta: o que o leitor fará com esta notícia? Qual ação ela pode desencadear em sua vida?
Enquanto nós publicamos denúncias, na esperança de que elas mobilizem a população, o sentimento que despertamos é de impotência.
Se nos movemos por interesses [no melhor dos sentidos, como motivação], precisamos buscá-lo para sairmos do estado de inércia e, enfim, viver! No entanto, tomar atitudes é o que menos passa na cabeça desse pessoal cansado do noticiário de política…
A justificativa deles é que não podem fazer nada para melhorar a política retratada nas notícias. Mesmo diante da corrupção denunciada por uma reportagem de jornalismo investigativo, eles pensam como a Emily (UK): “Ninguém pode realmente mudar isso. Porque no final do dia não conta o que nós, pequeninos, pensamos. É tudo o que o governo decidir fazer. Isso é o mais importante”.
Enquanto nós publicamos denúncias, na esperança de que elas mobilizem a população, o sentimento que despertamos é de impotência. “Muitos evitam as notícias sobre política como grande parte da estratégia de gerenciar suas emoções. Ao invés de se engajarem com as notícias, eles se sentem tristes a respeito do estado das coisas e frustrados sobre a própria impotência em mudá-lo. Eles preferem conservar suas energias emocionais para enfocar em seus próprios problemas”, concluem os autores da pesquisa.
Para aproximar política e público
Chame isso de individualismo ou de espírito de sobrevivência, não importa. O fato é que o noticiário político não conversa com a vida das pessoas, não diz como tal fato pode impactar a rotina de cada um – se é que os fatos noticiados realmente têm poder de impacto.
É claro que o público se ocupará de problemas que realmente tocam suas vidas! É a conta de luz que sobe, o remédio que não chega no posto, o perrengue com o banco, a obra no condomínio, a reunião na escola dos filhos… Não sobra tempo nem atenção para que a bancada xpto pressione o relator Fulaninho a incluir o veto do Beltrano na pauta de votação do Senado.
Só que boa parte dos veículos que cobrem política ainda dá isso. E prioritariamente isso! Posso imaginar o repórter tomando o rumo da Esplanada de manhã cedo, condicionado a transformar em notícia todo o espirro que alguém der por ali. Não é assim que o jornalismo funciona. Mas foi nisso que se tornou: um retrato autocentrado de acontecimentos insossos e sem impacto imediato na vida do cidadão.
Critérios de noticiabilidade, para que te quero…
É como se muitas redações tivessem esquecido dos critérios de noticiabilidade. É isso: falta critério na seleção das pautas. Ao menos, falta o uso de bons parâmetros e a noção de que eles existem para agir como critérios de desempate diante de fatos necessariamente relevantes à população. A ideia é de Muñoz-Torres, a quem os valores-notícia não são atributos a serem encaixados nos acontecimentos, sob a obrigação burocrática. Os valores-notícia brotam dos fatos. É como se a realidade acenasse ao repórter e dissesse: eu preciso ser noticiada! Não o contrário.
Quando Boczkowski e Mitchelstein publicaram o livro The News Gap, em 2013, provaram em números o abismo que existe entre aquilo que sai no jornal e o que é de interesse da população. “Ao contrário das principais escolhas dos jornalistas, as preferências do público são marcadas por uma forte predileção por assuntos que não tratem do poder público, além das “notícias-que-você-pode-usar” (o que significa matérias com implicações diretas na vida cotidiana)”, escreve o casal.
O que fazer?
Como conclusão da pesquisa deste ano, com os news avoiders, os autores recomendam que os veículos criem esforços para separar suas atividades de tudo aquilo que tem a ver com a elite do poder público no imaginário popular. Essa seria uma condição para recuperarmos a credibilidade aos olhos de nossas audiências e, só então, voltarmos a ter relevância em suas vidas. Particularmente, vejo que uma das formas de se fazer isso é conectando o noticiário político à rotina da população. E se um fato não trouxer esta conexão, então não se trata de uma notícia. Que venha o próximo.
Acrescento à recomendação deles:
Não copie e cole trechos do Diário Oficial da União. São textos chatos e longos, nada jornalísticos.
Não se “acostume” com o juridiquês da política brasileira. O jornalismo existe para traduzir a realidade, fazer a mediação com o público, lembra? 😉 Você pode saber o que significa “pedir vista” ou “substitutiva”. Mas o público não é obrigado a saber disso e ele não vai procurar no Google para entender sua matéria.
Nem tudo tem que ser noticiado! Lembre-se que há vida além do Congresso, do Planalto, dos gabinetes, palácios e câmaras locais. O público não precisa estar a par de tudo o que você vê. Logo, o que parece ser uma super novidade para você talvez não faça o menor sentido para suas audiências, a menos que você contextualize.
Fuja do jornalismo declaratório. Ele tende a ser pobre e desinteressante.
Certa vez, ouvi a história de uma empresa farmacêutica que tinha um problema a ser resolvido e não via outra saída a não ser trocar todo seu maquinário. Obviamente, isso demandaria um custo financeiro gigantesco. O problema era que, em sua linha de produção, algumas caixinhas do xarope mais vendido pela empresa acabavam chegando às farmácias com os vidros vazios. Tudo por causa de uma falta de regulagem na máquina que injetava o líquido do medicamento dentro dos vasilhames, a qual, infelizmente, não tinha mais conserto.
Um dia, o diretor da empresa, num último esforço para resolver a dificuldade, convocou uma reunião com todos os funcionários para pensarem juntos numa solução que não onerasse tanto a companhia. Após os diretores darem seus pitacos mirabolantes, com ideias revolucionárias e sem sucesso, uma figura simples – mas com muito vigor – saiu do meio dos colaboradores e surpreendeu o grupo.
Dona Maria, que há 10 anos realizava o serviço de faxina na área de produção – portanto, conhecia o setor como a palma de sua mão – levantou o braço e disse: “Dá licença, desculpe me meter na conversa dos doutores, mas… e se a gente colocar um ventilador ao lado da esteira de produção? Assim, as caixinhas com os vidros de xarope vazios cairão da esteira com a força do vento e não corremos o risco de enviá-las junto das que irão cheias para as farmácias.”
É comum, caro leitor, acharmos que a inovação está nas mais altas tecnologias, na necessidade de novos profissionais, novos “maquinários”, modelos de negócio, na análise de novos dados etc. Mas, no fundo, será que – como os executivos da empresa citada acima – não estamos procurando inserir elementos nas redações que nos provoquem uma sensação de inovação mais do que o verdadeiro tesouro da transformação que vem das ideias simples, de pessoas simples?