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É preciso sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeça para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e, por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada. Nas redações brasileiras, multiplicam-se as telas coloridas que trazem, minuto a minuto, indicadores e gráficos mirabolantes. Ao final de um dia de trabalho, qualquer editor está habilitado a responder quais foram as reportagens mais lidas. Mas e depois disso? Continuamos incapazes de interpretar adequadamente todas essas cifras e utilizá-las a nosso favor.

É preciso investir forte em tecnologia e não há outro caminho. Os jornais The New York Times e Washington Post, para citar algumas referências da mídia impressa, já entenderam que neste novo contexto digital produção de conteúdo e tecnologia vão de mãos dadas. Tanto que, em tempos de crise no setor, o renomado diário de Jeff Bezos parece fazer questão de andar na contramão da concorrência. Ao invés de enxugar os seus quadros, o que faz é expandir suas equipes. Mas Bezos não contrata apenas jornalistas. Busca também profissionais que, controlando ferramentas de dados, apoiem a redação, o departamento comercial e o marketing. São engenheiros, estatísticos e desenvolvedores que interpretam os números gerados pelas audiências digitais, identificam tendências e propõem estratégias relacionadas ao negócio.

Também não levará muito tempo para que a tão comentada inteligência artificial seja incorporada à rotina das redações. Na Associated Press e em outras agências de notícias já são os robôs que geram parte das notícias sobre os balanços corporativos e fechamento das bolsas de valores. Um prato cheio para empresas jornalísticas especializadas na cobertura do setor financeiro. Mas com isso não quero dar a entender que, num futuro não muito distante, as redações poderão prescindir de seus repórteres. Apenas acredito que profissionais altamente capacitados deixarão de se dedicar a informações que podem ser geradas automaticamente para contribuir com reportagens analíticas e contextualizadas. Quem ganha é o consumidor. 

Certo é que os veículos não podem assistir inertes ao avanço dessas novas tendências. Não podemos repetir a atitude que tivemos nos primórdios da internet, quando raras figuras nas redações apostavam que o ambiente multimídia tomaria a dianteira nos negócios. Também não podemos reproduzir a postura de meados da década passada, quando, fechados em nossos paradigmas, observávamos atônitos como o Google e o Facebook abocanhavam parcelas cada vez mais significativas da verba publicitária.

Na última semana tive a oportunidade de conversar com um grupo de competentes jornalistas e gestores de veículos de comunicação, todos eles responsáveis pelo processo de transição digital em suas empresas. Vindos de diferentes Estados brasileiros e de alguns países da América Latina, eles se reuniram em São Paulo para o segundo módulo do “Estratégias Digitais para Empresas de Mídia”, programa que dirijo no ISE Business School.

Todos eles estavam desejosos de encontrar novos caminhos de monetização. Em sala de aula crescia a certeza de que as verbas publicitárias não retornarão aos níveis de antigamente e que, portanto, os ingressos deverão ser alavancados prioritariamente por meio do conteúdo digital. Como tarefa de casa, levaram um desafio nada fácil: olhar para a cobertura de seus veículos e questionar-se se há valor diferencial naquilo que estão entregando aos seus consumidores. Sabem que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar esse conteúdo. Afinal, ninguém pagará por aquilo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

Receberam também a missão de colocar a audiência no centro do processo. Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. Felizmente, o ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada. 

Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Passará pela construção de uma identidade editorial sólida, com apoio da tecnologia que permita escutar a voz dos consumidores. Mas, antes de tudo, exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de inovação.

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância ideológica ou partidária, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião. A credibilidade não é fruto de um momento. É o somatório de uma longa e transparente coerência.

A ferramenta de trabalho dos jornalistas é a curiosidade. A dúvida. A interrogação.  Há um ceticismo ético, base da boa reportagem investigativa. É a saudável desconfiança que se alimenta de uma paixão: o desejo dominante de descobrir e contar a verdade.

Outra coisa, bem diferente, é o jornalismo de suspeita. O profissional suspicaz não tem “ olhos de ver”. Não admite que possam existir decência, retidão, bondade. Tudo passa por um crivo negativo que se traduz numa incapacidade crescente de elogiar o que deu certo. O jornalista não deve ser ingênuo. Mas não precisa ser cínico. Basta ser honrado, trabalhador, independente.

A fórmula de um bom jornal reclama uma balanceada combinação de convicção e dúvida. A candura, num país marcado pela tradição da impunidade, acaba sendo um desserviço à sociedade. É indispensável o exercício da denúncia fundamentada. Precisamos, independentemente do escárnio e do fôlego das máfias corruptas e corruptoras, perseverar num verdadeiro jornalismo de buldogues. Um dia a coisa vai mudar. E vai mudar graças também ao esforço investigativo dos bons jornalistas. Essa atitude, contudo, não se confunde com o cinismo de quem sabe “o preço de cada coisa e o valor de coisa alguma.” O repórter, observador diário da corrupção e da miséria moral, não pode deixar que a alma envelheça. Convém renovar a rebeldia sonhadora do começo da carreira. Todos os dias. O coração do repórter deve pulsar em cada matéria.

Alguns desvios, no entanto, podem comprometer o resultado final do trabalho. A precipitação é um vírus que ameaça a qualidade informativa. Repórteres carentes de informação especializada e de documentação apropriada ficam reféns da fonte. Sobra declaração, mas falta apuração rigorosa. O poder público tem notável capacidade de pautar jornais. Fonte de governo é importante, mas não é a única. O jornalismo de registro, pobre e simplificador, repercute o Brasil oficial, mas oculta a verdadeira dimensão do País real. Muitas pautas estão quicando na nossa frente. Muitas histórias interessantes estão para ser contadas. Precisamos fugir do show político e fazer a opção pela informação que realmente conta. Só assim, com didatismo e equilíbrio, conseguiremos separar a notícia do lixo declaratório.

A incompetência foge dos bancos de dados. Troca milhão por bilhão. E, surpreendentemente, nada acontece. O jornalismo é o único negócio em que a satisfação do cliente (o consumidor da informação) parece interessar muito pouco. O jornalismo não fundamentado em documentação é o resultado acabado de uma perversa patologia: o despreparo de repórteres e a obsessão de editores com o fechamento. A chave de uma boa edição, no impresso e no digital, é o planejamento. Quando editores não formam os seus repórteres, quando a qualidade é expulsa pela ditadura do deadline, quando as entrevistas são feitas só pelo telefone e já não se olha nos olhos do entrevistado, está na hora de repensar todo o processo de edição.

O culto à frivolidade e a submissão à ditadura dos modismos estão na outra ponta do problema. Vivemos sob o domínio do politicamente correto. E o dogma do politicamente correto não deixa saída: de um lado, só há vilões; de outro, só se captam perfis de mocinhos. E sabemos que não é assim. A vida tem matizes. O verdadeiro jornalismo não busca apenas argumentos que reforcem a bola da vez, mas também, com a mesma vontade, os argumentos opostos. Estamos carentes de informação e faltos da boa dialética. Sente-se o leitor conduzido pela força de nossas idiossincrasias.

Por outro lado, ao tentar disputar espaço com o mundo do entretenimento, a chamada imprensa séria está entrando num perigoso processo de autofagia. A frivolidade não é a melhor companheira para a viagem da qualidade. Pode até atrair num primeiro momento, mas depois, não duvidemos, termina sofrendo arranhões irreparáveis no seu prestígio, na sua marca.

Registremos, ademais, os perigos do jornalismo de dossiê. Os riscos de instrumentalização da imprensa são evidentes. Por isso, é preciso revalorizar, e muito, as clássicas perguntas que devem ser feitas a qualquer repórter que cumpre pauta investigativa: Checou? Tem provas? A quem interessa essa informação? Trata-se de eficiente terapia no combate ao vírus da leviandade.

O esforço de isenção, no entanto, não se confunde com a omissão. O leitor espera uma imprensa combativa, disposta a exercer o seu intransferível dever de denúncia. Menos registro e mais apuração. Menos fofoca e mais seriedade. Menos espetáculo de marketing político e mais consistência.

Finalmente, precisamos ter transparência no reconhecimento de nossos equívocos. Uma imprensa ética sabe reconhecer os seus erros. As palavras podem informar corretamente, denunciar situações injustas, cobrar soluções. Mas podem também esquartejar reputações, destruir patrimônios, desinformar. Confessar um erro de português ou uma troca de legendas é fácil. Porém, admitir a prática de atitudes de prejulgamento, de manipulação informativa ou de leviandade noticiosa exige coragem moral. Reconhecer o erro, limpa e abertamente, é o pré-requisito da qualidade e, por isso, um dos alicerces da credibilidade.

A força de uma publicação não é fruto do acaso. É uma conquista diária. A credibilidade não combina com a leviandade. Só há uma receita duradoura: ética, profissionalismo e talento. O leitor, cada vez mais crítico e exigente, quer notícia. Quer informação substantiva.

Por Ana Elisa Farizano*

Durante muito tempo consideramos estar na era da imagem, onde o visual teria uma grande predominância e poder de atração sobre outros tipos de narrativa. De uns tempos para cá, o áudio começa a emergir como uma nova possibilidade para entreter, informar, produzir, circular e monetizar conteúdo. Neste contexto surgem os podcasts – poucos anos depois do início do milênio – como um arquivo de áudio de distribuição totalmente digital.

Sem a pretensão de fazer história, este formato surge originalmente de modo amador, onde os produtores não tinham uma forte formação técnica, mas dispunham de uma grande capacidade narrativa, o que os tornava altamente atrativos: os podcasters sabiam como contar uma história. Hoje, com vários anos de trajetória, os grandes veículos começam a investir neste formato, tal como fizeram os profissionais independentes, como uma oportunidade de chegar a novas audiências, especialmente aquelas mais jovens, caracterizadas como centenials e millennials.

É preciso diferenciar. Neste artigo faremos referência aos podcasts nativos, que são aqueles conteúdos que foram pensados e elaborados para serem consumidos independentemente de uma programação radiofônica, via streaming. Em contraposição, está a rádio desprogramada, que acontece quando uma emissora radiofônica publica, em uma plataforma digital, fragmentos ou cortes de sua programação com a finalidade de estender a vida útil daquele conteúdo.

No ensaio intitulado A Ética do Jornalismo Engajado, o jornalista Michel R. Francher relembra os princípios da atividade jornalística e cita o criador da primeira escola de jornalismo, em 1908, Walter Williams, para pensar no papel do profissional das redações na atualidade.

Após uma densa reflexão, que se estende da relevância do jornalismo à democracia até a transformação dos paradoxos da atividade em motores da inovação, Francher propõe uma declaração de compromisso para jornalistas. O documento é composto por 12 votos que afirmam a identidade e a missão do jornalista em servir à população por meio da escuta, da colaboração, da honestidade, da parceria, da confiança e de tantos outros valores que constituem pontos nevrálgicos da profissão.

Por Carlos Alberto Di Franco

As virtudes e as fraquezas dos jornais não são recatadas. Registram-nas fielmente os sensíveis radares dos leitores. Precisamos, por isso, derrubar inúmeros desvios que conspiram contra a credibilidade dos jornais.

Um deles, talvez o mais resistente, é o dogma da objetividade absoluta. Transmite, num pomposo tom de verdade, a falsa certeza da neutralidade jornalística. Só que essa separação radical entre fatos e interpretações simplesmente não existe. É uma bobagem.

O meio digital é marcado por um verdadeiro oceano de conteúdo criado e distribuído tanto por empresas, quanto por pessoas independentes. Diariamente são incontáveis postagens tratando dos temas mais diversos e imagináveis em tantos formatos quanto possível. E por mais que o jornalismo seja uma profissão de alto valor ideal por levar ao público informação importante e relevante, nas circunstâncias atuais ele também precisa competir pela atenção das pessoas.

Faz parte do senso comum jornalístico acreditar que aquilo que produz tem valor por si só. Mas será que o público enxerga isso? Um ideal assim de pouco vale se não for compartilhado.

A questão essencial para reflexão é: como o jornalismo pode capturar e manter a atenção de certa parte do público nas matérias que produz? A resposta costuma girar em torno dos valores e modelos jornalísticos: matérias com leads, imparcialidade acima de tudo, aspas comprovando algo que foi dito e mais aspas refletindo opiniões de especialistas.

Mas se o ambiente online onde o público se encontra é marcado por tanto conteúdo disseminado, como concorrer pela atenção fazendo algo que pouco se difere daquilo que a concorrência igualmente faz? O conteúdo de massa servia muito bem para os bons tempos da publicidade. Mas na era em que o leitor define o que irá consumir, publicar um conteúdo corriqueiro não seria uma estratégia insuficiente? Posto de outra forma, não faz mais sentido apresentar algo único ao consumidor como forma de se destacar na multidão?

Caso a última alternativa pareça uma saída mais adequada, será então preciso que o jornalismo olhe para si mesmo e pergunte se não está enclausurado pelas próprias fórmulas e modelos que criou como forma de demonstrar uma imparcialidade atualmente pouco atrativa.


Quantas notícias você consome por dia? E quantas delas você lê até o fim? Tente lembrar: todo este conteúdo foi publicado no mesmo site jornalístico ou estava distribuído por várias páginas?

Embora fidelidade a um veículo não seja o forte de quem consome conteúdo online, é possível que alguns sites atendam melhor às suas demandas por informação e, por isso, você costuma voltar neles uma, duas vezes ao dia. Talvez mais. Agora responda: você consome tudo o que este site publica? Todas as matérias, reportagens, colunas, podcasts, vídeos, de política à culinária, de esporte à economia, de horóscopo ao índices da Bovespa?

A distribuição e a circulação dos conteúdos jornalísticos nas redes sofreu uma alteração brusca em função dos algoritmos. É cada vez mais raro encontrar quem entre em um site pela home e não por uma página interna, diretamente pelo link a um conteúdo específico. A consequência mais imediata para o usuário é que o consumo de notícias — e de qualquer outro conteúdo jornalístico — se fragmenta em inúmeras fontes. O que chega a ser banal na atualidade é brutalmente diferente da forma como consumíamos conteúdo na mídia analógica, de massa.

Enquanto crescem os debates sobre o futuro do jornalismo, três correntes da atividade se fortalecem no cenário internacional. São elas: Constructive JournalismListening JournalismDialogue Journalism. Todas têm em comum a centralidade do público no processo editorial e não apenas no fim da cadeia, como receptor, aos moldes do que a maioria dos veículos ainda trabalha.

O protagonismo do usuário na produção de notícias e reportagens não é algo novo, nem mesmo no ambiente digital. Em fevereiro de 2000, o noticiário sul-coreano OhmyNews estremecia setores tradicionais da mídia internacional ao afirmar que every citizen is a reporter. O slogan convidava cidadãos do mundo todo a uma versão do site em inglês — além da original, em alfabeto hangul –, onde se publicava conteúdo enviado por não-jornalistas, mas discutido, selecionado e editado por profissionais baseados numa redação em Seul. A onda se espalhou e diversos veículos — muitos deles, brasileiros como Estadão, G1, O Globo, Terra e iG — criaram suas editorias colaborativas. O fenômeno ficou conhecido como jornalismo cidadão, jornalismo colaborativo ou jornalismo open source.

Constructive Journalism (ou Jornalismo de Soluções)

Quinze anos depois de cada cidadão poder tornar-se um repórter, se usaria pela primeira vez o termo Constructive Journalism, que nada tem a ver com a Teoria Construtivista do jornalismo. Internacionalmente projetada pelos estudos de newsmaking de Gaye Tuchman, o jornalismo construtivista entende que a notícia é sempre uma construção e não um espelho da realidade. Já o Constructive Journalism ficou conhecido como o “jornalismo de soluções”, ou seja, aquele que repudia a negatividade e o sensacionalismo como valores centrais para decidir o que é notícia e prioriza um olhar positivo.

O dinamarquês Ulrik Haagerup, fundador do Constructive Institute e um dos criadores do modelo, explicou no congresso mundial da WAN-IFRA de 2018, em Portugal, que o Constructive Journalism não busca pintar o mundo de cor-de-rosa. Ao contrário, o conteúdo enfoca os graves problemas mundiais como a contaminação dos oceanos pelo plástico, o trabalho escravo, o combustível fóssil, o desflorestamento, as epidemias, a miséria. Mas o trabalho editorial não para na investigação das mazelas. O diferencial do Constructive Journalism é perguntar: E agora? Que soluções estão funcionando noutros lugares e podem ser replicadas aqui? O que podemos fazer para mudar essa triste realidade?

O último relatório do Reuters Institute sobre jornalismo digital, publicado em junho de 2019, chama a atenção para os crescentes índices de fadiga noticiosa. Já são 32% dos participantes que admitem evitar o consumo de notícias. A principal razão é o impacto negativo que elas exercem no estado de ânimo do indivíduo. Se notícia ruim sempre existiu, o que mudou foi o olhar da população diante do noticiário e da vida em sociedade.

A reconstituição das tribos por meio das redes sociais provocou o ressurgimento de uma solidariedade sem fronteiras. O imperativo do hedonismo e a “obrigação em ser feliz” tornaram insuportável o sentimento de impotência que um leitor tem ao saber de uma desgraça pelo jornal. É justamente esse gap que o Jornalismo Construtivo vem preencher, munindo o usuário de caminhos para melhorar o mundo. Como exemplos podemos citar o Upside, do Guardian, o People Fixing the World, da BBC, o Fixes, do New York Times e o Impact, do HuffPost.

Listening Journalism

A segunda corrente de jornalismo que promete evoluir está inserida em uma “cultura da escuta”. Mas não será óbvio dizer que qualquer jornalismo é feito a partir do que o profissional escute de suas fontes, de autoridades e da própria comunidade? O compromisso do Listening Journalism é ouvir ativamente as necessidades de informação que o público tem, assim como o feedback sobre trabalhos já publicados. A escuta, portanto, não acontece apenas durante a produção das reportagens, mas principalmente antes da definição da pauta e depois da publicação.

Entre as técnicas já experimentadas, a bola de neve ajuda a expandir o conhecimento do jornalista sobre e entre uma comunidade. Dennis Anderson, editor executivo do Journal Star, de Illinois, começou conversando com uma pessoa sobre o que ela gostaria de ver no jornal. Ao fim do diálogo, ele pediu que a “entrevistada” indicasse cinco pessoas com quem ele pudesse continuar a conversa. Essas cinco pessoas indicariam, cada uma, outras cinco para serem ouvidas. Assim, a rede cresce exponencialmente, aproximando o jornalista e o veículo de áreas da sociedade que não tinham o menor contato ou interesse pela imprensa até então.


A bola de neve é uma ferramenta metodológica utilizada na pesquisa científica. No diagrama acima, desenhei a aplicação da técnica na minha tese de doutorado, quando usei o snowball para compor minha amostragem, a partir de redes sociais.

Humildade e empatia estão no topo da lista de atributos que o praticante do Listening Journalism precisa ter. Deixar que os indivíduos contem suas histórias é o modo mais simples e verdadeiro de recriar essa ponte entre o jornalismo e a sociedade. O maior desafio, no entanto, está em ouvir os críticos da imprensa, os ex-assinantes e descrentes no veículo para onde o profissional trabalha. Mas é justamente aí que o Listening Journalism pode fazer a diferença.

Além de contribuir para o aumento da geração de receita às empresas de comunicação, o Listening Journalism ajuda a reconstruir a confiança do público no veículo e detecta o real impacto que as publicações têm no dia a dia da população. A análise é de Cole Goins, do American Press Institute, responsável por ancorar uma série de estudos no jornalismo de escuta.

Seja nutrindo um grupo fechado de Facebook, seja promovendo eventos presenciais para a escuta focalizada, o Listening Journalism deve estar presente na rotina das comunidades. Assim funciona em Ohio, no YourVoice, em Nova Jersey, na Carolina do Norte e em Filadélfia por meio do News Voices.

Dialogue Journalism

Além de olhar pro mundo buscando soluções (Construtive Journalism) e de exercitar a escuta como parte da atividade da redação (Listening Journalism), o jornalismo assume uma nova função social: facilitar o diálogo entre a população.

No contexto de uma forte polarização de ideias no cenário político mundial, Eve Pearlman e Jeremy Hay lançaram em 2017, na Califórnia, um serviço de conversas sustentadas por conteúdo jornalístico e mediadas por jornalistas. O Spaceship Media já reuniu grupos de posições frontalmente antagônicas sobre aborto, posse de armas, disputa por terras, imigração e, claro, sobre o governo Trump.

O roteiro de ação do Dialogue Journalism começa em grupos online, fechados, que em alguns casos se expandem para encontros presenciais. A dinâmica consiste na aplicação de 4 perguntas que todos os integrantes devem responder:

  • O que você pensa sobre o grupo oponente?
  • O que você acha que que eles pensam sobre você?
  • O que você gostaria que eles soubessem a seu respeito?
  • O que você gostaria de saber sobre eles?

As respostas dos participantes são mediadas por jornalistas que seguem o debate agregando informações apuradas previamente sobre o tema em questão. As sessões são acompanhadas por profissionais de veículos parceiros, que transformam o conteúdo dos diálogos em material jornalístico e sugestões de pauta.

Dialogue Journalism segue sete princípios:

  1. Construção: mapeamento de temáticas e comunidades em conflito.
  2. Integração: descoberta do que um grupo pensa a respeito do grupo oponente.
  3. Acolhida: organização de eventos ou momentos de conversa entre os dois grupos.
  4. Experiência: criação de oportunidades para jornalistas e patrocinadores encontrarem um público altamente engajado e participativo.
  5. Continuidade: as conversas seguem após os eventos e, nelas, os praticantes do Dialogue Journalism ajudam a manter o respeito entre os debatedores e a fazer com que a interação seja produtiva.
  6. Alimentação: os jornalistas proveem pesquisa e informações apuradas que sustentam as discussões.
  7. Compartilhamento: o Dialogue Journalism funciona em parceria com outros veículos de mídia, que usam o conteúdo das conversas para entender a relevância de certas pautas entre a população.

Como técnica central ou dispositivo auxiliar no processo tradicional de fazer jornalismo, as três modalidades reafirmam o público como a razão principal da existência de qualquer veículo de comunicação. Mais do que reaproximar jornalistas e leitores, ouvintes, usuários, telespectadores, o desafio parece estar na busca por um novo e relevante papel do jornalismo no dia a dia dos indivíduos.

Negatividade é valor-notícia desde antes do surgimento dos tabloides sensacionalistas. As “folhas volantes” que circulavam na Europa do século XVII publicavam relatos em primeira pessoa escritos por assassinos condenados à morte. Eram as chamadas “canções da forca”. Mas agora tem (bastante) gente que, deliberadamente, evita consumir notícias porque elas são ruins. Será essa a raiz da crise no Jornalismo?

Além disso, credibilidade é uma coisa séria e, sim, a indústria também sofre com a desconfiança sobre o conteúdo dos veículos. O último relatório do Reuters Institute mostrou que a confiança nas notícias caiu 2 pontos percentuais no último ano, de 44% para 42%. Não convencemos nem mesmo a metade da população que ainda nos lê/assiste/ouve. Mas fake news não é o nosso maior calcanhar de Aquiles.

Tendo a acreditar que, quando as pessoas dizem que se afastam das notícias porque estão cansadas de “coisas ruins”, na verdade há duas razões subjacentes:

  • a sensação de impotência;
  • a falta de um impacto efetivo que aquela notícia terá no seu dia a dia.

Era da Hipersensibilidade

Notícia nunca teve o objetivo de fazer alguém feliz. E mesmo assim líamos o noticiário para “estarmos informados” sobre o mundo ao nosso redor. Acontece que esse mundo deu voltas e chegou à era do hedonismo, da razão sensível. Hipersensível. Não se trata de estarmos vivendo num mundo cor-de-rosa; longe disso! O hedonismo se manifesta nas intenções do dia a dia, na busca permanente pela felicidade, na liberdade imperativa, no lazer barato e encantador que a tecnologia promove.

É fácil passar horas jogando online. Caçar Pokemón cria uma camada lúdica e colorida sobre a cidade real, suja e insegura que habitamos. Quer coisa mais envolvente que cantar com amigos? É com isso que o TikTok agarra adolescentes mundo afora. E rir com os vídeos do YouTube? Fazer maratona no Netflix não falha pra gente participar da conversa no grupinho. Senão, põe aquela playlist no Spotify que parece ter sido feitinha pra ti. A tecnologia lava de dopamina nossas almas cinzas, da cor do jornal.

Solidariedade e afeto

Se vivemos, de fato, um reencantamento do mundo, onde as tribos urbanas instituem um código de estar-junto sustentado pela sensibilidade, é natural que a solidariedade ressurja como um elemento dessa “nebulosa afetiva”, de que fala Michel Maffesoli. Quero o outro porque ele me protege, me faz forte, me permite existir. Quero o outro porque ele “me”… Hum. Não. Melhor deixar essa polêmica para depois.

Viver na coletividade não só me sensibiliza, como também me mobiliza. Amo a quem nunca vi nem ouvi, mas pensa do mesmo jeito que eu. E esse afeto me impele a agir em nome do laço que nos une. A solidariedade emerge da necessidade de pertencer a uma comunidade sensível, já que as estruturas racionais e utilitaristas da sociedade ruíram.

A insustentável impotência do ser

Assim fica difícil ver o sofrimento dos meus pares na televisão, sem fazer nada a respeito. Ou ainda, é insuportável sentir a dor e a injustiça provocada por aqueles que são notícia e reconhecer minha inaptidão para mudar a realidade.

Não são as “notícias ruins” que afastam o público do Jornalismo. As notícias não mudam, infelizmente, desde o século XVII. O que mudou foi a reação do público diante delas. A sensação de impotência foi agravada pela necessidade do afeto urgente. Só resta nutrir minha hipersensibilidade com aquilo que me faz feliz. E focar no mundo “do bem”.

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Sugestão de leitura e disparador deste texto: Why do some people avoid news? Because they don’t trust us — or because they don’t think we add value to their lives?