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Práticas Editoriais

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Uma das teorias que explicam a crise que o jornalismo vive nos dias de hoje é a do jornalismo declaratório. A fuga de anunciantes causada pela transformação digital estaria empobrecendo os meios de comunicação e comprometendo, por consequência, as redações e a qualidade do conteúdo produzido pelos veículos.

Num ambiente onde os recursos humanos são escassos, também falta tempo para fazer o básico, ou seja,  checar as informações. Seguindo esta lógica, a escassez acaba preenchida com declarações que não são  confrontadas com dados, fatos ou até mesmo versões diferentes da mesma história, o que em tese deveria ser a essência do jornalismo.

Àqueles que acreditam nesta teoria, a cada dia faltam mais recursos e sobram mais declarações alimentando um círculo vicioso que deixa o conteúdo ainda mais pobre de informação, portanto, menos interessante para o público.

No entanto, uma outra versão é possível para explicar o surgimento do jornalismo declaratório. E parte do problema teria origem no processo de desintermediação da mídia. À medida que os meios de comunicação foram perdendo o monopólio da informação, muitas autoridades e personalidades – as fontes da notícia de uma forma geral – passaram a usar outras mídias para chegar ao público.

Num primeiro momento esta tendência parece inofensiva, algo que faz parte de um novo modelo de consumo da informação no qual todos são potenciais produtores de conteúdo. Mas a situação se agrava quando estas mesmas fontes passam a evitar os meios de comunicação, priorizando apenas outras mídias para garantir o direito de não serem confrontados por suas declarações e fazendo com que prevaleça uma narrativa que lhes é favorável.

Neste cenário, o prefeito já não precisa da imprensa para anunciar uma nova obra, mas também não será questionado se o dinheiro deveria ir para outra área. O jogador de futebol pode comentar a vitória do seu time em uma live do seu Instagram, mas se esquiva de dar declarações quando a equipe perde. A celebridade consegue dar spoilers do seu novo papel na novela com vídeos curtos no TikTok, mas evita que alguém aborde suas polêmicas pessoais.

Talvez por isso, surge um movimento quase espontâneo, nos meios de comunicação, de evitar o mal-estar natural que surge quando se é obrigado a  confrontar as fontes com fatos e dados. O jornalista, então, se limita a captar as declarações e, com isso, mantém uma relação amigável entre fonte e o veículo.

Nesta dinâmica, após colher a declaração com perguntas de conexão e não de questionamento, a análise do que foi dito acontece em um segundo momento, dentro do processo de construção da notícia. É neste contexto que ganha relevância o fact checking de entrevistas que confrontam as declarações aos fatos, comparando o que é verdade ou não. A mesma lógica se aplica aos comentaristas políticos que, distantes fisicamente das autoridades, conseguem analisar as declarações de forma mais crítica e contextualizada

O caminho mais óbvio para os críticos dos meios de comunicação é apontar que a crise do modelo de negócios estaria justamente na omissão do jornalismo em sua responsabilidade de questionar os entrevistados. Mas isso não leva em conta que o risco de perder o acesso à fonte da informação pode ser ainda mais prejudicial, favorecendo a prática do jornalismo declaratório. 

Uma vez que o veículo perde o acesso à fonte, ela certamente buscará outro canal – seja de notícia ou mídia social – para fazer tal declaração. Isso agrava o processo de desintermediação da imprensa e terceiriza a responsabilidade de trazer à público aquela versão ainda que, num primeiro momento, esteja descontextualizada de outros fatos ou versões.

Soma-se a isso o tom inquisitório com que muitas entrevistas e sabatinas assumiram, como se para confrontar declarações com fatos ou dados fosse obrigatório submeter a fonte a um constrangimento público para livrá-la moralmente da culpa de ter divulgado uma informação de forma imprecisa do ponto de vista jornalístico. O público manifesta aversão a este modelo de entrevistas e tem por instinto a tendência de ficar do lado que se mostra acuado, na posição de vítima (ainda que circunstancial). 

Por fim, vale lembrar que existe ainda um terceiro caminho possível para o excesso de declarações nos meios de comunicação. Justificados pela necessidade de trazer os muitos lados de uma história, no lugar de ampliar e contextualizar a informação, muitos meios acabam se limitando a expor versões declaradas deixando ao público o julgamento opinativo. 

A proposta deste artigo não é defender o jornalismo declaratório, mas entender os possíveis cenários que fazem deste modelo um fenômeno crescente. Está claro que, em todos estes cenários, a qualidade da informação é prejudicada, reduzindo a relevância do jornalismo em geral. Mas como reverter esta onda que parece a cada dia ganhar mais força?

Parte da resposta reside em voltar a fazer o básico e revisitar os bons e velhos pilares do jornalismo. Porém, ao mesmo tempo é necessário inovar e repensar a forma como abordamos estas fontes, extraindo delas informação que não seja meramente declaratória, mas que tampouco precise soar com uma acordo de delação premiada.

O fato é que mesmo que os veículos optem por não dar mais espaço ao jornalismo declaratório, este conteúdo terá cada vez mais lugar na sociedade através das redes sociais e, de uma forma ou de outra, acabará repercutindo na imprensa. São muitos os casos recentes de lives, podcasts ou vídeos amadores que pautam debates importantes.

Por que, então, estamos terceirizando esta responsabilidade, ainda que a origem seja uma declaração? Nossos colunistas não farão comentários acerca do tema de qualquer maneira num segundo momento? Não vamos suitar o assunto com enfoque em contexto de qualquer forma? Somos tão superiores ao ponto de que só vale ter acesso a uma fonte se pudermos extrair dela o que quisermos, no formato que melhor nos convém?

Precisamos ter a humildade de reconhecer que já não detemos o monopólio da informação e tampouco somos os únicos caminhos para se revelar a verdade. Talvez seja a hora de aposentar, de uma vez por todas, a capa de super-homem, assumindo que é o disfarce de Clark Kent o que mais condiz com a nossa realidade – e que nem por isso deixamos de ser bons jornalistas.

Por que o jornalismo surgiu? Esta pergunta foi feita a profissionais da área em uma postagem recente da nossa editora Ana Brambilla no LinkedIn. Sem pretender fazer uma ampla pesquisa e dar uma resposta definitiva à questão – se é que isto é possível –, optei, ao contrário, por lançar uma hipótese: será que o jornalismo não surgiu da necessidade que determinadas pessoas tinham de se posicionarem politicamente e fazer com que suas vozes fossem ouvidas? Caso esta suposição se sustente, então temos de assumir que há mais no jornalismo do que apenas a missão de informar. É certo que desta conclusão surge uma outra pergunta: escrever para defender uma causa é jornalismo? Talvez não seja jornalismo moderno e profissional, mas não seria uma forma de jornalismo ainda assim?

Daniel Hallin, doutor em ciência política e professor de comunicação da Universidade da Califórnia, por exemplo, é claro em afirmar que o “jornal do início do século XIX era uma instituição francamente política, normalmente financiada por um partido ou por um político”. Além disso, os jornais também abraçavam causas sem muito constrangimento. É provável que em nenhum momento da história americana isso tenha sido mais verdadeiro do que durante as décadas da Revolução em que os EUA lutaram contra a Inglaterra. Uma das consequências deste período, segundo o professor Robert Parkinson, foi um aumento considerável no número de jornais, que quadruplicaram do início dos anos 1760 até o fim daquele século. Mas esta não foi a única e nem a mais importante consequência causada pela ebulição política e social pela qual os Estados Unidos passaram no período:

“O engajamento político também levou os jornais a se afastarem das tentativas tradicionais presentes no início do século de deixar suas colunas abertas para ambos os lados dos debates. Depois de aprovada a Lei do Selo (pelo Parlamento inglês em 1765) – seja por inclinações políticas pessoais ou porque acharam que isso se adequaria melhor ao seu nicho de mercado -, os profissionais da área começaram a abandonar o ideal de neutralidade para abraçar ou rejeitar a resistência colonial à reforma imperial britânica”. (Robert Parkinson)

Desta forma, as circunstâncias políticas do país acabaram por moldar o estilo editorial, por assim dizer, dos impressos que circulavam na época. Alguns aderiram à luta revolucionária, “abrindo suas oficinas para encontros políticos ou publicando uma grande variedade de artigos e ensaios que suportavam a causa”. Muitos destes tornaram-se até mesmo membros dos Filhos da Liberdade – grupo que lutou em defesa dos colonos e organizou a Festa do Chá de Boston em protesto contra a Inglaterra. Outros, por sua vez, se mantiveram leais à Coroa e abriram seus jornais para que fossem publicados textos criticando os esforços dos revolucionários americanos. Neutralidade, se havia anteriormente, deixara então de existir.

Esta história é contada de forma mais criativa por Antonio García Martínez na revista americana Wired, ao considerar que uma versão ressuscitada de Benjamin Franklin “não teria um emprego no The Washington Post. Ao contrário, se ele fosse transportado para os dias atuais, provavelmente “teria uma conta anônima no Twitter com muitos seguidores, a qual usaria para rotineiramente trolar oponentes políticos”. Assim como Franklin, Samuel Adams – primo de John Adams – também escreveu sob diversos pseudônimos e não parecia considerar a imparcialidade um valor muito importante.

Isso leva a uma questão importante: o estilo de jornalismo imparcial e objetivo que passamos a conhecer é frequentemente invocado como um elemento essencial para a manutenção da democracia. No entanto, como conciliar este pensamento com o fato histórico de que a maior democracia do planeta foi consolidada em uma época de partidarismo declarado por parte dos jornais?

Ao contrário, o que parece ser verdade é que a democracia depende de muitos outros pilares para se sustentar e, embora jornais cumpram uma função substancial em uma sociedade livre e aberta, a imparcialidade não garante que a democracia permaneça viva e nem assegura a qualidade da reportagem.

Por outro lado, é certo que o jornalismo evoluiu desde aquele século de revoluções. A profissionalização da atividade (e a mudança nos modelos de geração de receita) fez com que os jornalistas mudassem suas práticas. Se antes os jornais eram claramente financiados por partidos políticos, eles passaram a lucrar principalmente com a publicidade após meados do século XIX, quando a Guerra Civil entre os estados do norte e os escravagistas do sul chegou ao fim.

Para que este modelo de negócios fizesse sentido, no entanto, era necessário mudar a proposta editorial. Um tom partidarista invariavelmente iria limitar o alcance da circulação, resultando na redução dos lucros obtidos com a publicidade. O conteúdo generalista e imparcial surge, então, como o produto mais adequado para as demandas financeiras das publicações.

Para que a sociedade precisa de jornais AGORA?

Vê-se que todas as propostas editoriais – partidárias ou generalistas – tornaram-se norma a depender das circunstâncias do momento. Conclusão esta que gera uma pergunta capital: quais são as demandas exigidas pelas circunstâncias atuais?

O financiamento partidário não retomou a popularidade que uma vez teve nos EUA. Embora muitos jornais brasileiros se acostumaram a receber verbas públicas, obter recursos de um partido específico destruiria todas as pretensões de isenção cultivadas pelos veículos tradicionais. Ainda assim, o modelo de negócios está inegavelmente passando por uma transição. Uma vez que a verba publicitária não tem mais como destino principal o bolso das empresas de mídia, a aposta tem sido na obtenção de recursos diretamente do leitor. Menos publicidade e mais assinaturas ainda é um modelo difícil de ser implementado, mas é o que garante maior estabilidade aos veículos que souberam adotá-lo com sucesso.

Um ponto que merece destaque, no entanto, é que o modelo de assinaturas dificilmente irá vingar para uma empresa de mídia se não estiver amparado e sustentado por uma proposta editorial adequada. O conteúdo neutro e generalista dificilmente será suficientemente necessário na vida do leitor ocasional para que ele comprometa parte de sua verba mensal com mais uma assinatura. Para isto, o jornal terá de encontrar uma forma de se diferenciar da concorrência – e no meio digital, ele está competindo não apenas com outros jornais, mas com plataformas de streaming e com todo o barulho gerado pelas redes sociais.

Falar para um dos muitos grupos engajados no debate político é uma alternativa, mas adotar um tom militante não é necessário – e nem necessariamente uma boa solução – para que os veículos consigam se engajar de forma mais profunda com os leitores. Exemplos como o site The Information, voltado ao setor da tecnologia, livre de anúncios e centrado no leitor, mostram que o conteúdo de nicho é uma boa alternativa. Para os veículos tradicionais que se acostumaram a publicar assuntos diversos, há ainda outros caminhos. Recentemente analisamos, aqui no Orbis, o exemplo da revista inglesa The Spectator, que não abdicou de falar sobre política e atualidades para oferecer um diferencial para o leitor. No caso, a publicação se propõe a escrever conteúdo analítico de excelência, sem separar a reportagem da opinião. Por este motivo, seus autores – não necessariamente jornalistas – se abstêm de qualquer pretensão de imparcialidade.

Ambos os casos são bons exemplos para os veículos tradicionais que ainda lutam para sobreviver nos tempos atuais e dentro de circunstâncias diferentes sob as quais prosperaram. Se posicionar parece ser cada vez mais uma necessidade, embora posicionamento nem sempre seja sinônimo de militância simplória que tem como fim último a causa política e não o cuidado com o leitor.

Além da mera imparcialidade, jornalismo também é ética e compromisso com a verdade. Nenhum destes dois critérios são incompatíveis com as demandas atuais por maior posicionamento e maior engajamento com parcelas específicas do público. Os dilemas editoriais e de negócios, em tempos de disrupção mercadológica, são sempre difíceis, embora fascinantes.

Do jornalismo posicionado que se consolidou durante a Revolução Americana, ao jornalismo personalista dos anos 1900, até o profissionalismo da atividade tal qual conhecemos hoje, o fato é que o setor está em constante evolução. Martínez acredita que o jornalismo não está morrendo, e sim voltando às suas raízes – isto é, ao estilo de parcialidade que marcou o século dezoito. A percepção pode bem ser verdade, mas não em sua totalidade. As demandas do público e os modelos de negócios, realmente, parecem favorecer um grau de posicionamento maior do que o existente na época em que a publicidade gerava renda, a neutralidade imperava e os jornais monopolizavam a comunicação social. Para os veículos que construíram longamente sua credibilidade baseada nestes critérios, no entanto, a parcialidade imprudente pode ser um suicídio. Já a declaração de valores e a transparência com o leitor, aliadas à ética de compromisso com a verdade e independência política que marcou a profissionalização da atividade, podem ser uma saída à crise editorial do presente momento. É uma solução certeira? Não. Mas ainda assim, é uma trilha melhor do que aquela que se desfaz sob nossos pés.

Dos mesmos produtores de “minha falha é ser perfeccionista” e da expressão “com todo o respeito” que antecede falas conscientemente desrespeitosas, cresce a recorrência dos adeptos ao “posso estar enganado, mas…“.

Esta semi(pseudo?)-humildade geralmente funciona no nosso discurso cotidiano como um salvo conduto, uma permissão para dizermos qualquer coisa como certa e verdadeira, ainda que não seja.

Lembrei disso ontem de manhã, ao conversar com o Pedro Franco, pesquisador brasileiro na New York University (NYU), sobre Humildade Intelectual (HI). Numa breve busca sobre o tema, encontrei este artigo publicado em 2020 no Journal of Personality, dizendo, em síntese, que:

A Humildade Intelectual (HI) se refere a reconhecermos o quanto nossas crenças pessoais ou percepções podem estar erradas. Quanto mais baixa a HI, maior a tendência em presumir que pessoas que pensam diferente de nós são intelectual e moralmente inferiores. – thanks ao site O Futuro das Coisas

Originalmente, a pesquisa relata a percepção que temos de nossos oponentes políticos e do quanto a falta dessa Humildade Intelectual está na raiz do que hoje chamamos “polarização do debate”. O autor, Mattheu L. Stanley, PhD em Psicologia e Neurociência na Duke University, notou que as pessoas que concordam com a frase “Eu aceito que minhas crenças e atitudes possam estar erradas” são menos propensas a rotular negativamente seus oponentes.

A arrogância do cancelamento

Isso tem a ver com uma notícia que li também ontem pela manhã, referente às demissões na redação da Revista Crusoé, ocorridas ontem. Abertamente identificada com a “causa” Lava Jato e tradicionalmente apoiadora de Sérgio Moro no cenário político, o site O Antagonista, pai da Crusoé, nunca ocultou o posicionamento nem a identidade editorial do grupo. Na notícia que li, o ex-deputado Jean Wyllys, do PSOL, se referiu aos (ex)integrantes da revista e a seus simpatizantes como “uma classe dominante burra.

Para além da singeleza do adjetivo usado por Jean Wyllys para se referir a um grupo político oponente – o que pode ser pior que “burro”? bobo? feio? – o ex-parlamentar serviu como perfeito exemplar da espécie dos desprovidos de Humildade Intelectual ao anular sumariamente qualquer possibilidade de diálogo com aqueles que discordam de suas crenças. Sim, isso é o chamado “cancelamento”. E pode acontecer em qualquer direção, sob qualquer ideologia.

Existe humildade intelectual no jornalismo?

Deixando o debate político para entrar no universo jornalístico, me perguntei como o jornalista se relaciona com a Humildade Intelectual, uma vez que a informação publicada em veículos se propõe verdadeira e correta? Será que o jornalismo ocupa um patamar que está acima da Humildade Intelectual e é assim que deve ser?

Não faria sentido o editor ponderar possíveis falhas ou pedir “desculpa por qualquer coisa!” no fim de cada matéria. Até porque esta seria aquela semi-pseudo-humildade de que falamos antes. O processo jornalístico, assim como o método dialético, deveria ser a garantia de que toda informação publicada seja verdadeira. Mas também como a dialética, onde toda tese está sujeita a uma antítese que levará à síntese, o trabalho do jornalista é uma construção intelectual, um recorte da realidade (framing) segundo esse próprio jornalista.

IMPORTANTE: É importante destacar que esta reflexão não se propõe filosófica, ou seja, questionar a existência de uma só verdade tampouco sobre o que é esta verdade. Tomemos aqui verdade como compromisso jornalístico, com o fato real e não com a ficção.

O ideal de espelhar a realidade em nossos relatos fez com que nossa profissão acreditasse, por muitas gerações, que estaria dispensada da humildade intelectual. Inclusive se consolidou o contrário: jornalista precisa ter certeza daquilo que diz, sem margens a subjetividades e enviesamentos, sob pena de enfraquecer a matéria.

Notícia nunca foi lugar de discussão, mas de afirmação. Não existe notícia beta e toda correção a ser feita dói na alma do profissional, marca a fogo como o gado, brutalmente, destruindo a credibilidade longamente conquistada.

O ideal se transforma em premissa

Toda essa necessidade premente que o jornalista carrega de trazer certezas no que diz se transformou, aos poucos, de ideal em premissa. No ideal, olho para a frente, para aquilo que almejo, aonde quero chegar. Na premissa, ao contrário, eu parto de uma certeza: a de que tudo o que eu diga será a verdade, sem lugar para questionamentos ou para enquadramentos diferentes – sem espaço para a humildade intelectual.

E isso ficou explícito no comentário que um colega deixou – espontânea e anonimamente – em uma pesquisa sobre diálogo com as audiências, que temos feito aqui no Orbis Media Review (em breve será publicada):

Pouco converso com o público. Usualmente, só para corrigir alguma informação inverídica publicada por algum leitor em resposta ao que publico em meu perfil pessoal, ou para dar algum tipo de esclarecimento em caso de má compreensão na leitura das reportagens. Sempre com o fim de evitar que distorções se espalhem. No mais, evito ao máximo discussões em redes sociais e nunca opino a respeito de nada. Minha apuração está no texto da reportagem. Ela é mais importante do que qualquer opinião pessoal.

Confesso que fiquei impressionada com a assertividade do comentário do (ou da) colega!

Perceba, no texto, que tudo o que vem do público já vem manchado pelo “erro”:

… corrigir alguma informação inverídica publicada por algum leitor…

… esclarecer em caso de má compreensão na leitura das reportagens…

Ele (ou ela) só vai dialogar com o leitor para corrigi-lo. Este é seu dever porque o que ele (ou ela) diz é o correto. Perceba que ele (ou ela) sequer cogita a possibilidade de ser corrigido pelo leitor. Ou ainda, se isso acontece, não é uma interação que mereça a sua resposta.

Sua apuração que está na reportagem é soberana, única e inquestionável. – Uma vez que isso é dito de forma ampla e não se referindo a uma reportagem específica, fica nítida a baixa humildade intelectual, a indisponibilidade para dialogar com o diferente, a certeza de que a verdade está em si e que esta é uma premissa, não um ideal.

Por que isso é tão grave?

A gravidade de uma baixa humildade intelectual não leva apenas ao cancelamento do oponente, mas fere valores que a própria comunidade jornalística defende com veemência: a começar pela democracia e pela pluralidade de ideias, pela riqueza do debate.

Mais grave ainda é a falta do reconhecimento de que, sim, podemos estar redondamente enganados, de que somos falíveis e de que algo não se consolida como verdade porque saiu no jornal ou na TV. Até porque nossa própria apuração pode estar enviesada, mesmo sem querer, pelo simples fato de ser… nossa!

Queremos, sempre, acertar. Este é o ideal. Mas sentir que somos infalíveis é tão grave quanto errar. Pior, talvez. A humildade intelectual pode ajudar a crescermos na intenção, no compromisso, no esforço – mas nunca na premissa – de acertar.

O que eu ganho com a Humildade Intelectual?

Ganha novas ideias. Não é o caso de absorver o ponto de vista de quem confronta o seu relato. Você pode continuar discordando de seus oponentes. Mas o fato de se expor a perspectivas opostas leva a sua mente a aprimorar o seu ponto de vista, desenvolvendo um raciocínio mais refinado, que buscará sempre superar o seu opositor.

Esta tentativa de superação não pode ser confundida com a Humildade Intelectual em si, ao contrário. Ela é o movimento natural da mente em busca de uma readequação do pensamento e, se for feito a partir da anulação do ponto de vista contrário, só reforçará a arrogância do indivíduo. O aperfeiçoamento do raciocínio acontece a partir do reconhecimento – temporário ou permanente – de que o seu oponente pode estar certo. Só assim você identificará os pontos onde precisa melhorar a sua construção.

Outra pesquisa na área da Psicologia, da Universidade da Califórnia, concluiu que adultos intelectualmente humildes desenvolvem maior capacidade cognitiva, são mais criativos e aceleram processos de aprendizagem. Para chegar a este resultado, porém, tiveram que ouvir e pensar a respeito de pontos de vista radicalmente opostos aos seus.

Teste sua Humildade Intelectual

Este teste, recomendado por vários pesquisadores, foi desenvolvido por um… jornalista! Shane Snow já publicou na GQ, New Yorker, Wired e Fast Company sobre inovação e desenvolvimento humano. Já desenvolveu reportagens investigativas sobre tráfico de armas e corrupção governamental. O teste armado por ele é amplo e avalia a Humildade Intelectual do participante em âmbito geral da vida.

Nós preparamos uma adaptação para jornalistas, a partir do teste The development and validation of the Comprehensive Intellectual Humility Scale, publicado pelo Journal of Personality Assessment. Descubra o seu score de Humildade Intelectual.

BAIXAR O TESTE DE HI PARA JORNALISTAS (pdf)

 

Um grupo de alunos que participaram de um workshop sobre Audience Firstno ano passado, fizeram um exercício tão simples quanto raro na correria da redação: selecionei algumas manchetes de veículos mainstream (generalistas, não especializados) e pedi que eles respondessem 2 perguntas em relação a cada uma delas:

  • Quem vai se interessar por esta notícia?
  • Qual o efeito ela produzirá na vida dessa pessoa?

Antes que alguém pense que este é um exercício de Teoria dos Usos e Gratificações, paremos antes. É um caminho para encontrar a ancoragem (vamos falar disso noutro momento), para descobrir a motivação de uma pessoa ao decidir acessar tal conteúdo, vista da perspectiva de quem consome – e não de quem produz.

O desafio, aqui, é esquecer um pouco do futuro do pretérito e não escolher as pautas de acordo com o que o público deveria saber. – Ah, então só vou publicar aquilo que as audiências querem consumir? Ou seja, tragédia, bizarrice e celebridades? – Não. Até porque um jornalismo útil e de qualidade não pode trabalhar com esta visão polarizada sobre sua própria capacidade de produção.

De volta ao exercício – e de forma totalmente espontânea! – todo nós nos surpreendemos com o padrão de efeitos que esperamos causar na população:

  • revolta
  • indignação
  • dúvida
  • incerteza
  • desconfiança
  • desânimo
  • medo
  • preocupação
  • indiferença

Dá só uma olhada…

A menos que você esteja muito interessado em paleontologia, a seleção despretensiosa de notícias é para fazer o povo sair correndo sem olhar para trás! Brincadeiras à parte, sabemos que o cidadão médio não procura por boas notícias e nem espera que o jornalismo o deixará feliz. Isso é tarefa para a Netflix, para o Instagram…

A preocupação, aqui, vai além do estado de ânimo que nosso trabalho provoca nas pessoas. A frustração, a revolta são partes da existência e precisamos enfrentá-las, saber como lidar com elas, nem que seja nas próximas eleições. O problema é quando isso se torna dogma e não deixa espaço para a utilidade da notícia, para a aplicabilidade da informação no dia a dia das audiências.

Quem quer ver notícia para ficar revoltado o tempo todo?

Não defendo a ideia de que veículos especializados em denúncias se furtem de praticar o jornalismo que investiga, que derruba autoridades ou interfere na cotação do dólar. Aqui há uma situação delicada de erro de proporção que contamina boa parte dos veículos. Um espaço absurdo é dado à cobertura do Big Brother político, cuja maior parte dos “fatos” noticiados não exerce impacto algum no dia a dia da população. Mas toma conta do noticiário porque “é revoltante” ou “vai causar indignação”. É isso mesmo o que queremos com o nosso trabalho?

Deixo aqui o desafio das 2 perguntas, sobretudo para veículos generalistas (os hiperlocais e os segmentados estão mais próximos de um jornalismo útil e aplicável): perguntem-se, antes de cada pauta, quem irá, de fato, dedicar tempo e atenção para saber deste assunto E, principalmente, o que vocês esperam que tal informação cause na vida desta pessoa. Quem sabe, assim, recuperamos a relevância e a confiabilidade da população.

A sociedade está cansada do clima de militância que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo. Um denominador comum marca o achismo que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: radicalização e politização.  

O jornalismo reclama alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente. Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.   

O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores.

Sem jornais a democracia não funciona. O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos. Sua agenda é, ou deveria ser, determinada por valores perenes: liberdade, dignidade humana, respeito às minorias, promoção da livre-iniciativa, abertura ao contraditório. O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia. 

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor.  Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Pensemos, por exemplo, na ignominiosa situação do saneamento básico. É preciso reverter um quadro que agride a dignidade humana, envergonha o Brasil e torna inviável o futuro de gerações. Não seria uma bela bandeira, uma excelente causa a ser abraçada pela imprensa? Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blá blá blá inconsistente do teatro político, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um País que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores. E, além disso, é uma resposta ética e editorial aos que pretendem tornar o jornalismo refém da fácil cultura do negativismo.

Chegou a hora do jornalismo propositivo. Aquele que não se limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções.

Texto originalmente publicado no site do autor.

O processo de transformação digital se impôs às redações jornalísticas com mais força desde o início da pandemia. Gestores enfrentam mudanças empresariais junto ao desafio de noticiar um período político e sanitário singular.

A plataformização como estratégia de negócio, em substituição ao antigo pipeline, vinha sendo implementado, ainda que com outros nomes, desde a criação dos sites de notícias dos jornais e emissoras. Os publishers entenderam com razoável rapidez que as redes digitais populares tinham, do ponto de vista dos negócios, um comportamento parasita, e que não seria possível distribuir a partir delas. Além disso, o orçamento da publicidade mudou de tabela, em desfavor das publicações tradicionais. Isso levou a uma mudança significativa na maneira de oferecer conteúdo.

Quando chegou a Covid-19, no começo de 2020, as variáveis do fazer jornalismo oscilaram violentamente. A partir daí, além da necessidade de levar a audiência à condição de assinante, houve um chamado à resiliência das coisas próprias da reportagem. Máximas ao estilo “lugar de repórter é na rua”, que vinham perdendo força, tombam completamente. O desafio é manter o negócio, entregar uma cobertura com periodicidade, continuidade e plástica coerentes com os padrões da emissora, com praticamente tudo feito no home office dos jornalistas.

Em entrevista ao Orbis Media Review, a diretora de redação do grupo RPC, do Paraná, Luciana Marangoni, diz que “certamente é a cobertura mais desafiadora do jornalismo desde a invenção da televisão”. A rica discussão dos editores com repórteres em meio às baias da firma já não acontece. Aliás,as instalações estão isoladas e as equipes, divididas por cores, com contato físico restrito ao essencial do essencial, com trocas de turno marcadas pela assepsia de superfícies e equipamentos.

Redação familiar

Na vida digital, são estabelecidos contratos de convivência de muitas pontas ou, mais recentemente, discutem-se “campos de convivência”. A ideia passa pela permeabilidade das relações. “Já contamos histórias muito sensíveis, como a queda de um prédio em Guaratuba, ou os desmoronamentos e enchentes em Antonina e Morretes. Mas a Covid-19 tem a ver com nossas famílias, com riscos para a saúde de todos”, anota Luciana. Antes, o ofício de jornalista  bem que poderia ficar da porta do lar para fora, mas agora não.

A editora-chefe do jornal e do portal Bem Paraná, Josianne Ritz, sente falta do fuzuê da redação. “Estou bem adaptada. O que era ruim no começo não é mais. Eu me sinto segura. E, assim, não montei espaço especial, para manter o clima de fuzuê. Fico na sala, com todos”.

Nos veículos editados por Josianne, a produção aumentou desde as medidas de isolamento, resultado que também é consequência, para ela, do tempo de casa dos profissionais. “Eu temia que a parte do fechamento do impresso, por causa da diagramação, poderia complicar [pelo trabalho on-line]. Mas estamos fechando até mais cedo. O entrosamento é meio atípico, porque trabalhamos há muito tempo juntos. A maioria [está] há mais de 20 anos”, registra.

Questões da vida não deixaram de existir

O G1 Paraná foi a primeira extensão do portal da TV Globo em uma afiliada. Em fevereiro, fez aniversário de dez anos, com a marca de mais de um bilhão de pageviews. A editora-executiva Bibiana Dionísio, que está lá desde o primeiro dia de operação, organizou um escritório na sala de casa. “Entendi que a vida continua, que é preciso cuidar da alimentação, dos exercícios, da cabeça. Esta é a realidade do mundo agora, e o que eu posso fazer? Cuidar da minha família, trabalhar, claro, mas eu me matriculei em um curso de comunicação e marketing da USP, para aprender coisas novas”.

Segundo Bibiana, a necessidade por notícias cresceu por ocasião da praga, mas também porque o G1 ganhou relevância e protagonismo. “Todos os dias fazemos o exercício de eleger prioridades. Tal notícia é melhor que a outra? Quando decidimos por temas que fogem da tragédia, temos boa resposta da audiência. É um jeito de colaborar com outros aspectos da vida as pessoas”.

Quando a pandemia começou, a bebê de Bibiana, Luísa, tinha um ano e três meses. “A força vem de maneira esparsa. Tem semanas em que é possível imprimir um ritmo satisfatório, que as coisas andam mais leves. Mas há também momentos de esgotamento físico e emocional”. Luísa requer uma lista de acompanhamentos especializados, como fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia, “e isso é vivido junto com o trabalho, com as questões da família, da vida, que não deixaram de existir”.

Em um ano de medidas extremas, não houve um contágio sequer a partir da sede da RPC. 

Longe de ser simples ou fácil, a resiliência no exercício do jornalismo durante a pandemia tornou-se uma forma de sobrevivência.

O que uma jovem nascida em 2001 tem para ensinar a jornalistas, acadêmicos e gestores de veículos da atualidade? Em poucas palavras: muita coisa.

O comentário de Melina Barragan, estudante do segundo ano de Comunicação Social da Universidad Austral, de Buenos Aires, flutuava despretensiosamente no chat da sessão online de lançamento do livro “Cultura Snack”, de Carlos Scolari, na última semana. Ela dizia:

“Nossas mentes – como produto do esquecimento – funcionam de maneira ‘micro’, ou seja, condensamos e encurtamos grandes ideias para lembrar do ‘essencial’ de cada texto, sem que isso signifique, necessariamente, uma ‘simplificação’, mas que possamos dar conta de toda a complexidade de algo em poucas palavras. Talvez os ‘microtextos’ sejam reflexo dessa natural necessidade humana.”

As linhas de Melina subiram na lateral direita da tela com a velocidade da interação de mais de 200 pessoas presentes na sessão ao vivo. Se Melina tivesse se prolongado, possivelmente eu não teria alcançado sua mensagem como, de fato, não consegui ler os comentários de vários colegas.

Meus limites não eram apenas visuais, mas cognitivos. Queria prestar atenção na fala do autor e dos painelistas. Queria visitar os links de referência que eles compartilhavam. Queria ler os comentários no chat. Queria eu mesma compartilhar meus pensamentos na ocasião. Mas era isso: uma ocasião, um momento carregado de informação. E minha atenção se pulverizava naquele turbilhão de ideias incríveis, atuais, atraentes demais para mim.

Então pergunto: em que momentos do cotidiano NÃO nos sentimos assim, atraídos por vários lados, por informações que queremos consumir? 

Dou ênfase ao querer consumir, porque na vontade já há um componente importante da atenção que colocamos naquilo que nos cerca. Nem assim, porém, é possível captar tudo o que chega a nós.

O breve não é, necessariamente, efêmero ou superficial.

Francisco Albarello

Melina entendeu essa limitação tão humana, tão contemporânea. Ela não julgou essa característica da mente como preguiça ou desinteresse. Ao contrário! Queremos captar a complexidade das coisas e recordá-las! Mas como carregar, numa memória exausta, toda a bagagem densa e extensa do conteúdo que boa parte dos jornalistas ainda considera “de qualidade”?

Microformatos e a miniaturização do mundo

Carlos Scolari traz da micrologia – estudo de estruturas muito pequenas – um olhar compreensivo aos textos curtos e a quem os prefere.

  • Os bonsais permitem que árvores sejam móveis
  • As séries aproximam o cinema do cotidiano
  • As urnas funerárias devolvem a presença do ser à casa
  • O Código de Hamurábi compactou as leis para que fossem memorizadas
  • Os refrões fazem uma música “grudar” e marcar época
  • Os slogans publicitários impulsionam o consumo
  • As “porções”, de bares e restaurantes, encolhem a refeição e aproximam pessoas

Quando foi que associamos o alto valor à extensão de algo? Objetos de grandes dimensões, geralmente, são imóveis, perenes, estáveis, como os volumes de uma enciclopédia. Eles nunca saíam das bibliotecas; era apenas para consulta local. Enquanto isso, o livro já foi uma forma de “portabilidade do conhecimento”.

Henry Jenkins, em “Cultura do Compartilhamento” (2013), comparou grandes empresas tradicionais como hieroglifos na pedra. Já startups e companhias inovadoras voam leves, como a palavra escrita no fino papiro.

Se a miniatura compactar o mundo de modo que podermos levá-lo de um lado a outro, a brevidade dos microtextos facilita a sua circulação pelas redes. O texto curto é mais lido e compartilhado. O vídeo rápido chega a mais pessoas. Eis a raiz de todo o processo de viralização, de uma nova circulação [hiper]midiática. Eis uma cultura mais gasosa do que líquida, compara o autor.

Jornalismo snack?

Julgar se algo é melhor ou pior com base apenas na portabilidade nos leva aos comerciais de “micro system” dos anos 80 e para a icônica imagem do jovem dançando na rua com um 3 em 1 apoiado no ombro. Sabemos que isso não basta ao jornalismo. Então, será mesmo o caso de abraçarmos sem medo a cultura snack?

“O breve não é, necessariamente, efêmero ou superficial”, define Francisco Albarello, mediador da discussão. Este, aliás, seria justamente o maior desafio do jornalista e de todos que produzem conteúdo para o ambiente digital: como ser breve sem ser simplista? 

De tudo o que fazemos, publicamos e falamos, o que, de fato, fica?

Carlos Scolari percebe que é possível haver um micro que aponte ao macro. Escrever um texto curto que conte uma história, de fato, não é tarefa simples. O exercício da síntese requer conhecimento profundo sobre uma pauta e muita habilidade narrativa. O autor acredita que, por trás de muitos conteúdos “micro” publicados pela web, há uma trama gigantesca de significados, referências, cruzamento de ideias que ficam apenas sinalizados a um leitor sobrecarregado.

Como consumimos informação? A colagem informativa individual

No comando de um processo único e individual de consumo de informação, cada usuário é responsável pelas suas escolhas, quase um editor particular. É neste trajeto que ele fará conexões entre as inúmeras micro informações com que se depara ao longo do dia.

Talvez o usuário nem faça esta colagem informativa conscientemente. Como disse a estudante Melina, condensar para guardar na memória pode ser o reflexo de uma natural necessidade humana. Aos veículos e jornalistas, então, nos resta buscar um lugar neste patchwork de ideias. Tanto melhor se entregarmos um conteúdo enxuto, objetivo, que faça ao menos uma parte deste trabalho mental de seleção e recorte da realidade.

Qual a probabilidade de um conteúdo longo, cheio de expressões formais ou rebuscadas, distante de um cotidiano formado por instantes eternos ser parte do mosaico de informações do indivíduo contemporâneo? De tudo o que fazemos, publicamos e falamos, o que, de fato, fica?

Infodemia: Estamos cansados de tanta informação

Scolari não faz uma ode aos textos curtos. Como pesquisador, ele constata que as pessoas leem cada vez menos de forma linear. “Estamos esgotados. Desde que começou a pandemia, a sensação de incerteza, a dificuldade de ter foco nas coisas nos faz experimentar um colapso na produção de sentido”, analisa.

A sensação de estarmos soterrados em informação e à mercê de nossas próprias [boas ou más] escolhas não é nova. Ele lembra que a percepção de quem viveu no começo do século XIX era de que o mundo movia-se rápido demais. Até o telégrafo pode ser entendido como uma pré-snackização do conteúdo. A popularização dos jornais, o surgimento das emissoras comerciais de rádio e TV no século XX também causaram esse esgotamento mental que hoje damos o nome de infodemia.

Compatível à reflexão, o livro “Cultura Snack: lo bueno, si breve…”, apresenta o conteúdo de 200 páginas em aforismos. A experiência pretendida pelo autor é que o público faça uma leitura não-linear, começando por onde quiser, pulando páginas, voltando outras… aos moldes da obra-prima de Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha (Rayuela), publicada originalmente em 1963.

Ainda disponível apenas em espanhol, o novo livro de Scolari provoca:Se falar muito aborrece, falar pouco leva à decisão sobre o que dizer e o que ignorar. Quando o atirador tem poucas balas, deve escolher muito bem como usá-las, para onde e quando apertar o gatilho”.

[Breve] Nota:

Se você chegou até aqui e a julgar pelo tamanho deste texto, já percebeu que ainda tenho muito o que aprender sobre Cultura Snack e microformatos… 😉

Ah, e se interessar, um assunto correlato é o “microjornalismo”, tema da tese que defendi em 2018. Download livre aqui.

Empurrado pela tecnologia, o mundo transforma-se em um ritmo frenético. As mudanças no jornalismo, ao contrário, vêm a conta-gotas. Nas redações somos diariamente submergidos pela enganosa ideia de que para acompanhar o compasso das novidades que surgem do lado de fora é preciso, antes de mais nada, um poderoso suporte financeiro. Não discordo que o dinheiro seja necessário. No entanto, algumas medidas capazes de reacender esse potente, mas sonolento motor da mídia tradicional, independem de grandes fortunas.

Comecemos por derrubar os padrões culturais que há décadas ditam o trabalho nas redações. Na prática, dentre outras coisas, trata-se de entender que a produção da notícia começa pelo leitor. Nessa lógica, a audiência deixa de ser simples destinatária da informação para ser também sua proponente. Um processo fácil de ser descrito, mas, como em toda mudança de paradigma, altamente complexo em sua execução.

Uma frase que circula na classe é que “jornalistas escrevem para jornalistas”. Ainda que dita quase sempre em tom de brincadeira, revela a sombria face da vaidade da nossa profissão.

Nós, profissionais da imprensa, por mais absurdo e contraditório que isso possa parecer, nos acostumamos a trabalhar de costas para a audiência. Uma frase que circula na classe é que “jornalistas escrevem para jornalistas”. Ainda que dita quase sempre em tom de brincadeira, revela a sombria face da vaidade da nossa profissão. Será que, de fato, por vezes não temos esquecido nossa função social para buscar a admiração de colegas que, seguramente, terão acesso ao material que publicamos?

O resultado financeiro dos veículos depende, agora, em grande parte, daqueles que não sabemos chamar pelo nome e com os quais não nos comunicamos.

No jornalismo abalado pela avalanche digital e que aos poucos se reergue, não há lugar para a presunção. A única obsessão permitida são os leitores. Eles são a peça-chave do trabalho editorial. Precisamos descobrir quem são, suas demandas reais, suas circunstâncias, seus interesses. Precisamos confessar a nós mesmos, ruborizados, que desconhecemos seus rostos.

Por muito tempo, enquanto a publicidade ainda pagava as contas dos veículos, ter acesso ao perfil médio do leitor servia unicamente como suporte para a venda de anúncios. O levantamento ficava normalmente sob a responsabilidade das áreas comerciais e raras vezes chegava às redações a ponto de impactar o conteúdo. Com a queda da receita publicitária, o caminho da monetização mudou: os leitores deixaram de ser vistos como meros consumidores de produtos anunciados e passaram a ser considerados potenciais assinantes, futuros adeptos dos modelos de associação que se começam a vislumbrar pelas redações do mundo. O resultado financeiro dos veículos depende, agora, em grande parte, daqueles que não sabemos chamar pelo nome e com os quais não nos comunicamos.

Na prática, trata-se de entender que a produção da notícia começa pelo leitor. No jornalismo não há lugar para a presunção. A única obsessão permitida são os leitores. Eles são a peça-chave do trabalho editorial.

Abrir canais de diálogo é outra forma simples e barata de fortalecer os vínculos com a audiência. A barreira para que isso seja feito é, uma vez mais, puramente cultural. A pesquisa Potencial de membership e de relacionamento com o público nas redações brasileiras, encabeçada pelo Orbis Media Review, revela que nem todos os profissionais da mídia estão completamente abertos ao contato com o público. Dentre os entrevistados, 11% afirmaram não ter o hábito de ler os comentários feitos pelos leitores às suas matérias. Outros 14% afirmaram que nunca responderam tais comentários e 17% não se lembravam de quando havia sido a última vez que o fizeram. A boa notícia é que porcentagem relativamente alta já demonstra ter incorporado o hábito: 14% haviam se comunicado com a audiência no mesmo dia em que estava respondendo à entrevista e outros 21% afirmaram que naquela semana haviam entrado em contato com os leitores. O dado mais preocupante talvez seja o tempo que afirmam estar dispostos a dedicar a essa tarefa: 51% disseram que reservariam uma hora por semana.

Fortalecer os laços entre redação e audiência não deve ser entendida como uma estratégia utilitarista. Ações de motivação meramente financeira nesse campo nascem com os dias contados. Os veículos não necessitam apenas de assinantes que nos paguem as contas. Desejamos o relacionamento porque nele encontramos a razão de ser de nossa profissão. Não existem jornalistas sem leitores. Simples assim.

Estávamos certos de que éramos essenciais na vida da sociedade. E, de fato, me parece que somos. Mas precisamos nos abrir para o público, para que também ele reconheça o valor do jornalismo que faz diferença em sua vida.

Demoramos muito para entender que o digital não era um concorrente em nosso setor. Ficamos mais preocupados em defender a sobrevivência dos meios tradicionais e, trancados em nossas convicções, não percebemos que todo o entorno passava por uma profunda transformação. Estávamos certos de que éramos essenciais na vida da sociedade. E, de fato, me parece que somos. Mas precisamos nos abrir para o público, para que também ele reconheça o valor do jornalismo que faz diferença em sua vida.

Impõe-se colocar a audiência no centro do processo. Já não basta que definamos nós o que precisamos os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. Interagir com eles. Captar suas sugestões. Aceitar suas críticas. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real.

Conversar com o leitor não é uma carga. É uma necessidade. E deve ser um prazer. Precisamos correr. Do contrário, corremos o risco de perder o bonde da história.


Publicado originalmente em https://carlosalbertodifranco.com.br/jornalismo/leitor-conversa-necessaria.html

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância ideológica ou partidária, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião. A credibilidade não é fruto de um momento. É o somatório de uma longa e transparente coerência.

A ferramenta de trabalho dos jornalistas é a curiosidade. A dúvida. A interrogação. Há um ceticismo ético, base da boa reportagem investigativa. É a saudável desconfiança que se alimenta de uma paixão: o desejo dominante de descobrir e contar a verdade.

Outra coisa, bem diferente, é o jornalismo de suspeita. O profissional suspicaz não admite que possam existir decência, retidão, bondade. Tudo passa por um crivo negativo que se traduz na crescente incapacidade de elogiar o que deu certo. O jornalista não deve ser ingênuo. Mas não precisa ser cínico. Basta ser honrado e independente.

Repórteres carentes de informação especializada e de documentação apropriada ficam reféns da fonte. Sobra declaração, mas falta apuração rigorosa.

A fórmula de um bom jornal reclama uma balanceada combinação de convicção e dúvida. A candura, num país marcado pela tradição da impunidade, acaba sendo um desserviço à sociedade. É indispensável o exercício da denúncia fundamentada. Precisamos, independentemente do escárnio e do fôlego das máfias corruptas e corruptoras, perseverar num verdadeiro jornalismo de buldogues. Um dia a coisa vai mudar. E vai mudar graças também ao esforço investigativo dos bons jornalistas.

Alguns desvios, no entanto, podem comprometer o resultado final do trabalho. A precipitação é um vírus que ameaça a qualidade informativa. Repórteres carentes de informação especializada e de documentação apropriada ficam reféns da fonte. Sobra declaração, mas falta apuração rigorosa. O poder público tem notável capacidade de pautar jornais. Fonte de governo é importante, mas não é a única. O jornalismo de registro, pobre e simplificador, repercute o Brasil oficial, mas oculta a verdadeira dimensão do País real. Muitas pautas estão quicando na nossa frente. Muitas histórias interessantes estão para ser contadas. Precisamos fugir do show político e fazer a opção pela informação que realmente conta. Só assim, com didatismo e equilíbrio, conseguiremos separar a notícia do lixo declaratório.

O dogma do politicamente correto não deixa saída: de um lado, só há vilões; de outro, só se captam perfis de mocinhos. E sabemos que não é assim. A vida tem matizes.

A incompetência foge dos bancos de dados. Troca milhão por bilhão. E, surpreendentemente, nada acontece. O jornalismo é o único negócio em que a satisfação do cliente (o consumidor da informação) parece interessar muito pouco. O jornalismo não fundamentado em documentação é o resultado acabado de uma perversa patologia: o despreparo de repórteres e a obsessão de editores com o fechamento. A chave de uma boa edição, no impresso e no digital, é o planejamento. Quando editores não formam os seus repórteres, quando a qualidade é expulsa pela ditadura do deadline, quando as entrevistas são feitas só pelo telefone e já não se olha nos olhos do entrevistado, está na hora de repensar todo o processo de edição.

O culto à frivolidade e a submissão à ditadura dos modismos estão na outra ponta do problema. Vivemos sob o domínio do politicamente correto. E o dogma do politicamente correto não deixa saída: de um lado, só há vilões; de outro, só se captam perfis de mocinhos. E sabemos que não é assim. A vida tem matizes. O verdadeiro jornalismo não busca apenas argumentos que reforcem a bola da vez, mas também, com a mesma vontade, os argumentos opostos. Estamos carentes de informação e faltos da boa dialética. Sente-se o leitor conduzido pela força de nossas idiossincrasias.

Por outro lado, ao tentar disputar espaço com o mundo do entretenimento, a chamada imprensa séria está entrando num perigoso processo de autofagia. A frivolidade não é a melhor companheira para a viagem da qualidade. Pode até atrair num primeiro momento, mas depois, não duvidemos, termina sofrendo arranhões irreparáveis no seu prestígio, na sua marca.

Registremos, ademais, os perigos do jornalismo de dossiê. Os riscos de instrumentalização da imprensa são evidentes. Por isso é preciso revalorizar, e muito, as clássicas perguntas que devem ser feitas a qualquer repórter que cumpre pauta investigativa: Checou? Tem provas? A quem interessa essa informação? Trata-se de eficiente terapia no combate ao vírus da leviandade informativa.

Finalmente, precisamos ter transparência no reconhecimento de nossos equívocos. Uma imprensa ética sabe reconhecer os seus erros. As palavras podem informar corretamente, denunciar situações injustas, cobrar soluções. Mas podem também esquartejar reputações, destruir patrimônios, desinformar. Confessar um erro de português ou uma troca de legendas é fácil. Porém admitir a prática de atitudes de prejulgamento, de manipulação informativa ou de leviandade noticiosa exige coragem moral. Reconhecer o erro, limpa e abertamente, é o pré-requisito da qualidade e, por isso, um dos alicerces da credibilidade.

A força de uma publicação não é fruto do acaso. É uma conquista diária. A credibilidade não combina com a leviandade. Só há uma receita duradoura: ética, profissionalismo e talento. O leitor, cada vez mais crítico e exigente, quer notícia. Quer informação substantiva.


Artigo originalmente publicado em https://carlosalbertodifranco.com.br/jornalismo/jornalismo-sem-adornos.html