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Na tarde da última segunda-feira (4), três aplicativos de comunicação ficaram fora do ar em todo o mundo. Difícil que tenha passado despercebido a alguém. Facebook, Instagram e WhatsApp, que atingiram as marcas de segundo, terceiro e quarto lugares, respectivamente, dos mais baixados globalmente em abril deste ano[1], pararam repentinamente – e levaram cerca de sete horas para voltar a funcionar.

O noticiário trouxe – até mesmo na televisão – uma explicação técnica, e que representa uma parte do problema. Quando os repórteres escreveram ou falaram sobre o “DNS”, ofertaram ao público uma justificativa da engenharia para o apagão. Perguntamos se tal informação poderia efetivamente se juntar ao entendimento do indivíduo sobre o funcionamento da rede.

Embora a questão do “DNS”, do endereço digital, resuma, talvez precipitadamente, o motivo do problema, é pertinente que a imprensa discuta o aspecto da responsabilidade da big tech na vida rotineira. Em que medida os indivíduos e empresas passaram a depender de serviços digitais para as práticas de relacionamento pessoal e de negócios?

Algumas manchetes destacaram o declínio da fortuna de Mark Zuckerberg diante do problema com os acessos. Tal fortuna pode ser colocada à prova diante da intenção de pedidos de indenização. Para o advogado Kaique Yohan Kondraski Servo, entretanto, “seria difícil vencer sobre o Facebook, dada a condição de caso fortuito ou de força maior com o que se parece o defeito nas plataformas”.

Para alguns, ficar sem esses programas representou ficar “sem Internet”. Com a falha do Facebook, houve crescimento no número de reclamações contra as operadoras de telefonia e de conexão[2]. Há quem tenha mexido no roteador, para recobrar o acesso perdido.

Jardins murados

Em alguns planos de telefonia, o acesso a determinadas plataformas não é cobrado. Mesmo que o cliente não tenha créditos, ele pode continuar a navegar. É o “zero-rating”, que contribuiu para a ideia de “jardins murados”.

Para o pesquisador-responsável pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação Política e Democracia Digital (Compadd) da UFPR, Rafael Sampaio, “uma mudança começa a ser sentida a partir da Web 2.0, quando as plataformas passam a criar muros digitais. As pessoas passam a maior parte do tempo dentro dessas plataformas. Então, se aquela rede específica para de funcionar, a Internet como um todo também para, na experiência do usuário”.

Quais riscos essa percepção levanta? O quanto nós, da indústria da comunicação, contribuímos para que estes “jardins murados” se mantenham e, até, se fortaleçam?


[1] Dados da consultoria Sensor Tower.

[2] G1. “WhatsApp fora do ar: Anatel diz não ter sido notificada sobre problemas em operadoras e afirma monitorar situação”.

Jack Conte é um silencioso executivo do Vale do Silício. Músico, artista – e também empreendedor – o americano de 36 anos concebeu em maio de 2013 o Patreon, plataforma de crowdfunding contínuo. Com uma energia inexplicável e palestras que impressionam, Conte tentou fazer carreira como criador de conteúdo no YouTube por quase sete anos antes de se lançar ao mundo das startups: alcançou algum sucesso – mesmo que breve – financeiro, mas enxergou rapidamente a limitação de política de pagamentos por meio de anúncios exibidos. Sua dor pessoal foi transformada em oportunidade: por que não converter o trabalho criativo individual em uma verba recorrente a quem produz? É neste instante que Conte lança ao mundo sua ideia, plataforma que conecta produtor de conteúdo a seu maior interessado, o consumidor final: cabe ao usuário pagar – e escolher o valor a contribuir – para garantir o modelo de negócio de seu artista. Hoje, o Patreon reúne mais de 200.000 criadores e já tem valor de mercado superior a um bilhão de dólares. Foi a faísca virtual para um mercado que pode abrir um universo sem precedentes em nossa História. Estamos chegando à fase madura da indústria da cobrança direta por conteúdo.

Alçada graças a um fenômeno a ser observado por uma lupa no Onlyfans – serviço conhecido por alto teor de conteúdo adulto -, o assunto reveste-se de particular importância para as empresas de tecnologia – excepcionalmente para Facebook, Twitter e, por último, Clubhouse. O responsável por essa atenção ao mercado se resume a uma startup: Substack, companhia americana que conseguiu transcender o valor de uma newsletter, jurássico produto do século passado, frisa-se.

Consagrados jornalistas deixaram os muros de grandes empresas de mídia para fazer sucesso com a marca que construíram em suas carreiras.

Fundada em 2017 pelos desenvolvedores Chris Best, Jairaj Sethi e o repórter Hamish McKenzie, Substack é um serviço de distribuição de conteúdo por newsletter que tem, como foco, a oportunidade de comercializar conteúdo. A ferramenta trabalha em dois modelos: gratuito e pago. Ao segundo modelo, cabe ao detentor de uma newsletter chegar a um valor – que varia entre cinco a 75 dólares. A Substack cobra uma taxa de 10% em todas as newsletters com formato pago. E garante: jamais vai vender anúncios nem os dados de seus usuários. A relevante transparência, no entanto, veio acompanhada por um sinal de alerta emitido nos últimos dias: segundo reportagem do Recode, do grupo Vox, a companhia está pagando determinados escritores, sem dizer quem são. Algumas pessoas deixaram o serviço após a divulgação do conteúdo.

Inspirada no incrível modelo de assinatura concebido pelo analista de mídia Ben Thompson – aliás, o maior nome da indústria de tecnologia e conteúdo do mundo -, a Substack alçou voos mais altos em velocidade de conexão banda larga ao conseguir a adesão de consagrados jornalistas, que deixaram os muros de grandes empresas de mídia para fazer sucesso com a marca que construíram em suas carreiras. São os casos de Andrew Sullivan, ex-New Yorker, Bari Weiss, ex-The New York Times e Matt Yglesias, que deixou a empresa que ajudou a fundar, a Vox. 

“No princípio, somos nós que controlamos os algoritmos. Logo depois, são eles que passam a nos controlar”, diz professor Ben Koo, da Universidade de Tsinghua, em Pequim.

Os motivos pela adesão à Substack são extensos: desde a ausência de chefes diretos de redação, a pressão – que soa prazerosa e glamurosa, em algum grau – de um ambiente que busca a melhor e mais rápida informação, à liberdade para produzir conteúdo; da relação direta com o consumidor final à distância – por ora, é importante ressaltar – do poder de um algoritmo. Neste momento é sempre bom referenciar o professor Ben Koo, da Universidade de Tsinghua, em Pequim, na China. Diz Koo: no princípio, somos nós que controlamos os algoritmos. Logo depois, são eles que passam a nos controlar.

O fato acendeu uma luz peculiar da inovação – a de reproduzir fielmente recursos exibidos em plataformas concorrentes – de dois titãs digitais: Facebook e Twitter.

O primeiro capítulo é relativo à rede de 280 caracteres. Em janeiro, o Twitter adquiriu a Revue, plataforma de gerenciamento e disparo de newsletter. Trata-se de uma clara iniciativa para diversificar receita e avaliar o seu principal modelo de negócio – a publicidade. A aquisição desta inteligência pode permitir maior atenção de criadores que, consequentemente, podem vir acompanhados de seus súditos consumidores. O serviço já está aberto para testes.

Quase que em momento simultâneo ao Twitter, o Facebook também prepara o lançamento de sua própria newsletter. Segundo a versão digital do jornal The New York Times, a proposta tem como público-alvo inicial o Facebook Journalism Project, iniciativa que apoia escritores independentes e jornalistas.

ClubHouse e remuneração direta

O ClubHouse é outra plataforma que pode seguir o mesmo caminho. Seu universo hierárquico, em que as salas se dividem por funções com etiqueta, regras – e, por ora, respeito -, pode mudar o conceito de eventos ao vivo, em que você cobra para entrar em um determinado ambiente para ouvir uma pessoa. O controle sobre a conversa pode parecer com que o app seja elitista, até mesmo discriminatório, mas ganha contornos de idolatria a partir do momento em que você está em um ambiente com pessoas das quais você jamais teria condição de compartilhar experiência. Por ora, o culto que se presta a ídolos vem acompanhado da ferramenta Payments (Pagamentos, em português), que permite remunerar diretamente o seu produtor de conteúdo favorito.

A Substack mostra uma tendência de dispersão, de profissionalização de assuntos por nichos – e de público por uma demanda, digamos, reprimida: os resultados obtidos em casos específicos com OnlyFans, Patreon e até a própria Twitch, da Amazon, dizem isso. Em todos, há uma “economia movida à paixão” que aponta para uma grande oportunidade a quem produz conteúdo. Será interessante entender se os maiores interessados, os consumidores finais, terão a mesma paixão.

Não é preciso trabalhar com redes sociais há muito tempo para lembrar dos incontáveis anúncios que as plataformas fizeram com o intuito de manter seus newsfeed longe das fake news. Além de destinar, eventualmente, gordas verbas de PR para veículos, empresas como Facebook, Twitter e mesmo o Google assumiram o papel de social justice warrior. Além de abraçarem causas ligadas às minorias identitárias, chamaram a si a tarefa de lutar contra a desinformação em seus ambientes. Nada mais justo… quanto “insustentável”.

Algumas das iniciativas…

… em novembro de 2020, o Twitter passou a notificar usuários que curtissem conteúdos sinalizados como “enganosos”;

… em maio de 2020, o Facebook comunicou a criação de um “conselho internacional independente” – com direito a ganhador de Nobel da paz – que decidiria o que os usuários poderiam ver ou não;

… em novembro de 2020, o Twitter revelou plano para “conter a desinformação” nas eleições norte-americanas;

… em outubro de 2020, o Twitter anunciou a chegada do Birdwatch, em teste desde agosto daquele ano, uma possibilidade de os usuários contextualizarem tweets que trariam mensagens reportadas como falsas;

… em setembro de 2020, o Twitter colocou no ar uma funcionalidade que alertava os usuários para lerem um conteúdo linkado antes de compartilharem. A ferramenta dizia: “As manchetes não contam toda a história“;

… em outubro de 2020, TikTok e Twitter fecharam parceria com o Tribunal Superior Eleitoral para “evitar fake news” nas eleições municipais brasileiras;

… um ano antes, em outubro de 2019, o Facebook lançou uma aba exclusiva para notícias, na intenção de “conter as fake news”;

… em dezembro de 2019, uma ferramenta do Instagram se propôs a “filtrar as fake news”;

… em abril de 2019, o Facebook assinou acordo com uma série de redações brasileiras que colaborariam com o programa global de fact cheking da rede;

… esse programa, aliás, já existia desde 2016 e em 2018 passou a contar com agências verificadoras de informação, como a Lupa e a Aos Fatos;

… além de outras tantas iniciativas (se você lembrar de mais alguma, por favor, conte nos comentários!).

manchetes fake news social media

Segundo o próprio Facebook, medidas como as parcerias de fact checking resultaram na diminuição de 80% das fake news nos Estados Unidos. “Estamos comprometidos em combater a disseminação de notícias falsas no Facebook“, anunciava em 2018 a líder de parcerias com veículos de mídia para LatAm.

Pouco mais de dois anos depois, em meio à ameaça planetária de sofrer regulação em diversos países, as social big techs começam a pedir socorro.

Facebook quer que Estado se responsabilize pelo conteúdo

O head do Facebook no Canadá, Kevin Chan, declarou recentemente que não é mais sustentável as empresas de social media autorregularem os conteúdos que circulam em seus ambientes e que é tempo de os governos entrarem na jogada.

“Neste momento, são empresas privadas – como o Facebook – que decidem o que pode ou não ser veiculado no Facebook e achamos que muitas pessoas não estão de acordo com isso. Elas querem políticas públicas onde haja responsabilidade pública legítima e democrática. Então, se os legisladores puderem acordar onde esta linha limítrofe deve ser traçada e então impô-la a nós, isso certamente seria bem-vindo.”

Tomemos o tema com calma…

Conteúdo impróprio, como calúnia (grosso modo, fake news), injúria e difamação (discurso de ódio), já é legalmente proibido e amplamente rejeitado em regimes democráticos. Quem sempre flertou com os limites entre a informação publicável e a ofensa foi o humor, mas o jogo de cena que as big techs têm feito com veículos jornalísticos perdeu a graça há muito tempo.

Empresas jornalísticas estão duplamente em desvantagem em relação às redes sociais: perdemos a publicidade para elas e ainda trabalhamos de graça, alimentando perfis com conteúdo profissional que sequer convertem em visitas aos nossos produtos digitais. A pergunta é: qual o objetivo de veículos continuarem alimentando seus perfis com chamadas de conteúdo? O esforço realmente compensa?

Sob a chancela do livre mercado, as redes sociais se ergueram sobre um modelo de negócios sabidamente predatório aos veículos jornalísticos. Olhemos para o ecossistema econômico global, em que diferente indústrias coexistem, e notamos que o transporte por aplicativo erodiu o mercado de táxis, assim como o AirBnB estremeceu a indústria hoteleira. Mas em nenhum desses casos o negócio inovador se alimentaria dos antecessores: Uber prescinde táxis e AirBnB não se estabeleceu usando hotéis. Já as redes sociais, ainda que não dependam do conteúdo jornalístico, souberam usá-lo muito bem para não orkutizar.

Veículos podem evitar que plataformas se “orkutizem”

Muito já se especulou sobre “o que seriam das redes sociais sem conteúdo produzidos por profissionais” e a resposta é esta: seriam um Orkut. Vale dizer que o Orkut e redes contemporâneas ainda pouco habitadas por marcas jornalísticas (como Twitch e TikTok) guardam a preciosidade do diálogo interpessoal com dimensão midiática, isto é, indivíduos se unem ao redor de interesses compartilhados e trocam informações de extrema relevância particular. Mas esteja seguro de que poucos acessam tais redes com a intenção de ver notícias, como fazemos com Facebook, Twitter, YouTube e mesmo Instagram ou WhatsApp.

É importante lembrar da insistência com que as social tech giants afirmam que não são veículos jornalísticos e nem querem ser – elas sabem que isso implicaria assumir a responsabilidade sobre algo que não conseguem gerenciar: o conteúdo.

É bem verdade, porém, que as plataformas onde os veículos ainda não operam abrigam toda sorte de material, conteúdo vulgar – quando não ilícito – e levam seus próprios usuários a se perceberem cercados pela desfaçatez humana. Àqueles que não lembram, foi daí que se popularizou o termo pejorativo orkutizar. O Orkut orkutizou quando foi adotado massivamente e povoado por qualquer conteúdo (sem filtros e sem a presença de veículos jornalísticos). Foi a partir deste momento que o Orkut entrou em declínio.

Sobram pesquisas mostrando quanta gente usa as principais redes sociais como fontes de notícias. A expressão social media as a news source chega ter um verbete da Wikipedia. Outro indicativo do quanto as redes precisam do conteúdo jornalístico em seus newsfeed são os projetos de parceria que Google e Facebook oferecem a redações mundo afora, amplamente sustentados no discurso do quanto essas big techs acreditam em um jornalismo de qualidade e querem contribuir para que a indústria editorial se fortaleça!

Ocorre que Google News Initiative e Facebook Journalism Project estão longe de contornar o estrago que as big techs causaram aos veículos. As empresas jornalísticas, aos poucos, acordam para esta realidade. Daí surgem, pelo menos, dois posicionamentos:

(1) Não, as big techs não devem ser responsabilizadas pela crise financeira nas redações

Neste caso vale lembrar que veículos criaram o hábito de compartilhar seus conteúdos gratuitamente nas redes com a intenção clara e válida de aumentar suas audiências e, com isso, fazer crescer o faturamento publicitário. Estávamos enganados – é preciso reconhecer. A audiência já não vem mais sem boost post e o faturamento publicitário migrou para os newsfeed.

Jogar a responsabilidade sobre o conteúdo para o poder público significa onerar ainda mais o Estado – consequentemente, o cidadão -, atribuindo a governos inaptos uma tarefa crucial para manter estas plataformas operantes. Tanto a máquina estatal quanto as administrações públicas são inaptas a dar limite para os conteúdos das redes sociais simplesmente porque desconhecem os processos, porque os algoritmos são opacos e inacessíveis, porque o esforço de fiscalização é tão inviável que os próprios donos das plataformas já não conseguem mais lidar com o peso que isso representa.

Na realidade, portanto, empresas jornalísticas estão duplamente em desvantagem em relação às redes sociais: perdemos a publicidade para elas e ainda trabalhamos de graça, alimentando perfis com conteúdo profissional que sequer convertem em visitas aos nossos produtos digitais (sites, apps, assinaturas, whatever). A pergunta é: qual o objetivo de veículos continuarem alimentando seus perfis com chamadas de conteúdo? O esforço realmente compensa?

Não se trata de abandonar as redes sociais; apenas repensar o jeito como veículos se fazem presentes nas plataformas, de maneira que faça sentido tanto para eles, quanto para o público, quanto para as próprias big techs.

Àquelas redações que ainda registram vantagem significativa de negócio ao publicar seus links nas redes, não há do quê responsabilizar as big techs. Quando a troca é justa, cada um faz a sua parte do negócio: veículos se comprometem com a produção de conteúdo e redes sociais se encarregam da distribuição. No entanto, sabemos que isso não é uma realidade.

As grandes plataformas se manteriam sem os veículos? Claro! E o risco de orkutizar e entrar em decadência? Isso se resolve ao tomar responsabilidade pelo conteúdo circulante – algo que as empresas de redes sociais, aparentemente, vêm tentando, sem sucesso, e começam a entregar os pontos. É importante lembrar da insistência com que as social tech giants afirmam que não são veículos jornalísticos e nem querem ser – obviamente, pois isso implicaria assumir a responsabilidade sobre algo que elas não conseguem gerenciar.

Jogar a responsabilidade sobre o conteúdo para o poder público significa onerar ainda mais o Estado – consequentemente, o cidadão -, atribuindo a governos inaptos uma tarefa crucial para manter estas plataformas operantes. Tanto a máquina estatal quanto as administrações públicas são inaptas a dar limite para os conteúdos das redes sociais simplesmente porque desconhecem os processos, porque os algoritmos são opacos e inacessíveis, porque o esforço de fiscalização é tão inviável que os próprios donos das plataformas já não conseguem mais lidar com o peso que isso representa.

As redes sociais se tornaram monstros, gigantes incontroláveis. Lidar com a humanidade, em tudo de bom e ruim que há nela, definitivamente, não é coisa para moleques de irmandades acadêmicas.

(2) Sim, as big techs devem ser responsabilizadas pela crise financeira nas redações

Uma forma de resolver o dilema das redes com as empresas jornalísticas é adotando a proposta – tão lúcida quanto transformadora – que vem sendo apresentada pelo presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Marcelo Rech. Ele próprio conta no vídeo abaixo (aos 59’36”):

“Vivemos um momento em que as grande plataformas digitais, em seus processos de construção de negócio, produzem uma poluição social. Não é a intenção delas, mas a poluição social – bolhas, fake news, desinformação, discurso de ódio – é o lado obscuro, o efeito colateral das redes sociais de forma geral. Quem tem a capacidade, a habilidade, a competência para fazer a limpeza dessa poluição é o jornalismo profissional. Tenho advogado que as grandes plataformas que produzem essa poluição social paguem uma taxa de limpeza. Quem limpa é o jornalismo profissional. A atividade do jornalismo deve ser remunerada, em parte, pelas plataformas de redes sociais. É como se elas estivessem produzindo uma fumaça ou despejando um produto poluente num rio e alguém tem a capacidade de fazer a limpeza desse rio. Nós fazemos a limpeza desse rio. É preciso criar agora uma taxa de limpeza da poluição social produzida pelos gigantes digitais.”

Marcelo Rech, presidente da ANJ

Como fazer isto é algo amplamente discutível. Mas o propósito maior inauguraria uma nova era para o jornalismo, de algum senso de justiça e ordem ao caos. Na proposta de Rech, qualquer tentativa das redes sociais em envolver governos na gestão de seus produtos, com a esperança de conter o movimento de regulação e taxação, resultaria ineficaz.

Veremos (ou faremos) isto acontecer?

Qual a sua primeira reação ao ver uma notícia? Isso depende, é claro, do conteúdo. Mas depende, sobretudo, dos seus valores pessoais.

A terceira e nova pesquisa feita pelo Orbis Media Review mapeou como se dá o consumo de notícias nas redes sociais, especialmente sobre política. O levantamento intitulado Consumo de Notícias: uma Escuta das Bolhas se dedicou à reação mais espontânea e imediata que usuários relatam ter ao ler títulos de conteúdos jornalísticos de diferentes veículos, pretensamente neutros e expressamente posicionados.

As reações foram analisadas com base à linha ideológica declarada pelos participantes. Deste modo, foi possível notar que os usuários tendem a compartilhar conteúdos compatíveis às suas ideologias, justamente para grupos ou familiares que pensam da mesma forma (71%). Eles também preferem comentar notícias quando concordam com elas (55%), embora a quantidade de pessoas que dizem comentar notícias da oposição, mesmo antes de lê-las seja considerável (45%).

Bolhas como proteção ao cancelamento

O choque de ideias, porém, aparentemente necessário para a manutenção da democracia, tem extrapolado os limites do bom senso, no que ficou conhecido ultimamente como “cultura do cancelamento”. No ambiente hostil das discussões sobre política nas redes sociais, a bolha se consolida como um refúgio, uma proteção contra a agressividade; causa e consequência da dificuldade humana de ouvir o outro.

Não querer entrar no embate se expande ao ato de ignorar notícias da oposição. Sessenta por cento dos participantes confessaram simplesmente rolar a tela quando aparecem notícias de ideologia contrária à sua, ou enviam a seus pares, quem também se opõe a elas (53%).

Opostos, mas muito semelhantes

O aspecto mais curioso trazido por esta pesquisa foi o fato de que os dois pólos do debate político – direita e esquerda, aqui usados para fins de simplificação – reagem de maneira extremamente semelhante em relação ao conteúdo compatível e às notícias contrárias às suas respectivas posições. Não é possível afirmar, portanto, que determinado grupo político seja mais agressivo ou mais recluso em sua própria bolha, uma vez que as curvas dos gráficos de reações imediatas apresentam praticamente o mesmo desenho e que a amostragem foi composta de modo balanceado entre quem se declarou adepto à esquerda, centro-esquerda, direita ou centro-direita.

A pesquisa foi feita por meio de convite a perfis de redes sociais que atendiam a uma série de requisitos expostos no relatório. Entre julho e setembro, 310 respostas válidas foram coletadas de maneira anônima, via formulário online.

Quando falamos da constante luta pela informação é fácil imaginar que em um canto do ringue estão os grandes veículos de comunicação, com a paciência, experiência e credibilidade que só o tempo pode conceder. No outro, o adversário jovem e impetuoso das redes sociais, que não quer esperar soar o gongo para nocautear seu oponente com seus longos braços internéticos.

Todavia, é preciso nos questionarmos sobre uma coisa nessa batalha: ela deveria, de fato, estar acontecendo?
A verdade é que ela já começou, e ainda não podemos enxergar quem será o vencedor.

Podemos assisti-la de camarote quando, por exemplo, youtubers famosos, celebridades de todos os tipos começam a pressionar plataformas de produtos online, marcas e veículos importantes de mídia a se dobrarem perante a fúria do que ultimamente chamamos de “cultura do cancelamento”.

Neste cenário, porém, enquanto o trabalho do jornalismo deveria trazer novas ideias aos leitores, informar o público sobre as perspectivas e estar acompanhado dos mais recentes questionamentos, o poder influenciador das redes está – como bem disse Bari Weiss em sua carta aberta ao NYT – trabalhando para que o jornalismo encerre os debates e traga uma clareza moral que não é própria de sua natureza.

Enfim, o jornalismo pode ter vencido alguns rounds durante um tempo, mas quantos outros não perdeu nessa luta infame e infinda?

Não é de hoje que as redes sociais adentraram o meio jornalístico: seja como plataforma onde matérias são postadas, seja nas rodas de conversa onde se constata o quanto elas afetaram a profissão. Todavia, há um mau hábito de olhar para as redes como um lugar intelectualmente raso no qual apenas o conteúdo de rápido e fácil consumo tem chance de prosperar. Se essa é a verdade, então por lógica estamos fadados a compartilhar da tendência e reduzirmos o nível do conteúdo produzido.

Uma rápida pesquisa nas plataformas, no entanto, mostra como artigos bem contextualizados conseguem atiçar a curiosidade do público. Igualmente, longos vídeos sobre ideias complexas são capazes de alcançar inúmeras visualizações. O fato é que as redes sociais não têm vida própria; ao contrário, são meros ambientes alimentados por pessoas. Há, ali, espaço para tudo aquilo que existe fora dali: trivialidades, entretenimento, curiosidades e, sim, conteúdo de alta qualidade.

Neste ambiente, onde atualmente o público se encontra, é relevante que os veículos pensem sobre a forma de atuar. As redes mostram que há parcelas do público dispostas a investir tempo no conteúdo que lhes agregará valor. Embora seja comum entre jornalistas o hábito de se queixar do meio digital, ao apresentar temas urgentes e imediatos cuja relevância tende a se perder rapidamente, estaríamos imitando o melhor ou o pior daquilo que as redes têm a nos oferecer?

A reputação está presente em nosso cotidiano, em tudo o que consumimos, de produtos e serviços aos relacionamentos pessoais e profissionais. É o que norteia nossas escolhas com base em valores morais e éticos, em credibilidade, em idoneidade, em qualidade. São elementos que, no conjunto, podem ser resumidos em um estado de confiança, de segurança em relação ao que investimos tempo, atenção ou dinheiro.

Ela é construída em longo prazo em uma base consistente de boas práticas que forja a estrutura que a permeia e cria um legado essencial de sobrevivência, especialmente em momentos de crise.

No que tange ao jornalismo e à imprensa em geral, a reputação tem sido balizadora importante no consumo das notícias nos últimos tempos, tendo a chance de resgatar públicos tragados pela websfera e pelos grupos de WhatsApp voltados à disseminação de fake news. E quando falamos em fake news, entendamos que compreendem não apenas a informação falsa, criada propositalmente para a conversão dos públicos aos interesses de quem a produz, mas também de informações imprecisas, sem fundamentos, sem bases concretas ou analíticas por quem a reproduz.

No efeito cascata que começa pela queda de audiência, caem também anunciantes e empregos nas redações, em um ciclo vicioso em que se entregar às mesmas armadilhas desonestas usadas pelo inimigo para sobreviver é o mesmo e único caminho para submergir.

Entra também neste cenário a pós-verdade, aquela em que as bases podem ser verídicas, mas são descontextualizadas, distorcidas nos mesmos moldes de interesses das fake news.

A verdade é que a oferta de consumo instantâneo de informações cada vez mais rasas pelas mídias digitais e, particularmente, pelas redes sociais, ajudadas por algoritmos viciados e comprados, tem se configurado em uma concorrência desleal na disputa pela atenção e retenção dos públicos pela imprensa.

No efeito cascata que começa pela queda de audiência, caem também anunciantes e empregos nas redações, em um ciclo vicioso em que se entregar às mesmas armadilhas desonestas usadas pelo inimigo para sobreviver é caminho certo para submergir.

O momento da virada para o jornalismo

Mas voltando ao ponto sobre a reputação ser a balizadora do consumo, vemos aumentar as oportunidades para o jornalismo se apresentar na separação do joio do trigo no campo da informação. E ele curiosamente se dá em meio ao aumento da polarização dos públicos sob todas as esferas editoriais, mas especialmente sob a pauta política e o que se desdobra a partir dela pelas pautas de saúde, educação, segurança, economia…, ou seja, tudo o que impacta os fatores de subsistência e desenvolvimento do indivíduo e da sociedade.

No Brasil e no mundo vemos todas essas pautas mais do que entrelaçadas atualmente, em meio ao efeito sistêmico da pandemia pela covid-19 e a propagação de informações em torno delas, nas mídias tradicionais e nas informais. 

A overdose de notícias conflituosas de todos os lados passou a gerar um efeito colateral tóxico, onde o filtro para o indivíduo se manter minimamente informado – e são – tem como base justamente a credibilidade das fontes, ou seja, a reputação de quem produz a notícia.

Se trata de um consumidor paradoxalmente mais crítico, que busca fontes opinativas e a personificação da notícia, para que possa interagir e não apenas digerir a informação.

Assim, o jornalismo que vem se construindo com uma base investigava séria e idônea, apresentando notícias com base nos preceitos da origem da imprensa, consegue resgatar o valor financeiro de seus conteúdos a partir do valor da sua prestação de serviço.

É um momento ainda de descobertas e reformulações de modelos, uma busca do equilíbrio pelo conteúdo crível e informativo agregado às formas dinâmicas do consumo e do consumidor moderno, tecnológico, hiper conectado e condicionado ao ultra processado. 

Se trata de um consumidor paradoxalmente mais crítico, que busca fontes opinativas e a personificação da notícia, para que possa interagir e não apenas digerir a informação.

Particularmente sobre este quesito, ao agregar a humanização na sua construção jornalística, os veículos e os jornalistas precisam estar ainda mais atentos ao desafio de equalizar suas pesquisas pelas fontes opostas de uma mesma pauta e ao espaço e caráter do registro dado a elas. Pois é justamente aí que é percebida e atestada a verdade nua e crua sobre a sua reputação e, consequentemente, todo o resultado que ela proverá.


As opiniões expressas neste artigo não correspondem, necessariamente, ao posicionamento do Orbis Media Review.

Há gente desencantada com o jornalismo e fascinada com as redes sociais. Acreditam, ingenuamente, que a balburdia do mundo digital vai resgatar a verdade conspurcada. Como se as redes fossem um espaço plural que se contrapõe a uma suposta hegemonia da mídia tradicional. Não percebem, talvez involuntariamente, que a Internet tende a criar redutos fechados, bolhas impermeáveis ao contraditório, um ambiente embalado ao som de Samba de Uma Nota Só.  

Sou apaixonado pelo jornalismo. Escrevo na imprensa tradicional e participo intensamente das novas mídias. Ambas são importantes. Não são excludentes.

Em tempos de tentativas de censura à liberdade de expressão, precisamos desenvolver um constante exercício de autocrítica. A reinvenção do jornalismo passa, necessariamente, pelo retorno aos sólidos pilares da ética e da qualidade informativa.

A crise do jornalismo está ligada à falência da objetividade e ao avanço do subjetivismo engajado. Quase sem perceber, alguns jornais sucumbem à síndrome da opinião invasiva. Ganham traços de redes sociais. Falam para si mesmos e não para suas audiências. Como disse João Pereira Coutinho, “não são as redes sociais que matam os jornais; são eles próprios que se suicidam quando seguem o exemplo das redes”.

Na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

É preciso apostar na informação. Sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeça para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada. Nas redações brasileiras, multiplicam-se as telas coloridas que trazem, minuto a minuto, indicadores e gráficos mirabolantes. Ao final de um dia de trabalho, qualquer editor está habilitado a responder quais foram as reportagens mais lidas. Mas e depois disso?  Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. O ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada.

Consumidores de jornais mostram cansaço com o excesso de negativismo de nossas matérias. Trata-se de um fato percebido nas redes. Ao longo deste ano, alguns jornalistas da grande mídia, sobretudo na cobertura de política, em nome de suposta independência, têm enveredado excessivamente pelo que eu chamaria de jornalismo de militância. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda seus próprios leitores.

Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores.

Na verdade, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela Internet.

Não se trata, por óbvio, de ficarmos reféns do leitorado. Os jornais, frequentemente, têm o dever ético de dizer coisas que podem não agradar a seus leitores. Mas é preciso não perder conexão com as percepções do público.

É necessário perceber, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se um jornalismo menos anti e mais propositivo. Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores. Sabendo que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar nosso conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de reinvenção.

Tomo emprestado do colunista Flávio Gordon (Gazeta do Povo) uma crítica sobre a nossa atividade profissional: com a evolução da Internet e redes sociais, jornalistas que antes tinham apenas boca ganharam também ouvidos, e o que passamos a escutar do público não nos foi de muito agrado. A colocação me parece verdadeira, mas apenas parcialmente. Fato é que sempre tivemos ouvidos, ainda que eles estivessem frequentemente voltados para aqueles que diziam exatamente o que queríamos escutar. Uma audição seletiva, por assim dizer.

Me refiro aos especialistas que sempre buscamos para dizer aquilo que não sabemos em profundidade. Esta prática jornalística não é apenas lógica, mas necessária. Afinal, ninguém espera do repórter um profundo saber sobre tudo aquilo que ele deve cobrir. Mas a verdade é que especialistas também divergem dentro de suas áreas de especialidade.

Qual o critério, então, para escolher um ao invés do outro? Há especialistas mais legítimos que os demais? Que se pese que o jornalista não deve ser refém da audiência, tampouco pode estar de costas para ela, e estarmos afastados dos valores e crenças da sociedade tem sido importante fator para a queda de nossa credibilidade. No momento em que maior interação entre público e jornalista se faz necessária, portanto, não seria o momento de repensar os critérios de seleção de especialistas?

Um dos fatos positivos que o coronavírus revelou foi o retorno da atenção do público aos veículos de jornalismo profissional, em detrimento das redes sociais. Quando a informação salva vidas, a confiança se restabelece no pacto firmado com quem assume a responsabilidade na produção de conteúdo, ou seja, os veículos.

Organicamente, as audiências passam a enxergar os meios noticiosos com mais credibilidade do que as mensagens assustadoras e sem procedência que se proliferam sobre a covid-19 nas redes sociais. O próximo passo é que os anunciantes também acessem tal nível de lucidez e não se deixem mais enganar por métricas frágeis e não auditáveis.

Quando orçamentos de compra de mídia precisam ser revistos, as marcas operam com margens de retorno menores. Ou seja, não há espaço para errar, muito menos para jogar dinheiro fora. A exposição da campanha precisa, no mínimo, chegar a olhos e mentes de pessoas reais, potenciais consumidores, gente com nome, sobrenome, desejos e, preferencialmente, com cartão de crédito ativo. Qual o sentido em pagar para ser “visto” por um robô ou por um fake?

A atividade das click-farms não é novidade. O mercado do engajamento continua crescendo há, pelo menos, cinco anos, a despeito de qualquer anúncio de cancelamento de conta-fantasma feito pelos proprietários das redes sociais. O pior é que, segundo reportagem publicada em dezembro pelo New York Times, não adianta nem mesmo o usuário real denunciar um perfil falso, pois três semanas depois ele continuaria ativo.

Experimento

Esse teste foi resultado de uma pesquisa conduzida por uma consultoria ucraniana de comunicação digital, chamada Nato Strategic Communication. Primeiro foram usados 300 euros na compra de 5 mil seguidores, 3,5 mil comentários, 25 mil likes e 20 mil views, incluindo para contas de políticos. 

O experimento foi feito sobre centenas de posts de várias redes sociais. Segundo os pesquisadores, “houve pouca ou nenhuma dificuldade” na compra. Instagram foi categorizado como “o mais barato e o mais fácil de ser manipulado”. Segundo este outro estudo, mais da metade dos influenciadores brasileiros apresentam métricas infladas, ou seja, irreais.

Os caminhos para fraudar métricas de redes sociais são tantos que as próprias plataformas se tornaram incapazes de sanar a situação – considerando que elas próprias não joguem o mesmo jogo e faturem sobre o teatro que criaram aos anunciantes, impossível de auditar.

Assim como o mercado de influencers se desenvolveu e projetava movimentar de 5 a 10 bilhões de dólares neste ano, a compra e venda de resultados também acontece de forma paralela aos controladores das plataformas. São eles quem criam as regras, porém. E se tais regras permitem que o negócio seja facilmente passível de fraude, não há forma de serem isentos da responsabilidade.

“Cheguei a 1 milhão de seguidores!”

O problema se torna ainda mais grave quando usuários e empresas acreditam nestas métricas como uma régua para avaliar o seu desempenho profissional. Um exemplo clássico acontece sempre que algum colega me conta, com entusiasmo, que bateu 1 milhão de fãs no Facebook.

Aliás, isso aconteceu novamente há três semanas. E minha reação foi a mesma de sempre: “Então, colega…” – respiro fundo, cheia de culpa por ser a portadora da má notícia – “A quantidade de seguidores em qualquer rede social não significa absolutamente nada!

A reação neste caso mais recente foi assim:

— Mas é tudo orgânico! Juro que a gente não comprou!

E eu acredito, disse a ele. O esquema de valoração das atividades e produtos de mídias sociais são tão enganosos que mesmo aqueles que agem corretamente, alimentam um perfil com dedicação e empenho e não compram fãs nem likes também são impactados pela ação de fakes e bots.

Como funciona o mercado de métricas

Na tentativa de simular um comportamento humano, perfis criados por click-farms interagem gratuitamente com usuários e páginas do mundo todo. Dessa forma, se tornam alvos mais difíceis na hora em que são contratados e têm de adotar um padrão de atividade de spam.

Outra forma de burlar o sistema de métricas é através dos pods, que são grupos de “curtidores profissionais”, geralmente organizados via Telegram ou WhatsApp. Sempre que um integrante de um pod posta algo no grupo, todos devem curtir, comentar, compartilhar, visualizar, listar, seguir, etc. Os perfis associados aos pods geralmente são exclusivamente criados para esta finalidade.

O esquema nem precisa ser refinado para inventar resultados. Donos de contas com orçamento mais modesto escolhem pelo follow massivo, cujo resultado esperado é o follow-back orgânico. Dois ou três dias depois, no entanto, a conta que adotou follow massivo deixa de seguir os perfis verdadeiros já atraídos. Aliás, essa costuma ser a estratégia adotada por criadores de perfis – que mais parecem criadores de gado – dedicados a “engordar” as métricas. Afinal, a arroba do boi gordo costuma valer mais.

Vendedor de perfil do Instagram chega a expor os analytics da conta para promover seu trabalho de “engorda orgânica”

É simples detectar um perfil que adotou follow massivo. Geralmente a quantidade de contas seguidas é muito superior ao número de seguidores. A propósito, ainda segundo os analistas da Nato, um usuário que segue mais de 1.500 perfis já é considerado massivo.

O artigo do NYT menciona outro caminho de fraudar os resultados das redes sociais citado pelos pesquisadores: “Examinar o engajamento falso é importante porque não são apenas perfis fake que poluem o ambiente informativo. Pessoas reais podem usar suas contas reais para produzir comportamentos falaciosos que distorcem o discurso online e viralizam”.

Fóruns como o Reddit estão povoados por comunidades que operam os negócios mais escusos da surface web (que é esta parte superficial que todos acessamos, ou seja, está visível para todos, mesmo sem login e não escondida como a deep web).

Ativo e acessível a todos – inclusive às empresas de redes sociais -, fóruns de compra e venda de contas e outras métricas se multiplicam na surface web.

O mercado paralelo das métricas que dá vida a outros mercados paralelos para onde são direcionadas as verbas publicitárias dos anunciantes é uma estrutura engenhosa e criativa. Empresas especializadas na criação e no “cultivo” de perfis para venda seguem padrões visuais, linkam para sites oficiais de marcas na busca por credibilidade ao perfil e confiam na avidez pelo consumo de conteúdo de nicho. Estes perfis costumam ter poucos ou nenhum seguidor, usam palavras comuns como nome e são diretamente associáveis a comunidades de hábitos. Além disso, publicam conteúdos geralmente positivos ou inspiradores, de fácil aceitação pelo usuário médio.

Expressões usuais, que identificam comportamentos de comunidades são “nutridos” com mensagens positivas e inspiradoras para atrair usuários organicamente. Uma vez que estão bem povoados, são colocados à venda.
As ofertas de compra e venda de perfis são abertas – e “negociáveis”.
Identidades visuais e descrições generalistas marcam perfis temáticos que, depois de somarem uma grande quantidade de seguidores, são vendidos a empresas do ramo.
Marcas reais são apropriadas por contas fake. A prática já vem desde os tempos de Orkut e Twitter.

Mas se este mercado existe, é porque alguém compra nele!

O que leva o dono de um hotel de luxo anunciar a demanda por um perfil com mais de 20 mil seguidores? A covid-19 não deixou margem de receita para nutrir métricas de vaidade. Ou os seguidores de uma conta são verídicos a ponto de se converterem em clientes e gerarem negócio, ou quem busca o perfil de 20 mil seguidores não é exatamente o dono do hotel de luxo, mas alguém que presta serviço a ele.

É assim que chegamos ao problema do título deste artigo: num cenário de crise, toda a verba investida precisa dar retorno. Um veículo crível e buscado ativamente por quem precisa de informação sólida tem muito mais condições de oferecer uma audiência concreta, verdadeira e com métricas auditáveis. Mesmo na crise, gente de verdade consome. Já bots e fakes…