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Li recentemente um artigo sobre os riscos da personalização no mercado de mídia – isto é, questionando uma opinião frequentemente ventilada de que as pessoas querem consumir aquilo que atende os seus gostos. A dinâmica, os algoritmos e a própria natureza das redes sociais nos acostumaram ao entendimento de que “sim”, que personalização de fato é o que todos buscamos.

Entretanto, uma pesquisa recente conduzida na Dinamarca pela Roskilde University põe um ponto de interrogação nesta opinião – pelo menos quando se trata de personalização em conteúdo jornalístico. O levantamento mostrou um número considerável de pessoas que se disseram preocupadas, acreditando que notícias personalizadas poderiam levá-las a perder informações relevantes. Para outras, o conteúdo personalizado tem um risco adicional: evitar com que se deparem com opiniões desafiadoras – isto é, opiniões com as quais a pessoa não concorda, mas ainda assim a desafia intelectualmente.

É claro que a Dinamarca não é o Brasil e que uma pesquisa como esta poderia apresentar resultados diferentes neste canto do mundo. Além disso, há de se considerar que as pessoas frequentemente afirmam uma coisa, mas agem de maneira completamente oposta – como eu que, em abstrato, digo que uma vida saudável é algo a se buscar, quando na verdade como chocolate ao fim de cada refeição.

Ainda assim, a pesquisa instiga uma boa reflexão – na verdade, a reflexão essencial do jornalismo, isto é: o que devemos fazer e como devemos atuar? A resposta padrão costuma ser bem simples: informar o público de maneira ética e responsável, apresentando fatos relevantes, doa a quem doer. A questão é como fazer isso.

Com alguma regularidade, tenho feito críticas ao princípio de “ouvir os dois lados de uma mesma história”. Em teoria, na verdade, não há nada de errado nesta prática. O problema é que, muitas vezes, o mérito de tal proposta tem dado lugar a uma abordagem burocrática, resultando em publicações rígidas e pouco criativas. Não tiro o mérito do repórter e do seu trabalho árduo e essencial de coleta de informações. A crítica se faz apenas em relação ao texto que é apresentado ao leitor, em especial às poucas aspas que abrimos, dando voz a especialistas escolhidos a dedo que, na verdade, não tem muita chance de compartilhar suas observações, já que sempre selecionamos umas poucas palavras que pouco sintetizam pensamentos e argumentos complexos.

Da pesquisa realizada pela universidade dinamarquesa, me chama a atenção o receio compartilhado pelos entrevistados de perderem acesso a opiniões desafiadoras como consequência do conteúdo personalizado. Como já foi dito anteriormente, as redes sociais, com suas indestrutíveis bolhas, mostram que muita gente gosta do seu nicho. Mas esse não é uma realidade em cima da qual devemos nos balizar – e não apenas pela missão do jornalismo, mas porque as redes têm se tornado um ambiente de enfrentamento. Poucos caracteres não são suficientes para elaborar um argumento complexo, então o que resta às pessoas é sintetizar o que pensam e como enxergam seus oponentes ideológicos. O resultado acaba sendo o clima de briga que tanto conhecemos.

A dinâmica de um produto jornalístico tradicional é muito diferente, mesmo porque, ao consumir certo conteúdo, o público assume uma postura passiva muito diferente do comportamento ativo das redes. Mas o que resta às empresas de mídia se, aqui, estou desencorajando tanto a postura de ouvir os dois lados em uma mesma matéria, quanto a postura de assumir um posicionamento ideológico claro?

Uma resposta – que não é fórmula alguma de sucesso – é permitir que cada conteúdo não seja apenas um relato de fatos recheado por uma ou outra seleção de aspas, mas que reflita as análises e opiniões de quem assina a matéria em conjunto com as informações previamente coletadas. De forma sincera e aberta, profunda e propositiva, opiniões se tornam um excelente recheio para qualquer conteúdo, que passa a ser único por refletir a alma de quem escreve. Pessoas se conectam com pessoas, o que faz desta abordagem uma ótima forma de a audiência perceber que existe um humano, e não uma fórmula, dando vida ao conteúdo. Como coloca Esther Thorpe no Media Voices, “audiências reais querem notícias reais feitas por pessoas reais”.

Lembrando que boa parte do público deseja ser desafiado por opiniões. Mas isso significa que elas sejam muito bem fundamentadas, caso contrário não são desafiadoras. Se for para defender um ponto, é preciso trazer os argumentos mais profundos possíveis. Se for para criticar uma determinada postura, é preciso primeiro entender verdadeiramente os seus fundamentos – caso contrário, criticamos uma caricatura, batemos em um espantalho e, acima de tudo, ofendemos a audiência. Mas uma defesa ou uma crítica sólida, bem fundamentada e interessante será capaz de encontrar um leitor curioso.

Isso significa que todo o público vai admitir, se encantar e consumir este tipo de conteúdo? Não e nunca! Nunca conseguiremos o engajamento de todos, embora lutemos tão fortemente contra qualquer faísca de opinião em uma reportagem tradicional com receio de incomodar certa parcela da audiência. Ao contrário, frequentemente acabamos ocultando estas opiniões, que nem por isso deixam de existir, por detrás de um linguajar de objetividade.

Sem dúvida, ser fiel aos fatos apurados é essencial para que aquilo que publicamos continue merecendo o nome de jornalismo. Mas apresentação de fatos, o desenvolvimento de análises e a emissão de opiniões bem fundamentadas não são excludentes. Aqui no Orbis já apresentamos diversos veículos que trabalham com um conteúdo que mistura a objetividade dos fatos com a subjetividade de quem escreve. Não há problema intrínseco nisso. Diante da atual overdose de informações e de conteúdos compartilhados, talvez este seja um caminho que ofereça um diferencial verdadeiro para o público.

BuzzFeed, o nativo digital criador de um modelo disruptivo de conteúdo viral, agora recorre a asinhas de frango picantes para não ser expulso da Nasdaq. É que o Hot Ones – programa em que celebridades são entrevistadas enquanto comem hot wings cada vez mais ardidas – se consolida como uma das grandes apostas do conglomerado de mídia não apenas pelos altos índices de audiência, mas também por licenciar a marca para lanches de microondas, os Hot Pockets. Assim se espera que o preço mínimo da ação chegue a US$ 1, valor mínimo para seguir operando na bolsa tecnológica norte-americana.

Variar os modelos de negócio sempre esteve no DNA do BuzzFeed. A empresa dona do HuffPost, da Complex Media, do First We Feast e do Tasty matou no peito as críticas pela criação do “jornalismo de listas” e seguiu seu propósito de explorar o efeito rede. Sob a batuta da publisher Dao Nguyen, o veículo fez inveja a gigantes da mídia legada ao construir conexões entre trending topics, conteúdo produzido pelo usuário, formatos publicitários descolados e hipercustomizados entregues a um inventário que disparava, assim como as redes. Até que as redes começaram a concorrer entre si e não sobrou audiência suficiente para sustentar o esquema.

Segundo a AdWeek, a saída de Nguyen, depois de 11 anos na empresa, marca “o fim simbólico de uma era para o BuzzFeed” em que a força de um portfólio massivo cede lugar à valorização de marcas individuais na busca pela fidelização de uma audiência direta.

A decisão do criador e CEO do BuzzFeed, Jonah Peretti, é de pivotar o foco das operações em tempo de permanência – que caiu 19% (ano sobre ano) no balanço do último trimestre – e na força de cada marca. Daí que a particularidade das hot wings soa tão promissora aos olhos de Peretti! Os vídeos são longos e o nível de interesse aumenta conforme os entrevistados suam para responder as perguntas enquanto comem asinhas de frango cada vez mais picantes. 

Se é tempo de permanência que o mercado quer, é tempo de permanência que o BuzzFeed conquista de usuários que criam uma mistura de tamagotchi com chatbot. O jogo, que roda dentro da plataforma do BuzzFeed, usa IA generativa para desafiar os jogadores a “educarem” um “bebe nepo” – o Nepogotchi – na tentativa de transformá-lo em um robô que represente um “ser humano decente”. Outra proposta, no mínimo, particular – tão específica quanto a forma com que Jonah Peretti quer que o mercado veja cada uma de suas marcas.

Menos vídeos curtos, mais tempo de permanência

Desde que mudanças nos algoritmos das redes sociais derrubaram a tese de que é possível rentabilizar um produto editorial alcançando audiência em escala, Peretti se convenceu de que não adianta embarcar no hype. Durante a conferência com os investidores para apresentar os resultados do terceiro trimestre de 2023, o CEO explicou: “O tráfego gerado pelas principais plataformas diminui à medida em que elas priorizam seus próprios formatos de vídeo verticais, em meio à intensa competição por participação da audiência”.

O BuzzFeed chegou a embarcar na onda de vídeos curtos, mas logo notou que é mais difícil monetizar o mesmo formato usado por TikTok e Meta para reter a atenção do público. O aumento da competição pela liderança entre as redes sociais significa que as duas empresas estão menos dispostas a compartilhar receitas desses vídeos curtos com veículos de mídia. 

Por mais que o BuzzFeed ainda produza short videos e venda – cada vez menos – diretamente a anunciantes, Peretti torce o nariz para este formato: ele relata que os usuários estão cansando do “comportamento de rolagem do tipo TDAH” e buscando um envolvimento mais profundo com mídias longas.

Ok, as mídias longas a que Peretti se refere estão longe de ser reportagens long form ou documentários intelectualizados. São, enfim, hot wings e tamagochis. Mas são produtos próprios e não dependem de empresas terceiras para rentabilizar. Isso explica a estratégia de focar em marcas individualizadas. 

“Nossa estratégia se baseava em reunir a maior rede de marcas e criar a maior rede de conteúdos para essas novas plataformas de distribuição, mas não se surpreendam em escutar-me dizendo que isso não funcionou como esperávamos”, reconheceu Peretti. “Em todas as nossas equipes centralizadas, teremos mais foco nas marcas e priorizaremos áreas que tornam cada marca única. A abordagem centrada na marca será fundamental para estabilizar nossos negócios e retomar o crescimento.”

Menos escala, mais marcas únicas

Para além de investir em jogos de IA e em vídeos longos, a aposta na unicidade das marcas do grupo passa pela reformulação do site BuzzFeed, chamada internamente como “Missão Possível”. O acesso direto à home tem sido um dèja vú interessante aos publishers de modo geral, e ao HuffPost de modo especial. A criação de Ariana Huffington quebrou recordes de tráfego direto em meados de 2023, registrando o melhor trimestre desde que foi adquirido pelo BuzzFeed, em fevereiro de 2021. 

A carência do BuzzFeed é tanta que a melhora pontual do HuffPost foi suficiente para posicioná-lo no rol de apostas de Peretti. Investir em notícias, no entanto, não “orna” com a estratégia de hot wings e tamagotchis. Há sete meses foi descontinuado o BuzzFeed News, braço jornalístico da marca de conteúdo viral. Nada menos que 15% do quadro de funcionários foram dispensados, ou seja, 180 colaboradores. No Brasil, a divisão noticiosa do BuzzFeed fechou em agosto de 2020, na esteira da crise no setor causada pela pandemia. Peretti faz um mea culpa e diz ter tomado a decisão de “investir demais” no BuzzFeed News porque “adorava o trabalho produzido”. Em seguida, agrega que “demorou a aceitar que as plataformas de mídia social não forneceriam o suporte necessário para tornar a área lucrativa”.

Não, senhor. As redes sociais não fornecem suporte para nada ser lucrativo além delas próprias. Qualquer coisa que digam diferente disso é questionável. Se Peretti diz ter demorado a aceitar essa realidade, difícil que haja quem ainda acredite nesse conto da carochinha.

Todo este movimento no BuzzFeed decorre de uma queda de 35% no faturamento em publicidade, apresentado aos investidores no começo de novembro. A dívida acumulada já supera os US$ 157 milhões no último semestre auditado. A crise vinha batendo à porta do veículo no primeiro trimestre, quando Peretti planejava alianças com creators para recuperar a audiência, além de prenunciar os bons resultados que a inteligência artificial traria. Com menos conteúdo e mais mecanismos de entretenimento, com nova publisher e novo CFO, apostando mais em si mesmo do que nas redes sociais, o veículo mais viral de todos os tempos luta pela sobrevivência. A quem assiste, como sempre, cabe aprender.

Proliferam notícias falsas e vivemos sob o domínio das narrativas. São compartilhadas acriticamente com a compulsão de um clique. Fazem muito estrago. Confundem. Enganam. Desinformam.

Tem muita gente desencantada com o jornalismo e fascinada com as redes sociais. Acham que o jornalismo tradicional deixou de ser um porto seguro. Acreditam, ingenuamente, que a balbúrdia do mundo digital vai resgatar a verdade perdida. Como se as redes fossem um espaço plural que se contrapõe a uma suposta hegemonia da chamada grande imprensa. Não percebem que a internet tende a criar redutos fechados, bolhas impermeáveis ao contraditório, um ambiente embalado ao som de Samba de Uma Nota só.

Sou apaixonado pelo jornalismo. Escrevo na imprensa tradicional e participo intensamente das novas mídias. Não são excludentes. O clima de nós contra eles não cabe. Precisamos, todos, apostar na qualidade, na ética e na capacidade de ouvir e dialogar.

A mentira, por óbvio, precisa ser enfrentada. As narrativas ideológicas devem ser desmascaradas com a força dos fatos.  A informação confiável é um grande desafio. O combate às fake news, importante e necessário, não deve justificar censura, limitações abusivas à liberdade de expressão, intimidações, prisões ilegais e arbitrárias.

Quem vai definir o que é ou não fake news? O ministro da Justiça? O Supremo Tribunal Federal? Transferir para o Estado a tutela da liberdade é muito perigoso. Só o Congresso Nacional, com prudência e os olhos na Constituição, tem legitimidade para estudar assunto tão sensível às liberdades democráticas.

Mas voltemos, amigo leitor, ao nosso tema: O desafio da informação confiável. A perda de confiança no jornalismo está ligada ao abandono do factual e ao avanço do subjetivismo engajado. Quase sem perceber, alguns jornais sucumbem à síndrome da opinião invasiva. Ganham traços de redes sociais. Como disse João Pereira Coutinho, “não são as redes sociais que matam os jornais, são eles próprios que se suicidam quando seguem o exemplo das redes”.

É preciso apostar na informação. Sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeças para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”.

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada. Nas redações brasileiras, multiplicam-se as telas coloridas que trazem, minuto a minuto, indicadores e gráficos mirabolantes. Ao final de um dia de trabalho, qualquer editor está habilitado a responder quais foram as reportagens mais lidas. Mas e depois disso?  Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer.

O ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa.

Alguns jornalistas da grande mídia, sobretudo na cobertura de política, em nome de suposta independência, têm enveredado excessivamente pelo que eu chamaria de jornalismo de militância. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda seus próprios leitores. Na verdade, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela internet.

É necessário perceber, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se um jornalismo menos anti e mais propositivo. Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores. Sabendo que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar nosso conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

O jornalismo precisa recuperar a vibração da vida, o cara a cara, o coração e a alma. O consumidor precisa sentir que o jornal é um parceiro relevante na sua aventura cotidiana.

O fim da editoria de esportes do New York Times não é um assunto lá muito novo – inclusive já comentamos sobre ele por aqui. Mas mesmo temas passados podem render novas reflexões, e por isso vale a pena voltar ao assunto, sobretudo para analisar como as empresas de mídia podem aprimorar seus produtos.

É claro, do ponto de vista estratégico e de negócios, a editoria de esportes realmente não fazia muito sentido, especialmente depois que o Times comprou o muito mais especializado The Athletic no início de 2022. Além disso, eliminar a editoria não significava apenas deixar parte do conteúdo para a sua vertical mais especializada, mas permitia que o próprio Times reservasse suas páginas para o conteúdo sobre política e sociedade que sempre foi parte central de sua cobertura. Na época, escrevemos o seguinte sobre essa questão:

Deixar de cobrir esportes ou qualquer outro assunto tão tradicional em veículos generalistas ainda é uma decisão difícil e, por isso, evitada (…) Parece mais fácil e melhor aceito pelas lideranças expandir o que já é feito: cria-se suplementos e projetos especiais em assuntos do momento, abre-se perfis em todas as redes sociais – inclusive naquelas que não têm a mínima relação com a essência do veículo (…) Atira-se para todos os lados e não se acerta o alvo.

Estrategicamente falando, portanto, o Times parecia ir por um caminho interessante e muito mais condizente com as atuais demandas do público e com o atual contexto do mercado. Na era em que a publicidade deixa de ser uma fonte segura de receita para as empresas de mídia, ter um modelo editorial nichado, e não generalista, tende a ser uma forma mais segura de obter recursos diretamente dos leitores. Mas isso por si só não explica o fim da editoria de esportes.

 

O problema está no conteúdo

Ethan Strauss é um jornalista esportivo que por muito tempo cobriu a NBA, a liga de basquete americana, pela ESPN. Como muitos de seus colegas de profissão, ele abandonou as grandes empresas de mídia e hoje tem seu próprio blog, chamado “House of Strauss”, onde escreve regularmente. Para efeitos deste artigo, o que realmente nos interessa é uma de suas recentes publicações sobre a descontinuidade da editoria de esportes do NYT, que para ele se deve, em grande medida, ao fato de que os “leitores, dentro ou fora de Nova York, não eram atendidos (pelo conteúdo esportivo do Times)”. Simple as that!

A carta assinada por A.G Sulzberger, Publisher do Times, em que se explica os caminhos tomados pelo jornal, corrobora essa percepção quando diz que por muito tempo a editoria de esportes foi responsável por grandes reportagens envolvendo “investigações sobre temas urgentes como concussões e doping, leituras obrigatórias sobre um time de futebol feminino do Afeganistão, uma trágica avalanche em Washington e muito mais”.

Imagino que todos estes temas tenham rendido ótimas matérias, mas concordo com Strauss quando ele questiona qual interesse o leitor americano médio tem pelas reportagens mencionadas. Será mesmo que um torcedor fanático de baseball ou basquete quer mesmo saber sobre um time de futebol feminino do Afeganistão? O futebol tradicional, aquele jogado com uma bola redonda, sequer é um esporte popular nos EUA.

Não é à toa que parte considerável da população começa a sentir que o trabalho feito por nós, jornalistas, simplesmente não é de seu interesse. Aqui vale uma longa citação de Strauss:

Na ausência de um público-alvo, o jornalista ainda pode se sentir realizado criativamente e validado por seus colegas do setor. Seu trabalho só não durará muito tempo. Isso não é uma tragédia, e sim o resultado esperado para todos os outros negócios do mundo. Nós não somos diferentes, embora queiramos ser. Nós não somos transcendentes, embora talvez tentemos. Somos apenas trabalhadores servindo o interesse de pessoas que não são menores do que nós. Quando nos esquecemos disto, esquecemos como fazer o trabalho.

Verdade seja dita, não concordo 100% com o que diz Strauss. Há algo de transcendente no jornalismo, ou ao menos algo que o torna diferente de muitos outros trabalhos. Parte disso se deve à nossa relação com o público – o que me leva a mais uma discordância com a citação acima: nossa função não é apenas servir o interesse das pessoas. Devemos também servir à verdade dos fatos e ter sempre um alto grau de independência que nos permita tocar em sensibilidades, mesmo que elas desagradem empresas privadas, agentes públicos ou o público em si.

Dito isso, há também algo de certeiro no que Strauss escreve. Mesmo que atender o interesse da audiência não seja sempre uma obrigatoriedade, tampouco podemos trabalhar de costas para ela.

Podemos achar que somos sempre objetivos, mas isso não é inteiramente verdade. O jornalista, assim como qualquer outra pessoa, possui valores morais que se refletem nos temas que priorizamos, nas pautas que escolhemos e no tom do conteúdo que publicamos. O ponto é que os valores morais que predominam em nosso meio frequentemente são diferentes daqueles de boa parte da audiência.

É claro, portanto, que as críticas feitas por Strauss não se aplicam somente à cobertura esportiva, mas ainda mais claramente à cobertura política, social, cultural. São tantos temas contraditórios e complexos, e mesmo assim frequentemente apresentamos uma visão de uma via só, que mostra apenas o que o certo e condena o que é errado, como se não houvesse nenhuma zona cinzenta no meio. A pergunta que nos devemos fazer é se o tom, o enfoque e as pautas que priorizamos dialogam com o que o público pensa e o que ele quer ler, ouvir, assistir?

Sem dúvida alguma, isso tudo dependerá do tipo de veículo sobre o qual estamos falando, e este é o ponto crucial. Nossa visão de mundo tem sua legitimidade. A questão é que ela não é universal. A equação sobre o que publicar fica mais fácil para um veículo de nicho. Já para um veículo generalista, é preciso levar em conta ideias e valores que nós mesmos podemos não gostar. O fato, porém, é que se as pautas que escolhemos e os valores que embutimos, consciente ou inconscientemente, nas matérias que publicamos, dialogarem apenas com uma restrita audiência, sem dúvida iremos acabar por alienar o restante da população.

As vezes o público quer algo simples como saber o resultado da última partida de futebol ou quem levou a medalha em sei lá qual esporte. Por vezes também deseja apenas ler algo agradável e construtivo sobre aquilo que está à sua volta ao invés de ouvir problemas que muitas vezes parecem abstratos e distantes.

Há problema em falar do futebol feminino do Afeganistão? De forma alguma! É errado dar mais uma notícia sobre a questão climática ou abordar problemas que nós consideramos estruturais da sociedade? Também não. Acontece que as vezes as pessoas querem algo mais simples, algo que diz respeito à realidade na qual elas vivem. Por que não dar isso a elas?

Não tem como escapar, se queremos ser relevantes, precisamos oferecer ao público aquilo que seja de seu interesse ou que dialogue com seus valores, não com os nossos. Podemos nos convencer que somos fundamentais para a manutenção da democracia, e em algum grau podemos estar certos. Mas este argumento não nos trará audiência, e sem ela não podemos nos manter. É quando nos esquecemos disso que deixamos de ser necessários.

O jornalismo vive uma crise e uma oportunidade. Vivemos um momento de desintermediação. Dos políticos, dos partidos, das igrejas, da própria mídia. É necessário perceber, para o bem ou para o mal, que perdemos a hegemonia da informação e da narrativa. Precisamos olhar as nossas coberturas e nos questionarmos se há valor diferencial no que estamos entregando aos nossos consumidores. Precisamos desenvolver uma boa curadoria da informação.

O momento, creio, exige recuperar a capacidade de dar bem o factual. Há uma overdose de colunismo e de opinião. É preciso declarar guerra ao jornalismo declaratório e assumir, efetivamente, a agenda do cidadão.

É importante fixar a atenção da cobertura não mais nos políticos e em suas estratégias de imagem, mas nos problemas dos cidadãos. O papel da imprensa é ouvir as pessoas, conhecer suas queixas, identificar suas carências e cobrar soluções.

Precisamos ouvir. Sair das nossas bolhas. Jornalista conversa com jornalista. Pensa, age e produz informação com a cabeça de jornalista. Tem dificuldade para se colocar no lugar do consumidor, na posição do leitor. Logo, a cobertura caminha na contramão do consumidor. Frequentemente, o jornalista escreve para os colegas. Não escreve para o público.

Outro desvio: o protagonismo do jornalista. O bom repórter, diz Carl Bernstein, ícone do jornalismo investigativo, “ilumina a cena, o jornalista engajado constrói a história”. Daí a importância de recuperar a primazia do factual e da apuração cuidadosa. O importante é saber escutar. As respostas são sempre mais importantes que as perguntas que fazemos. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos. A reportagem não é o empenho de confirmação de uma hipótese. É a tentativa de descobrir a verdade dos fatos.

A overdose de pautas a cumprir, a redução das equipes, a falta de especialização e a má utilização dos bancos de dados podem transformar repórteres em coadjuvantes de um espetáculo conduzido pelos entrevistados. A cobertura de política está dominada pela síndrome declaratória. Sobra Brasília e falta País real. Há excesso de declarações e falta apuração. Que interesse tem o leitor pelo bate-boca no Congresso? É preciso avançar numa cobertura mais profunda e propositiva. Frequentemente, o jornalismo político não tem notícia. Tem fofoca. Show. Espuma. Precisamos dar uma guinada de 180 graus. A agenda pública não pode ser conduzida pelo político, mas pelo cidadão. Precisamos fugir do fascínio exercido pelo poder.

A imprensa é presa fácil dos políticos. Eles são mestres na produção de denúncias pouco fundamentadas. Dossiê não é matéria para publicação. É matéria para apuração. Não é ponto de chegada. É pauta, ponto de partida. A precipitação pode ser, a médio prazo, um tiro de morte na credibilidade.

O jornalismo investigativo, sério, responsável e necessário, cedeu espaço a uma compulsiva e acrítica veiculação de declarações. A opinião pública começa a ficar cansada com o clima de espetáculo que tomou conta da cobertura. Quer menos estardalhaço e mais criminoso na cadeia.

É preciso revalorizar as clássicas perguntas que devem ser feitas a qualquer repórter que cumpre pauta investigativa: Checou? Tem provas? A quem interessa essa informação. O jornalismo, dizia Paul Johnson, pode ser uma arma carregada quando dirigido com intenção hostil contra alguém. Por isso, é preciso por a mão na consciência antes de apertar o gatilho. Caso contrário, é assassinato moral.

O consumidor não quer pacote opinativo. Quer informação. A imparcialidade, que não é neutralidade, é uma meta a perseguir. O jornalismo é a busca da verdade possível. Não é a transcrição de versões. Ouvir o outro lado, prática essencial, não significa a renúncia em buscar a verdade. O bom repórter procura a verdade que está camuflada atrás da verdade aparente.

Tratar adequadamente a intimidade é outro grande desafio. A invasão da privacidade pode significar um roubo, mas também pode representar um dever ético. É preciso trabalhar corretamente o tema. Entender que existem matérias de interesse público e outras “interessantes” para o público. A fofoca não deve ter espaço. Mas a denúncia de desvios, sobretudo em figuras públicas, deve ser objeto de informação, mesmo com a justa invasão da privacidade. O interesse público se sobrepõe ao resguardo da intimidade. O direito à privacidade não pode ser um muro de arrimo, instrumento de ocultação.

São algumas reflexões, amigo leitor. O jornalismo vive uma crise? Sim. Mas também pode vislumbrar grandes oportunidades. Em vez de ficarmos reféns do diz-que-diz, do blá-blá-blá inconsistente, das intrigas e da espuma que brota nos corredores do poder, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Chegou a hora, não me canso de dizer, do jornalismo propositivo. Aquele que não se limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções. Esta quadra, sem dúvida difícil para o setor, também pode abrir uma avenida de oportunidades.

Faz quatro anos que acompanho a estratégia do “menos é mais” na produção de conteúdo por empresas jornalísticas. São vários cases, estudos e aulas que surgiram em função de uma máxima usada noutras áreas, como na corrente da arquitetura que caminha de mãos dadas com o design minimalista. O pai da expressão foi um arquiteto alemão que experimentou o ápice da sua carreira no período entre-guerras, Ludwig Mies van der Rohe. Não por acaso, ele foi diretor da escola germânica Bauhaus, onde nasceu o estilo homônimo, cujo princípio mais conhecido é “forma segue função”.

Não foi para menos. Reconstruir um país destruído pela guerra era uma tarefa complexa, sobretudo pela falta de matéria-prima e pela necessidade de erguer edifícios e redesenhar objetos para uso cotidiano. As ornamentações de prédios deram lugar a linhas retas. O que era belo precisava, agora, ser prioritariamente funcional. Cada material tinha de ser aproveitado inteligentemente; daí a prevalência de elementos versáteis, como a madeira, o aço e o vidro. Além de resistentes e de fácil manipulação, eram materiais baratos em comparação ao mármore, ao bronze e à seda.

Mas o que isso tudo tem a ver com jornalismo? Digamos, talvez, que nossa indústria esteja atravessando um pós-guerra, clamando por reconstrução.

Sou uma das tantas viúvas da Abril e todas as vezes que vejo o NEA, de longe ou pegando a Marginal Pinheiros pela Sumidouro, o nó na garganta denuncia o sentimento de devastação. A imponência do prédio – que não é Bauhaus, mas estilo contemporâneo – é só um dos superlativos que projetou a indústria jornalística na direção do show business, da cultura do entretenimento, de Hollywood. Mas jornalistas não são artistas e nem os veículos podem ser comparados a produtoras cinematográficas. Mesmo assim, o espírito do excesso pode ser uma das causas da crise na indústria – e reconhecê-lo pode ser a solução.

O excesso, infelizmente, não está apenas em infraestruturas e operações caras, como um grande edifício-sede. O exagero aparece na quantidade de conteúdo produzido, atrelado a um modelo de negócios onde “mais é sempre melhor”: a publicidade. 

Desafiando a publicidade

Há alguns dias, o título da newsletter do analista de mídia dinamarquês, Thomas Baekdal, perguntava: “Você quer cliques ou leitores?”. A questão é tão simples quanto cruel. É claro que qualquer um de nós deseja que seu trabalho seja efetivamente consumido (lido, assistido, ouvido) com atenção, do começo ao fim. Mas o que, de fato, perseguimos?

Enquanto tentamos equilibrar os dois pratinhos ao mesmo tempo, perseguindo cliques E leitores, produzimos toneladas de conteúdo para aumentar a extensão da rede que jogamos ao mar. Ora, quanto maior a rede, mais peixes virão! 

Você não clicou na matéria do carro-bomba na Colômbia? Então talvez se interesse pelas eleições na Argentina! Ou preferiria descobrir o que sua posição de dormir diz sobre sua personalidade? Já sei: você quer mesmo é saber que a atriz Aracy Balamanian morreu ouvindo música clássica! Porque você não perderia uma só notícia sobre a sucessão do Lira na Câmara, né?

O problema é que há cada vez mais pescadores jogando redes cada vez maiores e a chance de sobrar algum peixe para cair na sua é cada vez menor. As redes já se cruzam e se embolam e a desinformação traduz o desinteresse crescente pelo jornalismo.

Um dito popular lembra que nem Jesus Cristo conseguiu agradar a todos; mas jornalista segue firme neste propósito, nem que seja a fórceps! Se não agrada de um jeito, tenta agradar de outro. Se uma notícia ou um programa teve pouca audiência, produz outro, publica outra, faz mais! Uma hora, acerta. Afinal, o que conta é o número de audiência.

A publicidade não é um modelo de negócios problemático. Ela tem sua lógica e funciona bem há décadas. Só que ela se orienta pelo volume. E volume de audiência era algo que tínhamos quando a informação era um bem escasso. Por isso a indústria da informação se ergueu e se consolidou: produzíamos um bem escasso. Por isso a Abril tinha até academia com piscina dentro daquele prédio maravilhoso. E por acreditar que não tinha concorrentes, a outrora maior editora da América Latina não está mais lá. 

As revistas da Abril tiveram sucesso monumental, inclusive com publicidade, porque eram únicas, bem acabadas, compostas com planejamento, zelo, tempo e num padrão altíssimo de qualidade. Mas o consumo para esse tipo de produto mudou. A Abril não fez mau jornalismo, não pecou por falta de qualidade. Nem assim a qualidade foi suficiente. Portanto, na indústria jornalística contemporânea que deseja viver de publicidade – ou mesmo de assinaturas -, não basta ser bom, é preciso ser único.

[À parte: li na revista da Gol uma chamada para marcas anunciarem na empresa aérea. O anunciante pode escolher entre mensagens sonoras lidas por comissários de bordo, distribuição de amostras de produtos durante os voos e adesivagem de aeronave. A mídia está em todo lugar e até companhia aérea concorre com veículos de imprensa.]

O volume de audiência é consequência

No fim das contas, o problema não está na publicidade. É sobre ser relevante e fazer sentido a ponto de atrair a atenção de muitas pessoas. A publicidade é consequência disso e ela pode ser viável à medida em que o veículo alcance volume. De qual forma estamos buscando volume? Com mais conteúdo, mesmo que seja commodity, mesmo que haja 489 conteúdos iguais àquele em outros veículos, com quem nadamos em um oceano vermelho.

Para a publicidade funcionar, para atrair um bom número de audiência, o princípio da escassez nunca fez tanto sentido. Quanto menos há, mais valioso é um produto. Se a oferta de todo tipo de informação é infinita, que demanda atendemos? Ou ainda: o que leva alguém a procurar, especificamente, por nós e não por outros? O que fazemos de diferente, de único, de escasso a ponto de atrair a atenção de muita gente?

É realmente difícil ser exclusivo em um ecossistema propício à pirataria, à multiplicação infinita da informação sem perda de qualidade técnica. Então, a equação lógica que vai se desenhando para a indústria jornalística é: 

Se:
ATENÇÃO = EXCLUSIVIDADE
QUANTIDADE < QUALIDADE < EXCLUSIVIDADE
logo:
ATENÇÃO ≠ QUANTIDADE

Procurar por um diferencial real é só um dos pontos que precisam ser pensados em uma estratégia editorial. O medo de fazer algo novo ainda é gigante no setor; daí a eterna e falsa sensação de “garantia” trazida pela fórmula que se repete, pelas pautas que se repetem à exaustão. Mas é na exclusividade, na singularidade de um produto que mora a verdadeira inovação. 

Em tempos de informação excessiva, a inovação pode estar em publicar menos. Se os recursos são escassos, não tenhamos medo de ser simples, funcionais, úteis. Isso não tira nosso brilho; ao contrário, nos faz diferentes, menos iguais que a multidão, mais agradáveis (porque menos prolixos). 

Publicar menos é valorizar cada minuto de atenção da nossa audiência. Experimente!

Há uma certa tendência no jornalismo de evitar escrever em primeira pessoa, o que se dá, em parte, pela necessidade de separar a história da opinião de quem a conta. Aqui no Orbis, entretanto, já argumentamos algumas vezes que há motivos interessantes para revisitar esta ideia. Portanto, começo este artigo fazendo uma confissão pessoal: fiquei extremamente impactado com uma recente leitura que fiz sobre o número de crianças que abandonaram as escolas nos últimos dois anos.

A matéria em questão figurava na edição semanal da revista inglesa Spectator, a qual assino e leio com regularidade – e a qual já analisamos por aqui. Entretanto, o fato de que a evasão escolar narrada esteja acontecendo no Reino Unido pode gerar uma dúvida sobre a relevância da situação, uma vez que não diz respeito ao Brasil. Reconheço a legitimidade do questionamento, mas a verdade é que todo este relato é muito mais importante como contextualização do que pelo fato em si. Explico melhor:

Embora a matéria em questão tenha me provocado um belo de um impacto, o que realmente importa é que, de início, tive pouquíssimo interesse em gastar com ela o meu tempo diário de leitura – na verdade, o fiz quase por falta de alternativa melhor. É claro, o tema é interessante, mas minha preferência, em geral, é por artigos sobre política, questões internacionais importantes e por aí vai. Mas o fato é que, após ignorar a publicação por vários dias, ela eventualmente me venceu e obteve o meu clique.

E aqui está uma questão realmente interessante no que diz respeito ao jornalismo: teria eu lido a matéria caso ela não tivesse passado a semana toda estampada no site? Certamente não. Caso este fosse mais um artigo que nasce hoje para ser ocultado amanhã após uma nova leva de publicações, ao invés de passar uma semana inteira insistindo para ser lido, ele certamente teria fugido do radar de muitos leitores como eu. Coisas assim são sempre uma pena, especialmente quando se trata de matérias bem apuradas que trazem novos insights e perspectivas sobre a realidade – e não aquelas que simplesmente apresentam polêmicas que nada são além de espuma.

Imagem da edição semanal da revista Spectator, destacando a matéria “As crianças fantasmas – os estudantes que nunca voltaram após o lockdown”

Em comparação com o que acontecia nas revistas, as matérias de jornais sempre tiveram um pequeno ciclo de vida. Ao passo que os textos das revistas deveriam se manter vivos por cerca de uma semana, o dos jornais passavam por uma reciclagem diária. Entretanto, o que era natural do jornal impresso, talvez esteja se tornando um problema no ambiente digital. As matérias não apenas continuam com sua alta rotatividade, mas agora isso acontece em um meio em que tudo parece superficial e efêmero. Como gerar a percepção de que o conteúdo que publicamos, o trabalho que fazemos, tem realmente um valor que justifique o tempo investido em leitura?

Ainda temos o hábito de argumentar que o noticiário é importante para que as pessoas se mantenham informadas ou, de forma mais grandiosa, para que a democracia se mantenha viva. Estar antenado, realmente, costuma ser uma motivação forte, uma vez que isso pode sempre render frutos profissionais. Atualmente, no entanto, é possível se manter informado acessando diversas publicações online ou mesmo via rede social. Nada disso garante que o leitor irá acessar o NOSSO veículo.

E neste sentido, a alta rotatividade de matérias pouco acrescenta para o apelo de um jornal em específico, uma vez que esta prática não acrescenta valor ao conteúdo publicado, mas ao contrário, faz com que ele se pareça efêmero. Olhando pela ótica do leitor, o grande volume de publicações e o pouco tempo que elas permanecem em destaque nos sites não gera a percepção de que é preciso estar acompanhando o noticiário com regularidade, pois há uma probabilidade real de que o público acabe por enxergar o conteúdo como tendo pouca substância.


Fitas cassetes no mundo do streaming

Recentemente foi noticiado que o Spotify iria lançar uma fita cassete comemorativa da banda Metallica. Iniciativa estranha para uma empresa de streaming? Talvez não. Tudo aquilo que não é tátil possui uma longevidade inferior ao que é material – pois se não tocamos, logo não parece real; se não parece real, logo se torna descartável.

Obviamente, o Spotify não deixará de ser uma plataforma de streaming, mas com essa iniciativa, lança ao mercado algo que, por ser palpável, possui um maior valor perceptível. As consequências são várias: a fita pode apelar a colecionadores, fãs da música e aos nostálgicos, dando ao Spotify um status superior de marca que realmente valoriza a música.

A solução para todas as empresas de mídia que migraram para o digital é retornar ao físico? Certamente não. Mas é importante entender que se nos propomos a aumentar a percepção de valor das publicações, então estamos fazendo isso em um ambiente que não joga a nosso favor.


O que fazer para que nossos produtos conquistem maior perenidade?

Algumas propostas que podem ser do interesse das empresas de mídia que buscam encontrar um diferencial e fortalecer o financiamento direto pelo leitor já são bastante discutidas e repercutidas aqui no Orbis. Argumentar sobre a importância da busca pela qualidade do conteúdo pode até parecer uma obviedade. Qual jornal não tem como meta publicar matérias bem apuradas e com credibilidade, afinal de contas? Entretanto, quando falamos na busca pela qualidade e diferencial do conteúdo, não nos referimos apenas a isso. Tratamos, especificamente, de quebrar com alguns padrões, exigir dos repórteres uma apuração profunda (mesmo que isso tome tempo), que escrevam de forma clara, mas também criativa, que não publiquem aquilo que todos os demais veículos estão publicando (ou ao menos, não da mesma forma). Fazer isso não é tão óbvio e menos ainda fácil. Exige uma formação excepcional da equipe de reportagem – e com isso, investimento de recurso e tempo. Exige, também, uma mudança de postura. Não é possível colocar tal plano em prática exigindo que cada repórter publique algo novo todo dia (ou várias vezes ao dia). Para este modelo funcionar, é preciso seguir a lógica do “menos é mais”.

Mas não é bem disso que estamos tratando neste artigo. O ponto aqui é buscar uma maior perenidade para o nosso conteúdo. Para isso, a qualidade e o diferencial são o ponto de partida, são o elemento sem o qual a perenidade jamais será possível, mas não o objetivo em si. A verdade é que de pouco adianta publicar uma matéria bem apurada e bem escrita para que ela seja ocultada por novas publicações feitas no dia seguinte – ainda mais se forem publicações que pouco agregam na vida do leitor.

Neste sentido, algo que as empresas de mídia poderiam tentar é de fato insistir nas matérias publicadas. Sim, renovar constantemente o conteúdo é uma prática seguida essencialmente por todos os jornais e revistas que migraram para o digital – mas esta prática não precisa ser uma cláusula pétrea do jornalismo. Por que não manter a rotatividade de parte do conteúdo, investindo complementarmente em matérias especiais, bem apuradas, propositivas, redigidas de forma criativa e visualmente interessantes? E como são trabalhosas, por que não deixar este conteúdo em destaque por alguns dias ou uma semana inteira, como faziam as antigas revistas?

Certamente, isso também exige que as empresas passem a alocar parte de seus esforços a procurar pautas frias (ou mornas) que consigam se manter relevantes por um período maior de tempo. E qual é o problema disso? Talvez haja mais vantagens do que desvantagens em tentar algo assim. Se, por um lado, as publicações acabem deixando de apelar ao instinto mais primitivo do homem de reagir àquilo que é polêmico e escandaloso, por outro podemos não apenas contribuir para a construção de uma sociedade mais saudável, como também podemos garantir um diferencial maior em relação aos concorrentes.

Polêmicas são como tempestades: elas até despertam uma curiosidade inicial, até que se tornam banais quando percebemos que nada mais são do que simples barulho. Assim, pouco conseguimos do público além de uma atenção momentânea. Ademais, este tipo de conteúdo é facilmente replicado por outros veículos. A verdade dura é que pouco ganhamos com a reverberação de escândalos além de cliques acidentais. Já artigos substantivos podem engajar fortemente o leitor e, quem sabe, com a publicação constante de matérias assim, garantir a sua fidelidade com o veículo.

Agradecem aqueles que, como eu, nunca leriam certas matérias – e certamente se arrependeriam caso não o tivessem feito.

O Orbis Media Review acaba de lançar mais uma pesquisa sobre consumo de mídia no Brasil. O estudo Consumo de Notícias por Universitários Brasileiros mostra a relação que estudantes do ensino superior, de instituições públicas e privadas, localizadas nas cinco regiões do país, tiveram com o noticiário.

A coleta dos dados foi feita entre 6 de setembro e 21 de novembro de 2022, período em que aconteceram os dois turnos das eleições presidenciais, além de outros fatos de grande projeção, como a morte da Rainha Elizabeth II, o Rock’n Rio, a morte do ator Guilherme de Pádua, os debates eleitorais e as manifestações com o bloqueio de estradas pós-segundo turno, além dos preparativos para a Copa do Mundo no Qatar.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Notícias sobre estes e outros temas, publicadas em sete grandes veículos generalistas, foram alvo da análise dos 1.030 participantes. Mais do que classificar o impacto de tais relatos em suas vidas, os estudantes disseram o que os leva a procurar por notícias e quais suas expectativas em relação às publicações.

Conteúdo útil, curioso e que “contribua com o meu desenvolvimento”

A curiosidade aparece como principal motivação e, também, como o maior efeito que o noticiário exerce sobre cada indivíduo. Em segundo lugar, os estudantes querem notícias que os ajudem no cotidiano, mas apenas 2% das chamadas que eles analisaram foram classificadas como sendo capazes de “ajudar no meu dia a dia“.

Um grupo de 62% de universitários mencionou que se sente atraído pelo noticiário que contribui com o seu desenvolvimento. Por outro lado, um quarto das análises que eles fizeram sobre as notícias reportou que tal conteúdo “é indiferente para mim“.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Ainda assim, cerca de um terço da amostra informou acessar, assistir ou procurar ativamente algum veículo jornalístico, pelo menos, uma vez por dia. Já um quarto dos universitários admitiu não ter o hábito de consumir notícias.

Estes jovens adultos, em sua maioria matriculados em universidades públicas, lembram que a última notícia que viram foi em alguma rede social (36,6%) ou em um veículo jornalístico (34,5%). Whatsapp ou Telegram somaram apenas 2,5% das respostas quanto à fonte da informação.

Baixo impacto do noticiário

Poucos souberam contar com algum detalhe sobre a última notícia que haviam visto. Em um campo aberto para resposta, muitos pareceram lembrar vagamente sobre o relato mais recente com que tiveram contato, em sua maioria, no mesmo dia em que participaram da pesquisa. Quase 4% dos participantes admitiram não saber ou não lembrar da última notícia a que foram expostos.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)

Embora rejeitem a negatividade do noticiário, foi notável a quantidade de graduandos que mencionaram alguma notícia sobre violência como a última que viram. Mas um destaque maior fica por conta de acontecimentos locais ou referentes ao universo da profissão à qual se preparam. Alguns exemplos são:

[Pergunta] Qual foi a última notícia que você viu?

  • Cachorro na França é o primeiro animal suspeito de varíola de macaco” (estudante de Zootecnia)
  • Repórter que foi atingido por uma pedra por um bolsonarista” (estudante de Jornalismo)
  • Sobre a interpretação jurídica” (estudante de Direito)
  • Raio atinge e mata metade das cabeças de gado do local” (estudante de Engenharia Agrônoma)
  • Informações esportivas” (estudante de Educação Física)
  • Crítica ao imposto de renda” (estudante de Ciências Econômicas)
  • Da chuva de granizo em Minas Gerais” (estudante de Geografia)

É natural que o noticiário generalista não contemple, rotineiramente, pautas específicas de uma ou outra área e para isso está a mídia segmentada. Mas quando se fala em “notícias” ou mesmo em “mídia”, de modo geral, a política domina a agenda e aí se cria uma repulsa que os números confirmam.

O grupo mais representativo de jovens que se identificam com a esquerda (39%) dizem que a mídia é de direita. Por sua vez, 42% dos estudantes de direita percebem a cobertura da maior parte dos veículos generalistas enviesada à esquerda. A imparcialidade – tão necessária, segundo as respostas dos próprios participantes – é um atributo que apenas um quinto da amostra percebe.

Um quarto da amostra se diz neutro, ideologicamente. Isso pode ser um indicativo de que há um grupo importante de jovens adultos que se abstêm do debate polarizado. Entre eles, 44% declararam não saber avaliar se a cobertura de 11 veículos brasileiros de abrangência nacional estaria enviesada ou não. Vale sublinhar que isso não significa que eles notem isonomia no noticiário, mas provavelmente preferem ficar à margem da pauta predominante e se concentrar em assuntos de interesse e impacto imediatos.

Baixe a íntegra do relatório da pesquisa (pdf)