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Era o início da noite de 14 de fevereiro de 2020 e o centro histórico do Recife já estava agitado com o pré-carnaval. Pelas janelas do prédio da Rua Marquês de Olinda, onde está a sede do mais antigo jornal da América Latina, o Diário de Pernambuco, era possível ouvir a passagem barulhenta de inúmeros blocos e grupos. A alegria parecia contagiar os profissionais da Redação, que preparavam a primeira edição de um jornal renovado em conteúdo e forma e que anunciava o projeto Rumo aos 200 anos – o DP, como é carinhosamente chamado, tem 194 anos de uma história riquíssima.

As duas ideias eram parte de um trabalho iniciado havia pouco mais de 60 dias, com a intenção de melhorar com rapidez a sobrevida do título. Como todos os jornais tradicionais, o Diário de Pernambuco vem sofrendo as consequências da revolução digital. Alguns, como o DP, em grau desesperador, por diversas razões. Não havia verba para melhorias, pois o capital disponível era usado para pagar os salários e as dívidas e para manter a operação.

Nos muitos anos em que passei pelo Estadão (foram 26, a partir de 1990), percebi o quanto um processo de desconstrução é difícil.

O jornal estava editorialmente frágil, com pouca produção local, trazendo basicamente conteúdos nacionais. A operação digital, que chegou a ser uma das melhores do Brasil, mostrava números de quedas impressionantes. Resultado do processo de enxugamento de sua Redação, vivido por todos os grupos brasileiros para tentar manter seu título vivo. E tinha ainda distorções sérias de produção e negócio, causadas por cortes em todas as áreas na mesma busca pela sobrevivência.

Nos muitos anos em que passei pelo Estadão (foram 26, a partir de 1990), percebi o quanto um processo de desconstrução é difícil. Tive a chance de acompanhar e comandar alguns deles. Certamente um dos maiores problemas era o desejo de tentar manter a maior parte das estruturas existentes, mesmo com a redução gradual dos recursos e do pessoal. Com o tempo este processo vai causando uma distorção enorme não somente na forma de produzir e entregar o conteúdo, mas nas áreas de produção, logística e negócios. Gera distorções como as vistas então no DP. Não só uma Redação voltada basicamente para o fechamento do jornal, com pouquíssima produção local e num horário muito tardio, mas uma marca com muitos produtos supérfluos e uma operação de produção e de logística não adaptada às novas condições.

O processo de foco preciso impactava positivamente não só a Redação, mas a operação digital, de logística, de mercado leitor, comercial e administrativo.

Tanto na experiência no Estadão como em outros trabalhos posteriores na Bahia, tinha ficado claro que era preciso abrir mão de cadernos, seções e produtos secundários, para liberar profissionais e energia no trabalho do que era o principal da marca. No caso do Estadão, um jornal do poder – político, econômico, cultural, etc. No dos regionais, a cobertura de sua cidade, seu Estado. O processo de foco preciso impactava positivamente não só a Redação, mas a operação digital, de logística, de mercado leitor, comercial e administrativo.

Confiando nas experiências, o foco principal no DP foi o de buscar medidas de melhorias na operação e na reorganização da forma de trabalho da Redação. Algumas soluções simples e de rápido ganho foram tomadas na produção. Foi definido um comando claro e criado um grupo de líderes do projeto entre alguns dos profissionais que haviam feito o jornal continuar funcionando, apesar das terríveis ondas de cortes dos últimos anos. Foi assim definida uma nova forma de trabalho na Redação, baseada no foco na produção local e exclusiva. Os muitos níveis horizontais de produção foram drasticamente simplificados e horários modificados para atender ao novo foco. Para isso, seções e cadernos secundários foram excluídos. Em paralelo foi pensado um projeto gráfico e de conteúdo que mantivesse as características históricas do jornal, mas com soluções simples que mostrassem sua evolução.

Era a fase 1 do trabalho. Os resultados foram bem recebidos por leitores e pelo mercado. A operação digital ganhou agilidade e mais conteúdos locais e a audiência e o engajamento dispararam. Houve em seguida uma etapa rápida de ajustes e correções. A fase 2, a de novas mudanças editoriais e de operação e o início do projeto Rumo aos 200 Anos, iria ser iniciada no final de março. A ideia do projeto é mobilizar empresários, autoridades e a sociedade no apoio de um caminho para tornar o DP, um patrimônio não só do Recife e de Pernambuco, mas do Brasil, o primeiro jornal da América Latina a conseguir chegar ao bicentenário. Aí veio o coranavírus…

Escrevo este texto no dia 2 abril de 2020, em meio à pandemia. Estamos eu e a família isolados em casa, preocupados com a sobrevivência, como quase todo mundo. Sobrevivência, justamente a palavra que certamente mais usei neste e em outros projetos que tive a honra de comandar. A fase 2 foi adiada, sabe-se lá para quando e como. Enquanto escrevo, parece ainda estar distante a certeza de quando e como eu e minha família e muitos jornais do Brasil chegaremos ao fim desta crise. Espero que estejamos todos bem e que o DP possa comemorar seu bicentenário.

A receita gerada pelo usuário é uma parte crucial do mix de modelos de negócio aplicados ao Jornalismo e tem sido uma das poucas a ganhar tração desde 2016. Ao longo do último ano, três nativos digitais de alcance global lançaram seus programas de associação: BuzzFeed News, HuffPost Vox.

Esta constatação é do Tow Centerdepartamento da Universidade de Columbia que investiga o mercado de mídia digital. Ela se alinha a uma lógica comportamental em que quanto mais as audiências notam que estão sendo valorizadas pelos veículos, mais elas se dispõem a apoiá-los, seja financeiramente, seja dedicando tempo e atenção.

À medida em que os veículos jornalísticos confirmam a tendência do user-revenue streaming através da venda de assinaturas, pedidos por doações e programas de associação, o relacionamento com as audiências torna-se uma tarefa central para a sustentabilidade do negócio.

Jornalismo a portas fechadas

Ao contrário dos anos 90, o usuário de redes sociais deste começo de milênio já não aceita ser tratado como massa. Assim, o relacionamento que as empresas jornalísticas precisam desenvolver para que este público se transforme em fonte de receita deve ir muito além da produção de um conteúdo de qualidade e dos serviços de atendimento ao leitor.

Nas duas últimas décadas, no entanto, redações e pesquisas acadêmicas se dedicaram intensivamente a propor inovações nos sistemas de empacotamento e de distribuição de notícias. Muito se falou e ainda se fala sobre jornalismo de dados, sobre o uso de vídeos, podcasts, storytelling, aplicativos, redes sociais, VR, AI e outros tópicos que fazem toda a diferença na hora de formatar o conteúdo e de distribuí-lo. Embora sejam discussões fundamentais, elas já não são suficientes para os desafios que o momento atual apresenta às empresas jornalísticas. Enquanto muito se avançou no empacotamento e na distribuição de informações, pouco se falou sobre o processo.

As decisões do percurso editorial ainda são tomadas por um pequeno grupo de editores, dentro de uma sala fechada, tal como nos tempos analógicos. É claro que estes editores estão conectados e trazem consigo uma miríade de dados que só a tecnologia digital poderia disponibilizar. Portanto, além de suas ricas visões de mundo, as estatísticas fornecidas por analytics a respeito de pautas anteriores também pesam na hora de definir os próximos conteúdos a serem produzidos.

Menos analytics, mais conversa

Em plataformas avançadas (como Spotify e Netflix), os analytics alimentam algoritmos que aprimoram a distribuição do material, promovendo uma experiência personalizada de adequação entre oferta e demanda de informação. A matemática é precisa, mas o tempo não. O produto jornalístico joga contra o tempo: a notícia fica velha, enquanto catálogos de entretenimento ganham relevância conforme se tornam mais e mais conhecidos.

Jennifer Brandel, fundadora da consultoria em engajamento Hearken, compara as métricas de um conteúdo publicado ao reflexo em um retrovisor: elas contam a performance daquela reportagem específica e até podem indicar caminhos para conteúdos semelhantes àquele. Tomar analytics como bússola, então, é mergulhar num mar de meras probabilidades.

Munidos por estes dados e pelo feeling próprio ao editor, jornalistas buscam respostas à pergunta: “o que o usuário precisa saber?”. A única variável que não participa dessa ciranda editorial, no entanto, é o próprio usuário.

Sem entrar no mérito de as métricas digitais serem questionáveis em sua credibilidade e meramente quantitativas, os veículos seguem produzindo jornalismo na escuridão do isolamento na redação e esperam que o público abra suas carteiras por este produto arbitrário. Nenhum feedback melhora a qualidade da reportagem, já que os comentários deixados nas matérias costumam não ser dignos de leitura nas redações.

Sem retroalimentação, o sistema entra em falência. O jornalismo se resume ao conteúdo reativo, viciado nas chamadas declaratórias (“fulano disse isso”, “beltrano tuitou aquilo”) e às reportagens-tese. Nestas últimas, o sentido mesmo de o jornalismo existir se esvai na arrogância de um repórter que, antes mesmo de sair da redação para apurar, já deixa pronto o título da matéria. “Por que preocupar-me em retratar a realidade se eu posso recortá-la?” – sim, eu já ouvi isso.

Jornalismo Fala, Jornalismo Escuta, Jornalismo Fatura

Outra vez, se espera que um sujeito completamente alheio ao processo se interesse pelo conteúdo e pague para acessá-lo. E se esse sujeito se recusa a pagar, a sustentabilidade comercial do jornalismo se fragiliza ainda mais. Após perder a receita publicitária para empresas de tecnologia, está mais do que na hora dos veículos prestarem atenção no público, instituírem estratégias humanas de relacionamento, compatíveis aos valores sociais que a atualidade — e que a atividade jornalística em si — defendem.

Não é acaso que se assiste à multiplicação de iniciativas ligadas ao listening journalism e ao dialogue journalism, metodologias de produção de conteúdo que envolvem o público em todas as etapas do processo editorial. Outro sinal é a expansão de consultorias de engajamento, como a Hearken, que já mobilizou mais de 130 redações ao redor do mundo para instituir rotinas de escuta e de produção em conjunto com as audiências.

Em 2018, a Vox Media adotou o crowdsourcing para investigar custos de assistência médica nos Estados Unidos. A publicação cruzou estas informações com histórias enviadas por pacientes, que não têm a menor clareza a respeito destes gastos. Na outra ponta, a Quartz decidiu priorizar o sistema de comentários, criando regras de participação, dedicando tempo de gerenciamento e até mesmo renomeando a sessão de “comentários” por “contribuições”. Najva Sol, head de estratégias de comunidade da Quartz, admitiu à Columbia Journalism Review que iniciativas assim funcionam quando se cria uma experiência comunitária civilizada e que isso demanda uma mudança cultural na empresa jornalística.

Audience-First e Cultura do Desdém

Para adotar o reader-revenue streaming, a mudança cultural na forma como as redações tratam as audiências é o primeiro passo a ser tomado. A Quartz entendeu isso e adotou um sistema de associação (membership) para geração de receita através do usuário. O sul-africano The Maverick, o filipino Rappler e o indiano The Quint foram para o mesmo caminho e veem os resultados financeiros crescerem.

Seja para ter o usuário como um associado, um doador ou mesmo como um assinante, a empresa de mídia precisa, inevitavelmente, adequar suas diferentes forças de trabalho ao mindset exigido pelo usuário. Matt Dulin, da University of Missouri, argumenta que o audience-first journalism depende de os jornalistas abraçarem as audiências para salvarem seus empregos. Antes disso, a razão é salvar o negócio e a própria razão de o jornalismo existir.

Não é novidade que há uma distância abismal entre jornalistas e público. É o que Jennifer Brandel, uma das fundadoras da consultoria Hearken, chama de “cultura do desdém”. “É como se nós fôssemos os guardiões de um portão, mantendo os zumbis longe da civilização que nós construímos”, compara. O pesquisador alemão Wolfgang Donsbach definiu a comunidade de jornalistas como “uma espécie de elite que trabalha para um público a quem não se iguala nem intelectual, nem politicamente”. Isso faz com que jornalistas dificilmente representem uma sociedade naquilo que produzem, o que fez o linguista francês Patrick Charaudeau constatar que “não existe uma relação de reflexo entre os lugares de fala da produção e da recepção” de notícias.

Mas se noutros momentos o jornalista foi visto como o guardião da democracia e representante do quarto poder, como se chegou a tamanho distanciamento das redações com a população? Brandel lembra que a cultura do desdém, circulante nas redações, vem da clássica dicotomia entre publicar aquilo que o público quer ou aquilo que ele precisa saber.

Isso significa, geralmente, que o conteúdo que as audiências precisam são as hard news e as reportagens investigativas. Mas os analytics dizem que não é isso que elas aceitam consumir. Brandel compara a dar um prato de vegetais e outro de hambúrguer a uma criança. Ela precisa de vegetais, mas vai comer porcaria.

Enquanto classifica os fatos apenas de acordo com estas duas premissas, o jornalista não permite que as pessoas falem por si. Então, como entender o que elas realmente querem?

Como Recuperar a Relevância

A pergunta, segundo Brandel, deveria ser esta: o que nossa comunidade não sabe e que nós podemos ajudá-la a descobrir e entender? Só que para conseguir as respostas a esta pergunta, o jornalista deve começar escutando suas audiências.

Em 2016, Andrew Haeg, fundador da GroundSource, ancorou a escrita de um Manifesto do Engajamento. O documento está redigido em três partes: pela perspectiva das audiências, das lideranças e dos jornalistas. Simulando a voz do público, o Manifesto pergunta aos jornalistas:

“Por que você acha que sabe o que é melhor para nós, sem ao menos nos perguntar? A verdade é que as coisas com que nos importamos não estão refletidas nas histórias que você conta.”

Se as redações ouvirem usuários entre 18 e 35 anos, é bastante provável que estes jovens adultos digam que relevância não é “aquilo que eles deveriam saber”, como pensa a grande mídia. Segundo o relatório How Young People Consume News and The Implications For Mainstream Media, os millennials entendem que relevância é “até certo ponto o que deveriam saber, mas também aquilo que é útildivertido interessante”.

Por “útil”, eles traduzem o que tem “aplicabilidade pessoal, benefício individual”. Por “divertido e interessante”, os millennials esperam conteúdos que eles tenham vontade de consumir e não que seja uma “tarefa a ser cumprida”, como eles costumam encarar as notícias. Um exemplo? Relatos em primeira pessoa, testemunhos de histórias surpreendentes, que lhes mostrem um ângulo específico da realidade. — Aqui caberia uma defesa ao jornalismo posicionado, aquele feito antes da penny press e das agências de notícia. A propósito, é o jornalismo feito por veículos novos, especialmente no Brasil, explicitamente alinhados à direita ou à esquerda, sem pretensas isonomias e com recordes de aceitação popular. Mas isso é história para outra hora.

Jornalista, um ressentido com causa

Qual o problema de o jornalista perguntar o que o público quer ou precisa saber? É que já sabemos a resposta, antecipa Brandel. “Se nós dermos às audiências aquilo que elas querem, elas vão pedir porcarias!”. Isso leva a uma redação da Editora Abril, no final de 2008, quando se tentava implementar um projeto colaborativo no site de uma revista e o diretor de redação concluiu: “Tudo o que o leitor mandar pra nós vai ser lixo ou nós já demos.” Simples (e traumático) assim.

O trauma sempre tem uma causa, um evento disparador. E quando ele se torna ressentimento é porque a causa se repete, o evento se torna rotina. E na vida do jornalista não é diferente. O fosso que as redações construíram ao longo do tempo ao redor de si mesmas, traçando um limite claro entre “nós e o resto” da sociedade, pode ser resultado de uma tristeza enorme que acumulamos em relação aos nossos trabalhos.

O jornalista costuma entrar na faculdade esperando mudar o mundo. Então adota alguma causa, assume uma ideologia. De repente se dá conta de que sua ideologia não passa de um conto de fadas e que nem ela, nem ele mesmo mudará o mundo. Ao contrário, o jornalista entra numa rotina feroz, horários inglórios, pressões internas, fontes e leitores mal-educados. É mais fácil xingar do que entender a dor de quem vive numa redação.

Há poucos anos houve uma greve da polícia do Espírito Santo e os repórteres de um jornal local estavam apavorados com o ódio da população contra eles, jornalistas! Num domingo, a fachada de vidro do prédio onde fica a redação foi alvejada por tiros dos manifestantes pró-grevistas.

A estratégia que eu sugeri aos colegas foi simplíssima: mostrem que dentro daquele prédio há pais e mães de família, trabalhadores que pegam ônibus e pagam contas de luz, que fazem plantão, chegam em casa cansados, sentem medo, sonham e também estão tentando viver num mundo melhor. Mostrem-se humanos, tão humanos como quem está baleando vocês.

“Maldito leitor”

Pode parecer simples, mas não é fácil estar exposto em nome de alguém. Existe, de fato, certa antipatia de parte da população aos jornalistas e veículos, especialmente manifesta em comentários de posts e notícias relacionados à política. E o jornalista, é claro, sente, se defende, se afasta e generaliza: ah, este maldito leitor… A comunidade passa a ser uma ameaça e ninguém mais enxerga quem está do outro lado.

Assim se cria a “ideia” que os jornalistas fazem do público. Em 2008, a pesquisadora argentina Raquel San Martín realizou uma série de entrevistas com jornalistas do meio impresso daquele país, mapeando o conceito que este grupo de profissionais tem a respeito dos leitores. A imagem geral é a de que são pessoas que leem pouco, somente os títulos e linha fina. Um dos entrevistados disse “Imagino meus leitores como pessoas pouco informadas em geral”.

Brandel alerta que esta visão abstrata sobre as audiências a quem os jornalistas se destinam e servem torna muito mais difícil a rotina das redações. Saber quem são as pessoas que consomem nossos conteúdos e ter contato com elas torna o trabalho mais fácil e gratificante, o que reflete nos resultados de negócio e no clima laboral.

Jeff Jarvis propõe que as redações conheçam suas audiências enquanto indivíduos e comunidades, não apenas como massas ou segmentos de mercado. Isto ajudará os veículos a desenvolverem novos serviços e a melhorarem o conteúdo e o formato de suas notícias.

No Manifesto do Engajamento, de Haeg, o usuário reclama:

“Você descaracteriza quem somos nós, perpetuando um estereótipo negativo, sem empatia nem compreensão. O resultado disso é que você está, na verdade, prejudicando nossas comunidades e não ajudando-nos. Com toda a certeza, você não está servindo às nossas necessidades”.

Noutro trecho, o documento diz: “Quando nós [audiências] tentamos nos engajar com você, ninguém nos responde. Às vezes nós nos esforçamos em dar um feedback ou em acrescentar alguma informação ao seu trabalho, e nós nunca sabemos se você realmente aproveitou aquilo que mandamos. Então, por que nós deveríamos nos preocupar com o que você faz?

(…)

Nós somos pessoas reais, com uma série de repertórios e riqueza de experiências e perspectivas, e nós queremos ser plenamente representados em suas reportagens. Nós queremos a informação que irá nos ajudar a tomar decisões sobre questões que irão impactar nossas vidas e nossas comunidades.

Enquanto isso, muito francamente, nós não iremos gastar nosso dinheiro num produto que não tem valor para nós.”

É curioso notar que a o entendimento que os jornalistas têm a respeito do público nem sempre corresponde à perspectiva da empresa jornalística. San Martín notou que, enquanto os leitores são uma espécie de “mal necessário” e de baixo valor intelectual na redação, o departamento comercial, circulação, gerência de produto e mesmo áreas de apoio os veem como consumidores, potenciais provedores de receita. Assim, estas pessoas devem ser ouvidas e atendidas, para que escolham o nosso produto e não a concorrência. Isto não é novidade. O que se torna insustentável é a disparidade entre as diferentes formas de conceber o público em distintos setores de uma empresa de mídia.

Mas o que deve mudar? E como?

Volume x Valor

Um caminho para diminuir as diferenças entre as formas como cada departamento de uma empresa de mídia entende o público tem sido ensinar os jornalistas a acompanhar os resultados numéricos de seus trabalhos através de analytics.

As métricas digitais, no entanto, servem para posicionar um produto no mercado publicitário, cuja receita já não é suficiente para a indústria editorial. Inevitavelmente, medições quantitativas reforçam a lógica das massas, onde o público só passa a ter alguma relevância para a empresa à medida em que for abundante. É Jarvis, novamente, quem alerta para a necessária substituição de uma lógica de volume por uma lógica de valor na estratégia dos produtos.

Serão os analytics, portanto, suficientes para os jornalistas conhecerem e, sobretudo, se aproximarem do público? Brandel afirma que as métricas ajudam a mostrar tendências de comportamento e a tomar decisões — sempre e quando forem dignas de confiança, já que as possibilidades de fraude na contagem de cliques, views, seguidores, compartilhamentos e de outras medidas quantitativas são infinitas.

Por outro lado, acesso não é o mesmo que leitura, assim como um seguidor não é o mesmo que um admirador. A escritora Marilynne Robinson, citada por Brandel, compara o contribuinte a um cidadão. Ambos papéis podem ser desempenhados pela mesma pessoa, mas em cada um deles serão usadas medidas diferentes de análise. Enquanto o usuário for apenas o contribuinte (o pageview, o clique, o follower) ele jamais chegará a ser um cidadão (com desejos, angústias, bagagens e desafios). E o jornalismo se construiu para falar com o cidadão, bem além do contribuinte.

No universo do engajamento com as audiências, a compreensão das métricas pelos jornalistas vem só depois do entendimento de uma missão decorrente da mudança do mindset profissional. O mindset a ser removido é aquele que o jornalista presume saber mais que seus leitores/espectadores a respeito de qualquer assunto. Além disso, o jornalista reconhece que cada indivíduo é especialista em seus próprios interesses e em suas próprias comunidades. Isso demanda um exercício de humildade que dignifica o ser humano.

Cultura do Membership: Rentabilizando o Engajamento

Quando Jay Rosen, da City University of New York, descreve as características de um projeto de associação (membership) robusto, ele enfatiza a capacidade de os profissionais de mídia agirem com humildade, se dispondo a experimentar novas práticas e, sobretudo, admitindo que têm o que aprender com as audiências.

Não é à toa que Rosen vincula a humildade do jornalista ao mindset necessário para a adoção de um modelo de negócio baseado em associação. Convidar o usuário para ser um associado ao veículo implica em abrir o canal de diálogo com ele. Ao dialogar de forma particular ou em pequenos grupos, o veículo rompe o tratamento massivo destinado ao público e desenvolve uma real valorização daquele indivíduo. A resposta a este estímulo tende a ser um aumento de 56% na disposição em assinar uma newsletter e uma probabilidade de associação mediante pagamento de duas a cinco vezes maior do que a contratação de assinaturas.

Se a empresa ainda tem boa parte de seu faturamento associado à publicidade, o engajamento, a fidelização e a retenção do público qualifica a audiência numa espécie de atenção premium, a quem patrocinadores e anunciantes verão sentido em pagar mais para alcançar.

São possibilidades como estas que se busca desenvolver quando o foco é o engajamento entre redações e audiências: menos click-baits, menos foco em ressentimentos e rivalidades. O objetivo é um jornalismo propositivo a partir das relações da “vida real”, como afirma a estrategista em engajamento Bridget Thoreson, com laços duradouros, mútuos e que geram comprometimento em todas as partes envolvidas. Uma visão assim vem de fora e vai além das quatro paredes da redação.

De volta às raízes

Tomando de empréstimo a definição do American Press Institute sobre qual é a função do jornalismo na atualidade, entende-se de que o fornecimento de informações deve estar atrelado à demanda dos cidadãos, para que possam tomar as melhores decisões possíveis a respeito de suas próprias vidas, das comunidades e sociedades onde vivem, dos governos que elegem. Ou seja, é o leitor/espectador — e não o jornalista nem a fonte — quem está na raiz do processo.

Entretanto, Brandel lembra que o trabalho editorial começa com editores decidindo quais são as demandas das audiências. Noutras palavras, as coisas já começam desencontradas. Por mais óbvia, simples e repetitiva que seja esta etapa do processo jornalístico, é nela que podem residir muitos problemas — e talvez soluções — da crise de representatividade que os produtos editoriais enfrentam hoje entre a população.

Nesta pesquisa de doutorado com 650 usuários de redes sociais no Brasil em 2018, mais de 70% disseram que não se sentem representados pela maioria das notícias. Noutro estudo, Donsbach observou em 2014 que o trabalho dos jornalistas realmente não irá representar a população, pois estes profissionais formam um grupo “compactamente coeso, com elevado grau de homogeneidade, hermético e refratário ao que vem de fora”.

Sentido de Serviço

Não resta dúvida, portanto, que qualquer movimento de engajamento entre veículos e audiências depende de uma transformação estrutural na cultura das redações. O primeiro passo para esta mudança é recuperar o sentido de serviçoentre os jornalistas. O fluxo da informação na comunicação de massas é hierárquico e, nele, o produtor de conteúdo é quem assume o controle do jogo. Associando este fator ao acesso privilegiado a fontes e a um poder de fala restrito, os empregados de empresas jornalísticas desenvolveram uma identidade soberana em relação a outros setores da sociedade e até mesmo da própria comunicação.

Atualmente, dentro de uma cultura de redes, o modelo de comunicação de massas perde o sentido, pois o poder de fala é compartilhado, o acesso a fontes é irrestrito e o fluxo de informações é pluridirecional. Ou seja, não há mais uma hierarquia obrigatória que posiciona o jornalista acima ou abaixo de qualquer outro ator social.

Ciente dessa horizontalização da comunicação, o público sacia sua demanda por informações através de inúmeros provedores. Nem sempre jornalísticos, estes produtos digitais absorvem a atenção antes dirigida a um veículo editorial, dialoga com a população e atende a suas necessidades particulares.

Ao comparar-se com tais fontes digitais de informação (que, muitas vezes, é o próprio público que se informa, entre pares), é comum o jornalista apontar a ausência de credibilidade, de tradição, a falta de cuidado com o texto e mesmo uma formatação visual inferior. Estes são elementos inegáveis de qualidade editorial, mas não são mais decisivos na hora de o público escolher qual informação irá consumir.

Até mesmo as polêmicas fake news, que tão convenientemente foram adotadas como argumento a favor das empresas de mídia, já não representam uma preocupação para quem consome notícias online. Segundo o estudo do Reuters Institute, os millennials consideram as fake news apenas como um incômodo com o qual já sabem lidar, ao invés de verem nelas uma ameaça à democracia.

Olhar o jornalismo de fora, assumindo a perspectiva de um indivíduo comum, permite entender que a crise dos veículos pode ser enfrentada por um caminho muito mais simples: o serviço e a humanização, que são valores que estão na base do engajamento.

O sentido de serviço se conquista ao entender que servir à comunidade é a razão de existir das redações e dos jornalistas de modo amplo. A humanização é o método, a tônica das ações que irão nortear a atividade destes profissionais.

Não se trata de limitar o jornalismo a uma atividade filantrópica. Inclusive, para integrar o objetivo de servir com humanização à natureza comercial dos veículos, cresce a adoção de modelos de negócio de associação, em substituição às assinaturas.

Sistema de Associação

De acordo com o projeto The Membership Puzzle, os sistemas de associação estão diretamente relacionados à tomada de decisões em conjunto com os membros (usuários) de um veículo, assim como a participação do público em processos de co-produção editorial. Eventos, pesquisas, mentorings e outros tipos de diálogos são centrais para o modelo de associação ganhar vida no jornalismo. Os desafios, no entanto, já foram mapeados.

Ao entrevistar 100 empregados de veículos que trabalham com objetivos de engajar as audiências, a Hearken descobriu que as principais barreiras enfrentadas pelas empresas são os recursos limitados, a logística dos diálogos e os processos editoriais, a dificuldade de os líderes de redações não entenderem o valor de cultivar este engajamento e as resistências políticas e culturais da mídia.

Não cultivar uma relação próxima com as audiências, no entanto, não impede a redação apenas de adotar o modelo de negócios de associação. A falta de diálogo entre jornalistas e público leva à quebra da confiança no veículo, à perda de relevância do conteúdo e de apoio financeiro, ao desempoderamento e à falta de representatividade da imprensa nas comunidades e, em última instância, ao crescimento do autoritarismo na sociedade.

Os ganhos na adoção de estratégias de engajamento com a audiência, portanto, atendem a um amplo leque de objetivos de uma empresa jornalística: do cumprimento da função social do jornalismo à geração de receita. De uma forma ou outra, o crescimento é real, mas é diferente do que a mídia de massa se acostumou a entender como êxito.

John West, gerente de desenvolvimento da Quartz, explica que o crescimento esperado de um veículo que aposte no relacionamento recíproco entre usuários e redação pode ser lento. Os números de seguidores em redes sociais e de pageviews não serão impactados magicamente. “Não seria um crescimento grande, mas seria um crescimento profundo: menos usuários, mas mais lealdade e impacto em suas vidas.”

Quando se fala em “crescimento profundo”, não se trata apenas de um pequeno, sólido e fiel grupo de membros, mas de um crescimento de médio a longo prazo, de tarefas diárias operadas pelo capital humano das redações e não meramente por máquinas. O investimento das empresas, portanto, é tão significativo e necessário quanto a conquista da atenção e do dinheiro do usuário.

Entre tantos assuntos que rondam o cotidiano jornalístico, as fakes news surgem com frequência entre os mais debatidos. No meio, há uma preocupação lógica com os problemas que as informações falsas causam à sociedade. Afinal, se é função da mídia deixar o público bem informado, a disseminação de mentiras é claramente um obstáculo a este propósito final.

Ao entrar de cabeça na luta contra a desinformação, no entanto, é possível esquecer de analisar a questão em si, suas implicações, a gravidade do problema e, principalmente, o papel que o jornalista pode exercer. A solução do fact-checking” parece beirar a unanimidade entre profissionais da comunicação, podendo realmente ser boa para expor uma mentira evidente antes que tome grandes proporções. Mas há considerações importantes a serem feitas relativas a esta prática, inclusive ao olhar para a sociedade, com quem o jornalista deve dialogar e perceber como boa parte dela enxerga a questão.


Dados concretos e oficiais sobre um determinado assunto nos ajudam a guiar, mas também podem ser enganosos e contar apenas meias verdades.

Dado que no amplo e inflamado debate público dos anos recentes encontramos não apenas informações deliberadamente mentirosas, mas também distorções de fatos verdadeiros e dados descontextualizados, aplicar uma medida única e definitiva para o problema não é algo muito fácil, para não dizer impossível.

A atuação dos fact-checkers oferece uma alternativa à exposição de notícias falsas. O problema, no entanto, está muitas vezes em definir o que é verdadeiro. Certamente há questões objetivas facilmente identificáveis, mas em muitos outros casos a fronteira entre verdade e mentira não será tão clara. Dados concretos e oficiais sobre um determinado assunto nos ajudam a guiar, mas também podem ser enganosos e contar apenas meias verdades. O falso consenso ou mera opinião também podem oferecer uma interpretação parcial do mundo ao nosso redor, permitindo que enquadremos como mentira algo que talvez não esteja fechado para o debate.

É certo que, em um mercado aberto, a checagem de fatos tem seu lugar e um público consumidor. Mas institucionalizar grupos de checadores de notícias como controladores oficiais da verdade pode ser um risco para a livre circulação de informações.

Ao se colocar em uma posição de infalibilidade, muitas empresas de mídia se fecham para a autorreflexão e passam a ver na sociedade um obstáculo à realização de seu propósito maior. Parte do descrédito midiático resulta da desconexão com o público, o que é reforçado por seu posicionamento de detentora oficial da verdade. Uma vez que as redes sociais amplificaram as vozes da crítica e do questionamento, o jornalismo oficial simplesmente perdeu o monopólio da comunicação.

É preciso, portanto, questionar sobre o valor gerado pela checagem de notícias, dado que no atual momento há ampla circulação de informações, opiniões e conteúdo de entretenimento. Ao atuar apenas de forma reativa, revisando e corrigindo aquilo que é divulgado por tantos outros, o jornalismo gera pouco valor para si mesmo.

É curioso pensar em crise no jornalismo em um momento de tanta difusão de conteúdo. Mesmo empresas cujo produto nada tem a ver com informação oferecem conteúdo que agrega conhecimento ao seu público e gera engajamento com a marca. Diversas pessoas qualificadas trespassam o cada vez mais frágil filtro jornalístico para difundir nas redes suas opiniões e visões de mundo. Há valor sendo criado em todo canto para pessoas que buscam se distrair, se informar, conhecer novas ideias e ouvir histórias cativantes. Como competir com isso apenas checando um limitado número de notícias que correm nos meios mais diversos?

O funcionamento do mercado mostra que produtos e serviços ruins são deixados de lado e superados, não por uma atitude limitadora de órgãos públicos ou entidades setoriais, mas pela concorrência que força a melhoria.

A discussão que deveria rondar o jornalismo acerca do fenômeno das fake news está limitada. Não se trata apenas de mostrar a verdade e a mentira que rondam a comunicação de massa que hoje existe e, portanto, de controlar e regular o que está chegando aos ouvidos do público. Este posicionamento ignora o potencial do jornalismo, cujo poder reside não apenas em dar informação ao público, mas em ajudá-lo a compreender o mundo a sua volta.

Ainda que em termos gerais, o funcionamento do mercado mostra que produtos e serviços ruins são deixados de lado e superados, não por uma atitude limitadora de órgãos públicos ou entidades setoriais, mas pela concorrência que força a melhoria. O mercado midiático possui suas particularidades e, muitas vezes, a desinformação conta com forte apelo humano. Ainda assim, investigar, descobrir informações relevantes e produzir conteúdo de qualidade, de verdadeira qualidade – o que é o trabalho do jornalista -, pode contribuir mais para o esclarecimento do que se passa ao nosso entorno no atual e confuso cenário de debate público, do que simplesmente caçar mentiras produzidas.

O problema da desinformação não é novo; ao contrário, existe desde que o mundo é mundo e continuará existindo enquanto o ser humano for humano. A novidade são as novas tecnologias, que permitem uma disseminação maior e mais veloz da informação. Mas esta é uma via de mão dupla, pois se a mentira pode ser compartilhada com grande facilidade, velocidade e alcance, o mesmo serve para a verdade, para o conteúdo de qualidade.


A retomada da credibilidade do jornalismo, no entanto, não passa apenas pela geração de conteúdo e opinião de qualidade, que muitas vezes é apenas aquilo que os próprios jornalistas acham relevante e acreditam estar correto. Parte importante do descrédito midiático se deve à falta de contato entre jornalistas e o público, que não mais enxerga seus valores refletidos nos jornais, nas rádios e televisões. Quando há esta desconexão, o diálogo é perdido e o jornalista fala apenas para si mesmo.

Colocar o jornalismo de volta a sua posição de destaque por meio do aprimoramento do conteúdo que distribui não é solução definitiva para o problema da desinformação. Não é possível dissipar e ordenar o caos informativo dos tempos atuais, mas permitir que o público se guie neste cenário é algo que está nas mãos do jornalista, desde que ele esteja disposto a criar e oferecer um tipo de conteúdo de real valor.

A retomada da credibilidade do jornalismo, no entanto, não passa apenas pela geração de conteúdo e opinião de qualidade, que muitas vezes é apenas aquilo que os próprios jornalistas acham relevante e acreditam estar correto. Parte importante do descrédito midiático se deve à falta de contato entre jornalistas e o público, que não mais enxerga seus valores refletidos nos jornais, nas rádios e televisões. Quando há esta desconexão, o diálogo é perdido e o jornalista fala apenas para si mesmo. A realidade é que a internet quebrou o intermédio da mídia, dando à população um poder sem precedente de buscar diversas fontes de informação e de expressar aquilo que pensa. O jornalismo precisa dos ouvidos tanto quanto precisa da boca. E ser checado pela opinião pública é essencial para que não se perca em sua própria bolha.

Mais do que uma tutela midiática ou de poderes públicos com capacidade regulatória, a população precisa também de liberdade para discutir e, portanto, para pensar.

É possível acreditar que a circulação de informações incorretas e inverídicas levam a um empobrecimento das crenças populares, ou ainda a um risco à democracia. A verdade é que o aumento da circulação de notícias e opiniões também provoca um amadurecimento da população em sua busca por compreender a realidade. Certo conflito, como acontece no próprio processo dialético do discurso, estimula o raciocínio ao contrapor, com argumentos, qualquer tese desenvolvida, filtrando o conhecimento e o aproximando da verdade.

Portanto, mais do que uma tutela midiática ou de poderes públicos com capacidade regulatória, a população precisa também de liberdade para discutir e, portanto, para pensar. Não se trata de achar que regulações e controles não são necessários em sociedade. A mentira descarada, quando criada para difamar, enganar e manipular, precisa ser exposta como tal. Mas a luta contra a desinformação pode também ser positiva ao ofertar conteúdo de alta relevância e grande profundidade intelectual. No fundo, tal discussão diz respeito às pessoas, que formam suas opiniões com base nas informações que circulam por todos os canais. Se a mídia puder dialogar com o público e contribuir com o bom conteúdo que é capaz de produzir, sua função já estará sendo cumprida e o debate público se tornará ainda melhor.

Por Bruna Bariani*

Não é de hoje que sabemos que nosso público não parece muito disposto a colocar a mão no bolso para ler o que escrevemos. Mas calma, caro colega jornalista: a coisa fica pior. O percentual de pessoas que correm na direção oposta de qualquer notícia aumenta. Neste contexto, o termo “news avoiders” soa como um soco no estômago e no ego para nós, profissionais da imprensa. Não nos querem nem de graça! Mas como canja de galinha e humildade não costumam fazer mal a ninguém, é preciso esmiuçar de cabeça baixa o que estamos fazendo de errado.

O Reuters Institute constatou que, em dois anos, o percentual de pessoas que evitam ativamente as notícias aumentou em 3% e o número de pessoas dispostas a pagar por conteúdo permaneceu estável desde 2013, em 11%, em nove países. Nos EUA, o cenário é um pouco melhor, mas a quantidade de pessoas dispostas a pagar por notícias é a mesma desde 2017: apenas 16%.

Imediatismo e hedonismo são intrínsecos a uma geração que tem diversos nomes complicados para problemas bastante simples, como baixa tolerância à frustração.

Quando indagados, estes “evitadores de notícia” nos deram dois motivos principais para torcerem o nariz ao nosso produto: 58% afirmaram que consumir notícias tem impacto negativo no humor, seguidos por 40% que admitiram um sentimento de impotência diante daquilo que leem. Tais justificativas suscitam diversos questionamentos e creio ser válido recorrer à psicologia e à sociologia para tentar entendê-las.

Nas primeiras décadas do século passado Freud, pai da Psicanálise, reconhecia no homem a força do “princípio do prazer” que, em síntese, tratava da busca instintiva por aquilo que nos dá prazer e a evitação do que nos causa desprazer. Em tempos de geração Y, millennials, homo smartphonicos e cia, talvez Freud nunca tenha sido tão atual: imediatismo e hedonismo são intrínsecos a uma geração que tem diversos nomes complicados para problemas bastante simples, como baixa tolerância à frustração.

Estaríamos, mais do que nunca, sendo regidos pelo princípio freudiano do prazer? Pode ser. Isso tem lá sua lógica psicanalítica, mas me arrisco a dizer que o buraco é mais embaixo. Se lançarmos luz à sociologia, talvez possamos , humildemente, dialogar com Zygmunt Bauman que denominou nossa condição de “modernidade líquida”.

Para Bauman, a sociedade pós-moderna, líquida, caracteriza-se por um tempo sem ilusões. A época anterior à atual também desmontrava a realidade herdada, mas com o objetivo de torná-la melhor e então novamente sólida; por isso o autor a denominou “modernidade sólida”. Na contemporaneidade, nada é capaz de permanecer; tudo é líquido: nós destruímos e não reconstruímos nada no lugar.

Se trouxermos este paradigma para nosso trabalho como imprensa e ousarmos ser suficientemente fortes e humildes, talvez possamos reconhecer que ajudamos a que não sobrasse pedra sobre pedra: instituições, referências, crenças, poderes públicos, empresas privadas etc. Algumas destas realidades precisavam, de fato, escorrer pelo ralo de nossas redações para que fossem renovadas. Mas o que construímos no lugar delas?

Na nossa edição, reservamos alguns caracteres para contar o que está sendo feito, ou melhor, construído no lugar? No nosso editorial reservamos um espaço para empoderar o nosso leitor que, antes de tudo e de mais nada é um cidadão?

Lembro-me quando ouvi, ainda na faculdade, o famoso jargão jornalístico “bad news are good news”. Talvez esta lei tenha expirado. Talvez ela fosse válida na época em que as notícias tinham data e hora para entrar e sair da casa das pessoas: o jornal das 20h, o carteiro que entregava a revista semanal no domingo, o rapaz que jogava o jornal impresso na porta de casa e que abríamos na hora do café e fechávamos após o último gole.

Hoje a notícia não pede mais licença: a TV não desliga, a informação vem no meio da programação musical, os aplicativos de notícia enviam constantes alertas, o grupo de WhatsApp vem recheado de (fake) news que se acumulam durante todo o dia.

Quando as estatísticas apontam que a maior razão das pessoas evitarem notícia é a sensação de desânimo e impotência precisamos, como jornalistas, nos implicar nisso. O mundo não é cor de rosa e, como Ruy Barbosa dizia, devemos ser “os olhos da nação” e retratar com ética o factual. Mas será que, na nossa edição, reservamos alguns caracteres para contar o que está sendo feito, ou melhor, construído no lugar? No nosso editorial reservamos um espaço para empoderar o nosso leitor que, antes de tudo e de mais nada é um cidadão?

Bauman dizia que vivemos buscando soluções individuais para problemas produzidos socialmente e sofridos coletivamente. E o fato é que, como imprensa, só damos informações para o leitor se sentir impotente e deprimido. Estamos falhando. De novo, quem aguenta um mundo tão líquido?

O escritor francês Maurice Blanchot dizia que as respostas são a má sorte das perguntas. Precisamos reconhecer que não temos a resposta para barrar este número crescente de news avoiders que não digerem bem este prato que servimos. Mas se não soubermos as respostas e se tivermos humildade, veremos que ter a boa sorte das perguntas já é um bom começo.

*Jornalista, estudante de Psicologia

por Michael R. Francher*

“Vida longa ao jornalismo de verdade!”

É assim que minha filha, Beth, encerrou um bilhete onde me felicitava pela aposentadoria do meu cargo de editor executivo no Seattle Times. Isso foi em 2008. Naqueles anos eu gastava uma boa parte do meu tempo explorando “O que é o jornalismo de verdade?”. Ou, mais precisamente, “Qual é a verdadeira natureza, a melhor e mais elevada expressão do jornalismo no século 21?”

Trabalhando com o Journalism That Matters e com o Agora Journalism Center, na escola de comunicação da Universidade do Oregon comecei a acreditar que o jornalismo precisa de uma nova filosofia e de um novo enquadramento ético, baseado na ideia de que a confiança do público vem através do engajamento desse público. Vamos chamar isto de “jornalismo engajado”.

Primeiro, sejamos claros quanto ao que queremos dizer com “jornalismo engajado”. Se trata de como o jornalismo e o público podem estar conectados entre si, e como esta conexão afeta o jornalismo e a confiança do público.

O jornalismo passa a ter poucos propósitos se não for acreditado pela população e isso se consegue servindo ao público. Assim, o engajamento entre as pessoas e a confiança delas são inseparáveis na rede mundial de jornalismo digital. Jornalistas engajados começam a se perguntar:

“Como nós podemos ajudar as pessoas a acreditarem umas nas outras?”

Além de representar os interesses públicos, o jornalismo engajado envolve as pessoas como verdadeiras parceiras, permitindo que o jornalismo se torne completo, mais preciso, mais crível e mais significativo.

O falecido Steve Buttry, um dos primeiros editores de jornal a advogarem em prol do que ele chamava “engajamento comunitário”, descreveu isso como a forma de os veículos de imprensa priorizarem a escuta, a participação, a condução e a permissão de conversas que elevem o jornalismo. Ele dizia, “Engajamento é uma aproximação que pode e deve servir para melhorar nosso jornalismo. Isso pode ter alguns benefícios ao marketing, mas o propósito é um jornalismo melhor.”

Jennifer Brandel, CEO da Hearken, diz que “O engajamento acontece quando membros da população reagem às redações, e as redações, por sua vez, reagem à população.” A Hearken trabalha com redações para desenvolver o engajamento como um processo, ao invés de uma prática. “Isto é como uma sequência infinita de feedbacks”, diz Brandel.

Andrew DeVigal, notável presidente do Inovação em Jornalismo e Engajamento Cívico do Agora Journalism Center, marca a diferença entre o engajamento transacional e o engajamento relacional. O engajamento transacional acontece tipicamente em benefício mais significativo de uma das partes, enquanto o engajamento relacional é recíproco.

“O engajamento é um continuum e o público deveria sempre estar no centro desta rede”, diz DeVigal. “A questão que frequentemente esquecemos de perguntar é: Como podemos motivar mais jornalistas (e estudantes de jornalismo) a colocar a comunidade no centro dos seus trabalhos, como podemos ser ouvintes melhores e como podemos entender as necessidades da população de forma mais precisa? Enquanto entendermos o público limitadamente como “audiências” ou como “consumidores”, ao invés de serem também especialistas e parceiros nas comunidades a quem desejamos servir, não deveríamos esperar qualquer confiança das pessoas.

A confiança do público está no coração do engajamento. A confiança que os norte-americanos têm em jornalistas justos, precisos e não enviesados tem experimentado uma queda consistente nas últimas décadas, assim como a confiança do público na maioria das instituições de nosso país também cai. Eu acredito que a forma como fazemos jornalismo, especialmente com a implacável negatividade e a escassez de uma conexão autêntica com a comunidade, contribui para a erosão da confiança.

As confianças que o público tem no jornalismo e na democracia estão conectadas, e eu acredito que nós chegamos a um ponto em que tanto jornalismo quanto democracia estão em risco. A sobrevivência deles requer ação, imaginação e coragem de parte dos jornalistas e do público para promover a busca compartilhada pela verdade e pelo bem comum.

Um bom trabalho – framework para pensar o jornalismo engajado

Uma boa parte dos meus pensamentos sobre o futuro do jornalismo emana do livro “Good Work: When Excellence and Ethics Meet”, escrito por Howard Gardner, Mihaly Csiszentmihalyi e William Damon. Este livro examina o que os profissionais deveriam fazer quando suas indústrias entram em crise, quaisquer que sejam suas profissões. Os autores escolhem o jornalismo como uma profissão a explorar, ainda que o livro tenha sido publicado em 2001, bem antes da crise financeira que o jornalismo vem enfrentando e que se tornou catastrófica em 2008. A definição que eles fazem sobre “crise” é mais ampla do que os imperativos econômicos e incluem preocupações como uma rigidez ortodoxa, necessidades de mudança e expectativas da sociedade, mudanças rápidas e desestabilizantes na tecnologia e perda da fé na viabilidade da profissão.

Os autores dizem, então, que em tempos de incertezas, profissionais conscientes deveriam considerar três questões básicas:

  • Missão – definição das características da profissão na qual eles estão engajados;
  • Padrões – estabelecimento de “melhores práticas” em suas profissões;
  • Identidade – sua integridade e seus valores pessoais

Este ensaio irá explorar como o jornalismo engajado pode encaminhar cada uma destas questões. Ele também traz os “Votos de Engajamento para Jornalistas”, minha própria afirmação pessoal.

Missão do jornalismo engajado – aberto e inclusivo

Historicamente, o serviço público tem sido o imperativo que guia o jornalismo profissional. De acordo com o American Press Institute, a missão do jornalismo tem sido, essencialmente, dividida em:

  1. Fornecer às pessoas informações de que elas necessitam para serem livres e autônomas;
  2. Fornecer às pessoas informações verificadas das quais elas necessitam para tomar melhores decisões a respeito de suas vidas, suas comunidades, suas sociedades e seus governos.

Este propósito se mantém vital e necessário hoje em dia, mas ele não é mais suficiente na era digital; ele não é mais adequado para jornalistas nem para o público. A insuficiência reside na palavra “fornecer”, que deriva de uma limitação tecnológica do passado. Se o jornalismo não existisse atualmente, nós não o criaríamos sob a dificuldades destas limitações.

O jornalismo moderno começa a se profissionalizar durante o Progressismo, no começo dos anos 1900, quando a informação era escassa e o acesso a ela era limitado. As faculdades de jornalismo foram fundadas sob a crença de que a profissão não seria respeitada ou acreditada a menos que fosse ensinada e praticada para convergir com certos padrões de prática e conduta. As associações profissionais nasceram e, com elas, códigos de ética foram desenvolvidos para guiar os trabalhos. Jornalistas eram treinados para ser curadores que decidiam o que era melhor para ser servido ao bem público. Eles se tornaram os gatekeepers na maioria das relações de comunicação one-way.

A Internet abriu os portões com força, alterando fundamentalmente as relações entre jornalistas e público. Existe uma mudança crescente no controle de quem apura, edita e apresenta as notícias para aqueles que as leem, as assistem ou as escutam. A informação está amplamente disponível, permitindo que as pessoas exercitem o seu próprio news judgement. Elas agem cada vez mais como repórteres e editores para si mesmas e para outros, contando suas próprias histórias em suas próprias vozes.

A perda da confiança do público no jornalismo está conectada ao que o jornalista faz e como ele faz. Jornalismo e democracia estão entrelaçados e a profunda perda de confiança nas instituições das nossas sociedades democráticas deveria ser uma preocupação vital para qualquer pessoa que se importe com o jornalismo. É possível dizer que o jornalismo está cumprindo sua tradicional missão se as pessoas estão cada vez mais polarizadas e perdendo a confiança em praticamente todas as instituições democráticas?

A questão fundamental para o jornalismo e a democracia é se a pura busca pela verdade e a deliberação coletiva serão elementos importantes para nossa democracia, ou se a fragmentação e a polarização farão erodir o terreno comum.

Estas dinâmicas políticas e o imperativo para o jornalismo mudar não são exclusivas aos Estados Unidos. No livro “Disrupting Journalism Ethics”, o autor Stephen J. A. Ward diz que “a democracia igualitária, a democracia que busca tanto igualdade quanto liberdade, defende a regra da lei, protege os direitos das minorias diante da intolerância das maiorias e promove o debate respeitoso está em perigo. O ideal é desafiado ao redor de todo o mundo.”

Ward diz que nós precisamos “engajar democraticamente o jornalismo”. E explica: “Nós precisamos de um jeito especial de jornalismo engajado que, claramente, entenda as condições para a democracia igualitária, para florescer e estar preparada para usar os melhores métodos de jornalismo para promover este objetivo político.”

A missão do jornalista precisa ser rearticulada para refletir a interatividade da era digital. Esta nova missão deveria seguir os princípios consistentes da histórica missão de serviço público do jornalismo. Ela também deveria ser prática, reconhecendo a mudança nas relações entre jornalistas e público.

Aqueles que escreveriam uma missão assim poderiam perguntar:

  • Por que a sociedade deveria valorizar e apoiar esta missão?
  • Como o jornalismo pode ser uma rede inclusiva que representa e engaja o público, habilitando jornalistas a agirem como verdadeiros parceiros da população?
  • O que seria diferente se o jornalista visse a construção da confiança do público como algo central em sua missão?  E se a confiança do público fosse vista não apenas em termos de credibilidade jornalística, mas como confiança nos princípios e práticas democráticos, assim como as pessoas acreditam umas nas outras quando elas têm diferentes crenças?
  • Como o jornalismo poderia ajudar as pessoas a acreditarem umas nas outras, inclusive quando elas têm diferentes crenças?

Eu proporia o seguinte como uma possível missão ao jornalismo engajado:

A missão do jornalismo engajado é fazer um jornalismo mais aberto, acessível, colaborativo e participativo ao mesmo tempo em que se mantêm os altos padrões de precisão, justiça, clareza e imparcialidade. O jornalismo engajado é compatível com e promove a missão histórica do jornalismo profissional – o bem público, a autonomia e uma vida melhor para todos.

Padrões de jornalismo engajado – tradição e transformação

A cultura do jornalismo profissional é forte. Muitos jornalistas profissionais consideram a noção de jornalismo engajado como inimaginável, mal-intencionada ou ambas. Eles veem o engajamento como uma militância e não conseguem imaginar o quanto o jornalismo pode engajar o público sem baixar os padrões nem abandonar os princípios centrais de independência e objetividade. Hearken, uma empresa que “ajuda organizações a ouvirem melhor aqueles a quem elas servem e criar relações recíprocas”, estudou 100 adeptos ao jornalismo engajado. Este estudo descobriu que a grande barreira à mudança era “justamente políticas internas e a cultura das redações”.

Ao mesmo tempo, muitas pessoas, especialmente aquelas que sentem que nunca foram bem servidas pelo jornalismo, duvidam que o ele possa ser mais aberto, responsivo e responsável. Elas percebem o jornalismo independente como elitista ou até mesmo como hostil. Muitas pessoas veem o jornalista como alguém que honra a articulação de seus valores éticos circunstancialmente, especialmente o valor central da minimização de danos em seus trabalhos de reportagem. Aqueles que argumentam que o jornalismo precisa de uma mudança fundamental veem os jornalistas mais como um problema do que como uma solução.

Dadas estas atitudes com respeito à profissão, o momento é este e a necessidade é real para uma total rearticulação de valores e ética para guiar e promover o jornalismo engajado. O momento é este, porque os jornalistas têm uma habilidade única de conectar-se com pessoas, e as pessoas têm uma capacidade singular de se conectar com a informação, além de conectarem-se umas com as outras. A necessidade é real porque a situação atual do jornalismo é insustentável. Jornalistas e pessoas irão caminhar juntos, ou o jornalismo e a democracia irão desmoronar.

Quais valores tradicionais ou padrões de jornalismo precisam ser protegidos ou melhorados para que o jornalismo se diferencie em si mesmo das outras formas de comunicação? Como cada um destes padrões ou valores podem ser melhorados pela mudança de paradigma de um modelo distribuidor, de comunicação de mão única para uma perspectiva de engajamento?

Ter clareza sobre estas questões irá ajudar os jornalistas a enxergarem os benefícios e as possibilidades do jornalismo engajado, enquanto navegam pelos riscos. Esta clareza também irá ajudar o público a avaliar a qualidade do jornalismo que eles recebem e a criar formas significativas de contribuir com ele. Jornalistas e público terão, ambos, uma noção melhorada de responsabilidade jornalística e o jornalismo engajado se manterá em sua nova missão de fazer um jornalismo mais aberto, acessível e participativo.

Princípios para o século XXI

Kelly McBride e Tom Rosentiel identificaram esta necessidade no livro que publicaram em 2014, intitulado “The New Ethics of Journalism”. Eles apontam que “No momento em que qualquer pessoa possa fazer jornalismo, será cada vez mais importante que a sua produção seja ética e que a comunidade esteja habilitada a reconhecer e identificar quando o jornalismo é ético e quando não o é.”

No século passado, os códigos de ética para jornalistas profissionais incluíam quatro ideias-chave:

  • Buscar a verdade e noticiá-la
  • Minimizar os danos
  • Ser independente
  • Ser individual e socialmente responsável

McBride e Rosentiel propuseram um novo conjunto de princípios para nortear a atuação dos jornalistas:

  • Procurar a verdade e noticiá-la da forma mais completa possível
  • Ser transparente
  • Ter no engajamento com a comunidade um fim, ao invés de um meio

“A verdade ainda é o maior valor, o primeiro entre tantos”, escreveram McBride e Rosentiel. “Onde antes defendíamos a independência, agora defendemos a transparência. Independência é uma parte do princípio e nós ainda acreditamos que ela é um valor essencial.”

A transparência, escrevem eles, “demanda que o público veja como o jornalismo do futuro é produzido e pede uma abertura que o estimule a uma conversa constante entre jornalistas e cidadãos, redações e comunidades.”

McBride e Rosentiel sugeriram que a ética tradicional de minimização de danos possa ser estendida ao princípio de engajamento com a comunidade. Ao identificar os desafios que vêm pela frente, os autores escrevem: “O jornalismo profissional precisa entender isso mais profundamente: se trata de uma ideia mais complexa de comunidade e da expansão constante do leque de ferramentas que tornam este engajamento possível. Isso requer um novo mindset, novos processos de trabalho e um novo esquema de reportagem”.

Ao argumentar que o jornalismo deve sobreviver para que a democracia sobreviva, eles afirmam: “Se o jornalismo pode realizar esta transformação de ser um serviço que cria e apoia as comunidades ao invés daquele que cria novos produtos, este pode ser nosso melhor investimento para sobreviver.”

O movimento do jornalismo engajado está em bom andamento. Desde a publicação do “The New Ethics of Journalism”, muitos veículos começaram a incorporar o “editor de engajamento” em suas redações e uma nova função tem sido formada ao redor do conceito de engajamento comunitário. Mas o progresso não vem facilmente, em especial quando as organizações ainda questionam o retorno econômico no investimento feito aos esforços para gerar engajamento, e muitos jornalistas questionam se o engajamento enfraquece os valores tradicionais de sua profissão. Isso pode mudar.

O paradoxo da tradição e da transformação

Eu acredito que o progresso demanda a reconciliação de um paradoxo entre a tradição e a transformação. O jornalismo vem sendo testado e desafiado como nunca. Os jornalistas precisam preservar e até mesmo fortalecer suas tradições profissionais de servir o público através de notícias independentes, verdadeiras e informativas, enquanto se transformam radicalmente para serem mais inclusivos, democráticos, interdependentes e autenticamente responsáveis.

Claramente existe uma tensão entre a tradição e a transformação, mas essa tensão sempre existiu nos valores centrais do jornalismo profissional. Por exemplo, jornalistas sempre lutaram contra as tensões entre noticiar histórias em suas totalidades ou ocultar detalhes que poderiam prejudicar alguém sem necessidade, como não publicar a identidade de uma vítima de estupro; ou ainda, ser independente em relação às fontes, ou cooperar com a execução da lei, se o momento da história dificultar uma investigação.

Ao mesmo tempo em que se esforça para ser neutro e objetivo no seu trabalho de reportagem, o jornalista não pode agir como um robô. Sem dúvidas, um dos princípios centrais do jornalismo é um ato de consciência e de caráter. Uma abordagem mais engajada ao jornalismo ajudaria jornalistas a entender melhor e a respeitar o público a enxergar e avaliar estas tensões, enquanto também ajudaria esta audiência a entender porque a avaliação do jornalista valoriza o jeito com que eles fazem a reportagem.

Tradição e transformação podem ser contraditórias entre si, mas o jornalismo engajado pode defender ambas de uma só vez. O conceito vem do livro “Built to Last”, escrito por Jim Collins, que afirma rejeitar a tirania do “ou” e aceitar a genialidade do “e”. Collins diz que uma empresa verdadeiramente visionária considera ambos ao mesmo tempo. Ela preserva uma ideologia ou um objetivo central apaixonado e estimula o progresso ou a transformação de todo o resto:

  • “Continuidade e mudança
  • Conservadorismo e progresso,
  • Estabilidade e revolução,
  • Prevenção e caos,
  • Legado e renovação,
  • Fundamentos e loucura,
  • E, e, e.”

A escolha do jornalismo não pode ser entre a defesa de princípios tradicionais OU a construção de credibilidade pública; também não podemos escolher entre um jornalismo e uma democracia através do engajamento com o público. Para “salvar” o jornalismo, seus praticantes precisam criar radicalmente novas formas de se conectar a ele, aprender e noticiar sobre todas as pessoas. Eles precisam abrir seus corações e mentes às ideias de transformação. Criar o “e”.

Uma forma de defender a tradição e a transformação simultaneamente é explorar os princípios estabelecidos de uma perspectiva mais engajada ou interativa. Os exemplos emergem de várias convenções do Journalism That Matters e do Agora Journalism Center:

Ser Independente E Ser Interdependente

O jornalismo precisa ser independente de qualquer outro interesse que não seja o interesse público de proteger sua integridade de pressões ou influências coercitivas. A interdependência é um valor ético do jornalismo engajado que habilita a abertura, a conexão honesta entre os jornalistas e o público ao qual eles servem. Isso significa reconhecer que a habilidade jornalística de florescer [publicar] está diretamente vinculada ao florescimento de comunidades e da sociedade civil. Isto também significa reconhecer que o jornalismo de qualidade não pode mais ser pensado como aquilo que os jornalistas podem/devem produzir a despeito do público. Reconciliar estes valores de independência e de interdependência demanda um salto de fé, com esperança, coragem e convicção. O benefício potencial é o aprendizado coletivo com o aumento do diálogo e das ponderações.

Criar jornalismo para as pessoas E criar jornalismo com as pessoas

O jornalismo engajado é feito por pessoas; isso também significa que é feito com pessoas. Ele considera o público como parceiro ativo na investigação mútua que apoia os propósitos democráticos da atividade. Esse tipo de jornalismo participativo vai além da mera transparência e dá ao público oportunidades significativas para se envolver em todos os aspectos do processo editorial. As pessoas que são motivadas e têm a oportunidade de ser parte da produção jornalística são mais propensas a acreditar nele.

Dizer a verdade ao poder E dizer a verdade para empoderar

O jornalismo engajado carrega a responsabilidade do poder. Ele também traz o potencial de ajudar a empoderar as pessoas, individual e coletivamente, para entender e realizar os seus maiores desejos e aspirações. Ele “dá voz a quem não tem voz”, enquanto ajuda pessoas a encontrarem e usarem suas próprias vozes. O jornalismo engajado  valoriza a neutralidade jornalística, a transparência e a responsabilidade como partes constituintes de sua verdadeira disciplina, mas também defende os princípios e as práticas democráticos.

Revelar o que está errado E iluminar o que é possível

O jornalismo engajado é mais crível quando noticia possibilidades, ao invés de apenas falar sobre problemas. A negatividade implacável das notícias e a forma como elas se enfocam pontualmente nos conflitos e no confronto distorcem a realidade e acabam não inspirando honestidade, compreensão e nem uma perspectiva útil. Jornalistas engajados deveriam sempre perguntar ao seu trabalho: “Que bem isto pode fazer?”.

Encontrando o “E”

Finalmente, uma observação sobre o cuidado a respeito dos valores estabelecidos, dos padrões e da ética do jornalismo engajado. A forma como você os aplica pode fazer a diferença.

Stephen Ward alerta que o público deveria participar no desenvolvimento do que ele chama “ética aberta” ou “ética pública-participativa”. Ward diz cautelosamente, “Uma abordagem próxima (por e para jornalistas) apenas confirma o ceticismo do público de que o jornalista não está disposto a ser transparente sobre sua ética e, consequentemente, não será confiável.” Uma aproximação de abertura “constrói uma alfabetização ética ao mesmo tempo em que aumenta a confiança do público em um jornalismo de qualidade. Isso incentiva a transparência e a responsabilidade da mídia.”

Wards também sugere que a ética do jornalismo democraticamente engajado deveria guiar todos aqueles que se comunicam em uma esfera pública. “Se você está se comunicando com o público, você – não importa quem você seja – deve atuar com base a métodos de responsabilidade concreta e efetiva com a sua audiência”, diz. 

Algumas das questões que Ward propõe são: Como uma aproximação “aberta” poderia desenvolver novos padrões a serem adotados pelo jornalismo? Quais novas práticas e normas apoiariam o público? Se o público publica, contribui ou compartilha conteúdos, é uma responsabilidade dele ser honesto e confiável?

O alerta de Ward me faz lembrar de um encontro que o Agora Journalism Center e o Journalism That Matters promoveram em Portland, Oregon. Este encontro foi chamado “Experience Engagement: How communities and journalism can thrive together.” Os não-jornalistas presentes no encontro trouxeram suas advertências aos jornalistas: “Nada sobre nós sem nós.” Essa é uma frase que tem uma longa história na comunidade internacional de pessoas com deficiência como expressão de luta contra a impotência.

No contexto jornalístico, esta frase fala sobre a realidade daquelas pessoas que nunca tiveram controle sobre o uso que elas mesmas fazem da mídia. O engajamento é essencial ao jornalismo para que ele tenha valor na vida delas e isso será melhor se a atividade for inclusiva e tocar o conhecimento coletivo de uma comunidade. As pessoas, agora, têm uma oportunidade genuína de ajudar a formatar o futuro do jornalismo, além de terem a responsabilidade por fazê-lo.

A identidade do jornalismo engajado: os criadores de pontes

Os autores de “Good Work” descrevem identidade como “um senso holístico do background de uma pessoa, seus traços e valores (…) um sentimento profundamente convicto sobre quem essa pessoa é e o que importa na maior parte de sua existência como trabalhadora, cidadã e como ser humano.”

“Um elemento central da identidade é a moral – as pessoas devem determinar para si mesmas quais limites elas não irão cruzar e quais irão. Porém, um senso de identidade também inclui traços de personalidade, motivação, forças e fraquezas intelectuais, gostos e desgostos pessoais… A identidade de cada pessoa é formada por um amálgama de forças, incluindo a história familiar, religiões e crenças ideológicas, associações comunitárias e experiências individualmente idiossincráticas.”

Walter Williams viu a importância da identidade quando fundou a primeira escola de jornalismo, em 1908. Ele instigou seus estudantes a pensar fortemente sobre os padrões e os comportamentos do jornalismo e exigiu que eles escrevessem uma declaração pessoal da qual eles se tornariam responsáveis. Em 1914, ele escreveu seus próprios votos, intitulados “The Journalist’s Creed” (Os votos do jornalista). Eles começam assim:

“Eu acredito no profissional de jornalismo. Eu acredito que o jornal público é uma verdade pública; que todos que estão conectados através dela possam medir o total de suas responsabilidades como curadores para o público; que a aceitação de um serviço inferior àquele serviço que o público espera é uma traição à sua confiança (…) O teste supremo do bom jornalismo é a medida do seu serviço público.

Já passou mais de um século que Williams escreveu os seus votos, em 1914. Algumas partes de seu linguajar ficaram antiquadas, mas a primazia do serviço público tem se mantido no coração do jornalismo. Os princípios centrais que os votos têm amparado são: clareza, precisão, justiça, verdade e independência. Por muitas décadas, isto guiou gerações de jornalistas, publishers e outros profissionais associados ao jornalismo. Isto também serviu como uma declaração de como o público poderia entender o papel da imprensa para avaliar sua performance.

As suas palavras me guiaram por mais de 40 anos, desde a primeira vez que as li, em um jornal da minha turma do ensino médio, até minha aposentadoria no The Seattle Times, onde atuei por 20 anos como editor executivo. Muitas vezes citei estes votos nas minhas colunas e nos meus discursos, mas fui entendendo o documento de uma forma diferente, sobretudo depois que me aposentei e o li novamente, agora como pesquisador do Reynolds Journalism Institute na University of Missouri School of Journalism.

Minha parceira fez a seguinte pergunta: “O que são os votos do jornalismo para o Século XXI?” Ao explorar esta questão, eu passei a entender que os votos  eram muito mais sobre a identidade do que sobre os padrões de produção do jornalista. Muitos dos aspectos ali identificados falam sobre os modelos de conduta através do uso de palavras como útil, tolerante, construtivo, autocontrolado, paciente, respeitoso, destemido e humano.

Os votos do jornalista falavam muito menos sobre o “como” do jornalismo e bem mais sobre o “quem”. Ou seja, era sobre identidade.

Os autores de Good Word dizem que o bom trabalho acontece quando a excelência e a ética se encontram, mesmo em tempos difíceis. Eles explicam que isso “não é necessariamente difícil, em termos de criar uma rotina agradável, mas difícil em termos das habilidades das pessoas em conhecerem a coisa certa a ser feita e que se mantenham nesta profissão.”

Claramente, estes são tempos difíceis para jornalistas veteranos assim como para jornalistas em potencial. A profissão está em risco e sob ataque como nunca esteve antes. Apesar disso, quando eu falo com estudantes de jornalismo e com aqueles que já atuam na área, encontro um novo sentido de determinação. A crise é cada vez mais percebida como uma nova realidade para que novas possibilidades floresçam. Existe uma nova urgência a respeito da necessidade de diversificar as vozes dentro do jornalismo e, somente assim, a profissão refletirá todas as pessoas.

Assim como os primeiros jornalistas profissionais de mais de um século atrás, os profissionais de hoje e de amanhã têm a oportunidade de criar um novo tipo de jornalismo. Para serem bem-sucedidos, esses jornalistas precisam de um senso de identidade muito claro, além de uma compreensão daquilo que os leva a fazer este trabalho. Mais especificamente: o que leva alguém a fazer jornalismo engajado?

Acho que ouvi a resposta a esta pergunta recentemente, numa convenção no Agora Center, sobre a ética do engajamento. Os participantes formulavam as características de um engajamento de sucesso, muitas das quais se encaixavam perfeitamente na categoria de “identidade”. Sob a característica do “Ser Humano”, “eles incluíam coisas como autenticidade, partilha, consciência, respeito, reconhecimento mútuo de humanidade, interconexão, reciprocidade e vulnerabilidade.

Talvez o sentido que melhor retratasse a identidade do jornalismo engajado era “Nós somos criadores de pontes”.

Jornalismo engajado: um compromisso pessoal

No melhor espírito Walter Williams, e com profunda humildade, eu ofereço uma declaração sobre o meu compromisso pessoal com o jornalismo engajado. Um “work-in-progress”: isso resume o que eu tenho aprendido com aqueles que trabalharam no The Seattle Times e no Reynolds Journalism Institute, Journalism that Matters, na University of Oregon School of Journalism and Communication e no Agora Journalism Center.

Agradeço nominalmente a Frank Blethen, publisher do Seattle Times; à Peggy Holman, co-fundadora do Journalism That Matters; ao Andrew DeVigal, do Agora Center. Agradeço a todos eles pelo suporte, pela sabedoria e pela inspiração que me deram.

Vida longa ao jornalismo de verdade!

*Michael R. Fancher se aposentou do Seattle Times em 2008, depois de trabalhar por 20 anos como editor executivo e por quase 40 anos como jornalista profissional.
Desde a sua aposentadoria, ele tem mantido suas atividades como professor e em funções administrativas ligadas ao ensino do jornalismo, prioritariamente dedicado à ética no jornalismo e à democracia.
Ele foi colaborador da Missouri School of Journalism entre 2008 e 2009 e ministrou a disciplina de Ética na University of Nevada entre 2011 e 2012. Ele ainda foi diretor interino da University of Oregon’s Turnbull Portland Center e do Agora Center for Journalism Innovation and Civic Engagement, durante 2015 e 2016. Atualmente ele é presidente do board da Washington Coalition for Open Government.
Fancher é graduado em jornalismo pela University of Oregon, possui mestrado em comunicação pela Kansas State University e MBA pela University of Washington.

Copyright
“A ética do jornalismo engajado”, de Michael R. Francher, publicada pela Fourth Estate está licenciado sob a Licença Internacional Creative Commons com Atribuição Não-Comercial e Share Alike 4.0.

Publicado originalmente em: https://www.ethicsofengagedjournalism.org/


No ensaio intitulado A Ética do Jornalismo Engajado, o jornalista Michel R. Francher relembra os princípios da atividade jornalística e cita o criador da primeira escola de jornalismo, em 1908, Walter Williams, para pensar no papel do profissional das redações na atualidade.

Após uma densa reflexão, que se estende da relevância do jornalismo à democracia até a transformação dos paradoxos da atividade em motores da inovação, Francher propõe uma declaração de compromisso para jornalistas. O documento é composto por 12 votos que afirmam a identidade e a missão do jornalista em servir à população por meio da escuta, da colaboração, da honestidade, da parceria, da confiança e de tantos outros valores que constituem pontos nevrálgicos da profissão.

Você já se perguntou se as suas demandas informativas são iguais às do seu público? O que é prioridade para ele: agilidade ou profundidade? Uma linha editorial posicionada ou neutra? O que ele espera do seu veículo para o futuro?

Neste exercício, peça a ajuda de seus usuários para identificar formas de atendê-lo melhor e, por consequência, de aproximá-lo do seu veículo. O material foi pensado para ser aplicado presencialmente e com uma pessoa por vez. Recomendamos que registre o exercício em áudio, vídeo ou que você disponha os cartões na ordem definida pelo participantes sobre uma mesa para, então, tirar uma foto e anexar às suas anotações.

Este framework é uma adaptação do material de pesquisa do projeto The Membership Puzzle, da Universidade de Nova York, liderado pelo Prof. Jay Rosen.

Enquanto crescem os debates sobre o futuro do jornalismo, três correntes da atividade se fortalecem no cenário internacional. São elas: Constructive JournalismListening JournalismDialogue Journalism. Todas têm em comum a centralidade do público no processo editorial e não apenas no fim da cadeia, como receptor, aos moldes do que a maioria dos veículos ainda trabalha.

O protagonismo do usuário na produção de notícias e reportagens não é algo novo, nem mesmo no ambiente digital. Em fevereiro de 2000, o noticiário sul-coreano OhmyNews estremecia setores tradicionais da mídia internacional ao afirmar que every citizen is a reporter. O slogan convidava cidadãos do mundo todo a uma versão do site em inglês — além da original, em alfabeto hangul –, onde se publicava conteúdo enviado por não-jornalistas, mas discutido, selecionado e editado por profissionais baseados numa redação em Seul. A onda se espalhou e diversos veículos — muitos deles, brasileiros como Estadão, G1, O Globo, Terra e iG — criaram suas editorias colaborativas. O fenômeno ficou conhecido como jornalismo cidadão, jornalismo colaborativo ou jornalismo open source.

Constructive Journalism (ou Jornalismo de Soluções)

Quinze anos depois de cada cidadão poder tornar-se um repórter, se usaria pela primeira vez o termo Constructive Journalism, que nada tem a ver com a Teoria Construtivista do jornalismo. Internacionalmente projetada pelos estudos de newsmaking de Gaye Tuchman, o jornalismo construtivista entende que a notícia é sempre uma construção e não um espelho da realidade. Já o Constructive Journalism ficou conhecido como o “jornalismo de soluções”, ou seja, aquele que repudia a negatividade e o sensacionalismo como valores centrais para decidir o que é notícia e prioriza um olhar positivo.

O dinamarquês Ulrik Haagerup, fundador do Constructive Institute e um dos criadores do modelo, explicou no congresso mundial da WAN-IFRA de 2018, em Portugal, que o Constructive Journalism não busca pintar o mundo de cor-de-rosa. Ao contrário, o conteúdo enfoca os graves problemas mundiais como a contaminação dos oceanos pelo plástico, o trabalho escravo, o combustível fóssil, o desflorestamento, as epidemias, a miséria. Mas o trabalho editorial não para na investigação das mazelas. O diferencial do Constructive Journalism é perguntar: E agora? Que soluções estão funcionando noutros lugares e podem ser replicadas aqui? O que podemos fazer para mudar essa triste realidade?

O último relatório do Reuters Institute sobre jornalismo digital, publicado em junho de 2019, chama a atenção para os crescentes índices de fadiga noticiosa. Já são 32% dos participantes que admitem evitar o consumo de notícias. A principal razão é o impacto negativo que elas exercem no estado de ânimo do indivíduo. Se notícia ruim sempre existiu, o que mudou foi o olhar da população diante do noticiário e da vida em sociedade.

A reconstituição das tribos por meio das redes sociais provocou o ressurgimento de uma solidariedade sem fronteiras. O imperativo do hedonismo e a “obrigação em ser feliz” tornaram insuportável o sentimento de impotência que um leitor tem ao saber de uma desgraça pelo jornal. É justamente esse gap que o Jornalismo Construtivo vem preencher, munindo o usuário de caminhos para melhorar o mundo. Como exemplos podemos citar o Upside, do Guardian, o People Fixing the World, da BBC, o Fixes, do New York Times e o Impact, do HuffPost.

Listening Journalism

A segunda corrente de jornalismo que promete evoluir está inserida em uma “cultura da escuta”. Mas não será óbvio dizer que qualquer jornalismo é feito a partir do que o profissional escute de suas fontes, de autoridades e da própria comunidade? O compromisso do Listening Journalism é ouvir ativamente as necessidades de informação que o público tem, assim como o feedback sobre trabalhos já publicados. A escuta, portanto, não acontece apenas durante a produção das reportagens, mas principalmente antes da definição da pauta e depois da publicação.

Entre as técnicas já experimentadas, a bola de neve ajuda a expandir o conhecimento do jornalista sobre e entre uma comunidade. Dennis Anderson, editor executivo do Journal Star, de Illinois, começou conversando com uma pessoa sobre o que ela gostaria de ver no jornal. Ao fim do diálogo, ele pediu que a “entrevistada” indicasse cinco pessoas com quem ele pudesse continuar a conversa. Essas cinco pessoas indicariam, cada uma, outras cinco para serem ouvidas. Assim, a rede cresce exponencialmente, aproximando o jornalista e o veículo de áreas da sociedade que não tinham o menor contato ou interesse pela imprensa até então.


A bola de neve é uma ferramenta metodológica utilizada na pesquisa científica. No diagrama acima, desenhei a aplicação da técnica na minha tese de doutorado, quando usei o snowball para compor minha amostragem, a partir de redes sociais.

Humildade e empatia estão no topo da lista de atributos que o praticante do Listening Journalism precisa ter. Deixar que os indivíduos contem suas histórias é o modo mais simples e verdadeiro de recriar essa ponte entre o jornalismo e a sociedade. O maior desafio, no entanto, está em ouvir os críticos da imprensa, os ex-assinantes e descrentes no veículo para onde o profissional trabalha. Mas é justamente aí que o Listening Journalism pode fazer a diferença.

Além de contribuir para o aumento da geração de receita às empresas de comunicação, o Listening Journalism ajuda a reconstruir a confiança do público no veículo e detecta o real impacto que as publicações têm no dia a dia da população. A análise é de Cole Goins, do American Press Institute, responsável por ancorar uma série de estudos no jornalismo de escuta.

Seja nutrindo um grupo fechado de Facebook, seja promovendo eventos presenciais para a escuta focalizada, o Listening Journalism deve estar presente na rotina das comunidades. Assim funciona em Ohio, no YourVoice, em Nova Jersey, na Carolina do Norte e em Filadélfia por meio do News Voices.

Dialogue Journalism

Além de olhar pro mundo buscando soluções (Construtive Journalism) e de exercitar a escuta como parte da atividade da redação (Listening Journalism), o jornalismo assume uma nova função social: facilitar o diálogo entre a população.

No contexto de uma forte polarização de ideias no cenário político mundial, Eve Pearlman e Jeremy Hay lançaram em 2017, na Califórnia, um serviço de conversas sustentadas por conteúdo jornalístico e mediadas por jornalistas. O Spaceship Media já reuniu grupos de posições frontalmente antagônicas sobre aborto, posse de armas, disputa por terras, imigração e, claro, sobre o governo Trump.

O roteiro de ação do Dialogue Journalism começa em grupos online, fechados, que em alguns casos se expandem para encontros presenciais. A dinâmica consiste na aplicação de 4 perguntas que todos os integrantes devem responder:

  • O que você pensa sobre o grupo oponente?
  • O que você acha que que eles pensam sobre você?
  • O que você gostaria que eles soubessem a seu respeito?
  • O que você gostaria de saber sobre eles?

As respostas dos participantes são mediadas por jornalistas que seguem o debate agregando informações apuradas previamente sobre o tema em questão. As sessões são acompanhadas por profissionais de veículos parceiros, que transformam o conteúdo dos diálogos em material jornalístico e sugestões de pauta.

Dialogue Journalism segue sete princípios:

  1. Construção: mapeamento de temáticas e comunidades em conflito.
  2. Integração: descoberta do que um grupo pensa a respeito do grupo oponente.
  3. Acolhida: organização de eventos ou momentos de conversa entre os dois grupos.
  4. Experiência: criação de oportunidades para jornalistas e patrocinadores encontrarem um público altamente engajado e participativo.
  5. Continuidade: as conversas seguem após os eventos e, nelas, os praticantes do Dialogue Journalism ajudam a manter o respeito entre os debatedores e a fazer com que a interação seja produtiva.
  6. Alimentação: os jornalistas proveem pesquisa e informações apuradas que sustentam as discussões.
  7. Compartilhamento: o Dialogue Journalism funciona em parceria com outros veículos de mídia, que usam o conteúdo das conversas para entender a relevância de certas pautas entre a população.

Como técnica central ou dispositivo auxiliar no processo tradicional de fazer jornalismo, as três modalidades reafirmam o público como a razão principal da existência de qualquer veículo de comunicação. Mais do que reaproximar jornalistas e leitores, ouvintes, usuários, telespectadores, o desafio parece estar na busca por um novo e relevante papel do jornalismo no dia a dia dos indivíduos.