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Credibilidade

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Martin Baron, um ícone do jornalismo norte-americano, diretor do The Boston Globe (2001-2012) e The Washington Post (2012-2021), publicou recentemente um livro importante que ganhou versão em espanhol: “Frente al poder. Trump, Bezos y The Washington Post” (De frente com o poder. Trump, Bezos e o Washington Post, sem edição em português). O livro, oportuno e instigante, põe o dedo em algumas de nossas feridas:

“O jornalismo tem um papel importante em responsabilizar os poderosos, incluindo os políticos, mas isso não significa que tenhamos que ser adversários constantes dos políticos, adversários constantes dos empresários, adversários constantes de qualquer instituição ou de qualquer pessoa com quem não concordemos. De fato, há muitos jornalistas que se comportam como ativistas e nós temos a obrigação de manter nossa independência e nossa objetividade”.

Baron dá uma estocada no ativismo de certa mídia que anda de costas para os fatos e faz a opção ideológica pelo mundo das narrativas. Devemos “manter-nos fiéis aos fatos, exercer o jornalismo com honestidade e integridade, e verificar e contrastar bem as notícias”.

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. Sua força não está na militância, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade e no equilíbrio da sua opinião. A credibilidade não é fruto de um momento. É o somatório de uma longa e transparente coerência.

A sociedade está cansada do clima de radicalização que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo militante. Um denominador comum marca o achismo que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: a politização.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente. Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade. Em tempos de ansiedade digital, crescente e dispersiva, é preciso recuperar o norte da informação bem apurada.  Hoje, mais que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, é preciso resgatar o vigor da informação objetiva.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir, mesmo com a melhor das intenções, certa politização das coberturas. Os desvios não se combatem com o enviesamento informativo, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida.

Baron defende a independência como fundamento da credibilidade. O jornalismo não pode se aliar a partidos políticos. “Nosso único aliado é a verdade”. E faz um forte chamado à coerência: “A mentira é um dos nossos inimigos, mas não o único. Muitos poderosos mentem, mas não podemos cobrá-los se nós não formos especialmente exemplares na boa conduta”.

De fato, não há jornalismo de qualidade sem jornalistas comprometidos com princípios e valores éticos. A credibilidade não admite esquizofrenias morais. É preciso apostar na honestidade, na coerência, na lealdade a princípios e valores fortes. Não se constrói um bom produto editorial sobre a areia movediça do cinismo. “O bom jornalista acredita que a verdade existe, embora seja difícil encontrá-la”. A crise da imprensa é um reflexo da nossa própria crise. Impõe-se, portanto, um frequente exercício de autocrítica pessoal e profissional.

Sem jornais a democracia não funciona. O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos. Sua agenda deve ser determinada por valores perenes: liberdade, dignidade humana, respeito às minorias, promoção da livre-iniciativa, abertura ao contraditório. O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar.

Obter resultados financeiros consistentes produzindo conteúdo noticioso continua sendo um desafio notável para inúmeras empresas de mídia. Os problemas apontados são inúmeros e bem conhecidos: as preferências dos consumidores mudaram, o formato do conteúdo jornalístico não tem mais um grande apelo, estamos perdendo a luta pela atenção para a indústria do entretenimento…

Todos são pontos válidos que, por vezes, geram uma dúvida ainda mais dramática: será que o jornalismo se tornou obsoleto?

Antes de responder essa pergunta, é interessante pensar de onde vem o valor de um determinado produto, já que boa parte do nosso drama deriva disto. Para entender este ponto, proponho olhar para outros mercados que têm muito a ensinar, permitindo uma análise sobre nossa própria situação e para onde podemos ir.

 

Um problema de precificação

Qualquer empresa ou negócio lutará para aumentar a margem de lucro do seu produto. Se esta margem for muito baixa, afinal, talvez nem seja interessante produzi-lo. Neste sentido, os negócios de varejo não se encontram em uma situação muito legal, e o motivo é bem claro: não é possível vender um microondas, uma televisão ou um jogo de panelas por um preço muito mais alto que aquele adquirido pela própria loja, pois o que não falta aos consumidores são opções. Assim, se a empresa X tem o impulso de vender um microondas por duas vezes o seu valor de mercado, a consequência é que ela simplesmente ficará sem clientes, que passarão a comprar na loja Y ou Z por um preço muito mais adequado.

Sem ter, portanto, margem para aumentar o preço dos produtos vendidos, resta às empresas de varejo reduzir seus custos e aumentar sua eficiência para poder vender a preços mais baixos.

Nem todos os outros setores do mercado vivem a mesma situação. A Apple certamente não pode aumentar o preço de seus produtos indefinidamente sem arriscar perder clientes, mas ela – bem como qualquer outra empresa de tecnologia – consegue ter considerável autonomia para definir o quanto eles valem. Uma nova linha de smartphones mais finos, elegantes, com melhor bateria ou uma tela dobrável. Tudo isso são diferenciais sobre a concorrência – e diferenciais que influenciam no quanto uma empresa consegue cobrar por eles.

Quando olhamos para cada mercado separadamente, portanto, vemos duas situações diferentes: uma empresa que revende produtos costuma ter pouca flexibilidade para definir seus preços porque o mercado está saturado de itens iguais ou muito semelhantes. Já uma empresa de tecnologia – e de muitos outros setores – não encontra o mesmo problema porque ela é a única produzindo aquele produto. Sim, há uma boa oferta de smartphones por aí, mas apenas a Apple produz o iPhone e apenas a Samsung produz o Galaxy. Assim, cada empresa define o quanto cobrar pelo seu dispositivo.

O fator da subjetividade é outro a entrar em campo. Embora seja fácil calcular o custo de produção de uma tela dobrável, é muito mais difícil definir o valor que isso gera para os possíveis compradores. As empresas podem trabalhar em cima deste fator para aumentar o quanto cobram pelos produtos, ainda mais se a tela dobrável for algo que somente você tem a oferecer. Já as empresas que revendem não tem quase nada de subjetivo e único a oferecer; ao contrário, os clientes levarão em conta apenas fatores objetivos na hora da compra como preço e a melhor oportunidade de parcelamento.

Em suma, quanto mais uma empresa consegue trabalhar com a percepção de valor do seu produto – que aumenta quanto mais exclusivo ele for –, mais ela conseguirá aumentar seu preço e, portanto, sua margem de lucro.

 

Como esta lógica se aplica ao jornalismo?

Não é fácil definir o valor de um produto jornalístico. Em geral, os preços cobrados em assinatura, por exemplo, acabam sendo definidos pela disposição do público em pagar pelo que temos a oferecer. Como profissionais do setor, nossa tendência, naturalmente, será pensar que o que fazemos vale mais do que R$ 20,00 ou R$ 30,00 de mensalidade. A história e legado do jornalismo corroboram essa crença.

Ainda assim, aumentar o preço cobrado é sempre um risco, e sabemos que há um limite do quanto podemos exigir dos leitores – mesmo daqueles que mais se interessam pelo que temos a oferecer. Para entender como podemos trabalhar melhor o nosso produto e precificá-lo de acordo, é útil entender de onde vem o nosso valor. Aqui, selecionei dois critérios:

1 – Tradição e credibilidade: O peso deste critério é inquestionável. Jornalistas sabem muito bem que credibilidade não se cria de um dia para o outro – embora possa se deteriorar rapidamente caso a publicação derrape na apuração dos fatos com regularidade. O público também reconhece este valor, de forma que veículos com nome e uma longa tradição tenderão a encontrar mais facilidade em gerar volume de leitores do que veículos que carecem destes elementos. Em geral, as reportagens de veículos tradicionais costumam ser generalistas e informativas, evitando ao máximo a subjetividade de quem assina a matéria. Não a toa, isenção e imparcialidade são palavras-chave nestas empresas.

2 – Especialização/posicionamento: aqui estamos falando de veículos cujo principal objetivo é a diferenciação. O meio para isso será o conteúdo, que pode pender tanto para a objetividade das análises quanto para a subjetividade de quem escreve – e muitas vezes, enfatizando estes dois elementos ao mesmo tempo. Assim, podemos ver matérias que não apenas apresentam informações, mas que contam com explicações profundas sobre um determinado acontecimento e suas possíveis implicações. Igualmente, é possível encontrar diversas reflexões feitas pelo autor sobre os temas abordados, de forma que a sua subjetividade passa a ser o elemento principal do conteúdo. Em ambos os casos, o conteúdo transcende a simples exposição de fatos apurados. Nenhum veículo que aposta nesta estratégia será puramente informativo.

Vale observar que os dois critérios acima não são excludentes. Veículos que apostam na diferenciação do conteúdo também podem gozar de forte credibilidade, gerando ainda mais valor ao conteúdo vendido. Veículos tradicionais também podem adotar uma estratégia editorial posicionada ou especializada, embora muitos prefiram não fazê-lo para não desagradar certa parcela dos leitores.

A pergunta crucial é: qual veículo tem maior possibilidade de fidelizar a audiência e qual tem mais flexibilidade para definir o valor do seu produto? Assim como em outros setores do mercado, a resposta será aquele que tiver maior exclusividade.

Ao se ater apenas à informação e à objetividade dos fatos, muitas empresas acabam limitando o potencial do seu produto. Mesmo os furos de notícia, valorizados como são por quem trabalha no meio, tem pouco valor nos tempos da internet e do ponto de vista do público, já que serão imediatamente replicados por outros veículos e portais. Assim, fica difícil precificar adequadamente o seu conteúdo quando a oferta de outros parecidos com o seu são ofertados a baixo custo ou mesmo gratuitamente.

A tabela abaixo ajuda a entender esta ideia. Os créditos vão para Jay Acunzo que dividiu o conteúdo jornalístico em dois grupos: informativo e reflexivo, de um lado; generalista e personalizado, de outro. De acordo com ele, o produto “informativo” e “generalista” possui pouco valor e pouca orginalidade, caindo, assim, na “gaiola da commodity”. Uma vez ali, os veículos acabarão com dificuldade de atribuir grande valor a ele.

Essa é uma realidade dura de engolir, ainda mais considerando que a maior parte do produto jornalístico de fato é, e continua sendo, informativo e generalista. Embora este tipo de conteúdo tenha rendido muitos frutos na época da abundância de receita publicitária, o cenário atual é muito diferente. Grandes e tradicionais empresas de mídia frequentemente atrelam o seu nome e tradição ao conteúdo publicado, o que de fato traz resultados comerciais. Mas isso nem sempre será suficiente se a maior parte do seu conteúdo estiver no âmbito da commodity, dentro do qual você é forçado a competir por volume. Fora dela, sua luta é por impacto.

Diante das circunstâncias existentes, portanto, se torna cada vez mais necessário encontrar uma estratégia de produto que seja mais robusta do que se apoiar no nome e credibilidade construídos ao longo do tempo para vender conteúdo. Essa realidade se aplica mais a certos produtores de conteúdo e veículos de mídia do que outros, mas ainda assim é uma estratégia que todos deveriam considerar.

O impacto de uma mudança na estratégia editorial sobre a audiência também é algo esperado. Muitos veículos, sobretudo os tradicionais, costumam temer uma queda no volume de acessos e assinantes. O risco é real, ainda mais porque o conteúdo informativo e generalista tende a apelar a um público volumoso, enquanto o conteúdo especializado, posicionado ou reflexivo tem o efeito oposto, apelando a um público de nicho. É quase como se o centro gravitacional mudasse de lugar.

A questão é que volume não é sinônimo de valor, de forma que os veículos que se apegam a este elemento arriscam ser facilmente substituíveis.

Talvez, portanto, não seja o setor que está obsoleto, mas apenas a estratégia editorial adotada por muitos.

Notícias puramente informativas tem pouca exclusividade pois são facilmente replicáveis. Já notícias especializadas, analíticas ou opinativas são únicas. O resultado é que elas tem muito mais valor agregado do que apenas a informação, e sem que haja percepção de valor, não há como sustentar um produto e um negócio por muito tempo.

Assim como em muitos outros mercados, também no mercado de mídia.

O que diz nosso senso comum sobre o posicionamento ideológico da direita e da esquerda em relação à imprensa? Estes grupos aprovam ou reprovam o que fazemos, leem ou não leem o que publicamos, concordam ou não concordam com o que escrevemos?

Algo que ajuda a entender estas questões é uma recente pesquisa publicada pelo YouGov que perguntou aos americanos se eles confiam ou não confiam nas empresas de mídia. Os dados dizem respeito a nada menosdo que 56 veículos presentes nos EUA, dentro os quais estão alguns dos mais reconhecidos do mundo, como o New York Times, a revista Time, Forbes, The Economist e a rede BBC, para citar apenas alguns. Figurões, de fato, que desfrutam de uma longa tradição no jornalismo.

Ainda assim, quem realmente conquistou o primeiríssimo lugar da pesquisa foi o The Weather Channel – o canal do tempo americano.

No primeiro momento, esta constatação pode trazer algum desânimo. Mas há de se convir que o dado talvez não seja lá muito surpreendente considerando que o canal esteve distante de qualquer polêmica em função da própria natureza de seu conteúdo. Todos os outros veículos presentes na pesquisa tratam, de um jeito ou de outro, da rotina política – o assunto que mais tem dividido as pessoas e resultado em fadiga em relação às notícias nos últimos anos.

Em mais detalhes

Toda a polarização que observamos no cotidiano e nos embates que se passam nas redes sociais se refletem na opinião em relação às empresas de mídia. A CNN americana, por exemplo, assim como New York Times, fez um combate ferrenho a Donald Trump no período em que foi presidente dos EUA. Não à toa, no recorte da pesquisa que apresenta o grau de confiança por preferência eleitoral, estes são dois dos três veículos que mais dividiram Republicanos e Democratas, juntamente com a MSNBC. Portanto, se a CNN, a MSNBC e o New York Times possuem uma ótima pontuação de confiança entre Democratas (55, 54 e 53 pontos respectivamente), a pontuação delas entre Republicanos é extremamente negativa (-37, -37 e -30 pontos).

São pouquíssimos veículos que tem um grau de aprovação similar entre estes dois grupos. Novamente, o The Weather Channel desfruta de muita confiança entre eleitores da direita e da esquerda. Outros que não dividem muito Republicanos e Democratas são empresas de mídia menores, como o The Daily Caller (diferença de 12 pontos entre cada grupo), The Washington Examiner (11 pontos), The Federalist (10 pontos) e o Infowars (4 pontos).

Além disso, o que a pesquisa nos mostra é que mesmo entre os eleitores médios que não apresentaram uma preferência partidária, o grau de confiança nas empresas de mídia não é muito alto. Para os veículos tradicionais, o que pode explicar isso é a própria polarização e a fadiga em relação às polêmicas políticas que incomodam justamente aqueles que não são politizados (algo que foi apontado pela Reuters em relatório de 2022).

Mas política não explica tudo. No caso dos canais menores como os já citados acima, este baixo nível de confiança pode ser explicado pelo simples fato de não serem amplamente conhecidos ou não possuírem uma longa tradição jornalística (convenhamos, é difícil confiar naquilo que não conheço ou em um veículo que ainda não viveu tempo o suficiente para conquistar credibilidade).

 

Há algo de peculiar na direita

Um argumento caricato – e frequentemente utilizado – para explicar por que os Republicanos (e pessoas conservadoras em geral) não confiam nas empresas de mídia tradicionais é que elas têm sido fortemente impactadas por fake news, criando um eleitorado muitas vezes conspiracionista e avesso ao que publicamos.

Outra explicação que parece mais razoável (e também produtiva) é que a maior parte dos veículos presentes na pesquisa do YouGov tem conseguido falar a língua do eleitorado Democrata com muito mais sucesso do que a do eleitorado Republicano. Isso é algo presente no livro “Nacional populismo – a revolta contra a democracia liberal”, em que os pesquisadores Roger Eatwell e Matthew Goodwin identificam como o eleitorado conservador (presente não apenas nos EUA) foi colocado à margem da discussão pública. Portanto, ao sentirem que o seu discurso e valores não são representados ou mesmo minimamente respeitados por diversas instituições (o jornalismo sendo uma delas), eles se revoltam contra toda esta classe falante. Parte deste argumento parece fazer sentido, embora não explique tudo aquilo que a pesquisa identificou.

Talvez o ponto mais curioso de se observar é que mesmo os veículos mais identificados com a direita não conseguiram uma pontuação de confiança equiparável ao que muitos veículos obtiveram perante o eleitorado Democrata. A Fox News, frequentemente associada ao que há de mais “direitista” por aí, obteve uma média de 41 pontos de confiança com os Republicanos. Embora seja um bom número, está abaixo da média de 50 ou mais pontos que NBC, Time, BBC e Washington Post – para citar apenas alguns – obtiveram entre Democratas.

Um dos casos mais interessantes de citar é o da revista National Review, que foi fundada em 1955 por William Buckley Jr., um dos mais influentes intelectuais e comentaristas políticos da direita de seu tempo. Ainda hoje a revista se propõe a publicar “comentários conservadores sobre as principais questões políticas e culturais, domésticas e globais”. Ainda assim, a National Review desfruta de um maior grau de confiança entre Democratas do que entre os próprios Republicanos (20 pontos contra 3). A margem é expressiva demais para ser ignorada. O que pode explicar este fenômeno?

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que há diversas divergências dentro do campo conservador. Nos EUA, em especial, é fácil notar este embate entre conservadores tradicionais, cujo pensamento continua sendo expresso pela revista National Review, e a corrente da direita que surgiu nos últimos anos e teve em Trump o seu principal expoente. Há uma profunda discordância entre os dois grupos, de forma que qualquer veículo que queira representar o conservadorismo terá uma grande dificuldade de ser a voz unânime deste grupo.

Um outro fator que talvez ajude a explicar este fenômeno, é que boa parte da direita tem apresentado, nos últimos anos, um comportamento mais personalista do que institucional. Isso significa que sua confiança tem estado mais presente em indivíduos específicos do que em órgãos públicos, um partido político, entidades sociais ou veículos da imprensa. Basta lembrar que quando foi eleito em 2016, Trump se apresentou como um outsider dentro de seu próprio partido. A sua briga não era apenas por uma agenda que ele considerava benéfica para o país, mas contra todo um establishment dominado ao longo de muitos anos por uma cultura progressista em ascensão. Pouco importa aqui discutir se ele estava certo ou não – há diversos argumentos que podem ser usados para refutar ou corroborar sua visão. O que importa é que esta característica – disseminada por Trump mas não criada por ele – se tornou a expressão de boa parte da direita ocidental. Tudo isto faz com que os veículos tenham dificuldade de conversar com os conservadores.

Ao todo, a maior parte da imprensa americana ressoa uma visão liberal de mundo – que embora não esteja associado à matriz tradicional da esquerda trabalhista, ecoa muito do pensamento progressista presente em todo o ocidente e rechaçado com diferentes níveis de intensidade pelas diversas correntes da direita atual.

 

E o que dizer de nós mesmos

Agora que já olhamos bastante para o perfil e comportamento conservador, vamos falar um pouco de nós mesmos. Uma pesquisa publicada em 2021 pela Universidade Federal de Santa Catarina mostrou que o perfil dos jornalistas está fortemente atrelado ao espectro ideológico da esquerda. Nada menos do que 52,8% dos participantes se identificaram como sendo de esquerda, enquanto outros 25,9% disseram ser de centro-esquerda e 2% de extrema-esquerda. Já a centro-direita respondeu por 2,5% dos entrevistados. Apenas 1,4% e 0,1%, por sua vez, disseram ser de direita e extrema-direita respectivamente.

É interessante perceber que o número de profissionais se autodefinindo como de extrema-esquerda quase equivale ao total dos que se dizem de centro-direita. Se somados todos os espectros de uma mesma ideologia (do mais radical ao mais moderado), 80% dos jornalistas podem ser considerados de esquerda, enquanto que apenas 4% se dizem de direita. Os 16% restantes se disseram de centro ou preferiram não informar seu posicionamento.

Um último dado curioso é que 10,3% dos jornalistas entrevistados são filiados a algum partido político. Destes partidos, o PT é o mais popular com 40,1% de todos os filiados, seguido do PSOL (17,6%), PCdoB (7,8%), PSB (3,4%) e PSDB (2,9%). Esta taxa impressiona ainda mais se comparado com os dados coletados na época pelo Tribunal Superior Eleitoral, que mostravam que 7,4% de toda a população era filiada a algum partido político. Ou seja, jornalistas possuem um engajamento partidário mais alto do que a própria população que não necessita de nenhum compromisso com a isenção como nós.

 

Com quem estamos falando

Embora a equiparação das pesquisas do YouGov e da UFSC seja complicado por estarem tratando de países diferentes, o fato é que a direita, no Brasil como nos EUA, tem apresentado um comportamento similar em relação às empresas de mídia.

Mas se há um profundo ceticismo em relação à maior parte dos veículos, o que temos a ver com isso? Afinal, seguimos rigorosos critérios éticos, temos sempre a objetividade em mente e publicamos matérias que passam por diversos filtros de checagem. Se alguém não gosta disso e continua achando que a imprensa não é digna de confiança, o problema não é nosso, certo?

Bom, em parte. Por um lado, quem quer que argumente que a imprensa não tem a função de agradar a ninguém está parcialmente correto. Boa parte da nossa relevância vem do fato de que devemos apurar e publicar o conteúdo doa a quem doer. Entretanto, há muito mais no jornalismo do que isso. Não é preciso ficar chovendo no molhado: todos sabemos que uma informação passa por recortes, que os deadlines frequentemente dificultam uma apuração mais criteriosa e que os repórteres são propensos a falhas assim como qualquer outro ser humano.

A reportagem, portanto, jamais será ideal. Ela será o possível em uma dada circunstância. Mas isso não significa que não podemos nos esforçar mais para nos comunicarmos com os outros. O mundo de hoje, mais plural e complexo do que nunca, mostra que não basta estar atento à informação que será publicada. É preciso também estar atento ao linguajar que será empregado na matéria e quem irá consumi-la.

Neste sentido os dados da pesquisa da UFSC são importantes. Jornalistas terem uma preferência ideológica não é um problema e não faz de ninguém um profissional precário por si só. Ainda assim, é necessário um cuidado com vieses inconscientes, que levam muitos a acharem que seus valores são universais e bens absolutos questionados apenas por elementos radicais e extremistas da sociedade (há sempre uma justificativa legítima para as pessoas terem as ideias e valores que tem. Ser jornalista implica, frequentemente, se colocar no lugar dos outros).

Portanto, mesmo que a reportagem seja feita com a melhor das intenções e seguindo uma boa apuração, ainda assim é possível que a forma como ela foi produzida contenha vieses que, de tão inconscientes, o próprio jornalista não será capaz de notar, mas que não passarão desapercebidos por quem estiver consumindo o conteúdo.

Mais do que nunca, o jornalismo de hoje em dia não é mais apenas uma comunicação de mão única. O público precisa, cada vez mais, ser atendido – e fazer com que ele não se revolte com o conteúdo já é um grande passo para construir uma relação de confiança. Isso significa sempre publicar o que a audiência quer ouvir? Não, mas demonstrar que entendemos e respeitamos a sua visão de mundo, que somos capazes de tê-la em conta ao tratar de temas espinhosos e legitimamente debatíveis pode ser um bom caminho – em especial se quisermos nos conectar com partes da audiência que se sentem incompreendidas e que atualmente estão fora do nosso alcance.

O ano começou com o burburinho do ChatGPT e nas redações não foi diferente. Enquanto alguns colegas perguntavam como explorar a nova tecnologia de Inteligência Artificial da OpenAI no jornalismo, outros questionavam se ela seria a tão temida substituta da mão de obra editorial. Se a escrita de textos noticiosos por robôs já é uma realidade usada, inclusive, em grandes portais brasileiros, o diferencial do jornalista pode estar em vivenciar experiências como um ser único, coisa que contraria a lógica de programação e padronização dos robôs.

Matt MacVey, líder de um projeto de IA e notícias locais no NYC Media Lab, da Universidade de Nova York, disse recentemente ao Washington Post:

“Estas ferramentas não podem sair e relatar ou fazer perguntas.”

Pensemos juntos: qual o sentido de competir com a IA, quando o assunto é agilidade, baixo custo e precisão de informações? Se você for um crítico do movimento, já tem engatilhado “n” argumentos antropocêntricos – a meu ver, muito justos! – a começar pela ética. De que serve a precisão de dados se o método de coleta for nocivo? – seria como admitir que “os fins justificam os meios”. O argumento cabal é que, em última instância, quem configura qualquer IA ainda é um ser humano, mas isso não basta para ser um diferencial do jornalista.

Por muito tempo acreditei e ainda acredito que a capacidade de dialogar seja um atributo de excelência do ser humano; em especial, do profissional que trabalha em veículo. Mas até nisso o ChatGPT vem nos desafiar e fica conhecido como “o robô dialogante”. O tão desejado diálogo com a audiência pode ter sido robotizado antes mesmo de ser adotado como rotina das redações. Então, busquemos outro diferencial.

Minha aposta: a personificação

Faz cerca de quatro anos que observo, de longe e com parcimônia, o uso da primeira pessoa no jornalismo. Eu sei, é polêmico. Fomos criados na linguagem objetiva, primeiro manifesto da isenção e condição elementar à credibilidade. “Um repórter deve trabalhar atrás das câmeras” foi repetido como um mantra e “não se tornar notícia” virou missão. Como projetar, então, um jornalismo personificado sem colocar em xeque valores tão caros à profissão?

Antes de mais nada, cabe aqui esclarecer a diferença entre personificação personalização.

Durante todo o ano de 2022 (talvez há mais tempo), ouvi colegas falarem sobre a importância da oferta personalizada de conteúdo. Coleta de dados, desenvolvimento de algoritmos, entregas sob medida na hora certa, para cada segmento de usuários. Independentemente do valor que isso pode ter, a intenção aqui é entender “personalização” só para efeitos de contraste.

Em qualquer processo de personalização – de uma caneca ao conteúdo de um veículo – o diferencial é a adequação do produto ao consumidor. Na personificação, o produto (no nosso caso, a mensagem, o conteúdo) assume as vestes de uma pessoa: o jornalista.

Embora o dicionário dê ênfase ao conceito clássico de “personificação” como o ato de trazer ao concreto uma ideia abstrata (exemplo: “Um filho é a mais nobre personificação do amor“), minha proposta é que, no jornalismo, usemos “personificação” para identificar uma abordagem pessoal do noticiário, honesta e capaz de gerar empatia nas audiências.

Um jornalismo personificado é aquele em que o leitor/usuário/espectador percebe a presença do ser humano jornalista naquele conteúdo, em toda a sua riqueza e limitação. O jornalista não precisa ser protagonista da história – talvez ele nem deva sê-lo! Mas conta, de forma transparente, o que ele viu quando chegou, o que ele perguntou, o que as fontes disseram a ele, o que ele notou na situação, o cheiro, a temperatura, os sabores que ele sentiu como pessoa, como se o fosse o próprio leitor.

jornalismo em primeira pessoa

Não se trata de um conteúdo behind the scene. Aliás, enquanto escrevia este artigo me deparei com uma crítica pesada à página A2 do New York Times, onde os editores publicam uma “autoglorificada” versão interna das matérias veiculadas no jornal. A seção, chamada The Story Behind the Story, tem a pretensão de contar os bastidores de como o jornalismo do NYT funciona. Só que isso, convenhamos, pode ser chato e não interessar a ninguém!

A personificação do jornalismo é bem entendida como a humanização da notícia. Sem jargões políticos, jurídicos nem econômicos. É a notícia como a história de um ocorrido contada de uma pessoa para outra, como, de fato, é. A profissionalização do jornalismo ao longo do último século desumanizou o profissional através da pasteurização do discurso. Adotamos estruturas frasais endurecidas e impessoais na esperança de que uma linguagem padronizada e burocrática garantisse a isonomia do repórter.

Já temos tempo suficiente de jornalismo na história da humanidade para entender que o enviesamento da mensagem excede os limites de uma escrita normatizada. Assumir a voz da primeira pessoa, porém, não significa renunciar à pretensa objetividade do relato, mas dá a ele uma transparência capaz de tornar a notícia ainda mais próxima do real.

Validação do “eu”: técnicas de jornalismo e de autoconhecimento

Lembro de quando eu nem sonhava em ser jornalista e ouvia o Alexandre Garcia dizer “Mais cedo conversei com o ministro X e ele me disse que…” – UAU!, pensava. Ele mesmo falou com o ministro. E foi hoje, há poucas horas! O grau de realismo de uma construção textual assim impacta até quem é criança e pode ser usado em relatos factuais, não apenas analíticos ou opinativos. Esta é a proposta para um Jornalismo em Primeira Pessoa.

Martha Nichols, jornalista e professora na Escola de Extensão da Universidade de Harvard, publicou no ano passado o livro First-Person JournalismNão por acaso, Martha tem afinidades com tópicos ligados à psicologia e saúde mental; é dela o prefácio de outro livro intitulado INTO SANITY – Essays About Mental Health, Mental Illness, and Living in Between. É que a prática do jornalismo em primeira pessoa, segundo a autora, mescla técnicas de jornalismo com autoconhecimento. Em bom português: é preciso um exame detalhado de si mesmo antes de se lançar a este estilo.

first-person journalism

Transformar vivências próprias em conteúdo jornalístico passa por uma validação prévia do eu: tenho permissão para usar o “eu”? Isso extrapola qualquer regra de veículo ou acordo com o editor; trata-se de reconhecer-se como a pessoa certa, no lugar certo e na hora certa. Mais do que o alto valor-notícia de certo acontecimento, eu sou a melhor pessoa para relatá-lo ou há outras pessoas mais capacitadas, a quem eu deveria ouvir no mais tradicional estilo de reportagem? Se a segunda opção for a melhor, não hesite em dar voz a fontes.

(IMPORTANTE: Mesmo que a reportagem seja o relato de uma experiência própria, fontes terceiras sempre são bem-vindas. Se uma delas refutar o ponto de vista do repórter-narrador, tanto melhor! Narrar não é o mesmo que defender.)

Quando menciono “validação” – e a Martha Nichols detalha como “permissão para usar o eu” – considero que este aval precise ser coletivo, especialmente quando se trata de veículos (e não de blogs pessoais). A narrativa pode ser em primeira pessoa, mas a chancela, não. Tudo começa com um autoexame – inclusive autocrítico -, mas não para por aí. A validação coletiva deve contemplar, pelo menos, os seguintes pontos:

  • A experiência do jornalista [pauta] é interessante / relevante às audiências?
  • O ponto de vista do jornalista é representativo (capaz de gerar empatia entre as audiências)?
  • O jornalista será excessivamente exposto e pode tornar-se  vulnerável?
  • Qual a posição que o jornalista ocupou ao experienciar tal fato?

Perceba que, embora o relato seja pessoal, a validação é atravessada por preocupações com a audiência, com valores-notícia, com a propriedade do lugar de fala e, sobretudo, com a honestidade e a transparência do contexto. A diferença é que, em primeira pessoa, estes detalhes são contados ao leitor. E é aí que mora o diferencial que buscamos ao jornalista. Somente seres humanos vivem experiências e podem contá-las segundo suas próprias percepções; robôs não. A proximidade estabelecida com o leitor se assemelha à de um amigo que lhe conta uma história. Nada mais humano, exclusivamente humano.

Deixa eu te contar o que vi outro dia…

Nos meios de apelo da retórica aristotélica, contar histórias reais aparece de forma recorrente como técnica de persuasão. Noutras palavras, histórias atraem ouvintes. Mas por que histórias pessoais atraem mais? O Peter Burke tem uma frase icônica no livro Uma História Social do Conhecimento (Zahar, 2003):

“A informação é como água: quanto mais próxima da fonte, mais pura ela será.”

É do humano buscar a verdade, a pureza, o estado original. No ensaio Faith in Fakeness, Umberto Eco constatou uma “fixação pelo real thing“, a coisa real perdida em uma sociedade saturada pelo falso e pela ficção. Usei esta frase dele em uma aula que dei em 2018, para uma turma de RTVI de uma faculdade aqui de São Paulo. A turma havia lido o livro O Show do Eu: Intimidade do Espetáculo (Contraponto, 2016), da Paula Sibilia, que recomendo. É uma crítica destemida ao comportamento humano nas redes sociais, à luz de distorcidos valores contemporâneos. Na obra, a Paula observa que realidadeverdade são noções que se estremeceram seriamente nas últimas décadas. Quando tudo é passível de questionamento e problematização, surge um efeito colateral: o real já não é mais auto evidente. Então é preciso intensificar a realidade para que ela seja percebida como real.

O mercado de influencers, youtubers, twitchers, blogueiros, de produtores de reality shows se beneficiou enormemente deste movimento. Surge uma zona intermediária, entre a realidade e a ficção. No livro, a Paula aponta para a saturação do relato do autor que se mostra, se narra. Mas desde a publicação da obra, só o que se vê é esta linguagem personificada crescer, despertando e retendo a atenção das audiências.

Reforço da credibilidade

Mais do que ser um artifício para captação de público, o uso da primeira pessoa no jornalismo contribui para diminuir o cenário de desinformação. Matérias assinadas já trazem uma camada extra de credibilidade. O Center for Media Engagement realizou pesquisa em 2020 comprovando que, quanto mais informações [pessoais] o veículo mostra sobre o autor de uma matéria, maior é a confiança do público ao consumir aquele conteúdo.

Quando os leitores viram uma biografia que continha uma foto pessoal e detalhes pessoais sobre o repórter, eles sentiram que o conheciam melhor do que aqueles que viram qualquer outro tipo de biografia.

A Trusting News, entidade voltada ao reestabelecimento da confiança do público no jornalismo mostrou o exemplo do Virginian-Pilot (infelizmente indisponível no Brasil), onde jornalistas foram convidados a atualizar suas mini-bios com informações sobre sua experiência profissional, além de curiosidades pessoais, “mostrando um lado mais humano e relacionável“.

[Digno de nota: adepta à transparência como acesso à credibilidade, a Trusting News tem uma seção de nome bastante sugestivo – Journalists Are People Too]

A “transparência realista” do jornalismo em primeira pessoa, claro, ultrapassa a mera “assinatura de matéria” se estende por todo o relato. Martha Nichols, do livro First-Person Journalism, confessa em sua apresentação:

Há muito tempo acredito no poder das histórias pessoais. Mas com o surgimento da falsificação digital, lutar pela honestidade agora parece um ato radical. É por isso que me dedico ao jornalismo em primeira pessoa: contar histórias que conectam uma voz pessoal com uma abordagem rigorosa dos fatos.”

São fatos, não opinião. O compromisso do jornalista com a realidade segue inalterado. Naturalmente, o relato pessoal traz uma perspectiva sobre a realidade. Mas… não é isso que uma reportagem em linguagem objetiva também traz? Desde a escolha das fontes até a última edição, relatos jornalísticos são a perspectiva daqueles profissionais sobre um fato. O narrador é orientado a se omitir para que a narrativa seja vista “em si”, como se tivesse vida própria e, assim, fosse apenas capaz de refletir a verdade (no singular).

Casos de jornalismo em primeira pessoa

O uso de primeira pessoa no jornalismo ganhou bastante evidência por volta de 2014. Naquele ano, a American Journalism Review publicou um artigo contando como o estilo ganhava destaque na Vice e se tornava tendência em veículos globais, como o BuzzFeed e New York Times. No mesmo ano, o Washington Post também destacava a escalada do uso do “eu” em conteúdos jornalísticos pós-crise de 2008. O artigo da escritora Eve Fairbanks explicava o fenômeno:

“… o boom do ensaio em primeira pessoa é algo notável. Ele canaliza nossa profunda desconfiança nas elites após a catástrofe do Iraque e a crise financeira, ambas forjadas por especialistas distantes que tinham pouca experiência direta nas coisas – ditadura, hipotecas subprime – que eles diziam entender tão bem. Agora queremos o contrário: ouvir as pessoas no solo, obter pontos de vista que imaginamos estarem tão ancorados na experiência pessoal que devem ser verdadeiros.”

Os exemplos que caracterizavam a tendência naquela época tinham a forma de ensaios, colunas de perguntas e respostas e blogs coletivos, com textos produzidos pelo staff da redação ou por usuários dos veículos. Os assuntos variavam dos “resultados em usar Reiki no cachorro” ao “cotidiano de uma pessoa com transtorno alimentar”, da “experiência de passar por um aborto espontâneo” ao “tratamento contra a depressão”.

boechat confessa sofrer de depressãoEis um registro mais do que necessário: quem lembra de quando o Ricardo Boechat assumiu publicamente sofrer de depressão? É importante dizer que o relato não teve a intenção de ser uma notícia, mas a função social que cumpriu superou a de muitas pautas.

Boechat não foi o único a compartilhar problemas de saúde. Em 2021, André Tal, repórter da Record, revelou sofrer de Parkinson e, no ano passado, a jornalista Renata Capucci contou que foi diagnosticada com a mesma doença. Tornar público o diagnóstico de uma doença vem carregado de uma mensagem de conscientização e com estes jornalistas não foi diferente.

Em um tom mais leve – embora ainda crítico e reflexivo – a jornalista Whitney Miller, do canal WCPO 9 News, de Cincinnati, relata sua transição de visual ao adotar tranças, um penteado tão incomum para âncoras de TV quanto significativo do ponto de vista da identidade racial.

Jornalistas serão influencers?

A pergunta espinhosa é proposital. Há quem defenda a ideia dizendo que jornalistas sempre foram influenciadores da opinião pública. Outros dizem que, na acepção atual do termo, jornalista precisa mesmo é se diferenciar da superficialidade dos influencers de social media. Haverá uma justa medida?

É inegável que os influencers – ou creators – são hábeis em recrutar audiências numerosas, tudo o que jornalistas tanto desejam para seus veículos. As artimanhas que estas estrelas da Internet usam variam da nefasta compra de seguidores a uma abordagem incrivelmente próxima às audiências. Influencers são tudo o que mais podemos chamar de personificação do conteúdo.

Uma das diferenças para o jornalista é que o influencer busca, geralmente, colocar seu nome na frente do conteúdo que produz. O objetivo final é projetar a própria identidade e os relatos personificados são o meio para alcançar esta meta. O jornalista, ao contrário, não precisa evidenciar-se como indivíduo para relatar o que viveu. A identidade do narrador faz diferença para a história contada? E muita! Mas ela pode ser trabalhada de forma sutil, de modo a priorizar o fato e não o contador.

Digo isso porque conheço um bom número de colegas avessos à ideia de explorar sua “imagem pessoal”. Novamente: muitos de nós fomos criados assim, desde a faculdade. Nos acostumamos à ideia de que tornar-se conhecido é coisa para colunistas e jornalistas de TV. Afinal, eles têm destaque visual na mídia. Há tempo já não é mais assim. Quando qualquer usuário de redes sociais ganha tanto ou mais visibilidade midiática do que jornalistas do audiovisual, deixar-se conhecer pela audiência já não traz mais tanto impacto pessoal quanto antes. Os jovens apresentadores do G1 em 1 minuto que o digam. Usar a primeira pessoa para contar uma notícia que você apurou não faz de você um novo Pedro Bial, mas desperta empatia e atrai a audiência.

Atenção aos riscos

  • O repórter tornar-se maior do que o fato: lembre-se que a intenção de um relato em primeira pessoa é gerar empatia com as audiências. Se o jornalista der mais ênfase à sua identidade e às suas subjetividades, ele será visto como um ser único, especial, sem correspondência com a realidade de cada leitor/espectador. Por acaso, foi aquele jornalista que viveu tal experiência, mas poderia ter sido qualquer indivíduo.
  • Nem vítima, nem herói: o foco não é o jornalista, mas suas experiências.
  • Militância: narração não é defesa de um ponto de vista.
  • Forjar experiências para gerar pautas: [desnecessário detalhar]
  • Irrelevância: tudo o que acontece conosco parece ter uma importância gigantesca – e, de fato, tem. Mas isso não significa que a situação retrate o interesse das audiências. Portanto, em momento algum se desconecte das necessidades informativas do público.

E o profissional, não fica exposto?

Nos últimos cinco ou seis anos tem sido crescente o número de colegas que se sente exposto à agressividade das audiências, mesmo sem assinar relatos em primeira pessoa. Ou seja: mesmo seguindo o protocolo de apuração e usando linguagem impessoal, jornalistas são atacados com comentários e ameaças nas redes. O uso da primeira pessoa não pode agravar esta situação?

Não, ao contrário. Explico.

Ao estabelecer um lugar de fala semelhante ao de qualquer leitor/espectador, o jornalista se torna tão humano quanto ele. Pelo que há de mais primitivo no comportamento da humanidade, é muito mais difícil atacar um semelhante do que um desconhecido. Já vivi interações com usuários que apaziguaram o tom da crítica quando eu ou alguém da minha equipe se mostrava ser… uma pessoa! Até mesmo no meio de um protesto em frente ao MASP, na Avenida Paulista, em 2013, vi a postura de um manifestante mudar quando expliquei a ele o que eu estava fazendo ali.

IMPORTANTE: essas foram reflexões bem incipientes a respeito do tema. Se você conhece algo ou tem alguma opinião formada sobre jornalismo em primeira pessoa, por favor, compartilhe nos comentários e vamos amadurecer esta ideia juntos.

Desde o lançamento da edição de 2022 do tradicional estudo Digital News Report, do Reuters Institute, no último dia 15 de junho, alguns setores da mídia brasileira têm comemorado o fato de o país registrar um índice de confiança nas notícias superior à média global. O percentual (48%) realmente é maior do que os 42% que representam a combinação dos 46 países investigados e isso deve ser destacado. Porém, é preciso olhar o contexto: o dado representa uma queda de confiança do brasileiro nas notícias.

A credibilidade medida no ano passado foi de 54% e isso representou um leve – e único – aumento de três pontos percentuais, impulsionado pela cobertura do início da pandemia, quando a população recorreu massivamente aos veículos profissionais em busca por informação confiável. Este fenômeno, aliás, foi percebido em veículos do mundo todo através do aumento pontual de tráfego nos sites e de audiência em canais de TV. Poucos meses depois, os números voltaram aos seus patamares anteriores, outros entraram em queda: era o fenômeno de news avoidance que se apresentava.

A história recente do índice de credibilidade no noticiário, aqui no Brasil, infelizmente, não é dos melhores. O Reuters Institute mensura esta confiança desde 2015, quando o jornalismo brasileiro representava um porto seguro de informações para  62% da população. No consolidado dos últimos sete anos, portanto, menos gente acredita no trabalho da imprensa e isso corresponde a uma queda de nada menos que 14 pontos percentuais [gráfico acima, reprodução do DNR22].

Neste ano, o Brasil não está sozinho, é claro, na perda de confiança pelo público. Nosso índice está acima da média global porque cerca da metade dos países pesquisados também registrou queda de credibilidade. Ou seja, a média global, em si, caiu; portanto, ficou mais fácil ficar acima dela. A imprensa dos Estados Unidos nunca teve um grau tão baixo de confiança desde 2015 e hoje ocupa o último lugar no ranking mundial, ao lado da Eslováquia, com 26%.

O Brasil está em nono lugar, atrás do Quênia, da Nigéria, da África do Sul, por exemplo [gráfico ao lado]. Isso abre margem para repensarmos o quanto veículos como o New York Times realmente devem ser considerados como exemplos a serem seguidos na formulação de estratégias editoriais e de modelos de negócio. Cabe lembrar, também, que o NYT antecipou o alcance da meta de 10 milhões de assinantes, projetada para 2025, ao comprar o veículo The Athletic e a plataforma de jogos Wordle e, com eles, suas respectivas carteiras de clientes.

Brasileiro é o povo que mais evita notícias

De volta ao Brasil, o Reuters Institute traz outro dado ainda mais preocupante no Digital News Report deste ano: somos o país que mais evita, deliberadamente, o consumo de notícias.

news avoidance é um comportamento que o estudo mapeia desde 2017 e identifica pessoas que decidem ignorar jornalismo. Naquela ocasião, apenas 17% dos brasileiros confessavam evitar ler, assistir ou ouvir conteúdo noticioso. Em 2019, este número já havia subido para 34% e também era superior à média global, então de 32%. Já neste ano, a quantidade de pessoas que evita ativamente o noticiário disparou para 54% – o maior índice global.

A diferença do dado de news avoidance entre o Brasil e o segundo lugar – Reino Unido – é de oito pontos percentuais, uma das maiores de todo o ranking. A situação fica ainda mais grave se compararmos nossos 54% com a média global, que é de 38% neste ano [gráfico a seguir].

brasil jornalismo audiências news avoidanceJá são cinco anos que os números nos alertam para a diminuição intencional no consumo de jornalismo. Segundo o relatório, há mais brasileiros desinteressados em notícias do que dispostos a acompanhar o trabalho dos veículos. Em paralelo, os modelos de geração de receita nunca apontaram com tanta força para o reader revenue (assinatura, membership, micropagamento, doação). Qual estratégia teremos que adotar para reconquistar a atenção das audiências a ponto de torná-las dispostas a pagar pelo nosso trabalho?

Uma coisa é certa: continuar cegamente o que temos feito até hoje, efetivamente, não resolverá o problema – ao contrário, o número de news avoiders brasileiros continuará subindo.

O que afasta a população das notícias

O próprio relatório do Reuters Institute dá algumas pistas sobre o que afasta o público do jornalismo. Num olhar geral sobre a amostra, quase a metade daqueles que dizem fugir das notícias alega que está esgotada da cobertura política e sobre o Covid-19. É importante lembrar, no entanto, que os relatórios de 2017 e de 2019, quando 17% e 34% dos brasileiros já confessavam estar fartos de jornalismo, não havia pandemia. Isso nos obriga a olhar para o noticiário político, cuja proporção é esmagadoramente maior na agenda de boa parte dos veículos, em relação a qualquer outro tema.

Outra razão apontada pelo público é o impacto emocional negativo que as notícias causam (36%). Já discutimos este fenômeno no Orbis Media Review e ele sempre vem associado ao crescimento do jornalismo de soluções: um modelo de reportagem em que o veículo não se limita à denúncia do que está errado, mas busca, efetivamente, mostrar como o problema pode ser resolvido.

Outros 29% admitem que estão saturados de notícia. A resposta para este problema é foco recorrente dos programas do Master Negócios de Mídia, quando estudamos casos de veículos que diminuíram a quantidade de publicações e, com isso, aumentaram resultados de audiência, de satisfação e de conversão (os mais exemplares são The Guardian, Le Monde e The Information).

Para um grupo de usuários mais jovens (até 35 anos), as notícias são difíceis de entender. O Brasil ocupa o segundo lugar, no mesmo relatório, entre os países onde a geração Z tem dificuldades para interpretar o que dizemos. Eles representam 15% dos news avoiders e estamos apenas atrás da Austrália, onde 16% dos jovens acham os produtos jornalísticos complicados.

É hora de agir

Diante destes fatos, é inevitável recuperar algumas premissas compartilhadas ao longo das últimas décadas por redações do Brasil e do mundo, na intenção de fazermos um exercício honesto de autocrítica, para identificarmos caminhos que nos levem a reverter este cenário:

  1. O jornalista é um mediador social, que traduz a informação colhida nas fontes para grupos de múltiplos níveis culturais. Precisamos falar e escrever de modo correto e acessível, sem o uso de jargões ou de vocabulário próprio do universo de nossas fontes. Como anda nossa linguagem? 
  2. Existimos para explicar como as coisas funcionam, para mostrar à população como ela será impactada pelas decisões tomadas nas instâncias de poder. Quem realmente se interessa pelo que publicamos?
  3. Se assumimos um compromisso com a isonomia, maior ainda deve ser a relação de transparência que mantemos com nossas audiências. É isso que elas esperam de nós. Conseguimos deter nossas convicções pessoais, sobretudo ideológicas, no exercício do jornalismo?
  4. Queremos ser relevantes, impactar o dia das pessoas, tornar a vida delas melhor. Como esperamos que elas se sintam ao consumirem um conteúdo que produzimos?

As perguntas e provocações não param por aqui. O mais importante, no entanto, é estarmos cientes da necessidade da mudança. Para alguns, a transformação do jornalismo pode começar no âmbito individual. Como sugestão, deixamos o Teste de Humildade Intelectual para Jornalistas, adaptado pelo Orbis Media Review a partir da revista científica Journal of Personality Assessment.

Só conseguiremos fazer um jornalismo melhor com jornalistas melhores. E para sermos jornalistas melhores, é preciso que busquemos ser pessoas melhores.

 

O desejo de dar notícias é tão antigo quanto o próprio jornalismo. E a oportunidade de ser o primeiro a reportar um fato de forma rápida só reforça uma falsa impressão de que esse feito é essencial para o exercício da profissão. Já produzimos uma pequena #Fagulha sobre o assunto neste Orbis, e vimos que a corrida incessante por estar no topo do podium incentiva ainda mais os corredores a buscarem atalhos que, por outro lado, ameaçam a credibilidade da mídia.

Ao seguirmos a linha de pensamento do jornalista canadense John Macfarlane, a ideia de que notícias rápidas se assemelham, em analogia, a comidas de fast food – enquanto notícias mais aprofundadas e detalhadas se parecem com as de slow food – pode ser totalmente verossímil. Fato é que este segundo movimento gastronômico incentiva uma maior atenção com aquilo que comemos e uma busca por consumir aquilo que fará bem ao nosso corpo. 

Ao reproduzir a fala do editor do The Walrus, podemos medir como consumidores

“…se quero avaliar o valor nutricional [da comida] antes de colocá-la na boca, não seria também uma precaução sensata quando se trata de notícias? […] Se, como seres físicos, somos o que comemos, como cidadãos somos tão sólidos quanto as notícias e informações que consumimos. Uma dieta de notícias rápidas é tão prejudicial à saúde quanto uma dieta de fast food.”

No entanto, como bons chefs de cozinha que buscamos ser, nós (jornalistas) não poderíamos almejar uma Estrela Michelin e iniciar um ritmo mais saudável na produção e publicação do nosso conteúdo? Oferecer pratos consagrados que fogem ao movimento do “aqueça três minutos no microondas” não poderia ser um caminho para chegar à qualidade que há muito tempo buscamos e contribuir com uma dieta mais balanceada aos leitores?

Uma das primeiras lições ensinadas a todo “foca” diz respeito aos critérios de noticiabilidade. Criados por Galtung e Ruge, um casal de noruegueses, na década de 60, os critérios trazem abrangência à qualquer conteúdo e, inclusive, têm a ver com a proximidade do fato com o leitor. Ou seja: o fato será tão mais relevante quanto mais próximo de seu público tiver acontecido.

Considerando cruciais os critérios para a produção atual da notícia, é fácil perceber que há uma clara deficiência dos grandes veículos com relação à produção de conteúdo. E na brecha deixada por eles, as novas iniciativas de jornalismo local vêm se beneficiando e tirando de letra. Em outras palavras, uma notícia dada por um veículo local – que conhece seu pequeno público – tem condições infinitamente maiores de informar com mais relevância aquilo que seu leitor precisa, de maneira acessível. Enquanto que, para um grande veículo, esta tarefa é muito mais difícil, e comunicar grandes assuntos para um grande público – que não conhece tão bem – se torna uma tarefa quase impossível.

Portanto, se por uma lado os grande veículos falam, predominantemente, de assuntos sobre Brasília, e estes não estão sendo mais tão relevantes assim, não seria prudente olharem para “baixo”, nem que seja por um instante, e aprenderem com as novas iniciativas locais, que fazem um jornalismo à serviço da comunidade e não de si próprio?

Ao retomar a ideia do artigo passado, em que falávamos sobre a vocação como um chamado à determinada realidade, podemos dizer que a profissão jornalística nasceu a partir do chamado de se contar histórias. Vide a trajetória da humanidade, que sempre foi marcada e sobreviveu à base de contos dos heróis antigos, deuses e até homens comuns que saíam em suas odisséias. 

Ao pensarmos neste contexto, qualquer semelhança entre jornalismo e literatura não é mera coincidência. Não à toa que os grandes narradores da história também foram grandes jornalistas – ou pelo menos exerciam a profissão que hoje conhecemos como tal. Dostoiévski, Charles Dickens, Daniel Defoe, Balzac, Machado de Assis, Graciliano Ramos… Todos queriam nos mostrar uma coisa: que a realidade não nos passa diante dos olhos como uma natureza morta, mas sim cheia de vida e vida própria. E não seria este o papel do jornalismo?

O jornalista Tomás Eloy Martínez, já no ano de 2002, nos dá um exemplo sobre esta relação: “Quando lemos que um terremoto em Bangladesh causou um número de cem mil vítimas, os dados nos surpreendem, mas não nos comovem. Contudo, se lemos, em vez disso, a tragédia de uma mulher que foi deixada sozinha no mundo após o tsunami e seguimos a história de suas perdas, passo a passo, saberíamos tudo o que há para saber sobre esse tsunami…” 

Destarte, pensar em resumir a atividade jornalística na cobertura de estatísticas, estudos acadêmicos, informações oficiais e até mesmo na opinião de especialistas seria destruir toda a humanidade presente em cada história e afogar a melhor profissão do mundo num mar de simplismo. Mas ainda bem que nossa realidade é bem diferente, não é? 😉

Há duas semanas, falávamos sobre como a literatura pode contribuir para o ressurgimento de uma narrativa jornalística mais real e humana. Hoje vou falar sobre como a mesma literatura nos traz, de forma sensata e real, a noção de tempo e de que modo esta noção pode agregar positivamente ao jornalismo.

Para dar o pontapé inicial, me apoio no artigo do jornalista Allan de Abreu, sobre a relação da literatura e jornalismo. Ele defende: “[…] pensam, os arautos do jornalismo, que o leitor não tem tempo para ler um grande texto, nem tem paciência para ‘decifrar’ uma frase construída além da meia dúzia de técnicas já decoradas pelo repórter e pelo editor e, por conseqüência, introjetadas no público.” Nesse sentido, tendo muito a concordar com ele. 

O ser humano nunca tem – e nunca teve – tempo para nada. As grandes obras literárias, e até mesmo os contos infantis, nos mostram que o ser humano sempre está correndo contra o tempo. No livro Momo e o Senhor do Tempo (1973), por exemplo, as personagens são devoradas – literalmente – pelos Homens Cinzentos, que têm o objetivo de consumir o tempo dos seres humanos. Esta é uma clara analogia ao tempo que perdemos com as tarefas repetitivas, burocráticas e que nos fazem, muitas vezes, perder os sentidos e esquecer de que temos uma vida humana. Mas gostaria de focar na personagem principal da novela de Michael Ende: Momo.

Em um determinado ponto da história, o autor nos conta: 

“O que Momo sabia fazer melhor do que ninguém era ouvir. […] Muito pouca gente sabe ouvir de verdade. E o jeito de Momo ouvir e entender era muito especial. […] fitava as pessoas com seus grandes olhos negros, e nelas surgiam pensamentos que nunca tiveram antes, como se lhes tivessem sido encravados por aquele olhar. Momo ouvia de um jeito que fazia os desesperados ou hesitantes de repente saberem o que queriam.” 

No fundo, caro leitor, Momo tinha esse “superpoder” porque, simplesmente, tinha tempo disponível e queria doá-lo para quem realmente interessava: as pessoas.

Por isso, o discurso de que o leitor não tem tempo para ler, frente à quantidade de informação que fica à sua disposição, me parece pouco razoável. Sobretudo em tempos que diretores e lideranças dos veículos classificam suas audiências com adjetivos como “atenta”, “exigente”, “bem informada” e “respeitosa”. O fato é que os seres humanos têm tempo para consumir as matérias de um jornal. Mas esse tempo só será dedicado àquilo que os interessa. Sempre estarão dispostos a escutar e a ler uma boa história que só os verdadeiros vocacionados – sim, os que são verdadeiramente chamados no sentido etimológico da palavra – ao jornalismo podem oferecer.

E assim, a literatura nos dá sua 2ª aula. Mas também deixa uma lição de casa. Afinal, vale a pena nos rendermos aos Homens Cinzentos e nos deixarmos devorar pelo tempo e pela correria das publicações jornalísticas em nome da informação de todos os fatos?  Ou melhor seria confiar que as verdadeiras histórias humanas – ainda que difíceis de serem encontradas, mais extensas, porém bem contadas – podem contribuir além de tudo para que o leitor enxergue a sua humanidade e a realidade como ela é?

Há muito tempo, os grandes clássicos da literatura mundial nos mostram o quanto a linguagem literária e as histórias bem contadas podem afetar positivamente a vida do ser humano. Não à toa, contos e histórias como as de Cervantes, Dickens, Dostoiévski e Machado de Assis seguem atuais ainda hoje. Apesar de se tratar de um mundo diferente do jornalismo, a literatura tem muito a ensinar aos seus profissionais. 

Ainda que a “overdose” de informação seja um modelo constantemente adotado pelos veículos com o argumento de informar bem o leitor (e aqui deixo um relevante artigo para refletir sobre o assunto), a entrega dessa informação tem atingido níveis de qualidade cada vez mais preocupantes. Notas informativas com um “lide” engessado e que não informam nada além do óbvio, aspas que tomam conta de praticamente todo o texto e notícias que mais se parecem artigos científicos – de tantos especialistas que nelas falam – têm sido cada vez mais comuns nos conteúdos dos veículos.

Quando alguém é testemunha de um acidente na estrada ou de um histórico jogo de futebol, por exemplo, poucas coisas lhe interessaram tanto quanto o relato daquilo que presenciou pessoalmente. Pensando nisso, podemos dizer que as palavras das notícias não são simplesmente uma mera prestação de contas do que acontece na realidade. É muito mais que isso. As palavras são confirmações de que tudo o que vimos e tudo o que acontece pelo mundo aconteceu de verdade e com uma imensidão de detalhes que nossos sentidos não foram capazes de captar. Esse é o grandioso papel do jornalista! 

E é aí que a literatura dá a sua primeira lição. Afinal, é tão necessário gastar força, tempo e até mesmo capital, informando sobre tantos assuntos que, em sua maioria não afetarão a vida das pessoas, ou as poucas histórias humanas – tão bem contadas como as da literatura – podem fazer muito mais do que imaginamos?