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Desde o lançamento da edição de 2022 do tradicional estudo Digital News Report, do Reuters Institute, no último dia 15 de junho, alguns setores da mídia brasileira têm comemorado o fato de o país registrar um índice de confiança nas notícias superior à média global. O percentual (48%) realmente é maior do que os 42% que representam a combinação dos 46 países investigados e isso deve ser destacado. Porém, é preciso olhar o contexto: o dado representa uma queda de confiança do brasileiro nas notícias.

A credibilidade medida no ano passado foi de 54% e isso representou um leve – e único – aumento de três pontos percentuais, impulsionado pela cobertura do início da pandemia, quando a população recorreu massivamente aos veículos profissionais em busca por informação confiável. Este fenômeno, aliás, foi percebido em veículos do mundo todo através do aumento pontual de tráfego nos sites e de audiência em canais de TV. Poucos meses depois, os números voltaram aos seus patamares anteriores, outros entraram em queda: era o fenômeno de news avoidance que se apresentava.

A história recente do índice de credibilidade no noticiário, aqui no Brasil, infelizmente, não é dos melhores. O Reuters Institute mensura esta confiança desde 2015, quando o jornalismo brasileiro representava um porto seguro de informações para  62% da população. No consolidado dos últimos sete anos, portanto, menos gente acredita no trabalho da imprensa e isso corresponde a uma queda de nada menos que 14 pontos percentuais [gráfico acima, reprodução do DNR22].

Neste ano, o Brasil não está sozinho, é claro, na perda de confiança pelo público. Nosso índice está acima da média global porque cerca da metade dos países pesquisados também registrou queda de credibilidade. Ou seja, a média global, em si, caiu; portanto, ficou mais fácil ficar acima dela. A imprensa dos Estados Unidos nunca teve um grau tão baixo de confiança desde 2015 e hoje ocupa o último lugar no ranking mundial, ao lado da Eslováquia, com 26%.

O Brasil está em nono lugar, atrás do Quênia, da Nigéria, da África do Sul, por exemplo [gráfico ao lado]. Isso abre margem para repensarmos o quanto veículos como o New York Times realmente devem ser considerados como exemplos a serem seguidos na formulação de estratégias editoriais e de modelos de negócio. Cabe lembrar, também, que o NYT antecipou o alcance da meta de 10 milhões de assinantes, projetada para 2025, ao comprar o veículo The Athletic e a plataforma de jogos Wordle e, com eles, suas respectivas carteiras de clientes.

Brasileiro é o povo que mais evita notícias

De volta ao Brasil, o Reuters Institute traz outro dado ainda mais preocupante no Digital News Report deste ano: somos o país que mais evita, deliberadamente, o consumo de notícias.

news avoidance é um comportamento que o estudo mapeia desde 2017 e identifica pessoas que decidem ignorar jornalismo. Naquela ocasião, apenas 17% dos brasileiros confessavam evitar ler, assistir ou ouvir conteúdo noticioso. Em 2019, este número já havia subido para 34% e também era superior à média global, então de 32%. Já neste ano, a quantidade de pessoas que evita ativamente o noticiário disparou para 54% – o maior índice global.

A diferença do dado de news avoidance entre o Brasil e o segundo lugar – Reino Unido – é de oito pontos percentuais, uma das maiores de todo o ranking. A situação fica ainda mais grave se compararmos nossos 54% com a média global, que é de 38% neste ano [gráfico a seguir].

brasil jornalismo audiências news avoidanceJá são cinco anos que os números nos alertam para a diminuição intencional no consumo de jornalismo. Segundo o relatório, há mais brasileiros desinteressados em notícias do que dispostos a acompanhar o trabalho dos veículos. Em paralelo, os modelos de geração de receita nunca apontaram com tanta força para o reader revenue (assinatura, membership, micropagamento, doação). Qual estratégia teremos que adotar para reconquistar a atenção das audiências a ponto de torná-las dispostas a pagar pelo nosso trabalho?

Uma coisa é certa: continuar cegamente o que temos feito até hoje, efetivamente, não resolverá o problema – ao contrário, o número de news avoiders brasileiros continuará subindo.

O que afasta a população das notícias

O próprio relatório do Reuters Institute dá algumas pistas sobre o que afasta o público do jornalismo. Num olhar geral sobre a amostra, quase a metade daqueles que dizem fugir das notícias alega que está esgotada da cobertura política e sobre o Covid-19. É importante lembrar, no entanto, que os relatórios de 2017 e de 2019, quando 17% e 34% dos brasileiros já confessavam estar fartos de jornalismo, não havia pandemia. Isso nos obriga a olhar para o noticiário político, cuja proporção é esmagadoramente maior na agenda de boa parte dos veículos, em relação a qualquer outro tema.

Outra razão apontada pelo público é o impacto emocional negativo que as notícias causam (36%). Já discutimos este fenômeno no Orbis Media Review e ele sempre vem associado ao crescimento do jornalismo de soluções: um modelo de reportagem em que o veículo não se limita à denúncia do que está errado, mas busca, efetivamente, mostrar como o problema pode ser resolvido.

Outros 29% admitem que estão saturados de notícia. A resposta para este problema é foco recorrente dos programas do Master Negócios de Mídia, quando estudamos casos de veículos que diminuíram a quantidade de publicações e, com isso, aumentaram resultados de audiência, de satisfação e de conversão (os mais exemplares são The Guardian, Le Monde e The Information).

Para um grupo de usuários mais jovens (até 35 anos), as notícias são difíceis de entender. O Brasil ocupa o segundo lugar, no mesmo relatório, entre os países onde a geração Z tem dificuldades para interpretar o que dizemos. Eles representam 15% dos news avoiders e estamos apenas atrás da Austrália, onde 16% dos jovens acham os produtos jornalísticos complicados.

É hora de agir

Diante destes fatos, é inevitável recuperar algumas premissas compartilhadas ao longo das últimas décadas por redações do Brasil e do mundo, na intenção de fazermos um exercício honesto de autocrítica, para identificarmos caminhos que nos levem a reverter este cenário:

  1. O jornalista é um mediador social, que traduz a informação colhida nas fontes para grupos de múltiplos níveis culturais. Precisamos falar e escrever de modo correto e acessível, sem o uso de jargões ou de vocabulário próprio do universo de nossas fontes. Como anda nossa linguagem? 
  2. Existimos para explicar como as coisas funcionam, para mostrar à população como ela será impactada pelas decisões tomadas nas instâncias de poder. Quem realmente se interessa pelo que publicamos?
  3. Se assumimos um compromisso com a isonomia, maior ainda deve ser a relação de transparência que mantemos com nossas audiências. É isso que elas esperam de nós. Conseguimos deter nossas convicções pessoais, sobretudo ideológicas, no exercício do jornalismo?
  4. Queremos ser relevantes, impactar o dia das pessoas, tornar a vida delas melhor. Como esperamos que elas se sintam ao consumirem um conteúdo que produzimos?

As perguntas e provocações não param por aqui. O mais importante, no entanto, é estarmos cientes da necessidade da mudança. Para alguns, a transformação do jornalismo pode começar no âmbito individual. Como sugestão, deixamos o Teste de Humildade Intelectual para Jornalistas, adaptado pelo Orbis Media Review a partir da revista científica Journal of Personality Assessment.

Só conseguiremos fazer um jornalismo melhor com jornalistas melhores. E para sermos jornalistas melhores, é preciso que busquemos ser pessoas melhores.

 

(Este texto é a parte III do artigo Jornalismo para além do conteúdo.)

Há outros – vários – papéis desempenhados pelo jornalismo. Cada um deles, entendo, se justifica mediante uma necessidade real e todos, invariavelmente, se transformam em mais e mais informação. Sim, aquela informação que habita o mesmo lamaçal das fake news e, no melhor dos mundos, disputa a atenção do usuário com produtos de entretenimento e com a pirataria. Tudo no mesmo ambiente, tudo ao alcance de um clique. Quem saberá distinguir o jornalismo de qualidade? Quem poderá percebê-lo tão valioso a suas vidas, a ponto de pagar por ele?

Isso me diz que já não basta ter qualidade. É preciso encontrar uma forma de as pessoas voltarem a depender do jornalismo para alguma coisa além de “se informar e entender a realidade”. É difícil fazer isso sem acompanhar o noticiário. E digamos que, mesmo acompanhando, a sensação de que produtos jornalísticos saciam uma necessidade do meu dia é cada vez mais rara. Talvez as minhas necessidades sejam outras? Talvez outras fontes mais próximas estejam me mantendo informada e a par da realidade? Talvez mais pessoas estejam agindo assim?

Não se pode dizer, entretanto, que não haja outras “dores” a serem sanadas entre a população. Várias delas, aposto, poderiam ser atendidas por meio do trabalho de jornalistas e de veículos de comunicação. Não sabemos apenas produzir conteúdo.

  • Sabemos escutar, fazer perguntas, moderar o debate; podemos (ajudar o público a) dialogar.
  • Sabemos investigar, reagir com rapidez na busca por contatos e informações; podemos resolver problemas. (Tks, Victor Vieira!)
  • Temos o domínio da fala, da língua, da escrita, da comunicação; podemos ensinar.
  • Nutrimos relações ecléticas; podemos facilitar o convívio.
  • Carregamos um repertório cultural rico; podemos compartilhar e enriquecer outras pessoas.
  • Buscamos especialistas para que digam como agir em determinada situação; sabemos aconselhar.
  • Temos acesso privilegiado a diferentes instâncias de poder; podemos construir pontes, promover encontros, suscitar projetos.
  • Temos projeção midiática e, embora não sejamos mais os únicos, podemos emprestá-la a quem precisa, com legitimidade e boa intenção. 

O que mais temos, sabemos e podemos fazer pela sociedade? Que outras habilidades carregamos no âmago da nossa profissão?

No fim das contas, ficam três perguntas:

  1. Qual dor real do usuário temos para tratar? (Quais problemas a sociedade enfrenta hoje?)
  2. Assim como a Fujifilms, quais habilidades subjacentes temos em nossa atividade?
  3. No que podemos aplicar tais habilidades, para além da produção de conteúdo (ou de filmes fotográficos)?

INÍCIO
PARTE I: Mercado saturado e mercado decadente: a natureza infinitamente reprodutível da informação
PARTE II: Por que o jornalismo surgiu?


(Este texto é a parte II do artigo Jornalismo para além do conteúdo.)

Por muitos anos o mercado necessitava de filmes mais baratos e lá estava a Fuji, fazendo frente à Kodak. Ela surgiu para cumprir um papel e sanar uma demanda real – ou aquilo que o marketing costuma chamar de “a dor do usuário”. Aí reside o porquê de uma empresa existir e de um produto ser lançado. Você já sabe onde quero chegar: por que o jornalismo surgiu? Qual foi a “dor” que ele veio sanar?

Lancei esta pergunta no Linkedin e provoquei alguns colegas na busca por respostas. Minha expectativa era a de que, se soubermos qual foi a necessidade que levou ao surgimento do jornalismo, talvez pudéssemos identificar habilidades subjacentes em nossa atividade que tomem forma noutros produtos para além de conteúdo.

Três respostas se destacaram por situarem nas pessoas – e não nos veículos – a razão de o jornalismo existir. João Gabriel Lima, que foi editor executivo de vários veículos brasileiros de grande porte e, hoje, é acadêmico da Comunicação, recorreu a Jürgen Habermas e explicou que o jornalismo surgiu “porque as cidades-estado europeias precisavam de informações econômicas no renascimento comercial”. O primeiro tipo de jornalismo, portanto, foi o econômico, para suprir uma demanda bem específica: a “dor” de fazer negócios e não ter informações que orientariam os comerciantes da Idade Média.

Jornal da época da Revolução Americana estampava na capa a frase “join or die” (junte-se ou morra). A indicação da imagem é do jornalista João Payne e evidencia o posicionamento dos jornais da modernidade.

João Arantes Payne, jornalista e mestre em Ciências Políticas, respondeu que o jornalismo surgiu para atender a “necessidade que determinadas pessoas tinham de se posicionarem politicamente e abraçarem causas que julgavam importantes”. O Brasil mesmo teve jornais republicanos e antimonárquicos, que caçoavam do Imperador, lembra João.

Nos Estados Unidos do século XIX, as publicações serviam, explicitamente, como armas ideológicas para a disseminação de ideais políticos durante a guerra contra a Inglaterra. Este uso da imprensa como ringue de intelectuais atuantes no debate público também foi apontado por João Gabriel, ao recordar o jornalismo da era moderna. 

Objetividade jornalística, uma invenção publicitária(?)

O posicionamento explícito dos primeiros veículos jornalísticos cedeu lugar à pretensa objetividade da notícia quando a publicidade começou a financiar a atividade. Para ser efetivo, o anúncio deveria chegar à maior quantidade possível de leitores e não apenas àqueles que se identificavam com a ideologia ou com o segmento de assuntos do jornal. O veículo generalista, portanto, assim como a isonomia do discurso ganham terreno após a Guerra da Secessão americana, quando uma economia danificada precisava estimular o consumo. 

Pois bem, temos duas necessidades concretas que ocasionaram o surgimento do jornalismo: a dos comerciantes europeus da Idade Média e a dos intelectuais políticos em tempos de revolução. Ariel Giusti, especialista em mídia e tecnologia na educação, simplificou a questão ao sinalizar que o jornalismo foi criado “pela necessidade das pessoas de estar informadas e entender a realidade”.

De certa forma, a causa apontada por Giusti engloba as duas anteriores e vai além, possivelmente, contemplando a razão pela qual o jornalismo existe nos dias atuais. Poderíamos problematizar a resposta e perguntar: por que as pessoas têm a necessidade de estar informadas e entender a realidade, mas a discussão tomaria um rumo sociológico denso e não é a pretensão deste artigo. Tomemos esta necessidade, então, apenas como uma verdade instituída. Precisamos nos informar, precisamos entender a realidade. E é compreensível que as sociedades modernas e medievais dependessem de jornais para tanto. Minha inquietação é: em qual medida ainda dependemos de produtos jornalísticos para nos informar e para entender a realidade?

Penso em qualquer pessoa, não apenas nos comerciantes e nos intelectuais. Estes foram os early adopters do jornalismo e continuam servidos por veículos segmentados e por espaços de análise dos veículos. Assim como as sociedades, porém, o jornalismo também evoluiu e passou a desempenhar outros papéis de relevância inquestionável a seu momento.

Jornalismo amigo

Os anos 80 assistiram a apoteose do jornalismo de serviço, especialmente protagonizado pelas revistas. A jornalista e pesquisadora espanhola María Pilar Diezhandino registra que, naquela época, a indústria jornalística lutava para reconquistar sua credibilidade em um cenário de crise econômica generalizada. O caminho encontrado foi aproximar o veículo de seus leitores, oferecendo um jornalismo amigo, parceiro, capaz de ensinar o público a lidar com situações reais da vida.

O conteúdo lifestyle e voltado a grupos de interesse procura antecipar e dissecar temas que, invariavelmente, bateriam à porta das audiências. Programas de variedade, revistas de meninas adolescentes a aficcionados por carros serviram de bálsamo para um retorno gradual à liberdade de imprensa pós-regime militar no Brasil e respeitaram o espaço das investigações ancoradas por veículos hard news.

Jornalismo curador

Embora o termo tenha ganhado evidência na última década, a curadoria está na raiz da atividade jornalística. Emílio Moreno, jornalista e editor do projeto Firma Preta, se apega ao conceito de gatekeeper como uma figura imprescindível à sociedade. “Alguém precisa separar, filtrar e organizar aquilo que define o que será informado para as pessoas”, aponta como razão para o surgimento do jornalismo. “E olha que lá atrás a gente nem tinha tanta informação assim”, completa.

Jornalismo porto seguro

Em uma função complementar à curadoria, o jornalismo surgiu para “servir de porto seguro em relação à confiança das informações”, pontua Geraldo Nascimento, jornalista e chefe de redação da Rede Gazeta (ES). A segurança inspirada por um veículo jornalístico foi um dos principais ativos, uma daquelas habilidades subjacentes que nos autorizavam a produzir conteúdo. Lamentavelmente, como se sabe, a credibilidade se tornou um dos pontos mais frágeis de nossa atividade.

O Digital Media Reports deste ano, publicado pelo Reuters Institute, identificou que a confiança nas notícias caiu na metade dos 46 países pesquisados e subiu apenas em sete. A média global é de que 42% das audiências dizem confiar em produtos jornalísticos na maior parte do tempo. No Brasil, este índice é de 48%, mas ainda corresponde a menos da metade dos participantes. É preciso reconhecer que não somos mais percebidos como um porto tão seguro assim.

CREDIBILIDADE DO JORNALISMO NO BRASIL, SEGUNDO O DIGITAL NEWS REPORT, DA REUTERS, (2021 x 2022):

2021

2022

Depois de a pandemia ter levado o público de volta ao consumo de jornalismo profissional em 2021, justamente em busca de informação crível, a credibilidade da imprensa voltou a cair no Brasil.

Jornalismo cão de guarda

A reportagem investigativa e o noticiário de denúncia elevaram a relevância dos veículos a um patamar superior àqueles que justificaram a criação do jornalismo. Autoproclamada como o quarto poder de um regime democrático, a imprensa derrubou políticos e expôs ilegalidades de toda ordem – do sistema de saúde a instituições educativas e religiosas, de máfias urbanas a redes de prostituição -, frustrando os planos dos detratores da lei e da dignidade humana. Reportagens históricas como o escândalo do Watergate ou a força-tarefa Spotlight são expoentes de uma frente de esforços tão invisíveis quanto o rosto de Giovani Grizotti, e tão marcantes quanto a morte de Tim Lopes. Mas são eventuais. Claro, tomam tempo, exigem uma dedicação fora do comum. O maior problema do jornalismo cão de guarda, porém, acontece em duas ocasiões: 1) quando o jornalista confunde seu papel com o de justiceiro social, militante e atuante em causas não consensuais; 2) quando a queda de um político denunciado pelo veículo se torna o auge da carreira do repórter, que o celebra como uma legítima conquista profissional. Enquanto o objetivo, o êxito de qualquer atividade estiver concentrado na ruína de terceiros imbuídos de autoridade e poder, a vaidade se traveste de “missão social” nada de bom se constrói.

INÍCIO
PARTE I: Mercado saturado e mercado decadente: a natureza infinitamente reprodutível da informação
PARTE III: O que sabemos fazer?

Ao final deste artigo, você irá encontrar três perguntas:

  1. Qual dor real do usuário temos para tratar? (Que problemas existem hoje?)
  2. Assim como a Fujifilms, quais habilidades subjacentes temos no jornalismo?
  3. No que podemos aplicar tais habilidades, para além da produção de conteúdo (ou de filmes fotográficos)?

Para ajudar a responder, acompanhe o raciocínio que levou a elas:

PARTE I: Mercado saturado e mercado decadente: a natureza infinitamente reprodutível da informação
PARTE II: Por que o jornalismo surgiu?
PARTE III: O que sabemos fazer?

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade e no equilíbrio da sua opinião. A credibilidade não é fruto de um momento. É o somatório de uma longa e transparente coerência. É daí que nasce a credibilidade.

A sociedade está cansada do clima de radicalização que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo militante. Um denominador comum marca a superficialidade que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: a politização.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir, mesmo com a melhor das intenções, certa politização das coberturas.

Em tempos de ansiedade digital, a reinvenção do jornalismo reclama revisitar alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente. Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir, mesmo com a melhor das intenções, certa politização das coberturas. Os desvios não se combatem com o enviesamento informativo, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida.

O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.

Sem jornais a democracia não funciona. O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos. Sua agenda é, ou deveria ser, determinada por valores perenes: liberdade, dignidade humana, respeito às minorias, promoção da livre iniciativa, abertura ao contraditório. O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blablablá inconsistente do teatro político, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

Artigo publicado em 16/05/22, na Gazeta do Povo.

Dos mesmos produtores de “minha falha é ser perfeccionista” e da expressão “com todo o respeito” que antecede falas conscientemente desrespeitosas, cresce a recorrência dos adeptos ao “posso estar enganado, mas…“.

Esta semi(pseudo?)-humildade geralmente funciona no nosso discurso cotidiano como um salvo conduto, uma permissão para dizermos qualquer coisa como certa e verdadeira, ainda que não seja.

Lembrei disso ontem de manhã, ao conversar com o Pedro Franco, pesquisador brasileiro na New York University (NYU), sobre Humildade Intelectual (HI). Numa breve busca sobre o tema, encontrei este artigo publicado em 2020 no Journal of Personality, dizendo, em síntese, que:

A Humildade Intelectual (HI) se refere a reconhecermos o quanto nossas crenças pessoais ou percepções podem estar erradas. Quanto mais baixa a HI, maior a tendência em presumir que pessoas que pensam diferente de nós são intelectual e moralmente inferiores. – thanks ao site O Futuro das Coisas

Originalmente, a pesquisa relata a percepção que temos de nossos oponentes políticos e do quanto a falta dessa Humildade Intelectual está na raiz do que hoje chamamos “polarização do debate”. O autor, Mattheu L. Stanley, PhD em Psicologia e Neurociência na Duke University, notou que as pessoas que concordam com a frase “Eu aceito que minhas crenças e atitudes possam estar erradas” são menos propensas a rotular negativamente seus oponentes.

A arrogância do cancelamento

Isso tem a ver com uma notícia que li também ontem pela manhã, referente às demissões na redação da Revista Crusoé, ocorridas ontem. Abertamente identificada com a “causa” Lava Jato e tradicionalmente apoiadora de Sérgio Moro no cenário político, o site O Antagonista, pai da Crusoé, nunca ocultou o posicionamento nem a identidade editorial do grupo. Na notícia que li, o ex-deputado Jean Wyllys, do PSOL, se referiu aos (ex)integrantes da revista e a seus simpatizantes como “uma classe dominante burra.

Para além da singeleza do adjetivo usado por Jean Wyllys para se referir a um grupo político oponente – o que pode ser pior que “burro”? bobo? feio? – o ex-parlamentar serviu como perfeito exemplar da espécie dos desprovidos de Humildade Intelectual ao anular sumariamente qualquer possibilidade de diálogo com aqueles que discordam de suas crenças. Sim, isso é o chamado “cancelamento”. E pode acontecer em qualquer direção, sob qualquer ideologia.

Existe humildade intelectual no jornalismo?

Deixando o debate político para entrar no universo jornalístico, me perguntei como o jornalista se relaciona com a Humildade Intelectual, uma vez que a informação publicada em veículos se propõe verdadeira e correta? Será que o jornalismo ocupa um patamar que está acima da Humildade Intelectual e é assim que deve ser?

Não faria sentido o editor ponderar possíveis falhas ou pedir “desculpa por qualquer coisa!” no fim de cada matéria. Até porque esta seria aquela semi-pseudo-humildade de que falamos antes. O processo jornalístico, assim como o método dialético, deveria ser a garantia de que toda informação publicada seja verdadeira. Mas também como a dialética, onde toda tese está sujeita a uma antítese que levará à síntese, o trabalho do jornalista é uma construção intelectual, um recorte da realidade (framing) segundo esse próprio jornalista.

IMPORTANTE: É importante destacar que esta reflexão não se propõe filosófica, ou seja, questionar a existência de uma só verdade tampouco sobre o que é esta verdade. Tomemos aqui verdade como compromisso jornalístico, com o fato real e não com a ficção.

O ideal de espelhar a realidade em nossos relatos fez com que nossa profissão acreditasse, por muitas gerações, que estaria dispensada da humildade intelectual. Inclusive se consolidou o contrário: jornalista precisa ter certeza daquilo que diz, sem margens a subjetividades e enviesamentos, sob pena de enfraquecer a matéria.

Notícia nunca foi lugar de discussão, mas de afirmação. Não existe notícia beta e toda correção a ser feita dói na alma do profissional, marca a fogo como o gado, brutalmente, destruindo a credibilidade longamente conquistada.

O ideal se transforma em premissa

Toda essa necessidade premente que o jornalista carrega de trazer certezas no que diz se transformou, aos poucos, de ideal em premissa. No ideal, olho para a frente, para aquilo que almejo, aonde quero chegar. Na premissa, ao contrário, eu parto de uma certeza: a de que tudo o que eu diga será a verdade, sem lugar para questionamentos ou para enquadramentos diferentes – sem espaço para a humildade intelectual.

E isso ficou explícito no comentário que um colega deixou – espontânea e anonimamente – em uma pesquisa sobre diálogo com as audiências, que temos feito aqui no Orbis Media Review (em breve será publicada):

Pouco converso com o público. Usualmente, só para corrigir alguma informação inverídica publicada por algum leitor em resposta ao que publico em meu perfil pessoal, ou para dar algum tipo de esclarecimento em caso de má compreensão na leitura das reportagens. Sempre com o fim de evitar que distorções se espalhem. No mais, evito ao máximo discussões em redes sociais e nunca opino a respeito de nada. Minha apuração está no texto da reportagem. Ela é mais importante do que qualquer opinião pessoal.

Confesso que fiquei impressionada com a assertividade do comentário do (ou da) colega!

Perceba, no texto, que tudo o que vem do público já vem manchado pelo “erro”:

… corrigir alguma informação inverídica publicada por algum leitor…

… esclarecer em caso de má compreensão na leitura das reportagens…

Ele (ou ela) só vai dialogar com o leitor para corrigi-lo. Este é seu dever porque o que ele (ou ela) diz é o correto. Perceba que ele (ou ela) sequer cogita a possibilidade de ser corrigido pelo leitor. Ou ainda, se isso acontece, não é uma interação que mereça a sua resposta.

Sua apuração que está na reportagem é soberana, única e inquestionável. – Uma vez que isso é dito de forma ampla e não se referindo a uma reportagem específica, fica nítida a baixa humildade intelectual, a indisponibilidade para dialogar com o diferente, a certeza de que a verdade está em si e que esta é uma premissa, não um ideal.

Por que isso é tão grave?

A gravidade de uma baixa humildade intelectual não leva apenas ao cancelamento do oponente, mas fere valores que a própria comunidade jornalística defende com veemência: a começar pela democracia e pela pluralidade de ideias, pela riqueza do debate.

Mais grave ainda é a falta do reconhecimento de que, sim, podemos estar redondamente enganados, de que somos falíveis e de que algo não se consolida como verdade porque saiu no jornal ou na TV. Até porque nossa própria apuração pode estar enviesada, mesmo sem querer, pelo simples fato de ser… nossa!

Queremos, sempre, acertar. Este é o ideal. Mas sentir que somos infalíveis é tão grave quanto errar. Pior, talvez. A humildade intelectual pode ajudar a crescermos na intenção, no compromisso, no esforço – mas nunca na premissa – de acertar.

O que eu ganho com a Humildade Intelectual?

Ganha novas ideias. Não é o caso de absorver o ponto de vista de quem confronta o seu relato. Você pode continuar discordando de seus oponentes. Mas o fato de se expor a perspectivas opostas leva a sua mente a aprimorar o seu ponto de vista, desenvolvendo um raciocínio mais refinado, que buscará sempre superar o seu opositor.

Esta tentativa de superação não pode ser confundida com a Humildade Intelectual em si, ao contrário. Ela é o movimento natural da mente em busca de uma readequação do pensamento e, se for feito a partir da anulação do ponto de vista contrário, só reforçará a arrogância do indivíduo. O aperfeiçoamento do raciocínio acontece a partir do reconhecimento – temporário ou permanente – de que o seu oponente pode estar certo. Só assim você identificará os pontos onde precisa melhorar a sua construção.

Outra pesquisa na área da Psicologia, da Universidade da Califórnia, concluiu que adultos intelectualmente humildes desenvolvem maior capacidade cognitiva, são mais criativos e aceleram processos de aprendizagem. Para chegar a este resultado, porém, tiveram que ouvir e pensar a respeito de pontos de vista radicalmente opostos aos seus.

Teste sua Humildade Intelectual

Este teste, recomendado por vários pesquisadores, foi desenvolvido por um… jornalista! Shane Snow já publicou na GQ, New Yorker, Wired e Fast Company sobre inovação e desenvolvimento humano. Já desenvolveu reportagens investigativas sobre tráfico de armas e corrupção governamental. O teste armado por ele é amplo e avalia a Humildade Intelectual do participante em âmbito geral da vida.

Nós preparamos uma adaptação para jornalistas, a partir do teste The development and validation of the Comprehensive Intellectual Humility Scale, publicado pelo Journal of Personality Assessment. Descubra o seu score de Humildade Intelectual.

BAIXAR O TESTE DE HI PARA JORNALISTAS (pdf)

 

Passado o entusiasmo gerado pelo aumento de audiência em veículos jornalísticos digitais, registrado no início da pandemia, a preocupação com o tráfego volta às redações. Não é para menos: grandes players da mídia nacional viram seus índices em queda no segundo semestre do ano passado e a imprensa internacional não mostra uma condição incrivelmente melhor.

Por outro lado, o tráfego direto sobe 9 p.p. na média dos veículos analisados desde 2020 pelo Orbis Media Review. A busca orgânica mentém a entrega como fonte de audiência. Então, qual canal vem entregando menos audiência? São raros os editores que ainda não notaram a retração das redes sociais como fonte de tráfego.

Mídia nacional X internacional

Recentemente, a ferramenta Chartbeat divulgou que as plataformas de relacionamento passaram a levar mais usuários aos sites jornalísticos de Latam no último trimestre de 2021, em comparação ao mesmo período do ano anterior. O share da entrega corresponderia a 20% do total das visualizações de página, no nosso pedaço de continente. Tomando o período de dois anos, porém, pelo SimilarWeb, a queda se acumula entre 2020 e 2021 (3p.p.) e entre 2021 e 2022 (1p.p.).

É verdade que a medição do biênio 2020-2022, mostrada neste relatório (download gratuito) considera apenas a navegação em desktop, onde também houve o aumento do tráfego direto. Por mais que o consumo de informação em mobile tenha aumentado cerca de 3p.p. neste mesmo período, de acordo com o Statista, o consolidado de audiência desktop e mobile para sites de notícia ainda segue tendência de queda, especialmente no mercado nacional.

As diferenças na composição do tráfego entre a imprensa brasileira e a internacional vão além. Lá fora, a busca orgânica se mostra com mais fôlego para geração de audiência quanto no Brasil – o que nos leva a pensar em:

a) nós, brasileiros, procuramos menos notícias? ou
b) o esforço com SEO pode ser melhorado nos veículos/

Outro ponto curioso é o quanto os referrals externos têm uma representatividade nos relatórios de audiência. Não é possível afirmar o porquê de tal diferença, uma vez que não se sabe quais são os sites que levam o usuário às páginas noticiosas no exterior. Podem ser desde fóruns até outros players. Talvez seja possível afirmar, pelo menos, que lá fora é mais forte a cultura de linkar para conteúdos externos – o que não deixa de ser algo bom para se aprender.

E as newsletters? O velho-novo formato salvador! É bom esquecer, se a meta do negócio ainda está pautada pelo tráfego. Nos veículos brasileiros analisados, o que já era pouco em 2020 (4%) ficou ainda mais escasso neste ano (1%).

Para pensar:

Ainda vale postar chamadas nas redes sociais?

Quanta mão-de-obra o seu veículo investe para alimentar seus perfis de redes sociais? Quanto tempo isso toma da sua equipe? Isso tem, realmente, valido a pena? O retrospecto e a tendência são de queda de resultados. E isso não tem nada a ver com a quantidade de seguidores, que sempre irá subir! Avalie e realoque sua equipe naquilo que, de fato, pode aumentar seus resultados.

Quando fazer newsletters?

Qual o tamanho do esforço que sua equipe tem empregado na produção de newsletters? Está bem que você se orgulha das suas taxas de abertura. Mas qual o retorno desse trabalho no fim do mês? A menos que você use newsletters como ferramenta de marketing ou que ela se monetize por si só, elas drenam um tempo e uma força de trabalho que podem ser mais produtivos se alocados noutra frente do veículo.

Na tarde da última segunda-feira (4), três aplicativos de comunicação ficaram fora do ar em todo o mundo. Difícil que tenha passado despercebido a alguém. Facebook, Instagram e WhatsApp, que atingiram as marcas de segundo, terceiro e quarto lugares, respectivamente, dos mais baixados globalmente em abril deste ano[1], pararam repentinamente – e levaram cerca de sete horas para voltar a funcionar.

O noticiário trouxe – até mesmo na televisão – uma explicação técnica, e que representa uma parte do problema. Quando os repórteres escreveram ou falaram sobre o “DNS”, ofertaram ao público uma justificativa da engenharia para o apagão. Perguntamos se tal informação poderia efetivamente se juntar ao entendimento do indivíduo sobre o funcionamento da rede.

Embora a questão do “DNS”, do endereço digital, resuma, talvez precipitadamente, o motivo do problema, é pertinente que a imprensa discuta o aspecto da responsabilidade da big tech na vida rotineira. Em que medida os indivíduos e empresas passaram a depender de serviços digitais para as práticas de relacionamento pessoal e de negócios?

Algumas manchetes destacaram o declínio da fortuna de Mark Zuckerberg diante do problema com os acessos. Tal fortuna pode ser colocada à prova diante da intenção de pedidos de indenização. Para o advogado Kaique Yohan Kondraski Servo, entretanto, “seria difícil vencer sobre o Facebook, dada a condição de caso fortuito ou de força maior com o que se parece o defeito nas plataformas”.

Para alguns, ficar sem esses programas representou ficar “sem Internet”. Com a falha do Facebook, houve crescimento no número de reclamações contra as operadoras de telefonia e de conexão[2]. Há quem tenha mexido no roteador, para recobrar o acesso perdido.

Jardins murados

Em alguns planos de telefonia, o acesso a determinadas plataformas não é cobrado. Mesmo que o cliente não tenha créditos, ele pode continuar a navegar. É o “zero-rating”, que contribuiu para a ideia de “jardins murados”.

Para o pesquisador-responsável pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação Política e Democracia Digital (Compadd) da UFPR, Rafael Sampaio, “uma mudança começa a ser sentida a partir da Web 2.0, quando as plataformas passam a criar muros digitais. As pessoas passam a maior parte do tempo dentro dessas plataformas. Então, se aquela rede específica para de funcionar, a Internet como um todo também para, na experiência do usuário”.

Quais riscos essa percepção levanta? O quanto nós, da indústria da comunicação, contribuímos para que estes “jardins murados” se mantenham e, até, se fortaleçam?


[1] Dados da consultoria Sensor Tower.

[2] G1. “WhatsApp fora do ar: Anatel diz não ter sido notificada sobre problemas em operadoras e afirma monitorar situação”.

Por Marcelo de Mattos Salgado

Apesar da história do fact checking – ou checagem de fatos – ainda ser disputada, as primeiras tentativas de formalizar a busca por precisão factual máxima nos jornais teriam acontecido por volta de 1920, nos EUA. Muito depois, já na era digital, a ideia de checagem passaria por sites norte-americanos como Snopes, criado em 1994 para, inicialmente, investigar lendas urbanas, além do Factcheck.Org (2003) e do Politifact (2007).

Já no Brasil de hoje, a materialização das incrivelmente autonomeadas agências de checagem de fatos aconteceu em 2015, sobretudo com Aos Fatos e Agência Lupa. A partir de 2016, de forma severamente guiada pela mídia e por outros atores de esferas intelectuais, emergiu a expressão “pós-verdade” — que até virou palavra do ano do dicionário Oxford. Também renasceu o termo fake news, rapidamente conectado às eleições dos EUA de 2016 e, quase que exclusivamente, a Donald Trump e à direita política nas redes digitais.

Outro alvo do suposto apelo às fake news e à pós-verdade foi, também em 2016, a vitória do Brexit — a saída do Reino Unido da União Europeia. O Brexit, assim como a eleição de Trump naquele ano, também fora algo a que as mesmas elites pensantes se opuseram amplamente. O motivo: costumam abraçar o globalismo, o qual muitas vezes chamam “teoria da conspiração” (embora seja cada vez menos razoável) ou confundem com globalização por burrice ou malícia.

As agências de checagem, mais do que um novo gatekeeper, são uma tentativa artificial e arbitrária de conferir, à canetada, um verniz de legitimidade ao jornalismo e tentar recuperar sua confiabilidade

O globalismo, grosso modo, enfraquece as democracias nacionais e reduz os poderes locais ao concedê-los a burocracias internacionais como a ONU (caso da OMS nesta pandemia) e a referida União Europeia, ambas fortemente conectadas a e pressionadas por fundações bilionárias. São estruturas formadas por pessoas que nunca receberam um voto sequer de um cidadão comum, pagador de impostos.

Mecanismo forte

Este foi o contexto em que nasceram e, até agora, prosperaram as agências de fact checking no mundo Ocidental. Mas, com a pandemia, o Ocidente está caminhando a passos largos em suas lições a respeito de hipertrofia estatal, autoritarismo e controle social, cada vez mais em fortes parcerias com as ainda mais agigantadas (e atrevidas) big techs, que são as gigantes digitais como Google (Alphabet) e Facebook.

É precisamente neste mecanismo que molda até mesmo as nossas mais essenciais percepções sobre a realidade que as agências de fact checking têm um papel básico e fundamental: determinar o que é verdade e o que é mentira. Mas há consequências muito mais graves a partir deste ponto inicial. Considere os efeitos cumulativos e automotivados deste tipo de sistema. Em outras palavras: ao longo de meses e anos, mais intensos serão os efeitos cumulativos das “checagens de fatos” a que nossa realidade e nós mesmos somos expostos.

Tudo começa pela simples escolha de quais veículos e notícias checar, o que faz do chamado fact checking muito mais uma luta por poder para escolher quem pode ou não falar e ser ouvido do que um apego honesto à busca pela verdade.

Em 2018, participei de um encontro informal com cerca de 30 colegas para debater o mercado editorial — com exceção de mim, uma elite de jornalistas, publicitários, professores, administradores etc. — em uma faculdade de renome na capital paulista. Tenho o hábito de fazer anotações (e as guardei). Em certo momento, a discussão abordou as agências de fact checking que inspiraram, na maior parte dos participantes, elogios e esperança.

Àquele grupo, eu disse — segundo minhas memórias e anotações — aproximadamente o seguinte: “As agências de checagem, mais do que um novo gatekeeper, são uma tentativa artificial e arbitrária de conferir, à canetada, um verniz de legitimidade ao jornalismo e tentar recuperar sua confiabilidade”. Lembro-me que o silêncio, com poucos sussurros, durou vários segundos até mudarem de assunto.

Desconfiança no jornalismo

Aliás, é bem documentado que a confiança do jornalismo continua em baixa nos EUA e no Brasil, mesmo com as medidas tomadas contra a pandemia forçando as pessoas a ficarem em casa. Segundo o Gallup, a confiança dos americanos na grande mídia vem sofrendo forte queda desde 1976, quando alcançou seu ponto mais alto: 72%. Em 2018, o índice chegou a 45% — após se recuperar de sua baixa histórica em 2016, quando desabou a apenas 32%.

Em 2020, a ausência de credibilidade já caiu de novo para 40%. No Brasil, o cenário não é diferente: o PoderData registrou queda da confiabilidade no jornalismo profissional em 2020. Apenas 18% consideram o jornalismo “muito confiável”, contra 30% que o classificam como “pouco” ou “nem um pouco” confiável e 50% que acham a imprensa brasileira “mais ou menos” confiável.

As agências de fact checking influenciam parcerias nacionais e internacionais entre checadores e big techs, os algoritmos das grandes redes e sites de pesquisa e, assim, a (in)visibilidade de conteúdo neles.

Retomo minhas palavras naquele encontro de 2018 e pergunto: seria o caminho da redenção tentar, por canetada, de maneira artificial, criar mais uma camada de burocracia jornalística com a intenção de determinar verdade e mentira?

Um dos elementos mais importantes — e raramente analisados — da checagem de fatos é quando ela alcança um resultado gelatinoso como “mostly true/false” (“na maior parte, verdadeiro/falso”), “subestimado” ou “verdadeiro, mas”. Tais termos mais dependem de manipulação seletiva da argila linguística e semântica pelo checador dos fatos do que, necessariamente, por aderência à realidade. E tudo começa pela simples escolha de quais veículos e notícias checar, o que faz do chamado fact checking muito mais uma luta por poder de quem segura o porrete verificador para escolher quem pode ou não falar e ser ouvido do que um apego honesto à busca pela verdade.

Ainda sobre “mostly true”, “subestimado” e afins: digo há mais de uma década que vagueza é poder. Quanto mais vaga e subjetiva a expressão usada — palavra, etiqueta, classificação e até lei — mais poder têm aqueles que as definem e, atenção, redefinem. No contexto atual, isto é particularmente verdadeiro não apenas para a checagem de notícias, mas para expressões incendiárias e emocionalmente carregadas como racismo, fascismo, genocídio e discurso de ódio. A própria fake news ainda não tem designação jurídica específica — não é crime definido em código algum no Brasil — mas já é usada em processos e até prisões.

Os autodefinidos checadores de fatos, que também são, em maioria, jornalistas de histórico e formação, cada vez mais decidem quem e o que aparece e some nas redes e buscadores, como Facebook e Google.

No fim das contas, os resultados do trabalho de fact checking — isto é muitíssimo importante — influenciam, desde parcerias nacionais e internacionais entre checadores e big techs, os algoritmos das grandes redes e sites de pesquisa e, assim, a (in)visibilidade de conteúdo neles. Em outras palavras, os autodefinidos checadores de fatos, que também são, em maioria, jornalistas de histórico e formação, cada vez mais decidem quem e o que aparece e some nas redes e buscadores, como Facebook e Google. O risco de censura, como vem acontecendo até com líderes de países, é muito real. Ficamos à mercê dos novos donos da verdade — mas, agora, com a etiqueta de grife de checagem de fatos. Que beleza.

Censura do bem

Sobre as parcerias entre agências de fact checking, big techs e fundações bilionárias: a expressão “follow the money” (“siga o dinheiro”) é um bom começo. Ela foi popularizada pelo filme “Todos os homens do presidente” (1976), em que trabalho jornalístico sério do Washington Post ajudou a derrubar o presidente Richard Nixon no escândalo de Watergate. Aliás, ironia adicional: é o mesmo Washington Post que apoiou oficialmente Joe Biden em 2020 e, poucos dias atrás, informou que não manterá, para além dos cem primeiros dias, nenhuma base de dados das checagens de fatos sobre o presidente Biden. No entanto, o jornal manterá a ácida e imensa base de dados de quatro anos que fez sobre a Presidência de Donald Trump (2016–2020). Significa que, a depender do Washington Post, a história terá vastos registros dos horrores do fascista laranja, mas pouca coisa sobre Biden, tratado pela mesma mídia já com tanta generosidade.

No dia de hoje, porém, recupero o “follow the money” para tão somente sugerir que o leitor pesquise as fontes de renda e os laços das principais agências de fact checking nacionais e internacionais com big techs como Facebook e Google, além de fundações internacionais das mais poderosas. Você ficará surpreso como certos nomes se repetem.

O Poynter Institute, por exemplo, opera o PolitiFact e criou a maior entidade internacional de checagem de fatos, à qual algumas agências brasileiras também são filiadas: a IFCN (International Fact-Checking Network). Entre os doadores do Poynter e, portanto, do IFCN, estão Pierre Omidyar (Omidyar Network) e George Soros (Foundation to Promote Open Society), além de — imagine só — Google e Facebook. Por fim, quem tiver curiosidade de conhecer o histórico bastante tendencioso de doações eleitorais de jornalistas (20162020), empresas e funcionários das big techs (20162020) nos EUA poderá fazer uma avaliação mais completa da situação. Pior disso tudo: mais e mais poder tende a ficar concentrado nas mãos de poucos.

Outra questão para reforçar o problema do enviesamento: empresas como Facebook, Twitter e YouTube (que pertence ao Google) aproveitam amplamente as vantagens comerciais e jurídicas de serem (supostamente) “plataformas neutras” — isto significa que, em teoria, não criam nem interferem em conteúdo. No entanto, todas têm forte inclinação política ou, mais precisamente, nas palavras do próprio Mark Zuckerberg em 2018, ao Congresso dos EUA, o Vale do Silício é “um lugar de viés extremamente esquerdista”.

A ideia de “censura do bem”, aliás, tomou forma em um documento do Google pouquíssimo conhecido, mas vazado em 2018, de 85 páginas. Seu nome já se mostrava auspicioso: “The good censor”, ou “O bom censor”. Este briefing confidencial admite abertamente uma “mudança na direção da censura”, mas para, entre outras coisas, “criar espaços bem ordenados de segurança e civilidade” (p. 70), que eles próprios determinam, obviamente. Tudo isto seria necessário porque, como informam na página 2, “a liberdade de expressão se tornou uma arma social, econômica e política”. É medonho assim.

A burocracia da verdade

A articulação de todos esses atores permite a criação e, em tempo, consolidação de um sistema em que as notícias feitas por jornalistas podem receber o carimbo de seus colegas checadores de fatos; em seguida, essas notícias se tornam ainda mais visíveis e relevantes nas redes das big techs, já que foram validadas antes. O processo passa por várias esferas culturais, inclusive pela propagação e adicional autenticação intelectual de grupos acadêmicos para, por fim, alcançar e integrar o discurso de políticos e juízes, inclusive os de cortes mais elevadas. Tais juristas passam a usar aquelas matérias jornalísticas como parte de um conjunto de provas e/ou argumentação jurídica. E tudo ganha uma circularidade “autolegitimadora”, uma capa de moralidade e legalidade difícil de ser atravessada: no lugar da lavagem de dinheiro, bem-vindo à lavagem de notícias ou, de forma mais geral, à lavagem de ideias. Deu para compreender a gravidade deste mecanismo?

A intenção afirmada abertamente por boa parte dessa burocracia da verdade (além das menos óbvias: ganhar muito dinheiro, poder e influência política) que reúne agências de fact checking, jornalistas em outras posições, big techs, políticos, juristas e outros membros da elite intelectual é bela — ou assim muitos pensam. Querem higienizar o debate público (algo com precedentes históricos catastróficos) de discurso de ódio, robôs e fake news, que aqueles iluminados e seus apoiadores definem — e redefinem — conforme sua vontade. Quem sabe, ainda teremos um Ministério da Verdade?

Não seria uma ideia original, mas muitos abraçariam sua concretização com gosto — sob um nome eufemístico, bem menos óbvio e muito mais palatável, provavelmente.

Este texto foi escrito a partir de alguns trechos de outro artigo do autor.

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância ideológica ou partidária, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião. A credibilidade não é fruto de um momento. É o somatório de uma longa e transparente coerência.

A ferramenta de trabalho dos jornalistas é a curiosidade. A dúvida. A interrogação. Há um ceticismo ético, base da boa reportagem investigativa. É a saudável desconfiança que se alimenta de uma paixão: o desejo dominante de descobrir e contar a verdade.

Outra coisa, bem diferente, é o jornalismo de suspeita. O profissional suspicaz não admite que possam existir decência, retidão, bondade. Tudo passa por um crivo negativo que se traduz na crescente incapacidade de elogiar o que deu certo. O jornalista não deve ser ingênuo. Mas não precisa ser cínico. Basta ser honrado e independente.

Repórteres carentes de informação especializada e de documentação apropriada ficam reféns da fonte. Sobra declaração, mas falta apuração rigorosa.

A fórmula de um bom jornal reclama uma balanceada combinação de convicção e dúvida. A candura, num país marcado pela tradição da impunidade, acaba sendo um desserviço à sociedade. É indispensável o exercício da denúncia fundamentada. Precisamos, independentemente do escárnio e do fôlego das máfias corruptas e corruptoras, perseverar num verdadeiro jornalismo de buldogues. Um dia a coisa vai mudar. E vai mudar graças também ao esforço investigativo dos bons jornalistas.

Alguns desvios, no entanto, podem comprometer o resultado final do trabalho. A precipitação é um vírus que ameaça a qualidade informativa. Repórteres carentes de informação especializada e de documentação apropriada ficam reféns da fonte. Sobra declaração, mas falta apuração rigorosa. O poder público tem notável capacidade de pautar jornais. Fonte de governo é importante, mas não é a única. O jornalismo de registro, pobre e simplificador, repercute o Brasil oficial, mas oculta a verdadeira dimensão do País real. Muitas pautas estão quicando na nossa frente. Muitas histórias interessantes estão para ser contadas. Precisamos fugir do show político e fazer a opção pela informação que realmente conta. Só assim, com didatismo e equilíbrio, conseguiremos separar a notícia do lixo declaratório.

O dogma do politicamente correto não deixa saída: de um lado, só há vilões; de outro, só se captam perfis de mocinhos. E sabemos que não é assim. A vida tem matizes.

A incompetência foge dos bancos de dados. Troca milhão por bilhão. E, surpreendentemente, nada acontece. O jornalismo é o único negócio em que a satisfação do cliente (o consumidor da informação) parece interessar muito pouco. O jornalismo não fundamentado em documentação é o resultado acabado de uma perversa patologia: o despreparo de repórteres e a obsessão de editores com o fechamento. A chave de uma boa edição, no impresso e no digital, é o planejamento. Quando editores não formam os seus repórteres, quando a qualidade é expulsa pela ditadura do deadline, quando as entrevistas são feitas só pelo telefone e já não se olha nos olhos do entrevistado, está na hora de repensar todo o processo de edição.

O culto à frivolidade e a submissão à ditadura dos modismos estão na outra ponta do problema. Vivemos sob o domínio do politicamente correto. E o dogma do politicamente correto não deixa saída: de um lado, só há vilões; de outro, só se captam perfis de mocinhos. E sabemos que não é assim. A vida tem matizes. O verdadeiro jornalismo não busca apenas argumentos que reforcem a bola da vez, mas também, com a mesma vontade, os argumentos opostos. Estamos carentes de informação e faltos da boa dialética. Sente-se o leitor conduzido pela força de nossas idiossincrasias.

Por outro lado, ao tentar disputar espaço com o mundo do entretenimento, a chamada imprensa séria está entrando num perigoso processo de autofagia. A frivolidade não é a melhor companheira para a viagem da qualidade. Pode até atrair num primeiro momento, mas depois, não duvidemos, termina sofrendo arranhões irreparáveis no seu prestígio, na sua marca.

Registremos, ademais, os perigos do jornalismo de dossiê. Os riscos de instrumentalização da imprensa são evidentes. Por isso é preciso revalorizar, e muito, as clássicas perguntas que devem ser feitas a qualquer repórter que cumpre pauta investigativa: Checou? Tem provas? A quem interessa essa informação? Trata-se de eficiente terapia no combate ao vírus da leviandade informativa.

Finalmente, precisamos ter transparência no reconhecimento de nossos equívocos. Uma imprensa ética sabe reconhecer os seus erros. As palavras podem informar corretamente, denunciar situações injustas, cobrar soluções. Mas podem também esquartejar reputações, destruir patrimônios, desinformar. Confessar um erro de português ou uma troca de legendas é fácil. Porém admitir a prática de atitudes de prejulgamento, de manipulação informativa ou de leviandade noticiosa exige coragem moral. Reconhecer o erro, limpa e abertamente, é o pré-requisito da qualidade e, por isso, um dos alicerces da credibilidade.

A força de uma publicação não é fruto do acaso. É uma conquista diária. A credibilidade não combina com a leviandade. Só há uma receita duradoura: ética, profissionalismo e talento. O leitor, cada vez mais crítico e exigente, quer notícia. Quer informação substantiva.


Artigo originalmente publicado em https://carlosalbertodifranco.com.br/jornalismo/jornalismo-sem-adornos.html