Muito se discutiu na semana passada sobre Bari Weiss, a ex-editora de opinião do The New York Times que se demitiu criticando abertamente o posicionamento do jornal e o comportamento de seus colegas. Em um dos trechos mais marcantes de sua carta aberta ao publisher A.G. Sulzberger, ela afirma que “um novo consenso surgiu na imprensa, mas talvez especialmente neste jornal: de que a verdade não é um processo de descoberta coletiva, mas uma ortodoxia já conhecida por alguns poucos iluminados cujo trabalho é informar todos os demais”.
Muito se sabe sobre como a mídia vem perdendo credibilidade e apelo perante o público. Weiss aponta para o pedestal no qual boa parte do jornalismo subiu, e também deixa claro que a desconexão entre visões de mundo presentes nas classes falantes e no restante da população complementa a trama. Foi para dar voz a esta parcela do público de valores tradicionais que ela foi contratada.
A iniciativa, agora com futuro incerto, tinha os seus méritos, mas também aponta para um problema mais profundo: seria a opinião o único campo restante para as vozes não ortodoxas? Nestes tempos em que a palavra “pluralidade” se tornou um norte a ser seguido, qual é a real pluralidade existente nas redações onde os fatos seriam apurados e o cotidiano deveria ser refletido?
É certo que as editorias de opinião têm grande relevância nos jornais. Mas elas também são um campo em que a subjetividade ganha mais espaço para aparecer. Como fica, portanto, a cobertura factual das redações? Esta não seria uma área a ser apurada, coberta e apresentada ao público por meio de óticas mais diversas?
Há duas semanas, falávamos sobre como a literatura pode contribuir para o ressurgimento de uma narrativa jornalística mais real e humana. Hoje vou falar sobre como a mesma literatura nos traz, de forma sensata e real, a noção de tempo e de que modo esta noção pode agregar positivamente ao jornalismo.
Para dar o pontapé inicial, me apoio no artigo do jornalista Allan de Abreu, sobre a relação da literatura e jornalismo. Ele defende: “[…] pensam, os arautos do jornalismo, que o leitor não tem tempo para ler um grande texto, nem tem paciência para ‘decifrar’ uma frase construída além da meia dúzia de técnicas já decoradas pelo repórter e pelo editor e, por conseqüência, introjetadas no público.” Nesse sentido, tendo muito a concordar com ele.
O ser humano nunca tem – e nunca teve – tempo para nada. As grandes obras literárias, e até mesmo os contos infantis, nos mostram que o ser humano sempre está correndo contra o tempo. No livro Momo e o Senhor do Tempo (1973), por exemplo, as personagens são devoradas – literalmente – pelos Homens Cinzentos, que têm o objetivo de consumir o tempo dos seres humanos. Esta é uma clara analogia ao tempo que perdemos com as tarefas repetitivas, burocráticas e que nos fazem, muitas vezes, perder os sentidos e esquecer de que temos uma vida humana. Mas gostaria de focar na personagem principal da novela de Michael Ende: Momo.
Em um determinado ponto da história, o autor nos conta:
“O que Momo sabia fazer melhor do que ninguém era ouvir. […] Muito pouca gente sabe ouvir de verdade. E o jeito de Momo ouvir e entender era muito especial. […] fitava as pessoas com seus grandes olhos negros, e nelas surgiam pensamentos que nunca tiveram antes, como se lhes tivessem sido encravados por aquele olhar. Momo ouvia de um jeito que fazia os desesperados ou hesitantes de repente saberem o que queriam.”
No fundo, caro leitor, Momo tinha esse “superpoder” porque, simplesmente, tinha tempo disponível e queria doá-lo para quem realmente interessava: as pessoas.
Por isso, o discurso de que o leitor não tem tempo para ler, frente à quantidade de informação que fica à sua disposição, me parece pouco razoável. Sobretudo em tempos que diretores e lideranças dos veículos classificam suas audiências com adjetivos como “atenta”, “exigente”, “bem informada” e “respeitosa”. O fato é que os seres humanos têm tempo para consumir as matérias de um jornal. Mas esse tempo só será dedicado àquilo que os interessa. Sempre estarão dispostos a escutar e a ler uma boa história que só os verdadeiros vocacionados – sim, os que são verdadeiramente chamados no sentido etimológico da palavra – ao jornalismo podem oferecer.
E assim, a literatura nos dá sua 2ª aula. Mas também deixa uma lição de casa. Afinal, vale a pena nos rendermos aos Homens Cinzentos e nos deixarmos devorar pelo tempo e pela correria das publicações jornalísticas em nome da informação de todos os fatos? Ou melhor seria confiar que as verdadeiras histórias humanas – ainda que difíceis de serem encontradas, mais extensas, porém bem contadas – podem contribuir além de tudo para que o leitor enxergue a sua humanidade e a realidade como ela é?
Há muito tempo, os grandes clássicos da literatura mundial nos mostram o quanto a linguagem literária e as histórias bem contadas podem afetar positivamente a vida do ser humano. Não à toa, contos e histórias como as de Cervantes, Dickens, Dostoiévski e Machado de Assis seguem atuais ainda hoje. Apesar de se tratar de um mundo diferente do jornalismo, a literatura tem muito a ensinar aos seus profissionais.
Ainda que a “overdose” de informação seja um modelo constantemente adotado pelos veículos com o argumento de informar bem o leitor (e aqui deixo um relevante artigo para refletir sobre o assunto), a entrega dessa informação tem atingido níveis de qualidade cada vez mais preocupantes. Notas informativas com um “lide” engessado e que não informam nada além do óbvio, aspas que tomam conta de praticamente todo o texto e notícias que mais se parecem artigos científicos – de tantos especialistas que nelas falam – têm sido cada vez mais comuns nos conteúdos dos veículos.
Quando alguém é testemunha de um acidente na estrada ou de um histórico jogo de futebol, por exemplo, poucas coisas lhe interessaram tanto quanto o relato daquilo que presenciou pessoalmente. Pensando nisso, podemos dizer que as palavras das notícias não são simplesmente uma mera prestação de contas do que acontece na realidade. É muito mais que isso. As palavras são confirmações de que tudo o que vimos e tudo o que acontece pelo mundo aconteceu de verdade e com uma imensidão de detalhes que nossos sentidos não foram capazes de captar. Esse é o grandioso papel do jornalista!
E é aí que a literatura dá a sua primeira lição. Afinal, é tão necessário gastar força, tempo e até mesmo capital, informando sobre tantos assuntos que, em sua maioria não afetarão a vida das pessoas, ou as poucas histórias humanas – tão bem contadas como as da literatura – podem fazer muito mais do que imaginamos?
Um dia desses, um grupo de jornalistas conversava sobre uma situação hipotética, em que as empresas jornalísticas não cobriam mais os pronunciamentos do atual presidente em razão de suas últimas decisões. Num determinado momento da conversa, alguém disse: “A imprensa do Brasil, de forma geral, é muito desunida. Iria se combinar de não cobrir os acontecimentos de Brasília, mas aposto como alguém iria quebrar a regra, só para garantir o furo.”
Apesar de o furo jornalístico ter perdido bastante valor com a chegada e o avanço da informação nos meios digitais, ele ainda pode ter um valor fundamental para que os veículos possam tornar seus conteúdos exclusivos. Contudo, e não de forma geral, atitudes como essa fazem com que as questões sobre o fim último de nossa profissão mereçam ser discutidas.
Afinal, em quem estamos pensando no momento de cobrir e descobrir os fatos? No público e, especialmente, nas questões que fazem sentido para suas realidades, ou em nossa própria vontade de sair na frente pela busca de uma novidade que, daqui a pouco, já se tornará antiga?
Não importa o seu momento de carreira. Se você for principiante, aprender a escrever de forma clara é uma tarefa necessária. Se você for um jornalista senior, é provável que tenha uma equipe para treinar. E se você não for jornalista, dizem que escrever de forma clara e canja de galinha não fazem mal a ninguém.
Seja para aperfeiçoar sua redação, seja para sugerir o material à sua equipe, o Orbis Media Review preparou este Guia de Clareza Textual a partir de experiências do time. O guia também é uma forma de buscarmos uma escrita mais simples – e nem por isso pobre, ao contrário!
A simplicidade de um texto o torna elegante, ao contrário do que muita gente pensa. Informar de modo claro é um jeito de tornar o jornalismo mais próximo da população. Isso passa pela escrita, mas também pela contextualização de uma pauta, pelo estilo do discurso, pela relevância que o conteúdo terá na vida do usuário.
Abordamos estas e outras questões no Guia de Clareza Textual. Baixe gratuitamente, use, compartilhe e, se achar necessário, deixe seu feedback para corrigirmos ou expandirmos o material.
Era o início da noite de 14 de fevereiro de 2020 e o centro histórico do Recife já estava agitado com o pré-carnaval. Pelas janelas do prédio da Rua Marquês de Olinda, onde está a sede do mais antigo jornal da América Latina, o Diário de Pernambuco, era possível ouvir a passagem barulhenta de inúmeros blocos e grupos. A alegria parecia contagiar os profissionais da Redação, que preparavam a primeira edição de um jornal renovado em conteúdo e forma e que anunciava o projeto Rumo aos 200 anos – o DP, como é carinhosamente chamado, tem 194 anos de uma história riquíssima.
As duas ideias eram parte de um trabalho iniciado havia pouco mais de 60 dias, com a intenção de melhorar com rapidez a sobrevida do título. Como todos os jornais tradicionais, o Diário de Pernambuco vem sofrendo as consequências da revolução digital. Alguns, como o DP, em grau desesperador, por diversas razões. Não havia verba para melhorias, pois o capital disponível era usado para pagar os salários e as dívidas e para manter a operação.
Nos muitos anos em que passei pelo Estadão (foram 26, a partir de 1990), percebi o quanto um processo de desconstrução é difícil.
O jornal estava editorialmente frágil, com pouca produção local, trazendo basicamente conteúdos nacionais. A operação digital, que chegou a ser uma das melhores do Brasil, mostrava números de quedas impressionantes. Resultado do processo de enxugamento de sua Redação, vivido por todos os grupos brasileiros para tentar manter seu título vivo. E tinha ainda distorções sérias de produção e negócio, causadas por cortes em todas as áreas na mesma busca pela sobrevivência.
Nos muitos anos em que passei pelo Estadão (foram 26, a partir de 1990), percebi o quanto um processo de desconstrução é difícil. Tive a chance de acompanhar e comandar alguns deles. Certamente um dos maiores problemas era o desejo de tentar manter a maior parte das estruturas existentes, mesmo com a redução gradual dos recursos e do pessoal. Com o tempo este processo vai causando uma distorção enorme não somente na forma de produzir e entregar o conteúdo, mas nas áreas de produção, logística e negócios. Gera distorções como as vistas então no DP. Não só uma Redação voltada basicamente para o fechamento do jornal, com pouquíssima produção local e num horário muito tardio, mas uma marca com muitos produtos supérfluos e uma operação de produção e de logística não adaptada às novas condições.
O processo de foco preciso impactava positivamente não só a Redação, mas a operação digital, de logística, de mercado leitor, comercial e administrativo.
Tanto na experiência no Estadão como em outros trabalhos posteriores na Bahia, tinha ficado claro que era preciso abrir mão de cadernos, seções e produtos secundários, para liberar profissionais e energia no trabalho do que era o principal da marca. No caso do Estadão, um jornal do poder – político, econômico, cultural, etc. No dos regionais, a cobertura de sua cidade, seu Estado. O processo de foco preciso impactava positivamente não só a Redação, mas a operação digital, de logística, de mercado leitor, comercial e administrativo.
Confiando nas experiências, o foco principal no DP foi o de buscar medidas de melhorias na operação e na reorganização da forma de trabalho da Redação. Algumas soluções simples e de rápido ganho foram tomadas na produção. Foi definido um comando claro e criado um grupo de líderes do projeto entre alguns dos profissionais que haviam feito o jornal continuar funcionando, apesar das terríveis ondas de cortes dos últimos anos. Foi assim definida uma nova forma de trabalho na Redação, baseada no foco na produção local e exclusiva. Os muitos níveis horizontais de produção foram drasticamente simplificados e horários modificados para atender ao novo foco. Para isso, seções e cadernos secundários foram excluídos. Em paralelo foi pensado um projeto gráfico e de conteúdo que mantivesse as características históricas do jornal, mas com soluções simples que mostrassem sua evolução.
Era a fase 1 do trabalho. Os resultados foram bem recebidos por leitores e pelo mercado. A operação digital ganhou agilidade e mais conteúdos locais e a audiência e o engajamento dispararam. Houve em seguida uma etapa rápida de ajustes e correções. A fase 2, a de novas mudanças editoriais e de operação e o início do projeto Rumo aos 200 Anos, iria ser iniciada no final de março. A ideia do projeto é mobilizar empresários, autoridades e a sociedade no apoio de um caminho para tornar o DP, um patrimônio não só do Recife e de Pernambuco, mas do Brasil, o primeiro jornal da América Latina a conseguir chegar ao bicentenário. Aí veio o coranavírus…
Escrevo este texto no dia 2 abril de 2020, em meio à pandemia. Estamos eu e a família isolados em casa, preocupados com a sobrevivência, como quase todo mundo. Sobrevivência, justamente a palavra que certamente mais usei neste e em outros projetos que tive a honra de comandar. A fase 2 foi adiada, sabe-se lá para quando e como. Enquanto escrevo, parece ainda estar distante a certeza de quando e como eu e minha família e muitos jornais do Brasil chegaremos ao fim desta crise. Espero que estejamos todos bem e que o DP possa comemorar seu bicentenário.
A demanda é grande e crescente. Revisão textual soa como um trabalho menor, mas faz toda a diferença na qualidade da entrega do texto ao leitor. Se for um texto para o meio online, então, geralmente acessado pelo celular, com o usuário em movimento ou com a atenção cruzada por várias notificações, um erro de concordância pode fazer este leitor se perder na frase e desistir do conteúdo.
Preparamos uma sequência de técnicas e boas práticas para ajudá-lo na hora de revisar seus trabalhos ou os textos de seus colegas. O material também pode ser útil na hora de instruir equipes de revisores ou recém chegados ao trabalho.
Se você tiver qualquer dica ou quiser compartilhar uma prática que funciona para você e não está neste material, por favor, deixe um comentário!
No ensaio intitulado A Ética do Jornalismo Engajado, o jornalista Michel R. Francher relembra os princípios da atividade jornalística e cita o criador da primeira escola de jornalismo, em 1908, Walter Williams, para pensar no papel do profissional das redações na atualidade.
Após uma densa reflexão, que se estende da relevância do jornalismo à democracia até a transformação dos paradoxos da atividade em motores da inovação, Francher propõe uma declaração de compromisso para jornalistas. O documento é composto por 12 votos que afirmam a identidade e a missão do jornalista em servir à população por meio da escuta, da colaboração, da honestidade, da parceria, da confiança e de tantos outros valores que constituem pontos nevrálgicos da profissão.
Você já se perguntou se as suas demandas informativas são iguais às do seu público? O que é prioridade para ele: agilidade ou profundidade? Uma linha editorial posicionada ou neutra? O que ele espera do seu veículo para o futuro?
Neste exercício, peça a ajuda de seus usuários para identificar formas de atendê-lo melhor e, por consequência, de aproximá-lo do seu veículo. O material foi pensado para ser aplicado presencialmente e com uma pessoa por vez. Recomendamos que registre o exercício em áudio, vídeo ou que você disponha os cartões na ordem definida pelo participantes sobre uma mesa para, então, tirar uma foto e anexar às suas anotações.
Este framework é uma adaptação do material de pesquisa do projeto The Membership Puzzle, da Universidade de Nova York, liderado pelo Prof. Jay Rosen.
Por Carlos Alberto Di Franco
As virtudes e as fraquezas dos jornais não são recatadas. Registram-nas fielmente os sensíveis radares dos leitores. Precisamos, por isso, derrubar inúmeros desvios que conspiram contra a credibilidade dos jornais.
Um deles, talvez o mais resistente, é o dogma da objetividade absoluta. Transmite, num pomposo tom de verdade, a falsa certeza da neutralidade jornalística. Só que essa separação radical entre fatos e interpretações simplesmente não existe. É uma bobagem.










