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Com crescente regularidade tenho recorrido a uma ideia que pode ser resumida da seguinte maneira: se uma pessoa se empenhar, ela consegue encontrar justificativa para qualquer coisa.

A meu ver, nada resume tão bem o ambiente das redes sociais e de todo o debate político atual. Seja para defender sua ideologia ou para definir quem é vilão e mocinho na guerra entre Israel e Hamas, haverá sempre alguma informação perdida por aí capaz de confirmar aquilo em que acreditamos. O curioso é observar como todos nós conseguimos pescar algumas poucas notícias ou fatos que corroboram uma opinião prévia enquanto ignoramos todo o resto que joga contra nossa narrativa pré-estabelecida.

Frequentemente percebo isso quando entro em uma rede social ou acesso o site de um jornal. É tanta informação disponível que cada um pode selecionar aquilo que quiser. Se estou pré-disposto a tomar o lado dos palestinos no atual conflito, posso encontrar mil matérias dizendo que Israel bombardeou de forma cruel e desumana um hospital localizado na Faixa de Gaza. Se estou pré-disposto a defender o lado israelense, posso encontrar mil outras notícias dizendo que o hospital foi, na verdade, alvo de um míssil mal direcionado por terroristas palestinos. É claro que existe uma verdade neste e em outros casos, mas o ponto é que o ambiente de notícias hoje parece uma prateleira de supermercado onde cada um pode pegar o produto que melhor satisfaz suas preferências.

Para não ficar relativista demais, reconheço que o conteúdo das empresas de mídia sérias não pode ser comparado com muito daquilo que se vê no Twitter. Mas mesmo nelas, o excesso de informação pode ser um problema, ainda mais quando esta informação é desprovida de contexto. E se o jornalismo acaba por confundir as pessoas mais do que esclarecê-las, não será uma surpresa se elas começarem a evitar o que temos a dizer.

O que podemos fazer de melhor para evitar essa situação?

Arrisco dizer – e falo isso como leitor que acompanha o noticiário publicado dentro e fora do Brasil – que o público (e por consequência as empresas de mídia) se beneficiaria muito se tivesse mais acesso a notícias bem contextualizadas, capazes não apenas de informar sobre acontecimentos recentes, mas também de dar sentido ao cenário mais amplo no qual estamos inseridos.

Uma matéria que li hoje mesmo exemplifica isso. O texto, publicado na revista Spectator, é do professor e historiador Timothy Garton Ash e fala sobre a difícil situação da Ucrânia agora que o foco dos EUA também se volta para Israel. Diz ele:

Eu voltei ao Reino Unido depois de ter estado na Ucrânia fortemente persuadido de que isso é o que nós, na Europa, devemos fazer (aumentar a ajuda no esforço de guerra ucraniano). A alternativa – infelizmente quase tão provável quanto ruim – é que o Ocidente acabe por se contentar com uma ‘paz’ que implique na perda de uma grande parcela do território por parte da Ucrânia. Isso não seria paz, mas um conflito semicongelado – apenas uma pausa antes outra rodada de guerra, tal como temos visto por décadas no Oriente Médio. No meio tempo, isso também permitiria a Putin declarar vitória em casa, podendo ficar no poder por mais tempo, e mandando a mensagem errada para Xi Jinping sobre Taiwan…

Neste caso o autor sequer está apresentando fatos, dando uma nova informação ou replicando aquilo que outros veículos já publicaram. Ao contrário, sua maior preocupação é apresentar os dilemas sociais presentes na Europa e nos EUA (ler artigo completo) e analisar as consequências globais de um processo de paz que implique no fortalecimento da posição Russa e enfraquecimento do campo ocidental.

A análise é perfeita? Certamente não, tal como acontece com muitas previsões sobre geopolítica. Ainda assim, ela faz algo de interessante: aumenta o entendimento do leitor sobre a situação do mundo no atual momento de uma forma que poucas matérias – sobretudo aquelas que apenas informam sobre um novo bombardeio, um novo conflito armado ou ainda uma declaração esdruxula de um político qualquer – conseguem fazer.

Aqui no Orbis, falamos com regularidade que o conceito de “menos é mais” também se aplica ao jornalismo. Esse “menos”, entretanto, se refere ao número de matérias publicadas, jamais à qualidade do conteúdo. Permitir que um repórter publique em um ritmo menor pode dar a ele o tempo necessário para uma bela apuração. Com isso, aumentamos o valor do nosso conteúdo e oferecemos ao público mais do que um amontoado de informações perdidas e descontextualizadas.

Batemos tanto na questão da fake news que ignoramos que a polarização não precisa de falsidades para se estabelecer. Basta uma informação perdida para glorificar um grupo ou demonizar o outro. Não são apenas as redes sociais que contribuem para este fenômeno. Também o jornalismo, quando repercute polêmicas desprovidas de substância ou fatos sem a devida contextualização, colabora para enfraquecer nossa percepção da realidade e reduzir a qualidade da discussão.

O jornalismo vive uma crise e uma oportunidade. Vivemos um momento de desintermediação. Dos políticos, dos partidos, das igrejas, da própria mídia. É necessário perceber, para o bem ou para o mal, que perdemos a hegemonia da informação e da narrativa. Precisamos olhar as nossas coberturas e nos questionarmos se há valor diferencial no que estamos entregando aos nossos consumidores. Precisamos desenvolver uma boa curadoria da informação.

O momento, creio, exige recuperar a capacidade de dar bem o factual. Há uma overdose de colunismo e de opinião. É preciso declarar guerra ao jornalismo declaratório e assumir, efetivamente, a agenda do cidadão.

É importante fixar a atenção da cobertura não mais nos políticos e em suas estratégias de imagem, mas nos problemas dos cidadãos. O papel da imprensa é ouvir as pessoas, conhecer suas queixas, identificar suas carências e cobrar soluções.

Precisamos ouvir. Sair das nossas bolhas. Jornalista conversa com jornalista. Pensa, age e produz informação com a cabeça de jornalista. Tem dificuldade para se colocar no lugar do consumidor, na posição do leitor. Logo, a cobertura caminha na contramão do consumidor. Frequentemente, o jornalista escreve para os colegas. Não escreve para o público.

Outro desvio: o protagonismo do jornalista. O bom repórter, diz Carl Bernstein, ícone do jornalismo investigativo, “ilumina a cena, o jornalista engajado constrói a história”. Daí a importância de recuperar a primazia do factual e da apuração cuidadosa. O importante é saber escutar. As respostas são sempre mais importantes que as perguntas que fazemos. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos. A reportagem não é o empenho de confirmação de uma hipótese. É a tentativa de descobrir a verdade dos fatos.

A overdose de pautas a cumprir, a redução das equipes, a falta de especialização e a má utilização dos bancos de dados podem transformar repórteres em coadjuvantes de um espetáculo conduzido pelos entrevistados. A cobertura de política está dominada pela síndrome declaratória. Sobra Brasília e falta País real. Há excesso de declarações e falta apuração. Que interesse tem o leitor pelo bate-boca no Congresso? É preciso avançar numa cobertura mais profunda e propositiva. Frequentemente, o jornalismo político não tem notícia. Tem fofoca. Show. Espuma. Precisamos dar uma guinada de 180 graus. A agenda pública não pode ser conduzida pelo político, mas pelo cidadão. Precisamos fugir do fascínio exercido pelo poder.

A imprensa é presa fácil dos políticos. Eles são mestres na produção de denúncias pouco fundamentadas. Dossiê não é matéria para publicação. É matéria para apuração. Não é ponto de chegada. É pauta, ponto de partida. A precipitação pode ser, a médio prazo, um tiro de morte na credibilidade.

O jornalismo investigativo, sério, responsável e necessário, cedeu espaço a uma compulsiva e acrítica veiculação de declarações. A opinião pública começa a ficar cansada com o clima de espetáculo que tomou conta da cobertura. Quer menos estardalhaço e mais criminoso na cadeia.

É preciso revalorizar as clássicas perguntas que devem ser feitas a qualquer repórter que cumpre pauta investigativa: Checou? Tem provas? A quem interessa essa informação. O jornalismo, dizia Paul Johnson, pode ser uma arma carregada quando dirigido com intenção hostil contra alguém. Por isso, é preciso por a mão na consciência antes de apertar o gatilho. Caso contrário, é assassinato moral.

O consumidor não quer pacote opinativo. Quer informação. A imparcialidade, que não é neutralidade, é uma meta a perseguir. O jornalismo é a busca da verdade possível. Não é a transcrição de versões. Ouvir o outro lado, prática essencial, não significa a renúncia em buscar a verdade. O bom repórter procura a verdade que está camuflada atrás da verdade aparente.

Tratar adequadamente a intimidade é outro grande desafio. A invasão da privacidade pode significar um roubo, mas também pode representar um dever ético. É preciso trabalhar corretamente o tema. Entender que existem matérias de interesse público e outras “interessantes” para o público. A fofoca não deve ter espaço. Mas a denúncia de desvios, sobretudo em figuras públicas, deve ser objeto de informação, mesmo com a justa invasão da privacidade. O interesse público se sobrepõe ao resguardo da intimidade. O direito à privacidade não pode ser um muro de arrimo, instrumento de ocultação.

São algumas reflexões, amigo leitor. O jornalismo vive uma crise? Sim. Mas também pode vislumbrar grandes oportunidades. Em vez de ficarmos reféns do diz-que-diz, do blá-blá-blá inconsistente, das intrigas e da espuma que brota nos corredores do poder, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Chegou a hora, não me canso de dizer, do jornalismo propositivo. Aquele que não se limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções. Esta quadra, sem dúvida difícil para o setor, também pode abrir uma avenida de oportunidades.

Minha mais recente coluna neste espaço opinativo teve um título bem estudado: “Jornalismo – a hora de recuperar o encanto”.  É disso que se trata. O jornalismo precisa recuperar a confiança dos consumidores. O texto repercutiu entre leitores e colegas. Recebi muitas mensagens. Isso mostra uma sadia inquietação. Um movimento de autocrítica e renovação.

Hoje, provocado por um excelente artigo de Martin Baron, ex-editor-executivo do Washington Post publicado no caderno “Ilustríssima” da Folha de S.Paulo no dia 15 de abril, volto ao tema. O texto é magnífico. E está ancorado no prestígio de um dos grandes nomes do jornalismo norte-americano.

Num momento de crise da mídia, Baron, na contramão de boa parte dos seus colegas, empunha o valor da objetividade como arma poderosa em defesa do jornalismo de qualidade.

“A maior parte do público, me arrisco a dizer, espera que os jornalistas sejam objetivos. Ignorar suas expectativas ou desafiá-las diretamente é um ato de arrogância. Demonstra leniência com nossos vieses, os consagra e, o que é mais grave, trai a causa da verdade”. O diagnóstico de Baron é certeiro: um dos elementos centrais da crise dos veículos está no questionamento e na corrosão cotidiana da objetividade.

Baron defende que devemos iniciar nossas pesquisas “com a cabeça aberta e então trabalhar da maneira mais conscienciosa possível. Isso requer uma disposição de ouvir, uma ânsia de aprender e uma consciência de que há muito que precisamos saber.” (…) “Não começamos já com as respostas prontas. Saímos em busca delas, primeiro com o desafio já grande de articular as perguntas certas e finalmente com a tarefa árdua de verificação.”

Queremos juízes e médicos objetivos; por que não jornalistas? A pergunta de Baron está gritando em muitas críticas sinceras ao nosso trabalho. A busca da objetividade, nem sempre fácil ou tranquila, é uma meta a ser perseguida. Todos os dias.

O importante é saber escutar. As respostas são sempre mais importantes que as perguntas que você faz. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos. Precisamos lutar contra as atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem e minam a credibilidade dos produtos jornalísticos.

O bom repórter ilumina a cena, o jornalista manipulador constrói a história. A distorção, no entanto, nem sempre é clara. Escapa, frequentemente, à perspicácia do leitor médio. Tem aparência de informação, mas não é. Daí a gravidade do dolo. Na verdade, a batalha da isenção, forte demanda da sociedade atual, enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência atrevida. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos próprios de certa delinquência editorial transformam um princípio ético irretocável numa grande farsa.

A apuração de faz-de-conta representa uma das maiores agressões à imprensa de qualidade. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade. É um artifício que transmite um simulacro de objetividade, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade factual culmina com uma estratégia exemplar: a repercussão seletiva. O pluralismo de fachada convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a reportagem. Cria-se a versão. Uma das grandes crises de nossa profissão é a perda da primazia do trabalho de reportagem.

A imprensa tem caído nessa armadilha antijornalística. Trata-se de uma prática que, certamente, acaba arranhando sua credibilidade. Ainda não conseguimos superar a síndrome dos rótulos. Alguns colegas não perceberam que o mundo mudou. Insistem, teimosamente, em reduzir a vida à pobreza de quatro qualificativos: direita, esquerda, conservador, progressista. Tais epítetos, estrategicamente pendurados, têm dupla finalidade: exaltar ou afundar, gerar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas. A reportagem é, ou deveria ser, sempre substantiva. O adjetivo é o enfeite da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta de apuração. É, frequentemente, uma mentira.

É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. A audiência quer informação clara, corajosa, bem apurada. E, hoje em dia, pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital. Ficará conosco se soubermos apresentar um produto de qualidade.

A reportagem precisa ser recuperada. Deve ser trazida para posição central da produção jornalística. Basta de narrativas. Basta de militância ideológica, romântica ou não. Basta de contrabando opinativo na informação.

O público busca formar uma convicção equilibrada, corajosa e firme nos espaços de opinião e nos editoriais. Mas quer informação objetiva no conteúdo jornalístico.

Não devemos sucumbir à tentação do protagonismo. Nosso ofício, humilde e grandioso, é o de iluminar a história.

Estou em Roma. Aqui, como aí no Brasil, há gente desencantada com o jornalismo e fascinada com as redes sociais. Acreditam, talvez ingenuamente, que a agitação do mundo digital vai resgatar a verdade conspurcada. Como se as redes fossem um espaço plural que se contrapõem a uma suposta hegemonia da mídia tradicional. Não percebem que os algoritmos tendem a criar redutos fechados, bolhas impermeáveis ao contraditório.

Sou apaixonado pelo jornalismo. Escrevo na imprensa tradicional e participo intensamente das novas mídias. Ambas são importantes. Não são excludentes. É preciso navegar com profissionalismo e seriedade.

O combate às fake news, demanda importante e necessária, não deve justificar censura, limitações à liberdade de expressão e prisões arbitrárias e ilegais. Quem vai dizer o que podemos ou não consumir? Quem vai definir o que é ou não fake news? O Estado? O Executivo? Os ministros do STF? Transferir para o Estado a tutela da liberdade é muito perigoso. Fake news se combatem não com menos informação, mas com mais informação, e informação mais qualificada.

A reinvenção do jornalismo, a recuperação do encanto, passa, necessariamente, pelo retorno aos sólidos pilares da ética e da qualidade informativa.

A crise do jornalismo está ligada à falência da objetividade e ao avanço do subjetivismo engajado e das narrativas divorciadas dos fatos. Quase sem perceber, alguns jornais sucumbem à síndrome da opinião invasiva. Ganham traços de redes sociais. Falam para si mesmos, e não para sua audiência.

É preciso apostar na informação. Sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeças para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada. Nas redações brasileiras, multiplicam-se as telas coloridas que trazem, minuto a minuto, indicadores e gráficos mirabolantes. Ao final de um dia de trabalho, qualquer editor está habilitado a responder quais foram as reportagens mais lidas. Mas e depois disso? Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. O ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada.

Ao longo deste ano, alguns jornalistas da grande mídia, sobretudo na cobertura de política, em nome de suposta independência, têm enveredado excessivamente pelo que eu chamaria de jornalismo de militância. E isso não é legal. Não fortalece a credibilidade e incomoda seus próprios leitores.

Na verdade, há um crescente distanciamento entre o que veem e reportam e o que se consolida paulatinamente como fatos ou percepções de suas próprias audiências, posto que a estas foi dado o poder de fazer suas reflexões e até mesmo apurações, facilitadas e potencializadas pela internet.

É necessário perceber, para o bem e para o mal, que perdemos a hegemonia da informação. Impõe-se um jornalismo menos “anti” e mais propositivo. Precisamos olhar para nossas coberturas e questionar-nos se há valor diferencial naquilo que estamos entregando aos nossos consumidores. Sabendo que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar nosso conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

Sou otimista em relação ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de reinvenção. Chegou a hora do encantamento.

O jornalismo está fustigado não apenas por uma crise grave. Vive uma mudança cultural vertiginosa. A revolução digital é um processo disruptivo. Quebra todos os moldes e exige uma forte reinvenção pessoal e corporativa.

O jornalismo vai morrer? Não. Nunca se consumiu tanta informação como na atualidade. O modelo de negócios está na UTI. A publicidade tradicional evaporou-se. E não voltará. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. A pressão pela conquista da atenção dos consumidores, o frenesi da audiência, a necessidade inescapável de aumentar a carteira de assinaturas e o esforço de fidelização tira, e muito, o sono e, frequentemente, o foco: o conteúdo de qualidade.

O cenário do consumo de informação preocupa. Exige reflexão, autocrítica e coragem. Vamos aos fatos: 54% das pessoas evitam ativamente o noticiário no Brasil. Quase metade daqueles que diziam fugir das notícias, no mundo e também entre nós, alegavam que estavam esgotados do noticiário de política e sobre covid-19. Excessivo baixo astral.

Os dados estão no artigo da professora Ana Brambilla no Orbis Media Review, que dissecou o último relatório global sobre jornalismo digital do Reuters Institute divulgado em junho do ano passado. De lá para cá nada mudou. Suscita preocupação. Mas também pode abrir uma avenida de iniciativas transformadoras.

Além disso, o modo de produzir informação e o diálogo com o consumidor romperam o modelo tradicional. As pessoas rejeitam intermediações – dos partidos, das igrejas, das corporações, dos veículos de comunicação.

O que fazer? Olhar para trás? Tentar fazer mudanças cosméticas? Não. Precisamos olhar para a frente, mudar de verdade e descobrir incríveis oportunidades.

Mas é preciso, previamente, fazer uma autocrítica corajosa a respeito do modo como vemos o mundo e dialogamos com ele.

Qual é o nosso mundo? Antes da era digital, em quase todas as famílias existia um álbum de fotos. Lembra-se disso, amigo leitor? Lá estavam nossas lembranças, nossos registros afetivos, nossa saudade. Muitas vezes abríamos o álbum e a imaginação voava. Era bem legal.

Agora fotografamos tudo e arquivamos compulsivamente. Nosso antigo álbum foi substituído pelas galerias de fotos de nossos dispositivos móveis. Temos overdose de fotos, mas falta o mais importante: a memória afetiva, a curtição daqueles momentos. Fica para depois. E continuamos fotografando e arquivando. Pensamos, equivocadamente, que o registro do momento reforça sua lembrança, mas não é assim. Milhares de fotos são incapazes de superar a vivência de um instante. As relações afetivas estão sucumbindo à coletiva solidão digital.

Algo análogo, muito parecido mesmo, acontece com o consumo da informação. Navegamos freneticamente no espaço virtual. Uma enxurrada de estímulos dispersa a inteligência. Ficamos reféns da superficialidade. Perdemos contexto e sensibilidade crítica. A fragmentação dos conteúdos pode transmitir certa sensação de liberdade. Não dependemos, aparentemente, de ninguém. Somos os editores do nosso diário personalizado. Será?

Não creio, sinceramente. Penso haver uma crescente nostalgia de conteúdos editados com rigor, critério e qualidade técnica e ética. Há uma demanda reprimida de reportagem. É preciso reinventar o jornalismo e recuperar, num contexto muito mais transparente e interativo, as competências e a magia do jornalismo de sempre.

Jornalismo sem alma e sem rigor. É o diagnóstico de uma perigosa doença que contamina redações. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do asfalto. É preciso dar novo brilho à reportagem e ao conteúdo bem editado, sério, preciso, isento.

É preciso contar boas histórias. Com transparência e sem filtros ideológicos. O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história.

Sucumbe-se, frequentemente, ao politicamente correto. Certas matérias, algemadas por chavões inconsistentes que há muito deveriam ter sido banidos das redações, mostram o flagrante descompasso entre essas interpretações e a força eloquente dos números e dos fatos. Resultado: a credibilidade, verdadeiro capital de um veículo, se esvai pelo ralo dos preconceitos.

A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso encantar o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência. Além disso, os consumidores estão cansados do baixo-astral da imprensa. O cidadão que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.

Perdemos a capacidade de sonhar e a coragem de investir em pautas criativas. Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo. E redescobrir uma verdade constantemente negligenciada: o bom jornalismo é sempre um trabalho de garimpagem.

O papel da informação no conturbado momento nacional mostra uma coisa: o jornalismo está mais vivo que nunca. Exatamente por isso é que mudar é preciso.

Sempre soube que tinha algo errado.

Não fazia muito tempo que eu tinha entrado no mercado de trabalho e já me questionava. Lembro de uma noite, depois de um dia inteiro na redação, ter comentado com meu marido — que não é do ramo — que eu não entendia a importância de escrever e publicar aquilo que estava escrevendo e publicando.

Não tenho certeza se era recém-formada ou não, mas sei que era meu primeiro emprego em um site de notícias superespecializado. Escrevíamos apenas sobre política mato-grossense.

Em geral, as matérias tratavam de decisões políticas. Trocas de partidos, reuniões, aprovações de projetos, brigas, picuinhas, fofocas – quase sempre, situações que não tinham absolutamente qualquer relação com a população que esses políticos “governavam”. Mas eram textos sempre envoltos num manto de suposta importância e seriedade, afinal, é política e as pessoas deveriam se interessar por ela.

Bom, foi nisso que eu decidi acreditar.

Os anos passaram e eu “cresci” no ofício de jornalista. Passei de estagiária a repórter e de repórter a editora. Troquei de emprego algumas vezes; parte delas voltando para empresas e cargos que eu mesma havia decidido deixar, e sempre fazendo a mesma coisa: escrevendo sobre estes “fatos” políticos que não pareciam ter qualquer relevância na “vida real”.

Embora aquele questionamento, lá do início da carreira, ainda rondasse minha mente, eu estava em uma situação cômoda, profissionalmente falando. Trabalhava muito, é verdade, mas sabia exatamente o que fazer, o que facilitava minha vida. Ganhava relativamente bem e, de quebra, ocupava um espaço com um certo status. Era reconhecida entre outros jornalistas e entre os políticos.

Hoje, cerca de 10 anos mais tarde, entendi que aquele primeiro site, o superespecializado, tinha um público específico. Mas ainda acho que meus questionamentos não eram sem sentido. Aqueles “fatos” não importavam para ninguém, além das próprias pessoas que eram retratadas nos textos. E o restante da sociedade não estava errada em não se interessar por “política”.

Não sei exatamente o que me fez enxergar isso com clareza, mas me senti isolada entre os colegas de profissão. Com raras exceções (sobrariam vários dedos de uma mão), eles pareciam não estar vendo o que eu via. Considerei mero comodismo. Mas, afinal, quem era eu para criticar?!

O que seria o certo então?

Não sou das jornalistas mais antigas no mercado, mas com o passar dos anos acompanhando (e vivendo) a profissão, fui, cada vez mais, sentido falta de contexto.  

Colher os dois lados de uma história e reproduzir o que cada um deles disse; relatar que determinado projeto de lei foi aprovado ou manchetar obras que custaram ou custarão X milhões de reais não me parece fazer sentido. Não o suficiente. 

É preciso deixar claro para o leitor o que muda (ou não) na vida dele depois desses fatos.   

É necessário mostrar, com clareza, qual o impacto disso – em termos práticos – na vida daquele cidadão médio, que dedicou parte do seu tempo para ler aquela informação.

Convenhamos, a maioria das pessoas sequer consegue imaginar a quantia de X milhões de reais que foi gasta nas obras que retratamos. Você consegue?

O contexto é o que faz o jornalismo, e é exatamente o que nós, jornalistas, estamos deixando de lado há anos.

À medida em que a tecnologia avança, as sugestões de pautas se transformam em “textos prontos para publicação”; as entrevistas, em conversas por telefone e, agora, em perguntas respondidas pelo WhatsApp.

Temos feito cada vez menos e, no lugar de informar, “empobrecemos” nossos leitores.

Vou dar um exemplo prático.

Era 2021. Um release chegou na redação em que eu trabalho mostrando dados sobre a abertura de novas empresas em Mato Grosso ao longo de 2020. À primeira vista, eram dados animadores. Só no segundo quadrimestre daquele ano, 22 mil novos negócios criados no Estado. Um crescimento de 10% na quantidade de empresas abertas.

Mas “algo de errado não estava certo”. O contexto era a pandemia e a crise econômica que veio junto com ela, causando desemprego e falências.

O mesmo release afirmava que, entre as atividades desses novos “empreendedores”, as que mais se destacavam eram vendas, seguida do ramo de estética. Ou seja, mais de 11 mil pessoas que “viraram empresárias” eram vendedores, cabelereiros, manicures, maquiadores.

De volta ao contexto, o setor de serviço — e os salões de beleza estão nesse nicho de mercado — estava na lista dos mais afetados pelas medidas de isolamento social, a ponto de virar polêmica se o ofício de cabelereiro poderia ou não ser considerado um serviço essencial.

Logo, não seria estranho supor que esses cabelereiros, manicures e maquiadores não eram realmente empresários. Estavam mais para pessoas desempregadas que se viram obrigadas a empreender para tentar manter alguma renda.

Até o mais acomodado dos jornalistas deveria perceber isso. Seria preciso ser um extraterrestre e ter caído na Terra há poucos dias para não estranhar os dados. Mas poucos não se limitaram a simplesmente reproduzir o release.

E nossa rotina nas redações está repleta de outros casos não tão óbvios assim.

Nós desistimos do jornalismo?

Uma pergunta que não me sai da cabeça é: por que paramos de questionar? Por que paramos de indagar se aquilo que está diante dos nossos olhos faz sentido, se aquilo que foi dito é mesmo a verdade? Por que continuamos nesse “piloto automático”, se está tão claro que estamos no caminho errado?

Quando iniciei a carreira, não tinha a experiência necessária para entender porque certas coisas pareciam não ter sentido. Além disso, precisava me enquadrar em um mercado de trabalho que, na minha avaliação, exigia aquele “padrão” de jornalismo. Hoje, tenho convicção de que aquilo que eu sempre achei errado, estava errado de fato. E, infelizmente, parece que só piora.

Uma mudança é mais necessária, mas sinto que, a cada dia que passa, fica mais difícil praticá-la. É um sentimento que me fez pensar em largar a redação e até o jornalismo. Mas, enquanto esse dia não chega, acredito que o mínimo que posso fazer é ser uma voz (hoje sei que não estou tão sozinha quanto eu imaginava) que clama por boas práticas na profissão.

O mercado, de fato, impõe um ritmo desumano e industrial. Mas nós PRECISAMOS fazer diferente. Estar inconformado é o começo.

Escrevo esta coluna no campus da Universidade de Navarra, Espanha. Estou participando do VII Encontro Internacional do Programa de Graduados Latino-Americanos (PGLA). Um evento formidável com muitos colegas de prestígio no mundo da comunicação.

O cenário do consumo de informação preocupa. E muito. Exige reflexão, autocrítica e coragem. Todos, sem exceção, percebem que chegou para o jornalismo a hora da reinvenção.

A sociedade está cansada do clima de militância que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo. Um denominador comum marca o achismo que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: radicalização e politização. Trata-se de um fenômeno generalizado.

O jornalismo reclama alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais do que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.

O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve precedentes que poderiam ter sido evitados, não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Pensemos, por exemplo, na ignominiosa situação da corrupção. É preciso reverter um quadro que agride a dignidade humana, envergonha o Brasil e torna inviável o futuro de gerações. Não seria uma bela bandeira, uma excelente causa a ser abraçada pela imprensa?

Com seriedade e profundidade, e não como consequência do jogo político. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blá-blá-blá inconsistente, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais do que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores. E, além disso, é uma resposta ética e editorial aos que pretendem tornar o jornalismo refém da fácil cultura do negativismo.

A imprensa de qualidade, séria e independente, é essencial para a democracia. E tudo isso, tudo mesmo, depende da nossa coragem e humildade para fazer a urgente e necessária autocrítica. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais ideológicos. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

Chegou a hora do jornalismo propositivo. Aquele que não se limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções.

Uma das teorias que explicam a crise que o jornalismo vive nos dias de hoje é a do jornalismo declaratório. A fuga de anunciantes causada pela transformação digital estaria empobrecendo os meios de comunicação e comprometendo, por consequência, as redações e a qualidade do conteúdo produzido pelos veículos.

Num ambiente onde os recursos humanos são escassos, também falta tempo para fazer o básico, ou seja,  checar as informações. Seguindo esta lógica, a escassez acaba preenchida com declarações que não são  confrontadas com dados, fatos ou até mesmo versões diferentes da mesma história, o que em tese deveria ser a essência do jornalismo.

Àqueles que acreditam nesta teoria, a cada dia faltam mais recursos e sobram mais declarações alimentando um círculo vicioso que deixa o conteúdo ainda mais pobre de informação, portanto, menos interessante para o público.

No entanto, uma outra versão é possível para explicar o surgimento do jornalismo declaratório. E parte do problema teria origem no processo de desintermediação da mídia. À medida que os meios de comunicação foram perdendo o monopólio da informação, muitas autoridades e personalidades – as fontes da notícia de uma forma geral – passaram a usar outras mídias para chegar ao público.

Num primeiro momento esta tendência parece inofensiva, algo que faz parte de um novo modelo de consumo da informação no qual todos são potenciais produtores de conteúdo. Mas a situação se agrava quando estas mesmas fontes passam a evitar os meios de comunicação, priorizando apenas outras mídias para garantir o direito de não serem confrontados por suas declarações e fazendo com que prevaleça uma narrativa que lhes é favorável.

Neste cenário, o prefeito já não precisa da imprensa para anunciar uma nova obra, mas também não será questionado se o dinheiro deveria ir para outra área. O jogador de futebol pode comentar a vitória do seu time em uma live do seu Instagram, mas se esquiva de dar declarações quando a equipe perde. A celebridade consegue dar spoilers do seu novo papel na novela com vídeos curtos no TikTok, mas evita que alguém aborde suas polêmicas pessoais.

Talvez por isso, surge um movimento quase espontâneo, nos meios de comunicação, de evitar o mal-estar natural que surge quando se é obrigado a  confrontar as fontes com fatos e dados. O jornalista, então, se limita a captar as declarações e, com isso, mantém uma relação amigável entre fonte e o veículo.

Nesta dinâmica, após colher a declaração com perguntas de conexão e não de questionamento, a análise do que foi dito acontece em um segundo momento, dentro do processo de construção da notícia. É neste contexto que ganha relevância o fact checking de entrevistas que confrontam as declarações aos fatos, comparando o que é verdade ou não. A mesma lógica se aplica aos comentaristas políticos que, distantes fisicamente das autoridades, conseguem analisar as declarações de forma mais crítica e contextualizada

O caminho mais óbvio para os críticos dos meios de comunicação é apontar que a crise do modelo de negócios estaria justamente na omissão do jornalismo em sua responsabilidade de questionar os entrevistados. Mas isso não leva em conta que o risco de perder o acesso à fonte da informação pode ser ainda mais prejudicial, favorecendo a prática do jornalismo declaratório. 

Uma vez que o veículo perde o acesso à fonte, ela certamente buscará outro canal – seja de notícia ou mídia social – para fazer tal declaração. Isso agrava o processo de desintermediação da imprensa e terceiriza a responsabilidade de trazer à público aquela versão ainda que, num primeiro momento, esteja descontextualizada de outros fatos ou versões.

Soma-se a isso o tom inquisitório com que muitas entrevistas e sabatinas assumiram, como se para confrontar declarações com fatos ou dados fosse obrigatório submeter a fonte a um constrangimento público para livrá-la moralmente da culpa de ter divulgado uma informação de forma imprecisa do ponto de vista jornalístico. O público manifesta aversão a este modelo de entrevistas e tem por instinto a tendência de ficar do lado que se mostra acuado, na posição de vítima (ainda que circunstancial). 

Por fim, vale lembrar que existe ainda um terceiro caminho possível para o excesso de declarações nos meios de comunicação. Justificados pela necessidade de trazer os muitos lados de uma história, no lugar de ampliar e contextualizar a informação, muitos meios acabam se limitando a expor versões declaradas deixando ao público o julgamento opinativo. 

A proposta deste artigo não é defender o jornalismo declaratório, mas entender os possíveis cenários que fazem deste modelo um fenômeno crescente. Está claro que, em todos estes cenários, a qualidade da informação é prejudicada, reduzindo a relevância do jornalismo em geral. Mas como reverter esta onda que parece a cada dia ganhar mais força?

Parte da resposta reside em voltar a fazer o básico e revisitar os bons e velhos pilares do jornalismo. Porém, ao mesmo tempo é necessário inovar e repensar a forma como abordamos estas fontes, extraindo delas informação que não seja meramente declaratória, mas que tampouco precise soar com uma acordo de delação premiada.

O fato é que mesmo que os veículos optem por não dar mais espaço ao jornalismo declaratório, este conteúdo terá cada vez mais lugar na sociedade através das redes sociais e, de uma forma ou de outra, acabará repercutindo na imprensa. São muitos os casos recentes de lives, podcasts ou vídeos amadores que pautam debates importantes.

Por que, então, estamos terceirizando esta responsabilidade, ainda que a origem seja uma declaração? Nossos colunistas não farão comentários acerca do tema de qualquer maneira num segundo momento? Não vamos suitar o assunto com enfoque em contexto de qualquer forma? Somos tão superiores ao ponto de que só vale ter acesso a uma fonte se pudermos extrair dela o que quisermos, no formato que melhor nos convém?

Precisamos ter a humildade de reconhecer que já não detemos o monopólio da informação e tampouco somos os únicos caminhos para se revelar a verdade. Talvez seja a hora de aposentar, de uma vez por todas, a capa de super-homem, assumindo que é o disfarce de Clark Kent o que mais condiz com a nossa realidade – e que nem por isso deixamos de ser bons jornalistas.

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade de uma apuração ética.

A sociedade está cansada do clima de radicalização que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo militante. Um denominador comum marca a superficialidade que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: a politização.

Em tempos de ansiedade digital, a reinvenção do jornalismo reclama revisitar alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

O jornalismo transformador é substantivo. Insisto. Sua força não está na militância, mas no vigor persuasivo da verdade factual e no equilíbrio de uma opinião fundamentada.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e independente. Comprometido com a verdade possível. O jornalismo de qualidade exige cobrir os fatos. Não as nossas percepções subjetivas. Analisar e explicar a realidade. Não as nossas preferências, as simpatias que absolvem ou as antipatias que condenam. Isso faz toda a diferença e é serviço à sociedade.

O grande equívoco da imprensa é deixar de lado a informação e assumir, mesmo com a melhor das intenções, certa politização das coberturas. Cair na síndrome das narrativas. Os desvios não se combatem com o enviesamento informativo, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.

Sem jornais a democracia não funciona. O jornalismo não é antinada. Mas também não é neutro. É um espaço de contraponto. Seu compromisso não está vinculado aos ventos passageiros da política e dos partidarismos. Sua agenda é por valores perenes: liberdade, dignidade humana, respeito às minorias, promoção da livre iniciativa, abertura ao contraditório. O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Em vez de ficarmos reféns do diz que diz, do blablablá inconsistente do teatro político, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Os desvios, reafirmo, não se combatem com o enviesamento informativo, mas com a força objetiva dos fatos e de uma apuração bem conduzida

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores.

Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.